O mundo pela arte: os sonhadores de Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski, e Ao
arrepio, de Joris-Karl Huysmans
Let us possess one world, each hath one, and is one.
John Donne, "The Good-Morrow"
I.1. –Após a publicação de Gente Pobre em 1846, Fiódor Dostoiévski é recebido
como a grande esperança da literatura russa pós-romântica. Para tal acolhimento
contribui de forma decisiva o crítico literário Vissarion Belínski com uma
crítica entusiasta e a proclamação de um novo génio, recepção esta alicerçada
na esperança de Dostoiévski vir a liderar o que Belínski, entre outras figuras
proeminentes da intelligentsia russa, procura erigir como resposta aos
resquícios do movimento romântico ainda sentidos nas letras russas, uma nova
estética denominada ‘escola natural’.
Inspirada pela literatura da última fase de Gógol, a ‘escola natural’ defende
uma ideia de literatura em que o literário se articula intimamente com o real,
não só revelando-o – como uma espécie de decalque fotográfico – mas também, e
essencialmente, posicionando-se de forma crítica perante ele, em atitude de
pretensa transformação do social por meio da literatura. É esta uma concepção
de literatura fundada em ideias socialistas, e um conceito de arte em que esta
se subordina necessariamente a intentos políticos.
O primeiro romance de Dostoiévski, surgindo neste contexto, é entendido pelos
seus pares como o exemplo a seguir na construção literária, a materialização
ideal de uma literatura que funcione como veículo de propagação de ideias
socio-políticas. Trata-se de um romance epistolar, na senda de Clarissa (1748),
de Samuel Richardson, ou de Julie, ou la nouvelle Héloïse (1761), de Jean-
Jacques Rousseau, possuindo contudo a particularidade de deslocar o cenário da
burguesia para as classes sociais mais empobrecidas. Se o protagonista de O
Capote de Gógol pudera ser entendido como símbolo do problemático lugar do
homem comum no desigual sistema social de então, o romance de Dostoiévski
literaliza todo esse programa no título.
Após o sucesso de Gente Pobre, Dostoiévski escreve O Duplo (1846), que
substitui a clareza e os ‘bons sentimentos’ do anterior por complexidade e
negrume. A resposta de Belínski à nova obra não é entusiasta, escrevendo o
crítico sobre ela nos seguintes termos: "[it] suffers from another important
defect: its fantastic setting. In our days the fantastic can have a place only
in madhouses, but not in literature, being the business of doctors, not poets"
(Belinsky apud Frank, 2010: 97). Recepção compreensível, não se enraizasse o
romance numa tradição romântica e alemã, desenvolvendo o tema do Doppelgånger
que remetia para autores como E. T. A. Hoffmann.
A ruptura entre Belínski e Dostoiévski torna-se definitiva com a publicação de
um dos textos seguintes, A Senhoria (1847), devido, como escreve Maria de
Fátima Bianchi numa dissertação dedicada a esta obra, ao autor publicar esta
curta novela "justamente num momento em que Belínski, empenhado no
desenvolvimento da ‘escola natural’, travava uma luta tenaz contra o romantismo
ou qualquer tentativa de ressuscitá-lo" (Bianchi, 2006: 106). Afinal, se era
possível um partidário da ‘escola natural’ acolher com alguma benevolência uma
obra ligeiramente ‘dissidente’ como O Duplo, dificilmente se poderia ignorar a
dominante influência romântica em A Senhoria, especialmente tratando-se este de
um romantismo folclórico muito distante do humanismo politizado que tornara
Dostoiévski célebre, e próximo do que Belínski caracterizou como um idealismo
romântico fora de tempo, uma vulgarização das conquistas da poética romântica e
a cedência a uma moda pequeno-burguesa, portanto conservadora (Idem, 107-8). O
cerne do problema, para Belínski, era a "fidelidade à consciência romântica,
quando a literatura russa entrava numa nova fase tão rica de seu
desenvolvimento" (Belínski apud Bianchi, 2006: 107); isto é, a falha residia na
persistência de Dostoiévski numa poética de entrega à fantasia em vez da
perscrutação crítica dos problemas sociais. Ao condenar um tipo de escritores
de pendor romântico em que o "desacordo com a realidade é uma doença" (Idem,
108), e ao identificar a literatura de Dostoiévski com esta prática, Belínski
desaprova o escritor, acusando-o inadvertidamente de epigonismo e alienação.
Esse "desacordo com a realidade" é um dos núcleos temáticos que perpassam A
Senhoria, nomeadamente através do recurso à figura do ‘sonhador’, aqui
encarnado num protagonista que, após dois anos de solidão extrema num quarto
arrendado[1], se torna num alienado, num "bicho do buraco sem dar por isso"
(Dostoiévski, 2006: 64). Após os dois anos de reclusão, e devido ao
desaparecimento da sua senhoria, ele é obrigado a imiscuir-se no mundo para
procurar novo quarto. A novela documenta essa saída, a busca e a descoberta de
novos senhorios: um casal composto por um velho misterioso e uma mulher pela
qual o protagonista se apaixona. O que se segue é a narração entrecortada, por
esta mulher, de uma estranha história reminiscente do folclore russo, entre as
alucinações febris do protagonista, através de uma técnica narrativa que não
permite a perfeita destrinça de níveis de realidade textual.[2]
Um aspecto importante deste texto é a insistência do narrador na inconsciência
do protagonista, Ordínov, em relação à sua condição de alienado.[3] Partindo do
facto de vários estudos críticos identificarem a figura do ‘sonhador’ como
marcante na obra de Dostoiévski
[4], verificamos que, ao longo dos anos, os seus sonhadores parecem vir a ser
progressivamente dotados da consciência da sua condição. Assim sendo, ao
alheamento quase absoluto do sonhador de A Senhoria, seguir-se-ia a
consciencialização do alheamento em obras posteriores como Notas do Subterrâneo
(1864) ou Crime e Castigo (1866).[5] Numa visão panorâmica da obra de
Dostoiévski, vale a pena atentar na especificidade do sonhador de Noites
Brancas, um texto que, como notou Gary Rosenshield, "[a]lthough has generally
been recognized as one of the most successful works of the young Dostoevskij,
it has attracted little scholarly attention" (Rosenshield, 1977: 191).
Noites Brancas surgiu em 1848, num momento em que o autor havia caído em
desconsideração generalizada após a polémica com os defensores da ‘escola
natural’, e foi publicado com os subtítulos romance sentimental e das memórias
de um sonhador. Para um comentário ao primeiro subtítulo, será pertinente
observar o lugar da obra na evolução da fase inicial de Dostoiévski,
nomeadamente tomando em conta o caminho que conduziu o autor do realismo
humanista e sentimental de Gente Pobre, e consequente celebração pelos
defensores da ‘escola natural’, à ‘assentimentalização’ (através do fantástico)
iniciada com O Duplo e exponenciada em A Senhoria, que resultou na ruptura.
Considerando esta sequência de obras e respectivas reacções críticas, parece
constituir um gesto irónico esta denominação de "romance sentimental", como se
se apontasse para um regresso de Dostoiévski à sentimentalidade que
caracterizara a única das suas obras louvada pela crítica, regresso que apenas
parcialmente se efectiva.[6] Após a ruptura dos representantes da ‘escola
natural’ com Dostoiévski, é este quem parece procurar romper com essa escola,
nomeadamente na recusa da objectividade, de um modelo de clareza, e com a
entrega a uma poética da psique e da interioridade. Se sob o texto de Gente
Pobre ainda se pode intuir – exista efectivamente ou não – um autor com
intenções políticas, nos textos seguintes isso é dificultado por uma
progressiva aproximação do autor à vida psíquica dos seus protagonistas, daqui
resultando as dificuldades de leitura que apresentam O Duplo, e em especial A
Senhoria: o mundo surge apresentado como percepcionado pelas personagens, e,
sendo essa percepção falha, também a sua representação o é por consequência.
Neste sentido, o recurso ao ‘sonhador’ adquire relevância, pois deste modo – ao
focalizar-se a narração numa personagem que habita um ‘mundo sonhado’, porque
em "desacordo com a realidade" – garante-se uma representação do mundo
deceptiva, correspondente à visão igualmente deceptiva das personagens. Nada
disto encaixa, como bem se percebe, nos preceitos de uma ‘escola natural’ que
não distingue a ‘doença’ das personagens da ‘doença’ suposta dos seus autores.
Sob esta perspectiva, A Senhoria afigura-se-nos a representação de um mundo
fantástico porque dependente da imaginação nervosa, propensa à fantasia, que é
no fundo a de Ordínov. Um olhar sobre Noites Brancas, por seu turno, revela um
mundo mais domado, um "re-work [of] the theme of the dreamer in a more lucid
fashion", nas palavras de Leatherbarrow (2009: xi), mais sentimental do que
fantástico, e ainda assim sem pretensões de realismo enquanto técnica
literária. O que importa finalmente reter é que Dostoiévski, ao arrepio do
gosto da época, decide representar literariamente o mundo através ‘dos olhos’
dos sonhadores, e neste particular Noites Brancas será porventura o produto
mais representativo deste gesto, tratando-se de um texto que nos apresenta
apenas o universo de um sonhador que – porque escreve – no-lo conta ele
próprio, sem a mediação de narradores extradiegéticos, i.e., sem outros olhares
que não o seu. A tematização literária da figura do ‘sonhador’ e da sua
apreensão ‘adoentada’ do mundo põe em evidência – e especialmente num contexto
em que a objectividade naturalista é tida como o paradigma a seguir – a
pluralidade de articulações possíveis entre ‘ideias de mundo’ e ‘ideias de
arte’.
I.2. –Para esta reflexão importará também recordar a história literária da
França do século XIX, tomando em conta, com as devidas ressalvas, as suas duas
linhagens estilísticas essenciais ou maioritárias: a romântica e a realista.
Joris Karl-Huysmans é um autor que, tal como Dostoiévski algumas décadas antes,
se move entre os dois pólos, promovendo desse modo aproximações entre poéticas
distintas, porém dialogantes. Diga-se que Dostoiévski, apesar da proximidade
pontual aos românticos (nomeadamente na sua fase inicial, aqui em foco), se
posiciona na história da literatura claramente mais próximo do pólo realista.
[7] Esse pólo realista, no caso francês, começara a construir-se pelo menos uma
década antes da criação da ‘escola natural’ belínskiana, nomeadamente com a
adopção sistemática por Balzac de um "efeito do real" (Barthes, 1968) nas obras
que comporiam, a partir de 1829, La comédie humaine. Essa escola foi continuada
por outros autores, como Gustave Flaubert com Madame Bovary (1857) ou
L’éducation sentimentale (1869), culminando no naturalismo comprometido – neste
sentido muito próximo da estética proposta por Belínski – de Émile Zola nas
últimas décadas do século.
Paralelamente, há toda uma linha de autores franceses oitocentistas que, se não
contra o "efeito do real", se situaram à margem deste. É o caso de românticos
como Théophile Gautier, Charles Nodier ou Prosper Merimée, todos autores que
operaram no campo de um fantástico herdado do gótico, à revelia de um outro
romantismo, mais realista no estilo, encabeçado por Victor Hugo. Gautier
postulou, no prefácio de Mademoiselle de Maupin (1835), o conceito de l’art
pour l’art, em que a arte se divorcia de qualquer função didáctica; e devido às
suas ideias sobre a arte, viria a tornar-se mestre de Charles Baudelaire, que
lhe dedicou As Flores do Mal (1857). A ideia de arte pela arte, tornar-se-ia
fundamental no desenvolvimento da literatura do século XIX, desde a prática do
conto fantástico, ao surgimento da poesia parnasiana, ao simbolismo na poesia e
na pintura, ou ao esteticismo finissecular que abarcou toda a produção
artística.
Em 1876, Huysmans publica Marthe, histoire d’une fille, o seu primeiro romance,
perfeitamente situado nos trâmites do naturalismo liderado pelo então seu
mestre, Zola. Este último viria, aliás, a antologiar em 1880 um volume
colectivo intitulado Les Soirées de Medan, destinado a dar a conhecer o
trabalho dos escritores naturalistas, no qual figura o autor de Marthe com o
conto "Sac au dos", documento das suas experiências no exército. Huysmans
inseriu-se no naturalismo vigente de tal forma, que Max Nordau escreveria, no
seu ataque à linha literária que aqui vem sendo sumariamente listada – de
Gautier a Huysmans, passando pelo ‘diabólico’ Baudelaire –: "Huysmans, the
classical type of the hysterical mind without originality, who is the
predestined victim of every suggestion, began his literary career as a
fanatical imitator of Zola" (Nordau, 1895: 302). Contudo, em 1884, Huysmans
procura interromper a prática desse naturalismo ‘imitativo’ com a publicação de
Ao Arrepio. O seu "Prefácio Escrito Vinte Anos Após o Romance" esclareceria bem
o contexto da escrita do livro. Num dos primeiros parágrafos, lê-se: "Estava-se
em pleno Naturalismo. Mas esta escola, que prestava o memorável serviço de
situar personagens reais em meios exactos, estava condenada a repisar-se e a
marcar passo" (Huysmans, 2008: 229), e ainda: "de tanto fazer girar a mó, o
Naturalismo ficara sem ar" (Idem, 231). Neste cenário, os seguidores do
naturalismo do mestre começavam a questionar-se sobre qual o caminho a seguir:
"Zola era Zola [...] Já nós, menos espadaúdos e preocupados com uma arte mais
subtil e verdadeira, nos perguntávamos se o Naturalismo não estaria a chegar a
um impasse e se não nos iríamos esborrachar bem depressa contra a parede dos
fundos" (Idem, 232). Contudo, não se tratava apenas de um esgotamento do
modelo; mais do que isso, Huysmans duvidava então da mera possibilidade de
resposta eficaz do exercício do modelo naturalista às propostas da doutrina:
É preciso confessá-lo, ninguém compreendia menos a alma humana do que
estes naturalistas que se propunham observá-la. Eles viam a
existência como um todo sem remendos; só o aceitavam se condicionado
por elementos de verosimilhança; mas para mim, tem-me dito desde
então a experiência, o inverosímil não é sempre, neste nosso mundo, a
excepção, e quer-me parecer que as aventuras de Rocambole não são
mais rocambolescas do que as de Gervaise e de Coupeau, lá no centro
de L’Assommoir. (Idem, 242) [8]
Ao Arrepio surge como a concretização material deste questionamento do modelo
naturalista. "Aquilo que mais me interessava nessa altura", escreveria Huysmans
no seu prefácio, "era sobretudo livrar-me da intriga tradicional, livrar-me do
amor, da mulher, e fazer incidir o foco de luz sobre uma única personagem,
fazer qualquer coisa nova" (Idem, 242). Com este romance, Huysmans escreve
aquele que seria considerado por Arthur Symons "o breviário da decadência"
(Symons, 1908: 139), um romance exclusivamente dedicado a uma personagem,
também ela – tal como os ‘sonhadores’ de Dostoiévski – inteligível como um
tipo: o tipo do decadente alienado que, rebelando-se contra a mundanidade da
vida social, se esquiva ao mundo, entregando-se à experiência estética.
II.1. –Apesar da publicação de Noites Brancas e Ao Arrepio em diferentes
contextos, e com uma distância temporal de quase quarenta anos entre eles, a
aproximação entre ambos é facilitada pela exploração comum do tipo do sonhador.
[9] O que esta aproximação, em função de um ‘tipo’, põe em evidência é a
própria metamorfose sofrida por ele ao longo do século XIX, desde o sonhador
romântico do início, ao sonhador ‘fora de tempo’ das décadas que viram a
estética realista florescer, culminando no sonhador decadente do fim de século.
São ambos romances inteiramente conduzidos por uma personagem, de tal maneira
focalizados nela que a sua mundividência acaba por enformar de modo
determinante os respectivos textos. Também tanto o narrador-protagonista sem
nome de Noites Brancas quanto Des Esseintes são personagens que mantêm uma
relação problemática com a realidade, refugiando-se num ‘mundo alternativo’, à
margem do dos restantes indivíduos, o que conduz a um estado de solidão
extrema. Finalmente, ambos partilham a bibliofilia, uma devoção à arte que se
traduz numa entrega à vivência nesta, à revelia da vivência no mundo real.[10]
Não obstante, é através da atenção às dissemelhanças entre estas personagens
que se pode tomar em conta estes textos como etapas distintas da evolução deste
tipo nas sociedades e literaturas oitocentistas.
É forçoso notar que Dostoiévski se mantém ainda contaminado por uma estética
realista, por exemplo na mera escolha de um homem pobre para seu "narrador-
herói". O "sonhadorismo" pode, em Dostoiévski, ser entendido como um efeito das
difíceis condições de vida das classes mais baixas da sociedade, que perante os
horrores da existência comum se refugiam num mundo sonhado. Na introdução de
Guerra, lê-se a tradução e o comentário de um excerto retirado de uma crónica
escrita por Dostoiévski:
Escreve ele: "Haverá entre nós, os russos, muita gente que disponha
dos meios para fazer o seu trabalho como é devido, com amor? [...]
Então, nos caracteres mais ansiosos de actividade, mas fracos,
femininos, ternos, nasce a pouco e pouco aquilo a que se chama
‘sonhadorismo’, e o homem deixa de ser homem, torna-se numa espécie
esquisita... – o sonhador." (Dostoiévski, Crónicas de Petersburgo,
1847) Retirando-se para um mundo fantástico e fechado, o sonhador de
Dostoiévski condena-e a uma completa e trágica solidão. "[...] A
realidade produz no coração do sonhador uma impressão grave, hostil,
e então apressa-se a meter-se no seu cantinho secreto e dourado, que
na realidade é, não raro, poeirento, desmazelado, desarrumado e
porco". (Guerra, 2001: 8-9).
Huysmans, por seu lado, escolhe para seu protagonista um homem rico, último de
uma longa linhagem de guerreiros e aristocratas, que pode ser ocioso e passivo
porque – não obstante viver no seu mundo imaginado – possui os recursos
necessários para manter, na sua habitação longe de Paris, dois empregados que
impedem que o seu "cantinho secreto e dourado" se torne "poeirento,
desmazelado, desarrumado e porco". Por outro lado, o que nesta diferença se
percebe é a filiação decadentista de Huysmans – naquela longa tradição contra a
qual Max Nordau se posicionava, e que as próprias páginas de Ao Arrepio, em
vários capítulos, documentam – , que nada tem que ver com a romântica-realista
do russo, mas antes se aproxima de ‘românticos negros’ como Barbey d’Aurevilly
ou Villiers de l’Isle-Adam, que frequentemente enquadravam as suas histórias
numa aristocracia em degenerescência. Um efeito desta divergência é o sonhador
de Dostoiévski limitar-se a sonhar um mundo feito de coisas imateriais,
nomeadamente ‘grandes sentimentos’, do domínio dos "temas históricos e
românticos" (Guerra, 2001: 8), e o de Huysmans construir esse mundo alternativo
a partir de bens materiais, desde a aquisição de mobiliário raro (cap. 1) à
tartaruga incrustada de jóias (cap. 4), a dezenas de flores extravagantes (cap.
8), a edições únicas de livros[11] ou pinturas originais a adornar as paredes
(cap. 5).
A imaterialidade e a materialidade de que se constituem estes dois ‘mundos
alternativos’ deixam antever outras especificidades importantes em cada um
destes sonhadores. Próximo do início de Noites Brancas, lê-se: "Duas noites
seguidas, antes de ir para a cama, tentava perceber: o que me falta no meu
cantinho, por que me sinto tão desconfortável nele?" (Dostoiévski, 2001: 15), e
um pouco depois: "não será aqui que se esconde a desgraça?" (Idem, 16). O
quarto arrendado é aqui (contrariamente ao que sucedera em A Senhoria) o lugar
onde o sonhador se sente em desconforto, não podendo portanto equivaler ao
espaço de refúgio. O processo de fuga do mundo, em Noites Brancas, é
exclusivamente mental, e por isso o seu protagonista, para dar rédeas ao sonho,
ou está a ler um livro, ou a escrever, ou a mover-se anonimamente pela cidade.
Em qualquer um destes processos é a imaginação "a rainha das faculdades"
(Baudelaire, 2006).[12] O que isto traduz é, em termos físicos (da experiência
do mundo), não tanto uma fuga, como uma suspensão da vida, ou um abandono ao
fluxo do mundo. Em Huysmans, assiste-se a um processo de fuga evidente, que
passa por uma inevitável deslocalização física:
As suas ideias de se encolher a um canto, afastado do mundo, de se
calafetar num retiro, de abafar o tumulto contínuo e inexorável da
vida, tal como se abafa a palha os ruídos da rua para se proteger o
sossego de gente enferma, ganhavam força redobrada. [...] Pesquisou
os arredores da capital e descobriu um casebre para venda, no cimo de
Fontenay-aux-Roses, num sítio isolado, sem vizinhos, próximo do
forte. O seu sonho fora atendido; neste lugarejo pouco tocado pelos
parisienses, tinha a certeza de estar a salvo. (Huysmans, 2008: 16)
As posições das duas personagens perante o mundo revelam-se, portanto, bem
distintas. Se o protagonista de Noites Brancas sente empatia pela humanidade
[13], desejando até pertencer a ela, movendo-se por isso na cidade como um
flâneur[14], Des Esseintes rejeita terminantemente a humanidade e a vulgaridade
que esta representa para si, mudando-se para os arredores de Paris. Esta
distinção revela ainda que o protagonista de Dostoiévski é passivo na medida em
que não precisa de agir para fugir do mundo (pelo contrário, foge do mundo
dentro do mundo), e que a passividade e o ócio de Des Esseintes são,
paradoxalmente, resultantes de uma acção deliberada.
Isto remete para o anteriormente enunciado a propósito dos graus de consciência
apresentados pelos protagonistas de Dostoiévski, e o lugar de Noites Brancas
nesta evolução. Em A Senhoria, Ordínov era um indivíduo incapaz de se dar conta
do seu estatuto de ‘sonhador’. Aquilo a que se assistia, pelo contrário, eram
as aventuras de um homem que, mais do que agir, reagia a estímulos, fossem eles
reais (a mulher que aparece na igreja, e que desperta nele a paixão) ou
fantásticos (a narrativa que a mulher conta). Esta desconsciencialização da
personagem tornava-a o perfeito estudo de caso do tipo social que Dostoiévski
procurava examinar, pois representava o ‘sonhadorismo’ levado ao extremo da
alienação da realidade. Em Noites Brancas, o protagonista não é totalmente
alienado como Ordínov, mas é apresentado como um estado intermédio entre este e
o protagonista de Notas do Subterrâneo. No fim do primeiro capítulo, ao
despedir-se de Nástenka, com quem travara conhecimento, o homem reconhece este
encontro como o primeiro real da sua vida[15], um encontro que o satisfaz mais
do que qualquer outra coisa: "[d]ois minutos chegaram para me fazer feliz para
sempre" (Dostoiévski, 2001: 28). Esta personagem encontra-se então num estado
em que, tendo-se apercebido da sua condição, se sente insatisfeita com ela.
Contudo, nada pode fazer para a contornar, pois ainda não lhe é possível vencer
o instinto que a leva a abandonar-se ao sonho. Este estado é agudizado quando a
realidade (Nasténka, aqui símbolo da possibilidade da fuga do sonho) irrompe no
sonho, demonstrando a este sonhador como a realidade é melhor do que o sonho.
Em suma, pode entender-se Noites Brancas como um romance sobre a aquisição da
consciência, um documento sobre o momento de transição do tipo de Ordínov para
o do ‘homem subterrâneo’.[16] O protagonista de Huysmans, por seu turno, é
consciente da sua condição. O homem de Dostoiévski é apresentado como uma
espécie de ‘herói romântico’ (um idealista que não conhece [ainda] a
realidade), e Des Esseintes é construído como um ‘herói decadente’ (tendo já
experimentado e rejeitado a realidade), algo que Osip Mandelstam resumiu nestes
termos: "The decadents did not like reality, but they did know reality, and
that is what distinguishes them from the romantics" (Mandelstam, 1991: 100).
Há então uma dimensão trágica nesta personagem de Dostoiévski. Leatherbarrow
refere "the tragedy of the individual who has sacrificed to abstraction all
sense of living life" (Leatherbarrow, 2009: ix). Todavia, essa é mais a
tragédia de Ordínov do que a da personagem de Noites Brancas. A tragédia deste
é mais a dolorosa tomada de consciência de viver no sonho, a aquisição do
desejo de cessar de viver no sonho e passar a viver na realidade, e,
finalmente, a tomada última de consciência da incapacidade ôntica de ser outra
coisa que não o sonhador que já não quer ser. Já em Ao Arrepio verifica-se uma
total ausência de pathos[17], que em Dostoiévski tanto serve para ‘patético’
como para ‘patológico’, pois se parece haver alguma benevolência para com as
suas personagens sonhadoras (nomeadamente a de Noites Brancas), Dostoiévski
entendia – tal como Belínski – o ‘sonhadorismo’ como um problema social, uma
espécie de doença. Neste passo, vale a pena evocar a tradução que Leatherbarrow
faz de uma crónica de Dostoiévski publicada na Gazeta de Petersburgo, em Junho
de 1847:
Do you know, ladies and gentlemen, what a dreamer is? It is a
Petersburg nightmare, it is sin incarnate, it is a tragedy… They [the
dreamers] usually live in complete solitude, in some inaccessible
quarters, as thoughtheywere hiding from the people and the world,
and, generally, there is something melodramatic about them at first
sight. They are gloomy and taciturn with their own people, they are
absorbed in themselves and are very fond of anything that does not
require any effort, anything light and contemplative, everything that
has a tender effect on their feelings or excites their sensations.
They are found of reading and they read all sorts of books, even
serious scientific books, but they usually lay the book down after
reading two or three pages, for they feel completely satisfied. Their
imagination, mobile, volatile, light, is already excited, their
senses are attuned, and a whole dream-like world, with its joys and
sorrows, with its heaven and hell, its ravishing women, heroic deeds…
suddenly possesses the entire being of the dreamer… Sometimes whole
nights pass unnoticed in undescribed joys; sometimes a paradise of
love or a whole lifetime… is experienced in a few hours… The moments
of sobering up are terrible; the poor unfortunate cannot bear them
and he immediately takes more of his poison in new increased doses.
(Idem, x)
Perto do final da crónica, Dostoiévski concentra-se nos verdadeiros perigos de
tal ‘sonhadorismo’:
Little by little our curious fellow begins to withdraw from crowds,
from common interests, and gradually and imperceptibly he begins to
blunt his talent for real life. It begins to seem natural to him that
the pleasures attainable through his capricious fantasy are fuller,
richer and dearer than life itself. Finally, in his delusion he
completely loses that moral sense through which man is capable of
appreciating all the beauty of reality. He goes astray, loses
himself, lets slip those moments of real happiness; and, in a state
of apathy, he folds his arms and does not wish to know that man’s
life consists in constant contemplation of oneself in nature and in
day-to-day reality. (Idem, x-xi)
O que estes passos permitem perceber é que Dostoiévski não estava ‘do lado’ dos
seus sonhadores, contrariamente ao que Belínski julgara, e que a ‘doença’
destas personagens não contamina necessariamente nem as obras de Dostoiévski
nem a sua visão do mundo. O que estas palavras denunciam é o gesto
profundamente irónico e sofisticado que reside sob Noites Brancas: não obstante
Dostoiévski apresentar-se publicamente contra o tipo social do sonhador, que
considera "o pesadelo de São Petersburgo" (i.e., uma presença nociva à
manutenção da estabilidade da saúde da pólis), ele permite que um sonhador tome
as rédeas de um dos seus livros, redigindo-o numa primeira pessoa referente ao
protagonista. Então, e paradoxalmente, as ideias do mundo de Dostoiévski estão
muito longe das das suas personagens, não parecendo haver correspondência
possível entre ambos. O mesmo não sucede com Huysmans. Num texto crítico de A.
Meunier publicado em 1885, lê-se sobre Des Esseintes:
[I]t is the same character who pulls the strings in each of
[Huysmans’] works. Cyprien Tibaille and André Folantin are, after
all, no more than one and the same person transported into different
settings. And this person is quite obviously M. Huysmans, one can
feel it. (Meunier, 2003: 220) [18]
Trate-se ou não de uma transposição do próprio Huysmans, o facto é que – não
obstante Des Esseintes ser representado como um homem fisicamente doente – o
seu ‘sonhadorismo’ não é nunca apresentado como doença, ou identificado por
Huysmans em textos críticos como uma enfermidade. Parece seguro afirmar,
portanto, que o descontentamento com a sociedade que leva Des Esseintes a
afastar-se dela se espelha, ou pelo menos se inspira, num descontentamento
semelhante sentido pelo seu autor. Se no romance de Dostoiévski a alienação do
mundo é sinal de uma fraqueza, em Ao Arrepio dá conta de uma força, de uma
capacidade de emancipação.
II.2.– Se até agora temos vindo a considerar o modo como nas duas obras
confluem ‘ideias do mundo’, em consonância ou divergência com as ideias
vigentes nos seus respectivos contextos históricos, políticos e sociais[19],
interessa-me doravante pensar sobre de que maneira reflectem estas obras, não
sobre o mundo, mas sobre a arte.
Como se disse antes, a reedição em 1860 do romance de Dostoiévski implicou o
acrescento de um rol de referências literárias que correspondem às leituras do
protagonista e que, tratando-se este de um sonhador cujo processo de fuga se
faz pela escrita e pela leitura, estão na base da sua experiência do mundo.[20]
A ‘literariedade’ deste homem é expressa a partir do momento em que Nástenka
lhe pede que fale um pouco sobre si, e ele se apresenta como um "tipo", o tipo
do "sonhador" (Dostoiévski, 2001: 33). A partir de então, assiste-se a uma
profusão de expressões e vocábulos do campo semântico da literatura. Por
exemplo, quando ela lhe pede que explique melhor que "tipo"[21] é esse, lê-se:
"Sentei-me ao lado dela, tomei uma pose séria e pedante, e comecei em tom
livresco" (Idem, 34; itálico meu, nesta e nas seguintes citações)[22], e começa
a sua apresentação:
Não sei se sabe, Nástenka, que há em Petersburgo uns lugarzinhos bem estranhos.
Nesses recantos [...] parece viver-se uma vida muito diferente, nada comparável
à que ferve ao nosso lado, uma vida talvez só possível no reino dos contos de
fadas e não entre nós, nestes nossos tempos sisudos. Essa vida é uma mistura
exacta de pura fantasia, de ideal ferveroso e, por outro lado (infelizmente,
Nástenka!), qualquer coisa descolorida, prosaica e vulgar, para não dizer: de
uma chateza incrível. (Idem, 35)
A esta apresentação "em tom livresco", responde Nástenka: "Fu! Meu Deus! Que
prefácio!" (Ibidem), e mais tarde, após o homem dizer que "o herói de toda esta
história sou eu, a minha própria e modesta pessoa" (Idem, 38), Nástenka faz um
pedido: "Oiça: sabe contar maravilhosamente, mas não podia fazê-lo de maneira
menos bonita? Fala como quem lê um livro em voz alta", ao que ele responde:
"sei que conto as coisas maravilhosamente, mas, desculpe, não sei fazê-lo de
outro modo" (Ibidem). Este homem está de tal maneira contaminado pela
literatura que já não sabe senão viver literariamente. Sucumbido à "deusa da
fantasia" (Idem, 40), ‘artificou’ a sua vida, uma vida composta de "fantasmas
mágicos que, de modo tão divino, tão caprichoso, tão vasto, tão infinito,
formam diante dele um quadro milagroso e cheio de vida, onde em primeiro plano,
como personagem principal, está sem dúvida ele mesmo" (Idem, 42). Enquanto
imerso nesse sonho literário, ele
não deseja nada, porque está acima dos desejos, porque possui tudo,
porque ele próprio é o artista criador da sua vida e cria-a a cada
hora de acordo com a sua vontade variável. [...] Palavra, há minutos
em que se está pronto a acreditar que essa vida não é uma excitação
de sentimentos, uma miragem, uma ilusão, mas que é de facto real,
verdadeira, existente! (Dostoiévski, 2001: 44)
Dir-se-ia que, através deste sonhador em particular, Dostoiévski aponta para os
perigos da incapacidade de distinguir entre facto e ficção, recuperando o
alerta para os perigos da poesia mimética que Platão realizara em A República,
e próximo ainda, por exemplo, da personagem de Madame Bovary que Flaubert
criaria apenas alguns anos depois. Trata-se da "cedência da realidade" (Borges,
2013) que fora de modo paradigmático descrita na primeira grande obra sobre um
sonhador para quem a experiência do mundo é definitivamente mediada pela
experiência da literatura, o D. Quixote de Cervantes.
A relação que se estabelece entre Ao Arrepio e a Literatura enquadra-se nos
preceitos de um esteticismo então numa fase crítica da sua evolução. Para os
autores associados a este movimento, a articulação entre a vida e a arte
privilegiava a segunda, adquirindo a primeira relevância apenas quando
estetizada, i.e., quando aproximada do domínio da arte. Em Dostoiévski (como em
Cervantes ou Flaubert), a estetização da vida resulta numa alienação que se
traduz, em última análise, numa tragédia; em Huysmans (ou noutros ‘estetas’,
como Oscar Wilde ou Remy de Gourmont), a alienação resultante da estetização da
vida é um lucro, pois distancia da vulgaridade desprezível do mundo.[23] Se os
sonhos do protagonista de Dostoiévski, parecendo produzir realidade, produzem
na verdade irrealidade e monstros, os sonhos de Des Esseintes, materializando-
se através da experiência estetizada do mundo, produzem efectivamente real, um
real transfigurado (‘artístico’).
Em Huysmans, a alienação também se expressa através da aproximação da
personagem à arte. No entanto, contrariamente ao que acontece com o
protagonista de Dostoiévski – em que a influência da arte se estende a ele de
maneira totalmente acrítica, resultado da sua semi-inconsciência –, Des
Esseintes é construído como uma espécie de crítico de arte, e vários dos
capítulos de Ao Arrepio constituem-se a partir das considerações da personagem
acerca da arte. Em "Structural techniques in À rebours", Ruth Plaut Weinreb
caracteriza o romance como sendo construído sobre dois pilares estruturais: a
personagem de Des Esseintes e as discussões sobre arte que pontuam a obra. O
elemento que reuniria em si esses dois pólos seria o próprio autor, que se
assumiria – ao contrário de Dostoiévski, o qual, como vimos, omite as suas
ideias ao atribuir a narração ao protagonista de Noites Brancas – como a
entidade por detrás de tudo quanto se lê: "Although hero and author join to
establish an art poétique, basing it in identical criteria and reinforcing each
other’s judgements, the author unquestionably assumes the major role" (Weinreb,
1975: 228). Esta arte poética é o que de mais relevante se identifica em Ao
Arrepio, no que toca à dimensão auto-reflexiva do texto. Des Esseintes funciona
como símbolo de uma visão da arte (e do mundo, uma vez que na teoria do
‘esteticismo’ uma e outra não são desvinculáveis), e consequentemente o romance
funciona, de modo programático, como uma espécie de manual de posicionamento
crítico perante a arte e o mundo[24], à semelhança do que Oscar Wilde
concretizaria, de modo mais teórico do que crítico, nos seus ensaios compilados
em Intentions, em 1891.[25]
Em algumas edições em inglês, À rebours foi traduzido como Against Nature. Não
obstante a falibilidade filológica dessa tradução, é interessante que ela
revele de forma tão eficaz o programa romanesco de Huysmans. Como Des Esseintes
gosta de fazer notar, "a natureza já tivera a sua época" (Huysmans, 2008: 31).
Para ele e para Huysmans, é o artifício "a marca distintiva do génio humano"
(Idem, 30). Esta é uma poética que funciona contra Dostoiévski, porque para
este o homem é criação de Deus e, por isso, deve aprender a tornar-se homem no
mundo.[26] No romance de Huysmans, os homens já se podem emancipar da criação
de Deus, e criar eles próprios o mundo: "poder-se-á seguramente afirmar que o
homem fez, no seu género, como o Deus em que ele crê" (Idem, 32), sendo este,
afinal, o milagre da arte (humana) que fazia os ‘estetas’ finisseculares
preferirem-na à vida (divina). Assim, se atrás se disse que Des Esseintes erige
o seu mundo alternativo com bens materiais, diga-se agora que a intenção que
motiva esse gesto é, em última instância, metafísica. A propósito, escreve
Rodolphe Gasché: "In all these examples of idealization [G. refere-se ao
episódio da tartaruga] is a function of matter, material and animal life from a
vessel which thus becomes the container for its very opposite: spirit" (Gasché,
1988: 202).[27] Já Huneker tinha afirmado que Huysmans era "a luminous mystic"
(Huneker, 1907: 44), listando no mesmo artigo as leituras do autor: "His
favourite reading were the mystics, à Kempis, Saint Theresa, St. John of the
Cross and the Flemish Ruysbroeck" (Idem, 45), este último, aliás, presente em
Ao Arrepio em epígrafe. O romance de Huysmans pode, assim, ser entendido também
como uma variação moderna da fuga mundi praticada pelos santos medievais, uma
actualização em que asceta místico e esteta finissecular se reúnem na figura do
sonhador decadente.
(por opção pessoal, de acordo com a antiga ortografia)