Enunciados do tipo injuntivo em géneros de texto publicitários sobre o vinho
1. Introdução [1]
O presente trabalho[2] é realizado no âmbito da Teoria do Texto, campo
linguístico que convoca outros saberes para uma compreensão mais conseguida das
noções de género de texto e de texto. Considerados ontológica e
praxiologicamente codependentes, o género de texto é entendido como uma
configuração comunicativa cuja manifestação física é o texto, um objeto
complexo construído em vários patamares linguísticos e encaixado num contexto
social.
Nesse sentido, a orientação teórica assumida coincide com a do Interacionismo
Sociodiscursivo (doravante, ISD; Bronckart, 2003, 2008), um quadro
epistemológico que dimensiona a produção de textos perante os modelos e no
exercício das atividades sociais.
Embora se aponte o género de texto e o texto como objetos de estudo
privilegiados, neste estudo, o objeto de investigação evidenciado focaliza os
enunciados injuntivos que ocorrem num corpus de géneros publicitários,
nomeadamente, rótulos e contrarrótulos de garrafa de vinho e anúncios sobre o
vinho.
Sendo caraterístico dos géneros publicitários a presença de enunciados do tipo
injuntivo e a formulação de atos ilocutórios diretivos, refletirei sobre a
presença destes enunciados no corpus já identificado, respondendo às seguintes
questões:
como é que as marcas comerciais que representam os produtos se relacionam com
os consumidores?
que tipo de informação relevante as marcas comerciais expressam para convencer
o consumidor a adquirir o produto?
que representações linguísticas do interlocutor configuram estes enunciados
inseridos nos géneros de texto em que ocorrem?
Neste contexto, relacionarei a noção de injunção com as noções de competência
textual e de cortesia verbal e farei uso do dispositivo interacionista
conhecido como tipos de discurso para efeitos de análise, destacando o valor
modal presente nos enunciados do corpus.
2. Enquadramento teórico
Esta investigação inscreve-se na perspetiva da Teoria do Texto como disciplina
linguística que descreve e carateriza os géneros de textos, observando-os como
objetos localizados dos pontos de vista social, histórico e geográfico, e
considerando-os testemunhos das vivências dos sujeitos em sociedade.
Entende-se, assim, a Teoria do Texto como uma ciência da área da Linguística de
"abertura interdisciplinar" (Coutinho, 2003: 28) que coopera com outros campos
confluentes para uma melhor descrição de aspetos relevantes no texto, dos quais
se destacam, tendo em vista o presente trabalho, os aspetos enunciativos e os
aspetos pragmáticos. Evidencia-se, também, um entendimento da Teoria do Texto
de "um ponto de vista globalizante" (Coutinho, 2003: 29) que, ao invés de
outras opções mais delimitadas ou focadas da Linguística, postula uma abordagem
metodológica e uma abordagem linguística em vários patamares de análise:
Elle [a Linguística] affronte alors des problèmes d’une autre
échelle, en vraie grandeur pourrait-on dire. Elle n’abandonne pas
pour autant son domaine de prédilection, la phrase, mais au contraire
se prépare à y faire retour d’une façon nouvelle, dans la mesure où
le global détermine le local. Si l’on ne peut réduire un texte où
elle figure des déterminations inoubliables, jusque sur sa syntaxe,
voire sa phonétique. (Rastier, 1996: 11)
Tomando um objeto de estudo dual, o género textual e o texto, em que a única
via de acesso do género é realizada por intermédio do texto, este último é
motivo de observação devido aos elementos que o compõem e que se revelam
significativos para a compreensão de uma mensagem global.
Procurando uma descrição mais minuciosa do objeto de estudo género de texto
entre os vários níveis de análise, neste trabalho, combinarei, a Teoria do
Texto com outras áreas linguísticas, nomeadamente, conhecimentos de base
pragmática e de análise microlinguística. Convocarei, ainda, o Interacionismo
Sociodiscursivo, que passarei a caraterizar sumariamente, devido à forma como
reflete sobre a relação entre linguagem e sujeitos no espaço social ou, por
outras palavras, sobre a dimensão logocêntrica da linguagem.
Para Jean-Paul Bronckart (2003: 42), "a tese central do interacionismo sócio-
discursivo é que a ação constitui o resultado da apropriação, pelo organismo
humano, das propriedades da atividade social mediada pela linguagem." Neste
sentido, a linguagem é considerada um recurso ontogenético do ser humano na
integração em sociedade, em detrimento de outras perspetivas bio-cognitivistas
que atribuem à linguagem um modesto papel filogenético (Bronckart, 2008: 6).
Ao cooperar no desenvolvimento de uma ciência do humano por meio de
colaborações entre várias esferas científicas, das quais se privilegia a
Sociologia, a Psicologia e a Linguística, o ISD atribui aos géneros de texto e
aos textos um papel de destaque como objetos de estudo preferenciais das
interações entre os sujeitos em sociedade.
Esta perspetiva dialógica da linguagem no ISD é assente no pensamento de
Valentin Voloshinov que, de acordo com Bronckart, foi o primeiro a afirmar nos
seus escritos a importância do contexto de comunicação:
les textes ne pouvaient être interprétés qu’en tenant compte des divers
paramètres du contexte de communication, mais il a souligné surtout que ce
contexte ne pouvait être considéré comme une force qui exercerait un effet
mécanique sur la teneur des énoncés; pour lui, contexte et énoncé sont dans un
rapport de co-construction (Bronckart, 2010, 157).
Com base no programa metodológico apoiado no dialogismo de Voloshinov,
preconiza-se, então, a utilização de uma abordagem de lógica descendente nos
textos em que a análise destes objetos é contextualizada, isto é, integrada nas
atividades sociais e nos géneros mobilizados nas interações. Deste modo, a
observação linguística é orientada em função da atividade (ou domínio social),
um patamar de análise extralinguístico[3]. Num momento posterior, a análise
progride para os níveis designadamente linguísticos, o género de texto e o
texto. Nesse âmbito, assumindo um ponto de vista enunciativo de análise dos
discursos e coincidente com a posição de Voloshinov (Bronckart, 2010: 157), o
ISD apresenta os tipos de discurso:
como formas lingüísticas que são identificáveis nos textos e que
traduzem a criação de mundos discursivos específicos, sendo esses
tipos articulados entre si por mecanismos de textualização e por
mecanismos enunciativos que conferem ao todo textual sua coerência
seqüêncial e configuracional. (Bronckart, 2003: 149)
Os tipos de discurso são, assim, semiotizações decorrentes de uma língua
natural com propriedades morfossintáticas e semânticas estáveis e regulares;
estes resultam, ainda, de quatro mundos discursivos ou arquétipos psicológicos
sem semantização particular aos quais correspondem os mencionados tipos de
discurso como construtos identificados a partir das entradas da temporalidade e
da atorialidade[4]. O quadro_1 expõe de modo sintético os quatro tipos de
discurso, a saber, discurso interativo, discurso teórico, pertencentes à ordem
do expor, e relato interativo e narração, integrados na ordem do narrar,
podendo também dizer-se que correspondem a modos de enunciação, como já
mencionado.
Quadro 1. Os tipos de discurso
(traduzido de Bronckart, 2008: 71 apud Coutinho, 2010: 197)
____________________________________________________________________
| |Organização_temporal_______________|
| |Conjunção________|Disjunção______|
|______________________________|EXPOR______________|CONTAR___________|
|Organização atori|Implicaç?Discurso_interativo|Relato_interativo|
|___________________|Autonomia_|Discurso_teórico__|Narração_______|
Embora os tipos de discurso sejam configurações semióticas de estatuto
intermédio que se relacionam tanto com o género como com o texto, a verdade é
que os géneros tendem a mostrar uma certa regularidade nos tipos de discurso
selecionados, bem como de alguns subconjuntos de caraterísticas linguísticas.
Com uma intenção meramente exemplificativa, é modificado o quadro anterior, na
tentativa de ilustrar a ocorrência (ou ocorrência predominante) de um tipo de
discurso num determinado género de texto, a par de eventuais caraterísticas
microlinguísticas.
Quadro 2. Exempli?cação da relação entre géneros de texto e tipos de discurso
________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
| |Organização_temporal_________________________________________________________________________________________________________________________________|
| |Conjunção________________________________________________________________|Disjunção________________________________________________________________|
|________________________|EXPOR______________________________________________________________________|CONTAR_____________________________________________________________________|
|Organização|Implicaç?Exemplo de discurso interativo: entrevista (pr. pessoais referentes |Exemplo de relato interativo: intervenção política oral (referências ao|
|atorial | |aos sujeitos em interação, deíticos, |produtor textual, expressões temporais disjuntas relativamente ao momento |
| |__________|formas_verbais_no_presente_do_indicativo)._________________________________|da_enunciação,_formas_verbais_no_pretérito_imperfeito_do_indicativo).___|
| |Autonomia |Exemplo de discurso teórico: entrada de dicionário (apagamento enunciativ|Exemplo de narração: romance |
| | |do sujeito, formas verbais no presente do indicativo com valor genérico). |(personagens identificadas através de nomes próprios, implicitamente, por|
| | | |uma voz, expressões temporais disjuntas relativamente |
| | | |ao momento da produção textual, formas verbais no pretérito imperfeito/ |
|_____________|__________|___________________________________________________________________________|perfeito_do_indicativo).___________________________________________________|
Destaca-se, então, no contexto interacionista, o uso de discurso como afeto aos
tipos de discurso, por contraposição a outras utilizações correntes nos estudos
do texto e do discurso que se referem a práticas linguísticas ou a
regularidades descontextualizadas.
Tendo sublinhado que a Teoria do Texto é uma disciplina linguística que
incorpora vários patamares de análise linguística e que estabelece parcerias
com outras áreas, evidenciei uma ligação com o ISD no estudo do género textual
e do texto, focando a relação que se estabelece entre a dimensão social e a
materialização do género textual. De seguida, convocarei mais algumas noções
teóricas relevantes para a consecução deste trabalho.
3. Considerações teóricas sobre a competência textual, a cortesia verbal e a
injunção
Sendo o contexto situacional fundamental para a compreensão dos textos, é de
observar as condutas sociais entre os sujeitos, ou, neste caso, a maneira como
as marcas representantes dos produtos se relacionam com os consumidores. Dado
que estas práticas sociais se encontram legitimadas com implicações discursivas
e textuais, considera-se relevante recuperar a noção de competência.
Num primeiro momento, a noção competência pode associar-se à Linguística
Generativista, nomeadamente, o termo competência linguística, como uma aptidão
inata ou biologicamente determinada da espécie humana.
De facto, tal como Vítor Aguiar e Silva (1977: 106-132) demonstrou, houve um
primeiro momento de transposição da noção de competência para o campo da
Literatura, tendo sido tentada a formulação do conceito de competência
literária. Duas das tentativas realizadas foram feitas por Manfred Bierwisch e
por Teun van Dijk que, individualmente, tentaram adaptar o modelo de Chomsky à
Literatura, postulando a existência de uma capacidade humana específica (human
ability) que possibilitasse a produção e o reconhecimento de estruturas
poéticas a partir de uma internalized literary text grammar. À semelhança da
competência linguística, a competência literária, podendo ser expandida, seria
dependente de uma gramática literária à qual corresponderia uma realidade
mental.
Na opinião de Aguiar e Silva, estes projetos tinham limitações de formulação,
pois as propriedades dos textos literários necessitam de algum tipo de
aprendizagem formal, ao contrário do que é defendido pela hipótese inatista. Na
opinião do autor, a competência literária é uma espécie de competência
secundária derivada ou uma subcompetência para linguagens específicas (tais
como os textos literários) da competência primária (linguística). Ou seja,
ainda que dependente do conhecimento do falante sobre a língua, a competência
literária seria de natureza sociocultural.
Do mesmo modo, os estudos realizados sobre o texto e na área da Didática
referem-se à competência textual como uma técnica ou uma capacidade prática com
um potencial de desenvolvimento pelo sujeito. Como afirma Coutinho (2003: 126),
"um desempenho textual eficaz" deve-se à articulação das questões discursivas,
de género e de texto, pelo que é de considerar os domínios tanto da escrita
como da leitura. A competência textual é, então, uma proficiência do sujeito em
produzir e reconhecer os modelos e interpretar os respetivos textos.
Em consonância com Coutinho e salientando a complexidade dos elementos em causa
para uma definição de cortesia, Rodrigues (2003: 15-16) considera que esta é
uma competência discursivo-textual que conjuga "conhecimentos e saberes de
natureza psicossocial e sociocultural diversos, por um lado e da natureza
linguística, paralinguística e metalinguística, por outro." Além de identificar
os campos linguísticos textual e discursivo como aqueles que estudam este tipo
de manifestações, esta competência designa, igualmente, "os fenómenos verbais
de cortesia e as suas regras, como, pela sua ausência ou negação, os de
descortesia." (Rodrigues, 2003: 15-18) Dependendo de elementos como o locutor,
o interlocutor, o espaço e o tempo da situação específica de produção e o
contexto social, a cortesia inclui múltiplos elementos na sua configuração,
sendo, por isso, ainda segundo o mesmo autor, de natureza escalar.
É observando uma diversidade de formas e de construções que a injunção se pode
expressar como uma ordem, um pedido, um conselho, uma exortação ou uma simples
instrução, em função de uma gradação injuntiva mais ou menos forte, de acordo
com Duarte (2006: 155-156). Em termos gerais, a injunção encerra um ato
ilocutório diretivo cujo fim é conduzir à realização (ou não) de uma ação
verbal ou não verbal, cumprindo uma expetativa existente entre quem se
manifesta em prol de uma ação e quem a executa[5].
Na variante europeia do Português, os atos diretivos são expressos por
estruturas explícitas e implícitas, sendo o imperativo o modo canónico para
cumprir esta intenção, à semelhança de outras línguas românicas como, por
exemplo, o Italiano (Lazard, 2006). Na verdade, o imperativo, escolha
preferencial para a realização dos enunciados diretivos só dispõe das formas da
segunda pessoa do singular e do plural, pelo que o modo conjuntivo é utilizado
para suprir as formas verbais das outras pessoas (Duarte, 2006: 159-160).
4. Apresentação do corpus
Considerando que os géneros textuais em questão, rótulo e contrarrótulo de
garrafa de vinho e anúncio publicitário, são produzidos nas esferas de duas
atividades sociais, a atividade publicitária e a atividade de produção e
comercialização do vinho, é possível verificar que estes domínios sociais
contribuem de modo distinto na produção do texto, isto é: a atividade
publicitária detém o protagonismo de execução na organização do conteúdo e a
atividade do vinho é a fonte de conhecimento sobre o vinho para a exposição da
informação relevante. Neste sentido, pela intervenção da atividade publicitária
ao nível do texto e pelo reconhecimento social que é feito pelos consumidores,
opto por designar, metonimicamente, os géneros observados de géneros
publicitários.
Efetivamente, os géneros referidos apresentam traços textuais comuns a outros
textos publicitários, dos quais se destacam a promoção de um produto e a
situação de interação encenada a partir da ficcionalização de um enunciador que
se dirige a um coenunciador. De um ponto de vista praxiológico, estes textos
publicitários apresentam formas injuntivas que configuram um macroato[6]
indireto ilocutório diretivo, que não se encontra formalmente explicitado, e
com o qual se pretende obter um efeito perlocutório de compra do vinho, como se
verificará no próximo ponto.
Contudo, sendo estes géneros fortemente estruturados no equilíbrio entre uma
componente visual (sem oportunidade de ser explorada neste trabalho por motivos
de espaço) e uma componente verbal caraterizada pela economia de palavras,
importa observar como esta última dimensão formaliza a orientação do consumidor
ao ato da compra e qual é o conteúdo informativo associado. Considerar-se-ão,
então, os enunciados injuntivos sem distinção do tipo de instrução, mas
descrevendo-os em termos dos tipos de discurso segundo o ISD e caraterizando-os
do ponto de vista da temporalidade e da atorialidade.
Desta forma, o corpus de géneros textuais mobilizado para este trabalho foi
coligido atendendo à publicidade associada à área do vinho, estando dividido em
rótulos e contrarrótulos de garrafas de vinho e anúncios sobre o vinho, como já
mencionado.
A seleção dos exemplares de texto foi feita em função da ocorrência de formas
verbais com valor injuntivo consideradas potencialmente indutoras de uma compra
do vinho e da reunião de exemplares representativos de diferentes marcas do
vinho. Pretende-se, então, conseguir uma melhor descrição da presença do vinho,
e, consequentemente, das formas linguísticas usadas neste contexto, bem como
das representações emergentes nos textos do corpus relativamente à compra e ao
consumo do referido produto, usadas, conjuntamente, pelas atividades
publicitária e de produção e de comercialização do vinho. Assumindo o estatuto
de representante do género, os textos observados e, consequentemente, as
respetivas ocorrências das formas verbais injuntivas, serão objeto de uma
análise de natureza qualitativa, no sentido de exemplificar as configurações
linguísticas associadas à materialização dos géneros de texto em estudo.
No caso do género de texto rótulo e contrarrótulo de garrafa de vinho, foram
considerados doze exemplares, pertencentes às seguintes marcas: Castelo d’Alba
[7] [R1], Evidência [R2], Lello [R3], Hobby [R4], Irreverente [R5], JP Azeitão
[R6], Moscatel de Setúbal [R7], Palmela [R8], Pancas [R9], Quinta de Alcube
[R10], Herdade Paço do Conde [R11] e Ilógico [R12]. Estas duas últimas marcas
tinham rótulos sem enunciados injuntivos, e os textos das restantes marcas
revelaram a presença de vinte e um enunciados injuntivos.
Os anúncios sobre o vinho considerados foram seis exemplares de Monte Velho
[A1, A2, A3, A4, A5, A6], da Herdade do Esporão, e dois exemplares de Mateus
Original [A7, A8], da Sogrape Vinhos. Este género de texto, anúncio sobre o
vinho, apresentou nove enunciados injuntivos em oito textos[8].
Com o estatuto de exemplares dos géneros de texto anunciados, de seguida,
apresenta-se as imagens de dois desses textos, ilustrando ocorrências situadas
dos enunciados injuntivos, ainda que se realce que este trabalho se centra nos
valores que orientam à compra e que são construídos socialmente:
5. Análise dos dados
Como se pode verificar pela leitura do quadro_3, no corpus estudado constatou-
se a ocorrência de formas verbais na voz ativa, o presente do conjuntivo, o
infinitivo, e o presente do indicativo, e na voz passiva, também o presente do
indicativo, sendo que neste último caso só se comprovaram ocorrências nos
textos pertencentes ao género rótulo e contrarrótulo.
Quadro 3. Presença de formas verbais injuntivas no corpus de géneros
publicitários
_________________________________________________________________________
|__________________________|_______Rótulos_______|_______Anúncios_______|
|________imperativo________|_________não_________|__________não_________|
|__presente_do_conjuntivo__|_________sim__________|__________sim__________|
|________infinitivo________|_________sim__________|__________sim__________|
|__presente_do_indicativo__|_________sim__________|__________sim__________|
|_________passiva__________|_________sim__________|__________não_________|
Na sequência do que já foi afirmado sobre a construção da injunção por meio do
imperativo, este está ausente de qualquer ocorrência nos enunciados do corpus,
o que evidencia um valor injuntivo sem recurso à formulação frontal do ato
ilocutório diretivo. Esta é uma especificidade da publicidade enquanto
atividade que faz uso de estratégias persuasivas específicas para convencer o
consumidor (Adam & Bonhomme, 2007: 25), como se verá adiante. Deverá,
igualmente, ser entendida como uma estratégia comunicativa da ordem da cortesia
e inerente a estes géneros textuais. A este propósito, relembram-se as palavras
de Carreira sobre a cortesia linguística: "Il faut tenir compte également des
procédés variés de modalisation et d’indirection, ainsi que des stratégies
mises à l’œuvre, telles que la façon d’encourager son interlocuteur, de lui
exprimer son accord ou son désaccord, etc." (Carreira, 2001: 57)
De facto, tal como é possível averiguar nos quadros_3 e 4, além da ausência do
imperativo, é possível constatar a omissão de outro tipo de estratégias
explícitas da diretividade, que pudessem, por exemplo, contribuir para uma
melhor definiç do interlocutor, cuja indicação da pessoa é unicamente
transmitida pela terminação da forma verbal. Este fenómeno de situação encenada
e de indefição de interlocutores através do uso exclusivo da 3ª pessoa
(ausência de nome, pronome ou sujeito verbal) é chamado de "grau zero" de
deferência:
Je me limiterai à attirer sur une forme d’adresse de vouvoiement très
particulière: il s’agit de la 3ème personne verbale (avec absence du
nom, pronom, sujet verbal). Cette forme délocutive peut devenir
allocutive, lorsque le locuteur vouvoie quelqu’un en évitant de
nuancer la désignation de son allocutaire. Il s’agit d’une sorte de
"degré zéro" de déférence. (Carreira, 2001: 55)
Quadro 4. Enunciados com formas verbais injuntivas no corpus de géneros
publicitários
__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
|__________|Rótulos_e_contrarrótulos_de_garrafa_de_vinho___________________________________|Anúncios_publicitários_sobre_o_vinho_______________________________________|
| presente |"beba como aperitivo"/ "lembre-se de…" [R3], |"Seja responsável" "Beba com moderação" |
| do |"Faça os seus telefonemas (…) desligue o telemóvel (…) desfrute calmamente |[A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, A8] |
|conjuntivo|a 12ºC. Não acompanhe com carnes elaboradas..." |"… experimente a leveza" [A8] |
|__________|[R4],_"Consuma_com_moderação"_[R6],_"Sirva_ligeiramente_fresco._(12-14ºC)"_[R7|_____________________________________________________________________________|
|infinitivo|"Não gelar" [R1], "Se optar por estagiá-lo (…) deitar a garrafa e conservá-l|"Como iniciar um romance (...) [A1]/ na história de um almoço entre amigos |
| |[R3], "a acompanhar |(...) [A2]/ um presente de Natal (...) [A3]/ um grande discurso à mesa (...)|
| |pratos de...", " (...) a acompanhar pratos de caça." [R5], "Servir: à temperatu|[A4]/ impressionar o sogro (...) [A5]/ saudar o sol (...) [A6] em apenas duas|
| |de 14-16ºC" [R6], |palavras" |
| |"Consumir já ou guardar em local fresco, garrafa deitada por um período máximo|de |
|__________|7_anos"_[R10]____________________________________________________________________|_____________________________________________________________________________|
| presente |"Acompanha pratos…" [R10], "Este Douro está pronto a consumir" [R3] |"Mateus Rosé é a companhia perfeita" [A7], |
| do | |"Se quer um rosé diferente" [A8] |
|indicativo|_________________________________________________________________________________|_____________________________________________________________________________|
| passiva |"Deve ser bebido à temperatura de 16ºC [R2] ", "não é permitida a venda menor|— |
| |de 18 anos de idade." [R6], "Deve ser servido à temperatura a uma temperatura de| |
| |16ºC" [R8]", | |
| |"Deve servir-se à temperatura de 18ºC." [R5], [R8] , | |
|__________|"Deve_ser_consumido_entre_16º_e_18º_graus_de_temperatura."_[R10]_______________|_____________________________________________________________________________|
Assim, os dados expostos no quadro_4 permitem deduzir que existem dois tipos de
enunciados no corpus: um primeiro conjunto de dados refere-se a enunciados
injuntivos no presente do conjuntivo ("beba como aperitivo" [R3]; "Seja
responsável", "Beba com moderação" [A1, A2, A3, A4, A5, A6, A7, A8]) e no
infinitivo ("Se optar por estagiá-lo (…) deitar a garrafa e conservá-la" [R3];
"Como iniciar um romance em apenas duas palavras" [A1]). Neste conjunto, é
tematizado o melhor modo de consumir o vinho, ou seja, são explicitadas
práticas adequadas ao consumo do vinho que variam entre o consumo moderado aos
procedimentos certos a aplicar para uma correta preservação/consumo imediato ou
degustação do vinho (temperatura e harmonização gastronómica). Deste modo,
destaca-se, igualmente, a presença de um valor modal deôntico construído a
partir do desempenho do sujeito que bebe ou beberá o vinho, pelo que, no
presente do conjuntivo é o sujeito implícito das formas verbais "beba" ou
"seja". É de sublinhar que alguns destes segmentos aparecem conjugados com
orações nominais ([a sublinhado] "À temperatura certa (16º C-18º C), beba como
aperitivo..." [R3]) ou precedidos por orações nominais ("Dicas para o beber"
[R4]) que, tal como os segmentos já observados, apresentam o mesmo valor
injuntivo subjacente ao ato ilocutório diretivo e a construção de um valor
modal deôntico idêntico, preconizando-se uma ação por parte do consumidor a fim
de obter a melhor experiência do vinho.
Em consonância com a noção defendida de macroato ilocutório diretivo, a
formulação de orientações ao consumidor é entendida como constituída por um
segmento ou por um conjunto de segmentos, no plano textual.
Em termos de tipos de discurso no entendimento do ISD, estes exemplos
correspondem a segmentos de discurso interativo, pressupondo um outro sujeito a
ser convocado para o interior do espaço textual, o que implica a recriação de
uma cena interlocutiva simulada. As formas verbais em ocorrência pressupõem e
constroem exatamente a presença de um interlocutor não delimitado ou alguém que
esteja disposto a aderir à conduta recomendada. Desta forma, é promovida uma
imagem do interlocutor dependente de uma instrução para alcançar representações
de uma prova de vinho bem sucedida e de comportamentos socialmente aceites
relativamente à ingestão desta bebida alcoólica.
Os dados apresentam também um segundo conjunto de enunciados injuntivos
conjugados no infinitivo ("Não gelar" [R3]), no presente do indicativo ("Este
Douro está pronto a consumir" [R3]; "Mateus Rosé é a companhia perfeita" [A7])
e na passiva ("deve ser bebido" [R2] e "deve ser consumido" [R10]), associados
ao tipo de discurso teórico que configura um apagamento do sujeito e/ou uma
ancoragem enunciativa no presente, embora possa ser formalizada no presente do
indicativo com um valor atemporal.
As formas verbais que constam deste conjunto definem as propriedades do produto
o vinho (que ocorre em posição sintática de sujeito realizado ou não realizado
foneticamente nas formas do presente do indicativo, do infinitivo e da voz
passiva), verificando-se uma instrução à degustação pela valorização das
propriedades referenciais do vinho e dos comportamentos socialmente aceites.
Deste modo, de um ponto de vista da construção de valores modais, nestes
segmentos coexistem a modalidade deôntica (em "Não gelar" [R1] e "deve ser
bebido"/ "deve ser consumido" [R10]) e a modalidade epistémica ("Este Douro
está pronto a consumir" [R3] e "Mateus Rosé é a companhia perfeita" [A7]), o
que diferencia este conjunto do primeiro grupo que se foca na ação do sujeito
[9], como se pode comprovar no quadro_5 que apresenta a síntese dos dados.
Quadro 5. Quadro síntese da injunção no corpus de géneros publicitários:
rótulos e contrarrótulos de garrafa de vinho e anúncios publicitários sobre o
vinho
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
| Tipos de | Caraterísticas dos enunciados injuntivos | Representações textuais construídas pelos enunciados injuntivos |
|_discurso_|______________________________________________________________________________|__________________________________________________________________________________|
| Discurso |tempo/modo: presente do conjuntivo, infinitivo (podem ser conjugados com |– A instrução é feita relativamente à prova de vinhos e aos comportamentos q|e um
|interativo|orações nominais ou precedidos de orações nominais) |interlocutor construído no texto deverá ter. |
| |valor modal deôntico | |
|__________|simulação_de_uma_cena_interlocutiva_________________________________________|__________________________________________________________________________________|
| Discurso |tempo/modo: infinitivo, presente do indicativo (voz ativa; voz ativa) |– A instrução à degustação assenta nas propriedades referenciais do vinho e|do
| teórico |apagamento do sujeito enunciativo |modo como deve ser consumidos |
| |outro valor do presente do indicativo: atemporal | |
| |valor modal deôntico e epistémico | |
| |posição sintática de sujeito (foneticamente ou não realizado) ocupada pelo| |
|__________|nominal_vinho_________________________________________________________________|__________________________________________________________________________________|
Retomando a questão dos tipos de discurso de acordo com o ISD, em termos
gerais, os dois conjuntos de enunciados injuntivos configuram uma temporalidade
localizada no momento presente, típica da ordem do expor. Contudo, estes
enunciados podem apresentar diferentes valores injuntivos em função da
deslocação da atorialidade: no caso dos enunciados do primeiro grupo, está-se
perante uma atorialidade implicada, já que os predicados reproduzem um
desempenho, no qual está incluída uma vertente social e é desejado por parte do
interlocutor; no segundo grupo, é patente uma atorialidade autónoma, isto é,
conseguida por meio do apagamento do sujeito enunciativo, na qual as
predicações marcam as boas propriedades do vinho.
6. Notas ?nais: a injunção em géneros publicitários sobre o vinho
Assumindo a perspetiva teórica da Teoria do Texto e o quadro epistemológico do
ISD, entende-se a linguagem como mediadora das relações entre os sujeitos. É no
centro desta mediação associada aos usos que se defende a existência de
regularidades linguísticas condicionadas pelos domínios sociais, a publicidade
e a produção e a comercialização do vinho, e afetas a vários géneros textuais,
no caso, o rótulo e o contrarrótulo de garrafa de vinho e o anúncio sobre o
vinho.
Por isso, no contexto assumido do vinho como produto, foi inicialmente
apresentada a intenção de responder ao modo como as marcas presentes no corpus
se relacionam com os consumidores e qual a informação considerada relevante
para orientar o consumidor à compra.
No âmbito desta abordagem, as atividades e os géneros de textos influenciam a
concretização do valor injuntivo que está associado a uma ancoragem enunciativa
localizada no presente, adaptável a qualquer texto no qual a marca possa
recriar uma cena de interação para cativar o consumidor. Como cena simulada,
contribuindo para a construção de um macroato ilocutório diretivo, os
enunciados compostos por formas verbais injuntivas designam os interlocutores,
sem particularizar ou oferecer traços específicos de caraterização dos sujeitos
a quem se dirigem os textos. O produto vinho pode, ainda, aparecer pelas suas
propriedades e pelo modo como deve ser degustado.
Especificamente, os enunciados injuntivos configuram o discurso interativo e o
discurso teórico, tipos de discurso pertencentes à ordem do expor, que, neste
corpus, se distinguem pelo foco na ação do sujeito consumidor ou nas
propriedades do produto vinho, respetivamente.
Presentes no corpus de géneros de textos analisados, as imagens dos sujeitos ou
do produto comercial são, pois, projeções do que as duas atividades,
publicitária e produção/comercialização e de produção do vinho, evidenciam
sobre o consumidor ideal de vinho no que diz respeito a uma degustação de vinho
e/ou a um comportamento socialmente recomendado ou acerca do melhor modo de
usufruir as boas propriedades do vinho.