Fascisti di un altro millennio? Crisi e partecipazione in CasaPound
RECENSÕES
ALBANESE, Matteo, BULLI, Giorgia,
CASTELLI GATTINARA, Pietro e FROIO, Caterina
Fascisti di un altro millennio? Crisi e partecipazione in CasaPound
Italia, Roma, Bonanno Editore, 2014, 152 pp.
ISBN 9788863180121
Riccardo Marchi*
*Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Av. Professor Aníbal de
Bettencout, 9 1600-189, Lisboa, Portugal. E-mail:
riccardo.marchi@ics.ulisboa.pt
Entre o último quartel do século XX e o princípio do século XXI, a extrema-
direita europeia encetou vários percursos de renovação ao nível organizacional
e ideológico. Entre estes percursos destaca-se o surgimento do identitarismo,
ou seja, da corrente de pensamento centrada na defesa das identidades nacionais
europeias contra o projeto multicultural alegadamente promovido, a nível
nacional e europeu, pelas esquerdas progressistas, pelas direitas liberais,
pelas organizações não-governamentais e pelas Igrejas. As ideias identitárias
contaminaram um amplo leque de sujeitos na extrema-direita do espectro
político: partidos, movimentos sociais, associações, grupúsculos sub-culturais.
Na área extrapartidária, as duas experiências identitárias mais inovadoras em
termos nacionais, e influentes de um ponto de vista transnacional, encontram-se
em França e em Itália com o Bloc Identitaire e a CasaPound, respetivamente.
Trata-se de duas organizações reconduzíveis à área definida por Roger Griffin
(2003) como groupuscular radical-right, e que sempre mereceu uma atenção
menor por parte da literatura científica comparativamente à área dos partidos
políticos, sejam eles ' segundo a concetualização de Piero Ignazi (2003) ' da
velha ou da nova extrema-direita.
A relevância do objeto e a escassez de estudos sobre esta matéria motivaram
quatro investigadores italianos de ciência política e história a realizar um
estudo de caso sobre a associação CasaPoundItalia (CPI). Já fotografada por
inúmeros trabalhos de cariz jornalístico, CasaPoundItalia conquistou apenas
recentemente a atenção dos académicos (di Nunzio e Toscano, 2011), sendo a
monografia agora publicada a confirmação da centralidade da CPI para este campo
de estudos. Os autores justificam a escolha deste objeto de análise com o facto
de o caso CPI permitir ultrapassar as limitações que frequentemente
inviabilizam o estudo dos grupos: a existência efémera, a exiguidade numérica
dos militantes, a indisponibilidade para se exporem à investigação científica.
A CPI, pelo contrário, conta já uma década de existência, representa um dos
movimentos radicais mais consistentes na Europa ocidental, e apresenta-se
bastante disponível, por razões de visibilidade, à colaboração também com o
mundo académico. Perante estas condições favoráveis, a equipa de investigação
aprontou uma metodologia atenta à triangulação dos dados para garantir uma
recolha exaustiva e uma análise aprofundada das dimensões escolhidas. Através
da análise de conteúdo de vários site internet da rede de CPI foram mapeados
todos os temas tratados pela organização, a importância hierárquica de cada um
deles na agenda política e a sua tradução em práticas de mobilização. Estes
dados quantitativos foram aprofundados através de 19 entrevistas em
profundidade com dirigentes nacionais e locais da CPI e através da observação
participante em dois momentos nacionais de relevo ocorridos em 2012. A
apresentação dos dados está organizada em seis capítulos dedicados
respetivamente à história da CPI, à sua ideologia, à organização e militância,
às práticas de construção identitária e ao repertório de ações.
Logo à partida, os autores questionam a pertença da CPI à categoria dos
partidos políticos populistas, assim como à dos movimentos sociais. Por um
lado, apesar do discurso de protesto e antielitista, a CPI rejeita a
minimização da dimensão ideológica e da militância de base típica dos novos
partidos populistas e reivindica abertamente a matriz fascista e o ativismo de
rua como aspeto central da membership. Por outro lado, a CPI rejeita a
horizontalidade democrática dos movimentos sociais, pois a sua estrutura em
rede é hierarquizada, a inscrição formalizada, a leadership e os mediadores
ideológicos claramente identificados.
Organização híbrida entre institucionalização e movimentismo, a CPI apresenta
fatores de inovação já na sua génese histórica e na organização. Surgida por
iniciativa de um pequeno grupo de militantes que, em 2004, ocuparam um edifício
devoluto em Roma em protesto contra a especulação imobiliária, a CPI cria, em
dez anos, uma realidade ramificada no território nacional e ativa em várias
frentes: cultura, desporto, excursionismo, ambientalismo, proteção civil,
voluntariado, associativismo estudantil e sindical. O próprio ato de fundação
(a ocupação destinada à habitação) rompe com o repertório tradicional da
extrema-direita e carateriza a CPI por um modus operandi proativo traduzido em
propostas legislativas concretas: Mutuo Sociale para garantir aos cidadãos o
direito à propriedade da habitação, Tempo di Essere Madri para alargar os
direitos à maternidade para as mulheres trabalhadoras, Ferma Equitalia para
limitar a cobrança coerciva por parte do Estado das dívidas dos pequenos
contribuintes. O mesmo pragmatismo é demonstrado também acerca de temas
sensíveis como a imigração, que a CPI recusa por ser a forma do esclavagismo
moderno, e a homossexualidade, face à qual a CPI defende o reconhecimento das
uniões de facto pelo Estado, mas recusa a equiparação ao casamento e o direito
à adoção.
Sublinhados os pontos de rutura com a extrema-direita, os autores prestam
atenção à maneira como o movimento enfrentou, nos últimos anos, a janela de
oportunidades oferecida pela crise económica. O estudo revela aqui uma
aproximação da CPI à estratégia clássica da extrema-direita europeia para
capitalizar ao máximo as falhas da União Europeia, mas sempre com um cunho
bastante próprio, que combina um europeísmo de princípio e um euroceticismo
estratégico-eleitoral (p. 110). Assim, o pedido de revisão dos tratados de
Maastricht e Schengen é acompanhado pela proposta de protecionismo comercial da
zona euro e de aproximação geoestratégica à Rússia. A convergência com a
estratégia populista é evidenciada também pela decisão de concorrer às
eleições. A análise da performance eleitoral da CPI é particularmente
interessante porque evidencia como um indiscutível sucesso de marketing
político não resulta necessariamente no plano eleitoral. Tendo ficado longe do
1% dos votos, a CPI não conquistou de todo o eleitorado de direita radical e,
aliás, recaiu no espaço asfixiante dos demais partidos neofascistas (Forza
Nuova e Fiamma Tricolore), que tinha abandonado com as práticas inovadoras.
Esta urgência eleitoralista pode ser adscrita à incapacidade de formular
estratégias de longo termo (p. 139) atribuída pelos autores ao movimento.
O estudo aponta com frequência o fascismo como referência irrenunciável (p.
37) da CPI tanto nas formas de militâncias inspirada no squadrismo, como no
conteúdo das propostas económico-sociais inspiradas pela Carta del Lavoro
(1927) e pelo Manifesto di Verona (1943). As análises propostas sobre a relação
CPI-fascismo levantam algumas questões. Os autores apontam para o ocultamento
estratégico das dimensões mais desconfortáveis da ideologia fascista (p. 45)
por parte da CPI, que construiria, assim, um fascismo à lacarte (p. 134)
composto de temas selecionados instrumentalmente. Esta atitude parece-nos, pelo
contrário, perfeitamente fascista uma vez que o próprio movimento mussoliniano
integrou à lacarte o que lhe interessava das diferentes doutrinas políticas.
Acerca do squadrismo, o estudo revela como, no leque de táticas convencionais e
não convencionais registadas na crescente mobilização de CPI, a violência ganha
um papel preponderante, representando, segundo os autores, a modalidade de 35%
das ações praticadas (p. 121). Posto que a CPI pertence a uma tradição política
alheia à não-violência como princípio inspirador, a sua relação com a violência
organizada teria merecido uma maior problematização que não a derivação,
demasiado simplista, a partir de um fascismo histórico enraizado na ideia de
supremacia do mais forte sobre o mais fraco (p. 59) e na opressão como
sistema social (p. 88). Da mesma forma, a constatação que as referências da
CPI ao fascismo movimento ocultam na verdade o fascínio em relação ao fascismo
regime (p. 55) arrisca-se a desvirtuar mais uma inovação da CPI face ao
neofascismo: a recusa da dicotomia do historiador Rendo de Felice, e a
reivindicação do fascismo na sua inteireza de movimento e de regime.
Finalmente, uma última incompreensão deve ser assinalada acerca da utilização
por parte da CPI de ícones da esquerda, esvaziados de significado, nomeadamente
o de Che Guevara (pp. 77, 124). Na verdade, a CPI limita-se a reutilizar um
ícone já presente na tradição de uma parte da direita radical desde os anos 60
e 70: o Che Guevara anti-imperialista e da ética guerreira celebrado por Juan
Peron no seu exílio em Espanha, por Jean Thiriart na sua Jeune Europe, por Jean
Cau no seu Une passion pour Che Guevara.
Estes reparos acerca de aspetos relevantes para a compreensão do fenómeno CPI
não inviabilizam o valor da obra cujas conclusões salientam aspetos importantes
para a dinâmica dos movimentos radicais. Em particular, os autores realçam a
discrepância entre o sucesso da CPI na conquista da comunicação social, graças
à utilização eficaz das técnicas de marketing (site, web-rádios, web-TV, media-
ativismo) e o fracasso total da estratégia eleitoral (p. 118). Este fracasso é
sintomático do abrandamento na expansão do movimento. A causa deve ser
identificada na incapacidade de maximizar as oportunidades políticas oferecidas
e, mais propriamente, na limitação objetiva representada pela reivindicação da
identidade fascista. Esta conclusão leva os autores a considerar que a janela
de oportunidade de que o grupo soube desfrutar parece ter-se parcialmente
fechado (pp. 136 e 138) e apresenta um bom potencial de generalização em
relação aos demais movimentos da direita radical ativos pelo menos na Europa
ocidental. O estudo sobre a associação CasaPoundItalia apresenta, assim, ótimo
material para futuras investigações comparativas.