A competência fonológica de falantes bilingues luso-alemães: um estudo sobre
sotaque global, compreensibilidade e inteligibilidade da sua língua de herança
0. Introdução
A investigação na área da perceção e produção de sons de uma L2 tem mostrado
que a idade de aquisição da língua segunda é um fator decisivo no
desenvolvimento da competência fonológica do falante (Abrahamsson &
Hyltenstam, 2009). A probabilidade de um falante L2 desenvolver sotaque não
nativo na segunda língua aumenta significativamente com o avançar da idade
(Flege, Munro, & Kay, 1995; Flege, Yeni-Komshian, & Liu, 1999). Long
(1990), por exemplo, propõe a idade dos seis anos como limite etário crítico a
partir do qual a competência fonológica do falante adquire traços não nativos,
justificando esta proposta com a existência de um período crítico para a
aquisição da linguagem. Vários outros proponentes da hipótese do período
crítico (e.g. Lenneberg, 1967; Scovel, 1969; DeKeyser, 2000) sugerem que uma
proficiência linguística nativa não é possível se a idade de aquisição da L2
for após os 12 anos de idade. No que diz respeito ao sotaque não nativo, a
idade tem sido apontada como um aspeto determinante na produção e perceção dos
sons L2. Contudo, alguns estudos (e.g. Flege, Frieda, & Nozawa, 1997)
sugerem que uma idade de aquisição precoce não implica necessariamente uma
produção de fala L2 sem sotaque não nativo. Igualmente, outros trabalhos
propõem que os falantes com idade de aquisição superior a 12 anos podem
aprender a produzir fala L2 sem sotaque estrangeiro (e.g. Flege, Munro, &
MacKay, 1995). Propostas alternativas (Flege, 1995; Flege, Munro, & MacKay,
1995; Flege, Frieda, & Nozawa, 1997; Guion, Flege, & Loftin, 2000;
Piske et al, 2001; Piske, Flege & MacKay, 2002) não relacionam as
dificuldades de falantes L2 tardios com fatores de maturação biológica, mas sim
com o tipo de exposição à língua-alvo. Segundo Flege e Liu (2001) e MacKay et
al. (2001), os falantes adultos L2 têm significativamente menos inputda L2 e
mais contacto com falantes não-nativos, usando com maior frequência a sua L1.
Esta linha de argumentação não atribui as diferenças de sotaque entre falantes
L1 e falantes L2 apenas à idade de aquisição, mas (também) à quantidade e
qualidade de input recebido, assim como à influência da L1, usada com mais
frequência do que a L2 (Piske, MacKay, & Flege, 2001).
Neste âmbito, a competência fonológica de falantes de herança constitui um caso
de estudo muito interessante. Falantes de herança são emigrantes de segunda ou
terceira geração, que crescem num contexto linguístico muito particular. Em
regra, são expostos desde a nascença à língua de origem da sua família, a sua
língua de herança (LH). O contacto com a língua de herança limita-se à
comunicação no seio da família, a períodos de férias passados no país de
origem, alguma exposição através da televisão e (nem sempre) à frequência de um
curso extracurricular de língua de herança. O contacto com a língua do país de
acolhimento intensifica-se a partir do momento em que a criança entra no
infantário ou na escola e começa a criar laços sociais mais estáveis fora do
contexto familiar. Geralmente, a língua maioritária torna-se a língua dominante
destes falantes bilingues. Neste caso estamos, portanto, perante dois fatores
que se contrapõem. Por um lado, a exposição à língua de herança dá-se desde a
nascença, ou seja, a idade de aquisição favorece o desenvolvimento de uma
competência fonológica nativa. Por outro lado, o contacto com a língua de
herança é muito mais reduzido do que o contacto com a língua maioritária, que é
a língua da escolarização e da socialização, o que poderá favorecer processos
de transferência. Uma questão central que advém desta situação linguística
particular é perceber que fatores mais influenciam o desenvolvimento da
competência fonológica, em especial do sotaque, destes falantes bilingues na
sua língua de herança: a suposta vantagem dada pela exposição precoce à língua
ou a aparente desvantagem de um input limitado à LH e maior frequência de uso
da língua maioritária.
A maioria dos estudos sobre o desenvolvimento de sotaque global nativo/não
nativo tem focado falantes adultos que iniciam a aquisição de uma L2 após os 12
anos (e.g., Bongaerts, Planken, Schils, 1995; Bongaerts et al., 1997; Moyer,
1999) ou em idade pós-pubertária (e.g. Flege & Fletcher, 1992; Munro,
Derwing, 2001). Os estudos que incidem sobre falantes bilingues simultâneos são
menos frequentes e os seus resultados não são unânimes, mostrando que a idade
de exposição poderá, de facto, não ser a variável mais decisiva no
desenvolvimento da pronúncia, como sugerem Kupisch et al. (2014).
O objetivo do presente estudo consiste em contribuir para esta discussão com
dados de um grupo de falantes ainda não analisado em estudos fonéticos:
falantes lusodescendentes que cresceram na Alemanha com exposição regular ao
português, no seio da família, e ao alemão, a língua do meio ambiente.
Comparando produções de fala destes falantes com produções de falantes
monolingues de PE e falantes alemães que aprenderam o português como L2 em fase
adulta, estando num nível muito avançado de aquisição da L2, pretendemos
averiguar se os falantes bilingues apresentam um sotaque em PE mais próximo do
dos falantes monolingues ou se se aproximam mais do sotaque de falantes L2.
Este grupo de falantes de herança partilha com os falantes monolingues a idade
de aquisição da língua portuguesa (à nascença) e com os falantes L2 a presença
dominante do alemão no seu meio ambiente linguístico.
Na secção seguinte serão apresentados alguns estudos prévios sobre a avaliação
de sotaque de populações bilingues.
1. Sotaque nativo/não nativo na aquisição bilingue
Num estudo em que comparam o sotaque de falantes bilingues de alemão e inglês
ou holandês com o sotaque de aprendentes tardios e de falantes monolingues de
alemão, Hopp e Schmid (2013) concluíram que os falantes bilingues, mesmo já não
vivendo na Alemanha há vários anos, continuaram a ter um sotaque muito
semelhante ao sotaque nativo, afastando-se do sotaque de falantes L2 do alemão.
Kupisch et al. (2014) mostraram que em falantes bilingues simultâneos de
francês e alemão/italiano e alemão o sotaque nativo foi identificado apenas na
sua língua dominante, apresentando marcas de sotaque não nativo na língua
adquirida desde a infância, que não é a língua do meio ambiente. Também Oh,
Jun, Knightly e Au (2003), num estudo sobre falantes de origem coreana a viver
nos EUA, que tiveram contacto muito reduzido com o coreano durante a infância,
sugerem que a exposição precoce à língua não garante a aquisição nativa dos
padrões fonéticos da mesma, se a exposição for muito limitada. No entanto, há
dados que indicam que a exposição precoce traz vantagens, pois num estudo sobre
a realização de VOT (tempo de início de vozeamento), os participantes coreano-
descendentes apresentaram resultados muito mais próximos de falantes nativos do
coreano, comparando com aprendizes tardios desta língua. Conclusões semelhantes
foram também apresentadas por Au, Knightly, Jun e Oh (2002) e Knightly, Jun, Oh
e Au (2003) em estudos sobre a produção de VOT por falantes hispano-
descendentes com caraterísticas semelhantes às dos participantes coreanos (ou
seja, com contacto muito limitado ao espanhol na infância). Já Fowler, Sramko,
Ostry, Rowland and Hallé (2008), que estudaram bilingues simultâneos de inglês
e francês, também em relação à sua realização de VOT, concluíram que os dois
sistemas linguísticos de falantes bilingues tendem sempre a influenciarem-se
mutuamente, mesmo quando os falantes crescem com contacto muito regular com
ambas as línguas. Neste sentido apontam também as conclusões do estudo de
Stangen et al. (no prelo) sobre falantes bilingues de turco e alemão,
residentes na Alemanha. As autoras mostram que, apesar de apresentarem alta
proficiência em ambas as línguas, apenas um número reduzido de falantes de
herança turcos são avaliados como tendo um sotaque nativo em ambas as suas
línguas. A maioria apenas é considerada ‘nativo' a nível da pronúncia do
alemão, a língua maioritária. Vários participantes são mesmo julgados como
evidenciando um sotaque estrangeiro em ambas as suas línguas, o alemão e o
turco, o que parece indicar que, apesar de terem exposição às duas línguas
desde a nascença/infância precoce, outras variáveis linguísticas e extra-
linguísticas podem influenciar o desenvolvimento da pronúncia de bilingues de
herança.
Além de comparar as produções orais de diferentes tipos de falantes quanto à
avaliação do seu sotaque por parte de falantes nativos de uma língua, vários
estudos conduzidos nesta área também pretenderam analisar a relação entre a
avaliação de sotaque estrangeiro e o grau de inteligibilidade e de
compreensibilidade dos enunciados orais produzidos pelos mesmos falantes. Neste
âmbito, destacam-se os trabalhos desenvolvidos por Murray Munro e Tracey Derwin
(Munro & Derwin, 1995; Derwin & Munro, 1997, entre outros), segundo os
quais o sotaque, a compreensibilidade e a inteligibilidade são três dimensões
globalmente autónomas mas que podem influenciar-se. A inteligibilidade refere-
se à perceção da qualidade do enunciado que se pode ouvir com maior ou menos
clareza e que é compreendido (ou não) pelo ouvinte. Esta dimensão é usualmente
analisada através de transcrições ortográficas de palavras, sintagmas ou
frases. A compreensibilidade refere-se à faculdade de descodificar e apreender
a mensagem de um enunciado oral. A facilidade ou dificuldade em perceber um
determinado enunciado oral é normalmente medida através de escalas de Likert. A
dimensão sotaque refere-se à perceção do ouvinte relativamente ao grau de
sotaque do falante, ou seja, quão próximo ou distante o sotaque é relativamente
à pronúncia nativa. Os métodos utilizados para avaliar de grau de sotaque podem
ser vários, incluindo o uso de escalas de Likert, de escalas contínuas ou
avaliações binárias. (Munro & Derwin, 1995). Assim, as avaliações que foram
realizadas por ouvintes nativos de inglês das produções orais de falantes
chineses de inglês L2, estudados em Munro e Derwin (1995), demonstraram que
existe uma certa correlação entre o grau de inteligibilidade e de
compreensibilidade e entre o grau de compreensibilidade e de sotaque. No
entanto, este estudo em particular concluiu que a correlação entre estas três
dimensões não foi muito forte nem consistente em todos os falantes. Os autores
mostraram ainda que um forte sotaque global não nativo não influenciou (i.e.,
não impediu) necessariamente a inteligibilidade e a compreensibilidade dos
enunciados orais produzidos por falantes chineses. Além disso, os resultados
sugerem também que os avaliadores falantes de inglês L1 foram consistentemente
mais severos a julgar o sotaque global do que a avaliar o grau de
compreensibilidade e inteligibilidade da fala L2 produzida pelos participantes
chineses.
2. Os sistemas fonológicos do português europeu e do alemão
Nesta secção, comparamos sucintamente as principais caraterísticas dos sistemas
fonológicos do alemão e do português europeu, destacando as diferenças entre as
duas línguas que poderão estar na origem de processos de transferência
interlinguística e consequente desenvolvimento de sotaque estrangeiro. Sabendo
que existem diferentes propostas para a descrição do sistema de sons de ambas
as línguas, nomeadamente para o número de fonemas atribuído a cada uma,
recorremos essencialmente às descrições de Barroso (1999), Mateus (1990) e
Mateus et al.(2005) para o PE e de Flämig (1991) e Kohler (1995) para o alemão.
2.1. O sistema consonântico
O sistema consonântico do PE apresenta 19 fonemas (Faria et al., 1996; Mateus,
Falé & Freitas, 2005). O alemão, seguindo Flämig (1991), tem 20 fonemas,
contudo, possui um conjunto maior de sons consonânticos que não têm função
distintiva e, por isso, a sua classificação enquanto fonema/fone não reúne
consenso. A Tabela 1 apresenta, de forma contrastiva, os sistemas consonânticos
de ambas as línguas, indicando os fonemas e respetivas realizações fonéticas.
* A inclusão de /j/ e /w/ no inventário consonântivo português, proposta por
Barroso (1999) e Morais Barbosa (1983) é contestada por Mateus et al. (1990) e
Mateus, Falé e Freitas (2005), No entanto, esta é uma discussão que não tem
relevância para o presente estudo. Optámos por incluir as semivogais aqui por
razões de apresentação contrastiva com o alemão, no qual /j/ é considerado uma
consoante (Flämig, 1991).
Como se pode verificar na Tabela_1, em ambos os sistemas há fonemas que podem
ser considerados como correspondentes, por partilharem os mesmos traços
distintivos. Ao contrário do português, o alemão tem oclusivas surdas aspiradas
([ph, th, kh] como realizações fonéticas de /p, t, k/, respetivamente, em
início de palavra. Por sua vez, o alemão não tem os fones fricativos não
estridentes ou espirantes [β, ð, ɣ], que em PE ocorrem em posição intervocálica
e pré-consonântica (i.e., nos grupos consonânticos homossilábicos br, bl, dr,
dl, gr e gl). O português inclui os fonemas palatais /ɲ/ e /ʎ/, inexistentes no
alemão. Por sua vez, o alemão possui o fonema /h/ em posição inicial de sílaba
e a consoante nasal velar [ŋ] em posição final. Além disso, o alemão, ao
contrário do português, possui a oclusiva glotal [ʔ], que precede vogais em
posição inicial de palavras, embora o estatuto deste som enquanto fonema não
reúna consenso entre os foneticistas. Também o estatuto de /ʒ/é debatido, pois,
apesar de ter valor distintivo no sistema alemão, ocorre apenas em
estrangeirismos, pelo que não é considerado um som alemão. Outro fonema alemão
sem correspondência em português é a consoante fricativa /ç/, realizada, de
forma complementar, como palatal [ç] ou velar [x], conforme o som precedente. O
português e o alemão também apresentam diferenças relativamente às aproximantes
palatal /j/ e velar labializada /w/, que em português ocorrem em posição
intervocálica. O alemão só dispõe de /j/, que ocorre em posição inicial de
sílaba. Uma diferença marcante entre o alemão e o português diz respeito às
consoantes vibrantes /r/ e / r̄/, realizadas como [ɾ] e [r, R], respetivamente.
Os fones [r, R] são variantes livres, ou seja, são alofones que decorrem da
diversidade dialectal, sociolectal ou idiolectal (Mateus et al., 2005). A norma
padrão alemã só dispõe da vibrante uvular [R], existindo variação dialetal
quanto à ocorrência de [r]; já [ɾ] não tem equivalente em alemão. Por sua vez,
a língua alemã dispõe das consoantes africadas /pf/ e /ts/ em posição inicial
de sílaba, cuja classificação fonemática, porém, também não é unânime. Por fim,
o alemão e o português apresentam substanciais diferenças quanto à distribuição
dos fonemas e suas posições de neutralização.[1] Assim, por exemplo, as
oposições que, no português, envolvem os fonemas sibilantes e chiantes (/s/, /
z/, /ʃ/, /ʒ/), nasais (/m/, /n/, /ɲ/), laterais (/l/, /ʎ/) e vibrantes (/r/, /
r̄/) neutralizam-se em certas posições. A posição final de sílaba é aquela em
que todas as oposições neutralizáveis se neutralizam. O contóide lateral
velarizado [ɫ] é a realização fonética do arquifonema lateral /L/ nesta
posição. O arquifonema sibilante-chiante /S/ pode realizar-se, nesta posição, e
em função do contexto, como [ʃ] (antes de contóide surdo ou de pausa), [ʒ] (se
seguido de contóide sonoro) ou [z] (devido a um processo de ressilabificação).
No alemão, por exemplo, as sibilantes /s/ e /z/ só formam par distintivo em
posição intervocálica, apresentando uma distribuição complementar nas posições
iniciais e finais de sílaba (/s/ só ocorre em final de sílaba e /z/ em início).
2.2. O sistema vocálico
Ao nível fonológico, o sistema vocálico do português europeu contém sete vogais
orais (/i/, /e/, /E/, /a/, /ɔ/, /o/, /u/), segundo Mateus, Falé e Freitas
(2005). Ao nível fonético, o inventário do português inclui nove vogais orais e
cinco nasais (Barroso, 1999), apresentadas na Tabela 2. O alemão tem 16 vogais,
representadas na Tabela 3. Uma diferença fundamental entre ambos os sistemas
está relacionada com o facto de o português, ao contrário do alemão, possuir
vogais nasais. As cinco vogais nasais ocorrem em posição pré-tónica e em
posição pós-tónica ocorrem apenas duas ([ɐ̃], [ũ]) (Barroso, 1999). Por sua
vez, em alemão, a ‘duração' é um traço distintivo, originando a distinção entre
oito vogais longas e oito vogais curtas. Enquanto em português todas as vogais
anteriores são não arredondadas e as posteriores são arredondadas, o alemão
distingue entre vogais anteriores arredondadas e não arredondadas, tendo as
vogais /Y, y:, ø:, œ/, inexistentes em português.
2.3. A prosódia
A nível suprassegmental, tanto o alemão como o PE têm várias caraterísticas em
comum. Ambas são línguas acentuais, ou seja, o acento é uma propriedade
prosódica com valor distintivo, distinguindo significados (acento de palavra) e
marcando unidades rítmicas (acento nuclear e acento de frase) (Barroso, 1999).
Em PE, o acento pode recair sobre a última, penúltima ou antepenúltima sílabas,
predominando, no entanto, os vocábulos acentuados na penúltima sílaba (esquema
acentual paroxítono). Em alemão existe uma tendência para acentuar a primeira
sílaba da palavra. Em ambas as línguas, a entoação tem igualmente uma função
contrastiva, diferenciando, por exemplo, uma interrogação de uma afirmação.
Igualmente, as duas línguas têm também ritmo acentual, uma vez que apresentam
variação na duração das sílabas, originando diferentes modelos rítmicos.
3. O presente estudo
3.1. Participantes
Neste estudo, participaram 24 falantes de português europeu, cujas produções de
fala foram avaliadas por um grupo de 45 falantes nativos de PE. Nesta secção
serão descritos os três grupos de falantes, nomeadamente o grupo de falantes
bilingues (i.e., o grupo experimental), o grupo de falantes monolingues e o
grupo de aprendentes de PE (i.e., os dois grupos de controlo). Na secção
seguinte serão apresentados os avaliadores.
O grupo de falantes bilingues incluiu 12 participantes com idades compreendidas
entre os 19 e os 30 anos de idade (média = 23.08; DP = 4.01), dez do sexo
feminino e dois do sexo masculino. Os dados biográficos e sociolinguísticos
foram recolhidos através de uma entrevista semiestruturada, gravada e
posteriormente transcrita Todos os participantes cresceram em contexto de
migração num país de expressão alemã, dez participantes na Alemanha e dois na
parte alemã da Suíça. Nove participantes nasceram no país de emigração e três
emigraram com os pais até aos três anos de idade. Seis participantes viviam
ainda na Alemanha, enquanto os outros seis tinham acabado de se mudar para
Portugal no momento da recolha de dados, onde tinham iniciado um curso
universitário (tempo de estadia em Portugal: 3 a 12 meses) [2].
Todos os doze participantes cresceram com exposição diária ao português, falado
no contexto familiar. Em todos os casos, o português era a língua predominante
em casa, sendo o uso do alemão no seio da família restringido à comunicação
entre os irmãos. Além do uso do português como língua da família, os
participantes também reportaram usar a sua língua de herança com outros
falantes lusodescendentes, sobretudo adultos, em convívio com vizinhos, durante
a frequência da missa, da catequese, de associações de cariz cultural ou
desportivo (i.e., em contextos de socialização) e do curso extracurricular de
português língua de herança. Todos os participantes frequentaram estas aulas de
português, ministradas uma a duas vezes por semana (2 a 4 horas) em horário
extra-letivo, entre 7 a 12 anos (média de frequência = 10.00; DP = 1.76).
Nestas aulas extracurriculares aprendiam sobretudo a ler e a escrever em
português.[3] Quando questionados sobre a língua que consideravam ser a sua
língua dominante, todos os participantes indicaram o alemão como a língua na
qual se sentiam mais confortáveis, considerando-se mais proficientes na língua
dominante do que na língua de herança. Mesmo assim, todos afirmaram gostar de
falar português e expressaram uma forte ligação ao país de origem. Todos os
falantes completaram o ensino secundário e estavam, no momento da recolha, a
frequentar (9 participantes) ou já tinham terminado um curso superior (3
participantes). As famílias dos participantes bilingues eram oriundas do norte
de Portugal (duas são do distrito de Vila Real, três do distrito do Porto e as
restantes do distrito de Braga).
O grupo de falantes L2 foi constituído por seis participantes com idades
compreendidas entre os 25 e os 42 anos (média de idades = 30.33; DP = 6.53),
quatro do sexo feminino e dois do sexo masculino. Todos os participantes têm ou
estão a frequentar um curso superior. O primeiro contacto com a língua
portuguesa surgiu nestes falantes já na idade adulta, depois dos 20 anos de
idade, e o interesse puramente pessoal foi o motivo apresentado por todos eles
para terem começado a aprender a língua. Relativamente ao uso da mesma, todos
os falantes dizem usar esta língua, a par da sua L1, quase diariamente no
contexto laboral/universitário, tendo o certificado de nível B2/C1 do QECRL.[4]
Consideramos importante salientar que a aquisição da L2 foi feita por todos os
falantes de forma formal em contexto de sala de aula.
Os seis falantes monolingues que integraram o grupo de controlo tinham entre 26
e 43 anos (média de idades = 32.17; DP = 7.65). Tal como no grupo de falantes
L2, dois eram do sexo masculino e quatro do sexo feminino. Três falantes eram
licenciados e três tinham o diploma de 12º ano. Aquando da realização das
entrevistas, todos os participantes viviam na cidade de Braga, no norte de
Portugal. Nenhum falante monolingue reportou ter conhecimentos da língua alemã,
mas todos aprenderam inglês e outra língua estrangeira (francês ou espanhol)
durante o seu percurso escolar. Também os falantes bilingues e os falantes de
PL2 referiram que dominam outras línguas estrangeira (inglês, espanhol,
francês), no entanto, esta variável não foi analisada no presente estudo.
3.2. Método
3.2.1. Os avaliadores
O grupo de avaliadores (26 M e 18 H, média de idades= 20.6 anos; DP=3.1),
naturais de e residentes no norte de Portugal, foi composto por estudantes
universitários da licenciatura em Línguas e Literaturas Europeias. Este grupo
de avaliadores, com noções básicas de treino em fonética (articulatória) foi
selecionado porque os conhecimentos de linguística e de outras línguas podem
ter um efeito positivo na confiabilidade inter-avaliadores (Thompson, 1991). Os
avaliadores reportaram ter também diferentes níveis de proficiência de outras
línguas europeias, nomeadamente de inglês, francês e castelhano. É de salientar
que foram apenas incluídos aprendentes de alemão como língua estrangeira com um
nível A1 ou A1+ (iniciação), segundo o QECRL.[5] Para além disso, nenhum dos
avaliadores permaneceu num país de língua alemã, por mais de um mês. Todos os
avaliadores reportaram não ter deficiência auditiva.
3.2.2. Estímulos
Os estímulos foram retirados de entrevistas orais conduzidas no âmbito de
diferentes projetos de investigação. A recolha de dados dos doze falantes
bilingues foi feita no âmbito do projeto FCT O Bilinguismo Luso-alemão no
Contexto Europeu e das Ações Integradas Luso-alemãs Erosão e mudança
linguística: uma pesquisa sobre o português falado por emigrantes de segunda
geração[6].A recolha de dados consistiu na realização de entrevistas
semiestruturadas que se centraram em tópicos biográficos e sociolinguísticos,
assim como na comparação entre Portugal e Alemanha, relativamente a assuntos
culturais e políticos. Além disso, foi pedido aos participantes que narrassem
uma história e descrevessem uma imagem.
Os dados dos falantes L2 foram recolhidos na Universidade de Frankfurt,
Alemanha, no âmbito do projeto FCT Português Língua de Herança e Mudança
Linguística[7].Foram realizadas entrevistas a dez falantes com a duração média
de 13 minutos, com estímulos visuais e perguntas formuladas no sentido de obter
um discurso variado do ponto de vista das sequências discursivas. Estes
participantes são falantes nativos do alemão, com um tempo de aprendizagem do
português de pelo menos quatro anos. De seguida foram selecionados seis
falantes de nível linguístico sensivelmente mais homogéneo, de cujas
entrevistas foram retiradas três frases. As entrevistas aos seis falantes
monolingues que integram o grupo de controlo foram realizadas no âmbito do
projeto Perfil Sociolinguístico da Fala Bracarense.[8]Os estímulos selecionados
nos três grupos de participantes apresentam duração e estrutura semelhantes.
3.2.3. Testes
Os três testes aplicados ao grupo de 45 avaliadores portugueses foram
realizados nas mesmas condições e seguindo procedimentos idênticos. Uma vez que
os três testes incluíram os mesmos estímulos, a sua ordem de realização, com um
hiato temporal de uma semana entre cada teste, não foi aleatória. Uma vez que
não há consenso relativamente à ordem sequencial de realização dos testes (cf.
Munro & Derwing, 1995; Jułkowska & Cebrian, 2013) e tendo em conta que
se pretendia evitar efeitos de familiarização nas avaliações de sotaque global,
iniciou-se o estudo com o teste de avaliação de sotaque ao qual se seguiu o
teste de compreensibilidade e, por último, o teste de inteligibilidade, que
foram requerendo gradualmente maior grau de atenção percetiva. O teste de
avaliação global de sotaque foi realizado individualmente numa sessão de 45
minutos, numa sala de computadores. Na semana seguinte, foi realizado o teste
de compreensão numa sessão de 25 minutos em condições idênticas e, na terceira
semana, numa sessão de 45 minutos os avaliadores realizaram o teste de
inteligibilidade.
3.2.3.1. Teste de avaliação de sotaque
O teste de avaliação de sotaque global incluiu estímulos produzidos por vinte e
quatro falantes, tal como descrito na secção 3.2.1. Os estímulos foram
avaliados por 45 falantes monolingues de português europeu quanto ao sotaque e
grau de certeza.
Os estímulos incluíram três frases de cada um dos 24 falantes, num total de 72
frases, que foram selecionadas de acordo com os seguintes critérios: (i) frases
completas (ii) sem erros morfossintáticos ou lexicais; (iii) sem hesitações,
(iv) pausas (longas); e sem referências socioculturais (referentes ao país ou
situação linguística). Uma vez que a duração das frases se encontrava dentro
dos limites da memória sensorial auditiva (cerca de 2-4 segundos, Goldstein,
2011), as três frases foram concatenadas com um intervalo inter-estímulos (ISI)
de dois segundos para que suficiente informação segmental e suprassegmental
fosse apresentada para a avaliação. A velocidade de elocução foi calculada
dividindo o número total de sílabas pela duração da frase (medida em segundos;
sílaba por segundo = sps). A Tabela 4 apresenta informação sobre média de
duração das frases e média de velocidade de elocução. A duração média das
frases produzidas pelos três grupos de falantes não diferiu significativamente
(F (2.21) = .37, p > .05), mas a velocidade de elocução diferiu de acordo com o
grupo de falantes (F (2.21) = 12.47, p = 000). Tal como expectável, os testes
post-hoc de Gabriel revelaram que a velocidade de elocução dos aprendentes de
português L2 foi significativamente mais lenta (sps = 0.23) do que a dos
falantes monolingues de português (p= .000) (sps = 0.14) e a dos falantes
bilingues (p= .01). No entanto, não se verificaram diferenças significativas
entre a velocidade de elocução dos falantes monolingues e a dos falantes
bilingues. (p= .05). Estes dados parecem indicar que há uma associação entre a
velocidade de elocução e a proficiência linguística do português.
Os 24 estímulos (24 sequências de três frases produzidos por 24 falantes)
tinham uma duração idêntica (duração média=10.6s; DP= 1.5) e foram apresentados
duas vezes de forma aleatória, ao longo do teste, totalizando 48 itens. Uma vez
que estudos prévios (e.g., Flege, & Fletcher, 1992; Munro & Derwing,
1994) demonstraram que a familiarização com o conjunto de estímulos conduz a
avaliações mais rigorosas, apenas foram consideradas para análise as avaliações
da segunda apresentação de cada estímulo.
Os estímulos áudio foram apresentados aos avaliadores individualmente, usando,
para a realização dos três testes, a aplicação de software TP, v.3.1 (Rauber et
al., 2012) numa sala de computadores, com auscultadores NGS MSX6 Pro. Antes do
teste, foram dadas instruções sobre os procedimentos a seguir, oralmente e
depois em texto escrito (visível no ecrã do teste). Depois, os avaliadores
realizaram uma tarefa de treino que incluiu quatro sequências de frases que não
foram incluídas no teste: uma sequência de frases produzidas por um falante
monolingue, uma produzida por um falante L2 com um sotaque alemão percetível e
vincado e duas sequências produzidas por dois falantes de herança, para que os
ouvintes pudessem “calibrar” a sua perceção auditiva ao identificar os dois
exemplos extremos do “sotaque português”. Não foram dadas quaisquer informações
sobre quais eram as L1 e L2 dos falantes. O teste de avaliação de sotaque
global consistiu em dois momentos. No primeiro momento, depois de ouvirem a
sequência de três frases, os ouvintes avaliaram o sotaque do falante como
“nativo” ou “não nativo” de português europeu. É de realçar que foram dadas
indicações aos avaliadores para classificarem como “nativo” os sotaques
regionais da zona norte do país. Esta avaliação foi seguida pela indicação do
grau de certeza numa escala de três pontos (1 = certeza; 2 = semi-certeza; 3 =
incerteza) (Hopp & Schmid, 2013; Kupisch et al., 2014). Para análise
estatística, esta escala foi convertida numa escala de Likert de seis pontos (1
= certeza de sotaque nativo; 2 = semi-certeza de sotaque nativo; 3 = incerteza
de sotaque nativo; 4 = incerteza de sotaque não nativo; 5 = semi-certeza de
sotaque não nativo; 6 = certeza de sotaque não nativo). Depois de realizarem o
teste, os 45 avaliadores responderam a um questionário sobre quais os aspetos
fonéticos (pronúncia dos segmentos fonéticos, acentuação de palavra, entoação
das frases, etc.) que determinaram a classificação dos estímulos como tendo um
sotaque não nativo e sobre qual/quais a/s língua/s materna/s dos falantes
identificados como tendo um sotaque global não nativo.
Este teste teve como objetivo principal verificar se os avaliadores, falantes
nativos de português europeu, identificam o sotaque dos falantes de herança de
português que vivem num país onde a língua dominante é o alemão como sendo (i)
mais semelhante ao sotaque dos falantes monolingues que vivem em Portugal ou
(ii) mais semelhante ao sotaque de aprendentes alemães com um nível elevado de
proficiência linguística do português como L2.
3.2.3.2. Teste de compreensibilidade
O teste de compreensibilidade incluiu 72 estímulos produzidos pelos vinte e
quatro falantes de português europeu descritos anteriormente. Neste teste, as
três frases produzidas pelos 24 falantes foram apresentadas uma vez
isoladamente e de forma aleatória. Os procedimentos foram os mesmos descritos
na secção 4.2.2.
O teste incluiu uma primeira fase de treino, em que quatro frases, não
incluídas no teste, foram apresentadas auditivamente aos participantes. Depois
desta fase, seguiu-se o teste que consistiu na avaliação das frases quanto à
sua compreensibilidade, ou seja, a perceção do ouvinte quanto ao grau de
facilidade e/ou dificuldade de compreensão do enunciado oral (frase). Numa
escala de seis pontos, correspondendo o número 1 a uma frase muito fácil de
compreender e o número 6 a um enunciado muito difícil de compreender, os
ouvintes indicaram o grau de compreensibilidade de cada frase, isto é, quão
fácil ou quão difícil de perceber era a frase.
Este teste pretendia testar se o grau de compreensibilidade das frases
produzidas pelos três grupos de falantes variava de acordo com o perfil de cada
grupo e se havia uma associação entre os dados do teste de sotaque global e os
deste teste.
3.2.3.3. Teste de inteligibilidade
Para avaliar o grau de precisão na produção dos enunciados orais (i.e., a
inteligibilidade dos estímulos orais), os avaliadores ouviram as 72 frases
produzidas pelos 24 falantes de português que foram apresentadas uma vez,
seguindo os procedimentos supramencionados. O teste de inteligibilidade
consistiu numa tarefa de preenchimento de lacunas. O teste incluiu as 72 frases
apresentadas ortograficamente numa folha de papel, às quais foram retiradas
palavras de significação lexical (verbos, nomes, adjetivos ou advérbios). Mais
especificamente, de cada frase foram omitidas três palavras de conteúdo, o que
perfez um total de 9 palavras por falante. Não foram omitidas palavras em
início ou fim de frase para evitar dificuldades de perceção no início e/ou fim
do contínuo sonoro. Desta forma, em cada frase, o avaliador escreveu
manualmente a palavra em falta aquando da audição do estímulo que foi
apresentado auditivamente. Por exemplo, o avaliador ouvia a frase “A casa dos
meus sonhos fica perto do mar.” e tinha de preencher as três lacunas:
“A__________ dos meus __________ __________ perto do mar.”
3.3. Questões de investigação
Muitos dos estudos focados na competência fonológica de falantes bilingues
mostram que a idade de início da aquisição é um fator preditor de
desenvolvimento de sotaque não nativo, mas não é a única variável determinante.
O grau de contacto com a língua em aquisição e a frequência de uso da outra
língua parecem também influenciar o desenvolvimento fonético.
Uma vez que este estudo compara grupos de falantes com diferentes idades de
início de aquisição do português, em primeiro lugar, pretendemos saber se:
I) falantes L2 tardios, isto é, participantes que começaram a adquirir o
português em fase adulta, são consistentemente avaliados como tendo um sotaque
não nativo, apesar de apresentarem um elevado nível de proficiência.
A segunda questão constitui a questão de investigação central deste trabalho.
Como os falantes bilingues analisados neste estudo têm exposição diária ao
português desde a nascença mas vivem num meio ambiente em que o alemão é a
língua maioritária, considerada a língua dominante de todos os falantes
entrevistados, pretendemos, por isso, saber se:
II) os falantes bilingues são avaliados, por falantes monolingues portugueses,
como tendo um sotaque semelhante a falantes nativos residentes em Portugal. Ou
se, pelo contrário, estão mais próximos dos resultados obtidos por falantes L2
tardios.
De forma a complementar a avaliação do sotaque global dos falantes de herança,
foram considerados outros dois aspetos relevantes no estudo da fala não nativa,
nomeadamente a compreensibilidade e a inteligibilidade dos enunciados
produzidos pelos falantes de herança. Assim, as frases produzidas pelos dois
grupos de controlo (grupo de aprendentes de português L2 e o grupo de
monolingues de português L1) e pelo grupo bilingues foram avaliadas nas três
dimensões de forma a verificar se:
III) há uma associação entre grau de sotaque, compreensibilidade e
inteligibilidade, ou seja, se um grau mais vincado de sotaque não nativo está
relacionado com menor compreensibilidade e menor inteligibilidade da fala e se
um grau de sotaque nativo está, como expectável, relacionado com maior grau de
compreensibilidade e inteligibilidade.
4. Resultados
4.1. Teste de avaliação de sotaque
Comecemos por analisar os resultados da primeira tarefa dos avaliadores: a
decisão se o excerto de fala ouvido era ‘nativa' ou ‘não nativa'. O gráfico 1
mostra o número de vezes (num total máximo de 45) em que o respetivo falante
foi classificado como nativo, assim como a média por grupo.
O primeiro dado a realçar diz respeito à diferença evidente entre as avaliações
dos dois grupos de controlo. No grupo de falantes monolingues, três falantes
foram consistentemente avaliados como ‘nativos' pelos 45 avaliadores e três
falantes tiveram 44 avaliações como ‘nativos' e uma como ‘não nativo',
perfazendo uma média de 44.5 (DP = 0.55). Em contraste, no grupo de falantes de
português L2, os participantes foram quase consistentemente avaliados como ‘não
nativos'. Um falante LE nunca foi avaliado como tendo sotaque nativo, um
falante recebeu 4 avaliações como ‘nativo', dois falantes foram duas vezes
considerados nativos e dois falantes por uma vez, o que perfaz uma média de
avaliações como nativos de 1.67 (DP = 1.37). Estes resultados correspondem ao
pressuposto inicial deste estudo e confirmam a validade dos estímulos. Mostram
também que em geral os falantes L2 têm proficiência bastante elevada, pois por
vezes são mesmo considerados ‘nativos' por falantes monolingues do português.
Quanto ao grupo experimental, o grupo de falantes de herança, os resultados
apresentam alguma variação. Nove dos doze participantes obtêm avaliações
idênticas à dos falantes monolingues, isto é, são avaliados como falantes
nativos por 42 a 45 avaliadores. Um falante obtém 39 avaliações como ‘nativo',
enquanto dois têm resultados significativamente inferiores: a falante Bil_P03
obtém apenas 24 classificações como ‘nativo' e a falante Bil_P11 apenas 22.
Isto significa que ambos os participantes foram avaliados como sendo não
nativos por cerca de metade dos avaliadores). Neste grupo, a média de
avaliações como ‘nativo' é de 39.92 (DP = 8.08). Como confirma a distribuição
dos dados, representada na Caixa de Bigodes (gráfico 2) que se segue, os
participantes Bil_P03 e Bil_P11 são consideradas outliers, por apresentarem
resultados bastante dispersos da média geral do seu grupo. Porém, também é de
realçar que, apesar dos resultados serem inferiores, estes ainda se encontram
muito acima dos resultados obtidos pelos falantes L2.
Em geral, os gráficos 1 e 2 mostram que os dois grupos de controlo se encontram
em extremos opostos quanto à perceção do seu sotaque como sendo ‘nativo' ou
‘não nativo' e o grupo experimental encontra-se muito próximo do grupo de
falantes monolingues. Uma análise estatística, conduzida no programa SPSS,
confirma estas observações. Uma vez que os grupos não apresentam o mesmo número
de falantes, optámos por aplicar testes não paramétricos para avaliar se as
diferenças entre os três grupos são ou não significativos relativamente a esta
primeira tarefa. Como esperado, um teste Kruskal-Wallis, que compara os
resultados dos três grupos,
confirma que existem diferenças significativas entre os três grupos (H(2) =
15.266, p < .001). Testes Mann-Whitney[9] subsequentes mostram que existem
diferenças significativas, tanto entre os falantes monolingues e os falantes L2
(U= 0.000, p = .003), como entre os falantes bilingues e os falantes L2 (U=
0.000, p = .001). Por sua vez, a comparação estatística entre os falantes
bilingues e os falantes monolingues mostra que não existem diferenças
significativas entre estes dois grupos (U= 16.500, p = .059).
Como reportado em 3.2.2., o grau de sotaque foi calculado, juntando a escala de
1 a 3 relativa ao grau de certeza (‘certeza' – ‘semi-certeza' – ‘incerteza')
com a primeira decisão (‘nativo' – ‘não nativo'), obtendo-se assim uma escala
de 1 a 6, na qual 1 corresponde a ‘nativo com certeza' e 6 a ‘não nativo com
certeza'. Os valores obtidos deste cálculo são apresentados no Gráfico 3.
Quanto ao grau de sotaque dos falantes, os resultados são muito semelhantes aos
de cima. Em primeiro lugar, é de realçar a diferença evidente entre os grupos
de controlo, que valida a solidez do teste aplicado. No caso dos falantes
monolingues, a média de grau de sotaque atribuído é de 1.06 (DP = 0.07), com
valores entre 1.00 e 1.16. No outro extremo, os falantes L2 foram
consistentemente avaliados como tendo um alto grau de sotaque não nativo. A
média global é de 5.82 (DP = 0.13), sendo que os valores variam entre 5.62 e
6.00.
No grupo dos falantes bilingues de herança, destacamos, mais uma vez, a
variação observada no seio do grupo. Nove dos falantes apresentam médias de
avaliação semelhantes à dos falantes monolingues (próximas do valor 1). Um
participante obtém um valor médio de 1.87, que ainda fica muito próximo do
valor extremo de 1.00. Os dois participantes considerados outliers, apresentam
valores médios de 3.29 e 3.51. Estes valores afastam-se tanto dos valores
médios atribuídos aos falantes L2 (5.82) como aos falantes monolingues (1.06),
pelo que concluímos que o sotaque destes dois participantes apresenta algumas
particularidades que causam dificuldades aos avaliadores, mas não é considerado
sotaque estrangeiro. Quanto à média global deste grupo, mesmo com os dois
participantes outliers, esta situa-se muito próxima da média do grupo
monolingue (média = 1.66; DP = 0.85).
Para a análise estatística recorremos novamente a um teste Kruskal-Wallis, para
verificar se os três grupos diferem estatisticamente quanto ao grau de sotaque
percebido. Como esperado, os resultados mostram que existem diferenças
significativas entre os três grupos quanto ao grau de sotaque detetado (H(2) =
17.552, p < .001). Testes Mann-Whitney adicionais confirmam que os dois grupos
de controlo (monolingues e falantes L2) diferem significativamente (U= 0.000, p
= .004). Também os falantes bilingues diferem significativamente dos falantes
L2 (U= 0.000, p = .001). Relativamente à comparação entre os falantes bilingues
e os falantes monolingues, um teste Mann-Whitney mostra que também neste caso
as diferenças entre o grupo monolingue e o grupo bilingue são significativas
(U= 6.000, p = .005). Esta diferença estatística deve-se à maior variação de
resultados no seio do grupo bilingue.
4.2. Teste de Compreensibilidade
Na tarefa de compreensibilidade, os avaliadores deveriam indicar, numa escala
de 1 a 6, o grau de compreensibilidade do estímulo ouvido, sendo 1 “muito fácil
de compreender” e 6 “muito difícil de compreender”. Assim, cada participante
obteve 45 avaliações, cujo valor médio é apresentado, por falante/grupo, no
gráfico 4.
Uma primeira observação importante tem a ver com o facto de o grau médio de
compreensibilidade se situar abaixo dos 3 valores em todos os falantes, mesmo
no grupo L2, o que vem demonstrar a alta proficiência destes participantes.
No grupo de falantes L2, os valores médios de compreensibilidade por falante
situam-se entre os 2.16 e os 2.91. O valor médio é de 2.47 com um DP de 0.26. O
grupo apresenta, portanto, pouca variação no grau de compreensibilidade
atribuído aos seus participantes. No outro extremo, o grupo de falantes
monolingues apresenta um valor médio de compreensibilidade de 1.32 (DP = 0.10),
com valores entre os 1.22 e 1.46, o que também é indicador de avaliações
consistentes, com pouca variação.
Relativamente ao grupo de falantes bilingues, o valor médio de
compreensibilidade atribuído é muito próximo do valor correspondente ao grupo
de falantes monolingues (média = 1.67, DP = 0.41), porém, neste grupo os
valores mínimo e máximo estão muito mais afastados, variando entre os 1.26 e os
2.77. A falante Bil_03 destaca-se dos restantes bilingues por apresentar um
grau de compreensibilidade perto dos 3, valor muito próximo dos valores
apresentados pelos falantes L2. Os restantes falantes bilingues apresentam
valores médios abaixo de 2.
Para a comparação estatística entre os grupos corremos em primeiro lugar um
teste não paramétrico Kruskal-Wallis. Tal como na tarefa anterior, os
resultados mostram que existem diferenças significativas entre os três grupos
quanto ao grau de compreensibilidade (H(2) = 14.498, p = .001). Testes Mann-
Whitney adicionais mostram que o grupo de falantes L2 difere estatisticamente
tanto dos falantes monolingues (U= 0.000, p < .017) como também dos falantes
bilingues (U= 5.000, p < .017).
Quanto à comparação entre o grupo de falantes bilingues e o grupo de falantes
monolingues, o teste Mann-Whitney mostra que as diferenças entre o grupo
monolingue e o grupo bilingue são apenas marginalmente significativas (U=
10.000, p = .015), confirmando a proximidade de avaliação destes dois grupos.
4.3. Teste de Inteligibilidade
No teste de inteligibilidade, os avaliadores deveriam preencher lacunas a
partir dos estímulos ouvidos. Cada frase ouvida tinha três lacunas; foram
selecionadas 3 frases de cada participante, o que perfaz um total de 9 palavras
omitidas por falante. Após registar o número de palavras ortograficamente
transcritas corretamente, foram analisadas, numa segunda frase, as lacunas
erradamente preenchidas. Aqui distinguiu-se omissões e erros relacionados com
falta de atenção (p. ex. através do preenchimento da lacuna com palavras
semântica mas não foneticamente relacionadas, como mulher em vez de pessoa) de
erros de semelhança fonética (ex. mil e quinhentosem vez de medicamentos).
Nesta contabilização também foram incluídas as palavras que não foram
identificadas corretamente por mais de três falantes, independentemente da
semelhança fonética, pois são indiciadoras de algum problema relacionado com a
produção da palavra. Apenas o segundo tipo de desvios, que consideramos
sinalizarem dificuldades de inteligibilidade, foi considerado para análise.
O Gráfico 5 apresenta a média de identificação correta por falante/grupo
(recorde-se que 9 é o valor máximo).
Na globalidade, os avaliadores não tiveram dificuldade na realização desta
tarefa. A média geral de acerto por falante é de 8.74. O gráfico_5 mostra que a
média por grupo é muito próxima deste valor: Bil = 8.77; L2 = 8.76; Mon = 8.65,
nenhum participante está abaixo dos 8. Isto significa que em geral as palavras
omitidas no teste foram facilmente recuperáveis através de uma audição única de
cada estímulo nos três grupos de falantes. Um teste Kruskal-Wallis confirma que
não existem diferenças significativas entre os três grupos (H(2) = 0.510, p =
.775). Respetivamente, a média de desvios motivados por problemas de
inteligibilidade também é semelhante nos três grupos (Bil = 0.19; L2 = 0.19;
Mon = 0.28), não se registando diferenças significativas quanto a este
parâmetro (H(2) = 0.357, p = .836). Curiosamente, os falantes monolingues são
os que apresentam uma média de desvio ligeiramente mais elevada, o que
certamente é motivado pelo ritmo mais acelerado de fala.
4.4. Relação entre as dimensões ‘sotaque global', ‘compreensibilidade' e
‘inteligibilidade'.
De forma a verificar se o grau de sotaque nativo estava relacionado com o grau
de compreensibilidade dos enunciados produzidos pelos três grupos de falantes e
com o grau de inteligibilidade medido através do número de palavras
corretamente transcritas ortograficamente, aplicámos um teste do coeficiente de
correlação de Pearson (r). Os resultados indicaram uma correlação positiva
significativa entre o grau de sotaque nativo e o grau de compreensibilidade, r=
.886, p = 000. Maior grau de certeza de sotaque nativo esteve associado a maior
facilidade de compreensibilidade. No entanto, os resultados também revelaram
que o grau de sotaque nativo não esteve associado ao grau de inteligibilidade,
r= -.031, p = .89. Uma vez que não foram encontradas diferenças significativas
entre os grupos relativamente à média de acertos no teste de inteligibilidade,
este resultado era expectável.
Por último, para examinarmos a relação entre o grau de sotaque nativo e o grupo
de falantes, utilizámos o teste do coeficiente de correlação ponto-bisserial.
Os dados não mostraram uma correlação entre o grau de sotaque e o grupo de
falantes, rpb= .45, p = .84.
5. Discussão e conclusões
O presente estudo teve como objetivo perceber se falantes bilingues de
português e alemão, que têm contacto com o português desde a nascença, mas que
vivem num ambiente predominantemente alemão, desenvolvem um sotaque nativo em
português, à semelhança de falantes nativos de PE que crescem em Portugal. Os
resultados mostram que a maioria dos falantes bilingues (=10) apresenta valores
de avaliação de sotaque idênticos aos dos falantes monolingues, isto é, estes
falantes foram avaliados como sendo falantes nativos do português com um grau
de confiança muito elevado. Estes resultados vão ao encontro da proposta
defendida por muitos autores de que a exposição precoce a uma língua favorece o
desenvolvimento de sotaque nativo. Já a exposição tardia em idade adulta parece
dificultar fortemente o desenvolvimento de um sotaque nativo, mesmo que o
falante apresente um nível de proficiência muito elevado na sua L2. De facto,
os falantes do grupo de PL2 foram consistentemente avaliados como detentores de
um sotaque não nativo. Esta avaliação é reforçada pelos altos níveis de
confiança das escolhas dos avaliadores (média = 5.89). Podemos, portanto,
concluir que a maioria dos falantes bilingues, ao contrário dos falantes L2,
não apresenta transferência de propriedades fonéticas do alemão, a sua língua
dominante. Estes resultados vão ao encontro das conclusões de Hopp e Schmid
(2013), segundo os quais, a exposição precoce à língua-alvo é um forte preditor
de desenvolvimento de sotaque nativo.
Duas participantes bilingues apresentam, contudo, resultados que se afastam da
média de avaliações deste grupo. Nestes dois casos, menos avaliadores
consideram o seu sotaque como sendo nativo e o grau de confiança das decisões
tomadas é menos forte. Temos, portanto, de concluir que o sotaque destas
falantes apresenta particularidades que os outros participantes bilingues não
apresentam. Por outro lado, o facto de os resultados destas falantes também se
afastarem dos resultados obtidos pelo grupo de PL2 mostra que o seu sotaque não
é totalmente percebido como sendo não nativo, situando-se, portanto, entre os
dois extremos. Kupisch et al. (2014) e Stange et al. (no prelo) suportam a
ideia de que a idade de aquisição não seja o único preditor do desenvolvimento
nativo de sotaque em contexto de bilinguismo precoce. Segundo Kupisch et al.
(2014), o grau de utilização das línguas e o ambiente linguístico dominante
também parece influenciar este desenvolvimento. Os falantes bilingues
analisados no seu estudo, que cresceram com exposição a ambas as suas línguas
(alemão – italiano/francês) desde a nascença, são avaliados consistentemente
como falantes nativos apenas na língua que é a língua maioritária do país em
que vivem. Na língua minoritária, o grau de incerteza dos avaliadores quanto ao
seu sotaque é muito mais elevado. No caso das duas falantes deste estudo, ambas
usam a língua portuguesa com muita frequência no seu quotidiano, pois esta é a
língua dominante usada em casa com os pais (nenhuma tem irmãos). Embora seja
difícil determinar com precisão o grau de utilização do português no dia a dia
das falantes, que certamente é variável, as informações dadas relativamente ao
uso da língua de herança não parecem indicar graus diferentes de contacto com o
português. Em ambos os casos, o primeiro contacto intensivo com o alemão deu-se
por volta dos 3 anos quando entraram no infantário, pois antes estiveram em
casa com as mães. A participante BIL_P03 vive há 11 meses em Portugal, pois
decidiu ingressar no ensino superior em Portugal; a outra participante
(BIL_P11) visita o país de origem com muita regularidade e tem uma ligação
muito forte a Portugal, expressa na vontade de se mudar para o país de origem
quando terminar o curso superior. Esta participante é a única cuja família é
originária de Lamego (os outros participantes, incluindo os falantes
monolingues, são da região Minho), pelo que consideramos a possibilidade de o
seu sotaque ter traços dialetais da região de Lamego que o diferencia dos
outros sotaques. Apesar de terem recebido a instrução para considerarem sotaque
dialetal como sotaque nativo do português, os avaliadores podem ter sido
influenciados por marcas dialetais presentes neste sotaque em oposição aos
outros. De qualquer forma, a aparente semelhança entre o perfil linguístico de
todos os falantes bilingues, tendo por base a idade de aquisição das suas
línguas, a dominância linguística e a frequência de uso do português e do
alemão mostra que, além destas variáveis, outros fatores individuais, mais
difíceis de controlar, poderão influenciar o desenvolvimento da competência
fonológica de falantes bilingues (ex. aptidão).
Os resultados revelaram ainda que, a nível de sotaque, os falantes bilingues
foram identificados como falantes nativos de PE de modo sistemático e
consistente e com elevado grau de certeza, o que parece sugerir que a exposição
precoce à língua e o seu uso continuado, mesmo em contexto de língua
minoritária, promoveu o desenvolvimento de sotaque global nativo. Neste caso
particular, a exposição continuada ao português europeu no contexto familiar,
desde a nascença, parece ter contribuído para uma competência fonológica nativa
na primeira língua adquirida. As duas outras dimensões avaliadas, nomeadamente
a compreensibilidade e a inteligibilidade também aproximam os falantes
bilingues dos monolingues, ou seja, as produções de fala do grupo de falantes
de herança foram avaliadas como sendo facilmente compreendidas e perfeitamente
inteligíveis. Conclui-se também que existe uma correlação entre estas
dimensões, sobretudo entre a avaliação de sotaque e a compreensibilidade, tal
como reportado por Munro e Derwing (1995). Os enunciados orais dos falantes
monolingues e bilingues, avaliados como falantes nativos de PE, foram muito
facilmente compreendidos, enquanto as produções de fala dos falantes L2,
avaliados como não nativos, não foram tão facilmente compreendidos como os
enunciados dos outros dois grupos.