Pois temos touros?: as touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1840-1852)
DOSSIÊ: ESTRUTURAS SOCIAIS, VALORES, SOCIABILIDADES
Pois temos touros?: as touradas no Rio de Janeiro do século XIX (1840-1852)
Do we have bulls? Bullfights in 19th-Century Rio de Janeiro (1840-1852)
INTRODUÇÃO
É sem dúvida para sentir que a tarde de domingo estivesse tão chuvosa
e impedisse a representação do espetáculo da Praça de Touros, onde
tencionávamos concorrer, pagando (bem entendido) os nossos cobrinhos,
afim de podermos apreciar com o nosso espírito meditabundo essas
cenas em que a natureza, excitada pela arte, nos depara com quadros
variados do instinto animal. Em reação com as suas faculdades
sensitivas, nos faz ora estalar de riso, e ora estremecer de horror,
imprimindo em nosso ânimo ideias mais ou menos aquilatadas das
faculdades dos brutos. Aguardamos as próximas representações,
permitindo o tempo, para dilatar o nosso entendimento na contemplação
de semelhantes espetáculos, contando que o seu empresário não se
descuidará de esforçar-se para bem merecer do público.1
Proclamada a independência, em 1822, começou a configurar-se melhor no Brasil o
que seria um longo processo de debates sobre a identidade nacional e os
projetos de nação. No decorrer do século XIX, até mesmo pela vinculação, em
diferentes graus, dos monarcas brasileiros com a família real portuguesa, as
discussões transitavam, com matizes, entre dois polos: a adoção de uma linha de
continuidade com certas tradições que vinham do período colonial e a rutura
definitiva com tudo o que lembrasse o antigo colonizador, sugerindo-se a adesão
a parâmetros observados em países civilizados (nomeadamente França e
Inglaterra).
Depois de duas décadas muito conflituosas, a antecipação2 da maioridade de
Pedro II, em 1841, paulatinamente surtiu efeito no sentido de manter o país
unificado e conformar, nos mais distintos âmbitos, uma estabilidade necessária
para o forjar da nação (Carvalho, 2012). Como sugere Paula (2012, p. 179), a
partir de então consolidou-se um efetivo sistema cultural composto de
produtores, veículos e consumidores de bens simbólicos, que por ser, de fato,
um sistema, não ficou restrito aos grandes nomes, aos grandes autores.
O Rio de Janeiro foi-se fortalecendo como centro decisório, como espaço das
principais experiências de modernização, como polo irradiador de modas e
costumes (Schwarcz, 1998). Progressivamente sintonizada com as novidades que
chegavam do mundo civilizado europeu, na capital do Império surgiu um novo
dinamismo social, marcado, entre outras coisas, por uma valorização e
estruturação do comércio de entretenimentos, relacionados, inclusive, com uma
sociedade civil mais organizada, que desejava, e necessitava, de expor
publicamente os seus símbolos de status e distinção. O quadro era diferente
daquele das duas primeiras décadas do Brasil independente, quando os
divertimentos públicos basicamente se resumiam ao teatro e aos bailes (além das
festas religiosas).
Entre as novidades que surgiram no âmbito do entretenimento, encontravam-se
as touradas. Essa prática, na verdade, já existia no Brasil desde o século
XVII, inclusive no Rio de Janeiro (Melo, 2013a e 2013b). Todavia, desde 1822,
quando foi desmontada uma importante praça de curros que se localizava no Campo
de Santana, a cidade ficara sem corridas de touros. Em 1840, houve uma breve
temporada, que antecedeu outra maior, de seis anos, realizada na transição para
os anos 1850. Depois de uma série de conflitos, após 1852 as touradas
praticamente deixaram de existir até à década de 1870.
Este estudo tem por objetivo discutir esse reinício das touradas no Rio de
Janeiro, entre os anos de 1840 e 1852, considerando que ao redor da prática se
manifestaram elementos diversos daquele cenário histórico, nomeadamente algumas
tensões relativas à ocupação do espaço público, debates relacionados com a
adesão ao ideário e imaginário da modernidade. Como fontes foram utilizados
jornais publicados na cidade no período em análise, tendo em conta que, na
ocasião, os periódicos já eram arenas nas quais diversas posições se
enfrentavam.3
PRENÚNCIOS DE UMA RETOMADA
Depois de quase duas décadas sem touradas, em março de 1840, Manoel Luiz Alves
de Carvalho4 comunicou que pretendia oferecer espetáculos equestres, gímnicos e
de corridas de touros num anfiteatro a ser instalado no Campo de São
Cristóvão.5 O proprietário vinha tentando conseguir a licença desde outubro de
18396, já na ocasião enfrentando um debate sobre a adequação da prática a uma
cidade que se pretendia civilizada (Castro, 2005). A própria escolha do local
pode ter sido ditada em função desta polémica.
O Campo de São Cristóvão era um rossio, muito utilizado para negócios
agropecuários. Nas redondezas, em meados dos anos 1850, seria instalado o
matadouro, substituindo o que existia na Praia de Santa Luzia (região central
da cidade). É interessante pensar nessa transferência para refletir sobre o
espaço das corridas de touros no Rio de Janeiro.
Se na década de 1840, e durante um bom tempo, ainda eram comuns as chácaras e a
presença de gado no centro da cidade, no decorrer do século, conforme foram
mudando as sensibilidades e aumentando as preocupações com a ordem e com o
saneamento, os animais foram sendo afastados e assiste-se a uma melhor
conformação da fronteira entre a zona urbana e a zona rural. Isto terá um
impacto futuro na realização das touradas, que progressivamente se tornariam
mais estranhas à urbe, assumindo esta novas características.
Devido a polémicas e a múltiplas dificuldades de organização, foi somente em
abril de 1840 que foram realizadas as corridas. Como era comum, na época, os
anúncios esmeravam-se em pedir a proteção e o acolhimento7 da população. Um
público crescente e multifacetado, formado por membros de diversos estratos
sociais (elites, grupos intermediários e populares), alocados em espaços
distintos nos curros, passou a ser o personagem emblemático da inflexão que
levou as touradas do modelo estatal (típico do período colonial)8 para o modelo
comercial. A remuneração dos promotores dos eventos (empresários, companhia
tauromáquica e funcionários diversos ligados ao bom andamento dos espetáculos)
passou a depender da satisfação dos pagantes, que precisavam de sentir-se
acolhidos e atendidos nas suas expectativas. No lugar da louvação à família
real e aos feitos do Império português, antiga razão de ser das corridas (Melo,
2013a), introduziu-se o primado da emoção gratuita, a alegria pela alegria, o
divertimento pelo divertimento.
Conquistar o público era uma necessidade para a manutenção do negócio. Para
tal, os promotores tinham que estar atentos a muitos detalhes: a escolha do
gado, a performance da companhia, o conforto da praça, a ordem do espetáculo,
com seus ornamentos, vestuários, banda de música, entre outras coisas.
Certamente estas preocupações existiam em algum grau no modelo anterior, mas
agora a própria continuidade da prática dependia da boa execução dessas ações.
Entende-se, assim, por que motivo os anúncios nos jornais ' novo procedimento
indispensável ao êxito comercial do empreendimento ' roçavam a bajulação. Além
disso, o empresário tinha de ostentar os seus esforços, fadigas, despesas e
sacrifícios para contentar a assistência. Era uma forma de prestar contas e de
conquistar a confiança do público.
Os pagantes, por seu turno, cada vez mais queriam ver os seus desejos
atendidos. Aplaudiam os toureiros quando os julgavam dignos de mérito. Por
outro lado, poderiam reagir com violência quando se sentiam enganados. Nesse
caso, os mais exaltados podiam chegar a extremos, como depredar a arena.
Havia um novo perfil de assistência em delineamento, mais ativa e disposta a
participar. Um sinal dessa tendência é o sucesso do touro dos curiosos:
destinava-se um animal para que voluntários da plateia o enfrentassem. Outra
forma de participação era mais generalizada: a ordem para que os toureiros
pegassem à unha o touro. O convite à manifestação era reiterado nos anúncios
e cartazes. O público, portanto, também tomava parte e desempenhava um papel
importante no espetáculo.
Se atrair o público era uma clara preocupação, também o era o seu transporte
até à praça do curro. No caso da arena do Campo de São Cristóvão, uma região
relativamente afastada do centro naquela transição dos anos 1830-1840,
comunicou-se que largará da ponte da corte, ( ), às 11 horas da manhã e 2 ½ da
tarde, uma barca de vapor para aquele ponto, donde voltará meia hora depois de
acabado o divertimento.9 O escalonamento dos preços dos bilhetes era um sinal
de que havia uma expectativa de receber, inclusive, pessoas das camadas
populares: $320 por viagem, sendo $160 para descalços.10
Atento à nova dinâmica da cidade, depois da primeira experiência, o empresário
tentou incrementar o espetáculo para manter o interesse popular. Contratou uma
companhia tauromáquica que vinha de Montevidéu e esmerou-se para conseguir bons
animais para o toureio. Para facilitar o acesso, os ingressos foram também
vendidos na loja de Paula Brito.11
A temporada de 1841 foi mais intensa. Nesse ano, João Lopes, que atuava no
antigo anfiteatro, dizendo que não lhe era vantajoso financeiramente permanecer
por lá, abriu uma nova praça de touros, na cancela de São Cristóvão.12 Essa
iniciativa não logrou sucesso, mas é um indício de que já existiam divergências
na consolidação da tauromaquia na cidade. Na verdade, se havia elementos que
demonstravam a conformação do campo (calendário autónomo, corpo de
especialistas, entidades próprias, mercado ao seu redor)13, ainda tardaria
alguns anos o amadurecimento dos setores envolvidos, de forma a permitir a
manutenção da promoção das corridas.
Depois das touradas de 1841, houve um novo interregno. É possível especular
sobre o porquê da interrupção. Além de a cidade passar por um momento de
refluxo nos seus entretenimentos, a estrutura comercial e de negócios ao seu
redor ainda estava em construção, não sendo suficiente para dar conta das
necessidades dos empresários envolvidos no ramo do divertimento.14 Em poucos
anos, contudo, novas iniciativas seriam experimentadas.
UMA NOVA TENTATIVA
É só em 1847 que foram realizadas novas corridas de touros no Rio de Janeiro. A
praça foi instalada na esquina da Rua Nova do Conde (atual Frei Caneca) com a
Rua de Matacavalos (atual Riachuelo). Percebe-se que foram entabulados esforços
para oferecer bons espetáculos: conforto nas instalações, banda de música
completa, equipa de toureio ricamente trajada, a incessante busca por animais
adequados. É possível identificar, inclusive pelo espectro dos preços dos
ingressos, que se tentava atrair público de diversos perfis socioeconómicos. Um
detalhe dos anúncios merece destaque: Todos os divertimentos e vestimentas são
feitos segundo os costumes de Portugal.15 Essa referência ao antigo
colonizador será uma constante na história da prática na capital brasileira.
Nessa praça de touros, uma inovação foi apresentada: uma toureira. Como se lê
no Diário do Rio de Janeiro:
O empresário sente não poder apresentar uma jovem de 23 anos,
toureando com braço varonil, e impavidez de cavalheiro, mas pretende
apresentar em compensação a srta. JOANNA PAULINA.16
Causou grande alvoroço na cidade essa performance, por ser ainda rara a
participação de mulheres em atividades públicas, tanto mais por se tratar de
uma prática tão ligada a representações de masculinidade.
Na verdade, deve-se destacar a referência explícita ao comparecimento de
mulheres aos eventos tauromáquicos, havendo até mesmo um espaço exclusivo para
elas na arena. Em linhas gerais, acabou por contribuir para que se tornasse
mais intensa a presença social feminina a constituição de um mercado ao redor
dos entretenimentos, bem como o delineamento de uma dinâmica pública mais
intensa, ocorrências que, como vimos na introdução, marcavam o Rio de Janeiro
do período. Esse processo, que naquele momento dava os seus primeiros passos,
tornar-se-ia mais visível no quartel final do século XIX.17
A despeito do perfil da iniciativa, logo foi leiloado o curro. A cidade,
todavia, não ficaria muito tempo sem touradas. No mês de setembro de 1847,
Francisco York18 e Antonio José Godinho19 receberam uma licença para promover
corridas num antigo anfiteatro situado na esquina da Rua do Lavradio com a Rua
do Senado. O leitor que assina como apreciador justo (pelo teor suspeitamos
que pode ter sido alguém da empresa fazendo autopropaganda de maneira anónima)
exulta:
Sr.Redator ' Tendo assistido às duas últimas corridas de touros no
curro à rua do Lavradio, confesso-lhe que muito gostei por ver que o
atual proprietário se não poupa a despesas, tendo comprado muitos
bons touros, e reformando já o pessoal dos capinhas. Tais esforços
não devem ser esquecidos pelo público por quem são eles feitos, e por
isso é de esperar a continuação de concorrência, e tanto mais quanto,
segundo consta, preparam-se já novas e belas cenas.20
Essa praça, de facto, promoveu corridas de touros durante meses, com
regularidade e boa organização. Em parte, deve-se ao italiano Emilio Anselmi o
seu sucesso. Esse cavaleiro/toureiro compreendeu bem as mudanças em curso no
Rio de Janeiro, esmerando-se para atrair a atenção do público com performances
notáveis e constantes inovações. Além disso, tornou-se conhecido não só por
motivos tauromáquicos: carregado de crimes, pretendia muitas vezes fazer até
jogo ' com a honra de sua mulher!.21 Tratava-se de um polémico personagem,
perfeito para alimentar o falatório numa cidade que começava a apreciar a cena
pública.
Esse curro reinou sozinho até novembro de 1848, quando Domingos José de Moura22
recebeu uma licença para por em funcionamento uma nova praça, instalada na Rua
das Flores (atual rua de Santana). Tendo de lidar com a existência de uma
concorrente já bem estabelecida, não se poupou a esforços para atrair a
assistência. Por exemplo, os ingressos eram vendidos nos pontos das gôndolas;
quem os adquiria, ganhava transporte gratuito para ir até ao evento: Assim
espera o empresário que com estas comodidades o público não deixe de concorrer
a fim de a reunião ser em tudo brilhante.23
Um detalhe importante dos eventos promovidos nesse touril: o início dos
espetáculos era marcado pela execução dos hinos nacionais do Brasil e
Portugal. Como já observámos, e retomaremos no decorrer do texto, no Rio de
Janeiro as touradas foram sempre relacionadas com o antigo colonizador e
contaram com a presença e apoio dos portugueses estabelecidos na cidade, um
fluxo de migração, aliás, que continuou a ser intenso mesmo depois da
independência (Lessa, 2002).
Logo se estabeleceu uma rivalidade entre as duas praças. No dia seguinte à
sessão de inauguração do novo estabelecimento, um anónimo criticou:
Sr.Redator. ' Tendo visto pelos jornais anúncios para duas corridas
de touros diferentes no domingo, 12 do corrente, uma na rua das
Flores na Cidade Nova, e outra na rua do Lavradio n.º 35, e tendo eu
já assistido por algumas vezes a esta última, tive vontade de ir ver
a outra à rua das Flores, a fim de aquilatar o merecimento de cada
uma, e poder melhor decidir-me sempre que tivesse de escolher entre
estes dois divertimentos. Com efeito, à hora marcada achava-me eu num
dos lugares daquela praça depois de ter dado os meus dez tostões, que
tão mal empregados foram, e que sem dúvida nunca mais lá tornarão.
Posso assegurar ao público que nada houve de agradável nesse
divertimento, e ia me parecendo que só eu estava desgostoso dele,
quando vi que todos os espectadores faziam a mesma ideia, pois que
prorromperam em vaias e apupadas a todas as figuras do circo, e até
ao próprio cavaleiro, que foi sofrivelmente assobiado.24
A resposta não tardou. Dois dias depois, outro anónimo contestou essa perceção.
Sugeriu que o grande número de assistentes (cerca de 1200, na sua apreensão)
percebeu que se tratava de uma praça maior, mais elegante e a plateia muito
cômoda,25 ainda que reconhecesse que a equipa de toureio não era das melhores.
Concluiu dizendo que não mais poria o pé na Rua do Lavradio.
A polémica não parou por aí, motivada pela procura de públicos. Em 17 de
novembro, é o próprio Domingos José Moura que escreve, pedindo desculpas ao
público pelos eventuais problemas. Não perde a oportunidade de criticar os que
falaram mal da sua praça, sugerindo que se tratou de perseguição daqueles que
são apenas interesseiros detratores, que não duvidam lucrar jogando a
reputação alheia.26
No dia seguinte, Godinho, considerando que a ele foram dirigidas algumas
alusões desagradáveis e pouco leais, fez questão de afirmar que nunca teve em
vistas e nem empregou meio algum para detrair ou abater o novo estabelecimento
da rua das Flores na Cidade Nova,27 inclusive porque não lhe causa prejuízo a
abertura da nova praça, apesar da qual nenhuma diferença sentiu na concorrência
com que o público honrou no domingo. Sugeriu ainda que o empresário
concorrente tentou subornar o agente de touros para ficar com os melhores
animais.
O debate foi intenso, com acusações de ambos os lados, envolvendo proprietários
e leitores. Para a antiga praça, eram mesmo comuns os elogios, ainda que também
houvesse críticas, nomeadamente ao comportamento polémico de Emilio Anselmi. Já
o novo curro logo estaria melhor estruturado, acirrando ainda mais a
concorrência. José Maria Gonçalves era a principal atração, mas também recebiam
destaque Francisco Gonçalves Garcia (o China) e Salvador Vieira Leste,
conhecidos pelas inovações que introduziram nas corridas.
Dois redondéis funcionando simultaneamente era um sinal de que a tauromaquia se
consolidava na sociedade da Corte. Mais ainda, com as tensões relacionadas com
a necessidade de atrair o público, aquele que poderia simultaneamente legitimar
e viabilizar economicamente o espetáculo, percebe-se uma maior
profissionalização das corridas e investimento na infraestrutura.
DO SUCESSO A MAIS UM FIM
Depois de dois anos com atividades frequentes, no ano de 1849 pareciam bem
estabelecidas as corridas de touros: estava configurado, mesmo que de forma
precária, um campo da tauromaquia no Rio de Janeiro, com todos seus elementos
constitutivos ' companhias relativamente estáveis, um calendário próprio, corpo
técnico profissional, um mercado conformado. Os seus personagens ocupavam lugar
de algum destaque na cidade, seja porque se envolviam com alguma polémica, como
o caso do já citado Anselmi, seja por serem considerados exemplos de bravura,
como ocorria com Salvador Vieira Leste.
Esta relativa estabilidade não significava monotonia ou permanência dos mesmos
elementos. Pelo contrário, era necessário continuar a inovar para envolver o
público. O anfiteatro da Rua do Lavradio passou a oferecer espetáculos
híbridos: corridas de touros e apresentações de ginástica. Já a praça da Rua
das Flores se consolidou como o grande palco das touradas. Também por lá se
procurava apresentar atrações diferenciadas, mais afeitas, todavia, à
tauromaquia. Por exemplo, como já ocorrera antes na capital, nas atividades de
11 de fevereiro de 1849, uma francesa fora contratada para tourear.28
Nos meses finais de 1849, sem que deixassem de existir as praças, as corridas
foram interrompidas por um tempo. Na verdade, em outros países, como na Espanha
e em Portugal, havia (e há) meses específicos para a realização das touradas.
No caso do Rio de Janeiro não existia uma rotina anual estruturada, estando as
interrupções mais ligadas a questões comerciais, aos problemas da cidade ou à
concessão ou não de licenças por parte do poder público.
Em 1850, pela primeira vez na cidade, a promoção de espetáculos taurinos
enfrentou esta última dificuldade: foi negada a licença a João Valentim
Cerqueira Esteves, o empresário que àquela altura estava à frente do curro da
Rua dos Flores.29 No final, a autorização foi concedida, mas já se anunciava
que aumentavam as resistências com a prática.
Uma novidade nessa temporada foi a maior cobertura das corridas por parte dos
jornais. Surgiu até um comentarista permanente. Não se sabe se é a mesma
pessoa, pois assina de forma distinta, sempre com um pseudónimo: amante das
touradas, amigo do requinte, cavaleiro da roça. De qualquer forma,
demonstrava conhecimento sobre o assunto.
Em novembro de 1850, houve pela primeira vez um facto que se tornaria comum nos
anos seguintes: um grande conflito no curro, numa sessão que fora anunciada com
bastante estardalhaço ' prometiam-se touros como jamais foram vistos nas arenas
fluminenses. Segundo o cronista do Periódico dos Pobres,30 tudo estava mal
preparado, supostamente por problemas financeiros, a seu ver não justificados,
pois estava lotada a praça. A insatisfação crescente culminou numa turba,
somente encerrada com a ação da polícia. Segundo o Correio da Tarde:
Extraordinário concurso de povo houve ontem na Praça da Rua das
Flores para admirar a corrida dos touros, tão gabados pelo Jornal do
Comércio! Apareceram 4 pacíficos bois ( ), que pela sua idade e
hábitos julgaram mais prudente não servirem de divertimento a
curiosos. O respeitável tomou vingança por suas próprias mãos,
escangalhando todos os móveis. Aqui está o mais inocente divertimento
em que alguns tenentes poderiam exercer o maligno instinto de
destruição!31
Desta vez, portanto, a interrupção das touradas teve outro motivo: a destruição
do curro. No Diário do Rio de Janeiro, de 7 de fevereiro de 1851, vemos a
notícia de leilão da praça da Rua das Flores. Mais uma arena chegava ao fim.
Depois do fim do único redondel que estava em funcionamento32, as touradas
deixam de ser realizadas por alguns meses.
Há uma novidade nesse ano que nos ajuda a entender as mudanças que estavam em
andamento: a melhor configuração de uma nova prática social que dera os seus
primeiros passos já na década de 1810, mas que somente naqueles meados do
século efetivamente começou estruturar-se: o desporto (Melo, 2001). Pelos
jornais de 1851 podemos ver as mais diversas informações sobre corridas de
cavalos e de barcos. Encaradas como sinal de refinamento e civilização, o turfe
e o remo passaram rapidamente a ser valorizados.
De início, delineia-se até mesmo certa tensão entre as touradas, uma prática
que vinha do século XVII, bastante ligada aos parâmetros culturais do antigo
colonizador, e o desporto, novidade que viera inicialmente a bordo dos navios
ingleses, mas que também carregava, no Brasil, inspiração dos franceses.
Estava, assim, relacionado com a modernidade, a que tanto aspiravam alguns,
aqueles que apontavam um caminho de construção identitária que se afastava da
outrora metrópole (Melo, 2009).
Percebemos esse debate na secção Comunicado/Pacotilha, publicada no Correio
Mercantil de 15 de junho de 1851. Vejamos que não se tratava de um anúncio
mandado publicar pelos empresários das praças ou uma carta de um leitor
anónimo. Era sim um balanço das principais notícias da semana, da lavra de um
cronista.
As corridas de cavalos, realizadas no recém-inaugurado Prado Fluminense,
chamaram a atenção do cronista. Muitos foram os elogios ao evento, embora se
observasse os problemas e necessidade de uma melhor estruturação. Um comentário
deixa clara a conceção que começava a ser construída:
As corridas de sexta-feira podem considerar-se como um ensaio, mas
pelo prazer e satisfação que vi reinar nesse ajuntamento que se diz
ter sido composto de quatro a cinco mil pessoas, parece que o novo
folguedo transplantado da Europa pegou na nossa terra, aclimou-se já
neste nosso país, que tendo falta, como fica dito, de um lugar de
espetáculo para de dia, pois que o estado de sua civilização já não
tolera mais as bárbaras corridas de touros, nem as antiquadas
cavalhadas de argolinhas, sem duvida abraça com todo o gosto e adota
as corridas de cavalos.33
Para o cronista, estava claro que a nova prática que vinha da Europa, leia-se
de Inglaterra e de França, finalmente apresentara à população da capital a
oportunidade de se divertir de acordo com um superior estado civilizacional,
sem a necessidade de recorrer às inoportunas corridas de touros, que, vindas
de Portugal, já não mais se ajustariam aos novos tempos.
De toda forma, ainda seguia a expectativa de alguns apreciadores das touradas.
Vejamos a posição entusiasmada de um leitor, publicada alguns meses depois:
Dé, gongodem, démdem, gongodém, dim
Ouvirão repicar agora os sinos?
Esses sons tão alegres, tão divinos
Estão anunciando um grão festim;
De efeito singular pomposo enfim!
Grato a velhos, a moços e a meninos;
' Sublimes espetáculos taurinos.34
A sessão inaugural dessa nova temporada, uma vez mais realizada na velha arena
da Rua do Lavradio, em novembro de 1851, mereceu algumas linhas no Periódico
dos Pobres, na seção Visita das priminhas (duas supostas parentes teciam
comentários irónicos sobre o que ocorria na cidade). Segundo o seu olhar, tudo
parecia correr bem, mas houve alguns espectadores turbulentos que arrancaram
algumas tábuas das trincheiras, quando lhe desagradava qualquer coisa.35 Uma
vez mais ocorreram conflitos no curro.
As críticas aumentaram ainda mais quando a sessão de 18 de janeiro de 1852
terminou em pancadaria: a plateia reagiu à má qualidade do espetáculo e ao
incumprimento do programa. Como já ocorrera antes, depois de confusão
generalizada, inclusive conflitos com a polícia, o curro acabou destruído. Para
o Correio Mercantil: É um clamor geral contra esta especulação de corridas de
touros, que só tem por fim enriquecer espertalhões, que infelizmente gozam da
proteção, sem a qual não poderiam obter as licenças que têm obtido.36
Ainda que a crítica não tenha sido dirigida diretamente às touradas, mas sim à
esperteza de empresários e à ineficiência governamental, o facto é que se
fragilizava ainda mais o que já vinha débil. Mal se recuperara dos conflitos de
1850, esses novos tumultos expunham as vulnerabilidades das corridas numa
cidade que se civilizava, colocando em xeque o ethos que a sustentava.
Ainda assim persistiam muitas expectativas; os conflitos e críticas não eram
suficientes para eliminar o gosto pelos espetáculos taurinos. Vejamos como o
cronista que assina como Juca, no periódico MarmotaFluminense, comemorou a
notícia que um empresário mandara de Lisboa, dando conta de que estava
arrebanhando uma nova companhia para voltar a promover as touradas no Rio de
Janeiro: Moças de bom gosto, homens, mulheres, meninos e meninas, preparai-vos
todos, que em breve teremos de fruir belas corridas de touros!.37 Mais ainda,
chegou a pedir apoio governamental para a reinstituição da prática:
Oh! Já era tempo que uma capital como a nossa tivesse mais este
gênero de divertimento; divertimento que muito apreciam os seus
habitantes! Nós desde já, fazemos um apelo ao corpo legislativo, a
fim de proteger mais esta distração pública, concedendo-lhe algum
donativo para seu sustentáculo.
Para Juca, as touradas eram mesmo superiores às atividades teatrais: Quem não
preferirá, em vez de ouvir coros de qualquer ópera italiana, ver as belas
sortes dos capinhas, as lindas pegas dos máscaras, ouvir os gritos e as
apupadas ao touro corrido? Ninguém, por certo. O seu entusiasmo ia mesmo em
contramão do que pensava um setor da cidade.
De qualquer forma, concretamente demoraria muitos anos para que fossem de novo
organizadas touradas. Aprofundemos o debate sobre as diferentes posições que as
cercavam naquela transição de décadas.
TENSÕES AO REDOR DOS FESTEJOS TAURINOS
Não nos falem da barbaridade do divertimento. Cada povo tem sua
balda: os Ingleses pelas brigas de galos e pelo soco, que muitas
vezes é seguido de sangue pela boca, e pela morte: os Espanhóis e
Portugueses, de que descendemos, pelas corridas de touros. ( ). Entre
nós se a fidalguia não empunha uma lança ( ) nem por isso deixam de
apresentar-se nos camarotes, e mesmo na plateia geral de mistura com
o povo, Senadores do Império, Magistrados, Militares, Empregados
Públicos, e outras pessoas graduadas.38
Conforme as corridas se foram estabelecendo na cidade, por parte do público
aumentou a exigência de precisão nas cortesias, que deveriam marcar o início e
o decorrer da atividade, bem como nas sortes, as diversas técnicas e formas
de lidar com os touros. Ao redor dessas peculiaridades, havia mesmo disputas
internas no campo tauromáquico, conflitos entre o que era considerado mais ou
menos tradicional, a contestação ou valorização de certas inovações. Esses
embates constituíam-se em mais um atrativo. Como observa Capucha:
É das rivalidades que vive a festa. Sem a concorrência, a inovação, a
oposição de estilos, o público não se renovaria e deixaria de acorrer
às praças, crê-se no mundillo ( ). O campo estagnaria e perderia
capacidade plástica para acompanhar as alterações do gosto do
respeitável público [Capucha,1988, p. 60].
Vejamos que se nos anúncios e comentários das primeiras touradas realizadas na
cidade praticamente não havia descrição dos procedimentos, por ocasião das
corridas de 1847 esses já ocupam um espaço importante. Com o decorrer do tempo,
muitas seriam as novidades apresentadas. Os nomes das técnicas passaram a ser
destacados:
O célebre D. Manuel Sanches executará com a garrocha o difícil Salto
do Paciego, do qual foi inventor o famoso Francisco Montes. E bem
assim toureará à verônica e à navarra, ajoelhado e fingindo que mata
o touro.39
A própria dinâmica da cena pública, cada vez mais agitada e multifacetada,
gerava para os promotores o desafio de oferecer atrações que chamassem a
atenção da assistência, que rapidamente se acostumava com uma nova emoção,
exigindo graus superiores de excitação. No caso das touradas essas dimensões
são notáveis: O público espera, dos produtores, permanentes inovações que
permitem a distinção, ao passo que a criação de novos públicos (ou qualquer
transformação ao nível do gosto dos consumidores), provocará alterações nas
relações de força entre os especialistas (Capucha, 1988, p. 150).
Um dos sinais mais notáveis do aumento da participação do público foi o cada
vez maior espaço para o touro dos curiosos, ocasiões adequadas para os que
desejavam exibir-se e provar o seu valor. No decorrer do tempo, os estímulos
foram os mais diversos. Colocava-se algum prémio no pescoço ou entre os chifres
do animal (moedas, bilhetes da lotaria, um relógio, entre outros), ganhando
quem conseguisse retirá-lo. Mais ainda, passou a definir-se quem afinal poderia
tomar parte dessas provas. No anúncio de uma tourada observou-se que seria
proibido saltar na praça como curioso aquelas pessoas que já tenham trabalhado
nas praças conhecidas.40
A generalização das atividades gerava certa desvalorização, a não ser que
houvesse um grande corpo de especialistas que pudesse hierarquizar as sessões.
No caso do Rio de Janeiro, a falta desse plantel, bem como de animais
apropriados, eram elementos dificultadores da manutenção da prática. As
reclamações tornaram-se constantes, o público exigia que se cumprisse o
informado, que fosse oferecido um bom espetáculo.
O centro das reivindicações era mesmo a qualidade dos animais. Isso não ocorria
só no Brasil, como nos deixa perceber Capucha: existem certos temas que se
repetem ciclicamente nos toiros, como a do tamanho e bravura dos mesmos, embora
em contextos diferentes e com diferentes intenções (Capucha, 1988, p. 155).
Para o autor, isso tem a ver com valores que sempre estiveram consagrados: a
festa de toiros, no seu conceito, constitui um acto sacramental em torno da
morte. O que acontece na arena circunscrito à acção, tem inevitáveis reações
psicológicas no público. Na praça ele aprende o mesmo que quando acode a
presenciar uma tragédia Grega (Capucha, 1988, p. 158).
As tensões não se circunscreviam ao cenário interno das touradas. No decorrer
da constituição do campo da tauromaquia, também aumentava o divórcio entre o
que desejava o público e as exigências de alguns para uma cidade, que se queria
moderna e civilizada, devendo-se, portanto, extirpar algumas práticas que não
condiziam com esse olhar. Na mesma medida em que crescem e se diversificam as
atividades de entretenimento, modificam-se os parâmetros daquelas valorizadas,
ou não.
Além disso, o novo ativismo da população na cena pública gerou a necessidade de
negociação dos comportamentos. Este debate articulava-se com uma peculiaridade
das touradas que no Rio de Janeiro se organizaram: a defesa da moda portuguesa,
que valoriza a performance a cavalo, e na qual não se mata o touro no fim.
Nessa modalidade, o primeiro aspeto tem relação com o facto de que a nobreza de
Portugal jamais abandonou a prática, tornando-a tanto uma forma de resistir aos
novos símbolos da burguesia quanto de atrair novos ricos (Capucha, 1988).41 O
segundo aspeto relaciona-se com as intervenções do marquês de Pombal, de
inspiração iluminista, que proibiu o sacrifício público dos animais (Crespo,
1990).
Para Capucha, na Península Ibérica, essa diferença de tradições entre
portugueses e espanhóis, que geraram distintos discursos de legitimidade, tinha
mesmo relação com as possibilidades de os diversos estratos sociais tomarem
parte nas corridas. Para o autor, não é por acaso que são sempre membros das
camadas populares os matadores, personagens que acabam desenvolvendo uma ética
própria: a vida de touros é uma vida de esforço e sacrifício; ao toureiro não
são permitidos prazeres que o seu poder económico permitiria (Capucha, 1988,
p. 154).
No caso brasileiro, esse debate entre os dois estilos ganhou conotações
diferenciadas, ligadas à adequação das touradas. O facto de se adotar
maioritariamente (e a partir de determinado momento exclusivamente) a moda
portuguesa, para além de ser uma clara influência do antigo colonizador, também
foi uma estratégia para defender que as corridas organizadas no Rio de Janeiro
não eram uma prática violenta. O costume de não matar o touro foi sempre um
argumento usado pelos que as apreciavam. Segundo Z., por exemplo, no Brasil não
se pode dizer que se tratasse de um divertimento bárbaro, já que aí não
ocorriam as cenas sangrentas e funestas que tem sucedido em outros países.42
Entre 1840 e 1852, houve espetáculos híbridos, com provas realizadas à moda de
Portugal e de Espanha num mesmo programa. Chegou mesmo a existir a morte de
animais nas arenas cariocas. Até ao final do século, houve também corridas à
portuguesa, com os touros com chifres descobertos (isso é, sem passar pelo
processo de embolação, colocação de armações de couro e metal nos cornos). Já
na década de 1870, contudo, a moda espanhola fora definitivamente suprimida das
praças do Rio de Janeiro.
De toda a forma, com morte ou sem morte, cresceram as críticas à prática. Na
verdade, logo por ocasião do reestabelecimento das touradas, surgiram as
primeiras contestações. Em O Sete D'Abril, de 16 de março de 1839, um anónimo,
que assina como Chronista, censura a municipalidade de Niterói por ter
concedido autorização para a realização das corridas. Para o autor, tratava-se
de um dos divertimentos mais bárbaros e mais execráveis, ( ) que horroriza a
natureza, e contra o qual têm uníssonos clamando todos quanto se prezam da
menor centelha de humanidade (p. 1).
Os argumentos eram explícitos: com quanto direito não censuraremos nós,
cristãos, nós que vivemos n'um século de luzes e de filantropia, esse
divertimento onde os perigos do homem são as delícias do espetador, onde suas
bárbaras façanhas contra um pobre animal são os objetos dos gerais aplausos.
Até aqui se percebe uma mistura de argumentos religiosos e filosóficos para
sugerir que a prática era inadequada aos novos tempos. Mais adiante, contudo,
ficam mais claras as razões da crítica.
Chronista deixa claro que sua motivação maior não é o amor aos animais. O seu
intuito não é outro senão perguntar ( ) se refletiram eles ao menos na época
do ano em que nos achamos. Para ele, Infelizmente este ano representações
profanas tem tido lugar ( ) em tempo de quaresma; e como se isso ainda não
bastasse, houve curro, matança de bois mansos, anunciada aparatosamente!. O
que mais o incomodou foi mesmo o suposto desrespeito a uma data religiosa.
Nessas primeiras temporadas (de 1840-1841 e de 1847-1852), a maior parte das
touradas ainda respeitou a quaresma. Na concessão de licenças parece que não
havia restrições desse género. Tratava-se mesmo de um cálculo dos empresários:
desrespeitar a data podia despertar a reação dos detratores e deixar a praça
esvaziada, numa cidade em que a religiosidade tinha influência.
As contestações de natureza religiosa voltaram a ocorrer várias vezes. Em
novembro de 1847, a crítica prendeu-se com o facto de as corridas terem sido
realizadas no dia de Todos os Santos: Qual o católico, ainda do coração mais
empedernido, que se não sentiria magoado pelo escandaloso fato ocorrido n'esta
cidade na tarde do dia 1º do corrente novembro?. Para o autor, que assina como
católico sem fanatismo, era absurdo que na mesma hora das missas estivessem
acontecendo o bárbaro e sanguinolento espetáculo de corrida de touros.43
Devemos, assim, concordar com Capucha: a referência de oposição decisiva
encontra-se fora do campo. São as ideologias civilizadoras' que despontaram
com a centralização do poder religioso da Igreja Romana e tiveram seu suporte
culminante nas Cortes Iluminadas (Capucha, 1988, p. 164). Para o autor, trata-
se, antes de tudo, de uma perseguição a uma prática que se popularizou, mesmo
marcada pela relação com a nobreza.
De facto, a partir de meados do século XIX, como vimos, as críticas foram de
outra natureza, ligadas à sua inadequação para a cidade que se pretendia
modernizar. Em 1849, nos três meses em que a arena da Rua das Flores cedeu
lugar a torneios medievais, os argumentos dos promotores tocaram exatamente
nesse ponto. Começa-se por falar nas mudanças no curro: a face do antigo circo
está mudada; o seu aspecto de barraca festeira desapareceu; hoje ornado com
gosto, e com gosto artístico, e com o carácter marcial que lhe convém, vai
oferecer um dos mais belos divertimentos e dos mais nobres que se possam
desejar.44 Informava-se que, ao contrário das touradas, se tratava de uma
atividade moderna, uma diversão que contribuiria para a formação militar da
juventude brasileira.
Importa observar que as ressalvas à violência não advinham do público das
touradas, que queria mesmo mais emoção, reagindo quando se sentia ludibriado.
Já vimos algumas dessas ocorrências. Muitas mais foram registradas nos jornais.
Por vezes, o redondel ficou bastante destruído. Podemos ver isso nos conflitos
que ocorreram em 24 de novembro de 1850, na Rua das Flores. Em função da
desorganização do espetáculo e da má qualidade dos touros, o público começou a
vaiar, até que o pior ocorreu:
Em um abrir e fechar de olhos foi escangalhado o curro; o taboado
voava para o meio da praça, com velocidade igual a com que poucos
momentos antes caiam as belas notas dos logrados na caixa da empresa!
Dentro de cinco minutos apresentava o curro da rua das Flores o
aspecto de uma praça forte tomada por escalada: folhas de pinho, e
pernas de serra, que dividiam os camarotes, e formavam a arquibancada
ou plateia, tudo estava em montões no meio da praça.45
Outra cena de destruição foi vista nas corridas realizadas em 18 de janeiro de
1852, no curro da Rua do Lavradio. O público reagiu à baixa qualidade dos
touros, que pelo seu péssimo estado e extrema mansidão em nada correspondiam à
expectativa dos amadores e aos anúncios publicados nos jornais e cartazes.46
Quando as tribunas aclamaram que o touro fosse agarrado à unha, possibilidade
que, inclusive, fora anunciada no programa, os toureiros negaram-se a fazê-lo,
mesmo com ordens do subdelegado da freguesia, que, de outro lado, também
tentava calar a plateia. A balbúrdia foi aumentando e logo algumas tábuas da
arquibancada foram arrancadas e atiradas para o meio do circo. A polícia
prendeu algumas pessoas, a maior parte caixeiros.47
Deve-se perceber que o tom contestatório das matérias jornalísticas nem sempre
se referia à inadequação das touradas, mas sim ao facto de que os empresários
prometiam espetáculos cujos programas não eram cumpridos. A polícia teria
grande responsabilidade nesses problemas, pois não fiscalizava adequadamente e
não sabia como se portar no meio da confusão, prendendo gente inocente e jamais
punindo os verdadeiros culpados.
A cada ocorrência destas, ampliava-se o tom das críticas. A diagnóstica e
irónica secção Visita das Priminhas, do Periódico dos Pobres, registou o
avanço das novas conceções:
( ) então diga-me, foi a algum dos divertimentos que houve no
Domingo, Cavalinhos, Arlequins, Touros.
A nenhum desses fui, nem iria, muito principalmente aos Touros.
Então não gosta desse divertimento?
Nem um bocadinho; e não sei como tal se consente no nosso país tão
civilizado e amável; fazendo aquele divertimento embrutecer os
corações de quem ali vai, pelas barbaridades que vê.48
Para alguns, não era aceitável que tamanha violência com animais, tamanha
quantidade de sangue, fosse exposta publicamente. Além disso, havia os
comportamentos inadequados do público: xingamentos, descomposturas, gritos e
mesmo destruição dos curros. O problema é o que outro cronista identificou,
alguns anos depois: o povo só gosta de divertimento quando vê perigo, e quando
mesmo vê sangue!49
Os promotores de touradas ainda tentavam argumentar que a prática poderia
trazer benefícios para o desenvolvimento da raça taurina nacional (sem se deter
a maiores explicações sobre o que era isso exatamente). Além disso, por vezes
foram realizadas corridas beneficentes, com a renda a reverter para alguma
instituição assistencial. Nada disso aplainava as críticas.
Um importante indício a ser considerado é que a família real nunca estava
presente nas arenas, um sinal de desprestígio das touradas50. Em setembro de
1847, percebemos uma curiosa ocorrência na realização de uma corrida na praça
da Rua Nova do Conde. Comunica-se que a homenageada seria a sereníssima
princesa imperial, à revelia de qualquer participação dos monarcas.
Encontramos outros poucos indícios de algum envolvimento da família real nas
touradas. Por exemplo, um espetáculo taurino realizado em fevereiro de 1848, em
benefício da Imperial Sociedade Amante da Instrução, tendo se dignado S. M. o
Imperador a conceder a sociedade sobredita seis dos melhores touros da imperial
fazenda de Santa Cruz.51 Pedro II, por uma boa causa, a educação, ainda
ofereceu alguma ajuda, mas efetivamente não se tornou um apreciador da prática.
Jamais foi visto num redondel.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pelo seu caráter de performance, não surpreende que nesse primeiro momento de
autonomização, o segundo momento da sua presença em terras cariocas, as
touradas se tenham aproximado (ou tenham sido aproximadas) do teatro. Essa
relação existia desde os tempos coloniais, quando, nos festivais monárquicos,
as corridas de touros se misturavam com apresentações diversas (Melo, 2013a).
O que também aproximava touradas e teatro era a conformação dos espetáculos
circenses, numa cidade em que progressivamente se estruturava um mercado de
entretenimentos. Relevante é um anúncio de 1847, em que o proprietário do curro
pede ao respeitável público desta corte todo o favor, honrando-o com sua
presença, por isso que no dia 3 o divertimento não pode ter a costumada
concorrência, por haverem nesse dia outras distrações.52 Já havia até mesmo
excesso de diversões, ocupando o circo um lugar de destaque, imbricando o
erudito e o popular, as elites e o povo (Melo e Peres, 2014).
O curioso posicionamento de Valente, publicado no Correio da Tarde, de 20 de
novembro de 1848, permite-nos lançar um olhar sobre essa diversificação. O que
o motivou foi a baixa presença de público numa apresentação da Companhia
Lírica, realizada no Teatro São Pedro de Alcântara. Entre outras razões para
tal, sugere: Temos dois teatros na Corte; duas praças de touros; de vez em
quando bailes mascarados que se consentem em todo o decurso do ano, dando-se
carro de graça às madamas para a ida; além disso, temos Sociedades de Bailes, A
Filarmônica etc. etc. Isto estafa! (p. 3).
Plenamente integradas na estrutura de entretenimentos da cidade, as touradas
paulatinamente estabeleceram-se como uma diversão peculiar, algo que era
sentido pelo próprio público, que se dividia escolhendo os seus divertimentos
preferidos. Vejamos como se posicionou um cronista:
Pois temos touros? Ora venha isso para descansarmos dos passeios
sobre o globo e das brigas teatrais sobre finanças. O divertimento
dos touros convém à rapaziada; é de tarde e por isso fica a noite
para mil outros entretenimentos; é barato e por isso agrada aos
patuscos e gritadores; é popular.53
As relações entre touradas e teatro foram-se enfraquecendo com o crescimento
das contestações às primeiras. Vemos um indício disso já em 1843. Um anónimo,
ao fazer uma crítica ao funcionamento do que deveria ser a mais prestigiosa
casa teatral da cidade, o São Pedro de Alcântara, procurou marcar a diferença
entre os estabelecimentos civilizados e os anfiteatros, apropriados para
espetáculos mais exóticos. Sem depreciar por completo esses últimos, clama o
autor pelo desenvolvimento dos primeiros, deixando clara uma diferença que se
acentuará no decorrer do século.54
Esse afastamento tornou-se mais percetível e categórico depois dos conflitos de
1850/1851/1852. A expressão corrida de touros passou a ser utilizada como
sinónimo de turba, tudo aquilo que o teatro não deveria ser. Em tom crítico,
observou-se no Correio Mercantil de 7 de dezembro de 1852: Domingo à noite,
durante o espetáculo no Teatro de S. Pedro de Alcântara, alguns indivíduos
entenderam dever transformar esse belo salão em praça de touros, e dirigiram
motejos e ditérios a uma família de cor que se achava em um camarote (p. 3).
No mesmo jornal, em 23 de setembro de 1854, vemos algo de teor semelhante: O
Teatro Lyrico vai-se tornando uma verdadeira praça de touros; ali já não se
respeita a pessoa do monarca, nem as autoridades, e nem ao publico sensato.
Esse uso do termo tornou-se rapidamente comum também noutras esferas, como na
política. Vejamos um comentário sobre um debate do parlamento: a oposição
constitucional assistiu de palanque a essa nova corrida de touros, admirada de
tanto encarniçamento da parte do governo em provar que era inábil para presidir
a câmara o deputado por ela elevado ao cargo de 1º vice-presidente.55 Ou essa
comparação mais genérica: O que é hoje o nosso governo, seus delegados, seus
atos, suas propensões, sua corrupção e sua ignorância, assemelha o nosso país a
uma vasta praça de touros, em que os aplausos sobem na proporção da ferocidade
ridícula de uns e da libertinagem imunda de outros.56
Enfim, em linhas gerais, a sentença abaixo sintetiza o que se pensava no
processo de diferenciação e conceção de um novo modelo de público, que se
autorrepresentava como mais civilizado, mais refinado:
Se a polícia não intervém reprimindo estes escândalos, o teatro
ficará deserto, e o publico privado de o frequentar. Quem despende o
seu dinheiro quer ouvir o canto, e a harmonia, não se abala de casa
para achar-se em uma praça de touros sem poder ouvir uma nota de
musica.57
O crescimento das críticas e contestações ocorreu em paralelo a uma maior
adesão a ideais e imaginários de modernidade em curso na capital, nomeadamente
a partir da transição das décadas de 1840 e 1850. Em linhas gerais, tratou-se
de um processo similar ao que houve noutras nações, uma perseguição a práticas
consideradas ultrapassadas e bárbaras (Holt, 1989). No caso brasileiro,
todavia, uma das peculiaridades foi o estabelecimento de uma relação entre o
atraso das touradas e a sua origem lusitana, discurso esgrimido, entre outros,
por aqueles que julgavam que a construção da nação brasileira deveria
privilegiar a rutura com o seu passado colonial. De outro lado, entre muitos,
especialmente entre os ligados à colónia portuguesa, persistia o gosto pela
tauromaquia. A moda de tourear típica de Portugal, aliás, era utilizada como
argumento para defender a pertinência das corridas de touros.
Não sendo já bem acolhidas como ramo teatral, e sob críticas diversas tanto dos
amantes, que as consideravam pouco emocionantes e desorganizadas, quanto dos
oponentes, que as encaravam como bárbaras e contraditórias com o processo
civilizacional que o país deveria seguir, as touradas precisavam de um novo
guarda-chuva para as acolher. Curiosamente, vão encontrá-lo naquela prática
que, a princípio, se considerava como o seu oposto, por ser moderna: o
desporto.
Isto ocorrerá entre 1876 e 1884, quando houve uma nova promoção das touradas.
Nesse período, ampliaram-se os setores que desejavam definitivamente substituir
as referências a Portugal na construção identitária brasileira. Acirraram-se
ainda mais as críticas à prática, mesmo que também o campo da tauromaquia
estivesse muito mais estruturado (Melo, 2013b).