Caracterização psicológica de uma amostra forense de abusadores sexuais
Pesquisas científicas indicam que cerca de uma em cada quatro mulheres e um em
cada oito homens foram sexualmente abusados na infância (e.g., Finkelhor et
al., 1990, cit. por Porter, Fairweather, Drugge, Hervé, Birt, & Boer,
2002). Os abusadores sexuais de crianças têm sido tradicionalmente retratados
perante o público em geral como indivíduos psicologicamente doentes (geralmente
psicóticos, psicopatas ou introvertidos) que actuam como predadores
desenfreados de crianças. Tal estereótipo é provavelmente originado pela
extensa cobertura mediática dos casos mais aberrantes e chocantes para a
opinião pública. Em parte devido a estes casos, têm sido efectuados uma
quantidade de estudos sobre o perfil psicopatológico dos abusadores sexuais de
crianças.
Mohr, Turner, e Jerry (1964, cit. por Quinsey & Lalumière, 2001) efectuaram
uma investigação paradigmática na década de 60 na qual avaliaram 55 abusadores
sexuais de crianças referenciados pelos tribunais. Estes autores evidenciaram
que os abusadores sexuais de crianças raramente sofriam de perturbação
psicótica e não eram nem menos inteligentes nem menos escolarizados que a
população geral. O seu estatuto profissional e trabalho também nada tinham de
invulgar. Verificou-se sim uma tendência ao isolamento do contacto social
adulto e à presença de perturbação de personalidade. Investigações recentes
baseadas no DSM-IV (American Psychiatric Association, 1996; e.g., Raymond,
Coleman, Ohlerking, Christenson, & Miner, 1999) confirmam que raramente é
encontrada perturbação psicótica nos abusadores de crianças, apesar de lhes
serem frequentemente diagnosticadas perturbações do humor, perturbações da
ansiedade e perturbações do abuso de substâncias (especialmente álcool).
À medida que a sofisticação da investigação em abusos sexuais de crianças foi
aumentando passou-se a recorrer cada vez mais à avaliação psicológica e
psicofisiológica (Seto, 2004). Segundo Chantry e Craig (1994) a avaliação
psicológica forense em abusadores sexuais de crianças pode ter vários
objectivos: (1) avaliar a competência do arguido em ser julgado ou como
auxiliar de uma defesa de alegação de insanidade; (2) definir as necessidades
específicas do arguido relativamente a serviços de saúde mental tanto dentro
como fora da instituição penal; (3) prever reincidência futura, especificamente
no que diz respeito a recomendações de liberdade condicional; e (4) investigar
diferenças básicas entre subgrupos de arguidos.
O Minnesota Multiphasic Personality Inventory(MMPI; Butcher, Dahlstrom, Graham,
Tellegen, & Kaemmer, 1999) tem sido o teste psicológico mais utilizado na
avaliação psicológica e investigação de abusadores sexuais de crianças. O MMPI
é melhor conceptualizado como uma medida geral de psicopatologia do que como
uma medida de personalidade. Em geral, os abusadores de crianças tendem a ter
uma pontuação mais alta na escala de desvio psicopático, e os indivíduos mais
violentos e os abusadores de crianças mais reincidentes tendem a pontuar
secundariamente na escala de esquizofrenia (Quinsey & Lalumière, 2001).
Todavia, este padrão de resposta não parece ser unicamente específico dos
abusadores de crianças, sendo comum entre outros tipos de agressores, e tende
efectivamente a desaparecer quando se utilizam os controlos adequados (Okami
& Goldberg, 1992; Quinsey & Lalumière, 2001).
Langevin et al.(1985, cit. por Okami & Goldberg, 1992) utilizaram o MMPI
para avaliar abusadores de crianças exclusivamente homossexuais e
heterossexuais. Os abusadores homossexuais de crianças, quando comparados com
não-abusadores, apresentavam um perfil emocionalmente perturbado, pontuando
mais alto nas escalas de depressão, esquizofrenia, desvio psicopático,
paranóia, e introversão social. Os abusadores heterossexuais de crianças
exibiram um perfil "tenso," pontuando alto na escala de hipocondria
e nas escalas que mediam timidez e reserva, mas diferiram dos abusadores
homossexuais de crianças apenas no serem menos conservadores. Também
apresentavam evidências de perturbação emocional. Os casos de incesto, em
contraste, pareciam emocionalmente mais estáveis que os outros grupos, mas eram
menos assertivos. Nenhum dos grupos de abusadores de crianças obteve pontuações
altas em feminilidade, o que confirma que os abusadores de crianças e os não-
abusadores não diferem quanto à identidade de género feminina.
A validade do MMPI relativamente ao planeamento de tratamento e predição de
reincidência não é encorajante (Hanson & Bussière, 1998). Hall (1989), por
exemplo, não encontrou qualquer diferença nos perfis do MMPI entre os vários
subgrupos de abusadores de crianças (incestuosos vs.extra-familiares,
agressivos vs.não-agressivos, homossexuais vs.heterossexuais, preferência por
vítima pré-pubere vs.preferência por vítima púbere). Todavia, devido a que uma
certa proporção de abusadores de crianças demonstram ter perturbações
psicológicas, o MMPI pode ser útil em certos casos para avaliar como certos
aspectos da psicopatologia podem estar relacionados com as características de
abuso de certos indivíduos.
A Psychopathy Checklist-Revised(PCL-R; Hare, 2004) é um instrumento
psicométrico promissor no campo da avaliação de abusadores sexuais. Porter,
Fairweather, Drugge, Hervé, Birt, e Boer (2002) utilizaram o PCL-R com uma
amostra de 329 reclusos canadianos, dos quais 228 a cumprir pena por pelo menos
um crime sexual. A amostra foi dividida em sub-grupos: abusador extra-familiar,
abusador intra-familiar, abusador intra- e extra-familiar, violador, abusador-
violador, e criminoso não sexual. Os resultados demonstraram que os grupos de
abusadores de crianças tinham as taxas de psicopatia mais baixas, os violadores
e os criminosos não sexuais tinham taxas moderadamente altas, enquanto que a
taxa mais alta de psicopatia foi encontrada no grupo abusador-violador. Este
estudo corroborou o que já outros (e.g., Forth & Kroner, 1995, cit. Porter
et al., 2002; Serin et al., 1994, cit. Porter et al., 2002) haviam demonstrado,
nomeadamente a presença de baixas taxas de psicopatia em abusadores exclusivos
de crianças quando comparados com violadores e com a população prisional em
geral.
Um outro instrumento psicométrico promissor na avaliação de abusadores sexuais
de crianças é o Millon Clinical Multiaxial Inventory(MCMI; Choca & Van
Denburg, 1997; Groth-Marnat, 2003; Millon, 1987). O MCMI é um questionário de
auto-resposta estandardizado que avalia um largo espectro de informação
relacionado com a personalidade do indivíduo e o seu ajustamento emocional. Tem
a vantagem de ser um dos raros testes que se foca simultaneamente em
perturbações da personalidade e em síndromas clínicos, tendo sido demonstrado
que a sua validade factorial se mantém em amostras forenses (e.g., Ownby et
al., 1990, 1991, cit. Chantry & Craig, 1994).
Bard e Knight (1987, cit. por Millon, 1987) utilizaram o MCMI para avaliar 101
sujeitos condenados por ofensas sexuais repetitivas, violentas e/ou
compulsivas. Focando-se apenas nas escalas de personalidade básicas (1-8), o
perfil geral para a amostra foi Antisocial-Narcissico-Histriónico (654).
Todavia, recorrendo-se a uma análise de clusterssurgiram quatro subgrupos
distintos. O primeiro subgrupo, em que se distinguiu o perfil Evitante-
Esquizóide-Dependente (213), era constituído por indivíduos de QI
tendencialmente baixo condenados por violação de mulheres e por abuso de
crianças. O segundo subgrupo, caracterizado pelo perfil Narcissico-Antisocial-
Histriónico (564), era principalmente constituído por violadores de mulheres. O
terceiro subgrupo obteve pontuações elevadas nas escalas Antisocial e Passivo-
agressivo e era caracterizado pelos actos agressivos e pelo abuso de álcool e
drogas. O quarto subgrupo era caracterizado pela ausência de elevações no MCMI,
sendo constituído por indivíduos com uma história familiar menos problemática,
que aparentavam estar a compensar sentimentos de inadequação quanto à sua
masculinidade, e que agiam de forma premeditada (não-impulsiva).
Chantry e Craig (1994) utilizaram o MCMI num grupo de 603 reclusos subdivididos
em abusadores sexuais de crianças (n=201), violadores de mulheres (n=195) e
criminalidade não-sexual (n=205). O objectivo do estudo consistiu em determinar
se o MCMI seria capaz de distinguir diferenças de personalidade entre os três
grupos. Os resultados demonstraram que o estilo de personalidade dos abusadores
de crianças era mais dependente e emocionalmente desligado, mas também era
emocionalmente mais lábil com ansiedade e depressão, que o estilo de
personalidade dos violadores e os criminosos não-sexuais. Estes dois últimos
grupos eram mais narcísicos e tinham menos perturbação psicológica que os
abusadores de crianças. Todavia, tanto os abusadores de crianças como os
violadores de mulheres eram mais passivo-agressivos. Estes autores concluíram,
em consonância com numerosos estudos anteriores (e.g., Kalichman, 1990, cit.
por Chantry & Craig, 1994), que os violadores de mulheres eram mais
semelhantes em termos de estrutura de personalidade aos criminosos não-sexuais
que aos abusadores sexuais de crianças.
Pode-se concluir que os abusadores sexuais de crianças presos demonstram ter
níveis relativamente altos de psicopatologia, nomeadamente uma maior
perturbação emocional, dependência, timidez, introversão e tendem a responder
de uma forma mais reservada que os homens da população normal. A psicopatia, se
presente, é um forte preditor de elevada perigosidade do indivíduo, embora não
seja consensual que seja preditor forte da reincidência relativamente a crimes
sexuais (e.g., Porter et al., 2002; Quinsey & Lalumière, 2001) dada a
relação complexa existente entre psicopatia e crimes sexuais. Não é actualmente
claro se estas características psicológicas são atribuíveis, pelo menos em
parte, às vicissitudes da reclusão dos arguidos dado q ue raramente os
abusadores sexuais de crianças foram comparados com grupos controlo adequados,
nomeadamente criminosos não-sexuais da mesma instituição (Okami & Goldberg,
1992; Quinsey & Lalumière, 2001; Seto, 2004).
O objectivo da presente investigação é identificar diferenças no estilo de
personalidade de abusadores sexuais de crianças portugueses e verificar a sua
consistência com as características psicológicas demonstradas nos estudos
internacionais, recolhendo também informação sobre as características do tipo
de abuso que cometeram.
MÉTODO
Participantes
A amostra foi obtida em meio prisional (amostra forense), intencionalmente de
conveniência, e ficou constituída por 41 homens (N=41) com uma idade média de
43 anos (leque etário=17-73 anos; M=42.78; DP=14.12). O estado civil dos
reclusos obtido foi 39% solteiros, 7.3% união-de-facto, 31.7% casados, 19.5%
separados/divorciados, e 2.4% viúvos. A raça dos reclusos obtida foi de 92.7%
brancos e 7.3% negros. A escolaridade dos reclusos obtida foi de 29.3% com o
primeiro ciclo do ensino básico, 31.7% com o segundo ciclo do ensino básico,
19.5% com o terceiro ciclo do ensino básico, 9.8% com o ensino secundário, e
9.7% com bacharelato ou licenciatura. A escolaridade média foi de 8 anos
(M=7.61; DP=3.88).
Instrumentos
O questionário iniciou-se com um termo de consentimento informado que explica o
propósito geral da investigação.
Seguidamente surgia um questionário demográfico com as seguintes questões:
Idade, Estado civil actual, Raça ou grupo étnico, Grau de escolaridade, e
Profissão.
Finalmente surgia o instrumento de avaliação da personalidade escolhido para
esta investigação, nomeadamente o Millon Clinical Multiaxial Inventory-II
(MCMI-II; Choca & Van Denburg, 1997; Groth-Marnat, 2003; Millon, 1987),
que, como já foi referido, é um questionário de auto-resposta estandardizado
que avalia um largo espectro de informação relacionado com a personalidade do
indivíduo e o seu ajustamento emocional. Na presente investigação foi utilizada
uma tradução elaborada pela equipa do Prof. Dr. Branco Vasco da Faculdade de
Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
O MCMI-II é composto por 175 itens que constituem 26 escalas divididas nas
seguintes categorias: Índices Modificadores (Validity Index, Disclosure Index,
Desirability Index, Debasement Index), Padrões de Personalidade Clínicos
(Schizoid, Avoidant, Dependent, Histrionic, Narcissistic, Antisocial,
Aggressive-Sadistic, Compulsive, Passive-Aggressive, Self-Defeating), Patologia
de Personalidade Grave (Schizotypal, Borderline, Paranoid), Síndromas Clínicas
(Anxiety Disorder, Somatoform Disorder, Bipolar-Manic Disorder, Dysthymic
Disorder, Alcohol Disorder, Drug Dependence), e Síndromas Graves (Thought
Disorder, Major Depression, Delusional Disorder).
O MCMI-II tem a vantagem de ser um dos raros testes que se foca simultaneamente
em perturbações da personalidade e em síndromas clínicos, tendo sido
demonstrado que a sua validade factorial se mantém em amostras forenses (e.g.,
Ownby et al., 1990, 1991, cit. Chantry & Craig, 1994). As normas utilizadas
são as da aferição norte-americana, dado que, tal como para a grande maioria
dos questionários de personalidade, não existe aferição portuguesa. Foi
utilizado o respectivo programa informático para cotação dos protocolos também
elaborado pela equipa do Prof. Dr. Branco Vasco da Faculdade de Psicologia e
Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
Adicionalmente, foi elaborada uma ficha de recolha de dados que procurou
explorar uma série de variáveis pertinentes para a classificação dos abusadores
e para a caracterização do tipo de abuso. A ficha começa com um item referente
ao número conhecido de vítimas. Seguidamente operacionalizam-se os
comportamentos sexuais efectuados com a(s) vítima(s), tendo estes sido
divididos em: Carícias, Frottage(roçar os genitais na vítima), Sexo oral, Sexo
vaginal, e Sexo anal.
Na operacionalização da variável "Maturidade da(s) vítima(s) (pré-púbere
vs.púbere)" foram consideradas pré-púberes vítimas menores de 14 anos,
conforme o Art. 172.º do Código Penal, e vítimas púberes menores entre 14 anos
e 16 anos, conforme o Art. 174.º do Código Penal (Albuquerque, 2006).
Na operacionalização da variável "Sexo da(s) vítima(s) (orientação
heterossexual vs.homos-sexual do abusador)" considerou-se a existência de
abusadores heterossexuais exclusivos, homossexuais exclusivos, e bissexuais
(vítimas de ambos os sexos).
Na operacionalização da variável "Parentesco biológico com a(s) vítima(s)
(incestuoso vs.extra-familiar)" considerou-se incestuoso quando existia
parentesco biológico com a vítima, extra-familiar quando não existia (e.g.,
padrasto que abusa filha da esposa é considerado extra-familiar).
Na operacionalização da variável "Utilização de agressão física
(agressivo vs.não-agressivo)" considerou-se o a busador agressivo quando
este utilizou violência física para concretizar o abuso.
Procedimentos
Foi obtida junto da Direcção Geral dos Serviços Prisionais a necessária
autorização para efectuar a presente investigação em vários estabelecimentos
prisionais da zona da grande Lisboa. Recolheram-se questionários no
Estabelecimento Prisional de Lisboa, Estabelecimento Prisional junto à Polícia
Judiciária de Lisboa e Estabelecimento Prisional da Carregueira. Na Tabela_1
temos dados sobre a participação dos reclusos por Estabelecimento Prisional
(EP):
TABELA_1
Aplicação de questionários
___________________________________________________________________________
|Local|Não participaram| Participaram | Questionários | Questionários|
|_____|_________________|_________________|____inválidos___|__utilizáveis_|
|EPL__|________0________|________3________|________0________|_______3_______|
|EPLJL|________1________|________7________|________1________|_______6_______|
|EPC__|_______14________|_______33________|________1________|______32_______|
|Total|_______15________|_______43________|________2________|______41_______|
Legenda: EPL=Estabelecimento Prisional de Lisboa; EPPJL= Estabelecimento
Prisional Instalado Junto à Polícia Judiciária de Lisboa; EPC=Estabelecimento
Prisional da Carregueira.
O questionário foi aplicado individualmente a cada recluso, estando o
investigador sempre presente para esclarecer qualquer dúvida que pudesse
surgir. A taxa total de participação foi de 74.14%. Os dois motivos alegados
pelos reclusos para a não participação foram o desinteresse (10 reclusos) e o
analfabetismo (5 reclusos). Os dois questionários excluídos foram considerados
inválidos devido aos valores obtidos nos respectivos índices modificadores.
Da amostra final cerca de 75% dos reclusos já haviam sido condenados, e cerca
de 25% aguardavam julgamento em prisão preventiva. Devido à existência de
presos preventivos nem sempre foi possível recolher informação precisa sobre os
factos dos quais os detidos estavam acusados.
Recorrendo ao programa informático SPSS for Windows V. 14foram efectuadas as e
statísticas descritivas para as variáveis demográficas, para as escalas do
MCMI-II obtidas após cotação informática, e para as variáveis de classificação
de abusadores sexuais e comportamentos sexuais.
RESULTADOS
Na Tabela_2 temos a pontuação média e o desvio-padrão para cada das escalas
clínicas do MCMI-II.
TABELA_2
Pontuação média e desvio-padrão por escala
________________________________________________________________________
|Escalas| _____________________|________Média_______|__Desvio-padrão__|
|1______|Schizoid_______________|________70.78________|______19.14_______|
|2______|Avoidant_______________|________73.20________|______26.18_______|
|3______|Dependent______________|________75.10________|______25.39_______|
|4______|Histrionic_____________|________61.49________|______13.33_______|
|5______|Narcissistic___________|________69.22________|______17.15_______|
|6A_____|Antisocial_____________|________63.02________|______23.71_______|
|6B_____|Aggressive-Sadistic____|________59.32________|______19.23_______|
|7______|Compulsive_____________|________74.73________|______16.56_______|
|8A_____|Passive-Aggressive_____|________55.34________|______27.76_______|
|8B_____|Self-Defeating_________|________69.51________|______24.41_______|
|S______|Schizotypal____________|________69.27________|______20.52_______|
|C______|Borderline_____________|________63.46________|______20.92_______|
|P______|Paranoid_______________|________68.20________|______10.75_______|
|A______|Anxiety_Disorder_______|________69.85________|______25.14_______|
|H______|Somatoform_Disorder____|________57.85________|______17.45_______|
|N______|Bipolar;_Manic_Disorder|________56.56________|______10.61_______|
|D______|Dysthymic_Disorder_____|________64.98________|______28.80_______|
|B______|Alcohol_Disorder_______|________61.51________|______23.77_______|
|T______|Drug_Dependence________|________59.90________|______17.93_______|
|SS_____|Thought_Disorder_______|________61.88________|______13.31_______|
|CC_____|Major_Depression_______|________60.63________|______13.31_______|
|PP_____|Delusional_Disorder____|________63.51________|______13.35_______|
Como se pode verificar, as quatro escalas mais elevadas são, respectivamente, a
3 Dependent(Dependente), 7 Compulsive(Compulsivo), 2 Avoidant(Evitante), e 1
Schizoid(Esquizóide), todas elas pertencentes à categoria Padrões de
Personalidade Clínicos. Dentro da categoria Patologia da Personalidade Grave
salienta-se a elevação relativa da escala S Schizotypal(Esquizótipico). Dentro
da categoria Síndromas Clínicas salienta-se a elevação relativa da escala A
Anxiety Disorder(Perturbação da Ansiedade). Dentro da categoria Síndromas
Graves salienta-se a elevação relativa da escala PP Delusional Disorder
(Perturbação Delirante). De notar que apenas a escala 3 Dependente, pertencente
à categoria Padrões de Personalidade Clínicos, atingiu o ponto de corte
definido para a validação norte-americana (BR≥75).
Na Figura_1 temos a representação gráfica da Como se pode verificar, a
frequência máxima pontuação média por escala.
FIGURA_1
Pontuação média por escala
Na Tabela_3 temos a frequência com que, para toda a amostra, cada escala
ultrapassou o ponto de corte definido para a validação norte-americana BR≥75).
TABELA_3
Frequência por escala de ultrapassagem do ponto de corte BR≥75
__________________________________________________________________
|Escalas | BR |
|__________________________|≥75__________________________________|
|1_|Schizoid_______________|__________________18___________________|
|2_|Avoidant_______________|__________________20___________________|
|3_|Dependent______________|__________________26___________________|
|4_|Histrionic_____________|___________________6___________________|
|5_|Narcissistic___________|__________________16___________________|
|6A|Antisocial_____________|___________________8___________________|
|6B|Aggressive-Sadistic____|___________________9___________________|
|7_|Compulsive_____________|__________________23___________________|
|8A|Passive-Aggressive_____|__________________10___________________|
|8B|Self-Defeating_________|__________________15___________________|
|S_|Schizotypal____________|__________________10___________________|
|C_|Borderline_____________|___________________7___________________|
|P_|Paranoid_______________|___________________5___________________|
|A_|Anxiety_Disorder_______|__________________22___________________|
|H_|Somatoform_Disorder____|___________________1___________________|
|N_|Bipolar;_Manic_Disorder|___________________1___________________|
|D_|Dysthymic_Disorder_____|__________________20___________________|
|B_|Alcohol_Disorder_______|__________________11___________________|
|T_|Drug_Dependence________|___________________4___________________|
|SS|Thought_Disorder_______|___________________2___________________|
|CC|Major_Depression_______|___________________2___________________|
|PP|Delusional_Disorder____|___________________5___________________|
Como se pode verificar, a frequencia maxima encontra-se na escala 3 (Dependent)
(26 sujeitos ultrapassam BR≥75), e a frequencia minima encontra-se nas escalas
H Somatoform Disorder (Perturbacao Somatoforme) e N Bipolar: Manic Disorder
(Perturbacao Bipolar: Mania) (1 sujeito ultrapassa BR≥.75). Todas as escalas e
todos os sujeitos obtiveram pelo menos uma elevacao BR.75.
Relativamente as variaveis de classificacao de abusadores sexuais, os dados
obtidos quanto ao numero conhecido de vitimas de cada abusador variaram entre
um minimo de 1 vitima e um maximo de 8 vitimas (M=2.05; DP=1.80).
Em termos da variavel "Maturidade da(s) vitima(s) (pre-pubere vs. pubere)",
verifica-se que a grande maioria dos abusadores dos abusadores molestaram
exclusivamente vitimas prépúberes (vd. Tabela_4).
TABELA_4
Maturidade da(s) vítima(s) (pré-púbere vs. púbere
___________________________________________________________________________
| ________|Vítimas_pré-púbe|_Vítimas_púbere|___Ambas____|___Omisso____|
|Maturidade|_______71.4%_______|______16.7%______|____9.5%____|____2.4%_____|
Relativamente à variável "Sexo da(s) vítima(s) (orientação sexual do
abusador)", verifica-se que a maioria dos abusadores molestaram exclusivamente
vítimas do sexo feminino (vd. Tabela_5).
TABELA_5
Sexo da(s) vítima(s) (orientação sexual do abusador)
_____________________________________________________________________________
| ____________|___Feminino____|___Masculino___|_Ambos_os_sexos_|___Omisso____|
|Sexo_da_vítim|_____54.8%_____|_____26.2%_____|_____14.3%______|____4.8%_____|
No que diz respeito à variável "Parentesco biológico com a(s) vítima(s)
(incestuoso vs.extra-familiar)", verifica-se que os abusadores que
molestaram exclusivamente vítimas de tipo extra-familiar foram um pouco mais
numerosos do que os que molestaram exclusivamente vítimas de tipo incestuoso
(vd. Tabela_6). No que concerne às relações de parentesco biológico
encontraram-se relações diversas em que o abusador tinha o papel de pai, avô,
tio, primo ou irmão.
TABELA_6
Parentesco biológico com a(s) vítima(s) (incestuoso vs. extra-familiar)
__________________________________________________________________________
| ________|___Incestuoso___|__Extra-familiar___|___Ambas____|___Omisso____|
|Parentesco|_____40.5%______|_______47.6%_______|____2.4%____|____9.5%_____|
Quanto à variável "Utilização de agressão física (agressivo vs.não-
agressivo)", verifica-se que a maioria foram considerados abusadores não-
violentos (vd. Tabela_7).
TABELA_7
Utilização de agressão física (agressivo vs. não-agressivo)
_________________________________________________________________________
| _____________|___Agressivo___|__Não-agressivo__|________Omisso________|
|Agressão_físi|_____23.8%_____|______61.9%_______|________14.3%_________|
Relativamente aos comportamentos sexuais efectuados pelos abusadores com as
vítimas raparigas verifica-se que o mais praticado foi as Carícias, seguidas
pela Frottagee pelo Sexo vaginal (vd. Tabela_8).
TABELA_8
Comportamentos sexuais com vítimas raparigas
__________________________________________________________________________
|Comportamentos|___Efectuaram___|__Não_efectuaram__|________Omisso________|
|Carícias_____|_____56.5%______|_______34.8%_______|_________8.7%_________|
|Frottage______|_____47.8%______|_______43.5%_______|_________8.7%_________|
|Sexo_oral_____|_____26.1%______|_______65.2%_______|_________8.7%_________|
|Sexo_vaginal__|_____47.8%______|_______43.5%_______|_________8.7%_________|
|Sexo_anal_____|______4.3%______|________87%________|_________8.7%_________|
Relativamente aos comportamentos sexuais efectuados pelos abusadores com as
vítimas rapazes verifica-se que o mais praticado foi o Sexo anal, seguido pelas
Carícias (vd. Tabela_9).
TABELA_9
Comportamentos sexuais com vítimas rapazes
_________________________________________________________________________
|Comportamentos|___Efectuaram___|__Não_efectuaram__|_______Omisso________|
|Carícias_____|_____45.5%______|_______36.4%_______|________18.2%________|
|Frottage______|_____27.3%______|_______54.5%_______|________18.2%________|
|Sexo_oral_____|_____27.3%______|_______54.5%_______|________18.2%________|
|Sexo_vaginal__|_______-________|_________-_________|__________-__________|
|Sexo_anal_____|_____72.7%______|_______9.1%________|________18.2%________|
Utilizou-se o teste exacto de Fisher para verificar a existência de diferenças
quanto aos comportamentos sexuais efectuados pelos abusadores nas vítimas
raparigas e rapazes. Nos comportamentos Carícias, Frottage, e Sexo oral não
foram encontrados efeitos estatisticamente significativos. Para o comportamento
Sexo vaginal foram encontrados os óbvios e esperados efeitos estatisticamente
significativos [Fisher (2-sided), p≤.05] favoráveis ao grupo das vítimas
raparigas. Para o comportamento Sexo anal foram encontrados efeitos
estatisticamente significativos [Fisher (2-sided), p<.001] favoráveis ao grupo
das vítimas rapazes.
DISCUSSÃO
No MCMI-II pudemos verificar que as escalas mais elevadas se encontravam na
categoria Padrões de Personalidade Clínicos. As escalas das restantes
categorias - Patologia da Personalidade Grave, Síndromas Clínicas e
Síndromas Graves - encontraram-se consideravelmente menos elevadas
(BR≥70). Estes dados são compatíveis com os estudos que revelam a predominância
de perturbações da personalidade sobre as perturbações de síndromas clínicas
(e.g., perturbação psicótica) nas amostras de abusadores sexuais de crianças.
Dentro da categoria Padrões de Personalidade Clínicos verificámos que as
escalas mais elevadas foram respectivamente: 3 Dependente, 7 Compulsivo, 2
Evitante, e 1 Esquizóide. Tal é consistente com os estudos que demonstraram a
presença de alguns desses estilos de personalidade (e.g., Bard & Knight,
1987, cit. Millon, 1987; Chantry & Craig, 1994). A excepção foi para a
escala 7 Compulsivo. De salientar que na generalidade não se encontraram
elevações proeminentes das escalas relativas aos construtos 6A Antisocial(Anti-
social), D Dysthymic Disorder(Perturbação Distimica), A Anxiety Disorder
(Perturbação da Ansiedade), e B Alcohol Disorder (Perturbação Alcoólica)
relatadas por alguns estudos.
É de salientar a grande diversidade de perfis obtidos dado que todos os
sujeitos obtiveram pelo menos uma elevação (BR≥75) numa das escalas. Os
resultados permitem-nos concluir que, apesar de certos perfis serem mais
frequentes, não é possível excluir a priorium dado perfil de personalidade como
não pertencendo ao grupo dos abusadores sexuais. Tal coloca seriamente em causa
o valor da avaliação psicológica enquanto prova jurídica nos casos de abuso
sexual de crianças. Okami e Goldberg (1992), na sua revisão de literatura, já
haviam aliás alertado contra a ideia de existência dum perfil de personalidade
"típico" relativamente a abusadores sexuais.
Relativamente às variáveis de classificação dos abusadores sexuais e do tipo de
abuso sexual verificámos que cada abusador da nossa amostra molestou em média
duas crianças. Na questão do sexo e da maturidade das vítimas comprovámos a
tendência descrita por Gomes e Coelho (2003) de a maioria das vítimas serem
meninas e de serem pré-púberes. Na questão da utilização de agressão física
comprovámos (indirectamente) a tendência descrita por Gomes e Coelho (2003) de
haver um menor nível de agressão às crianças mais novas (a maioria da nossa
amostra foi constituída por crianças pré-púberes e apenas uma minoria de
abusadores utilizou agressão física).
Na questão da tendência a que o abuso fosse maioritariamente intra-familiar não
se verificou a tendência descrita por Gomes e Coelho (2003), o que pode
eventualmente ser explicado por questões metodológicas (e.g., operacionalizámos
a variável intra-familiar restringindo-a exclusivamente a parentesco
biológico).
Relativamente à questão dos comportamentos sexuais praticados pelos abusadores
também se comprovou a tendência descrita por Gomes e Coelho (2003) de não haver
diferenças, tendo em consideração o sexo da vítima, quanto a certos
comportamentos (e.g., carícias), mas havê-las quanto a outros comportamentos
(e.g., sexo anal). Efectivamente não encontrámos diferenças estatisticamente
significativas quanto aos comportamentos sexuais Carícias, Frottage, e Sexo
oral, mas encontrámo-las quanto ao sexo anal (e obviamente ao sexo vaginal).
Devemos salientar algumas limitações desta investigação. A nossa amostra
forense não é homogénea dado que 25% dos detidos são preventivos que aguardam
julgamento, não tendo ainda sido juridicamente estabelecida a sua culpa. Devido
à nossa amostra ser exclusiva-mente forense se deve ter cautela em generalizar
os resultados aos abusadores sexuais existentes na população geral.