Censura no teatro brasileiro e o arquivo - perdoa-me por me traíres de Nelson
Rodrigues: uma análise a partir de jacques derrida
O trajeto histórico da censura no Brasil é extenso, pois percorre desde o
período colonial chegando até os nossos dias, com intensidades de atuação
diferentes. Os fatos históricos que serão reconstituídos adiante guiarão a
reflexão acerca do objeto desta pesquisa, o arquivo. Portanto, o caminho
revisitado vai do período colonial até a ditadura militar, problematizando o
lugar da censura no teatro brasileiro e de que maneiras se constitui o arquivo.
Em seguida problematizaremos a trajetória de formação do arquivo de censura da
peça teatral Perdoa-me por me traíresdo dramaturgo brasileiro Nelson Falcão
Rodrigues (1912-1980), tendo como base as ideias de Jacques Derrida sobre o
tema.
O conceito de arquivo proposto por Derrida (2001) é relacionado nesta
discussão: por um lado, a censura que põe em reserva os originais das obras
teatrais e mostra ao público somente o que lhe convém; por outro, aquilo que o
artista reúne de suas criações, o que pode estar contido na obra ou fora dela –
a autocensura, por exemplo. Derrida explica que o mal de arquivo é “um sintoma,
um sofrimento, uma paixão: o arquivo do mal; mas também aquilo que arruína,
desvia ou destrói o próprio princípio do arquivo” (2001, p. 9). Seria a censura
um mal de arquivo? Assim,
empreender a leitura crítica do arquivo e propor a sua desconstrução,
que já se realiza efetivamente no campo da história contemporânea
pela abertura dos múltiplos arquivos sobre o mal, implica não apenas
uma interpretação do passado da tradição ocidental, mas
principalmente a sua possível abertura para o futuro. (Birman, 2008,
p. 109)
É nesta condição que se desenlaçam as tramas históricas e suas implicações
sociais, no caso, ao trazer a discussão um processo censório: temos em mãos uma
prova das ações que acometeram o artista investigado, podendo então, a partir
da materialidade do passado problematizar o lugar que a arte ocupava numa
respectiva época. Acerca do arquivo em Derrida completa Naira Ciotti (2005,
p.105):
As fronteiras entre o que é digno do nome arquivo e o que não é,
parecem seriamente abaladas, para o filósofo [Derrida]. Trata-se da
assinatura que os sujeitos em questão deixam sobre os próprios
arquivos. A democratização efetiva se mede pela participação e acesso
aos arquivos e, o contrário também acontece, o antidemocrático se
mede por aquilo que se chama de interdição ao arquivo, o recalque do
arquivo. (Grifo nosso)
A censura tem início, segundo Maria Castilho Costa (2008), a partir do momento
que os colonizadores têm contato com as manifestações dos nativos; ao mesmo
tempo, instituem-se parâmetros para conversão desses povos através de um modelo
de teatro predominantemente religioso e inicia-se um tipo de repressão que
tenta impor modelos e práticas consideradas aceitáveis. Nas palavras de Laura
Souza (1986, p.279) a vontade dos europeus recém-chegados ao solo brasileiro
era “a que se mantivesse coeso capaz de perpetuar uma determinada forma de
pensamento – o racional, de raízes greco-romanas – em detrimento de outro,
muito mais ambíguo e equívoco – o sistema folclórico”.
Mais tarde, com a independência do Brasil, a censura sai do poderio da Igreja,
chegando às mãos da Intendência Geral de Polícia por decisão de D. Pedro I.
Assim, a censura era orientada a agir de imediato interrompendo o fluxo do
espetáculo caso fosse necessário, pois “com o camarote reservado nos
espetáculos teatrais, os censores da polícia tinham poderes para prender em
meio à encenação qualquer ator que abusasse de gestos e palavras” (Costa, 2008,
p.16). Neste momento, além de continuar com os princípios morais que regiam a
censura até então, agrega-se a esse controle mais nitidamente os interesses de
ordem política – buscando defender “o respeito aos poderes políticos da nação e
às autoridades constituídas e, também, a castidade da língua” (Souza, 1986,
p.19).
Esses dois momentos iniciais retratam uma censura ‘desabrigada' que para seu
exercício impõe-se parasitariamente sob a autoridade de outro – no caso, a
igreja e, posteriormente, a polícia. Podemos refletir sobre isso a partir de
Jacques Derrida (2001) que vai trazer à luz o termo Arkhé (arquivo) que
designa, ao mesmo tempo, começo e comando, ou seja:
Este nome coordena aparentemente dois princípios em um: o princípio
da natureza ou da história, ali ondeas coisas começam – princípio
físico, histórico ou ontológico -, mas também o princípio da lei ali
ondeos homens e os deuses comandam, ali ondese exerce a autoridade, a
ordem social, nesse lugar a partir do qual a ordemé dada – princípio
nomológico. (Derrida, 2001, p.11 – grifo do autor).
A forma como esse poder de controle se estabelece (quem o comanda), com seus
interesses e variâncias, define (ali)ondea ordem está sendo dada. No caso,
transpondo esse pensamento à prática da censura, a igreja impõe um teatro com
fins religiosos moldando o diferente e intencionando torná-lo comum à sua
cultura, e do outro lado, a polícia retira o gesto não aceito e deixa o vazio
em cena num ato de completa violência. É aqui onde as coisas começam: os
princípios morais e políticos que serão a base do exercício da censura, mas
obviamente além destes, outros princípios se agregariam ao seu regimento.
Então, Derrida nos esclarece que a concepção de arquivo está associada ao
poder, é preciso que alguém tenha a ação de comando através de um exercício da
lei para iniciar a constituição de um arquivo em sua dimensão monológica.
As duas áreas institucionais, igreja e polícia, desempenhariam a função de quem
Derrida chama de arcontes, responsáveis por exercer a lei e a quem “cabiam-lhes
também o direito e a competência hermenêuticos. Tinham o poder de interpretar
os arquivos” (Derrida, 2001, p.13). Nesse sentido, ao pensar nas épocas em
questão, não seriam as obras teatrais dispostas a um julgamento, uma espécie de
arquivo a ser interpretado por eles?
Mesmo nas ações censórias dessa época se ausentarem de documentos (pareceres,
assinaturas, etc.) que justificassem a prática deliberada, não se exime a
possibilidade da existência de um arquivo. Pois, “os documentos, que não são
sempre escritos discursivos, não são guardados e classificados no arquivo senão
em virtude de uma topologia privilegiada” (Derrida, 2001, p. 13; grifo nosso),
podemos compreender a topologia como os espaços dedicados a representação
teatral, o lugar onde eram ‘guardadas' as montagens cênicas – a presença. Esse
fator abre margem para se pensar nas produções teatrais enquanto arquivo vivo
ou arquivo presente no corpo dos atores, já que os censores eram responsáveis
por comandar e interpretaras obras cênicas, e assim fazer com que sua ação
repressora se cumprisse em meio a cena. Mesmo que utilizasse a própria arte
para isso:
Esse projeto, cuja missão era organizar a administração do Estado em
trânsito, tem no campo da produção cultural, uma importância singular
na condução do projeto de civilização, em função do seu poder
simbólico que atua como um poder subordinado, isto é, como uma forma
transformada, quase (...) irreconhecível, transfigurada e legitimada,
das outras formas de poder (...). (Medeiros, 2010, p. 41)
Esse excerto demonstra que a obra de arte, enquanto arquivo, não pertencia
somente ao artista que a tinha como parte de sua formação – seu repertório
artístico – no entanto, por obrigatoriedade ‘dividia' autoria com a censura,
que tinha quase a mesma autonomia do artista para alterá-la. É possível agora
entendermos como se manifesta a ideia da dupla autoria do arquivo censório, que
mais tarde terá sua materialidade definida sobre os manuscritos originais das
obras teatrais, ou seja, da dramaturgia. A censura não somente agia sobre as
peças teatrais, como também, induzia o fazer artístico de outros artistas que
chegava a moldar previamente suas obras a partir de determinados critérios,
ocorrendo uma repressão ‘epidêmica'.
Isso encaminha a outra ideia que Derrida chama de poder de consignação, que
seria o ato de reunir os signos, ou mais precisamente, “a consignação tende a
coordenar um único corpus em um sistema ou uma sincronia na qual todos os
elementos articulam a unidade de uma configuração ideal” (Derrida, 2001, p.
14). O que a censura intencionou em sua existência era, dentre outras coisas,
enquadrar as produções teatrais a um modelo preexistente ao retirar a liberdade
do artista de exprimir em suas obras a sua visão sobre o mundo e sobre a vida,
um tipo de consignação que se concretizava para promoção dos ideais da política
vigente.
Em 1843, no Rio de Janeiro surge o primeiro órgão oficial de censura teatral
pertencente ao Conservatório Dramático Brasileiro. Eis então, o abrigo próprio
da censura que passa a ter maior domínio para analisar as produções teatrais
com certa antecedência, focando no texto dramático e fiscalizando a cena. As
ações eram guiadas exclusivamente por intelectuais da época, “clérigos,
professores magistrados e escritores que rodeavam o monarca, interessados nas
benesses do Estado, dispostos a legitimar essas práticas em nome da moral e dos
bons costumes” (Costa, 2008, p. 16). Entre os nomes da comissão de censores,
estavam os dos escritores brasileiros Machado de Assis e José de Alencar, o que
se permite considerar a presença, mesmo que escassa, daqueles que tentavam agir
como curadores - em prol da qualidade artística teatral.
Apresenta-se, portanto, a necessidade das ações censórias serem amparadas
perante um grupo específico, a institucionalização garante a eles uma
organização do poderio de repressão, como também uma possibilidade de reservar
as obras ou “amontoa-las” nas salas. Mas, segundo Foucault (2009, p. 177):
o poder de regulamentação obriga à homogeneidade; mas individualiza,
permitindo medir os desvios, determinar os níveis, fixar as
especialidades e tornar úteis as diferenças, ajustando-as umas às
outras. Compreende-se que o poder da norma funcione facilmente dentro
de um sistema de igualdade formal, pois dentro de uma homogeneidade,
que é a regra, ele introduz, como um imperativo útil e resultado de
uma medida, toda a gradação das diferenças individuais.
Esse aspecto de individualidade será nítido mais a frente, quando em contato
com o documento de censura se perceberá que em uma comissão é possível haver
impasses e opiniões divergentes entre censores, contudo a ciência sobre a
opinião do outro pode gerar alterações sobre a primeira opinião dada,
provocando uma homogeneidade ao retirar a medida do possível as discrepâncias.
Porém, a existência de um núcleo formaliza concretamente a ideia de arquivo,
“ele tem força de lei, de uma lei que é da casa (oîkos), da casa como lugar,
domicílio, família ou instituição” (Derrida, 2001, pp. 17-18), além disso,
estes começarão a exigir que as obras teatrais venham até eles para fins de
análise. E isso diz respeito a uma acuidade maior sobre os textos
dramatúrgicos, pois qualquer intervenção sobre o texto, consequentemente,
incidiria na cena – tendo em vista o modelo de Teatro que era praticado nesse
período, que tinha a dramaturgia como um dos principais motivadores cênicos
(Magaldi, 2001).
Com isso, começa-se a ter registros históricos da ação da censura sobre a
dramaturgia brasileira, peças como O noviçode Martins Penna, A inquisição em
Roma de Luíz Antônio Burgain, O poeta e a Inquisição de Gonçalves Magalhães, e
A mulher inocente e satanás de autor desconhecido (Souza, 1986, p. 51). São
algumas acometidas pela censura monárquica, “uma fiscalização realizada por
designação do rei e em seu nome. Era ele pessoalmente que assinava as
autorizações para a apresentação pública ou suas proibições” (Costa, 2008, p.
17).
Há uma materialidade que permeia as ações da censura permitindo o início de uma
prática arquival, nas palavras de Derrida assume-se que “não há arquivo sem um
lugar de consignação, sem uma técnica de repetição e sem uma certa
exterioridade. Não há arquivo sem exterior” (2001, p. 22). Aspectos estes
encontrados na censura por reverberar na arte teatral. A questão da repetição
remete a condição a que se sujeitavam as obras dramáticas de sempre ter de se
apresentar dentro dos moldes especificados pela censura, algo que na maioria
das vezes deturpava a verdadeira intenção estética do artista para com sua
obra, ou ainda, a posterioriinterferia na progressão criativa do artista que
repensava suas criações dentro dos limites permitidos - a autocensura. A
exterioridade seria tanto aquilo que se mostra, como também, o que está
guardado da obra.
Seguem, então, os períodos históricos que compreendem a República e o Estado
Novo, apresentando uma maior atividade da censura, que se torna mais rotineira
e burocrática. Os lugares de atuação recebem nomes distintos, mas as premissas
que regem seus estatutos continuariam os mesmos. Porém, até a metade do século
XX, ocorre uma maior abertura da censura devido à acumulação de funções do
órgão responsável, que recebe o nome de Departamento de Imprensa e Propaganda –
DIP, o qual desempenhava além da prática censória 53 outras funções (Costa,
2008).
Enquanto isso, neste mesmo período no Teatro brasileiro, nota-se o surgimento
de companhias teatrais, como: Os comediantes, o Teatro do Estudante e o Teatro
Brasileiro de Comédia. Além desses, “outros nomes estrangeiros, de melhor ou
pior formação, somaram-se a esses esforços da década de quarenta, que deslocava
para o encenador o eixo central do espetáculo” (Magaldi, 2001, p. 208). Tais
mudanças no cenário teatral brasileiro não seriam possíveis, caso a censura
mantivesse a regularidade de sua força no decorrer dos anos. Foi devido às
oscilações de sua potência repressora, e a sobrecarga de funções desempenhadas
pelo órgão, que surgiram espaços satisfatórios para o crescimento artístico, e
mais uma prova disso seria o advento da modernidade cênica brasileira em 1942,
com a obra Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues (1912-1980) – tendo a
participação do grupo Os comediantes e do encenador polonês Zbigniew
Ziembinski.
Entretanto, não tardou muito para que o nível da repressão gradativamente
aumentasse seu grau. Essa medida pode ser constatada se observar a trajetória
artística do dramaturgo Nelson Rodrigues. Apesar do grande apogeu vivenciado
por ele em Vestido de Noiva (1942) – sua segunda peça–as obras seguintes do
autor foram alvos de constantes repressões. A preferência do dramaturgo em
retratar problemáticas humanas, em seu lado mais obscuro, bateu de frente com
os regimentos da censura. Assim ele diz:
O número de ex-admiradores aumentava. E, pouco a pouco, ia fundando a
minha solidão. Fora proibida a representação de Álbum de família. Em
seguida, houve a interdição de Anjo negro. De peça para peça, me
tornava, e cada vez mais, um caso de polícia. Escândalo nos jornais.
(Rodrigues, 1994, p. 64)
Para dialogar com esse relato de Nelson, nos diz Derrida que “todo arquivo é ao
mesmo tempo instituidore conservador. Revolucionário e tradicional” (2001, p.
17). Isso se aproxima do que Nelson propôs com sua obra dramatúrgica, em seu
sentido revolucionário – ou como ele mesmo chamaria de Reacionário – por
enfrentar a censura mostrando suas obras tal como criou, sem realizar nenhuma
modificação de ordem moral ou ética sobre elas nem antes nem depois de submetê-
las a um parecer.
Suas peças, segundo o próprio dramaturgo, apesar das fortes temáticas eram
fruto de sua personalidade tradicional/conservadora. Em entrevista concedida ao
programa do jornalista Otto Lara Resende em 1977, Nelson revela serem suas
obras uma espécie de “reação contra tudo que não presta”, isso em primeira
instância explicaria como ele contraiu a preferência por temáticas que
revolucionariam o meio teatral brasileiro, retratando incestos, assassínios,
suicídios, distúrbios psicológicos, dentre outros (Magaldi: 2004), resultando
assim, em um arquivo tradicional e revolucionário.
Em 1946 é criado o Serviço de Censura de Diversões Públicas do Departamento
Federal de Segurança, embora com sede no Rio de Janeiro cada Estado possuía uma
filial responsável por analisar os textos teatrais, bem como classifica-los por
idade, realizar cortes, vetar ou liberá-los, o que a tornou mais burocrática do
que violenta (Costa: 2008). Agora o artista que desejasse apresentar sua peça
em outros Estados brasileiros, ou até mesmo no seu de origem, deveria abrir um
processo no órgão da censura correspondente à cidade onde ocorreria a
representação.
Outra medida repressora que se tornou ainda mais comum nessa época eram as
apresentações dos espetáculos ou leitura dramática apenas para os censores. Ali
mesmo era analisado o conteúdo da peça, o que deixava os atores apreensivos com
a possibilidade de ter que mudar as marcações e/ou falas tão próximo à estreia,
ou em última instância a representação ser cancelada. Assim como relata, o ator
e dramaturgo Gianfrancesco Guarnieri que vivenciou essa situação (apud Costa,
2006, p. 20):
A censura funcionava mais ou menos assim: “eles” liam o texto faziam
cortes e depois tínhamos de encenar a peça, com o teatro vazio, só
para os censores. Não permitiam a presença de mais ninguém. Isso,
dois ou três dias antes da estreia, ou, no máximo, um mês antes
desta. Às vezes, vinham apenas três censores. Era terrível,
constrangedor: uma peça de mais de dez atores representando ali para
uma ou três pessoas.
Mas nessa hora também ocorria espécies de negociações entre o diretor da
encenação e os censores, com o intuito de modificar pareceres ou liberar cenas.
Há relatos de que as conversas ou, somente o fato deles verem o texto
representado, às vezes obtinham um resultado positivo. Como nos relata José
Celso Martinez Côrrea:
Eles foram ver o ensaio de Roda vivae estava lá o Chico Buarque,
aquele menino lindo de olhos verdes, no auge do sucesso. Eles ficaram
o tempo todo olhando para o Chico. Liberaram a peça. (apud Laet,
2007, p. 39)
Logo a ditadura militar eclode no Brasil e esta força política torna-se
desafiadora para qualquer artista, pois a repressão sai do seu status de agente
burocrático e assume descaradamente a violência, agindo impunemente por longos
anos. Como Maria Castilho Costa completa:
Acirrava-se a prática censória, agilizava-se o aparelho repressivo do
Estado a serviço da ditadura em nome dos mesmos princípios vagos: a
moral e os bons costumes; ofensa ao decoro público; respeito aos
povos; defesa da religião; manutenção da ordem e respeito ao governo.
Inovava-se na menção às instituições republicanas – falava-se das
forças armadas e dos interesses nacionais; Os censores iam perdendo a
aura de intelectuais e assumiam seu caráter de funcionários públicos
apaziguados. (2008, pp. 19-20)
É esta censura com quem conviveria o dramaturgo Nelson Rodrigues em boa parte
de sua vida artística, e é nesse contexto da censura de onde retiro o arquivo
censório reconstituído mais à frente.
Há muitos documentos dessa época que resistiram ao tempo, arquivos que por
sorte não foram levados à destruição como tantos outros. A destruição do
arquivo para Derrida seria algo próprio da sua natureza, há uma pulsão que leva
o arconte a desfazer-se daquilo que guardou, a pulsão de morte – termo cunhado
de Freud – ou em outras instâncias tende-se a “disfarça-lo, maquiá-lo, pintá-
lo, [...] representá-lo no ídolo de sua verdade em pintura” (Derrida, 2001, p.
23).
Já os arquivos que a censura reuniu durante esses longos anos retratados - em
meio a tantas assinaturas, pareceres e declarações – diz respeito, sobretudo,
ao artista e sua obra, ou seja, os arquivos censórios continham obras teatrais
reunidas que foram omitidas do público da época, parcialmente devido aos
cortes, ou integralmente, “não há como não admitir que o arquivo (destruído,
presente, excessivo, ou apagado) é a condição da história” (Roudinesco, 2006,
p. 9). São arquivos que poderiam pertencer somente ao domínio do Teatro
brasileiro, porém tiveram de ser repartidos com um órgão de controle, que
tampouco se preocupava com a qualidade artística ou sua indicação de público,
mas sim, “o que” e “como” a obra estava comunicando.
O mal de arquivo, portanto, na reflexão de Derrida, se encontraria nesse limiar
de destruição. Assim como ele explica:
Não haveria certamente desejo de arquivo sem a finitude radical, sem
a possibilidade de um esquecimento que não se limita ao recalcamento.
Sobretudo, e eis aí o mais grave, além ou aquém deste simples limite
que chamam finitude, não haveria mal de arquivo sem a ameaça desta
pulsão de morte, de agressão ou de destruição. Ora, esta ameaça é in-
finita: ela varre a lógica da finitude e os simples limites factuais,
a estética transcendental, ou seja, as condições espaço-temporais da
conservação. (2001, p. 32)
Seguindo essa lógica houve de fato a destruição de muitos desses arquivos
censórios, e com isso, registros inteiros de obras teatrais se perderam para
dar lugar a novos processos. Hoje, resta apenas uma parcela de tudo que foi
censurado dos períodos mencionados, entre eles, alguns arquivos referentes à
censura paulistana resgatados pelo professor e diretor de Teatro Miroel
Silveira, que os preservou em uma sala na Universidade de São Paulo, onde
lecionava. Ao falecer em 1988, toda a documentação – cerca de 6.147 processos –
que corresponde aos anos de 1925 a 1970, passam a fazer parte do acervo da
biblioteca da unidade, recebendo o nome de Arquivo Miroel Silveira, em sua
homenagem.
Este breve trajeto histórico demonstra que o arquivo da censura foi se
constituindo a partir de outro arquivo, o da obra de arte - que deveria
pertencer unicamente ao artista. Então, ao entender em que contextos e de que
maneiras esses documentos se fizeram, possibilita analisar mais amplamente seu
conteúdo, percebendo o que as intervenções geraram sobre as obras.
Abrindo o arquivo com Derrida: processo censório de Perdoa-me por me traíres de
Nelson Rodrigues
Ainda como complemento dessa discussão nós, autoras do presente artigo, também
exercemos por ordem a função de arcontes, pois frente aos documentos censórios
temos dados a interpretar, quer seja em sua condição constatativa,
performativae / ou enunciativa (Birman, 2008), elementos estes em que Derrida
sugere uma ampliação da dimensão histórica envolvida e igualmente da nossa
capacidade de problematiza-los. Portanto, neste tópico, pretendemos aproximar
as ideias de Derrida acerca do conceito de arquivo ao processo censório da peça
Perdoa-me por me traíres, do dramaturgo brasileiro Nelson Falcão Rodrigues.
Dessa forma, “a ousadia teórica de Derrida se formula justamente na colocação
em questão que realizou do suporte, que não apenas registra os nossos
enunciados, mas também os ordena hierarquicamente nas suas várias séries
discursivas, isto é, o arquivo” (Birman, 2008, p. 108). Tendo conhecimento dos
elementos que culminam na formação de uma prática arquival, destacados
anteriormente, veremos como eles se manifestam quando confrontados às minúcias
dos acontecimentos que marcaram a censura da referida peça.
É importante ressaltar que nesta discussão a ideia de arquivo proposta por
Derrida pode ser relacionada não somente com a prática da censura, mas também,
com o ato do artista reservar vestígios que fazem parte de sua obra, uma
atitude que no contexto em questão pode ser um indicador de autocensura.
Entendendo como materialidade de uma ideia que atravessa os tempos, “o arquivo
tem lugar em lugar da falta originária e estrutural da chamada memória”
(Derrida, 2001, p. 22). Os processos censórios contêm a obra do artista, isso
já denota o maldeste arquivo em específico, presente no ato de guardar – ‘por
em reserva' – um manuscrito longe do poder do artista e situá-lo sob outra
jurisdição, que não deveria dizer respeito ao mundo artístico, porém a censura
ao caminhar junto com o culminar da arte brasileira passa também a nos dizer
muito sobre ela.
Nessa conjuntura, em 1957 Nelson Rodrigues escreve a sua nona peça teatral
nomeada Perdoa-me por me traíres. O autor reconhecido por dar à luz a
modernidade teatral brasileira a partir de Vestido de Noiva, conhece o outro
lado do público: o dos que vaiam e detestam suas obras. A razão disso deve-se a
preferência artística do autor em retratar o lado mais obscuro e pecaminoso do
ser humano, marca que se tornou frequente nas obras seguintes. Perdoa-me por me
traíres não foi menos aterrorizante para o público do que as anteriores, e esse
fato pode ser constatado através do parecer censório sobre a representação da
peça em São Paulo.
No enredo, Nelson Rodrigues apresenta Glorinha uma adolescente órfã que por
influência de sua colega Nair, e mesmo vivendo sob o autoritarismo do tio
chamado Raul, acaba adentrando-se na prostituição com auxílio de uma cafetina,
chamada Madame Luba. Ao ficar sabendo, o tio enfurecido demonstra toda sua
obsessão pela adolescente e revela a sua origem. Cenas do passado são
reconstituídas como se estivessem acontecendo naquele momento, expondo que sua
mãe Judite não havia se suicidado como se acreditava, mas sim induzida por ele
a tomar veneno.
Além de todas estas questões expostas na obra, é evidenciado ainda no primeiro
ato, a morte de Nair ao fazer um aborto em um consultório clandestino, antes de
morrer pede encarecidamente um beijo a Glorinha, um detalhe que vai ser reposto
por Nelson em outro contexto na obra Beijo no asfalto (1960). “O texto promove,
de fato, um desmascaramento, recusando todos os postulados convencionais da
ética, o que incomoda os bem-pensantes” (Magaldi, 2004, p. 107) considerando a
reação de um público numa época em que tais assuntos não eram desnudados nos
palcos dessa forma.
O texto foi para cena pela primeira vez, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
em 19 de junho de 1957, Nelson Rodrigues se mostra à disposição da obra como
ator, representando o personagem Tio Raul a pedido de Gláucio Gill, que também
estava como ator de sua peça. Mas, obviamente, o contato do público com essa
obra não foi dos mais receptivos de sua carreira, pelo contrário, as pessoas se
revoltaram com o texto. Assim como ele relata:
Embora sendo o pior ator do mundo, representei, imaginem, eu
representei. Era a maneira de unir minha sorte à de uma peça que me
parecia polêmica. Muito bem. Os dois primeiros atos foram aplaudidos.
Nos bastidores, imaginei: - ‘Sucesso'. Mas ao baixar o pano, no
terceiro ato, o teatro veio abaixo. Explodiu uma vaia jamais
concebida. Senhoras grã-finérrimas subiam nas cadeiras e assoviavam
como apaches. Meu texto não tinha um mísero palavrão. Quem dizia os
palavrões era a plateia. No camarote, o então vereador Wilson Leite
Passos puxou um revólver. E como um Tom Mix, queria, de certo,
fuzilar o meu texto. Em suma: - eu, simples autor dramático, fui
tratado como no filme de bangue-bangue se trata ladrão de cavalos. A
plateia só faltou me enforcar num galho de árvore. (Rodrigues apud
Magaldi, 2004, p.106).
Percebe-se a partir deste relato o contexto conservador da sociedade, onde se
situava o autor, por isso, a qualidade estética de suas peças era julgada –
pelo público e alguns críticos – quase que exclusivamente por sua temática,
desconsiderando-se outros aspectos de ordem técnica, tanto do texto quanto da
cena e suas articulações entre si. Retomando o conceito de arquivo, Birman
(2008) distingue três tipos de registros presentes em Derrida na exploração do
arquivo, que são: o cognitivo (princípio ontológico), o ético e o político
(princípio nomológico). O primeiro trata-se do sentido interpretativo dos
materiais a serem disposto em arquivo, que garantem o estabelecimento da lei –
no caso da censura. Os acontecimentos vão se estruturando nos documentos à
medida que são de interesse ético e político, e como nem tudo faz parte dessas
ordens, acabam se formando lacunas. Com isso, “a ousadia teórica de Derrida
estaria em afirmar que o arquivo seria necessariamente lacunar e sintomático,
isto é, descontínuo e perpassado pelo esquecimento em decorrência de sua
própria virtualidade” (Birman, 2008, p. 110).
A ocorrência que marcou a estreia do espetáculo no Rio de Janeiro, é dentre
tantos, um aspecto eminentemente lacunar nos arquivos censórios, mas o
conhecimento de sua existência através de outras fontes nos permite considerar
a sua estreita ligação com a censura – informação que pode gerar um novo
arquivo. “É preciso que o poder arcôntico, que concentra também as funções de
unificação, identificação, classificação caminhe junto com o que chamaremos o
poder de consignação[...] O fato de consignar reunindo os signos”(Derrida,
2001, pp. 13-14).Em nossas mãos encontra-se não somente um arquivo, mas a
prática arquival instaurada, principalmente através da
consignaçãoeinterpretação dos dados obtidos para a presente pesquisa.Pois, “sob
esse aspecto, a ausência de vestígios ou a ausência de arquivo é tanto um
vestígio do poder do arquivo quanto o excesso de arquivo” (Roudinesco, 2006, p.
10).
Por conseguinte, o princípio ontológico e nomológico que Derrida infere, parte
do arquivo, mas retorna a sua origem para exercer o poder, através do arconte.
Talvez, isso se reflita no modo como a censura agia, chegando assim, a
influenciar na visão das pessoas (espectadores ou críticos) perante a obra
apreciada, ao destacar o assunto/tema em detrimento de outros elementos e
práticas que compõe o fazer teatral. No entanto para Nelson, o fato de suas
peças chegarem até o público já era uma grande conquista, independentemente do
modo como eram recepcionadas, tendo em vista que a censura se encontrava ativa
e implacável. Na verdade,
Mal o texto era submetido e a censura anunciava os cortes ou a
interdição, Nelson mobilizava os amigos e desencadeava uma campanha
pelos jornais que deixava todo mundo mal. Principalmente porque
Nelson responsabilizava e chamava de ‘analfabeto' não o funcionário
que se encarregara dos cortes, mas alguém dos altos escalões. O
ministro da Justiça, incomodado com a campanha, convocava o chefe do
departamento e lhe passava um carão; este, por sua vez, transferia a
responsabilidade para o funcionário menor. A peça acabava sendo
liberada e o funcionário ficava com cara de ovo perante os seus
pares. Por isso nenhum censor, nos anos 50, queria assumir sozinho a
responsabilidade de examinar uma peça de Nelson Rodrigues. (Castro,
1992, p. 269)
Após o término da temporada de representação de Perdoa-me por me traíres no
Rio, Nelson decide apresenta-la em São Paulo ainda no mesmo ano. Para isso, era
necessário submetê-la novamente ao parecer da censura, agora no Departamento de
Diversões Públicas do Estado de São Paulo. Uma nova luta iniciava-se juntamente
com os atores da companhia, encabeçada pelo ator Jaime Costa (1897-1967). Esta
peça especificamente, é uma das mais polêmicas enquanto arquivo da censura
paulistana, diversos pareceres foram dados; o governador Jânio Quadros
interviu; e mobilizações sociais foram realizadas contra a representação da
peça, pela Associação das Senhoras Católicas. Na imagem a seguir (Figura 1)
consta a abertura do processo de censura, onde observa-se a data do
requerimento, a data prevista para estreia do espetáculo na cidade, e a
necessária informação de que a peça já havia sido encenada em outro Estado –
talvez esta seja a única informação inerente ao arquivo anterior que foi levado
para o novo. Isto é, destitui-se todos os fatores que compõem o princípio
ontológico – ligado ao começo histórico do processo – para renovar as intenções
e ações sem depender das decisões anteriores.
Modificam-se os arcontes, modificam-se também os critérios interpretativos que
guiam a constituição do arquivo. A discrepância maior entre a censura do Rio de
Janeiro e a de São Paulo, enquanto arquivos dessa peça, está no êxito dela de
conseguir ser representada em primeira instância na capital carioca. Com isso,
veremos agora quem foram os arcontes da censura paulistana e que ações foram
realizadas sobre arquivo, capazes de determinar o futuro da obra naquele
contexto repressor.
A peça foi submetida a avaliação a três censores: o Delegado Nelson da Veiga, o
Professor Hilário Carvalho e o Dr. Francisco Salles. Estes foram designados a
partir do dia 21 de agosto de 1957, pelo Secretário da Segurança Pública Carlos
Bittencourt. Os primeiros a se pronunciarem foram o Delegado Veiga e o
Professor Carvalho, utilizando-se de um único parecer, inferiram que “a peça
nada oferece de artístico. [...] As situações são de pervertida visão do que se
pretende ser quadros da vida carioca” e conclui sua avaliação, dizendo,
“Impugne-se a representação da peçaPerdoa-me por me traíres,segundo os
originais apresentados, sem que isso represente qualquer diminuição de
capacidade histriônica dos componentes da Cia. Jaime Costa”.
Por fim, o parecer de Dr. Salles apresentou duas folhas inteiras de comentários
fundamentando-os com leis e opiniões, além disso, enumera três critérios
escolhidos para guiar sua análise, que foram: a categoria do autor e a
qualidade da peça; e o exame da possibilidade de utilização de outros meios,
que não a interdição total do espetáculo, a fim de delimitar sua audiência.
Sobre o primeiro aspecto, ele elogia o autor reconhecendo sua importância para
o cenário teatral destacando a peça Vestido de Noiva, e comparando à Perdoa-me
por me traíres.Desse confronto, chega à conclusão que “a sua nova peça é
inferior como qualidade literária [...] mas não lhe falta, como teatro,
intensidade dramática, desenho de tipos, problemática humana, força de
situações”.
A forma como este censor constrói seus argumentos, diferencia-se dos
anteriores, gerando, entre eles, certa divergência de opiniões. Mais à frente,
Dr. Salles diz que “a peça se impôs como intriga, e como desenho de situações e
chega mesmo a ter indiscutível qualidade cênica no 2ª ato, quando a
circunstância presente se serve da reconstituição paralela de circunstâncias do
passado para se radicar e se esclarecer”. O censor se refere à mudança temporal
que ocorre em cena, que elucida situações do passado envolvendo os pais de
Glorinha, revelações que são primordiais para justificar o desfecho trágico do
terceiro ato, que ocorre no presente.
Além disso, Dr. Salles traz um fato pertinente sobre sua condição de censor
perante a obra de arte, surpreende com suas palavras ao dizer que é preciso
perceber os fatores artísticos que envolve a obra e não julgá-la moralmente,
veja:
O espetáculo que se vai julgar, além de constituir um divertimento,
possui qualidades artísticas, então a responsabilidade da autoridade
que deverá exercer o poder de censura, adquire uma excepcional
gravidade, tendo em vista a liberdade de expressão artística, a ser
regida por normas do plano estético e não do plano moral.
O último aspecto considerado pelo censor Dr. Salles é determinante para a peça
conseguir ser levada aos palcos. O ponto que prejudica a representação da obra,
segundo ele, diz respeito a sua temática que expressa “a perversão de
adolescentes, o da tara sexual de adultos, a imoralidade das personagens, as
cenas lúbricas e macabras, como as do 1ª ato, no prostíbulo e no consultório
médico, são o assunto único e exclusivo da obra”, e por isso pode tornar
“verdadeiramente danosa, como efeito moral, sobre um público não adulto e não
formado”. Apesar disso, ele demonstra ser a favor da aprovação da peça, caso
haja limitação de idade de público – sendo somente permitida a maiores de 21
anos – e também sendo obedecidos os cortes no texto.
Nesse âmbito podemos frisar a configuração de dupla autoria, a qualse destaca
através das imposições de cortes exigidos pela censura, pois somente
realizando-os seria possível representar a peça, e caso fossem efetuadas
interfeririam abruptamente nos ideais estéticos do autor, principalmente quando
nos referimos ao estilo artístico do dramaturgo conhecido pelo apelido de Anjo
Pornográfico ou Tarado de Suspensórios – modos como o autor ficou conhecido
popularmente. Os cortes propostos foram definidos pela Comissão Estadual de
Teatro (CET), que deliberou as seguintes mudanças e as respectivas páginas em
que se situavam no manuscrito da obra anexada ao processo (Processo 4469,
Arquivo Miroel Silveira-USP):
a) A cena do aborto, representada integralmente no Teatro Municipal do Rio de
Janeiro, passar-se-ia no escuro, mantendo-se apenas os rostos iluminados;
b) Supressão da fala: – “Põe gaze, entope isso de gaze!” (Página 22);
c) Supressão da fala: – “Te lembras de quando eu te pedia para pôr tua saliva
na minha boca? (no ouvido da mulher) eu quero beber na tua boca” (Página 40);
d) Supressão de fala: – “O verdadeiro defloramento é o primeiro beijo na boca”
(Página 40);
e) Supressão de fala: – “Imagina tu que ela própria me disse que fazia a
higiene íntima três vezes por dia, se tem cabimento!”;
f) Supressão de fala: – “Beijo de língua?” (Página 66)
Os cortes solicitados pela Comissão Teatral e o parecer dessa primeira vistoria
ainda poderiam ser questionados pelo autor da obra. Mas, antes que isso fosse
possível, as senhoras da Ação Católica de São Paulo escreveram para o
governador Jânio Quadros, na tentativa de impedir que a obra viesse a ser
representada na cidade, e para reforçar seus ideais apresentam mais de 3.000
assinaturas contra a peça de Nelson Rodrigues (vd. Figura 2). Agrega-se ao
arquivo um elemento que prejudicará os pareceres favoráveis à representação, o
número de arcontes aumenta – ou seja, um grupo inteiro submete sua opinião –
influenciando e pressionando os censores principalmente, o governador Jânio
Quadros, além disso concorre novos olhares sobre o objeto e consequentemente
geram novas interpretações – já que existem outros fatores externos à obra que
cabe considerar.
A partir de arquivos velhos ou novos – e a riqueza destas novidades
reside em particular em que alguns destes documentos até aqui pouco
visíveis ou inacessíveis, secretos ou privados, são objetos de novas
interpretações, de traduções inéditas e de outros esclarecimentos
históricos ou filológicos. (Derrida, 2001, p. 54).
Então, o apelo social atingiu o governador tão prontamente que o fez deliberar
uma nova comissão de censores, os quais deveriam dar seu parecer dentro de um
prazo de 48 horas. Escalando agora, o Prof. Lourival Gomes Machado da Faculdade
de Filosofia, o jornalista Herculano Pires, presidente do Sindicato de
Jornalistas Profissionais, e o Sr. Francisco Silva Júnior.
O primeiro deles, o Prof. Lourival vai elucidar em contraponto a ação das
senhoras católicas, a liberdade de expressão do artista. E defende a decisão
anteriormente deliberada sobre a peça, liberação com cortes e limite de idade,
considerando injustificável o fato de um novo parecer precisar ser feito.
Obviamente, perante essas opiniões ele conclui com o seguinte trecho:
“reafirmando ser anterior a decisão, o Senhor Governador terá feito, em sua
alçada e em concordância com os interesses públicos, o máximo e melhor que, no
caso, poderia fazer”.
O segundo censor, o jornalista Herculano Pires apresenta-se completamente
contra a liberação da peça, seus argumentos segue a mesma lógica das senhoras
católicas, e enfatiza a proibição total. O terceiro e último censor explica em
cinco folhas a sua repudia a peça rodriguiana. Então, por dois votos a um, a
peça foi impugnada.
Diante da ocorrência a classe teatral também se manifesta, e leva ao processo
uma prova dessa revolta. A carta é direcionada ao governador e na mesma folha
contém diversas assinaturas de renomados artistas e críticos brasileiros, como
Augusto Boal, Sábato Magaldi, Décio de Almeida Prado, dentre outros (vd. Figura
3).
O arquivo não somente se origina devido a limitada capacidade da memória como
também, paradoxalmente, seria destinado ao apagamento e ao esquecimento de seus
traços, condição necessária para sua própria renovação (Birman, 2008).
Exatamente o que ocorre em Perdoa-me... pois desponta o mês de outubro daquele
ano e o processo continua adquirindo novas páginas, ou seja, o tempo
inicialmente previsto para estreia do espetáculo expira e o arquivo renova-se
em intenções e reações. A questão tempo é emblemático quando nos referimos ao
arquivo:
numa temporalidade que se ordena em três direções concomitantes,
quais sejam, o presente passado, o presente atual e o presente
futuro. A temporalidade presente no arquivo, nessa tripla direção,
configuraria a dimensão da finitude, que lhe marcaria
necessariamente. (Birman, 2008, p. 110).
Em sua possibilidade de agregar novas marcas históricas o arquivo teria um
processo infinito de vir-a-ser, caracterizado pela repetição(Derrida, 2001).
Nessa perspectiva, vimos como as ações censórias sobre a peça Perdoa-me...
foram se repetindo, seja em pareceres ou solicitações. No entanto, o filósofo
Derrida ressalta que existem diferenças, comuns a essência fragmentada e
diversificada que constitui o arquivo. A própria opinião do governador diante
das circunstâncias instauradas no processo, o fizeram repensar sua decisão,
gerando assim uma nova. Além disso, a intervenção social das senhoras católicas
algo não comum de ocorrer em processos desse tipo, se tornou uma marca
histórica e inédita para os documentos de censura – presente em sua
materialidade no arquivo de Perdoa-me por me traíres.
A Comissão Estadual de Teatro persiste na liberação, mesmo que seja com cortes
e limites de idade, mas não é atendida. Encontram-se no processo em questão
documentos datados de 1959, e nada que indique pareceres favoráveis à
representação. Em São Paulo, Perdoa-me por me traíres, só chega aos palcos
verdadeiramente em 1978, com o grupo Teatro Abertura, mas não atinge a
popularidade esperada.
Pudemos mediante a abertura do arquivo distinguir três ações de ruptura que se
manifestam sobre a censura da referida obra, a primeira, diz respeito a
transição da peça – do arquivo carioca para o arquivo paulistano de censura,
onde este pouco considera os fatos ocorridos anteriormente. O segundo fator
deve-se a construção dos argumentos dos censores, que tentam fundamentar e se
apoiar em leis para agir diretamente sobre a obra solicitando cortes, inclusive
intencionando agir em sua organização cênica. E por fim, a intervenção das
senhoras católicas e da sociedade artística que se chocam em defesa de seus
ideais – contra versusa favor.
De uma forma ou de outra, perante o arquivo encontramos um caminho repleto de
respostas, porém, ainda há algumas respostas aguardando ascender da escuridão
das quais foram postas. Abrir o arquivo é se confrontar com verdades que foram
retiradas do alcance de olhos alheios em um momento específico, e destinado –
como nos imprime Derrida – à destruição ou ao esquecimento. Com isso,
percebemos o porquê de tantos paradoxos cercarem o conceito de arquivo, de ser
memória e ao mesmo tempo esquecimento; preservação e destruição; instituidor e
conservador; privado e público. Não seria o lugar de onde se olha o arquivo que
determinará essa relação?
Quando trazemos o termo arconte percebemos que ele se amplia e ganha os
contornos do artista, do censor e, porque não, os nossos – enquanto autoras e
leitores. Para a censura, o arquivo era a prova de seu poder e ao estabelecer
critérios éticos e morais para análise da obra, a transforma como sua
propriedade, até que suas determinações sejam completamente seguidas. Isto é,
há a vontade de esquecimento dos aspectos originais da obra que foram
censurados e impedidos de chegarem ao público, posteriormente, a pulsão de
morte (destruição), já que os documentos denunciam sua prática repressora. Esse
é um dos motivos que justificam, como foi abordado no tópico anterior, a
destruição em massa de boa parte dos arquivos desse tipo. Quando resgatados,
abrem-se as possibilidades de um passado ser identificado em um futuro(Derrida,
2001). Ou seja,
a questão do arquivo não é, repetimos, uma questão do passado. Não se
trata de um conceito do qual nós disporíamos ou não disporíamos já
sobre o tema do passado,um conceito arquivável de arquivo. Trata-se
do futuro, a própria questão do futuro, a questão de uma resposta, de
uma promessa e de uma responsabilidade para amanhã. O arquivo, se
queremos saber o que isto teria querido dizer, nós só o saberemos num
tempo por vir. Talvez. Não amanhã, mas num tempo por vir, daqui a
pouco ou talvez nunca. (Derrida, 2001, pp. 50-51)
Quando conjecturamos o artista numa posição de arconte, o arquivo passa a se
organizar a partir dos elementos que fazem parte da construção da obra, nesse
caso, o fazer artístico deixa rastros que o artista se reserva no direito de
guardar (preservação). Com o atravessamento da censura o fluxo arquival normal
ao artista é comprometido, já que a sua obra sob o poder da censura torna-se um
manuscrito – um vestígio do processo criativo – por não conseguir acompanhar
eventuais modificações que venham a ser feitas sobre os exemplares que estão ao
alcance do autor.
Configura-se, portanto, em nosso olhar o arquivo enquanto índices históricos,
que nos convoca a termos uma postura de arcontes. Entretanto, por mais que
tenhamos o objeto sob nosso poder, em sua concretude e carga histórica, são
necessários a abertura de inúmeros arquivos para sabermos exatamente o trajeto
percorrido pelo artista e censura, num exercício infinito de interpretações e
de construção de arquivos – e, talvez aqui se subscreva um. Assim sendo, “abro”
este arquivo com uma inferência de Derrida: “O arquivista produz arquivo, e é
por isso que o arquivo não se fecha jamais. Abre-se a partir do futuro” (2001,
p. 88; grifo nosso).