Novas Cartas Portuguesas 40 anos depois
40 ANOS DE ABRIL
Novas Cartas Portuguesas 40 anos depois
Ana Gabriela Macedo*
*Universidade do Minho, Centro de Estudos Humanísticos, Braga, Portugal.
gabrielam@ilch.uminho.pt
"A liberdade hoje, manas, é a persistência do riso, de quem aguentá-lo pode,
sem esgar"
(NCP)[1]
Novas Cartas Portuguesas (NCP), um texto que é quase uma "cooperativa
literária" como diz Ana Luísa Amaral, e uma utopia do possível "com resultados
práticos"[2], e que foi, hoje o lemos e o sabemos, um anunciar de Abril. Por
isso urge, no contexto deste Colóquio, trazê-lo à discussão.
A nível literário é um texto que não só desmonta, desconstrói, o conceito de
autoria/autoridade, como se constrói a si mesmo e à materialidade da
literatura, como um imenso intertexto, um labor de arachné, um texto em rede,
atento por um lado aos "ruídos do mundo" e às várias vozes que o percorrem – a
guerra colonial, o analfabetismo, a iliteracia, a exploração física e psíquica
dos trabalhadores e trabalhadoras portuguesas, a censura e a repressão política
e sexual. Um texto que se assume enquanto narrativa insurrecional, já que se
fundamenta "na rotura que inaugura na literatura portuguesa contemporânea, quer
a nível discursivo, quer a nível meta-discursivo", tal como referi num meu
artigo anterior[3]. As Novas Cartas Portuguesas, tal como afirmou Maria de
Lourdes Pintasilgo no Pré-Prefácio à sua edição de 1980, apenas podem ser
definidas "pelo excesso", "porque rompem, extravasam"
[4]. Este é, contudo, um texto que tem, como foco primeiro, a exploração das
mulheres e a sua invisibilidade e inviabilidade no social, na civitas, assim
como o seu silenciamento pessoal, cultural e político, a sua rasura identitária
enquanto sujeito e agente da cidadania. Em suma, o reclamar da sua humanidade
por inteiro. O texto ergue-se assim como um "modo vigilante" de cultura,
reclamando plenamente a capacidade interventiva da literatura como estratégia
de auscultação da História e modo de interferência no mundo, recuperando as
palavras de Edward Saïd, e recusando assim ao leitor/leitora o instalar-se no
conforto da ficção, na sedução morna das palavras e no inebriante "murmúrio da
mera prosa", de novo num eco de Saïd [5].
Mas o livro ergue-se também como texto ímpar, destacando-se entre as grandes
obras do século XX da literatura portuguesa, pela polifonia de géneros e vozes
literárias que o atravessam – a sua indomada raiz na poética trovadoresca, nas
cantigas de amigo da lírica medieval ibérica, em Bernardim Ribeiro, Sóror
Mariana Alcoforado, Florbela Espanca, Natália Correia, mas também Herberto
Hélder, Alexandre O’Neill, Mário Césariny, Eugénio de Andrade – toda uma rede
textual de intra e inter-dialogismos, heteroglossias e dessacralização da
palavra. Sendo um texto eminentemente dialógico é assim radicalmente fundado na
ambivalência, centrado na dissensão e na discórdia – desde logo, a escrita
epistolar que o constrói, na senda das cartas da monja portuguesa ao cavaleiro
de Chamilly, desconstrói-o simultaneamente como texto uno, isto é, de um género
único e de uma autoria única – desafiando o princípio essencialista da
autoridade literária. Um texto híbrido, um "livro monstruoso", como escreveu
Raquel Ribeiro, "pela transgressão que instaura, pelo desafiante que é enquanto
narrativa impura, ou poética contaminada"[6], e que assenta no princípio do
riso, do jogo e da inversão, enquanto força demolidora, estruturante do
questionamento anti-essencialista que desafia verdades e mundos estabelecidos,
e "faz tremer o burguês". "Quando o burguês se revolta contra o rei, ou quando
o colono se revolta contra o império, é apenas um chefe ou um governo que eles
atacam, tudo o resto fica intacto (…). Se a mulher se revolta contra o homem,
nada fica intacto; para a mulher, o chefe, a política, o negócio, a
propriedade, o lugar, o prazer (bem viciado), só existem através do homem" (p.
175). Mas este é, também e sempre, "livro político", como Maria Teresa Horta,
Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa o reclamam; não um avatar do
Feminismo, mas sim o Feminismo reengendrado, sabiamente reinventado,
materializado em palavras que foram (e são ainda hoje) armas. E assim o Poder
de então reconheceu o desafio que as palavras impuras, contaminadas, teceram, e
condenou-o de imediato, à falta de melhor motivo, ou por escassez de retórica e
outros recursos credíveis – já que a literatura a poucos importa –, condenou-
o por "pornografia e ofensa à moral pública". Provando assim afinal, malgré
tout, o poder da literatura: "Mas o que pode a literatura? Ou antes: o que
podem as palavras?", diz-se no texto (p. 254). O processo foi conduzido pela
polícia judiciária e as autoras interrogadas pelo "Agente Parente", que era o
que ouvia as prostitutas, os homossexuais … e as escritoras malditas. Já o
advogado de defesa foi Luís Francisco Rebelo. Mas disso nos poderão falar com
mais pormenor e maior justiça Ana Luísa Amaral e Marinela Freitas, já que o
processo judicial a que o livro foi sujeito tem sido alvo da aturada
investigação levada a cabo no âmbito do projeto As Novas Cartas Portuguesas 40
anos Depois (http://www.novascartasnovas.com)[7], a que ambas pertencem e que
Ana Luísa Amaral coordena, projeto este que deu já valiosos frutos: uma
reedição anotada do texto, várias conferências internacionais, um número
especial da revista Cadernos de Literatura Comparadas (ILCML)[8], e outros que
estão para vir.
Por último, este é um texto que celebra também a vanguarda de um Feminismo
plural, reclamando a antinomia, o nomadismo e a diferença "avant la lettre",
próximo sem dúvida de teóricas como Hélène Cixous e Luce Irigaray, mas
apontando já o caminho da desestabilização das fronteiras de género, da
política da localização, do empoderamento e das novas cartografias do corpo,
presentes em intelectuais feministas contemporâneas como Butler, Grosz,
Haraway, Lauretis, Braidotti ou Pollock, e como tal um anunciar dos Feminismos
plurais do sec. XXI, de novo e sempre ainda, inquietos, inquietantes, isto é,
consubstanciando uma poética do devir.
Escutamos hoje ainda a sua poderosa e salutar gargalhada! E hoje, talvez mais
ainda do que em nenhuma outra altura da nossa História, temos tamanha precisão
de a escutar e de assim reclamar que: "A liberdade hoje, manas, é a
persistência do riso, de quem aguentá-lo pode, sem esgar".
Quero ainda dizer da minha alegria em poder hoje estar aqui a refletir sobre
este livro mal/dito no belíssimo Salão Medieval da Universidade do Minho,
ciente do facto de que, se não tivesse havido Abril de 74, este livro
"desterrado" como alguns lhe chamaram, teria para sempre as suas páginas
rasuradas pela Censura. E é também um privilégio estar hoje aqui em tão ilustre
e tão amável companhia, e com tão empolgante tema: o Riso, como libelo contra a
opressão e garante da Liberdade.
[Submetido em 15 de julho de 2014 e aceite para publicação em 2 de setembro de
2014]
Notas
[1]Barreno, Maria Isabel Horta, Maria Teresa e Velho da Costa, Maria, Novas
Cartas Portuguesas, (Lisboa: Estúdios Cor, 1972); 2ª edição, (Lisboa: Futura,
1974); a 3ª edição (Lisboa: Moraes, 1980) tem um Pré-Prefácio de Maria de
Lourdes Pintasilgo. A edição mais recente é organizada e anotada por Ana Luísa
Amaral, (Lisboa: Dom Quixote, 2010).
[2]Amaral, Ana Luísa, entrevista com São José Almeida e Raquel Ribeiro, As
Novas Cartas Portuguesas regressam do deserto", Público, Ípsilon, 12/11/2010
(pp. 6-8).
[3]Macedo, Ana Gabriela, "As Narrativas de Novas Cartas Portuguesas e Dores de
Maria Velho da Costa. Reflexão sobre o intertexto de histórias no feminino e a
História cultural e política", in Cadernos de Literatura Comparada 26/27,
ILCML, Porto, (pp.163-179).
[4]"Excessivas as situações, excessivo o tom, excessivas as repetições dum
mesmo acto, excessivo afinal todo o livro que vai terminando sem realmente
terminar, como se tal excesso não coubesse nas dimensões normais", afirma
Pintasilgo (1980: 8).
[5]Saïd, Edward, "Opponents, Audiences, Constituencies and Community", Critical
Inquiry, Sept. 1982, (pp.1-26).
[6]Ribeiro, Raquel, "O híbrido é belo", in Público, 12 Novembro 2010, (p.9).
[7]As Novas Cartas Portuguesas 40 anos Depois
(http://www.novascartasnovas.com/), coord. Ana Luísa Amaral (Univ. Porto;
ILCML), (PTDC/CLE-LLI/110473/2009).
[8]Cadernos de Literatura Comparada 26/27, Novas Cartas Portuguesas e os
Feminismos, org. Ana Luísa Amaral, Ana Gabriela Macedo e Marinela Freitas,
ILCML, Porto, 2012.
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