Mecanismos de textualização e construção textual: para uma abordagem sócio
discursiva do cartoon
*
1. Introdução
No contexto deste artigo, assumimos que os textos ' objetos empíricos que dão
conta das práticas linguísticas efetivas ' constituem produções sociais em
estreita relação com a conjuntura espaciotemporal em que são produzidos.
Assumindo ainda que esta conjuntura tem implicações a nível da organização e
estrutura textuais, os textos revelam ser, por natureza, realidades complexas,
em que a interação entre as dimensões semiótica e contextual aparece, em maior
ou menor grau, de forma evidente.
Assim, a construção textual, não sendo gratuita, resulta antes da mobilização
de recursos linguísticos pontuais, os quais estabelecem, com os parâmetros
dessa conjuntura (de entre eles destacam-se, além do espaço e do tempo de
produção, os objetivos pragmáticos que subjazem ao texto) uma relação
inevitavelmente dialógica.
É, pois, nesta linha que nos propomos refletir ' partindo da abordagem
sociodiscursiva proposta por Bronckart ' sobre o papel que os mecanismos de
textualização exercem na construção textual, sendo que para tal tomaremos como
objeto de análise um exemplar do género cartoon.
Começaremos por tecer algumas considerações relativas aos pressupostos teóricos
de base do Interacionismo Sociodiscursivo (doravante ISD), no sentido de
explicitar não só como o conceito de texto é aí tratado, mas também dar conta
dos critérios que permitem categorizar os mecanismos de textualização como um
dos níveis de organização da estrutura textual. De seguida, passaremos à
análise dos textos selecionados, onde se pretende tanto proceder à aplicação
das considerações desenvolvidas como, igualmente, verificar e atestar a sua
rentabilidade em termos de reflexão linguística, tendo em conta o género
textual em causa.
2. Pressupostos teóricos
No quadro do ISD, proposto por Jean-Paul Bronckart, os aspetos que norteiam a
abordagem defendida pelo autor têm como base princípios teóricos que, como o
próprio afirma, vão ao encontro de uma psicologia da linguagem, no contexto
da qual se impõe considerar que ( ) qualquer que seja o tamanho das unidades
linguísticas (do fonema ao texto), elas devem ser tomadas, em última instância,
como condutas humanas (ou como propriedades das condutas humanas)
(Bronckart, 1996-1999: 13). Esta disciplina desenvolve, por sua vez, uma
orientação epistemológica coerente com a do interacionismo social, corrente
das ciências humanas e sociais na qual se inscreve e da qual se destacam
autores como Vygotsky e Voloshinov.
Tomando como eixo central a interdependência entre a construção dos processos
psicológicos e a dimensão coletiva e social da vida humana, o interacionismo
social postula alguns princípios de base, com os quais se articula a abordagem
proposta pelo ISD, e de que pretendemos aqui dar conta, de forma muito
sintética:
a) um deles assenta na ideia que a compreensão do Homem só pode ser levada a
cabo a partir de uma compreensão integral das várias dimensões, de vária ordem
(biológica, social, cultural, cognitiva, etc.) que o constituem; nesta linha, o
ser humano deve se entendido como um todo, uma realidade fisicopsicológica;
b) outro princípio sublinha o papel decisivo das atividades sociais e coletivas
na definição das condutas humanas enquanto quadros organizacionais e
mediadores através dos quais os indivíduos interagem com o meio que os rodeia
[1];
c) por outro lado, interessa referir a importância de que se reveste a
linguagem verbal na gestão das atividades coletivas, na qualidade de
instrumento necessário ao desenvolvimento de tais atividades[2].
Partindo de uma abordagem que Bronckart designa de descendente, isto é,
orientada a partir das atividades sociais para as atividades de linguagem e,
daí, para os textos e os seus recursos linguísticos[3], o autor assume (no
seguimento de Roulet et a.l)[4] a dimensão social como constitutiva dos factos
linguísticos sendo que, nesta ótica, os textos são perspetivados na qualidade
de produções sociais, onde se revelam, de forma mais ou menos explícita, as
relações de interdependência entre as produções de linguagem e o seu contexto
acional e social[5].
No sentido em que se aceita a interação entre as atividades de linguagem e as
atividades sociais, que aquelas comentam, a linguagem humana adquire, no âmbito
do ISD, o estatuto de produção interativa[6], à qual se pode reconhecer uma
dupla valência: se, por um lado, a linguagem aparece como um instrumento
semiótico possibilitador das relações entre os sujeitos e destes com o seu
ambiente de ação, por outro, assume-se, ao nível mais complexo da questão, que
ela possui um papel fundador das condutas humanas[7]. Refere o autor, a
propósito: ( ) a linguagem não é (apenas) um meio de expressão de processos
que seriam, eles, estritamente psicológicos (perceção, cognição, sentimentos,
emoções), mas ( ) é, na realidade, um instrumento fundador e organizador desses
mesmos processos, em todo o caso nas suas dimensões especificamente humanas
(Bronckart, 2005: 39, sublinhado nosso).
A conceção de linguagem apresentada insere-se numa perspetiva que o autor
designa de logocêntrica ainda que, como o próprio refere, se trate de um
logocentrismo relativo. Do lugar central que se atribui à linguagem no
desenvolvimento e funcionamento humanos, importa considerar que, nesse
processo, são colocados em interface quatro sistemas distintos ' os sistemas
da língua, da atividade social, das operações psicológicas e o sistema textual/
discursivo ' os quais operacionalizam interações de ordem diversa, a seguir
referidas:
a) Um primeiro tipo de interação, entre a atividade social e o sistema da
língua:
Assumindo que a atividade linguística tem como função primária assegurar o
funcionamento e a gestão das atividades sociais, interessa considerar que essa
tarefa só é possível através da construção de instrumentos semióticos ' os
textos ' os quais, atendendo aos recursos disponibilizados por uma dada língua
natural, configuram essas atividades[8].
A multiplicidade de esferas de atividade existentes, a que se associam
interesses e objetivos próprios de cada uma, justifica a utilização de
modalidades específicas de semiotização, definíveis em termos de géneros ou
espécies de texto. Aceitando que todo o texto participa de um género
específico, ele mesmo regulado pelas propriedades da situação sociocomunicativa
em que a atividade de linguagem tem lugar, citamos Bronckart que sublinha, a
propósito, o seguinte: Ce sont globalement les propriétés de l´ activité
langagière dans son rapport à l´ activité ordinaire, qui déterminent les formes
de réalisation effective de la langue que constituent les différents genres de
textes (Bronckart, 2005b: 154).
b) Um segundo tipo de interação, a operar entre o sistema textual/discursivo e
o sistema da língua:
Tratando-se da estruturação, os textos obedecem a formas de composição e de
planificação - ao nível da articulação das unidades textuais - responsáveis
pela sua coesão e coerência. No entanto, no quadro da língua natural em que
cada texto é produzido, essas regras são aplicadas em conformidade com os
recursos disponíveis na língua em que o processo de semiotização ocorre. Por
outro lado, o processo de produção textual implica a realização de escolhas
relativamente à seleção e à organização das unidades composicionais que,
integrando o texto, lhe permitem cumprir a sua função no âmbito da situação
sociocomunicativa específica em que este se enquadra[9]. De entre as operações
psicolinguísticas levadas a cabo neste processo (de que podemos destacar as
operações de conexão e coesão de unidades linguísticas), interessa referir
também a existência de uma outra modalidade de organização do texto, os tipos
de discurso[10], traduzidos como configurações particulares de unidades e de
estruturas linguísticas[11] - mobilizadas em função dos recursos utilizáveis em
uma dada língua - e entendidas como adequadas para o contexto enunciativo em
que se inscrevem.
c) Um terceiro tipo de interação, entre o sistema social e o sistema
psicológico:
O cruzamento, por natureza inevitável, entre as representações individuais
formuladas pelos sujeitos, a partir da sua experiência sobre o mundo, e as
representações coletivas, criadas a partir dos preconstruídos sociais, dá lugar
à construção de uma plataforma gnoseológica que coloca em interface os dois
tipos de conhecimento que acabámos de mencionar. É, pois, sobre o diálogo entre
as dimensões social e psicológica/individual das atividades humanas que tem
lugar o desenvolvimento e a expressão do indivíduo enquanto ser comunicante, no
contexto da conjuntura sociohistórica em que a sua atuação se inscreve; é
também a partir desse diálogo que assenta, num movimento de (re)avaliação /
(re)definição contínuas, o funcionamento das práticas linguísticas no seu
estatuto de expressões da dimensão humana.
3. A arquitetura interna dos textos
Segundo Bronckart, a organização do texto assemelha-se a um folhado constituído
por três níveis sobrepostos, a saber, a infraestrutura geral do texto, os
mecanismos de textualização e os mecanismos enunciativos[12].
Ao nível mais profundo, na infraestrutura, incluem-se as operações de
planificação que permitem dar conta não só do plano geral do texto '
responsável pela organização de conjunto do conteúdo temático ' como também da
constituição de sequências textuais, como os tipos de discurso, e as
modalidades de articulação possíveis entre eles. Dotados de grande
flexibilidade, os planos de texto podem possuir configurações variadas,
justificáveis, por sua vez, em função do género em que o texto se inscreve, a
natureza do conteúdo temático e os parâmetros da produção. No entanto, na
perspetiva bronckartiana, é a combinação entre os diversos tipos de discurso, a
par de outras formas de planificação, que desempenha um papel essencial na
definição do plano de texto[13].
Um segundo nível, intermédio, do folhado textual, integra o que se designou
chamar mecanismos de textualização, sendo que é sobre estes que incidirá, de
forma mais desenvolvida, o nosso trabalho. Os mecanismos de textualização têm
como função assegurar a organização temática do texto, marcando ' através dos
processos de conexão e de coesão (nominal e verbal)[14] ' o seu plano de
conjunto.
O terceiro nível, o mais superficial de todos, devido ao facto de se encontrar
pouco dependente da linearidade e da progressão temática do texto, é o dos
mecanismos enunciativos. Estes mecanismos, encarregues de manter a coerência
pragmática do texto, permitem o estabelecimento/distribuição das vozes e dos
posicionamentos enunciativos, dando a ver não só as instâncias responsáveis
pelo que aí se expressa, mas também a atitude dessas instâncias (traduzida em
termos de julgamentos ou avaliações) relativamente ao(s) objeto(s) do conteúdo
temático comentado no texto[15]. Nesta linha, é pela realização dos mecanismos
enunciativos que se manifesta o tipo de compromisso enunciativoassumido pelo
locutor do texto que, em todo o caso, e porque é sempre um compromisso
construído na interação entre os interlocutores da enunciação (instância
enunciativa e seu destinatário)[16], dota o texto de coerência pragmática.
4. Os mecanismos de textualização
Como já aqui se referiu, cabe aos mecanismos de textualização assegurar,
juntamente com a organização do plano geral, constituído ao nível da
infraestrutura, a coerência temática do texto[17]. A progressão do conteúdo
temático é, pois, conseguida - no que diz respeito a tais mecanismos - através
da mobilização de processos isotópicos (assentes na constituição de cadeias de
unidades linguísticas) visando a organização semiótica desse conteúdo[18].
Tendo em conta o papel que se atribui aos mecanismos de textualização no âmbito
do modelo da arquitetura interna dos textos proposto por Bronckart, os mesmos
são classificáveis em três tipos, já anteriormente apontados:
- Mecanismos de conexão, sendo estes realizados por organizadores textuais que
marcam as articulações da progressão temática do texto, seja ao nível do plano
geral do texto, da transição entre tipos de discurso ou sequências ou de
articulações da sintaxe local do texto ' têm como função, portanto, dar conta
das relações que se estabelecem entre os diferentes níveis de organização do
texto, segundo processos de segmentação, demarcação/balizamento e empacotamento
de unidades[19];
- Mecanismos de coesão nominal, a que se atribuem as funções quer de
introdução, no cotexto, de novas unidades de significação que o autor designou
de unidades-fonte, quer a retoma (ou não) dessas unidades no decurso do
texto. Neste último caso, o processo de retoma é construído a partir de cadeias
anafóricas capazes de assegurar a progressão do conteúdo temático apresentado
[20];
- Mecanismos de coesão verbal, que garantem a organização temporal dos
processos expressos no espaço textual e são essencialmente realizados pelos
tempos verbais[21], os quais possibilitam a marcação das relações de
continuidade, descontinuidade ou oposição entre os objetos temáticos a que os
mesmos se reportam[22].
5. Mecanismos de textualização e tipos de discurso
No trabalho de reflexão teórica sobre a natureza e o funcionamento das práticas
linguísticas, desenvolvido por Bronckart no âmbito do ISD, os tipos de discurso
revestem-se de uma importância fulcral na organização do texto ao assumirem-se
como uma das suas dimensões constitutivas.
No sentido de explicitarmos o conceito de tipos de discurso diremos, por
conseguinte, que ele remete para unidades linguísticas infraordenadas que, a
título de segmentos, entram na composição textual e dão conta de modos
distintos de enunciação. Estes modos, por sua vez, ( ) descrevem atitudes de
locução gerais que se traduzem, no quadro de uma língua natural, por
configurações de unidades e processos linguísticos relativamente estáveis[23]
e passíveis de classificação. Na sequência desta possibilidade postula-se,
assim, classificá-los em quatro tipos segundo, por um lado, um critério de
conjunção ou de disjunção relativamente à articulação (ou não) entre as
coordenadas de organização do conteúdo temático e as da situação de produção e,
por outro, segundo um critério de implicação ou autonomia no que respeita à
presença (ou não), no espaço textual, da relação expressa entre a instância
responsável pela produção do texto e o próprio ato de produção deste[24]. O
quadro seguinte (figura_1) esquematiza o que se acaba de apontar:
Embora os mecanismos de textualização tenham como função marcar a organização
de conjunto do texto, do qual fazem parte, a par de outros tipos possíveis de
unidades textuais, os tipos de discurso, isto não significa necessariamente uma
correspondência exata entre eles, sendo que o espaço de ocorrência das marcas
linguísticas que dão conta de ambas pode não coincidir. A este respeito
sublinha Bronckart que se, por um lado, os mecanismos de textualização
conseguem atravessar ou transcender as fronteiras delimitadas pelos tipos de
discurso, marcando precisamente a transição entre eles, por outro, as marcas de
textualização[25] que realizam esses mecanismos (ou que realizam a mesma
função) podem ser de ordem diversa, sendo suscetíveis de variar consoante o
tipo de discurso em que se incluem[26].
A ocorrência das marcas de textualização que verbalizam cada um dos processos
isotópicos de conexão e de coesão nominal/verbal pode depender, segundo o
autor, dos tipos de discurso em que essa ocorrência se manifesta. Assim, é a
especificidade enunciativa que caracteriza cada tipo em particular que parece
ditar a ocorrência desta ou daquela marca no contexto da unidade linguística de
que faz parte[27]; no entanto, é de notar que se este é um facto que se
verifica no funcionamento dos três tipos de mecanismos, como acabámos de
referir, ele surge, no entanto, de forma mais explícita, ao nível do processo
de coesão verbal, onde a influência dos tipos de discurso sobre as modalidades
de realização desses processos se manifesta ainda em maior grau, relativamente
aos outros dois mecanismos de textualização mencionados.
6. Análise textual
Antes de iniciarmos a análise que se segue, é importante salientar que
consideramos o texto como produto da interação humana, em situação de
comunicação, em que estarão em interação, para além dos aspetos linguísticos,
fatores sociais, culturais e históricos. Desse modo, procuraremos fazer uma
análise linguística do texto tomando-o como parte do complexo universo de ações
humanas. Também é importante esclarecer que os géneros plurissemióticos fazem
intervir aspetos não linguísticos que interagem com os níveis linguísticos. É o
caso, por exemplo, de textos como os cartoons,em que os fatores não verbais são
partes constitutivas desse género, sendo que isso nos leva a considerar, na sua
análise, a relação entre o sistema linguístico e a imagem.
O primeiro texto para análise (figura_2) encontra-se impresso no jornal Diário
de Notícias, do dia 8 de fevereiro de 2006. Trata-se de um exemplar do género
cartoon publicado sob a rubrica Cravo e Ferradura, onde de forma recorrente
se apresenta um leque de personagens, nos seus quotidianos, a comentarem
determinados assuntos da realidade historicossocial coincidentes com a
localização espaciotemporal de produção do texto. Debrucemo-nos, agora, sobre o
primeiro cartoon seleccionado:
Texto 1:
a) A conexão e o plano geral do texto
Relativamente ao plano geral do texto, podemos apresentar várias unidades
textuais que surgem bem delimitadas neste cartoon ' o título da rubrica (Cravo
e Ferradura) e a identificação do autor do texto (Bandeira). Além disso, e
ocupando um papel central na organização da mancha gráfica do texto, podemos
apontar uma distribuição de elementos verbais e icónicos semelhante àquela que
é apresentada pela estrutura das histórias em quadradinhos ou vinhetas; este
aspecto releva do facto de o género textual em causa ter como característica
marcante e reveladora da sua identidade a presença da imagem e ser, por
conseguinte, reconhecido como um género de natureza icónica ou icónico-verbal.
O que aparece representado neste texto é, assim, uma ação comunicativa ' em que
a mudança de turno/de fala aparece marcada pela estrutura e pela ordem dos
balões ' fortemente vinculada ao contexto sociocultural em que a própria se
inscreve.
Por outro lado, poderá dizer-se, ainda neste ponto, que a organização do plano
de texto acompanha a organização do conteúdo temático, delimitando as
diferentes fases da interação verbal e da situação que essa mesma interação
descreve e dá a conhecer: começa-se, pois, por indicar os responsáveis pelas
acções descritas ' os caricaturistas ' sendo que este elemento, que funciona
como ponto de partida para a leitura do texto, será posteriormente colocado em
destaque através do percurso traçado no/pelo plano de texto. O esquema que se
segue (figura_3) dá conta do processo que acabamos de referir:
b) A coesão nominal
Como já foi dito, a coesão nominal é marcada por dois grupos de unidades que se
relacionam ou, melhor dizendo, que tecem o texto: são os elementos com a
função de introdução dos elementos novos, conhecidos por unidades-fonte e os
elementos com função de retomada dessas unidades-fonte.
A primeira unidade-fonte observada no texto é a expressão professor Freitas do
Amaral, sendo que esse elemento não voltará a ser retomado ao longo do texto.
Um segundo elemento que podemos identificar é a unidade-fonte os
caricaturistas. Essa unidade será retomada no texto, mais adiante, pelo
pronome eles (Que foi que eles fizeram agora?) e retomada elipticamente em
Ø mexeram e Ø parece que caricaturaram , dando a ver a ideia de que o
elemento os caricaturistas será a principal unidade-fonte do texto, como
veremos mais adiante. Este é ainda um caso da chamada anáfora pronominal.
A terceira unidade-fonte é também um dos pontos importantes do texto e uma das
responsáveis pela criação do humor. O autor do cartoon estabelece, como uma
pista para a construção do humor e da crítica presente no texto, a correlação
entre os segmentos o que há de mais sagrado e o senhor Bill Gates.
Estes dois elementos não ocorrem como um caso de anáfora, em que uma unidade é
retomada pela outra, mas sim como um mecanismo de correferência que trabalha,
neste texto, para o estabelecimento da coesão. Isso porque, segundo Campos e
Xavier (1991), a anáfora existe quando pelo menos um dos termos tem autonomia
referencial. Esse caso não ocorre na relação de Bill Gates com o sagrado. Ou
seja, não existe previamente uma correferência entre esses dois termos. Assim,
na relação entre estas duas unidades, só entendemos o sagrado relacionado com
Bill Gates a partir da correferência construída pelo texto. Este facto,
juntamente com outros elementos, nomeadamente, o deítico agora, contribuem
para a construção do conteúdo temático e do contexto sociohistórico
semiotizados no texto.
c) A coesão verbal
Segundo o que temos vindo a explicitar, os mecanismos responsáveis pela coesão
verbal estabelecem as organizaçõestemporal e hierárquica dos processos que são
essencialmente realizados pelos tempos verbais. Assim, em relação à
temporalidade dos verbos, assumimos uma organização em que os verbos do passado
possuem valor de anterioridade, os do presente de simultaneidade e os do futuro
de posteridade. Essa temporalidade é marcada pela relação entre o momento da
produção e o momento do processo expresso pelo verbo e, acrescenta Bronckart,
também o que Reichenbach (1947) chama de momento psicológico de referência
[28], este último sendo aplicado por Bronckart, com adaptações, à análise de
texto. Não nos deteremos, no entanto sobre a aplicação deste ponto focando-nos
no facto de Bronckart considerar, na análise da coesão verbal, quatro pontos
essenciais na construção da coerência verbal: temporalidade primária e
secundária e contraste global e local.
Para a análise da coesão verbal é essencial perceber o mundo discursivo que é
semiotizado no texto. Ao analisarmos o tipo de discurso desse cartoon podemos
observar, na primeira unidade textual, a presença de marcas linguísticas que
apontam para o tipo de discurso narração (com verbos que estabelecem um valor
de anterioridade) - são essas marcas o uso do pretérito perfeito (se chegou),
tempo verbal característico da narração e a ausência de pronomes na primeira e
na segunda pessoas do singular e do plural.
Contudo, nas unidades seguintes, os parâmetros ligados ao conteúdo temático são
interpretados à luz dos critérios de validade do mundo ordinário, o que aponta
para o discurso interativo: a ausência de uma origem espaciotemporal explícita,
a presença da frase não-declarativa Que foi que eles fizeram agora? e a
própria imagem que apresenta os balões marcando uma mudança de turno de fala
dentro da interação.
Sabemos que o discurso interativo apresenta como tempo-base o presente e o
pretérito perfeito, com valor de simultaneidade para o presente e com valor de
passado próximo para o pretérito perfeito simples. Desse modo, é essencial
conhecer a duração do ato de produção quando falamos de mecanismos de coesão
verbal. No entanto, isso não impede a construção de eixos de referência
temporal distintos dessa duração de produção. É o caso desse exemplo: ao
combinarmos os dois elementos ' tipo de discurso e coesão verbal ' observamos
que a localização do processo visível no tempo verbal aponta para a construção
de um valor anterior muito próximo do tempo em que ocorre a interação. Podemos
mesmo falar numa localização de anterioridade (pretérito), mas incluída entre
dois limites de duração, marcando uma localização de simultaneidade. Esta
questão é reforçada quando analisamos o deítico agora.
Este deítico possui, neste texto, um papel central. Semanticamente, o agora
expressa um corte que divide o tempo em dois instantes que se opõem[29]: um
antes e um depois. Neste caso, o agora faz referência a um acontecimento
ocorrido no passado (fazer caricaturas de uma personalidade sagrada, neste
caso, Maomé), mas que também ocorre no presente (fazer caricatura de
personalidade sagrada no presente, neste caso, Bill Gates) e que co-ocorre no
presente. Essa ocorrência, que será localizada à esquerda em relação ao tempo
T0, refere-se ao facto de os caricaturistas terem elaborado cartoons sobre
Maomé ocasionando, assim, uma crise religiosa que se traduziu numa crise
política. Desse modo, num primeiro momento, o agora orienta para a inferência
sobre a crise que envolveu os caricaturistas e os muçulmanos (ocorrência do
passado).
No entanto, como referimos anteriormente, esse agora não só apresenta o que
se passou, como também faz referência a acontecimentos que co-ocorrem no
presente. Assim, e num segundo momento, o agora apresenta um significado do
tipo de novo, novamente, outra vez, sendo que esta ideia é corroborada na
unidade posterior com a expressão Mexeram no que há de mais sagrado. Podemos
então concluir que o agora não só possibilita que haja uma inferência sobre a
crise anterior causada pelos caricaturistas, como apresenta a ideia de que essa
ação volta a ocorrer no presente, caracterizando-se, assim, por ser um
intervalo fechado à direita sem espessura no tempo futuro; ao fazer a oscilação
entre os tempos passado e presente, o deítico permite, em consequência, fazer o
corte e a retoma dos acontecimentos descritos em relação ao momento de produção
do texto. Esse ponto é essencial para pecebermos o processo de coesão verbal
desse texto e a sua relação com a construção do mundo discursivo expor,
marcando, no texto, uma relação entre os processos de coesão verbal e a criação
de mundos discursivos.
O segundo cartoon analisado (fígura 4) foi impresso no jornal Público, do dia
04 de fevereiro de 2006. O autor do cartoon é o Luís Afonso. Este mesmo autor é
responsável por duas séries: a Sociedade Recreativa, publicada na revista
Pública que acompanha o jornal Público aos fins de semana, e a série Bartoon
que é publicada diariamente. Este cartoon em particular foi publicado sem ser
associado a série em questão e evoca o mesmo contexto social do cartoon
anterior: a visita de Bill Gates a Portugal, acrescida do contexto das eleições
presidenciais. Vejamos de seguida a análise deste segundo cartoon.
Texto 2:
a) A conexão e o plano geral do texto
Em relação ao plano geral do texto, diferente do exemplo anterior, este cartoon
apresenta-se centralizado, não havendo, de fato, cenário envolvente. As
unidades textuais, apresentam-se, assim, de forma conjunta, com exceção da
assinatura do autor, que se encontra no canto direito do texto. Como já
referido ainda no exemplo anterior, o destaque dado à mancha gráfica e sua
participação na organização temática do género reforça o seu carácter
plurissemiótico. Neste exemplo, apesar de não haver mudança nos turnos da fala
marcados por balões, podemos depreender, a partir da imagem, que se tratar de
uma encenação de diálogo entre as personagens Bill Gates e Sócrates, este
último então primeiro- -ministro de Portugal. Portanto, a interação entre os
personagens do texto é fortemente centralizada numa única cena, não havendo
propriamente um percurso de leitura quadro-a-quadro.
b) A coesão nominal
Como já especificado, a coesão nominal, segundo Bronckart (1999), é marcada
linguisticamente por um elemento que introduz uma unidade-fonte e os elementos
que retomam esta unidade-fonte. Contudo, em géneros plurissemióticos, é
essencial considerar que não só os elementos verbais são considerados
referentes, como também os não verbais podem assumir este papel. De fato, neste
texto, só é possível uma compreensão do funcionamento textual se entendermos
que a própria imagem fornece informações sobre a identificação de unidades-
fontes relevantes. Na parte linguística, a primeira unidade-fonte identificada
é Bill, referindo-se a Bill Gates, e que será, de certa forma, retomado
quando o personagem utiliza o nós. Este caso é interessante, pois, este nós
inserido na expressão aqui entre nós retoma tanto o elemento verbal Bill e
a imagem do Bill Gates como a imagem que representa o primeiro-ministro
Sócrates, além de que mostra uma intimidade entre os dois personagens
corroborada pela imagem na qual estão abraçados. Portanto, a unidade de
referência, nós, remete, sem dúvida, para as imagens do texto, ocorrendo uma
interação direta entre o verbal e o não verbal. Além disso, o próprio termo
software pode ser correlacionado com Bill, referindo-se ao fato de este ser o
criador da Microsoft. Podemos então considerar o termo software procede a uma
retomada da unidade-fonte Bill, uma vez que esta relação é essencial para a
compreensão do humor do cartoon e, consequentemente, para a funcionalidade do
género textual. Um segundo elemento-fonte que podemos identificar é o termo
Alegre em Anti-Alegre. Esta unidade-fonte não será retomada no texto, mas,
sem dúvida, introduz um elemento novo, Manuel Alegre, então candidato à
presidência da República pelo mesmo partido do Sócrates. O anti que acompanha
o nome Alegre sugere uma interpretação em que, apesar de Alegre ser candidato
pelo mesmo partido do Sócrates (o Partido Socialista ' PS), o primeiro-ministro
não apoiou a candidatura de Manuel Alegre, e por isso, no texto, solicita a
Bill um software Anti-Alegre. Portanto, a identificação de Anti-Alegre como
uma unidade-fonte é imprescindível para a compreensão do texto, pois retomará o
contexto politico que põe em foco a desavença, dentro do PS, entre Sócrates e
Manuel Alegre. Portanto, as correferências construídas neste texto são
responsáveis pela construção do humor e da crítica.
c) A coesão verbal
Como já salientámos, a análise da coesão verbal passa necessariamente pela
construção do mundo discursivo que é semiotizado no texto. De fato, temos vindo
a afirmar que também a imagem participa na construção dos parâmetros ligados ao
conteúdo temático, dando informações sobre o tempo da produção, o papel social
dos que participam na interação, bem como estabelece referências temáticas.
Assim, a própria imagem participa na construção do mundo discursivo.
Neste segundo exemplo, as unidades linguísticas remetem para parâmetros ligados
ao conteúdo temático que são interpretados à luz dos critérios de validade do
mundo ordinário, o que aponta para o discurso interativo. Assim, a presença da
frase interrogativa, Bill, aqui entre nós, não se arranja um software Anti-
Alegre?, indica a ausência de uma origem espaciotemporal explícita. Além
disso, a própria imagem, que apresenta uma interação entre os personagens,
mostra a encenação como sendo construída no mesmo instante temporal da
enunciação. Estes dois fatores são corroborados ainda pelo uso do verbo no
presente do indicativo não se arranja, o que indica uma localização de
simultaneidade em relação ao T0. Estes fatores indiciam para a conjunção entre
a temporalidade explícita verbalmente no texto e o próprio tempo da situação de
enunciação. Além disso, a própria imagem reforça esta conjunção, inclusive com
a implicação dos agentes-produtores (Bill Gates e Sócrates) na cena construída.
Isto indicia a presença do mundo discursivo expor implicado.
Outro ponto interessante é a presença do deítico espacial aqui que, não sendo
propriamente um marcador temporal, reforça a simultaneidade da ação de
linguagem construída no texto. No entanto, é de destacar que o aqui também é
considerado como parte da expressão aqui entre nós, o que reforça o grau de
intimidade, que é estabelecida pelo autor Luís Afonso, entre Bill Gates e
Sócrates, o que, a nosso ver, reforça a implicação dos agentes-produtores na
cena enunciativa. Todos este fatores convergem para a criação do expor
implicado com a presença do discurso interativo, pois, de fato, o discurso
interativo apresenta como tempo-base o presente além da implicação dos agentes-
produtores do discurso. Assim, é essencial analisar, não só o verbal, como
também a interação entre este verbal com o não verbal para pecebermos a relação
entre os processos de coesão verbal e a criação de mundos discursivos.
7. Conclusões
Levando em consideração o papel decisivo das práticas linguísticas na
concretização das relações com o meio, são os textos que, na qualidade de
objetos concretos e atestáveis, nos dão conta da natureza dessas relações.
Referindo-se a eles como os correspondentes empíricos das atividades
linguísticas, realizados segundo os recursos disponíveis numa dada língua
natural, Bronckart classifica os textos de unidades comunicativas globais cuja
especificidade composicional depende, em parte, das características da situação
de interação e da conjuntura sociohistórica em que se inscrevem, em parte, das
atividades sociais que comentam e no contexto das quais são gerados[30].
Face ao exposto, e a partir da análise dos textos, concluímos que os mecanismos
de textualização não só participam na organização temática do texto, como
também têm um importante papel na construção das funções comunicativas do
género. Nesse caso, verificamos que a coesão textual é peça-chave para
construir o humor. A análise desses textos mostraram que a coesão, geralmente
pensada em termos de relações anafóricas, é aqui estabelecida pela
correferência, que por sua vez encaminha para o estabelecimento do humor. Além
disso, atestamos a existência entre a relação tipo de discurso e coesão
verbal, sendo este facto também essencial para o entendimento do texto e,
consequentemente, para a construção do humor. Outro ponto interessante é que a
própria imagem participa na construção das correferências do texto. Neste
género, a interação do verbal com o não verbal é a responsável pelos processos
interpretativos do leitor e, com isso, fundamental para a apreensão do humor e
da crítica. Esta última aceção, apesar de não enfatizada pelo interacionismo
sociodiscursivo, configura-se como um ponto relevante na contribuição dos
estudos do funcionamento da linguagem.
Deixamos aqui, através desta reflexão, portas para serem abertas e caminhos a
serem seguidos. De facto, o estudo da coesão textual está longe de se esgotar
e, por isso, deve ter um lugar importante na análise linguística, podendo ser
esclarecedor para o entendimento de questões que envolvem os mecanismos de
funcionamento das línguas.