A democratização silenciosa: a cooperação parlamentar portuguesa nos países
lusófonos
ARTIGO
A democratização nos países de língua oficial portuguesa não se iniciou com a
revolução democrática portuguesa. As dinâmicas internacionais (Whitehead, 2001)
e as motivações políticas internas, tiveram um grande impacto na formação de
regimes de partido único e no fechamento destes sistemas políticos (Guedes,
2007; Lobo e Neto, 2009). Com a queda do muro de Berlim, as transições
democráticas nestes países foram de tipo pactadas, com a elite política a ter
um papel negocial nos novos termos democráticos (Costa, 2013; Guedes, 2007;
Lobo e Neto, 2009). É no Brasil que se inicia esta dinâmica após concessões do
regime militar e participação livre de partidos nas eleições para a
constituinte (Linz e Stepan, 1996). Também na África lusófona, os regimes de
partido único iniciam transições democráticas (Azevedo, 2011; Bratton e Walle,
1997; Costa, 2013; Guedes, 2007; Lobo e Neto, 2009). Com exceção da Guiné-
Bissau e ainda com reservas em relação a Angola (Pereira, 2013), as transições
democráticas nestes países parecem ter terminado com a consolidação do sistema
partidário e o estabelecimento do sistema semipresidencial (Azevedo e Nijzink,
2007; Moestrup, 2007; Guedes, 2007; Lobo e Neto, 2009). O caso de Timor Leste,
após o processo de independência, e apesar da alternância de partidos no
governo, demonstra ainda sinais de instabilidade institucional (Mendes e Leach,
2010).
Estas democracias passaram por um período de aprendizagem institucional, no
qual os parlamentos não são exceção. Também na relação com o executivo, os
parlamentos tiveram de se dotar de capacidade de fiscalização e feitura de
leis. No entanto, estes parlamentos apresentam carências organizacionais, o que
lhes impede de preencher as exigências colocadas pelo sistema político e pela
constituição (Azevedo, 2009; Guedes, 2007). Neste sentido, a cooperação
parlamentar da Assembleia da República tem o objetivo de dotar estes
parlamentos de capacidades técnicas e políticas por forma a reforçar o seu
papel constitucional de fiscalização e feitura de leis (Paixão, 2008).
MÉTODO
O presente artigo parte de um estudo realizado entre janeiro e julho de 2008 no
Gabinete de Relações Internacionais e Protocolo da Assembleia da República.
Analisa apenas dados até 2008-2009, por forma a contextualizar as entrevistas
realizadas nesse mesmo período e por questões de delimitação. O autor
desenvolve uma abordagem indutiva (Blaikie, 2010; George e Bennett, 2005),
tendo em atenção os atores envolvidos na cooperação parlamentar.
Realizaram-se 16 entrevistas semiestruturadas (Anexo_1), a seis deputados e dez
funcionários parlamentares, mantendo-se o anonimato dos mesmos. Paralelamente,
utilizou-se observação não participante, feita intensamente durante o período
de recolha e envolvendo reuniões de trabalho, grupos de encontro e observação
de atividades quotidianas (Anexo_2). Enquanto fontes secundárias utilizaram-se
documentos oficiais e dados estatísticos dos serviços do Parlamento.
DEMOCRATIZAÇÃO E COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
Com o número crescente de processos de transição, as democracias consolidadas e
as organizações internacionais aliaram-se num esforço de globalização
democrática (Magalhães, 2008). Neste contexto, a cooperação internacional tem
assumido um peso crescente com a socialização institucional, o apoio financeiro
e outras medidas de caráter técnico e político (Burnell, 2000; Bjornskov,
2013).
Tal como argumenta Whitehead (2001), os fatores internacionais têm uma
importância acrescida nas transições democráticas. Ao mesmo tempo, e atendendo
a diferenças nos processos de transição democrática, outros fatores como a
pluralidade étnica, a dependência económica, os partidos e o concerto das
elites, têm sido referidos como fatores na capacitação institucional de
democracias recentes (Best e Higley, 2010; Ferro, 2008).
Nesta linha, o estudo da democratização em África e na Ásia (Bratton e Walle,
1997; Diamond e Plattner, 1996; Macuane, 2000; O'Donnell, 2001) tem perscrutado
a pluralidade de fenómenos da democracia. Paralelamente, tem-se reacendido o
debate acerca da construção do Estado (Mazzuca, 2010), suscitado pelas
exigências dos processos de transição democrática em países onde até agora o
Estado era quase inexistente, com uma população extremamente pobre (O'Donnell,
2001) e centrado numa elite autoritária (Best e Higley, 2010).
O apoio internacional ao estabelecimento de instituições democráticas acontece
no plano da socialização institucional e da aprendizagem democrática, através
de pressões políticas dos Estados e dos organismos internacionais e
transnacionais. A literatura tem-se dividido entre o regime-building (Transey,
2009), o peace-building (Peou, 2007) e a cooperação para a democracia (Burnell,
2000). Estudos de caso como o de Timor Leste (Ferro, 2008; Mendes, 2006; Mendes
e Leach, 2010) têm sido citados como paradigmáticos de diferentes tipos de
resultados no que concerne a transições democráticas (Mainwaring e Share,
1986). Demonstram também o poder de socialização das organizações
internacionais na feitura de leis, criação e estabelecimento de instituições,
formas de trabalho e apoio financeiro.
Durante a democratização, os processos de socialização concorrem para a
consolidação de discursos entre os diferentes atores, reproduzindo modelos de
apropriação e normas democráticas. Como propõe Lijphart (1991, 1999) a escolha
de um modelo constitucional não é um mero acaso pois tem influência na forma
como o sistema se comporta, evolui e se consolida. Os modelos constitucionais
têm sido referidos como modelos culturais, caso aplicável no modelo
semipresidencialista português que tem sido utilizado como forma de sistema de
governo no espaço lusófono (Lobo e Neto, 2009). Esta lógica seguiu o que
representou o modelo de Westminster para os sistemas parlamentares ou o modelo
norte-americano para os sistemas presidencialistas (Moestrup, 2007; Lijphart,
1999; Sundquist, 1992).
Neste sentido, os processos de democratização e os projetos de cooperação
internacional devem tomar em conta as especificidades da construção do Estado e
das instituições. Um dos exemplos citados tem sido a concentração de poderes
nos executivos, reforçados pelo financiamento da cooperação internacional
(Boone, 1996; Burnell, 2000; Bjornskov e Schröder, 2013), o que impede a
autonomização de outras instituições democráticas. É neste âmbito que a
cooperação parlamentar tem intervindo na criação e autonomização institucional
dos parlamentos lusófonos.
COOPERAÇÃO PARLAMENTAR E TRANSFERÊNCIA INSTITUCIONAL
As regras institucionais recriam uma determinada realidade, definindo
oportunidades e constrangimentos (North, 1990; Peters, 2005). Deste processo
socializante por aprendizagem resultam alterações nas instituições e nos
indivíduos. Esta perspetiva permite compreender a interdependência entre
instituições e a forma como estas alteram e constroem o discurso de grupos e
indivíduos (March e Olsen, 2005). A lógica de apropriação proposta pelo neo-
institucionalismo define que as regras apropriadas encontram-se
institucionalizadas em práticas sociais e consolidam-se através de processos de
aprendizagem que garantem a estabilidade organizacional, mas que se podem
insurgir contra princípios democráticos através de dinâmicas rígidas e
ineficientes (March e Olsen, 2005; Peters, 2005).
Neste contexto, os processos de mudança operam-se através da importação
institucional, da transferência de práticas, normas e valores institucionais
(Seidler, 2014). A literatura sobre transferência ou importação institucional
tem-se focado na transplantação de normas legais ou ainda nos processos de
transição democrática e de escolhas institucionais (Mamadouh, De Jong e
Lalenis, 2003). Uma das formas de que se reveste este processo é o que Di
Maggio e Powell (1983) definem como isomorfismo, ou seja, o processo pelo qual
as organizações tendem a tornar-se similares num determinado setor por forma a
repetir exemplos de sucesso que lhes permitam melhorar a sua performance. Para
os autores, este processo decorre de forma coerciva, mimética e normativa. O
isomorfismo coercivo acontece ora porque certas organizações exercem pressão
formal ou informal sobre a organização em causa, ora através de expetativas
culturais. O isomorfismo mimético acontece por força da incerteza, o que leva
as organizações a adotar soluções de modelagem através de inovações por forma a
melhorar a sua legitimidade e as condições de trabalho. Finalmente, o
isomorfismo normativo reveste-se por um processo de profissionalização de uma
determinada classe que define as condições e os métodos de trabalho,
estabelecendo uma base cognitiva de legitimação na busca da sua autonomia (Di
Maggio e Powell, 1983, p. 152). O isomorfismo normativo apresenta também uma
rede de profissionais que trocam informações e que são premiados ao exibir
similitudes na sua atuação.
No campo da transferência institucional tem-se elaborado acerca do transplante
legal ou da transferência de instituições democrato-liberais em períodos pós-
coloniais ou pós-autoritarismo (Seidler, 2014). Os efeitos desta transferência
têm sido maioritariamente ineficientes a menos que as normas sejam adaptadas ao
contexto local ou que exista algum tipo de familiaridade. Um dos grandes
problemas com este processo é o facto de ser comummente aceite que a importação
de normas formais não suplanta as normas informais culturalmente enraizadas,
exigindo-se por isso uma adaptação do framework institucional que é importado
face às condições domésticas (Mamadouh etal., 2003; Seidler, 2014). Segundo
Seidler (2014), o processo de transferência institucional é determinado (1)
pela quebra nas práticas estabelecidas através de uma adaptação cultural pós-
independência ou no processo de democratização; (2) pelo nível de adaptação
contextual das instituições importadas; (3) pelo nível de familiaridade das
normas; e (4) pela constituição endógena de uma nova cultura e ética de
trabalho. No entanto, é também no improviso do trabalho quotidiano das
instituições que podem ocorrer mudanças institucionais motivadas por uma
reorientação dos atores e pelo uso adaptativo de novas práticas, na partilha de
compromissos e no contacto entre indivíduos e organizações (Smets, Morris e
Greenwood, 2012).
No caso da cooperação parlamentar, esta encontra-se seriamente constrangida
pelas dificuldades do processo de transferência institucional (Costa e Latek,
2001). A cooperação parlamentar tem como objetivo o reforço da fiscalização
parlamentar com a capacidade de detetar e prevenir abusos do executivo,
proteger os direitos dos cidadãos, verificar o uso de dinheiros públicos,
monitorizar os objetivos das políticas públicas e aumentar a transparência dos
governos (Yamamoto, 2007). Desde a década de 1990 que a ideia de reforçar os
poderes dos parlamentos nacionais tem passado pela cooperação interparlamentar
iniciada por instituições parlamentares internacionais como a União
Interparlamentar e as Assembleias Regionais, que se multiplicaram com o fim da
guerra fria (Cofelice e Stavridis, 2014) ou com o exemplo da estratégia de
increase mutual powers do parlamento europeu na sua relação com os
parlamentos nacionais (Fraga, 2008; Miklin, 2013). No entanto, os diferentes
settings institucionais e culturas políticas, as rivalidades institucionais ou
a heterogeneidade de interesses dificultam o processo de transferência de
normas parlamentares (Costa e Latek, 2001).
No quadro da ajuda internacional a parlamentos de Estados em processos de
democratização, tem-se enfatizado o papel preponderante do sistema de checks
and balances para o controlo dos recursos. Tal como consideraram Boone (1996) e
Svensson (1999), os fatores que impedem a boa aplicação dos recursos da
cooperação nesses países são a partilha de poder e o grau de liberdade política
e cívica. Desta forma, a cooperação parlamentar procura aproveitar
oportunidades institucionais que se baseiem no sistema político recetor da
ajuda, bem como na evolução contextual das relações institucionais. Vejamos
como isso se processa no caso da Assembleia da República.
O CASO DA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA
A cooperação parlamentar portuguesa tem tido um papel na autonomização dos
parlamentos dos PLOP desde meados da década de 1990. Os problemas inicialmente
colocados pelo multipartidarismo, depois do autoritarismo de partido único
(Salih, 2003), assentam no parlamento. Não só é importante a aprendizagem que
resulta da participação dos partidos no governo como também se torna essencial
que os partidos na oposição sejam capazes de utilizar ferramentas legais. Neste
sentido, os maiores problemas que os parlamentos de democracias recentes
enfrentam prendem-se com o fenómeno da partilha de poder (Leston-Bandeira,
1998; Moestrup, 2007), o que indica uma necessidade emergente de autonomização
do sistema parlamentar.
Neste sentido, a Assembleia tem servido como veículo de ajuda à consolidação
dos parlamentos lusófonos através de um processo isomórfico favorecido pela
familiaridade cultural linguística e político-institucional. A cooperação
parlamentar tem-se dividido em cooperação técnica ' entre técnicos
parlamentares ' e cooperação política ' entre deputados e grupos parlamentares
(Assembleia da República, 2002; Paixão, 2008). Para ambos tem-se recorrido a
processos de isomorfismo mimético e normativo que institucionalizam métodos de
trabalho e estabelecem redes entre profissionais de diferentes áreas
parlamentares. A cooperação acontece nos planos bilateral e multilateral,
permitindo a deslocalização dos meios e o uso de técnicas legais e
administrativas. Paralelamente, os técnicos envolvidos na cooperação utilizam
práticas adaptativas de improviso que permitem a introdução de novas normas.
Como a cooperação internacional teve ao longo dos últimos anos um papel
fundamental na democratização dos países em vias de desenvolvimento, a
cooperação parlamentar veio colmatar a falta de apoio na consolidação dos
sistemas parlamentares (Assembleia da República, 2002; Paixão, 2009). Este
processo de transferência desenvolve-se nas áreas especializadas dos serviços
parlamentares, por funcionários parlamentares experientes (Assembleia da
República, 2002, 2006). Ao longo das últimas décadas, a cooperação
internacional tem abarcado uma série de ferramentas e meios que, a par do
multilateralismo, têm reforçado os processos de democratização (Boone, 1996;
Svensson, 1999; Burnell, 2000; Ferro e Ribeiro, 2004). Neste sentido, a
cooperação tem envolvido a socialização democrática das instituições através do
ensino de ferramentas técnicas e políticas (Hopmann, 2010). Grande parte da
cooperação tem sido desenvolvida por agências e organizações internacionais que
compreendem seis tipos de ação: diplomática, controlo e inquérito, coercitiva,
pacificação interna, assistência e administração (Ferro e Ribeiro, 2004, pp.
180-181). Pela sua natureza, a cooperação parlamentar não pode ser incluída em
nenhuma destas tipologias pois envolve transversalmente três delas:
diplomática, assistência e administração. Enquanto a ação diplomática tem um
caráter político (Sorour, 1997), as ações de assistência e administração
possuem um caráter técnico (Perelli, 2007; Paixão, 2009).
DIPLOMACIA PARLAMENTAR
A ação diplomática tem sido desenvolvida pelos presidentes dos parlamentos e
por deputados. No caso da Assembleia da República Portuguesa (ARP), o
presidente da Assembleia (PAR) é a alta figura representante do parlamento,
cabendo-lhe funções administrativas e políticas.1 Segundo o artigo 16.º do
Regimento da Assembleia, o presidente chefia e monitoriza as relações externas,
desenvolve encontros bilaterais e multilaterais, desloca-se ao estrangeiro a
convite de outros presidentes, promove, aprova a constituição de delegações
parlamentares, aprova os protocolos firmados com outros parlamentos nacionais e
ainda detém iniciativa política quanto ao conteúdo dos documentos a aprovar em
variados setores das relações externas da Assembleia.
No período observado, a maior parte das atividades desenvolvidas por Jaime Gama
foram de caráter diplomático e protocolar (Anexo_3). Entre as atividades de
relações externas listadas na agenda, cerca de 77%, são do âmbito da diplomacia
parlamentar (receção de homólogos, líderes políticos, representantes de Estados
e visitas bilaterais). Já as iniciativas políticas no âmbito da cooperação
parlamentar (visitas de estudo, assinatura de protocolos e programas de
cooperação) ocupam cerca de 14% da agenda. O seu trabalho, mesmo quando
desenvolvido no campo da cooperação, é quase sempre de natureza política e
negocial; isto é visível nos encontros com os presidentes dos Parlamentos da
Guiné-Bissau2 e de Timor Leste3 que antecederam a assinatura de novos
protocolos de cooperação, ou na receção formal a delegações de deputados
estrangeiros em visita de estudo, como foi o caso do encontro com deputados
cabo-verdianos4 ou angolanos.5
No caso dos deputados, as atividades diplomáticas compreendem a participação em
fora internacionais ' delegações internacionais6 ' e os encontros bilaterais '
Grupos Parlamentares de Amizade. As delegações têm como intuito a participação
de deputados portugueses em assembleias parlamentares de organizações
internacionais (Soares, 2007). Estas são constituídas por deputados eleitos
pelo conjunto dos parlamentares, em sistema de lista fechada ( ) segundo o
método proporcional (Paixão, 2008, p. 310).
Já os grupos de amizade7 são associações de parlamentares de dois países ( )
com o objetivo de estreitar as relações bilaterais, de incrementar o diálogo
parlamentar e troca de informações, de acompanhar iniciativas concretas no
campo da cooperação ou de relacionar-se com outras entidades do país em causa
(Paixão, 2008, p. 316). A observação de três reuniões8 durante o período de
investigação e as entrevistas feitas a deputados9 permitem concluir que estes
encontros funcionam como grupos de influência e informação com participação de
entidades e pessoal diplomático. No entanto, a mudança de legislatura demonstra
o caráter ad-hoc de muitos destes grupos que não voltam a reunir-se ou perdem
dinâmicas desenvolvidas na legislatura anterior.10 Como referiram os
entrevistados11, a diplomacia parlamentar sofreu alterações de caráter
administrativo, político e técnico durante os mandatos de Almeida Santos (1995-
2002), Mota Amaral (2002-2005) e Jaime Gama (2005-2011), dependentes de
condicionantes orçamentais, da legislatura e da personificação do cargo.
ASSISTÊNCIA TÉCNICA
A assistência técnica aos parlamentos tem sido administrada pelo GARIP. Este
serviço é composto por duas divisões: a de relações internacionais e a de
protocolo. Cada divisão é orientada por um chefe de divisão e estes respondem
diretamente ao diretor de serviço, a quem compete supervisionar e coordenar.
Por sua vez, o diretor de serviço reporta as informações necessárias ao
secretário-geral para uma melhor cooperação entre os serviços do parlamento.
O dever de sigilo e transparência dos funcionários e o caráter técnico dos
serviços obriga a que todo o trabalho de acompanhamento especializado não
contenha teor político.12 Para Nuno Paixão (2008), compete aos serviços
dinamizar e apoiar tecnicamente as atividades internacionais da Assembleia,
preferencialmente assessoria especializada às deslocações do Presidente, das
delegações permanentes e aos grupos de amizade, bem como no âmbito da
cooperação técnica parlamentar.
A assistência parlamentar tem sido gerida pelo gabinete através de duas figuras
legais: o protocolo e o programa de cooperação. A Assembleia serve-se destes
para implementar um sistema de assistência continuada e desenhado
especificamente para cada um dos parlamentos recetores. Os protocolos
comprometem por tempo indeterminado os dois parlamentos a estabelecer parcerias
e a fomentar atividades de cooperação. São assinados pelo presidente da
Assembleia e preveem o reforço das capacidades legislativas e da administração
técnica parlamentar. Já os programas são subsidiários dos protocolos, uma vez
que descrevem o planeamento de atividades. Estas atividades levam ao
entrosamento e à multiplicação de aprendizagens entre os serviços
parlamentares, cabendo a cada um comunicar e ensinar técnicas de trabalho ao
serviço do parlamento recetor. Os programas são avaliados in loco pelos
técnicos em missões de avaliação. Estas fornecem informação sobre a aplicação
dos programas e a configuração de novos. Para o período observável, os
protocolos e programas de cooperação em vigor demonstram a fraca consolidação e
o caráter ad-hoc dos programas de cooperação, mantendo-se em vigor apenas os
protocolos.
A assistência tem desenvolvido ações em diferentes áreas especializadas dos
serviços parlamentares. Como ilustram duas entrevistas realizadas a técnicos
parlamentares, dinâmicas como a informatização ou o ensino de técnicas de
arquivo nos parlamentos lusófonos demonstram um processo de isomorfismo
mimético-normativo com o caráter alargado do tipo de ajuda parlamentar, a
troca de experiências e know-how ou a gestão de diferenciados core
businesses que ajudam a democratizar o acesso à informação legislativa.13
Também a assistência política tem-se desenvolvido através dos grupos
parlamentares de amizade no reforço da cooperação através do desenvolvimento de
acções concretas ( ) que envolveram a doação dos mais diversos materiais ( )
visitas ( ) ou a realização de seminários e conferências (Paixão, 2008, p.
316).
A cooperação parlamentar bilateral tem evoluído, por questões de opção
estratégica e orçamental, no sentido da formação e visitas de estudo entre
serviços parlamentares.14 Se analisarmos o orçamento da cooperação
parlamentar entre 1998 e 2007 verificamos que se manteve em números absolutos,
mas não em números relativos, ou seja, os gastos da cooperação parlamentar face
ao universo total dos gastos/ano do parlamento têm diminuído. Essa diferença
nota-se entre 2004 e 2005, em que a cooperação passou de cerca de 1,02% para
metade, ou seja, 0,56%. Desde aí que, não sendo uma prioridade orçamental, a
representação relativa dos números da cooperação passou a estar na ordem dos
0,5%.
O estabelecimento destes serviços nos parlamentos lusófonos serve o propósito
de dotar as instituições de maior autonomia através da capacitação técnica.
Neste sentido, os vários serviços do parlamento têm participado em grupos de
trabalho que pretendem melhorar a capacidade de resposta de cada serviço
parlamentar homólogo. Para além da capacitação material dos parlamentos
lusófonos, os serviços do parlamento participam em ações de formação, estágios
e visitas de estudo que têm como intuito a formação técnica e a troca de
informações (Assembleia da República, 2007a).
A assistência fornecida aos parlamentos lusófonos tem possibilitado a troca de
know-how e a gradual socialização de práticas parlamentares que concorrem para
a autonomização do parlamento recetor. O propósito central dos programas de
cooperação bilateral juntamente com os antigos cursos de formação
interparlamentar15 é o de estabelecer uma rede de conhecimentos
administrativos, o que acompanha a institucionalização do paradigma
constitucional português no espaço lusófono. Assim sendo, a perceção de como o
parlamento deve funcionar baseia-se, por um lado, no sistema político em que
este se insere e, por outro, na transferência de normas e métodos de trabalho
(Assembleia da República, 2006).
ADMINISTRAÇÃO
Desde a experiência timorense que as Nações Unidas iniciaram as operações de
construção de Estados (Mendes e Leach, 2010) ou laboratórios de experiência de
governação (Gorjão, 2004, p. 1045). Estas missões de administração estão
dotada[s] de responsabilidade global pela administração do território e de
poderes para exercer toda a autoridade legislativa e executiva incluindo a
administração da justiça (Gorjão, 2004, p. 1044).
Esta forma de administração foi também tentada no âmbito da cooperação
parlamentar, envolvendo a edificação e institucionalização de parlamentos e
práticas legislativas em Timor-Leste, a partir do apoio ao proto-parlamento e à
Assembleia Constituinte. Ações de edificação e administração de parlamentos que
preparam a institucionalização de sistemas legislativos são, tal como as
missões de assistência, formas de importação institucional para a implementação
de sistemas parlamentares. Neste âmbito, o parlamento português participou em
ações de apoio a órgãos-chave no estabelecimento de assembleias constituintes e
no processo de transição e consolidação de práticas de atividade parlamentar
através da permanência de técnicos financiados por organismos internacionais.
A COOPERAÇÃO COM OS PARLAMENTOS DE ANGOLA, CABO VERDE, GUINÉ-BISSAU E TIMOR-
LESTE
Três parlamentos alvo da cooperação parlamentar portuguesa foram amplamente
descritos e analisados pelos entrevistados: Cabo Verde, Guiné-Bissau e Timor-
Leste. Como veremos, estes casos correspondem a níveis diferentes de integração
e consolidação das normas de trabalho parlamentar, bem como a exemplos de que a
efetividade da cooperação e da transferência institucional dependem do contexto
e de condicionantes de familiaridade.
ASSEMBLEIA NACIONAL DE CABO VERDE
Cabo Verde tem apostado no fomento de programas de ajuda que permitiram uma
estabilidade que contrasta com a falta de recursos e infraestruturas (Costa,
2013; Resende-Santos, 2013). O início da transição democrática nos finais da
década de 1980 motivada por fatores internacionais teve um cunho
constitucionalista português, bastante visível na constituição de 1992. Os
especialistas cabo-verdianos e portugueses têm-se dividido quanto à
classificação da natureza do sistema de governo, no entanto todos concordam que
este é semipresidencial com pendor parlamentarista (Canas e Fonseca, 2007). Um
dos fatores apontados para a rápida e harmoniosa consolidação democrática é a
do arranjo constitucional que permite a institucionalização de uma relação
equilibrada e interdependente entre os órgãos do poder. A fiscalização
parlamentar está bem presente no caso do parlamento cabo-verdiano, que detém
ainda vasta competência legislativa. Ao mesmo tempo, este arranjo institucional
permitiu a rotatividade dos partidos no executivo, trazendo uma aprendizagem
democrática (Meyns, 2002).
A cooperação internacional teve um papel essencial na formatação do sistema
cabo-verdiano e na transição democrática (Costa, 2013). Esta permitiu uma maior
autonomização do parlamento e o afastamento de derivas presidencialistas,
tornando o parlamento um foco de socialização e aprendizagem democráticas
(Costa, 2013; Guedes, 2007). Estas são facilitadas pela relação com o
executivo, fator essencial numa fiscalização parlamentar efetiva. É neste
cenário institucional que a cooperação parlamentar portuguesa tem fomentado
ações de formação de pessoal técnico para o reforço operacional da lei
orgânica. Para uma efetiva fiscalização e controlo das atividades governativas
e para um funcionamento ótimo do parlamento, a Assembleia da República e a
Assembleia Nacional têm negociado desde 1995 protocolos e programas de
cooperação para o empoderamento de técnicos dos serviços parlamentares. A esse
protocolo seriam acrescentados dois aditamentos, um de 1997, em que é
estabelecida a Comissão Mista Permanente, e o de 2002 (Assembleia da República,
2008c). Criada em 1997 e revista em 2002, tinha como intuito estabelecer uma
plataforma de reuniões onde se discutisse e avaliasse a cooperação parlamentar
luso-cabo-verdiana entre deputados e funcionários de ambos os parlamentos. No
entanto, esta reuniu apenas uma vez em janeiro de 2003, em Lisboa. É, aliás,
entre 2001 e 2003 que se executa o programa de cooperação com visitas de estudo
de equipas de funcionários portugueses à Assembleia Nacional para ações de
formação em várias áreas dos serviços parlamentares, bem como visitas de
funcionários cabo-verdianos a Lisboa para aprendizagens on job, conferências e
formações. Após 2003 são interrompidos os programas de cooperação, e em 2005 é
feita uma missão de diagnóstico pelo gabinete de relações internacionais e
protocolo para identificar as necessidades dos serviços parlamentares
(Assembleia da República, 2005b). A tentativa de relançamento da cooperação
bilateral para o período 2007-2009/10 com os pedidos de ajuda feitos pelo
parlamento cabo-verdiano encontraram eco no novo protocolo assinado em 2008 e
nos programas de cooperação bienais de 2009-2011 e 2012-2014.
Para o período observado, entre 18 e 22 de fevereiro de 2008 deslocou-se uma
delegação da ANCV composta por dois deputados e pelo conselheiro jurídico do
presidente do parlamento. Os objetivos da visita foram a recolha de informações
acerca do sistema de proteção de dados da Assembleia da República, o sistema
eleitoral português e a modernização administrativa. A reunião entre a
delegação e a Comissão Nacional de Eleições centrou-se na discussão acerca das
possíveis alterações ao sistema eleitoral cabo-verdiano, especialmente nos
tipos de financiamento dos partidos e na integração do voto dos círculos de
emigração. O tipo de aprendizagem acontece no plano homólogo e acompanha as
discussões políticas e as necessidades administrativas da Assembleia Nacional.
Um dos membros da delegação não deixou de frisar que A experiência portuguesa
será sempre a nossa mãe, a mãe de todas as convenções16, reforçando a
importância dada ao tipo de aprendizagem política e administrativa que concorre
para a socialização democrática das instituições e dos atores, bem como à
familiaridade dos possíveis processos de importação institucional.
ASSEMBLEIA NACIONAL POPULAR DA GUINÉ-BISSAU
A Guiné-Bissau tem sido citada pela comunidade internacional como um caso de
Estado falhado (Ferro, 2008). Esta condição advém da instabilidade política
fomentada pela constante revolta dos militares e da dependência do executivo
face a estes últimos (Kosta, 2007).
Na Guiné-Bissau, o semipresidencialismo encontrou dificuldades por causa das
constantes derivas presidencialistas (Elgie, 2005; Kosta, 2007). Face a estas,
os militares têm forçado o executivo a abandonar o poder em diversas ocasiões
(Azevedo, 2009). Paralelamente, a coabitação entre presidentes e primeiros-
ministros tem sido difícil, com uma competição permanente. Por exemplo, entre
2005 e 2008, a Guiné-Bissau teve 15 primeiros-ministros, sendo que a esperança
média de vida de um governo foi de 14,5 meses (Azevedo, 2009, p. 160). Neste
cenário a ANPGB poderia parecer fragilizada, com uma concentração dos poderes
no presidente. No entanto, e tal como defende Azevedo (2009, pp. 167-168), o
parlamento tem atuado como contrapeso à intervenção do presidente, como nos
casos de Nino Vieira em 1998 e na tentativa de revisão constitucional de 2001
por Kumba Yalá (Azevedo, 2009, p. 160).
O papel da cooperação parlamentar da Assembleia da República na Assembleia
Nacional Popular iniciou-se em 1997 com o protocolo de cooperação assinado a 19
de dezembro (Assembleia da República, 2008). No ano seguinte, entre 14 e 22 de
janeiro, uma missão técnica deslocou-se a Bissau a fim de acompanhar e apoiar o
parlamento na elaboração da nova lei eleitoral. Em abril, e com apoio
financeiro e técnico da União Europeia, um técnico superior da Assembleia da
República deslocou-se a Bissau a fim de coordenar uma célula de apoio17 que
tinha como missão reforçar a democracia através da criação de um centro de
informação e formação técnica composta por juristas e economistas aptos a
assessorar os funcionários. A falta de recursos técnicos e humanos levou a que
os grupos parlamentares e o gabinete do presidente do parlamento passassem a
ser assessorados pela célula. No entanto, com o eclodir da guerra civil nesse
mesmo ano, a missão parlamentar teve de ser cancelada.
A partir de 1998 o apoio concentrou-se em estágios on job para funcionários
guineenses, bem como em apoios financeiros correntes e de emergência. Em 2007,
e após pedidos dos presidentes Jaime Gama e Francisco Benante, a Assembleia da
República montou uma missão de avaliação das necessidades dos serviços do
parlamento guineense. A missão deslocou-se a Bissau de forma a fazer um
levantamento das necessidades do parlamento. À partida, cerca de 60% dos
deputados não falavam português, sendo que as sessões decorrem em crioulo ao
mesmo tempo que os documentos que circulavam no plenário e nas comissões eram
redigidos em português. Além disso, observou-se a falta de autonomia financeira
e a dependência das transferências do Ministério das Finanças. Na altura da
mesma missão, os deputados e funcionários não recebiam salário desde novembro
de 2006, o que coloca questões de autonomia política e técnica. Na sua condição
de parlamento homólogo, e face ao orçamento da Assembleia da República, não
estavam reunidas condições para transferências financeiras. Além do mais, a
construção do novo edifício da Assembleia Nacional Popular ficou a cargo do
governo chinês, o que colocou entraves pelo uso de sistemas informáticos em
língua chinesa, os quais impediam a comunicação em rede, essencial para o
debate parlamentar (Assembleia da República, 2007b).
Deste relatório ressaltaram quatro áreas essenciais para a capacitação técnica
do parlamento guineense: informatização, formação e capacitação, biblioteca e
ensino da língua portuguesa. Neste sentido, a 15 de janeiro de 2008 seria
assinado um novo protocolo de cooperação inserido na visita de Francisco
Benante a Lisboa. No entanto, os problemas que assolam o país e as constantes
intervenções militares têm interrompido a cooperação bilateral entre os dois
parlamentos, isolando o parlamento guineense e dificultando a sua autonomia
institucional.
PARLAMENTO NACIONAL DE TIMOR-LESTE
A cooperação internacional teve em Timor-Leste um papel preponderante na
transição e consolidação da democracia. O estabelecimento da Administração
Transitória das Nações Unidas para Timor-Leste em 1999 seguiu a vontade
maioritária expressa pelos timorenses no referendo. A falta de infraestruturas
de segurança e administração pública foram o mote durante esse período
transitório. A pacificação do território através de uma força de peace-keeping
foi acompanhada de ações de estabilização financeira e económica e de
administração pública (Ferro, 2008; Mendes e Leach, 2010). O mandato das Nações
Unidas em Timor-Leste teve uma maior intervenção na área de administração
pública (Ferro, 2008; Mendes e Leach, 2010). Aliás, um dos problemas citados
pela literatura é o da tardia timorização da administração (Mendes e Leach,
2010), o que causou problemas de transição em instituições para-executivas e
para-legislativas.
A cooperação parlamentar portuguesa assinou protocolos com o Conselho Nacional
de Timor-Leste, a Assembleia Constituinte, e finalmente com o Parlamento
Nacional18 Com o primeiro a cooperação decorreu de fevereiro a agosto de 2001,
através do envio de uma missão composta por três funcionários parlamentares
para apoiar o proto-parlamento de Timor-Leste. A missão deu apoio de emergência
a diferentes níveis do funcionamento do proto-parlamento e seria mais tarde
reforçada pela presença de mais dois funcionários portugueses (Assembleia da
República, 2003). O fim do Conselho Nacional coincidiu com as eleições para a
Assembleia Constituinte. Para esta transição, dois técnicos da Assembleia da
República ficariam em Díli para apoiar a Assembleia Constituinte, com apoio da
União Interparlamentar, do PNUD e da Asia Foundation (Assembleia da República,
2005a). O parlamento português e a Assembleia Constituinte assinariam a 14 de
fevereiro de 2000 um protocolo de cooperação com a consequente oferta de
material informático, documentação especializada, publicações e manuais de
práticas parlamentares (Assembleia da República, 2008a).
Finalmente, em maio de 2002, após a formalização da independência e as
primeiras eleições legislativas, a Assembleia da República fixou quatro
técnicos em Díli, um no apoio parlamentar e comissões, outro na gestão e
contabilidade, um terceiro como consultor do PNUD e um quarto enquanto técnico
superior (Assembleia da República, 2008b). A institucionalização formal do
parlamento timorense levou a que entre 17 e 26 de fevereiro de 2003 fosse feita
uma missão de diagnóstico às necessidades do novo parlamento. Nesta foram
identificadas as áreas de apoio ao plenário e secretariado às comissões,
administrativa e financeira e de biblioteca, documentação e informação
parlamentar com necessidades de intervenção. Estas necessidades seriam
contempladas nos programas de cooperação 2003-2005 e 2005-2007.
Com a transferência dos poderes para a administração timorense teve início o
processo de timorização (Cunha e Vasconcelos, 2009; Ferro, 2008; Mendes e
Leach, 2010). Daí que nos novos programas de cooperação tenha surgido a
necessidade de contratar técnicos residentes com formação dada pela Assembleia
da República. Esta contratação visava respeitar a autonomia timorense,
preservando-se recursos humanos autóctones e o parlamento com as suas dinâmicas
institucionais próprias.19 De novo, a ação de tipo administrativa feita pelo
parlamento português tanto no apoio ao Conselho Nacional como à Assembleia
Constituinte teve o intuito de ensinar técnicas de trabalho em contexto
parlamentar num sistema semipresidencial recém-criado, assegurando a formação
continuada e necessária para o funcionamento do Parlamento Nacional depois da
transferência de poderes. Neste sentido, a cooperação parlamentar portuguesa
tem também trabalhado em conjunto com outros organismos nacionais de cooperação
por forma a garantir formação interdisciplinar.
A COOPERAÇÃO PARLAMENTAR PORTUGUESA ENTRE A TRANSFERÊNCIA INSTITUCIONAL E O
ISOMORFISMO
A alteração da estratégia para a cooperação parlamentar, que acompanhou tanto a
mudança de presidente da Assembleia como de secretário-geral, trouxe um novo
enquadramento às missões e formações. Os cursos de formação interparlamentar
foram abandonados após a sua quarta edição em 2008, dando lugar a missões de
formação ad-hoc dependentes dos pedidos de apoio dos parlamentos recetores. Tal
como considerou um dos funcionários parlamentares,
A visão de formação administrativa teve como intuito a criação de uma
academia de formação interparlamentar que promovesse cursos públicos
setoriais. Como esta não aconteceu, tem-se promovido um circuito
aberto de aprendizagem nos PLOP ( ). Como é óbvio, todas as
aprendizagens acontecem num ambiente de tentativa e erro, pois não
temos controlo total sobre os efeitos das missões e da formação.20
Também a criação do Fórum dos Parlamentos de Língua Portuguesa foi integrado
como Assembleia Parlamentar da CPLP21, tal como acontece com várias
organizações internacionais e regionais (Cofelice e Stavridis, 2014). A par
deste surgiram também grupos de especialistas de diferentes setores da
atividade parlamentar, como a informática ou as bibliotecas e arquivos, com
reuniões regulares sobre metodologias de trabalho em contexto parlamentar.22
Nos casos descritos ressalta o facto de a cooperação parlamentar estar
dependente de fatores políticos e técnicos que lhe são alheios. Os processos de
socialização iniciados pelos diversos programas de aprendizagem demonstram que
a cooperação parlamentar depende das legislaturas, dos indivíduos e das redes
de contacto estabelecidas. Tal como referiu um dos funcionários, a cooperação
parlamentar é um processo de tentativa e erro dependente dos contextos
nacionais, das legislaturas e da vontade dos responsáveis políticos.23 Estes
fatores estão bem patentes na missão técnica efetuada no parlamento guineense
em 1998, chefiada por um funcionário da ARP.24 O contrato de assistência
técnica da Comissão Europeia com aval da ARP, tinha como objetivo prestar
serviços técnicos de apoio jurídico e económico. No entanto, com o eclodir da
crise política de 1998, os técnicos abandonariam a Guiné-Bissau, sem que os
efeitos de isomorfismo e aprendizagem tivessem surtido efeito duradouro.
Este facto demonstra que o processo de transferência institucional é
atravessado por dificuldades de importação de normas formais e de métodos de
trabalho parlamentar, mas chama também a atenção para a importância do
improviso no quotidiano através do uso adaptativo de novas práticas, na
partilha de compromissos e na multiplicação de contactos entre indivíduos e
organizações (Smets etal., 2012). Um dos grandes obstáculos descritos na
cooperação parlamentar prende-se com os mecanismos de partilha de poderes. Como
sublinhou um dos funcionários da ARP,
A partilha do poder nunca é igualitária, o que deve ser igualitário
são os direitos. O que tem de existir é uma aprendizagem operativa
das oportunidades e dos ganhos materiais e políticos da cooperação.
Aqui a partilha dependerá da institucionalização in loco do
multipartidarismo ( ). Outra coisa a evitar é a confusão entre o
regime de partido único do passado e o estabelecimento de um sistema
de partilha de poderes. É aqui que devem entrar os engenheiros
sociais.25
O facto de existir uma familiaridade cultural que deriva do passado colonial e
uma familiaridade político-institucional, consequência da adoção do
semipresidencialismo, apresenta uma oportunidade na consolidação dos efeitos da
importação de normas parlamentares formais. No entanto, as estratégias de
isomorfismo institucional obtiveram resultados distintos, mesmo que os
protocolos e os programas de cooperação contemplem diferentes necessidades.
O caso do parlamento cabo-verdiano é um exemplo de assistência técnica
continuada com relativo sucesso na transferência institucional, reforçada pela
adaptação contextual das instituições importadas. Neste caso está também
patente um processo de isomorfismo mimético, conquanto a repetição de práticas
permitiu a consolidação de um sistema parlamentar que tende a respeitar a
autonomia do parlamento face ao executivo. O empoderamento dos funcionários
através da cooperação parlamentar portuguesa reforça também o processo de
isomorfismo normativo através da constituição de grupos de funcionários
especializados em diversas atividades parlamentares, definindo-se métodos de
trabalho e aprofundando a estabilidade institucional. No entanto, a dificuldade
de reunir a Comissão Mista Permanente demonstra que o processo de isomorfismo
normativo não ficou completo.
No caso guineense, fica patente que o contexto desfavorável de conflito
político, a menor familiaridade e a rivalidade institucional demonstram um
baixo nível de adaptação contextual das instituições importadas. As normas
formais estão inscritas na constituição, no semipresidencialismo e na
edificação do parlamento, no entanto o falhanço da transferência institucional
encontra-se patente na permanência de práticas informais conducentes à
conflitualidade interinstitucional, e no baixo nível de adaptação contextual
das normas formais importadas. As tentativas de isomorfismo normativo através
de redes de especialistas on job e redes de funcionários por setor foram
ultrapassadas pelo contexto de conflito institucional. No caso da Assembleia
guineense será necessária uma estratégia de isomorfismo mimético para fazer
face às incertezas institucionais, reforçando-se a legitimidade do parlamento,
cabendo a estratégia coerciva às organizações internacionais, permitindo-se uma
competição entre as instituições que salvaguarde as autonomias através da maior
contextualização cultural das normas formais.
Finalmente, o caso timorense demonstra de que forma a cooperação parlamentar
portuguesa pode ser um contributo no reforço da ajuda internacional,
especialmente por se centrar numa instituição que é menorizada no contexto da
cooperação internacional. Apesar do menor grau de familiaridade motivado por
questões geopolíticas e culturais, a importação de instituições como a
constituição, o sistema semipresidencialista e a oficialização do português
teve sucesso, motivado por um processo de isomorfismo mimético-normativo. No
caso do parlamento timorense, demonstra-se também que o processo de timorização
e de transferência de poderes resultou num equilíbrio informal entre
instituições, permitindo-se a consolidação do parlamento. No entanto, os
funcionários que se mantiveram em Díli no apoio ao proto-parlamento e à
Assembleia Constituinte afirmaram que os contactos firmados com os partidos e
com os líderes demonstram o uso dos técnicos da ARP como forma de legitimação
política, dinâmica que demonstra a falta de especialização dos funcionários e a
permanência de normas informais, exigindo-se a continuada formação e reforço de
normas formais contextualizadas.
REFLEXÃO FINAL
A necessária dinâmica de partilha de poder acaba por encontrar obstáculos em
variadas instituições informais e formais. É neste sentido que a cooperação
parlamentar desenvolvida pela ARP tem tentado dotar os parlamentos lusófonos de
autonomia técnica através da formação em diferentes setores da gestão
parlamentar.
Sem a necessária socialização dos técnicos e da classe política quanto ao
funcionamento democrático das instituições, as novas instituições que têm pouca
tradição histórica e cultural, ou que são obstaculizadas por outras, acabam por
ter pouca expressão na sociedade. Instituições que têm um papel fulcral nas
democracias representativas como os parlamentos, deixam de assumir a sua função
fiscalizadora, empobrecendo o debate democrático e aprofundando o fosso entre
instituições. Com o reforço continuado dos executivos em democracias recentes
através dos programas de cooperação internacional, os parlamentos permanecem em
segundo plano, o que dificulta a partilha do poder, tão necessária em
transições democráticas.
Este estudo argumentou que os processos de transferência institucional têm um
papel preponderante na consolidação de sistemas parlamentares. A importação de
normas e a formação do pessoal administrativo demonstram que os parlamentos
destes países podem dotar-se de autonomia própria face ao executivo e aos
partidos, uma vez ultrapassado o paradoxo institucional gerado pela importação
de sistemas legais e políticos através de processos isomórficos, que, uma vez
contextualizados, permitem o uso adaptado e especializado de normas de
funcionamento parlamentar.
Os estudos de caso demonstram resultados diferentes, decorrentes da relação
executivo-legislativo e da continuidade das relações bilaterais. Enquanto o
parlamento cabo-verdiano revela uma consolidação de mecanismos especializados
de trabalho e gestão parlamentar, o parlamento timorense contrasta com o
guineense, onde a ação de administração evoluiu deficitariamente para a
assistência técnica. A contínua formação especializada, a contextualização para
o sucesso da transferência institucional, e a exploração da familiaridade
cultural e político-institucional, são aspetos determinantes no sucesso dos
processos isomórficos de aprendizagem e consolidação de práticas que permitam a
autonomia e reforço dos parlamentos.
No entanto, falta um enquadramento da cooperação parlamentar nos mecanismos
mais adequados para a orçamentação e execução do apoio português para o
desenvolvimento e a criação de mecanismos de coordenação interministerial e
interinstitucional com o Ministério dos Negócios Estrangeiros que permitam o
desejável entrosamento.