Ideias ortográficas de Madureira Feijó e de Soares Barbosa
Introdução
Durante os séculos XVIII e XIX, a questão ortográfica foi amplamente discutida
e a necessidade de fixação de uma única escrita normativa é visível no
incremento da produção de tratados ortográficos, que se sucediam uns após
outros, sem, no entanto, se chegar a uma decisão ‘definitiva’. Como refere Rita
Marquilhas (1991: 8):
[…] apesar de no século XVIII se terem criado em Portugal
excepcionais condições culturais para a convenção de uma única
ortografia, essa convenção nunca chegou a ser celebrada, nem sequer
tacitamente, podendo falar-se apenas de várias ortotipografias, umas
vezes paralelas, outras vezes divergentes.
Durante este período, destaca-se a Orthographia, ou Arte de Escrever, e
Pronunciar com acerto a Lingua Portugueza (1734),[1] de João de Morais
Madureira Feijó (1688-1741), que “[…] chegou a ser o tratado ortográfico com o
maior êxito, até inclusive no século XIX.” (Kemmler, 2001: 206).[2]
Com a publicação desta Orthographia, a corrente etimológica,[3] assente no
ideal de perfeição linguística e na filiação às línguas clássicas, assume uma
posição cimeira e, malgrado outras propostas, como as dos “sónicos”, terá lugar
de destaque até aos inícios do século XX.
É precisamente neste período que vem a lume uma das mais importantes gramáticas
da língua portuguesa, a Grammatica Philosophica da Lingua Portugueza (1822) de
Jerónimo Soares Barbosa (1737-1816), que teve, durante o século XIX, sete
edições (1822, 1830, 1862, 1866, 1871, 1875, 1881), todas elas publicadas sob a
chancela da Academia das Ciências de Lisboa.
Dos quatro livros que compõem esta gramática, o II é dedicado à Orthographia,
ou boa Escriptura da Lingua Portugueza. Neste livro, o autor reflete sobre os
vários sistemas ortográficos existentes, cabendo-lhe o pioneirismo ao
introduzir um sistema misto, o sistema usual,[4] que conciliava etimologia e a
pronunciação.
Neste sentido, tendo em conta a importância das duas obras, pretendemos, no
presente artigo, analisar e confrontar as propostas ortográficas destes dois
autores, atentando na definição de ortografia apresentada, no alfabeto
proposto, na representação da nasalidade, assim como nos ditongos elencados por
ambos, especificando o caso do ditongo nasal [?̃w].
1. Definição de Ortografia
A história da ortografia portuguesa[5] ficou marcada por uma oscilação
permanente entre duas forças: a da vernaculização e a da latinização, reflexo
de um determinado contexto político, social e cultural. Depois de um período
inicial, fortemente marcado pelo critério fonético, verificou-se um regresso às
origens, numa tentativa de codificação gráfica, assente nas noções de perfeição
e purismo ortográficos, e uma consequente recuperação da etimologia. Esta
corrente, justificada pelo ambiente cultural em que se vivia, encontra o seu
auge em João de Morais Madureira Feijó, cujas soluções gráficas assentam no
modelo ortográfico latino, com a sobreposição da vertente histórica à fonética.
[6]
No que respeita à definição de ortografia, Madureira Feijó define-a da seguinte
forma:
Orthographia, ou Orthografia he aquella Arte, que ensina a escrever
com acerto nas letras, de que se compõem as dicçoens; na divisaõ, que
se faz das palavras, quando naõ cabem inteiras no fim das regras; nos
pontos e virgulas, com que se divide o sentido das oraçoens; nos
accentos, ou tons, com que se pronunciaõ as vogaes em cada palavra.
(Feijó, 1781: 7).
Nesta definição, destaca-se o espírito normativo e o objetivo pedagógico,
expressamente assumidos pelo autor, para além do estatuto de arte atribuído à
ortografia, que remete para o conhecimento e aplicação de regras com o
propósito de alcançar uma escrita correta, assente num ideal de perfeição
linguística, que nos conduz ao purismo das suas origens greco-latinas.[7]
Ademais, ressaltam também as referências acerca de “[…] a divisão silábica, a
pontuação e a ortoépia, assuntos que até então só estavam situados à margem da
ortografia.” (Kemmler, 2001: 217).
Na senda do que acontecia com outros ortógrafos e gramáticos, Feijó pretende
apresentar uma ortografia diferente, que pudesse resolver os problemas
presentes nas obras anteriores, das quais discorda, considerando que muitas
vezes os seus autores se contradizem uns aos outros e a si mesmos[8] no que
concerne às teorias ortográficas defendidas:
Mas sendo muitas as Orthografias, que tem sahido á luz, e nos ensinaõ
regras para os accentos, para a pontuaçaõ, e divisaõ, que se reduzem
a preceitos certos; ainda naõ sahio huma, que nos ensinasse a
escrever com certeza as letras, de que se devem compor as dicçoens,
ou palavras na nossa lingua Portugueza; porque ja nos dizem, que
devemos observar a analogia, e etymologia das palavras, imitando nas
letras aquellas, donde tiverem a sua origem; ou aquellas com que
tiverem sua proporçaõ, e similhança; como em seu lugar explicaremos.
Mas logo se desviaõ destas regras em muitas palavras, que naõ
escrevem nem por analogia, nem por etymologia; dizendo, que assim
escrevem os doutos na nossa lingua. Ja nos dizem, que a melhor
Orthografia he aquella, que mais se accommoda com a recta
pronunciaçaõ das palavras. (Feijó, 1781: 7-8).
De seguida, o autor expõe os seus argumentos para nos dar a conhecer a sua
doutrina ortográfica: defende a etimologia em detrimento da pronúncia, à qual
se segue o critério da analogia. “Esta seria aplicável aos numerosíssimos casos
de palavras que não remontam necessariamente a um dado étimo, mas são resultado
de processos morfológicos (composição, derivação, etc.).” (Kemmler, 2001: 218).
Por seu turno, Soares Barbosa, na Grammatica Philosophica, considera igualmente
a ortografia como a arte de escrever corretamente, no entanto apresenta uma
perspetiva mais abrangente, contemplando, na sua proposta, os diferentes
sistemas ortográficos vigentes:
A Orthographia he a Arte de escrever certo, isto he, de representar
exactamente aos olhos por meio dos caracteres Litteraes do Alphabeto
Nacional, os sons, nem mais nem menos, de qualquer vocabulo, e na
mesma ordem, com que se pronuncião no uso vivo da Lingua: ou bem
assim os que o mesmo vocabulo em outro tempo teve nas Linguas mortas,
donde o houvemos.
Assim o vocabulo Ortografia, escripto por este modo, representa ao
justo os sons de sua pronunciação viva na Lingua Portugueza. Porêm
escripto, como se vê ao principio, representa, não so os sons, que
tem presentemente, mas tambem os que teve em outro tempo no uso vivo
da Lingua Grega, donde o houvemos. (Barbosa, 1822: 56)
Esta definição, que retoma em quase tudo a apresentada pelo autor na Eschola
Popular,[9] remete-nos de imediato para os dois sistemas ortográficos que
durante as centúrias setecentista e oitocentista foram amplamente discutidos.
Soares Barbosa ilustra precisamente estes dois tipos de sistema recorrendo à
palavra ‘ortografia’, que, dependendo da forma como se escreve, pode
representar apenas o modo como se pronuncia ou a sua origem grega.
O autor prossegue, dizendo que:
A primeira Orthographia chama-se da Pronunciação; porque não emprega
caracteres alguns ociosos e sem valor: mas tão somente os que
correspondem aos sons vivos da Lingua. A segunda chama-se
Etymologica, ou de Dirivação; porque admitte letras, que
presentemente não tem outro prestimo senão para mostrar a origem das
palavras (Idem, 56-57).
A par destes dois sistemas ortográficos, muitas vezes contraditórios, caminhava
um sistema misto, que conciliava etimologia e pronunciação, tendo por base o
uso:
Entre estas duas Orthographias caminha a usual, assim chamada, porque
não tem outra auctoridade se não a do uso presente e dominante; ja
para seguir as Etymologias, e introduzir arbitrariamente escripturas
mui alheas da pronunciação presente; ja para não fazer caso da
dirivação mesma, e incoherente em seus procedimentos escrever, por
ex: He, Huma com H, que não ha na origem Latina; e Filosofia, e
Fyzica com F e Z, que não ha nas palavras Gregas[10] (Idem, 57).
Destaque-se aqui a posição pioneira de Soares Barbosa em reconhecer formalmente
a ortografia usual como uma das três possíveis realizações. Na opinião de
Kemmler (2012: 314), “[…] é precisamente esta introdução formal do sistema
misto, que oscila entre os dois sistemas ‘clássicos’ da teoria ortográfica, que
deve ser considerada uma das maiores inovações da Grammatica philosophica em
matéria ortográfica”.
Na ótica barboseana, a importância do uso na ortografia é tal que, na única
regra que o autor estabelece para a ortografia etimológica, na qual refere que
“toda a palavra Portugueza, que for dirivada ou da Lingua Grega, ou da Latina,
deve conservar na escriptura os caracteres da sua origem, que se poderem
representar pelos do nosso Alphabeto, e forem compativeis com a nossa
pronunciação” (Barbosa, 1822: 68), acaba por concluir que o uso é soberano,
fazendo todas as exceções que assim entender: “Mas o uso faz nesta regra todas
as excepções, que quer[11]” (Ibidem).
Após a apresentação dos três sistemas ortográficos, o gramático reflete sobre o
acesso da população a cada um deles. Considera que ao alcance do Povo
illitterato só está a ortografia da pronunciação, uma vez que para escrever
segundo este sistema não é necessário conhecer o funcionamento das línguas
grega e latina, bastando apenas distinguir bem os sons de cada palavra:
Ja se vê que as Orthographias, Etymologica e Usual estão totalmente
fóra do alcance do Povo illitterato. Porque nenhuma regra segura se
lhe póde dar, ou elle perceber para deixar de errar a cada passo, que
não seja a de largar a penna a qualquer palavra, que queira escrever,
para consultar o vocabulario da Lingua. Porêm a Orthographia da
Pronunciação não he assim. Rectificada que seja esta; não tem elle
mais do que distinguir os sons, quer simples, quer compostos, de que
consta qualquer palavra, e figural-os com os caracteres proprios, que
os Alphabetos Nacionaes para isso lhe dão (Idem, 57).
Se, por um lado, esta modalidade é a mais acessível àqueles que não têm
conhecimentos acerca das línguas clássicas, por outro,
ou por facil, ou por estranha ao uso presente da Nação,[12] não he do
gosto dos homens Litteratos, que não tendo a mesma difficuldade que
tem os idiotas, para escreverem segundo as Etymologias, julgarião ter
perdido seus estudos, se por isto se não distinguissem do vulgo
imperito (Ibidem).
Após considerar as vantagens e desvantagens inerentes a cada sistema, Soares
Barbosa, numa atitude conciliatória, propõe-se apresentar as regras que
caracterizam cada uma das ortografias. Assim, dedica os capítulos II e III às
Regras proprias da Orthographia Etymologica, e Usual e às Regras proprias da
Orthographia da Pronunciação, respetivamente. Note-se que no capítulo dedicado
à ortografia da pronunciação, à semelhança do que já fizera na Eschola Popular,
no artigo relativo à pontuação, Barbosa adota a escrita da pronunciação,
facilitando assim o acesso e a compreensão das regras que está a explanar.
Relativamente às partes que integram a ortografia, o gramático considera que
são duas, a saber:
A primeira he a união bem ordenada das Letras de qualquer vocabulo,
correspondentes aos sons, e á sua ordem na boa pronunciação do mesmo.
A segunda he a separação dos mesmos vocabulos e orações na Escriptura
continuada, segundo a distincção, e subordinação das ideas e
sentidos, que exprimem. Aquella he objecto da Orthographia, tomada em
hum sentido mais restricto; e esta he objecto da Pontuação (Idem,
58).
Desta divisão decorrem, assim, dois níveis de análise do sistema gráfico: um
primeiro relacionado com as “Letras”, correspondente ao plano alfabético, e
outro relacionado com a pontuação, correspondente ao plano extra-alfabético.
Segundo Gonçalves (2003: 284), “esta divisão denota uma concepção lata de
sistema ortográfico que não se restringe, portanto, aos elementos alfabéticos.
A ela se deve que, desde o início, tenhamos assumido o conceito de "ideia
ortográfica" no seu sentido mais amplo […]”.
2. Alfabeto
Na primeira edição, o alfabeto apresentado por Madureira Feijó é composto por
vinte e quatro letras, que são as seguintes: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L,
M, N, O, P, Q, R, S, T, U, V, X, Y, Z (cf. Feijó, 1734: 20). Na edição que
estamos a usar, de 1781, o alfabeto já apresenta vinte e cinco letras,
adicionando-se o <J> (cf. Feijó, 1781: 24), as quais se dividem em vogais e
consoantes:
As vogaes saõ seis, A, e, i, o, u, y. Chamam-se vogaes, porque cada
huma por si só tem voz clara, e distincta. As mais chamam-se
Consoantes, porque na sua pronunciaçaõ soaõ juntamente com as vogaes;
tanto, que se as escrevessemos como as pronunciamos, seria assim Be,
ce, de, ef, ge, ba, etc. (Ibidem).
Nas Regras Communs a todas as Orthographias, Jerónimo Soares Barbosa propõe
trinta e um carateres para a escrita das palavras portuguesas, “[…] a saber: 5
vogaes oraes A, E, I, O, U; 5 Nasaes Ã, ?, I, Õ, U; e 21 Consoantes B, P, M, V,
F, G, C, D, T, S (com vogal diante) Z, S, (sem vogal diante), X, J, CH, N, NH,
L, LH, R, RR, como se póde ver no Livro I. da Orthoepia, Cap. I, e II”
(Barbosa, 1822: 58).
Como se pode verificar, o gramático não inclui, “[…] no Abecedario do uso
Nacional” (Ibidem), o <K> e o <Y> e inclui as prolações portuguesas <CH>, <NH>,
<LH> e <RR>, ao contrário, por exemplo, do alfabeto proposto por Feijó na sua
Orthographia.
Além do abecedário do uso, Soares Barbosa apresenta também “[…] o Abecedario
vulgar, ou Typographico de 23 Letras, a saber: A, B, C, D, E, F, G, H, I, K, L,
M, N, O, P, Q, R, S, T, U, X, Y, Z […]” (Idem, 59), que critica por défice e
por excesso:
[…] por huma parte he incompleto e falto não menos que de onze
Letras, a saber: das cinco Nasaes Ã, ?, I, Õ, U; das duas Consoantes
J, e V, e das quatro
Prolações CH, NH, LH, RR, que são humas verdadeiras Consoantes, posto
que figuradas com duas Letras: e por outra parte o mesmo Abecedario
vulgar he sobejo de tres Letras, a saber: o K, e Y, que são Gregas, e
o H, que, ainda sendo signal de aspiração, não deve ter lugar entre
as Consoantes, mas sim entre os Accentos Prosodicos, aonde pertence
(Ibidem).
Assim, na ótica do autor, para a ortografia das palavras portuguesas, não
seriam necessárias as duas letras gregas <K> e <Y>, pois estas podem-se “[…]
substituir com as nossas Letras […]” (Idem, 68). Relativamente à primeira
letra, também Madureira Feijó perfilha a opinião de que esta letra não é
necessária. Ainda assim, Feijó (1781: 72) inclui-a no alfabeto:
A esta letra chamaõ os Gregos Kappa, e deles a tomáraõ os latinos,
para escreverem alguns nomes, que passáraõ para o seu uso. Mas no
sentir de Prisciano he letra inutil; porque todas as palavras, que se
escrevem com K, se podem escrever com C, excepto Kyrie eleison;
porque o C, quando naõ he aspirado com H, naõ fere a vogal seguinte
com o som de K. Na lingua portugueza he escusada, porque naõ ha
palavra, que se escreva com esta letra. Mas sendo taõ inutil, naõ
incorreo na desgraça daquelles, que sendo os primeiros no prestimo,
saõ os ultimos na estimaçaõ; porque entre as letras do nosso alfabeto
occupa o decimo lugar.
A inclusão desta letra no alfabeto justifica-se, na ótica do ortógrafo, pela
necessidade de “[…] que os meninos saibaõ que também he letra, e como se
figura” (Feijó, 1781: 24).
Relativamente ao <y>, enquanto Soares Barbosa considera que esta letra deve ser
apenas usada “[…] nas palavras de origem Grega, que são menos trilhadas do Povo
[…]” (Barbosa, 1822: 70), Feijó acaba por aceitar a utilização do <y> em
determinadas situações, quando assume que “[…] naõ he superfluo entre nós o Y”
(Feijó, 1781: 99). Por isso, usa o <y> quando a semivogal está em posição
intervocálica (cayado, payo, veyo) e quando a grafia está consagrada pelo uso
em palavras como rey, ley, pay, boy. Por último, não deixa de enumerar as
várias palavras que se escrevem com <y> devido à sua origem greco-latina, de
que são exemplos syllaba, metaphysica, hyperbole.
No que respeita aos casos em que o <y> é consagrado pelo uso e não tem qualquer
fundamento etimológico, como os que Feijó apresenta, Soares Barbosa considera-
os um abuso: “He porêm abuso empregar o Y em palavras, que o não tem na sua
origem, como Ley, Rey, Moyo, Comboy &c” (Barbosa, 1822: 70).
Paralelamente, o gramático detém-se numa reflexão acerca da sequência das
unidades alfabéticas, revelando aqui que, para além de ser um gramático
linguista (cf. Sterse, 1989: 210), também é um gramático pedagogo.
Assim, verifica-se que o autor propõe uma sequência diferente daquela que é
vulgarmente usada e que foi herdada do latim. Esta sequência é criticada pelo
mesmo pois, para além de desorganizada, dado que mistura consoantes e vogais,
não tem em consideração as afinidades entre as unidades: “Não falo ja na
desordem fortuita do mesmo Abecedario vulgar, em que as vozes se vem misturadas
com as Consoantes, e estas sem ordem alguma entre si; antes contra toda a serie
de sua geração, e dos orgãos, a que pertencem” (Barbosa, 1822: 59). Posto isto,
Soares Barbosa reorganiza o alfabeto, tornando-o “[…] fonético para que as
pessoas reconheçam os sons básicos da língua portuguesa e possam, a partir da
fala, escrever a língua com a ortografia da pronunciação, passando depois à
ortografia vulgar (usual e etimológica) quando as tiverem aprendido” (Cagliari,
1985: 96).
Relativamente às designações dadas às consoantes, o autor também se afasta e
critica o uso dominante e defende uma denominação que facilite a aprendizagem
da leitura por parte das crianças, seguindo a prática das “Nações Civilizadas”,
introduzida, como sabido, pela Grammaire Générale et Raisonnée de Port-Royal:
[13]
A nomenclatura vulgar de muitas destas Consonancias como são eMe, U,
eFe, Gê, Cê, eSe, Xis, I, Ce Hàgá, eNe, eNehagá, eLe Hagá, eRRe
forte, eRRe brando, […] he de hum grande embaraço para o seu
aproveitamento. Elle dá a muitas letras hum valor e som, que ellas
não tem; a outras accrescenta outros, que as mesmas não tem, e que
não servem senão para embrulhar e confundir-se o som proprio e
verdadeiro.
Todas as Nações Civilizadas tem ja largado, ha muito, este methodo; e
dando ás Consoantes o seu valor proprio e uniforme por meio do Seheva
[sic!], que ajuntão a cada huma, deste modo: Be, Pe, Me, Ve, Fe, Gue,
Que, De, Te, Se, Ze, Xe, Je, CHe, NHe, Ne, Le, LHe, Re, RRe […]
(Barbosa, 1822: 13).
A implementação desta nomenclatura viria, assim, “[…] facilitar grandemente os
methodos de soletrar, de Syllabar, e da Leitura, em que os mininos gastão tanto
tempo nas escholas com muito trabalho, e mui pouco fructo” (Idem, 13-14).
Outro aspeto importante que o gramático evidencia a respeito da escrita das
letras e que é fundamental para facilitar a leitura por parte das crianças é a
forma das letras. Os meninos devem principiar “[…] a Leitura por cartas e
livros de letra impressa, mais regular, mais uniforme, mais certa, e por isso
mesmo tambem mais facil, e mais propria para dar o leite das Primeiras Letras á
tenra idade[14]” (Idem, 54).
3. Ditongos
Os ditongos constituem uma das áreas mais controversas entre a doutrina dos
gramáticos e ortógrafos, pois são fonte de diversas propostas e interpretações
e, consequentemente, geradores de instabilidade gráfica.
Na definição de ditongo, Feijó remete para a inseparabilidade fónica de duas
vogais que integram a mesma sílaba e para a origem da palavra: “9 Esta palavra
Dithongo he tirada do Grego, e significa o som de duas vogaes; e por isso
Dithongo he aquelle, que se faz de duas vogaes unidas, ou juntas debaixo de
huma só pronunciaçaõ […]” (Feijó, 1781: 25).
Atente-se, agora, na definição proposta por Soares Barbosa:
Diphthongo quer dizer hum som feito de dois, isto he, duas vozes
unidas em hum som. Mas duas vozes nunca se podem unir em hum som, sem
que huma dellas pela sua brevidade e rapidez se acoste á outra,
dando-lhe parte de sua quantidade, e esta fique muito mais longa em
comparação da outra. Huma pois necessariamente ha de ser mais longa e
outra brevissima. A primeira na ordem das duas, que compõem o
Diphthongo, chama-se Prepositiva, e a segunda Subjunctiva (Barbosa,
1822: 14).
Para a definição de ditongo, o autor atenta na etimologia da palavra, tendo em
consideração as duas palavras gregas que a compõem. Assim, o ditongo consistirá
na junção de duas vozes unidas num só som. Alerta, também, para o facto de
estas duas vozes não terem a mesma duração, ou seja, a mesma quantidade: uma é
mais longa e outra mais breve, o que nos remete para a definição atual de
ditongo, como conjunto de dois elementos, um de caráter vocálico e outro
semivocálico. A primeira das vozes é a prepositiva e, segundo o autor, é sempre
longa. A segunda deve ser mais rápida e mais breve do que a prepositiva e
designa-se subjunctiva.
Após estas considerações preliminares, o gramático passa à apresentação dos
ditongos, considerando para a nossa língua um total de dezasseis, dos quais dez
são orais e seis nasais.
Na página 16 da Grammatica, Jerónimo Soares Barbosa apresenta a listagem dos
ditongos orais e nasais com as suas possíveis grafias e respetiva
exemplificação. Vejamos as propostas do autor:
Tabela 1. Listagem dos 10 ditongos orais
____________________________________________________________________________________________________
|Possíveis_grafias_______________|Exemplos__________________________________________________________|
|ái, ay, ae áo, au éi, éy |Pái, Páy, Páes Páo, Páuta Papéis, Réys Rêi, Lêy, Hêi Cé|
|êi, êy, hêi éo |Mêo, Êu |
|êo, êu ío |Ouvío |
|ói, óe, óy ôi, ôe, ôy úi, |Heróis, Heróe, Combóy Bôi, Pôes, Môyo |
|_________________________________|Fúi,_Úyvo_______________________________________________________|
Tabela 2. Listagem dos 6 ditongos nasais
_________________________________________________________________________________________________________________________
|Possíveis_grafias__________________________________|Exemplos____________________________________________________________|
|ãi, ãe, aen, ain ão, hão, am, aon ?e, ?i, em, en|Mãi, Mãe, Maens, Mains Mão, Hão, Mam, Maons B?e, B?is, Bem, Bens|
|õe, õi, oin, oem, oen õo, om, on |Põe, Põi, Poins, Poem, Poens Bõo, Bom, Bons |
|ui,_uim,_uin________________________________________|Rui,_Ruim,_Ruins____________________________________________________|
Desta listagem de ditongos, cabe-nos destacar a perspicaz distinção que o
gramático faz entre os planos fónico e gráfico, uma vez que para os dezasseis
ditongos elencados (plano fónico) apresenta quarenta e cinco possíveis grafias
(plano gráfico) (cf. Gonçalves, 2003: 468).
O número de ditongos apresentado pelo gramático não é coincidente com o de
Feijó, que defende a existência dos seguintes ditongos: <aa, ae, ay, ai, ao,
au, ea, ee, eo, ey, ei, eu, io, oe, oy, oi>. Esta lista permite-nos claramente
confirmar a existência de “[…] uma notória interferência ou sobreposição do
plano gráfico no plano fónico, dado muitas das enumerações incluírem variantes
gráficas do mesmo ditongo.” (Gonçalves, 2003: 83).
Contrariamente a Soares Barbosa, Feijó não distingue os ditongos orais dos
nasais e, destes últimos, apenas contempla os seguintes ditongos: <aã, a?, õe,
aõ>, presentes em irmãa, maçaã, ca?s, pa?s, melões, tostões,[15] Alemaõ, Joaõ.
Ademais, Soares Barbosa apresenta ainda os ditongos <hei, ui, uy>, que não
surgem em Feijó e, inversamente, este contempla os ditongos
<aã, ea>. Relativamente ao ditongo <ee>, que apenas Feijó lista, o ortógrafo
condena a sua utilização, uma vez que o recurso ao acento agudo evitaria a
duplicação da vogal:
13 Naõ me lembra ter achado algum dithongo de dous Ee na lingua
Portugueza; e se alguns escrevem Fee See, com elles, he erro
manifesto, porque tal naõ soa na sua pronunciaçaõ, nem saõ
necessarios; pois basta o accento agudo para se escreverem com o som
alto, com que se pronunciaõ Fé, Sé […] (Feijó, 1734: 26-27).
4. Representação da nasalidade
A representação da nasalidade cria alguns problemas aos ortógrafos, uma vez que
se trata de um campo marcado por uma instabilidade gráfica e, por vezes, até
polémico.
Relativamente à representação da nasalidade nos ditongos, Soares Barbosa
descreve os usos habituais, referindo que ela se pode marcar com recurso ao til
ou através da sequência de vogal mais consoante nasal, no entanto alerta para
alguns inconvenientes que podem advir do uso de vogal e consoante nasal,
nomeadamente o facto de se poderem confundir os ditongos nasais com as vogais
nasais simples (pão / pam)[16] e de o <n> ser colocado fora do lugar no plural
dos nomes (maons / mãos). A conclusão é que o recurso ao til é o caminho mais
seguro para evitar enganos:[17]
Sobre o que cumpre advertir que ninguem se engane com a nossa
Orthografia vulgar, que póde muito facilmente induzir em erro, quando
escreve os Diphthongos Nasaes humas vezes com a Prepositiva so sem a
sua Subjunctiva, como Pam, Bem, em lugar de Pão, B?e; e outras com
ambas as vozes sim, mas com a modificação Nasal fóra do seu lugar,
como em Mains, Maons, Sermoens, Bens, Ruins. Porque a nasalidade,
marcada por nós com o Til por cima da vogal, cahindo sempre nos
nossos Diphthongos Nasaes sobre a prepositiva dos mesmos; a
Orthographia vulgar a vem a pôr no fim das duas vozes, fóra do seu
lugar, figurando-a com N, que tambem tem este valor, quando não he
seguido de vogal. Este N, em lugar de Til, teria o seu lugar proprio
immediatamente depois da prepositiva, se em vez de escrever Mains,
Maons, Sermoens, Beens, Ruins, escrevessemos Manis, Manos, Sermones,
Benes, Runis. Mas esta escriptura tinha o inconveniente de fazer do
N, signal de nasalidade, hum N Consoante pela vogal que se lhe segue,
como fazem os Hespanhoes. Para evitar pois este absurdo, cahio no
outro de pôr o signal nasal fóra do seu lugar. Porêm quem escrever os
Diphthongos Nasaes constantemente com o Til por cima da prepositiva,
evitará hum e outro desacerto (Barbosa, 1822: 16-17).
No caso de Feijó, verifica-se que na prática recorre ao til ou à consoante para
marcar a nasalidade, no entanto na definição[18] que apresenta de til,
considera-o como abreviatura e, neste sentido, refere que é usado para suprir
as letras <m,[19]n> quando são dobradas, quando temos um <m> em contexto de
final de palavra, e é sinal de abreviatura em diversas palavras, como é o caso
do q (que) e de alguns nomes patronímicos.
Estas considerações do ortógrafo revelam-nos que ele preconiza o til como sinal
de abreviatura, no entanto verificamos que não lhe atribui a característica da
nasalidade, o que leva Kemmler (2007: 368) a tecer o seguinte comentário:
Embora parecesse ter captado a essência do conceito da nasalidade no
tratamento dos ditongos nasais, é curioso que Feijó, quando trata do
til, recua ao considerar que o til, nos contextos mencionados,
somente teria a função de abreviatura de uma consoante nasal.
4.1. Ditongo nasal [?̃w]
Como já referimos, Feijó contempla os seguintes ditongos nasais: <aã, a?, õe,
aõ>. No caso deste último ditongo <aõ>, Feijó, depois de analisar os argumentos
apresentados por outros autores para justificar as suas opções de grafia,
assume uma posição diferenciada e explica:
[…] todos os nomes, que acabaõ com som forte […] se escrevaõ com aõ,
como Alemaõ, Christaõ, Joaõ, Sebastiaõ, & c. e os que forem
breves, teraõ accento na penultima, ou na vogal antecedente: como
Christóvaõ, Estêvaõ, &c. Nas linguagens dos verbos, as que
acabarem breves, teraõ os mesmos accentos nas vogaes penultimas ao
dithongo, como: Elles amáraõ, Ensináraõ, Lêraõ, Ouvíraõ do preterito;
e as que forem longas, naõ teraõ os taes accentos. E se me disserem,
que ainda fica dúvida no tempo donde fallaõ, naõ tendo accento,
porque poucos o usaõ; respondo, que se escrevaõ as linguagens do
futuro com am, e accento agudo sobre o A: v.g. se quizermos dizer que
as náos partíraõ hontem, ou partirão á manhã; quando escrevermos só
Partíraõ, se for do preterito, será Partíraõ com accento agudo, ou
circumflexo no I; e se for do futuro, será Partirám com o mesmo
accento no A; e naõ Partiraõ, porque o til occupa o lugar do
accento.” (Feijó, 1781: 80).
Assim, Feijó distingue claramente os nomes oxítonos que devem escrever-se com
aõ, como Alemaõ, Christaõ, Joaõ, Sebastiaõ e os nomes cuja sílaba tónica não
corresponde ao ditongo nasal e que, por isso, deverão ser acentuados
graficamente na sílaba anterior, como acontece com os exemplos fornecidos pelo
autor Christóvaõ, Estêvaõ.
Relativamente às formas verbais, Feijó propõe a utilização de um acento agudo
ou circunflexo na penúltima sílaba para o pretérito perfeito (partíraõ) e, no
caso do futuro, apenas um til. Como alternativa à representação desta última
forma verbal, o autor indica a possibilidade de se recorrer à desinência <ám>,
que implicaria o uso de um acento na última sílaba.
Este ditongo <aõ> pode ainda ser encontrado nas formas de plural de palavras “
[…] que no castelhano acabaõ em ano no singular, e no plural em anos […]”
(Idem, 112), como por exemplo Cidadaõs, Cortesaõs, Christaõs, Vilaõs.
Para representar o ditongo [?̃w], Soares Barbosa propõe as grafias <ão, hão,
am, aon>. Desta forma, encontramos duas grafias em que a nasalidade é marcada
pelo til, <ão, hão>, e outras duas em que é marcada pela sequência vogal e
consoante nasal, <am, aon>.
A grafia <aon> serve para marcar alguns plurais das palavras terminadas em
<ão>, como maons e saons, no entanto, segundo o gramático esta grafia tem o
inconveniente de colocar a nasalidade fora do lugar, pelo que não é uma forma
adotada no seu texto.
No tocante à representação <ão>, notamos desde logo que o gramático não
contempla na taboa a sua variante <aõ>, que é recomendada por Feijó.
Encontramos este ditongo no texto da gramática em palavras como aspiração,
atenção, canção, christão, sabichão. Tal como em Feijó, esta representação está
também associada à formação dos plurais de alguns nomes portugueses em <ão>,
que em castelhano terminam em <ano>, “[…] como Christão Christãos, Cortesão
Cortesãos, Grão Grãos, Irmão Irmãos, Mão Mãos, Orfão Orfãos, Orgão Orgãos, e
poucos mais. Os nomes Benção, Cidadão, e Villão, podem fazer de ambos os modos:
Benções, ou Bençãos,[20] Cidadões, ou Cidadãos, Villões, ou Villãos” (Barbosa,
1822: 135-136).
Relativamente à ocorrência de <ão> em formas verbais, verificamos que, na
edição de 1822, é usado nos tempos do presente, do pretérito e do futuro,[21] o
que significa que não se recorre à distinção destes tempos através da oposição
<ão>, para o futuro, e <am>, para os restantes tempos.[22]
Embora o gramático não discuta diretamente qual das duas grafias seria a
indicada, há passos do texto que nos permitem retirar algumas conclusões.
Assim, no parágrafo dedicado aos números e pessoas do verbo, o autor esclarece
que a terceira pessoa do plural termina constantemente “[…] ou em ão, ou em em,
segundo a terceira do singular tem a, ou e” (Idem, 229). Num outro passo, no
âmbito das regras comuns a todas as ortografias, ao aconselhar o uso de acento
gráfico para distinguir palavras que sem ele se confundiriam, o gramático
apresenta como um dos exemplos as formas do pretérito e do futuro:
Todos convem em que, para representar todas as nossas 10 vozes oraes,
mostradas na Taboa Cap. I. da Orthoepia, nos sirvamos so das cinco
vogaes a, e, i, o, u; porêm com a differença dos Accentos vogaes, com
que se distinguem, todas as vezes que esta distincção for necessaria
para huma palavra univoca se não confundir com outra, como sem elles
se confundirião Pára verbo com Para preposição, Sé nome com Sê verbo
e Se Conjuncção, Avó feminino com Avô masculino, e Amárão preterito
com Amaráõ futuro (Idem, 61).
Se, para estas formas, o gramático prevê um acento distintivo, é porque
entendia que elas se escreveriam da mesma maneira, portanto com <ão>. Neste
sentido, aponta, para o pretérito, a utilização de um acento agudo (ou
circunflexo) na penúltima sílaba (amárão) e, para o futuro, na última sílaba
(amaráõ). Neste último caso, distingue-se de Feijó ao propor o uso do acento
para a forma de futuro.
A grafia desta última forma, com o til colocado na subjunctiva do ditongo,
<aõ>, colide com a proposta que o gramático faz na página 17, pois aí ele
manifesta a preferência de marcar a nasalidade dos ditongos com o til sobre a
prepositiva dos mesmos, o que torna esta proposta para o futuro algo
incoerente.
Considerações ?nais
A leitura das duas obras evidencia a importância que estes dois autores tiveram
na sua época. No caso de Madureira Feijó e da sua Ortographia, esta foi uma
obra cuja influência perdurou pelo século XIX, marcada pelo seu pendor
etimologizante e pela defesa de um regresso à matriz clássica. Esta perspetiva
seria uma forma de distinção entre os doutos e uma camada menos erudita,[23]
que preferiria guiar-se pelo critério fonético e consequente defesa da
simplicidade do sistema gráfico, favorecendo a democratização da escrita.
Na Grammatica Philosophica, muitos são os momentos em que o autor se revela
flexível e aceita a diversidade de usos. Assim, logo a iniciar o segundo livro,
após a apresentação dos três sistemas ortográficos, Soares Barbosa refere que a
ortografia da pronunciação é a mais acessível para aqueles que não detêm
conhecimentos das línguas clássicas, porém conclui que esta não agrada aos
doutos, que preferentemente escrevem segundo as etimologias. Como certamente
entende que a sua função é dar a conhecer a língua, opta por descrever todos os
sistemas, deixando liberdade na escolha: “Eu, para satisfazer a todos, porei
primeiro as Regras communs a todas as Orthographias, e depois ás proprias a
cada huma dellas. Quem quizer poderá escolher” (Barbosa, 1822: 57-58).
Na prática, no momento da redação, apesar do esforço de codificação gráfica
encetado por vários autores ao longo dos dois séculos, verificamos que cabia a
cada um a opção por um caminho[24] mais ou menos arcaizante, que estaria também
condicionado pelo conhecimento que se tinha da língua latina e pela defesa de
um purismo ortográfico, assente na sua filiação latina.