Desigualdade de rendimento no Alentejo do Antigo Regime: Arraiolos, Avis e
Portalegre (1690-1725)
DOSSIÊ: ESTRUTURAS SOCIAIS, VALORES, SOCIABILIDADES
Desigualdade de rendimento no Alentejo do Antigo Regime: Arraiolos, Avis e
Portalegre (1690-1725)
Income inequality in Alentejo during the Ancien Régime: Arraiolos, Avis and
Portalegre (1690-1725)
INTRODUÇÃO
O presente estudo1 tem como principal objetivo ensaiar uma panorâmica
exploratória sobre a desigualdade de rendimento no Alentejo do Antigo Regime.
Incide sobre três concelhos desta região, tendo presente a ideia-chave de que a
desigualdade era um dos elementos estruturantes da sociedade deste período
histórico.
Partindo da análise dos rendimentos dos contribuintes de cada um dos municípios
em estudo, pretende-se, através de comparações entre eles, aferir patamares de
desigualdade. Na prática, procura-se determinar em que concelhos existiriam
maiores ou menores diferenças de rendimento. Para além disso, atendendo à
distinção entre o que poderia ser considerado como espaçourbano (o aglomerado
populacional contínuo das freguesias que incluíam as sedes de concelho) e rural
(restante espaço territorial das freguesias que incluíam as sedes de concelho,
acrescido das paróquias do termo), pretende-se, ainda, identificar eventuais
disparidades entre estas zonas. A desigualdade seria maior em que área de cada
concelho? No meio urbano ou no rural? Onde se localizavam as elites económicas?
Qual era o nível de desigualdade de rendimento do Alentejo do Antigo Regime,
quando comparado com o de outras regiões europeias? E com o panorama atual?
Estas são algumas das questões a que se pretende responder ao longo destas
páginas, sendo que, em última instância, se almeja contribuir para um
conhecimento mais alargado sobre a economia portuguesa do período moderno.
Embora a historiografia económica internacional tenha produzido, desde há
alguns anos, diversos trabalhos sobre esta temática (Zanden, 1995; Núñez, 1998;
Hoffman et al., 2002; Milanovic et al., 2011), em Portugal o tema é ainda
relativamente inexplorado. Será, porém, de referir o trabalho de Manuela Rocha
(Rocha, 1994), que analisou a estruturação social do concelho de Monsaraz na
primeira metade de Oitocentos, ainda que desfasado da cronologia em apreço. No
entanto, para o período pré-industrial, mesmo a bibliografia internacional não
é muito abundante. O caso holandês parece ser dos poucos significativamente
estudados (Alfani, 2010, p. 514).
Como objeto de estudo foram escolhidos três municípios na região alentejana:
Arraiolos, Avis e Portalegre ' duas vilas e uma cidade, estatutos que já
detinham no Antigo Regime, e que ainda hoje conservam. O recorte cronológico
está mediado pelos anos de 1690 e de 1725.
As fontes nucleares são os livros de registo da recolha do imposto designado de
décima militar, criado no contexto da Guerra da Restauração, de que Portugal
foi palco entre 1640 e 1668, após a rutura com a monarquia hispânica.
Para a caracterização das diferentes localidades, para além de estudos
contemporâneos, consultou-se bibliografia de natureza geográfica coeva (Costa,
1706; Cardoso, 1747; Niza, 1767), e ainda as Memórias Paroquiais, elaboradas em
meados do século XVIII.
Este trabalho aborda, numa primeira parte, questões metodológicas, analisando
de seguida o estabelecimento de linhas gerais acerca da economia portuguesa,
com um enquadramento das particularidades da região alentejana, para depois
fazer uma descrição sumária dos três concelhos em estudo. Finaliza com a
problemática da desigualdade de rendimento no Antigo Regime, em que se inclui a
análise de dados e as respetivas conclusões.
MÉTODO, FONTES, RECOLHA DE DADOS E CONCEITOS
Consumada a rutura política com a coroa castelhana, D. João IV estava a braços
com a necessidade de enfrentar o poder do outro lado da fronteira e assegurar a
autonomia do trono português. Neste contexto, a monarquia portuguesa
necessitava de definir estratégias não só militares, como também financeiras.
Entre muitas medidas, foi criado o imposto da décima militar, designação
análoga ao dízimo eclesiástico ' pois se considerava que para com o senhor
natural se tinham obrigações semelhantes às que se tinham para com o Senhor
sobrenatural (Hespanha, 1993, p. 217).
Assim, a décima consistia na coleta de 10% sobre o rendimento líquido dos
indivíduos, sofrendo uma redução em tempo de paz (para 4,5%), e era repartida
por renda imobiliária, trabalho (maneio ou trato, em expressões coevas),
lucro das atividades comerciais e industriais e dinheiro emprestado a juros.
Ressalve-se que, tratando-se de um imposto criado num contexto belicoso
concreto, perdurou até à primeira metade do século XIX.
Observe-se que, apesar da forte abrangência contributiva deste imposto, eram
concedidas algumas isenções às instituições eclesiásticas, às misericórdias e
irmandades e aos pobres e indigentes, embora estes últimos fossem registados
nos livros. Como novidade, incluía a tributação aos grupos tradicionalmente
isentos ' o clero2 e a nobreza. Note-se que, quanto a este último, a haver
isenções dificilmente transparecem na documentação.
A recolha de dados incidiu sobre o valor coletável de cada contribuinte
presente nos livros de décima dos concelhos de Avis (1690), de Arraiolos (1700)
e de Portalegre (1725), quer dos espaços rurais, quer dos urbanos. Os livros de
registo indicam, em todos estes concelhos, o valor coletável total de cada
indivíduo, independentemente do tipo de décimas agregadas ' maneio, juros,
propriedades, etc. Apenas no caso de Avis a fonte distingue os diferentes tipos
de rendimentos cobrados. Mesmo neste caso, indica-se o montante total cobrado '
que não é mais do que o somatório dos montantes de cada tipo de décima ' e foi
a partir destes valores que trabalhámos. É ainda de notar que, no caso de um
determinado indivíduo possuir qualquer atividade económica numa propriedade
rústica noutra freguesia, esse valor foi agregado ao local da sua residência.
Assim, por exemplo, os 520 réis cobrados a João Fernandes Miguens, morador na
Rua da Porta da Nora, na vila de Avis, pelo moio e cinco alqueires de trigo que
paga de foro pela Herdade da Cortezia, foram atribuídos na fonte ' e
contabilizados por nós ' à vila de Avis.
Como referido, este imposto incidia sobre o rendimento estimado da população
havendo, contudo, algumas isenções previstas no quadro legislativo: os pobres e
os indigentes contavam-se entre os excluídos. No entanto, mesmo estes casos não
estavam omissos na documentação, pelo que a ausência do seu pagamento foi
contabilizada, tornando a abrangência deste registo fiscal ainda maior. Nestes
casos, atribuímos o valor 0 que, naturalmente, tem como consequência o aumento
da desigualdade de rendimento. No entanto, o número de indivíduos sem qualquer
rendimento nunca excedeu 1,4% do total do número de contribuintes por concelho,
nem 1,6% de cada subgrupo, que iremos analisar, pelo que o seu efeito é
relativamente diminuto.
Com recurso aos dados quantitativos que a décima nos concede, podemos estimar a
desigualdade de rendimento entre os contribuintes de um determinado concelho. A
utilização deste tipo de impostos tem sido reconhecida como a mais fiável na
aferição da desigualdade de rendimento pré-industrial (Zanden, 1995, p. 647).
A grande vantagem da análise das décimas prende-se com a sua universalidade,
quer devido ao alargado leque de contribuintes taxados, quer pelo facto de
incidir sobre diversos tipos de rendimento (de bens imóveis, do trabalho, de
capital financeiro, de capital fixo, etc.). Outros tipos de medições utilizados
para este mesmo efeito, como, por exemplo, as diferenças salariais ou os
impostos sobre bens imóveis, sofrem da limitação de apenas terem em linha de
conta uma parte reduzida da população e/ou de contemplarem um único tipo de
rendimento. Na realidade, grande parte dos estudos que abordam estes assuntos,
para épocas anteriores à Primeira Guerra Mundial, baseiam-se no levantamento de
salários reais (Broadberry e O'Rourke, 2010b, pp. 2 e 126), o que apenas é
representativo de uma parte da população, excluindo assim outros tipos de
rendimento.
Para a estrutura ocupacional de Portalegre, recorremos ainda a outra fonte
fiscal: o imposto da sisa.3 Durante a coleta do ano de 1725, registaram-se as
ocupações profissionais de grande parte dos contribuintes desta cidade. A
transposição das ocupações para uma distribuição setorial contemporânea,
obedeceu à descrição destas, disponível em bibliografia especializada
(Madureira, Martins e Monteiro, 2002). Não possuímos, porém, dados semelhantes
para as restantes localidades em apreço.
Como forma de mensuração da desigualdade de rendimento, socorremo-nos do
coeficiente de Gini, uma medida de dispersão estatística. É utilizada para a
aferição de desigualdades de uma frequência de distribuição. Este coeficiente
traduz-se em valores que variam entre 0 e 1, em que 0 corresponde ao arquétipo
da distribuição igualitária, no nosso caso concreto, do rendimento por todos os
indivíduos da população considerada, e a unidade significa o expoente máximo da
desigualdade, isto é, em que um único contribuinte seria detentor de todo o
rendimento.
Ao longo deste artigo utilizam-se, por diversas ocasiões, conceitos
contemporâneos para procurar explicar o passado, tais como o de setor
primário. Como tem sido notado por outros autores, trata-se, por um lado, de
instrumentos de análise utilizados conscientemente, para que as ideias e as
conclusões se apresentem de forma mais explícita e útil (Lopes, 2010, p. 25);
por outro, pretende-se uma abordagem que se estenda na longa duração e
estabeleça paralelos com a atualidade.
Uma última clarificação é necessária. As conceptualizações de Antigo Regime e
de sociedade ou economia pré-industrial parecem, por vezes, surgir
alternadamente. É evidente que não são conceitos sinónimos, já que o primeiro
remete para uma estrutura sociopolítica da Europa, e o segundo para uma
realidade essencialmente económica. No entanto, estes dois vetores estão
presentes no Portugal setecentista, já que o Antigo Regime português foi, do
ponto de vista económico, uma sociedade pré-industrial.
O ALENTEJO NO PANORAMA MACROECONÓMICO E POPULACIONAL DE PORTUGAL DURANTE O
SÉCULO XVIII
A historiografia tem demonstrado que, no início no século XVII, ocorreu um
período de divergência económica entre o Sul europeu (Braudel, 1993; Cipolla,
1989) e os países do Norte atlântico, fenómeno que alguns estudos
macroeconómicos mais recentes corroboraram (Reis, 2005, pp. 197-198). Na
realidade, foi durante o início da época moderna que o Noroeste europeu '
sobretudo a Holanda e a Inglaterra ' se começou a afastar do resto da Europa '
onde se inclui a Península Ibérica ' em termos de crescimento económico, com
repercussões visíveis em termos da urbanização, da produtividade e do
crescimento dos níveis de vida. Depois da fugaz hegemonia de Génova, nunca mais
o centro da economia mundial regressou ao Sul da Europa.
Portugal, numa posição menos central, não foi alheio a esta tendência: durante
a centúria de seiscentos, os salários reais caíram e os trabalhadores
diminuíram o seu poder de compra, face a idêntico período de quinhentos
(Faísca, 2012). Mesmo assim, no final do século XVII, começou-se a assistir a
uma viragem da conjuntura, com a economia a sair do estado depressivo anterior.
Vários fatores concorreram para essa mudança, que, diga-se de passagem, se
antecipou em alguns anos àquela que viria também a marcar a economia
internacional. Mas o principal desses fatores foi o início da mineração de ouro
no Brasil. Esta recuperação da economia portuguesa manteve-se, pelo menos,
durante as primeiras décadas do século XVIII (Serrão, 1993, p. 72).
A evolução populacional deste período é, contudo, um pouco diferente, embora
possa haver divergências numa ou noutra zona. Ou seja, regista-se uma taxa de
crescimento anual médio negativo, que se estende desde os finais do século XVII
até ao início dos anos de 1730, o que tem sido tradicionalmente associado à
emigração para a colónia brasileira, seguindo-se, na restante centúria, uma
época de tímido crescimento populacional, típico do Antigo Regime (Serrão,
1993, pp. 50-52; Rodrigues, 2009, pp. 252-256). Por outro lado, o nível de
urbanização manteve-se baixo, sem que os aglomerados urbanos tenham conseguido
aumentar a sua importância percentual ao longo do século XVIII, o que contrasta
com a evolução do contexto europeu (Rodrigues, 2009, p. 264).
Como foi já referido, o recorte cronológico deste trabalho está balizado pelos
anos de 1690 e de 1725. Deste modo, estamos perante um período de transição
entre uma fase recessiva ou de estagnação e o início do crescimento.
Caracterize-se em seguida, em breves linhas, a província alentejana: Alemtejo.
Provincia de Portugal, que pello espaço de algumas trinta, & seis legoas de
comprimento, & trinta & quatro de largo se estende entre o Tejo, &
Guadiana. Suas cidades principaes são Evora, Elvas, Portalegre, Estremòs, Beja,
&c, assim nos descreve Raphael Bluteau, no primeiro quartel do século XVIII, a
região alvo desta análise (Bluteau, 1712-1728, vol. 1, p. 236).
Esta província ocupava, nos princípios do século XVIII, cerca de 28% da área
geográfica metropolitana, sendo a região menos povoada de Portugal, com uma
densidade média que oscilava entre os 8,7 e os 10 hab/km2, quando a média
nacional se cifrava nos 30 hab/km2(Rodrigues, 2009, pp. 257-258). Até ao começo
do século XVIII, terá perdido cerca de um quarto dos seus habitantes e a
recuperação ao longo da centúria foi paulatina; neste período a população dos
bispados de Elvas e de Portalegre diminuiu, e em meados do século ainda não
tinha alcançado os índices populacionais dos primeiros anos. Em quinhentos, era
das zonas com mais cidades no país, mas, a partir daí, estagnou longamente em
matéria de urbanização. No entanto, a província alentejana não pode ser vista
como uma região uniforme, pois é possível detetar pólos de atracão
populacional, como em algumas partes do arcebispado de Évora, onde se
registaram algumas situações de crescimentos populacionais de monta
(Rodrigues, 2009, pp. 257-258).
Sabe-se hoje que a agricultura e os modos de trabalhar a terra tinham as suas
particularidades regionais ' como na atualidade ainda acontece ', sendo certo
que ela ocupava um papel determinante na sociedade portuguesa do Antigo Regime.
Havia assim uma enorme predominância do setor primário, aos olhos dos
conceitos da contemporaneidade. Na realidade, este setor, essencialmente
agrícola, só deixou de ocupar a maioria da população nos anos de 1960
(Pinheiro, 1997).
No Alentejo setecentista, apesar de significativas diferenças locais, ganhava
expressão a produção agrícola sob o modo de latifúndio. Numa mesma parcela de
terra, coexistiam diferentes personagens, que iam desde o lavrador, que
controlava a exploração (alodial, enfitêutica ou arrendada), aos seus
trabalhadores agrícolas, aos caseiros, ou aos escravos. A todos estes, em
muitos casos, teriam de ser somados os restantes membros da família de cada
indivíduo. A memória paroquial da freguesia de Nossa Senhora da Graça do Divor,
no termo de Évora, é, neste particular, muito elucidativa: ao 3.º tem ao
prezente cento e sincoenta e sette vezinhos, ou moradores, que vivem em cazas
suas, ou em herdades de lavradores entrando em este número lavradores com suas
famillias, e criados, homens cazados, solteiros, veuvos que todos, ou cada hum
destes com suas famillias fazem a quantia setecentos e doze pessoas maiores ao
prezente (Grilo, 1988).
Os lavradores eram os eixos centrais do trabalho da terra no Alentejo. Eram
eles que administravam uma ou várias herdades (Fonseca, 1990; Fonseca e
Santos, 2001) cedidas ao mesmo lavrador por arrendamento ou enfiteuse.4 Tomemos
um exemplo elucidativo desta realidade. Em 1699, no concelho de Montemor-o-
Novo, a população agrícola seria de 1080 indivíduos, dos quais 20,2%
correspondiam a lavradores e os restantes 79,8% a trabalhadores agrícolas. Na
prática, eram cerca de quatro trabalhadores por cada lavrador (Monteiro, 2010,
p. 83), o que representa um acesso à terra bastante desigual. No entanto, o
grupo dos lavradores era também ele bastante heterogéneo, já que, no caso de
Avis, nos finais do século XVII, numa sociedade que se caracterizava por uma
forte presença de pequenos e grandes lavradores que trabalham as terras de
grandes proprietários [ ] este grupo apresentava grandes diferenças entre os
níveis de rendimento dos seus elementos (Almeida, 2004, p. 102).
Nestas dinâmicas, será se salientar, ainda, a importância dos pequenos
exploradores agrícolas, nomeadamente os seareiros. Segundo Bluteau (1712-1728,
vol. 8, p. 533), um seareiro era um lavrador que semeava a terra; no entanto,
no caso concreto da província alentejana, era aquele que tem poucas, &
pequenas herdades, que lavrar e, por isso, não era comum chamar-se-lhe
lavrador, mas antes seareiro, o qual lavrava com uma parelha de bois. Quando o
seareiro acedia à terra em parceria, a sua atividade principal estava ligada
com a folha de cultura, e por isso não lhes pertencem restolhos e outras
pastagens (Ribeiro, 1970, pp. 142-143). As herdades tanto podiam estar
arrendadas (por inteiro) aos lavradores, que frequentemente subarrendavam a
seareiros algumas parcelas em regime de parceria (Silbert, 1978, pp. 818-819),
como serem parceladas e depois arrendadas aos seareiros. No fundo, a maior
ocorrência de seareiros poderia significar uma menor desigualdade local, uma
vez que o acesso à terra estava mais distribuído (Silbert, 1978, pp. 1036-
1037).
Este regime de propriedade contribuiu para que a pouca população, composta, na
sua grande maioria, por trabalhadores não proprietários, se concentrasse nas
cidades e nas vilas alentejanas (Fonseca e Reis, 2011, p. 39). Assim, não
obstante a sua densidade populacional reduzida, o Alentejo era, a par com a
Estremadura e o Algarve, uma das regiões portuguesas com maior taxa de
urbanização (Rodrigues, 2009, p. 264).
O território era composto, em grande parte, por terrenos incultos e, mesmo nas
terras trabalhadas, os lavradores optavam pelo sistema de rotação trienal, com
pousio de um a dois anos, acrescido de 12 meses em que a terra era arada, mas
não semeada (Fonseca e Reis, 2011, p. 39). Aliás, esta característica
alentejana era notada e criticada já à época, havendo autores que afirmavam que
se o Alentejo cultivasse anualmente todas as dilatadas campinas, e charnecas,
que tem, daria trigo, centeio, e cevada para todo o mundo (Castro, 1762, pp.
72-77). Porém, apesar desta reputação, o meio ambiente alentejano apresenta
características que nem sempre são as ideais para a atividade agrícola,
nomeadamente a nível do solo, já que este é demasiado delgado e com uma
reduzida capacidade de armazenar humidade (Fonseca e Reis, 2011, p. 38).
No que respeita aos cereais, o trigo ocupava a posição central, embora com
baixa rentabilidade (Fonseca e Reis, 2011, p. 39), sendo também significativa a
produção de cevada e de milho. O arroz apenas começou a difundir-se a partir de
1781 (Ribeiro, 1970, pp. 101-103). Quanto ao gado, este era constituído
essencialmente pelas espécies bovinas, caprinas, ovinas e suínas, que se
alimentavam de pastagens irregulares, incluindo o terreno em pousio (Fonseca e
Reis, 2011, p. 40). Mas não só de agricultura se compunha a economia
alentejana: a região possuía uma importante atividade transformadora, caseira e
oficinal, de onde se destacavam os têxteis, sendo um dos seus principais
centros a zona de Portalegre (Fonseca, 1996, pp. 29-41).
Era este o cenário geral da economia e das particularidades alentejanas, ao
qual, em seguida, adicionaremos a caracterização dos três municípios alvo deste
estudo.
AS VILAS DE ARRAIOLOS E DE AVIS. A CIDADE DE PORTALEGRE
Arraiolos era terra senhorial da Casa de Bragança ininterruptamente desde os
finais do século XV. Fazia parte da comarca de Vila Viçosa, sendo sede de um
concelho que teria, em 1640, cerca de 340 km2(Farrica, 2010, p. 42). No seu
território, o concelho de Arraiolos, contava com uma vila integrada numa única
freguesia (Matriz), enquanto outras quatro freguesias se distribuíam pelo seu
termo.5 Nos arrabaldes da vila localizavam-se dois conventos: um de cónegos
seculares de São João Evangelista e outro da Ordem Terceira de São Francisco. O
primeiro tinha a seu cargo o Hospital do Espírito Santo, com casa de andantes e
enfermaria, no centro da vila, onde estava também localizada a Misericórdia
(Cardoso, 1747, p. 591).
O seu termo he abundante de trigo, centeyo, cevada, azeite, vinho, boas
frutas, excellentes meloens, caça & gado: tem tres legoas de comprido,
& quatro de largo [ ], informava o padre António Carvalho da Costa (Costa,
1706, p. 525). Ainda que seja uma vila conhecida pelos seus tapetes, desde,
pelo menos, os finais do século XVI, a sua produção aparece pontualmente nas
fontes coevas, não sendo possível mensurar a sua importância na economia local
(Lopes, 2009). Era zona de grande curso, por ser estrada real de Lisboa para
Castela, e do Algarve para Coimbra.
A estrutura ocupacional de Arraiolos, no século XVIII, é muito pouco conhecida,
sendo também bastante lacunar, nesta matéria, o lançamento da décima. Assim,
por exemplo, e para referir o importante grupo social dos seareiros, em
Arraiolos, em 1715, na Herdade do Outeiro do Granil, freguesia de Igrejinha,
foram imputados 1500 réis de décima de propriedade aos seus seareiros, e mais
200 réis apenas a um seareiro de fabricação da mesma.6 Nas décimas de 1700, do
mesmo concelho, não foi identificado nenhum indivíduo com esta ocupação, o que
não significa linearmente que não os houvesse, uma vez que a documentação, em
muitos casos, é omissa. Ou seja, perante o desconhecimento atual da estrutura
socioeconómica do município, é impossível quantificar a presença dos diversos
grupos sociais arraiolenses.
Em huma campina raza está fundada a villa de Avis, sede de comarca e cabeça
do município, desmembrado do de Nisa em 1517 (Carvalho da Costa, 1706, p. 566).
De Evora se mudarão os Cavalleiros [até aí designados freires de Évora] para
hum lugar alto fronteiro dos Mouros, o que [ ] foy chamado Aviz (Cardoso,
1747, p. 698).
Ainda na primeira metade do século XVII, Avis era uma vila muralhada com cinco
torres e seis portas, e no seu arrabalde existiam três ruas formosas. Por
esta altura, em termos comparativos, a vila de Arraiolos há muito que
abandonara o espaço do castelo medieval e tinha-se espraiado pela encosta. Avis
resumia-se a uma única paróquia com área urbana, e no seu termo contavam-se
sete freguesias.7 Tinha também casa da Misericórdia e hospital (Carvalho da
Costa, 1706, p. 566), para além do convento dos freires da Ordem de Avis.
A principal atividade económica do concelho seria a criação de gado, sobretudo
caprino, ovino e suíno. Aproveitando-se os extensos montados de sobro e de
azinho, que forneciam também, numa lógica complementar, vários produtos
tipicamente florestais como a lenha, o carvão e a cortiça. Existiam ainda, em
menor medida, nas terras mais férteis das zonas sudeste e central do município,
diversas culturas cerealíferas, hortícolas e oleícolas (Almeida, 2004, pp. 99-
101).
Quanto à composição populacional, Avis apresenta alguma distribuição no acesso
à terra, com uma sociedade constituída por 44% de lavradores rendeiros, 22% de
trabalhadores indiferenciados (de seu maneio) e 12% de trabalhadores fixos das
herdades, ligados à pastorícia. E ainda 4% de hortelões e 7% de artesãos, além
de 4% de comerciantes e percentagens residuais de categorias profissionais
ligadas aos serviços (Almeida, 2004, p. 102). Posteriormente, a partir de
finais do século XVIII, assiste-se, de uma forma quase definitiva, à
concentração da lavoura nas mãos de um grupo reduzido (Almeida, 2004, p. 102).
Por outro lado, como já referimos, existe uma grande heterogeneidade entre os
lavradores, ou seja, poder-se-ia esperar, com esta estrutura socioeconómica,
alguma atenuação da desigualdade de rendimento que, como veremos, não se irá
verificar.
Por último, o concelho de Portalegre dividia-se em dez freguesias, metade
urbanas8 e metade rurais.9 Era cabeça de comarca e sede de bispado. Estava
encravado na Serra de São Mamede, cujos vales eram povoados de frescos soutos,
& copiosissima quantidade de pomares e de gostosas frutas, & amenas
hortas, que regão as aguas de cinco mil fontes perenes (Carvalho da Costa,
1706, p. 555). Era banhado por três rios e quatros caudalosas ribeiras: todas
estas aguas correm por terra muy fragosas, mas todas povoados de frescos
arvoredos com muitas azenhas & moinhos (Carvalho da Costa, 1706, p. 555).
Tinha um vale de oliveiras cuja azeitona era moída em 24 lagares onde se
fabrica muito azeite, que sustenta a fabrica dos panos, & a do sabão, que
he o melhor do Reyno (Carvalho da Costa, 1706, p. 555).
De facto, Portalegre, cidade considerável e povoada (Silbert, 1978, p. 770),
situa-se junto a um acidente geográfico ' a Serra de São Mamede ' que
influenciou a sua economia rural. Esta elevação cria uma ilha climática, de
nuances continentais, que contrasta com o clima mediterrânico do restante
Alentejo. Por este motivo, esta região apresenta características económicas
muito próprias. Desde logo, o cultivo de cereais, embora não muito abundante,
pautava-se pelo predomínio do centeio. Adicionalmente, possuía, neste contexto
alentejano, uma singular produção vinícola e uma exclusiva produção de
castanhas (Silbert, 1978, pp. 405-410). Estas características agrícolas '
culturas mais produtivas e intensivas em trabalho ' favorecem a repartição da
posse da terra e, por outro lado, esta região foi identificada como uma das
principais zonas do coletivismo agrário do Sul, através, sobretudo, da
utilização generalizada de grandes extensões de terras comunitárias (Silbert,
1978, pp. 963-964).
Na pecuária, assistia-se à preponderância de cabras e de ovelhas, com especial
incidência nas segundas, devido à presença de uma importante indústria de
lanifícios (Silbert, 1978, p. 678). Esta cidade distinguia-se ainda pela
presença de uma significativa indústria manufatureira especializada no fabrico
de têxteis ' essencialmente tapeçarias e vestuário ', que dinamizava as
atividades comerciais locais (Silbert, 1978, p. 178; Pedreira, 2005, p. 185). A
cidade tinha ainda três conventos de frades (São Francisco, Agostinhos
Descalços e um Colégio da Companhia de Jesus), um mosteiro de clarissas e outro
de religiosas bernardas. Tinha Misericórdia e hospital e um recolhimento de
terceiras de São Francisco.
Em resumo, o concelho de Portalegre teria aparentemente uma maior distribuição
da terra e, consequentemente, dos rendimentos dela provenientes, mas, por outro
lado, a presença de um verdadeiro núcleo urbano poderia funcionar como um fator
potenciador da desigualdade.
Para complementar a caracterização dos espaços alvo de estudo ao longo destas
páginas, falta-nos a informação acerca do número de indivíduos moradores em
cada um deles. Se a população portuguesa cresceu, pelo menos a partir dos anos
de 1730, será normal que as Memórias Paroquiais refiram quantitativos mais
elevados que os livros das décimas, na medida em que são posteriores,
apresentando um desfasamento de quase 70 anos em relação às décimas de Avis
(1690), por exemplo.
Tal como assinalam Leandro Prados e Carlos Nogal (2006) a definição de centro
urbano tem sofrido uma considerável oscilação, correspondendo habitualmente a
um determinado número de habitantes de uma localidade. Os números variam
consoante os autores, porém raramente uma povoação é considerada como um núcleo
urbano se possuir uma população inferior aos cinco mil habitantes (Bairoch,
Batou e Chèvre, 1988). A análise da população das três localidades em apreço
permite-nos concluir que, com exceção de Portalegre, nem Avis nem Arraiolos se
constituíam como verdadeiros centros urbanos. No entanto, são os livros das
décimas que fazem essa distinção quando, no arrolamento dos contribuintes,
distinguem a vila do campo, organizando os contribuintes da primeira pelas
respetivas residências, identificando univocamente os arruamentos em que estas
se situam, enquanto os indivíduos das paróquias rurais são agrupados meramente
por freguesia e/ou herdades. As zonas rurais das freguesias, que incluem as
vilas-sede de concelhos, encontram-se identificadas pelas fontes como campo
e, sem ostentarem toponímia, foram contabilizadas juntamente com a coleta das
freguesias totalmente rurais. Os livros estabelecem com rigor esta distinção.
É precisamente a partir daqui que foi feita a nossa análise, na qual tomámos em
conta que a exiguidade urbana de Arraiolos e de Avis pode ter contribuído para
os resultados que iremos apresentar.
DESIGUALDADE DE RENDIMENTO NO ANTIGO REGIME
Como já referimos, a história está profundamente marcada por desigualdades: a
social, que atinge dentro do mesmo território determinados grupos, e a
espacial, cuja expressão máxima é a pobreza, que se regista hoje nos países
designados de terceiro mundo. Neste trabalho, interessar-nos-á a primeira.
Percecionada pelos seus contemporâneos e com um forte impacto social, várias
correntes económicas abordaram este problema. Assim, perfilhando uma linha de
pensamento malthusiana, uma corrente que defendeu que a desigualdade de
rendimento, no período pré-industrial, estaria condenada a aumentar num
movimento paralelo ao crescimento da população, visto que a pressão
populacional sobre uma quantidade limitada de terra e recursos levaria,
tendencialmente, a que os trabalhadores auferissem apenas o rendimento
necessário à sua subsistência, enquanto os proprietários prosperavam. Em
seguida, a visão marxista, saindo do quadro de uma economia agrícola e
analisando o impacto da Revolução Industrial, afirmou que a industrialização
causaria também um crescente hiato de rendimento (Lindert, 2000, p. 11). O
corolário que subjaz a estas duas tradições intelectuais é, portanto, o do
crescimento contínuo da desigualdade de rendimento, quer no período pré-
industrial, quer durante a industrialização.
Contudo, Simon Kuznets publicou um trabalho (1955) feito a partir da recolha de
dados empíricos, no qual sustentou que a desigualdade de rendimento nos Estados
Unidos da América, no Reino Unido e na Alemanha, crescera durante os primeiros
estádios da industrialização, tendo posteriormente sido atenuada, pelo que este
cenário é graficamente representado por um U invertido. Ou seja, no período
pré-industrial, a desigualdade não seria terrivelmente elevada, ainda que se
tratasse de sociedades, noutros aspetos, extremamente desiguais.
Após a publicação deste trabalho, uma grande quantidade de investigadores
procurou testar esta hipótese, chegando-se a um certo consenso relativamente à
evolução deste indicador, na sua metade descendente, que normalmente
corresponde, consoante os casos, a um período cronológico mais ou menos recuado
dentro do século XX (Milanovic, Lindert e Williamson, 2011, p. 255).
No entanto, os diversos trabalhos desenvolvidos que se focaram no impacto
inicial do crescimento económico moderno (segundo a terminologia de Kuznets)
produziram conclusões divergentes (Zanden, 1995, p. 644; Milanovic, Lindert e
Williamson, 2011). Assim, se em alguns países, como a Inglaterra e os Estados
Unidos da América, a desigualdade de rendimento parece ter obedecido ao padrão
de incremento e de queda, noutros locais da Europa ' como, por exemplo, a
Dinamarca, a Noruega, ou algumas regiões da Alemanha ', o crescimento da
desigualdade de rendimento, durante a industrialização, apresenta-se como
bastante controverso (Zanden, 1995, p. 643). Por outro lado, nas regiões
europeias economicamente mais dinâmicas, em locais como a Inglaterra, a Holanda
e parte da França, tem sido defendido que o aumento da desigualdade de
rendimento já se vinha a agravar no período do Antigo Regime, devido ao sucesso
alcançado por estas economias (Zanden, 1995; Broadberry e O'Rourke, 2010a, p.
232).
Infelizmente, na ausência de uma série temporal, e até que se compilem novos
dados, não nos poderemos debruçar sobre esta problemática, ficando por
determinar, por exemplo, a eventual existência de uma relação entre o
crescimento económico pré-industrial português e o incremento da desigualdade,
e vice-versa.
Ainda assim, será possível perspetivar algumas conclusões sobre a questão da
desigualdade, através do estudo de caso destes concelhos alentejanos.
A DESIGUALDADE DE RENDIMENTO DO ALENTEJO DO ANTIGO REGIME MEDIDA POR PADRÕES
CONTEMPORÂNEOS
Este título pressupõe, à primeira vista, um anacronismo, já que procura
comparar realidades de sociedades que o processo histórico tornou
substancialmente diferentes. Contudo, devido ao quadro teórico descrito
anteriormente, esta análise ganha a sua pertinência. A hipótese formulada por
Kuznets sustenta que a desigualdade de rendimento do Antigo Regime, de uma
forma geral, seria relativamente tímida (Kuznets, 1955; Alfani, 2010, p. 513),
enquanto os defensores do seu agravamento nas economias mais bem-sucedidas do
Nordeste da Europa, excluem, implicitamente, Portugal deste quadro. Pode-se
também pensar que o incluem numa zona de menor desigualdade: in other parts of
western Europe ' in Southern Italy for example ' income inequality was probably
much lower than in the northwest (Broadberry e O'Rourke, 2010a, p. 233).
No campo oposto, existem autores que, recorrendo a um método e a fontes
significativamente diferentes das portuguesas, concluíram que a desigualdade de
rendimento inerente às sociedades agrícolas do Antigo Regime seria já bastante
elevada, apenas comparável, em termos contemporâneos, às economias em vias de
desenvolvimento, cujas estruturas económicas ainda se mantêm essencialmente
agrícolas (Milanovic, Lindert e Williamson, 2011, p. 268). Assim, para estes
autores, a existência de uma elevada desigualdade deste tipo não é exclusiva do
período da industrialização. Guido Alfani (2010, pp. 546-547), centrando-se
numa cidade italiana, concluiu que a desigualdade de riqueza (conceito que
embora não corresponda exatamente ao de rendimento, tem uma forte correlação
com este) cresceu no período moderno, mesmo perante uma economia em crise, e
uma população em declínio. Estes estudos demonstram a multiplicidade de
interpretações possíveis acerca desta temática, inclusive num contexto de forte
interesse pela história comparada.
Regressando ao caso do Alentejo do Antigo Regime, os cálculos efetuados para
este trabalho colocam-no a par desta última interpretação, como se pode
verificar através do quadro_3. Ou seja, a desigualdade de rendimento era uma
realidade bastante expressiva, que atualmente apenas encontra paralelo em
algumas das economias mais desiguais do planeta.
Na realidade, esta região apresenta, inclusivamente, num período cronológico
semelhante,uma desigualdade de rendimento muito superior à holandesa, um dos
países em que esta parece ter aumentado como consequência do desenvolvimento
económico (Zanden, 1995; Broadberry e O'Rourke, 2010a, p. 233). Esta comparação
com o trabalho de Zanden (1995) tem a particularidade de o autor holandês ter
utilizado um método semelhante ao nosso ' a análise de uma fonte fiscal direta
e universal. Acresce que a Holanda é um dos raros exemplos de países onde se
estudou exaustivamente este assunto (Alfani, 2010, p. 514).
Como se pode observar nas figuras 1 e 2, a desigualdade de rendimento
verificada nos espaços portugueses é sistematicamente superior à alcançada
tanto nos meios rurais holandeses, como nos meios urbanos.
Com uma análise geográfica ' procurando abarcar um quadro representativo da
sociedade portuguesa setecentista ' e temporal mais alargada, poder-se-ia
testar a relação entre desenvolvimento económico e a variação da desigualdade,
numa perspetiva comparada com o caso holandês. Este exercício é facilitado
pelas evidências, à luz do conhecimento histórico atual, de que a economia
portuguesa estaria a iniciar um ciclo de crescimento na primeira metade do
século XVIII, sem que, no entanto, o seu nível de desenvolvimento económico
fosse superior ao holandês. Por outro lado, o ciclo do ouro não se traduzia em
impactos desta natureza, designadamente na província a Sul do Tejo.
A DESIGUALDADE NO MUNDO RURAL E NO URBANO
Às regiões urbanas têm sido apontadas maiores desigualdades de rendimento
(Soltow, 1989; Zanden, 1995). Esta situação tem sido explicada pelo facto de
nas áreas urbanas se verificar uma maior concentração de capital, em torno de
uma maior quantidade de indivíduos com recursos superiores, e também pela
transferência de recursos do meio rural para o urbano, visto ser nas cidades
que os grandes proprietários rurais estabeleciam as suas residências.
Adicionalmente, a coexistência, no mesmo espaço físico, de um significativo
número de pessoas ligadas ao setor agrícola, gerador de menores rendimentos, e
de trabalhadores ligados a setores com uma rentabilidade mais elevada ' a
indústria e o comércio ', constituiria, também, uma explicação para estas
diferenças (Zanden, 1995, pp. 649-655). Por último, tem sido também notada uma
correlação positiva entre a dimensão do núcleo urbano e a desigualdade de
rendimento: quanto maior o núcleo urbano, mais vincadas seriam também estas
situações, levando a um agravamento da desigualdade de rendimento (Zanden,
1995, p. 661).
Atendendo ao cenário descrito, deveríamos encontrar sistematicamente uma maior
desigualdade nos meios urbanos, com especial incidência na cidade de
Portalegre, o maior núcleo urbano dos três em estudo, e o único com tal
estatuto desde 1550.
Contudo, o que verificámos não poderia estar mais distante da caracterização
que acabámos de fazer. Por um lado, não foram identificadas diferenças
significativas de desigualdade de rendimento entre as áreas urbanas e as
rurais; por outro, a cidade de Portalegre apresentou um coeficiente de Gini
inferior ao das vilas de Arraiolos e de Avis, não obstante o primeiro concelho
ter sido o único onde a desigualdade de rendimento se mostrou ligeiramente
superior na área urbana.
O coeficiente de Gini oferece uma visão precisa sobre o grau de desigualdade na
distribuição do rendimento, porém não possui o detalhe necessário para se
compreender como isso se faz sentir nas várias camadas da sociedade. Este
aspeto torna-se pertinente, quando aplicado comparativamente às áreas urbanas
de Arraiolos, de Avis e de Portalegre. Seria importante analisar se existe
algum patamar responsável pela menor desigualdade de rendimento portalegrense,
como, por exemplo, um menor peso de elementos com maior rendimento, que
habitualmente residem nas cidades.
No entanto, ao examinarmos os quadros 6 e 7, verificamos que é em Portalegre
que os contribuintes com maiores meios obtêm uma maior proporção do rendimento
total (19,44%), ainda que a diferença não impressione quando a comparamos com
Arraiolos (18,80%) e com Avis (15%).
Analisando os restantes grupos, apesar de existirem algumas diferenças entre as
localidades, destaca-se novamente Portalegre, já que é na metade inferior da
população que encontramos maiores disparidades entre este e os demais
concelhos. No fundo, é este o segmento da população responsável pela existência
de uma maior equidade de rendimento. A diferença é de facto significativa, já
que os portalegrenses com menores rendimentos auferem o dobro, em termos
relativos, com cerca de 20,6% do rendimento total da cidade, quando comparados
com os rendimentos dos seus congéneres arraiolenses (10,32%) e avisenses
(8,32%).
O quadro_7, que apresenta o mesmo exercício para as áreas rurais, demonstra uma
realidade em tudo semelhante. Há, no entanto, que assinalar algumas diferenças,
ainda que relativamente suaves, mas, ainda assim, com expressão. Em todos os
concelhos, os contribuintes com maiores rendimentos têm, de forma sistemática,
uma percentagem sobre o rendimento total menor por comparação com o mesmo grupo
nas respetivas áreas urbanas. Deste modo, parece confirmar-se a ideia de que a
acumulação de rendimento, embora de forma modesta, se situa nas áreas urbanas.
Por outro lado, novamente nos casos de Arraiolos e de Avis, a metade inferior
da população possui um rendimento muito inferior ao homólogo grupo
portalegrense. Devido à ausência de outro tipo de dados, este panorama parece
difícil de explicar, no entanto avançaremos algumas hipóteses.
ARRAIOLOS E AVIS: AUSÊNCIA DE UMA POPULAÇÃO ESPECIFICAMENTE URBANA?
Nos casos de Arraiolos e de Avis, devido à reduzida dimensão dos seus núcleos
urbanos, podemos supor que, na realidade, eram apenas extensões de um meio
rural. Esta explicação torna-se ainda mais sedutora se tivermos em linha de
conta o que alguns autores têm verificado no estudo das ocupações dos núcleos
populacionais de grande parte do Sul de Espanha como, por exemplo, na Andaluzia
(Casado, 2001; Prados de la Escosura e Nogal, 2006, pp. 11-12). Nestas regiões,
devido à existência de uma estrutura fundiária bastante concentrada, um grande
número de trabalhadores agrícolas não-proprietários residiriam nos centros
urbanos, embora mantivessem o seu trabalho direcionado para as atividades
agrícolas, que desempenhavam no meio rural. Com uma proporção bastante
significativa de trabalhadores rurais, nestes centros urbanos far-se-iam
repercutir os mesmos padrões de desigualdade de rendimento das regiões rurais,
anulando-se desta forma eventuais diferenças significativas entre aqueles
núcleos e as zonas rurais envolventes.
Devido à proximidade geográfica, mas sobretudo a uma estrutura de ocupação do
território semelhante, típica das regiões do Sul ibérico ' centros urbanos
dispersos no território aglomerando as populações de grandes territórios ',
pode-se colocar seriamente esta hipótese. No entanto, para a testar seria
necessário obter a estrutura ocupacional da população urbana destes concelhos,
algo de que, infelizmente, não dispomos.
PORTALEGRE: UMA CIDADE MARCADA PELO ARTESANATO E O COMÉRCIO?
O raciocínio atrás descrito poder-se-ia aplicar ao caso de Portalegre, não
fosse dispormos de informação sobre a estrutura ocupacional da cidade. O quadro
8 permite-nos compreender que a percentagem dos trabalhadores do setor
primário, neste caso praticamente todo dedicado à agricultura (apenas
encontrámos um pescador), é claramente minoritária no conjunto da população
urbana.
Se mais de metade dos contribuintes não se ocupa na agricultura, podemos
assumir que a maioria da população aufere um rendimento dos setores mais
rentáveis da indústria e dos serviços, eliminando-se assim o principal
fator responsável pelo agravamento da desigualdade de rendimento em meios
urbanos: a coexistência de uma maioria da população dedicada ao trabalho
agrícola com uma significativa proporção de pessoas envolvidas em setores mais
rentáveis (Zanden, 1995, p. 655).
Este raciocínio pode então explicar a menor desigualdade verificada em
Portalegre, por comparação com Arraiolos e Avis, e, simultaneamente, o facto de
a população com menor proporção dos rendimentos possuir uma maior proporção do
rendimento total da cidade. No entanto, se atendermos à estrutura de
distribuição de rendimento das zonas rurais do concelho de Portalegre,
conclui-se que não existem grandes diferenças e, embora não tenhamos quaisquer
informações sobre a estrutura da economia rural desta localidade, não é
expectável que estas populações não se dedicassem ao setor primário. Neste
caso, todavia, a explicação poder-se-á remeter para a eventual distribuição
mais igualitária da propriedade e dos rendimentos agrícolas, fruto da
existência de culturas mais produtivas e intensivas em trabalho, e do
coletivismo agrário do Sul, que se materializa, entre outros aspetos, na
utilização generalizada de grandes extensões de terras comunitárias (Silbert,
1978, pp. 963-964).
De qualquer forma, só podemos apontar com maior fiabilidade que a desigualdade
de rendimento no concelho de Portalegre é menor do que nos concelhos de
Arraiolos e de Avis, devido a uma distribuição mais equitativa entre as camadas
da sociedade mais baixas, tanto no espaço urbano como nos rurais. As diferenças
que encontrámos, relativamente aos patamares intermédios, são pouco
substanciais e, inclusivamente, o segmento da população com maior rendimento
reunia, em Portalegre, uma percentagem maior do rendimento disponível daquela
cidade por comparação com os municípios de Arraiolos e de Avis.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Não obstante as suas limitações, devido à falta de dados empíricos e ao
reduzido número de núcleos populacionais estudados, este trabalho aponta
algumas conclusões tendencialmente relevantes. A primeira é que a desigualdade
de rendimento das regiões alentejanas do Antigo Regime era, pelos padrões
atuais, apenas comparável à verificada nalguns países em vias de
desenvolvimento, sendo muito superior à demonstrada por Zanden para diversas
regiões, cidades, vilas e áreas rurais holandesas no mesmo período.
A segunda conclusão prende-se com o facto de os concelhos de Arraiolos e de
Avis, demograficamente mais pequenos e com uma menor dimensão urbana,
possuírem, ao contrário do que se poderia supor, níveis superiores de
desigualdade de rendimento face ao de Portalegre. Ao que tudo indica, os seus
rendimentos estão distribuídos de forma mais equitativa entre a metade da
população detentora de menor rendimento, podendo este aspeto dever-se ao facto
de a estrutura ocupacional da cidade estar sobretudo ligada à atividade
transformadora e aos serviços, setores geradores de maiores rendimentos.
Quanto à semelhante estrutura de desigualdade de rendimento nas zonas rurais do
concelho de Portalegre, coloca-se a hipótese da existência de uma maior
distribuição dos rendimentos agrícolas, devido às características próprias da
agricultura local.
A terceira conclusão materializa-se na inexistência de diferença nos níveis de
desigualdade de rendimento entre os meios urbano e rural nos concelhos de
Arraiolos e de Avis. Uma possível justificação relaciona-se com a semelhança da
estrutura ocupacional nas freguesias urbanas e rurais destes municípios. Este
facto estaria relacionado com a pequena dimensão e pouca relevância destes
centros urbanos, o que teria como consequência uma especialização do trabalho
pouco significativa, bem como uma escassa ocupação da população na indústria
e nos serviços. Há ainda a considerar a possibilidade de a estrutura
ocupacional das vilas alentejanas pressupor a fixação de um grande número de
trabalhadores rurais, devido à grande concentração do património fundiário em
poucos proprietários, tal como a historiografia tem assinalado para as regiões
limítrofes ao Alentejo no sul de Espanha.
Finalmente assinalem-se alguns extremos: era nos meios urbanos que se situavam
os indivíduos com maiores rendimentos, embora este hiato, em relação às zonas
rurais, não fosse esmagador; era nas freguesias do termo de Arraiolos que os
pobres eram mais pobres e era em Portalegre que os setores intermédios
usufruíam de menos rendimentos.