O fenómeno do queísmo no falar bracarense: um estudo sociolinguístico
0. Introdução
A presente investigação tem como tema e objeto de análise o fenómeno do queísmo
[1] no falar bracarense, estudado aqui sob uma perspetiva sociolinguística
variacionista. Para melhor conhecermos as condições em que surge e quais as
explicações apontadas para o fenómeno na literatura produzida até ao momento,
recorremos a trabalhos desenvolvidos por Mollica (1989; 1991; 1995), Peres e
Móia (1995), Arim (2008) e Barbosa (2013). Importa salvaguardar que,
contrariamente ao espanhol e ao português brasileiro, ainda não existem estudos
suficientemente aprofundados sobre o queísmo para o português europeu; além
disso, segundo pudemos averiguar, nenhum dos trabalhos que versam sobre o tema
é de cariz sociolinguístico. Esta foi, aliás, uma das principais razões que
motivaram o presente estudo, aliada à necessidade de se comprovarem ou
infirmarem determinadas possibilidades e tendências já indicadas por alguns
autores e, assim, tentarmos colmatar a lacuna existente no estudo de um
fenómeno (cada vez mais) comum e difundido entre os falantes.
Propomo-nos, então, analisar o funcionamento das construções queístas, em
registo oral, no português europeu contemporâneo, mais especificamente, no
dialeto bracarense, com o propósito de conhecermos e entendermos o seu
comportamento relativamente a três variáveis linguísticas – categoria
gramatical do predicador, preposição e subtipo de verbo – e duas variáveis
extralinguísticas – idade e escolaridade.
Para compreendermos quais destas variáveis se apresentam mais significativas e
quais os principais fatores que justificam e condicionam a coocorrência de duas
construções – com ou sem preposição – na introdução de complementos oracionais
oblíquos finitos selecionados por predicadores verbais, nominais e adjetivais,
servimo-nos do corpus do Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense (PSFB),
como base para a recolha e análise dos dados.
Começaremos, então, por dedicar uma secção à descrição e explicação do fenómeno
do queísmo, apresentando, de seguida, a metodologia adotada no estudo –
informações sobre o corpus do PSFB, método de recolha dos dados e questões de
investigação –, os resultados obtidos por variável e, finalmente, a discussão
acerca da pertinência dos mesmos para o entendimento do fenómeno.
1. O fenómeno do queísmo
Entende-se por queísmo a omissão de preposição[2] antes da conjunção-
complementador que em complementos oracionais oblíquos finitos[3], selecionados
tanto por predicadores verbais (1) como por predicadores nominais (2) ou
adjetivais (3):
(1) O professor aconselhou-te que estudasses mais.[4] (vs. aconselhou-tea que…)
(2) Tenho a sensação que o exame vai ser difícil. (vs. tenho a sensação de
que…)
(3) Eles estão ansiosos que comecem as férias. (vs. estão ansiosos por que…)
A possibilidade de supressão da preposição em construções com a estrutura
[verbo/nome/adjetivo + preposição + complemento oracional finito] pode ser
confrontada com a presença obrigatória da mesma preposição quando os
predicadores se combinam com argumentos nominais (4) ou com argumentos
oracionais infinitivos (5):
(4) a. O Paulo gosta de elogios.
b. *O Paulo gosta elogios.
(5) a. O Luís esqueceu-se de dar os parabéns à irmã.
b. *O Luís esqueceu-sedar os parabéns à irmã. (Peres e Móia, 1995: 112, 114)
Apercebemo-nos, então, de que, em frases como (4b) e (5b), “a agramaticalidade
resultante da supressão da preposição com argumentos nominais [e oracionais
infinitivos][5] não suscita geralmente dúvidas a qualquer falante nativo do
português” (Barbosa, 2013: 1889). No entanto, frases como as expostas nos
exemplos (1-3) estão sujeitas a grandes oscilações no uso e nos juízos dos
falantes: “estes dividem-se quanto à obrigatoriedade ou opcionalidade do uso da
preposição, encontrando-se, inclusivamente, variação no mesmo falante” (idem:
1888).
Mesmo sendo especialmente frequentes na oralidade (mas também em registo
escrito), as construções queístas são ainda tidas por alguns autores como
desviantes à norma-padrão ou, então, preteridas em favor das construções que
conservam a preposição. Veja-se, a este respeito, o posicionamento de Peres e
Móia: “(…) dado que o nosso principal critério para ajuizar da gramaticalidade
de uma estrutura é precisamente a sua aceitação por parte dos falantes, não
consideramos as estruturas em causa malformadas ou agramaticais, embora
prefiramos aquelas em que não houve supressão.” (Peres e Móia, 1995: 111).
J. Peres e T. Móia explicam, então, as razões da sua preferência, apontando
como principal argumento a analogia com construções em que a presença de
preposição é obrigatória, ou seja, construções em que os predicadores (verbais,
nominais ou adjetivais) selecionam argumentos nominais ou argumentos oracionais
infinitivos, tal como se demonstrou, anteriormente, nos exemplos (4) e (5).
Contudo, este argumento não parece ser suficiente para justificar o uso de
preposição, como defende Arim (2008: 48), ao notar que “se de acordo com este
argumento a construção correta é ‘gosto de que me façam elogios', pelo mesmo
motivo deveria estar de acordo com a norma padrão do português uma construção
como ‘aposto em que Portugal chega à final', o que não corresponde à
realidade”. De facto, não só o verbo apostar, mas também acreditar ou pensar,
evidenciam, por um lado, obrigatoriedade da preposição em quando acompanhados
de complementos nominais (6c) e revelam, por outro, a supressão da preposição
em complementos oracionais finitos como a opção preferida (ou até a única
admitida) pelos falantes (6b), causando a sua presença um elevado grau de
estranheza e inaceitabilidade entre os mesmos (6a):
(6) a. ??Não acredito em que ela venha.
b. Não acredito que ela venha.
c. Não acredito nisso/*isso. (Barbosa, 2013: 1872)
2. Hipóteses explicativas para o fenómeno
Nesta secção, apresentamos as propostas de explicação avançadas nos escassos
estudos prévios sobre o queísmo em português e introduzimos a nossa própria
proposta, baseada no quadro da Teoria dos Princípios e Parâmetros (Chomsky,
1981, 1995).
2.1. Estudos prévios
J. Peres e T. Móia (1995: 113) declaram não parecer haver “qualquer razão
estrutural” para que a preposição “seja suprimida antes de argumentos
oracionais finitos”, pelo que “a justificação para esta supressão parece ser
apenas a do uso, correspondendo a uma estratégia de simplificação de estrutura,
que é certamente – e felizmente – uma lei operante nas línguas naturais”. Os
autores salientam, ainda, que “a aparente evolução do português no sentido de
dispensa de preposições para a introdução de complementos oracionais finitos
aproximará esta língua (…) de línguas em que o emprego de preposições nesta
função é aparentemente nulo, como é o caso do inglês” (idem: 114). No entanto,
entendemos que não faz sentido considerar este fenómeno uma “evolução”, tendo
em conta que ele é já bastante antigo, achando-se bem documentado no galego-
português, até mesmo na linguagem literária: “Chegou recado ao conde que fosse
aas cortes” (Crónica de 1344), “aviam fe que este enfermo podia seer são”
(Diálogos de S. Gregório), “Nembrou-se que seu sobrĩho vendera” (Diálogos de S.
Gregório)[6]. Como vemos, as construções queístas estão presentes no sistema
linguístico, em coocorrência com as não-queístas, desde a génese da língua.
Por sua vez, Mollica (1991)[7] conclui que o queísmo é regulado por três
princípios: analogia, processamento e iconicidade. O primeiro pressupõe que as
estruturas queístas são motivadas por ‘cruzamento sintático' de duas formas
linguísticas relacionadas sintática e semanticamente em que uma delas rege
preposição (7b) e a outra não (7a), originando, assim, uma construção queísta
(7c), tal como já fora proposto por Rabanales (1974) para o espanhol:
(7) a.Espero que venga mañana.
b. Tengo la esperanza de que venga mañana.
c. Tengo la esperanzaque venga mañana. (Rabanales, 2005: 26)
O segundo princípio admite que existem condicionamentos de caráter
psicolinguístico que influenciam as construções queístas, sobretudo em relação
ao parâmetro ‘distância', “caracterizado pela relação de localização entre
verbo, nome, expressões em geral e fronteira sentencial apresentando ‘Ø que' ou
‘de que'” (Mollica, 1991: 44). Assim, a autora conclui que a existência de
“material interferente entre o núcleo (…) da matriz e a fronteira da
subordinada” dificulta o processamento do fluxo informacional e, por isso,
propicia a “emergência de estruturas com ‘de que'” (idem, ibidem).
O terceiro princípio espelha o valor semântico-comunicativo de ‘de que',
hipótese já proposta e defendida por García (1986), em que se considera que
“usar de delante de que implica (…) um distanciamiento del hablante respecto
del contenido de la proposición.” (García, 1986: 123, apudMollica, 1991: 46),
ou seja, a variante ‘Ø que' deverá ocorrer em “fatos reais, reconhecidos,
concretos e presentes” (Mollica, 1991: 46), relacionada com “um sujeito
‘próximo' ao enunciado” (idem: 47); por seu turno, a variante ‘de que' ocorre
em “enunciados de fatos hipotéticos (…) em opinião duvidosa” (idem: 46),
revelando um “sujeito ‘distante e/ou não comprometido' com o conteúdo
proposicional” (idem: 47).
Por fim, destacamos o estudo de Arim (2008) sobre as construções queístas (com
predicadores verbais) no português europeu (PE), em dicionários portugueses e
no discurso dos meios de comunicação social, o qual aponta como principais
fatores explicativos e favoráveis ao queísmo o tipo de preposição e o tipo de
verbo. Por ser a análise mais aprofundada que encontrámos sobre este fenómeno
no PE atual e aquela que, por apresentar um estudo realizado a partir de um
corpus, mais se aproxima à nossa, iremos segui-la de perto durante o presente
trabalho, como base de comparação com os nossos resultados, razão pela qual não
irá ser agora desenvolvida neste ponto.
2.2. Uma hipótese de explicação
No quadro da Teoria dos Princípios e Parâmetros (Chomsky, 1981, 1995), a
distribuição dos sintagmas nominais (SN) é regulada, em parte, pelo chamado
Filtro do Caso. Um SN necessita de “receber” Caso para que uma estrutura em que
ocorre seja bem formada. As categorias atribuidoras de Caso são, entre outras,
a Flexão (Caso Nominativo), V (Caso Acusativo) e P (Caso Oblíquo). Os nomes e
os adjetivos não atribuem Caso. Considerem-se, neste contexto, os exemplos
seguintes:
(8) O João sabe isso.
(9) a.*Eu tenho a certeza isso.
b. *Eu estou certa isso.
No exemplo (8), o SN o João recebe Caso Nominativo da Flexão verbal e o pronome
isso recebe Caso Acusativo de V. Os exemplos de (9) são agramaticais porque o
pronome isso não recebe Caso. Assim, torna-se necessário inserir uma preposição
para que o complemento possa receber Caso Oblíquo. Em português, nos casos em
que o nome ou adjetivo não rege uma preposição particular, a preposição
inserida por omissão é a preposição de:
(10) a.Eu tenho a certeza disso.
b. Eu estou certa disso.
A preposição de tem, assim, a função meramente formal de atribuir Caso e é
vazia de sentido. Não obstante, há nomes, adjetivos e verbos que regem
preposições particulares, como ‘confiar em alguém', ‘ter fé em alguém' ou
‘estar contente com alguma coisa'.
O Filtro do Caso aplica-se a expressões nominais e, em princípio, nada obriga a
que se aplique às orações. Com efeito, o que se observa é que, sempre que a
oração é de tempo finito, os falantes dispensam a presença da preposição. A
explicação para este fenómeno é, assim, simples: por hipótese, as orações de
tempo finito não necessitam de Caso, contrariamente às expressões nominais.
Note-se que já o mesmo não se aplica às orações infinitivas. Estas têm um
comportamento semelhante ao das expressões nominais, na medida em que exigem a
presença da preposição mesmo nos casos em que esta não é regida e é vazia de
significado:
(11) a.Eu não tenho a certeza *(de) ter guardado as chaves na gaveta.
b. Eles estão orgulhosos*(de) ter tido boa nota.
c. Eles gostam *(de) nadar.
Em face destes dados, conclui-se que, em português, as orações infinitivas
necessitam de Caso, no que se aproximam das expressões nominais e se afastam
das orações de tempo finito.
Esta perspetiva conduz-nos, como é evidente, a uma visão diametralmente oposta
à de Peres e Móia (l995:113): há razões estruturais para que a preposição seja
suprimida antes de argumentos oracionais finitos; o chamado ‘queísmo' será
afinal um fenómeno natural, que decorre do próprio funcionamento interno da
gramática interiorizada dos falantes. Deste ponto de vista, o que não é natural
é expetativa de que as orações de tempo finito se comportem como os
complementos nominais no que respeita à inserção da preposição. A não supressão
da preposição não passa afinal de uma prescrição, uma construção imposta por
gramáticos e especialistas da língua com base numa analogia que não terá
fundamento na realidade.
Neste estudo, procuraremos testar esta hipótese com base na análise
quantitativa de dados da fala espontânea provenientes de uma amostra
representativa do português europeu contemporâneo.
3. Metodologia
3.1. O Corpus
A fim de investigarmos o fenómeno do queísmo na fala espontânea, servimo-nos do
corpus recolhido e disponibilizado pelo projeto Perfil Sociolinguístico da Fala
Bracarense (PSFB), do Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho.
Financiado pela FCT, este projeto constitui a primeira base
sociolinguisticamente controlada de dados de fala em Portugal, a partir de três
variáveis de análise sociolinguística: o género, a idade e a escolaridade, num
total de 90 falantes entrevistados. Cada entrevista tem a duração de uma hora e
versa sobre assuntos diferenciados.
Escolhemos 44 entrevistas do PSFB para integrarem o nosso corpus de pesquisa, a
partir das quais recolhemos os dados necessários à investigação. Analisando a
distribuição dessas entrevistas relativamente à variável género, verificamos
que 19 falantes pertencem ao género feminino e 25 ao masculino. Quanto à
variável idade, o nosso corpus alberga 9 falantes da Faixa 1 (15-25 anos); 11
falantes da Faixa 2 (26-59 anos); 12 falantes da Faixa 3 (60-75 anos); e 12
falantes da Faixa 4 (> 75 anos). Por fim, no que respeita à variável
escolaridade, o nosso corpus é constituído por 8 falantes de Grau A (sem
diploma, 0-3 anos de escolaridade); 12 falantes de Grau B (4-9 anos de
escolaridade); 12 falantes de Grau C (10-12 anos de escolaridade); e 12
falantes de Grau D (licenciatura).
Estas duas últimas variáveis – idade e escolaridade – foram aquelas que
controlámos e que utilizámos na nossa análise, e por isso, tínhamos intenção de
que o número de falantes fosse exatamente igual nas diferentes faixas e graus;
porém, tal não foi possível, uma vez que algumas entrevistas não foram ainda
realizadas por não se terem encontrado indivíduos que correspondam ao perfil
pretendido.
3.2. Método de recolha dos dados
De modo a recolhermos o máximo possível de construções queístas e não-queístas
existentes nos enunciados produzidos pelos 44 falantes selecionados do corpus
do PSFB, começámos por construir uma lista de itens lexicais[8] passíveis de
ocorrerem nessas construções, ou seja, predicadores (verbais, nominais e
adjetivais) que selecionam complementos oracionais oblíquos finitos. Ao todo,
recolhemos e pesquisámos 174 itens lexicais – 77 verbos, 59 nomes e 38
adjetivos – que cumprem esta condição estrutural.
Dos 174 itens, apenas 43 (21 verbos, 20 nomes e 2 adjetivos) ocorreram no
corpus acompanhados de complementos oracionais finitos, sendo que os restantes
131, ou não surgiram no corpus, ou ocorreram somente com complementos nominais
e/ou complementos oracionais infinitivos.
A pesquisa de cada lexema foi possível graças à utilização da ferramenta EXAKT
do programa EXMERaLDA (Schmidt & Hedeland, 2013), que permitiu encontrar
todas as ocorrências de cada verbo, nome e adjetivo presentes na transcrição do
corpus, para depois se proceder, manualmente, à seleção daquelas que
evidenciavam uma construção com um complemento oracional de tempo finito.
3.3. Questões de investigação
Através da análise das construções recolhidas a partir do corpusPSFB,
procuraremos responder às seguintes questões:
i) Que construções são mais frequentes na oralidade: as queístas ou as não-
queístas?
ii) Que categoria gramatical de predicadores (verbos, nomes ou adjetivos)
apresenta mais construções queístas?
iii) Será que algumas preposições têm mais tendência a (não) serem realizadas
do que outras? Se sim, quais?
iv) Será que o subtipo de verbo condiciona a presença/ausência da preposição?
Se sim, quais condicionam a variável dependente mais fortemente?
v) Será que a (não) realização da preposição varia com a idade dos falantes?
vi) E será que varia com o seu grau de escolaridade?
vii) Será que o fenómeno do queísmo no “falar bracarense”(corpus PSFB) coincide
com as tendências já observadas em outros corpora do português europeu (corpus
REDIP[9])?
Por forma a responder às questões enunciadas, selecionámos, como variável
dependente, a ocorrência ou não de preposição introdutora da oração completiva
finita. Como variáveis independentes, foram selecionadas as seguintes:
i) variáveis linguísticas – categoria gramatical do predicador, preposição e
subtipo de verbo;
ii) variáveis extralinguísticas – idade e escolaridade.
Para o tratamento estatístico dos dados servimo-nos do programa Rbrul(R Core
Team, 2014).
4. Análise e Resultados
No nosso corpus foi identificado um total de 162 construções, queístas e não-
queístas, com predicadores verbais, nominais e adjetivais que regiam uma oração
completiva oblíqua finita. Destas, 80 ocorreram com verbos, 79 com nomes e 3
com adjetivos. A seguinte tabela permite clarificar a comparação entre o número
de itens lexicais atestados em cada categoria no corpus e o número de
construções que ocorreram com os mesmos.
Tabela 1. Número de itens lexicais e de construções atestados no corpus, por
categoria gramatical.
_____________________________________________________________________________
|Categoria_gramatical|Número_de_itens_lexicais_atestado|Número_de_construç?es
|Verbos______________|21________________________________|80___________________|
|Nomes_______________|20________________________________|79___________________|
|Adjetivos___________|2_________________________________|3____________________|
|TOTAL_______________|43________________________________|162__________________|
Destas 162 construções presentes no corpus, 136 revelaram ausência da
preposição e somente em 26 se observa a presença da mesma. O gráfico 1 ilustra,
precisamente, a elevada diferença percentual entre a realização de construções
queístas e a realização de construções não-queístas, demonstrando que as
primeiras são as mais produzidas pelos falantes.
Estes dados globais revelam que as construções queístas são, de facto, muito
frequentes na oralidade (representam mais de 80% de todas as construções com
orações completivas oblíquas finitas), constituindo, portanto, um fenómeno
bastante difundido e usual entre os falantes.
Na secção seguinte, apresentamos e discutimos os resultados relativos às
variáveis linguísticas.
4.1. Variáveis linguísticas
4.1.1. Resultados da análise
Categoria gramatical do predicador
Iremos expor, neste ponto, os resultados relativos às construções queístas
recolhidas do corpus no que respeita à sua distribuição por categoria
gramatical dos predicadores. Assim, verificamos que, das 80 construções com
predicadores verbais, 66 não apresentam preposição; tal como 68 das 79
construções com predicadores nominais e 2 das 3 construções com predicadores
adjetivais. No gráfico_2, apresentamos (por ordem decrescente) os valores
percentuais do fenómeno do queísmo para cada categoria de predicador, sendo os
nomes aqueles que apresentam maior percentagem de construções queístas.
Preposição
Neste ponto, exploramos a variável preposição e, por isso, começamos por
apresentar, na tabela 2, o número de construções existentes no corpus relativas
a cada uma das cinco preposições atestadas (de, em, a, para e com), sendo
possível perceber que as construções com predicadores que regem (ou deveriam
reger, teoricamente) a preposição de são aquelas com maior número de
ocorrências.
Tabela 2. Construções, queístas e não-queístas, existentes por preposição.
______________________________________
|Categoria gramatical|Preposição_____|
|____________________|de_|em|a|para|com|
|Verbos______________|61_|6_|6|5___|2__|
|Nomes_______________|78_|0_|0|0___|1__|
|Adjetivos___________|2__|0_|1|0___|0__|
|TOTAL_______________|141|6_|7|5___|3__|
Na tabela 3, podemos, ainda, observar a percentagem de construções queístas
correspondente a cada preposição, o que nos permite constatar que a preposição
em é aquela que apresenta o valor mais alto de ausência de preposição, ao
contrário de com, que apresenta o menor valor.
Tabela 3. Construções queístas por preposição (%).
___________________________________________
|Categoria gramatical|Preposição__________|
|____________________|de__|em_|a___|para|com|
|Verbos______________|96.7|100|0___|20__|0__|
|Nomes_______________|87.2|-__|-___|-___|0__|
|Adjetivos___________|50__|-__|100_|-___|-__|
|TOTAL_______________|90.8|100|14.3|20__|0__|
O gráfico que se segue pretende ilustrar os dados apresentados na tabela 3,
dispondo, em ordem decrescente, os valores percentuais de construções queístas
referentes a cada preposição.
Subtipo de verbo
Para melhor compreendermos o funcionamento e a variação da preposição de em
complementos de predicadores verbais, classificámos os verbos que selecionam
esta preposição em três subtipos: pronominais – como lembrar-se e aperceber-se;
ditransitivos – como informar e convencer; e intransitivos – como gostar e
precisar.
Apresentamos, então, na tabela 4, o número de construções queístas e não-
queístas existentes no corpus relativas a cada um dos subtipos de verbo.
Tabela 4. Construções queístas e não-queístas por subtipo de verbo.
____________________________________________
|Subtipo de verbo|Número_de_construções___|
|________________|Queísta|Não-queíst|Total|
|Pronominal______|30______|1___________|31___|
|Ditransitivo____|2_______|0___________|2____|
|Intransitivo____|27______|1___________|28___|
|TOTAL___________|59______|2___________|61___|
Transpondo a tabela anterior para valores percentuais, e observando o gráfico
4, percebemos que os verbos ditransitivos registam a maior percentagem de
construções queístas (100%), seguidos dos verbos pronominais (96,8%) e dos
intransitivos (96,4%).
4.1.2. Discussão
No que respeita à distribuição do queísmo por categoria gramatical do
predicador[10], encontrámos os predicadores verbais e nominais com elevada
percentagem de construções queístas. No entanto, os segundos obtiveram um valor
ainda mais alto do que os primeiros, contradizendo a descrição de Barbosa
(2013), segundo a qual a omissão da preposição com predicados nominais (e
adjetivais) teria “um estatuto algo marginal relativamente à norma-padrão”
(idem: 1891), quando comparada com a omissão da preposição em complementos de
predicados verbais.
Neste sentido, é de salientar que, no que respeita aos predicadores nominais, a
ausência de preposição é especialmente comum no contexto de perífrases formadas
por um verbo suporte e uma expressão nominal, como se demonstra nos seguintes
enunciados:
“Dá-me a impressãoque até foi o Primeiro Ministro.”(PSFB, 31H3D)[11]
“Eles têm noção • •que fazem isso” (PSFB, 02H1B)
“Também ninguém estava à esperaque aquilo acontecesse, não é?” (PSFB,
70M3B)
“Ela estava sempre com medo que eu apanhasse frio” (PSFB, 16H2C).
Quanto à variável preposição, verifica-se que há duas preposições com maior
tendência a não serem realizadas – em e de (com valores superiores a 90%) –, ao
contrário de para, a e com (com valores até 20%), revelando-se, por isso, um
fator crucial para o entendimento do fenómeno do queísmo. Observem-se alguns
exemplos do nosso corpus:
em:“Primeiro, eu não não concordoque venham os estrangeiros mandar
cá.”(PSFB, 87M4C)
de:“(…) o homem que atropelou ficou convencido que ele se dava/ que
gostava muito da mulher” (PSFB, 76M3B).
para:“Contribuípara que ele saísse, que não gostava dele”(PSFB,
62M2C)
a:“E isto levoua que a cidade, primeiro,crescesse.”(PSFB, 43H4D)
com:“O depósito fica cá em baixo, onde existe uma bomba que • • faz
com que a água circule.” (PSFB, 02H1B).
Os dados obtidos são, realmente, esclarecedores da importância da preposição
selecionada pelos predicadores para o condicionamento da sua presença/ausência
na oração completiva finita, na medida em que encontramos uma preposição com
100% de construções queístas – em – e outra com 0% de ocorrências sem
preposição – com. Assim, podemos afirmar que o queísmo se verifica sobretudo
“nos casos em que a preposição não tem um contributo semântico significativo”
(Barbosa, 2013: 1890), como é o caso da preposição de,geralmente vazia de
significado, e da preposição em, em contextos particulares como em concordar
emouinsistir em:
“Mas insistimosque gostávamos de entrar” (PSFB, 19H2D).
De notar que as estruturas com a preposição com selecionada por predicadores
verbais “constituem um caso especial” (Arim, 2008: 50), uma vez que, diante de
complementos oracionais (finitos ou infinitivos), esta preposição é substituída
por em (tal como acontece, por exemplo, com o verbo concordar(12)).É, por isso,
possível que esta variação seja responsável pela não-realização da preposiçãoem
com argumentos oracionais finitos.
(12) a. O aluno concordou com a professora.
b. Os alunos concordaram (em) que sairiam mais cedo.
Por outro lado, também as construções com o verbo fazer “são muito
particulares, pois, se em todos os outros casos abordados a preposição está
presente diante de complementos nominais e não é realizada diante de
complementos oracionais, aqui passa-se precisamente o inverso” (idem: 51):
(13) a. O chefe fez isso.
b. ??O chefe fez que ele fosse demitido.
c. O chefe fezcom que ele fosse demitido. (idem, ibidem)
No exemplo (13c) a construção tem um sentido causativo ao qual não é alheio o
emprego da preposição com em combinação com fazer, o que pode justificar a
impossibilidade de supressão da preposição neste contexto.
Em síntese, os dados revelam que são as preposições puramente gramaticais que
são omitidas, o que é compatível com a hipótese avançada na secção 2.2, segundo
a qual a distribuição da preposição é regulada por uma restrição gramatical,
nomeadamente o Filtro do Caso.
Relativamente à variável subtipo de verbo, utilizada para compreender melhor o
funcionamento da preposição de em complementos de predicadores verbais, não se
verifica grande variação nem significativa diferença entre verbos pronominais,
ditransitivos e intransitivos, pelo que não é possível afirmar que o subtipo de
verbo condicione a presença/ausência de preposição.
Um fator que tem sido apontado como sendo determinante para a ocorrência de
queísmo é o contacto sintático de construções (Arim, 2008: 57). Nesta
perspetiva, os verbos pronominais e alguns verbos ditransitivos, como lembrar e
recordar, deveriam obter resultados de queísmo (bastante) mais elevados do que
os intransitivos, pois podem ocorrer em mais do que uma construção sintática.
De facto, os verbos pronominais obtiveram, no nosso corpus, uma percentagem
mais elevada de construções queístas (96,8%) do que os intransitivos (96,4%),
mas esta diferença é demasiado ténue e insuficiente para justificar a hipótese
do contacto sintático de construções. Por outro lado, os dois únicos verbos
ditransitivos atestados no corpus(avisar e ameaçar), mesmo não possuindo um
quadro de subcategorização alternativo, registaram 100% de queísmo:
“E vinha avisar as pessoasque saíssem • • das casas” (PSFB, 86M4C)
“Ele ameaçava-meque me dava dois tiros.” (PSFB, 55M2A).
Deste modo, a possibilidade de maior ocorrência de construções queístas com
verbos que admitem dois quadros de subcategorização diferentes não é comprovada
no nosso corpus.
No caso dos verbos pronominais, é particularmente clara a correlação existente
entre a presença da preposição e o Caso. É sabido que o pronome se recebe Caso
Acusativo. Deste modo, o argumento interno de um verbo conjugado
pronominalmente tem de ser forçosamente um oblíquo. Assim, sempre que o
argumento interno é uma expressão nominal, a preposição de é obrigatoriamente
inserida. Assumindo que as orações finitas não necessitam de Caso, compreende-
se que a inserção da preposição seja desnecessária:
“Ainda me lembroque o Braga jogava cá com o Varzim” (PSFB, 32H3D)
“Apercebi-meque estão a meter tubagens.” (PSFB, 58M2B).
Alguns autores (cf. Mollica, 1989) consideram, ainda, que “são os verbos mais
frequentes aqueles que mais ocorrem em construções queístas” (Arim, 2008: 57);
assim, em relação aos verbos intransitivos, verificamos que, de facto, os mais
frequentes dão conta da maioria das construções queístas: por exemplo, o verbo
gostar representa 17 das 28 ocorrências com esse subtipo de verbos,
apresentando 100% de construções queístas:
“E eu gostariaque essa lei mudasse, por favor.” (PSFB, 48M1B)
“O pai também não gostavaque eles saíssem à noite” (PSFB, 74M3C).
Dentro dos verbos pronominais, lembrar-se, recordar-se e esquecer-se
representam a maior parte das construções com esse subtipo de verbo (23 em 31),
sendo todas elas queístas:
“Recordo-meque fui ver a Pequena Sereia ao cinema.” (PSFB, 64M2D)
“E só se vê as pessoas pouco (…) antes de chegar o verão a começarem
a correr, portanto esquecem-seque passaram o inverno todo a comer.”
(PSFB, 09H1D).
4.2. Variáveis extralinguísticas
4.2.1. Resultados da análise
Idade
Expomos, agora, os resultados relativos às construções queístas recolhidas do
nosso corpus no que respeita à sua distribuição por faixa etária. É, então,
possível verificar, através da observação da tabela 5 e do gráfico 5, que os
falantes entre os 60 e os 75 anos de idade são os que apresentam valores mais
elevados de ausência da preposição, por oposição aos falantes com mais de 75
anos.
Tabela 5. Construções queístas por faixa etária (%).
____________________________________________________
|Categoria gramatical|Faixa_etária__________________|
|____________________|Faixa_1|Faixa_2|Faixa_3|Faixa_4|
|Verbos______________|77.8___|85.7___|89.7___|64.3___|
|Nomes_______________|90.9___|88.9___|90.7___|68.8___|
|Adjetivos___________|-______|100____|50_____|-______|
|TOTAL_______________|85_____|86.8___|89.2___|66.7___|
Escolaridade
Relativamente às construções queístas recolhidas do nosso corpus no que
concerne à variável escolaridade, podemos notar, pela observação da tabela 6 e
do gráfico 6, que os falantes sem diploma (0-3 anos de escolaridade) são os que
apresentam valores mais elevados de queísmo, por oposição aos falantes com
licenciatura.
Tabela 6. Construções queístas por grau de escolaridade (%).
________________________________________________
|Categoria gramatical|Grau_de_escolaridade_______|
|____________________|Grau_A|Grau_B|Grau_C|Grau_D|
|Verbos______________|100___|76.9__|88____|75.8__|
|Nomes_______________|87.5__|94.1__|87____|80.6__|
|Adjetivos___________|-_____|-_____|50____|100___|
|TOTAL_______________|94.1__|86.7__|86____|78.5__|
Finalmente, apresentamos, na tabela 7, as percentagens de construções
reveladoras de queísmo no cruzamento de ambas as variáveis – idade e
escolaridade.
Tabela 7. Construções queístas por faixa etária e grau de escolaridade (%).
__________________________________________________________
|Grau de escolaridade|Faixa_etária__________________|TOTAL|
|____________________|Faixa_1|Faixa_2|Faixa_3|Faixa_4|_____|
|Grau_A______________|-______|100____|91.7___|100____|94.1_|
|Grau_B______________|75_____|66.7___|92.9___|100____|86.7_|
|Grau_C______________|90_____|90.9___|82.4___|83.3___|86___|
|Grau_D______________|83.3___|89.5___|90.3___|11.1___|78.5_|
|TOTAL_______________|85_____|87.2___|89.3___|66.7___|84___|
4.2.2. Discussão
No que concerne à distribuição do queísmo por idade e escolaridade dos
falantes, verifica-se que os falantes da Faixa etária 4 revelaram uma menor
percentagem de construções queístas (66,7%) do que os da Faixa etária 1 (85%) e
que os falantes de Grau D demonstraram uma menor percentagem de construções
queístas (78,5%) do que os de Grau A (94,1%).
Contudo, a variável idade não apresenta uma diferença muito significativa nas
três primeiras faixas etárias (15-75 anos), e, curiosamente, os falantes das
Faixas 2 e 3 apresentam valores de queísmo ainda mais altos do que os da Faixa
1.
Por sua vez, a variável escolaridade demonstra que os falantes não-
escolarizados (Grau A) são, de facto, os que mais produzem construções
queístas; porém, não se verifica grande diferença entre os dois graus
intermédios (Graus B e C). Neste contexto, é sobretudo interessante observar
que, no cruzamento de ambas as variáveis, o valor que se revela realmente
significativo é o dos falantes de Faixa etária 4 (>75 anos) e de Grau D
(licenciatura), que apresentam uma percentagem muito baixa de omissão da
preposição (apenas 11,1%); todos os outros cruzamentos demonstram percentagens
elevadas de queísmo. Verificamos, então, que a escolarização parece ter tido um
grande impacto nos falantes com mais de 75 anos, pelo que pressupomos que as
construções queístas eram, na época, alvo de correção sistemática em níveis
escolares mais avançados. Tal torna-se evidente quando comparamos estes
falantes aos falantes sem escolarização ou com pouca escolarização da mesma
faixa etária, que registam 100% de construções queístas. Esta observação
permite concluir que não estamos perante um fenómeno de mudança linguística.
Posto isto, podemos confirmar que o fenómeno do queísmo é, de facto, muito
frequente no discurso oral dos falantes bracarenses, ocorrendo tanto em
falantes mais jovens como em mais velhos e mesmo em falantes escolarizados.
4.3. Comparação com o corpus REDIP
No que respeita à comparação dos resultados obtidos no nosso corpus com os do
corpus REDIP[12] (Arim, 2008), observamos que, em ambos, o fator ‘preposição'
foi decisivo na presença/ausência de construções queístas; deste modo, as
preposições a,com e para foram realizadas na quase totalidade dos casos em
ambos os corpora; a preposição em “não ocorre em seis de sete construções”
(idem: 56) no corpus REDIP, demonstrando elevada percentagem de queísmo, tal
como no PSFB; quanto à preposição de, “verificou-se que existe uma forte
tendência para a sua não-realização (86% dos casos)” (idem, ibidem) no corpus
REDIP, embora seja inferior à verificada no corpus do PSFB (tal pode dever-se
ao facto de o corpus REDIP incluir as construções produzidas em registo
escrito, pois, como Arim conclui, o queísmo é menos frequente neste registo).
No que respeita ao subtipo de verbos que regem a preposição de, verificou-se,
no corpus REDIP, que “as construções com verbos pronominais são
predominantemente queístas (88% dos casos); com verbos ditransitivos, a
variação observada não foi significativa; com verbos intransitivos, não foi
identificado um único caso com a preposição realizada” (idem, ibidem); neste
sentido, o fator ‘subtipo de verbo' parece demonstrar-se mais significativo no
corpusREDIP do que no nosso corpus. De qualquer forma, em ambos se obtiveram
elevadas percentagens de construções queístas.
Assim sendo, entendemos que o fenómeno do queísmo no “falar bracarense” parece
coincidir com a tendência geral do português europeu, embora não tenhamos ainda
resultados deste fenómeno em função da idade e da escolaridade para falantes de
outras regiões portuguesas, nem estudos aprofundados sobre o tema que nos
permitam assegurar que o fenómeno se encontra presente, de forma semelhante, em
todo o território nacional.
5. Conclusão
Como ponto de partida deste trabalho, propusemo-nos estudar o fenómeno do
queísmo nas produções orais de falantes bracarenses, através de uma análise
sociolinguística do fenómeno. Deste modo, podemos retirar algumas conclusões a
partir da observação dos dados e dos resultados obtidos.
A primeira conclusão a registar é que, tal como se explica na Gramática do
Português, “não existe paralelismo entre as orações completivas oblíquas de
tempo finito e os sintagmas nominais oblíquos. Estes são sempre introduzidos
por preposição; as orações podem exigir a presença da preposição ou admitir a
sua supressão” (Barbosa, 2013: 1872). Pelo observado no nosso corpus, pudemos
comprovar que a omissão da preposição foi, aliás, a opção preferida pelos
falantes, tendo ocorrido em grande parte das construções (seja com predicadores
verbais, nominais ou adjetivais).
Parece, então, que o argumento segundo o qual a regência de um verbo/nome/
adjetivo deve ser generalizável a todas as estruturas em que ocorre é falível:
“se se diz ‘acredito nele', mas é agramatical dizer ‘acredito em que ele é
inocente', porque deverá a preposição estar presente numa construção como
‘duvido que ele seja inocente'?”, questiona, e com razão, Arim (2008: 59), no
seu estudo sobre o queísmo. Este argumento, entre outros, leva a autora a
colocar a hipótese de que “construções como ‘gosto de que me elogiem' possam
constituir preciosismos, devido a uma generalização abusiva, sendo nestes casos
as variantes não-preposicionadas as canónicas” (idem, ibidem). A opinião da
autora é, de facto, congruente com os dados que recolhemos no nosso corpus, uma
vez que um grande número de itens lexicais (especialmente os que selecionam as
preposições de e em) apresenta 100% de construções com queísmo, revelando,
assim, que a opção queísta, não-preposicionada, é tida pelos falantes como a
mais natural.
A segunda conclusão diz respeito à distribuição do fenómeno por idade e
escolaridade. Tem sido referido que as construções sem preposição são,
sobretudo, comuns entre os jovens e que são intuídas pelos falantes mais velhos
ou mais escolarizados como um desvio à norma-padrão, apesar de também poderem
ser encontradas na fala de pessoas com um elevado nível de instrução (cf.
Barbosa, 2013: 1890, 1896). De facto, as gerações de falantes com menos de 75
anos demonstraram mais ocorrências de construções queístas; no entanto, a
percentagem de queísmo é igualmente considerável nos falantes mais velhos, com
mais de 75 anos (66,7%), evidenciando que a tendência para o queísmo é comum a
todas as idades. Do mesmo modo se comprova que os falantes mais escolarizados
também realizam frequentemente estas construções (78,5%). Assim sendo, não
parece que os falantes, em geral, considerem as construções não-preposicionadas
como um ‘desvio à norma', nem mesmo os mais velhos ou os escolarizados (caso
contrário, tentariam evitar produzi-las tão frequentemente) – a não ser,
talvez, os falantes mais velhos e mais escolarizados, tendo em conta os
resultados discutidos na secção anterior. Deste modo, concordamos com a opinião
de Mollica (1995) quando refere que as formas queístas são pouco percetíveis
por parte dos falantes; no entanto, não acreditamos que, nos dias de hoje, o
fenómeno do queísmo constitua fonte de estigmatização linguística, como é
defendido pela autora: “(…) eu categorizo as estruturas queístas como
estigmatizadoras, embora pouco notadas pelos falantes (…).” (idem: 15).
Em síntese, importa reter que, em qualquer variável analisada (com exceção da
variável ‘preposição', que é realmente significativa) foram sempre obtidos
valores de queísmo muito elevados, não se encontrando diferenças consideráveis
entre predicadores, subtipo de verbos, faixas etárias ou graus de escolaridade.
A generalização e naturalidade do queísmo, bem como o facto de as preposições
que mais se destacam serem as puramente gramaticais, tradicionalmente
consideradas marcadoras de Caso gramatical, são fatores indicativos de que o
processo subjacente ao fenómeno em apreço é estrutural e decorre de restrições
impostas pela gramática interiorizada dos falantes. Por hipótese, os
complementos oracionais de tempo finito, contrariamente às expressões nominais
e às orações infinitivas, não necessitam de Caso, razão pela qual dispensam a
inserção da preposição.
Com este estudo, esperamos ter disponibilizado informação de interesse para a
compreensão do fenómeno do queísmo no falar bracarense e, por extensão, no
português europeu. No entanto, reconhecemos a necessidade de se recolherem mais
dados noutras zonas do país, para que se encontrem e estabeleçam, de facto,
regularidades no funcionamento das construções queístas. Além disso,
consideramos que não foram, naturalmente, esgotadas todas as hipóteses de
análise do tema e que possa haver, ainda, outros aspetos e possibilidades
merecedoras de um estudo mais pormenorizado e aprofundado, permitindo que
outros caminhos analíticos sejam explorados no que concerne ao estudo do
queísmo no português europeu hodierno.