Transferências lexicais na aquisição de português como língua terceira ou
língua adicional: Um estudo com alunos universitários em Marrocos
Introdução
O ensino de diversas línguas a grupos de alunos heterogéneos linguisticamente e
culturalmente pôs, por um lado, em questão as tradições metodológicas próprias
e diferenciadas das L1 e das línguas estrangeiras (Puren, 1998) e a organização
curricular do ensino das línguas (Roulet, 1980) e, por outro lado, propiciou
novos estudos sobre as características específicas do conhecimento linguístico
dos plurilingues. O próprio Conselho da Europa (2001), no Quadro Europeu Comum
de Referência (QECR), refere-se a esta nova realidade ' a competência
plurilingue e pluricultural ', considerando que não estamos perante uma
sobreposição ou justaposição de competências distintas, mas antes de uma
competência complexa ou mesmo compósita à qual o utilizador pode recorrer.
Logo, o caráter misto e original do conhecimento linguístico dos plurilingues
não se pode entender como a mera soma dos saberes parciais de cada língua
(Grosjean, 2001; Herdina & Jessner, 2002), mas como uma multi-competência
linguística (Cook, 1996a). O plurilinguismo implica a construção de uma
consciência linguística que possibilita ao aluno, à medida que incorpora novas
línguas no seu repertório, procurar semelhanças entre as línguas já adquiridas
e as novas e desenvolver estratégias para lidar com as diferenças, facilitando
assim a aquisição destas (González Piñeiro, Guillén Díaz & Vez, 2010).
Neste sentido, o interesse pelo multilinguismo tem aumentado desde o início
deste século, colocando-se a tónica nos benefícios que a educação multilingue
traz e na forma como se processa a aquisição multilingue. Estudos na área da
aquisição de língua terceira ou língua adicional (L3/Ln), que demarcaram uma
área de investigação dentro da aquisição de línguas não maternas, contribuíram
amplamente para uma melhor compreensão do fenómeno.
Com este artigo, pretendemos apresentar um estudo realizado com alunos
marroquinos maioritariamente plurilingues, que adquirem o português como L3/Ln,
em contexto exolingue. Trata-se de alunos, falantes de árabe (das suas duas
variedades ' dialectal e standard), que estiveram (e continuam a estar)
expostos a mais de uma língua estrangeira, em contextos formais e informais de
aprendizagem. Serão analisados dados recolhidos das produções escritas de 31
alunos dos 3 anos da Licenciatura em Estudos Portugueses, da Faculdade de
Letras e de Ciências Humanas de Rabat, com o intuito de verificarmos que língua
(s) previamente adquirida(s) é (são) fonte de transferência linguística e que
apoia(m) os alunos na construção da sua interlíngua.
1. Aquisição de língua terceira ou língua adicional (L3/Ln)
Na última década, surgiram vários estudos que procuram explicar o processo de
aquisição de L3/Ln e demonstrar as diferenças que existem relativamente à
aquisição de L2 (Jessner, 1999; Herdina & Jessner, 2000; Cenoz, 2001, 2003;
Cenoz, Hufeisen & Jessner, 2001), que até agora, segundo a perspetiva de
alguns autores anglo-saxónicos (Klein, 1986; Sharwood Smith, 1994; Gass, 1996;
Ellis, 1997), era considerada como qualquer língua adquirida depois da materna
e que, por isso, poderia referir-se à aquisição de uma segunda, terceira ou
quarta língua. Assim, como aqueles autores, consideramos que um aluno
plurilingue possui um conhecimento diferente de um aluno de L2. Este é um
iniciante na aprendizagem de uma língua segunda ou estrangeira e apenas tem
como ponto de referência a sua L1; o primeiro, quando inicia a aprendizagem de
uma L3/Ln, já conhece o processo de aprendizagem de uma (ou mais) língua
estrangeira e, por conseguinte, já possui um diferente tipo de consciência
linguística e algumas estratégias que o ajudam a construir o seu conhecimento
da nova língua-alvo. Como referem Rothman, Iverson e Judy (2011: 6), [i]n the
case of L3 acquisition, these learners, among other differences, all have more
sources for initial state hypotheses than a monolingual L2 learner.
O conceito de L2 foi muitas vezes referido, envolto em alguma controvérsia,
devido às diferentes aceções que foram sendo apresentadas ao longo dos tempos.
Ellis (op. cit.) e Klein (op. cit.), opondo-se a outros autores como Crystal
(1997) e Stern (1983), defendem que o termo segunda não deve ser entendido como
oposto a estrangeira; com efeito, uma língua pode ser designada de L2, quer
seja aprendida de forma natural, como resultado da vivência num país onde ela é
falada e usada frequentemente como meio de comunicação (nos domínios educativo,
administrativo, político ), ou aprendida apenas em contexto formal de sala de
aula. Estudos em Portugal (cf. Leiria, 2004, 2006) apontam igualmente para esta
perspectiva da L2 (língua não materna) como designação de língua segunda
(língua de Estado e de ensino, que pode ser adquirida sem recurso à escola) e
de língua estrangeira (aprendida em contextos exolingues, recorrendo
principalmente ao ensino formal).
Tal como aconteceu com a definição do termo L2, observa-se ainda alguma
ambiguidade no uso de L3: para uns autores o conceito aplica-se a uma ou várias
línguas adquiridas depois da L2 e, para outros, apenas à terceira língua, de
acordo com a ordem de aquisição no tempo (Safont Jordà, 2005; De Angelis, 2007;
Jessner, 2008). Em geral, não é tido em conta o factor proficiência
linguística', na discussão sobre a definição de L2 e L3, mas alguns
investigadores chamam a atenção para o caso dos falantes bilingues: neste caso,
na L2, o bilingue tem um elevado grau de proficiência. Assim, Jessner (2008)
considera problemático quando os estudos incluem bilingues, a par de
monolingues, pois, por vezes, não há uma distinção clara entre bilingues
aprendendo uma L3 e outros sujeitos, monolingues e falando uma L2, a aprenderem
a mesma L3, de forma sequencial: [s]ome are naturalistic adult L2 learners
while others are child L2 learners and simultaneous bilinguals learning a third
language in adulthood. Still others ' the most common case ' are classroom L2
learners acquiring a third language (Rothman et al., op. cit.: 7). A
propósito desta complexidade, Cenoz (2000) apresenta quatro tipos de ordem de
aquisição:
(i) aquisição simultânea: L1/ L2/ L3;
(ii) aquisição consecutiva: L1, L2 e L3;
(iii) aquisição simultânea L2/L3 depois da aquisição de L1;
(iv) aquisição simultânea L1/L2 antes da aprendizagem de L3.
No nosso caso, ao longo deste trabalho, optaremos pela designação aquisição de
língua terceira ou língua adicional (L3/Ln), referindo-nos a all languages
beyond de L2 without giving reference to any particular language. (De Angelis,
2008: 11). Esta denominação permite-nos reunir num mesmo grupo aprendentes de
L3/Ln que já adquiriram pelo menos duas línguas e que, por isso, possuem um
maior conhecimento metalinguístico e uma maior experiência na aprendizagem
formal de línguas do que um aprendente de L2. Nestes casos, parece-nos claro
que um aluno que tenha adquirido já, no mínimo, uma língua não materna,
procurará compensar a falta de conhecimento na aprendizagem da L3/Ln recorrendo
não só à sua L1 como, em boa parte dos casos, à L2.
2. Alguns factores que afectam a transferência lexical (L2 ? L3/Ln)
A transferência lexical é um processo cognitivo essencial na aprendizagem de
uma língua nova. Os alunos estabelecem relações de equivalência entre as
palavras das línguas previamente adquiridas e as da língua-alvo e, com base
nesta identificação interlinguística, transferem itens lexicais que consideram
comuns nas línguas em comparação (Ringbom, 2006).
A transferência lexical pode ser manifestada de duas maneiras: através de uma
transferência da forma e de uma transferência do significado (De Angelis &
Selinker, 2001; Ringbom, 2001). A primeira consiste no uso de palavras de
outras línguas previamente adquiridas, adaptadas ou não às estruturas das
palavras da língua-alvo, na produção da L3/Ln. Este tipo de transferência
ocorre in complete language switches and in the use of deceptive cognates. The
learner's code-switching can also be modified in that the form of the code
switched word may be altered according to assumed L3-principles, producing
hybrids or blends that do not exist in L3 (Ringbom, 2001: 60). O segundo tipo
corresponde à transferência de padrões semânticos de unidades lexicais da
língua materna e/ou da(s) língua(s) não materna(s) para as unidades da língua-
alvo, sob a forma de decalques semânticos (tradução literal do empréstimo, cf.
Ortega, 2008) e de extensões semânticas (Ringbom, 2001).
Apesar de muitos estudos terem demonstrado que a língua materna é uma fonte
privilegiada de transferência, outros (e.g. Dewaele, 1998; Williams &
Hammarberg, 1998) comprovaram igualmente que outras línguas poderão desempenhar
um papel preponderante na aquisição de L3 e constituir-se como fonte principal
de transferência. A literatura, neste domínio, mostra-nos que existem alguns
fatores que afetam a transferência de uma língua não materna para a língua-
alvo.
A maior parte dos estudos que surgiram nas últimas décadas sobre transferência
focalizaram-se essencialmente na transferência da língua materna para as
línguas estrangeiras (e.g. Krashen, 1981; Kellerman, 1984; Cook, 1996b). No
entanto, outros autores (e.g. Odlin, 1989; Sharwood Smith, op. cit.) incluíram
nas suas definições não só a influência da L1 como também a de outras línguas
previamente adquiridas na aprendizagem de uma nova língua. [ ] the influence
of the mother tongue on the learner's performance in and/ or development of a
given target language; by extension, it also means the influence of any other
tongue' known to the learner on that target language (Sharwood Smith, op.
cit.: 198).
Para estes autores, as línguas estrangeiras, para além da L1, são igualmente
consideradas potenciais fontes de transferência linguística. Aliás, alguns
estudos revelam que, por vezes, as transferências ocorrem a partir de uma
língua não materna e não da materna (Hammarberg, 2001; Ringbom, 2001; Jessner,
2008; Molnár, 2008). Inclusive, autores como Jessner (2003) consideram que o
papel que a transferência pode desempenhar na aprendizagem de línguas é
amplamente reconhecido juntamente com os benefícios cognitivos que advêm do
contacto entre duas ou mais línguas. Ringbom (2007) reforça esta ideia
admitindo que a busca de semelhanças entre o repertório linguístico dos
aprendentes é uma característica natural da aprendizagem multilingue.
A natureza da transferência interlinguística é determinada por diferentes
factores que a influenciam. De seguida fazemos uma revisão daqueles que nos
parecem relevantes para o estudo em questão.
Proximidade tipológica
Este fator surge como um dos mais importantes que justifica a possibilidade de
transferência linguística. A proximidade tipológica entre a L2 e a L3 facilita
a transferência, especialmente se a L1 for mais distante, tal como provaram
alguns estudos que abordam o papel da tipologia na aquisição de L3 (Williams
& Hammarberg, op. cit.; Cenoz, 2001; Hammarberg, op. cit.; Ringbom, 2001).
Portanto, nos casos em que a L1 se afasta tipologicamente da L3, os alunos
tendem a ativar os seus conhecimentos de outra(s) língua(s) previamente
adquirida(s), mais próxima(s) da língua-alvo, e a efetuar transferências a
partir daquela que é percebida como sendo a mais próxima, que pode corresponder
ou não à distância que efetivamente existe entre elas (De Angelis, op. cit.).
Exposição a línguas não maternas
Alguns autores sustentam que o uso recente de determinada língua não materna
facilita a ocorrência de transferência para a língua-alvo, dado o fácil acesso
à informação linguística armazenada na memória do falante (cf. Poulisse, 1997).
O estudo de Williams e Hammarberg (op. cit.) considera o uso recente de uma
língua não nativa como um dos principais fatores que influencia a transferência
linguística no processo de produção na L3. Hammarberg (op. cit.: 23) defende
que L2 is activated more easily if the learner has used it recently and thus
maintained easy access to it.
Competência linguística
Na literatura, este fator é abordado essencialmente tendo em conta o nível de
competência na língua-alvo. Quanto ao nível de competência na(s) língua(s) de
partida ainda há um conhecimento muito reduzido de como este afeta o processo
de transferência linguística, uma vez que não existem estudos que analisem o
nível de competência na(s) língua(s) de partida como um fator central.
Relativamente ao primeiro caso, Hammarberg (op. cit.) e Ringbom (2001)
reivindicam que a transferência de uma língua não materna para a L3 é
favorecida se o aluno tiver uma competência elevada na L2, sobretudo se esta
foi adquirida e usada em contextos reais de comunicação. Alguns autores
sustentam, também, que a transferência ocorre tendencialmente nos primeiros
estágios de aquisição, enquanto o conhecimento dos alunos da língua-alvo ainda
é escasso e fragmentado e, por conseguinte, estes necessitam de preencher as
lacunas linguísticas que sentem (Odlin, op. cit.; Williams & Hammarberg,
op. cit.).
Estrangeiridade das palavras (the foreign-ness' of words[1])
De Angelis e Selinker (op. cit.) consideram que a possível associação na mente
do aluno plurilingue do caráter de estrangeiridade das palavras pode constituir
um fator que afeta a transferência linguística, uma vez que esta associação
terá um impacto na produção da interlíngua. Segundo estes autores, a
transferência para a L3 de léxico considerado pelos alunos como estrangeiro
pode ser referido por estes, em detrimento de léxico da língua materna. Neste
sentido, De Angelis e Selinker acreditam que há um possível modo cognitivo
designado falar estrangeiro'[2] ou modo de língua estrangeira'[3] que
facilita o processo de transferência linguística, a partir de línguas não
maternas.
3. O estudo
3.1. Caracterização dos sujeitos
Neste estudo participaram 31 alunos (70% dos alunos inscritos) da Licenciatura
em Estudos Portugueses da Faculdade de Letras e de Ciências Humanas da
Universidade Mohammed V ' Agdal, em Rabat. Através de um primeiro questionário
foi possível fazer uma caracterização sociolinguística dos informantes,
sobretudo no que toca ao seu percurso linguístico. Este grupo de alunos
apresenta a particularidade de 42% já possuir outra licenciatura: 35,5% em
Estudos Hispânicos, 3,25% em Estudos Alemães, 3,25% em Estudos Árabes. Os
restantes 58% não têm nenhum grau superior. Comum a todos eles o facto de já
revelarem competências linguísticas em francês, primeira língua estrangeira ou
língua estrangeira privilegiada no país, fruto da aprendizagem formal, desde o
Ensino Fundamental até ao Terminal (equivalente ao 12.º ano), e da aprendizagem
informal, visto ser uma língua omnipresente no quotidiano marroquino, sobretudo
nos centros urbanos. No entanto, e ao contrário do que seria de esperar, não
representa para todos a LE com maior proficiência, pois apenas 51,5% a indicou
como tal. Dos restantes, 35,5% considerou ser o espanhol, 6,5% o inglês e 3,25%
o alemão; 3,25% não respondeu.
Tabela 1 Proficiência linguística indicada pelos informantes
_______________________________________________________________________
|Ano da licenciatura|N.º de aluno|LE_com_maior_proficiência_linguísti|a
|___________________|_____________|Francê|Espanhol|Inglê|Alemã|NR____|
|1.º_ano___________|13___________|6______|6_______|0_____|0_____|1_____|
|2.º_ano___________|9____________|4______|3_______|2_____|0_____|0_____|
|3.º_ano___________|9____________|6______|2_______|0_____|1_____|0_____|
Os alunos de português LE, em Marrocos, situam-se essencialmente ao nível
universitário. A maioria deles, quando inicia a aprendizagem desta língua, já
possui para além da respectiva língua materna, conhecimentos noutras línguas
estrangeiras, principalmente em francês e espanhol, mas também em inglês, o que
acaba por se refletir na aquisição da primeira. O contacto com o português é
feito numa fase avançada da formação destes alunos, sendo a quarta ou quinta
língua que adquirem, facto que deve ser tido em conta na análise dos
resultados. Trata-se, portanto, de alunos, na sua maioria, plurilingues.
Tabela 2 Número de LE faladas, além do português
___________________________________________________
|Ano da licenciatura|N.º de aluno|Número_LE_falada|
|___________________|_____________|1|2|3____________|
|1.º_ano___________|13___________|0|9|4____________|
|2.º_ano___________|9____________|2|5|2____________|
|3.º_ano___________|9____________|0|4|5____________|
Os três anos da licenciatura encontram-se divididos de acordo com os seguintes
três níveis de língua: 1.º ano ' nível elementar (A2), 2.º ano ' nível
intermédio (B1) e 3.º ano ' nível intermédio/avançado (B2/C1). Os informantes,
dentro de cada grupo, não constituem um grupo perfeitamente homogéneo, como
esperável, uma vez que os factores individuais de aprendizagem influenciam o
nível em que cada um deles se insere. Neste estudo, optamos por não apresentar
percentagens exatas das transferências lexicais realizadas pelos alunos
enquadrados em diferentes níveis de língua dentro do mesmo grupo, por aquelas
serem transversais à maioria dos informantes, por as diferenças percentuais não
serem significativas e por o estudo não ter objetivos quantitativos.
3.2. Metodologia e resultados
Foi solicitado a todos os alunos intervenientes que preenchessem uma ficha de
perfil sociolinguístico e realizassem uma produção escrita, seleccionando um
dos quatro estímulos propostos. Estes estímulos foram selecionados tendo em
conta os diferentes níveis de língua e o grau de dificuldade inerente a cada um
deles. No entanto, os informantes tiveram total liberdade de opção.
Com base na análise de conteúdo do corpus escrito recolhido, constituído por 31
produções linguísticas, correspondentes ao número de alunos envolvidos no
estudo, num total de 7621 palavras (1.º ano ' 2312, 2.º ano ' 2327, 3.º ano '
2982), pretendemos verificar as influências que as outras línguas já adquiridas
exercem na aprendizagem do PLE. Partimos da hipótese de que a frequência de
transferências seria maior a partir das línguas não maternas do que do árabe.
No sentido de a testarmos, foi feito um levantamento de todas as transferências
realizadas pelos alunos ao nível do léxico, pois consideramos, tal como Molnár
(op. cit.), que este desempenha um papel importante na aprendizagem das línguas
e que a transferência a partir de línguas previamente adquiridas é mais
evidente neste caso.
Da análise global dos dados, verificou-se que todas as transferências efetuadas
ocorreram a partir das duas línguas estrangeiras mais dominantes no grupo
(francês e espanhol).
A Tabela_3 mostra-nos que a maior quantidade de transferências se efetua no
primeiro ano da licenciatura e que diminui gradualmente ao longo do curso,
resultado de uma maior proficiência linguística que os alunos vão adquirindo,
separando progressivamente as línguas-alvo. Ainda que o número de alunos se
tenha praticamente mantido do segundo para o terceiro ano, o número de
transferências baixou para mais de metade (19 para 8). Podemos ainda constatar
que o número de palavras plenas transferidas (87%) é bastante superior ao
número de palavras gramaticais (13%). Apesar de nesta fase da investigação não
haver ainda realizado um estudo quantitativo dos dados, a informação contida na
Tabela_4 pode constituir um contributo para a discussão sobre as percentagens
relativas de transferência de palavras plenas e de palavras gramaticais (ver,
por exemplo, Poulisse & Bongaerts,1994, apud Murphy, 2003).
Tabela 3 Estímulos propostos
____________________________________________________________________________________________________
|Estímulos |Número de produções|
|_____________________________________________________________________________|obtidas_______________|
|Escreva um texto em que se apresente, em que fale das suas características | |
|físicas, da sua vida familiar, da sua casa, dos seus gostos e dos seus |14 |
|desejos._Se_não_quiser_falar_de_si,_pode_inventar!__________________________|______________________|
|Escreva um texto contando as melhores férias da sua vida ou umas de que tenh|5 |
|gostado_particularmente._____________________________________________________|______________________|
|Imagine que ganhava uma bolsa de estudo para estudar no estrangeiro. Diga que| |
|país, que universidade e que curso escolheria. Diga também como imagina que|4 |
|iria_ser_a_sua_vida_nesse_novo_local.________________________________________|______________________|
|Muitas pessoas vêem na emigração uma saída para a sua vida, no entanto, e| |
|muitos casos, ao emigrarem, descobrem que a realidade não corresponde ao |8 |
|sonho. Recorde tipos de problemas que se podem encontrar num país | |
|estrangeiro._Se_quiser,_pode_ilustrar_com_um_caso_que_conheça.______________|______________________|
Tabela 4 Total de transferências lexicais realizadas
____________________________________________________________________________
| |Número_de_palavras_transferida|Número de alunos a faze|
|Ano da licenciatura|Plenas|Gramaticais |transferências |
|___________________|______|________________________|________________________|
|1.º_ano___________|23____|4_______________________|10______________________|
|2.º_ano___________|18____|1_______________________|6_______________________|
|3.º_ano___________|6_____|2_______________________|5_______________________|
|Total______________|47____|7_______________________|21______________________|
Tabela 5 Número de transferências lexicais por língua-fonte
__________________________________________________________________________
|Ano da |Francês___________________|Espanhol___________________| |
|licenciatura|Palavras plenas|Palavras |Palavras plenas|Palavras |Total|
|____________|_______________|gramaticais|_______________|gramaticais|_____|
|1.º_ano____|13_____________|1__________|10_____________|3__________|27___|
|2.º_ano____|11_____________|0__________|7______________|1__________|19___|
|3.º_ano____|1______________|2__________|5______________|0__________|8____|
|Total_______|25_____________|3__________|22_____________|4__________|54___|
Do total das transferências, constatamos que 48% tiveram como língua de partida
o espanhol e 52% o francês. Os resultados da Tabela_4 demonstram portanto que
estas duas línguas são de igual modo fonte de transferência e que não existe
grande discrepância entre o número de transferências proveniente de cada uma
delas ao longo dos três anos. De algum modo, estes dados relacionam-se com os
valores apresentados na Tabela_1, pois embora três alunos tenham indicado ter
uma maior proficiência noutras línguas que não o francês e o espanhol, não se
verificou qualquer influência de nenhuma delas, sendo estas duas as que
apresentaram uma maior percentagem de respostas.
Nos textos analisados, tivemos em atenção a adequação lexical, a grafia e a
morfologia das palavras; detetamos diversas formas híbridas compostas a partir
do léxico francês e do espanhol que se assemelham ao português, mas cuja grafia
não corresponde a nenhuma delas. Exemplificamos nas duas tabelas seguintes:
Tabela 6 Formas híbridas compostas a partir do francês
_____________________________________________________________________
|Ano_da_licenciatura|Forma_híbrid|Palavra_francesa|Palavra_portuguesa|
|1.º_ano___________|peintura_____|peinture________|pintura___________|
|1.º_ano___________|montagnha____|montagne________|montanha__________|
|2.º_ano___________|prononçar___|prononcer_______|pronunciar________|
|2.º_ano___________|cousina[4]___|cuisine_________|cozinha___________|
|3.º_ano___________|europianos___|européens______|europeus__________|
Tabela 7 Formas híbridas compostas a partir do espanhol
______________________________________________________________________
|Ano_da_licenciatura|Forma_híbrid|Palavra_espanhola|Palavra_portuguesa|
|1.º_ano___________|desporte_____|deporte__________|desporto__________|
|1.º_ano___________|dineiros_____|dinero___________|dinheiro__________|
|2.º_ano___________|seguridade___|seguridad________|segurança________|
|2.º_ano___________|extranjeiro__|extranjero_______|estrangeiro_______|
|3.º_ano___________|interése____|interés_________|interesse_________|
|3.º_ano___________|respeituoso__|respetuoso_______|respeitoso________|
Nestes dois casos, observa-se uma criação neológica, formada por elementos
correspondentes às duas línguas em contacto. Os alunos já revelam ter alguns
conhecimentos da estrutura das palavras em português, da utilização correcta de
algumas desinências. No entanto, a sua competência linguística em português
ainda é baixa, pelo que o aluno produz, de modo não intencional, formas da
interlíngua que consistem na junção de segmentos parciais da L2 e da L3/Ln,
tentativas de adaptação fonológica e morfológica ao português, como a sua
grafia revela.
Ao nível idiossincrásico, verifica-se também que o espanhol e o francês são as
duas línguas que constituem as principais fontes de transferência, havendo,
neste caso, um predomínio da primeira.
(1) Exemplos de transferência do francês
Também gosto muito de comer couscous (1.º ano)
Ma familia vive em Khimesset. (1.º ano)
perto da capitale Rabat. (2.º ano)
e dar à pessoa um vida seguro com justice social (2.º ano)
(2) Exemplos de transferência do espanhol
numa facultad de Rabat. (1.º ano)
deseo ser professor da língua portuguesa no futuro. (1.º ano)
Digo que a reglar tudos os problemas é acabar com a ditadura (2.º ano)
a nossa verdadeira riqueza, que nos dá um novo aliento para poder seguir o
caminho da vida. (3.º ano)
e sobretudo ter esse espírito da tolerância e do respeto, coisas muito
importantes e fundamentais na vida (3.º ano)
Foram ainda detetados alguns decalques semânticos realizados a partir do
francês, como se pode observar através dos exemplos seguintes.
(3) Decalques semânticos a partir do francês
Eu sou uma filha (fille) marroquina. (1.º ano)
o meu grande irmão (grand frère) não fora connosco (1.º ano)
a problema dos papeis(les papiers). (1. ano)
a conjontura económica e financeira de Portugal esteve muito má a causa da
(à cause de) crise. (3.º ano)
e quando o seu sonho se realiza, não estava feliza falta do (faute de)
racismo. (3.º ano).
(4) Decalque semântico a partir do espanhol
temos uma casa de 5 habitações (habitaciones) (2.º ano)
Tendo em vista o elevado número de palavras que constitui os corpora dos três
anos da licenciatura, é de salientar o facto de que o número de transferências
lexicais (morfológicas) é bastante baixo, mesmo nas produções dos alunos do 1.º
ano, o que demonstra que o seu conhecimento lexical é bastante grande.
Os resultados obtidos permitem-nos ainda inferir que os alunos têm consciência
de que o francês e o espanhol são as duas línguas que tipologicamente mais se
aproximam do português e, por isso, são aquelas a que eles mais recorrem para
suprir as falhas que sentem na produção desta última. Têm igualmente
consciência de que o léxico e as estruturas do árabe se afastam do português,
por ser uma língua semítica, ao passo que esta última é românica, tal como o
espanhol e o francês. Logo, parece-nos que a proximidade tipológica é um fator
que afeta as transferências que estes alunos fazem para o português, pois, como
defende Hammarberg (op. cit.), influence from L2 is favoured if L2 is
typologically close to L3, especially if L1 is more distant.
Outros fatores que influenciam as transferências destes alunos são a exposição
a línguas não maternas e a estrangeiridade das palavras. O primeiro resulta
do facto de o francês ter um estatuto privilegiado no país, como consequência
do Protetorado (1912-1956), sendo a Administração marroquina em muitos aspetos
bilingue, o seu ensino ser de caráter obrigatório no sistema educativo
marroquino e o ensino superior se fazer maioritariamente nesta língua; resulta,
também, de uma boa parte dos alunos já possuir uma licenciatura em Estudos
Hispânicos. Há, portanto, um contacto permanente com o francês e bastante
frequente com o espanhol, que potencia a transferência linguística para o
português (Poulisse, op. cit.; Williams & Hammarberg, op. cit.; Hammarberg,
op. cit.). O segundo fator, influenciado pela distância tipológica das LM, L2 e
L3/Ln, reduz a possibilidade de transferência da língua árabe, conferindo às
outras línguas já adquiridas o tal caráter de estrangeiridade que fomenta a
transferência linguística destas para a língua-alvo, pois [t]he use of an
interlanguage, perceived by the speaker as foreign', may well be referred over
the use of the native language because it sounds' more foreign than the native
language does (De Angelis & Selinker, op. cit.: 56).
A competência linguística na L3 é um outro fator a ter em conta, uma vez que a
proficiência destes alunos em português ainda se encontra num nível inferior ao
da(s) outra(s) língua(s) estrangeira(s) já adquirida(s), logo estão criadas
mais condições para que transferências desta(s) última(s) para a primeira se
verifiquem. In a situation where a learner who is very proficient in his L2
starts learning an L3 and hears the L2 around him, we can expect to find not
only formally based L2-transfer, but also a few calques or semantic extensions
errors (Ringbom, 2001: 63).
Temos de ter presente que o corpus analisado foi recolhido nos três anos da
licenciatura, estando os alunos inseridos em níveis variados que vão do
elementar ao avançado (A2-C1), conforme descrito no QECR. Portanto, as suas
competências linguísticas em português, dependendo do nível, podem ser muito
limitadas, pelo que facilmente eles sentem necessidade de recorrer aos
conhecimentos prévios adquiridos em francês e espanhol para preencher as
lacunas que encontram na nova L3/Ln.
Conclusão
O nosso estudo com alunos maioritariamente plurilingues foca alguns aspectos da
aquisição que não são visíveis em alunos de L2, que apenas possuem como
background linguístico a sua L1.
Os resultados obtidos, ainda que com um número reduzido de participantes, dada
a quantidade de alunos inscritos na licenciatura, permitiram-nos comprovar a
hipótese de partida, ou seja, as transferências para o português L3/Ln, na
aquisição do léxico, ocorrem a partir de outras línguas não maternas que os
alunos adquiriram previamente e não do árabe. O que vem confirmar outros
estudos publicados e já referenciados neste artigo que advogam que a influência
da L2 na aquisição da L3/Ln, nomeadamente através do processo de transferência,
pode exercer uma função mais marcante do que a L1. Enquanto esta adquire o
papel relevante na aquisição de L2, à qual os alunos recorrem para progredirem
na sua interlíngua, na aquisição multilingue, como várias investigações
comprovam, não está envolvido necessariamente o mesmo background linguístico.
Este estudo confirmou que a transferência da L1 nem sempre é dominante na
aquisição de L3/Ln e que as línguas não maternas podem desempenhar um papel
mais preponderante na aquisição de léxico do que a primeira. Os resultados
confirmaram ainda que existem, efectivamente, factores que afectam a
transferência das línguas previamente adquiridas para a língua-alvo. O facto de
os alunos informantes estarem expostos a outras línguas estrangeiras
(nomeadamente o francês e o espanhol), tipologicamente próximas do português,
influencia a aquisição desta última língua. Eles demonstraram ter consciência
da distância tipológica que existe entre o árabe e o português, reduzindo, por
isso, nos corpora analisados, à nulidade as transferências daquela língua para
esta.