Muros de liberdade: mauern der freiheit
RECENSÕES
Muros de liberdade / mauern der freiheit. Karl-Eckhard Carius & Viriato
Soromenho-Marques (eds.) (2014). Lisboa: Esfera do Caos (edição portuguesa) e
Westfålisches Dampfboot (edição alemã) (pp. 172).
Sílvia Melo-Pfeifer*
*CIDTFF – Universidade de Aveiro (Portugal) e Didaktik der romanischen
Sprachen, Universitåt Hamburg.
smelo@ua.pt; silvia.melo-pfeifer@uni-hamburg.de
Faltava, na paisagem editorial portuguesa e alemã, uma obra que exaltasse a
memória, em geral, e a memória visual, em particular, do Portugal dos "sonhos
pintados" no pós-revolução os cravos. Todavia, os textos que acompanham a
reprodução visual das pinturas e das inscrições murais de Lisboa pós-1974 não
deixam de referir a atualidade político-social da mensagem de outrora, bem como
a emergência de novas formas (ou formatos!) de consciência e de
consciencialização política. Deste modo, sendo uma obra que remete para uma
época, não deixa de incluir no seu sub-título a evocação do presente ("As
imagens esquecidas de Lisboa e o clamor de hoje" ou, na versão alemã,
"Lissabons vergessene Bilder und der Aufschrei heute"). "Muros da Liberdade/
Mauern der Freiheit" procura o diálogo político-social com a atualidade,
conforme sublinham claramente, na Introdução, os dois organizadores ou, no
Prefácio, o ex-Presidente da República, Dr. Mário Soares.
Estamos perante uma obra que nos remete para o seu espaço e o seu tempo – o
Portugal pós-25 de abril, e para uma estética de influência socialista na forma
como retrata o rosto humano contra a desumanização, a força dos braços e os
gestos considerados revolucionários (punho cerrado, braços abertos e erguidos,
...), a fazer lembrar ainda, por vezes vezes, as pinturas murais de Diego
Rivera, nomeadamente na forma como, com traço duro e estilizado, se evidencia a
força operária. Associado a um intuito simultaneamente político e ideológico,
junta-se, nas pinturas murais reproduzidas, um intuito educativo e moralizador,
designadamente na tentativa de emergência de uma consciência de classe, a que a
época retratada não era hostil. Este esforço é feito através de diferentes
elementos visuais que polarizam, junto de um potencial público, de forma muito
clara e sem ambiguidades, o designado Bem contra o Mal, que poderíamos
entender, à luz das dinâmicas históricas que dão forma ao Presente, por
Socialismo/Comunismo e Capitalismo, respetivamente. As fotografias reproduzidas
captam com invulgar qualidade e valor estético o simbolismo destas duas
tendências e os diferentes processos de metaforização e de hiperbolização com
que estas aquelas duas tendências antagónicas foram entendidas no pós-25 de
abril português.
O leitor das imagens ficará, certamente, satisfeito com a qualidade da
reprodução. O leitor dos textos ficará, sem dúvidas, encantado com a elegância
e a variedade da prosa e dos estilos.
O primeiro capítulo, "O que nos contam as paredes da Europa", da autoria de
Viriato Soromenho-Marques, apresenta-nos uma visão disfórica da evolução da
Europa, atualmente marcada por discursos e discussões em torno de palavras-
chave como "défi ", "resgate" ou "austeridade", pouco ciente, no entender do
autor, das vozes e dos ansejos públicos. Numa Europa sem práticas de boa
governação e com instituições que não primam pela transparência, concede o
autor, é preciso angariar "semeadores de futuro" capazes de imaginar
alternativas.
Karl-Eckard Carius, no capítulo "Geração à deriva. Desembarcar num compromisso
com o futuro", propõe-nos um diálogo com Peter Weiss (autor de "A Estética da
Resistência") em torno da pintura "A Jangada da Medusa", de Géricaud. É
portanto um diálogo a, pelo menos, três vozes e entre três tempos, que dá conta
de "tragédias" diferentes ou, se quisermos, de naufrágios em diferentes tempos
e espaços: o do sonho fraternalista francês, o da utopia pós-revolucionária
portuguesa e o do destino único europeu. Lídia Jorge propõe-nos, de seguida, a
visualização de "três filmes na parede". O mote que nos apresenta é sinestésico
e simbólico: o branco da cegueira e da mordaça (a não-visão e a não-voz,
respetivamente), o azul do lápis censurador, as cores garridas da revolução e
as vivas tonalidades dos sons da revolução. E o irrecuperável dessas cores e
tonalidades, agora esvaziadas de sentido pelo tempo, agora "deslocalizadas"
para espaços periféricos, agora prenhes de mentiras autorizadas.
Em "O coro silencioso. Retratos de grupo com figura inesperada", de Teresa
Salema, somos confrontados com as ironias da história e dos seus ritmos e com
as desorientadas fusões de silêncios e de polifonias sincronizadas. O coro
silêncioso remete, assim, para os silêncios e para as mega-manifestações sem
voz e sem consequências, porque sem vozes dissonantes e sem novas
interrogações.
Segue-se a secção "Muros de liberdade. As imagens esquecidas", em que se
reproduzem, quase sem comentário, as fotografias de Karl-Eckhard Carius,
Ferdinand Joesten e de Alfred Kottek. São imagens que, na opinião dos
organizadores, documentam o processo da Revolução dos Cravos de 1974, não
rendendo "homenagem a uma concepção do mundo socialista ou comunista, mas à
força e à coragem da mudança" (página 59, na edição portuguesa). Claro que, na
ânsia de diálogo com a atualidade, o que se diz não é apenas o que se diz e, à
luz do dialogismo procurado, há um segundo nível de interpretação que é preciso
desenterrar da arqueologia das intenções anunciadas.
Aquela ânsia de encetar um diálogo entre o espírito revolucionário de abril e a
necessidade presente de "ousar mudar" pode também ser reiterada através dos
capítulos que dão continuidade à obra: "O que significa hoje a revolução dos
cravos portuguesa?" (de Frieder Otto Wolf), "A nova ditadura" (de Sahra
Wagenknecht), "A estética da crise" (de Eva Berendsen), "Um Banksy sem valor"
(de Daniel Oliveira) e "Algumas ideias sobre o trabalho em torno de ideias
insolúveis" (de Bazon Brock).
Frieder Otto Wolf reconsidera e recontextualiza algumas das lições do 25 de
abril português, assim como alguns conceitos-chave dessa altura ("transição
socialista", "zona de influência", "imperialismo", "burguesia"), que adquiriram
novos sentidos e estão sujeitos a novas metamorfoses (desde logo político-
partidárias). Sahra Wagenknecht, partindo da permissa de que "a história
conturbada de Portugal é uma alegoria da tragédia europeia" (página 143 da
edição portuguesa), fala-nos de uma ditadura moderna, em que a ditadura do
Estado Novo é subsituída pela ditadura dos mercados financeiros, comandada, na
opinião da autora, pela Alemanha. Eva Berendsen e Daniel Oliveira referem-se,
por seu turno, em registos bastante diferentes, a novas ou emergentes formas de
protesto social: a primeira, comentando fenómenos populares como Pussy Riot e
Femen, marcada pela paradoxal resistência sexuada das mulheres contra o
sexismo; o segundo, comentando o ativismo social do internacionalmente famoso
artista de rua Banksy, marcado pela sagacidade e pelo caráter mordaz das suas
criações visuais, e analisando o que, podendo ser um fait-divers(a venda de um
pedaço de parede com uma obra desse autor), se transforma num grito contra os
poderes instituídos. Finalmente, a encerrar o livro, podemos ler no artigo de
Bazon Brock como ele prevê novas formas de consolidação e de vivência
comunitária, já não em torno de questões como as pertenças religiosas ou
linguísticas, mas antes em torno de problemas insolúveis, criados para dar
respostas a problemas anteriores (eventualmente solúveis). O autor insiste na
necessidade urgente de ensinar a lidar, de forma sensata, com esses problemas
sem solução (dando o exemplo da contínua radiação dos lixos radioativos), para
prestar um serviço ao futuro e à eternidade.
O diálogo Passado-Presente-Futuro projeta, nesta obra, uma espécie de "saudade
do futuro", comprometido que está pela surdina vaga do Presente e pela
incapacidade de aprender com os sonhos do Passado. E se o livro nos convoca
visualmente um Passado em que o sonho ainda era possível, os textos dos
diferentes autores colocam-nos diante de um (im)possível diálogo com um
presente que quase desistiu de ter coragem para sonhar.
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