Democracia intra-partidária, filiados e elites intermédias: o caso do Partido
Socialista português
INTRODUÇÃO
Os estudos sobre partidos têm apontado uma crescente tendência para a
estatalização dos partidos, baseados cada vez mais nos recursos e na
legitimidade com origem no Estado, sobretudo através do financiamento público e
da ocupação dos cargos de governo (Mair, 2013; Ignazi, 2014). A dimensão
institucional parece ter-se tornado absolutamente central para os partidos mais
eleitoralistas, principalmente no caso das democracias mais recentes,
caracterizadas por uma fraca penetração social das organizações partidárias e
por uma maior indiferenciação ideológica (van Biezen, 2003; Lisi, 2014).
A história da mudança partidária ao longo do tempo parece confirmar a lei de
ferro da oligarquia partidária (Michels, 2001), segundo a qual a estrutura
organizacional seria um instrumento para alargar o poder da elite dirigente em
detrimento dos filiados, alimentando assim as desigualdades dentro das
organizações partidárias. Os estudos sobre a presidencialização dos partidos
(Poguntke e Webb, 2005) vêm reforçar esta tendência, evidenciando a importância
dos fatores sistémicos ' forma de governo, mudança nos meios de comunicação,
etc. ' para alterar os equilíbrios internos dos partidos a favor das lideranças
partidárias.
Esta evolução tem levado os partidos a reavaliar as (supostas) virtudes da
democracia intra-partidária. Vários estudos recentes têm evidenciado a
tendência para um papel mais relevante dos filiados, por exemplo no que diz
respeito à seleção dos candidatos ou dos líderes (Kittilson e Scarrow, 2003;
Pilet e Cross, 2014). Para além disso, um nível maior de democracia interna tem
sido considerado um instrumento para reforçar a legitimidade dos partidos aos
olhos da opinião pública, sobretudo tendo em consideração o declínio da
confiança nestes atores e o crescente afastamento dos cidadãos das organizações
partidárias (Cross e Katz, 2013).
A democracia intra-partidária tem sido estudada em particular a partir dos
documentos oficiais (programas, estatutos, declarações) ou do ponto de vista
normativo. Contudo, raramente este problema tem sido abordado com base na
avaliação e nas perceções dos diferentes tipos de ativistas.2 Como sublinham
vários autores (Duverger, 1981; Scarrow, 1996; Ware, 1996), os filiados
desempenham um papel crucial para o funcionamento dos partidos. Por um lado,
enquanto associações de cidadãos, os partidos necessitam de recursos humanos de
forma (mais ou menos) permanente. Para além do seu valor simbólico, os
ativistas contribuem de forma significativa para a transmissão da mensagem,
para assegurar o funcionamento das estruturas no dia-a-dia e para garantir a
renovação dos quadros e a mobilização do partido nas mais diversas atividades.
A análise das opiniões dos diferentes tipos de filiados representa, portanto,
uma arena privilegiada para observar o funcionamento das organizações
partidárias. Apesar da tendência dos partidos contemporâneos para o reforço da
componente institucional (Katz e Mair, 1995; 2009), o estudo do perfil e das
atitudes dos ativistas permanece fundamental para compreender os conflitos
internos, as características da cultura política e da militância partidária
(van Haute, 2011). Os ativistas não representam apenas os futuros líderes dos
partidos. Gerem também recursos, definem as posições programáticas, influenciam
a estratégia e, não menos importante, são o elemento essencial de ligação entre
eleitores e governantes, sobretudo durante as campanhas eleitorais.
Deste ponto de vista, a análise dos ativistas é fundamental para examinar três
aspetos. Em primeiro lugar, os filiados são a fonte principal do recrutamento
da futura elite dirigente e o principal instrumento de mobilização (Scarrow,
1996). Em segundo lugar, os ativistas são um excelente indicador da cultura
política dos partidos, refletindo a forma como as organizações partidárias se
adaptam à mudança do contexto externo e às oscilações da opinião pública. A
análise das atitudes dos filiados tem ainda a vantagem de ser menos abstrata do
que os documentos programáticos oficiais elaborados pela direção, evidenciando
as eventuais contradições ou dilemas que possam emergir nas áreas menos
consensuais. Finalmente, o terceiro aspeto importante refere-se ao mito
racional da democracia interna das organizações partidárias. Como sublinha
Weber (1979), os partidos são, antes de mais, associações de livres cidadãos,
em que a participação é valorizada através de mecanismos de delegação vertical.
Nos partidos de massas ' e sobretudo nos partidos socialistas ou social-
democratas ' este mito racional baseia-se na capacidade de os filiados
influenciarem as orientações do partido através dos delegados eleitos no
congresso. É por isso que a avaliação dos diferentes tipos de filiados é
fundamental para perceber a realização (na prática) da democracia intra-
partidária.
Este artigo tem como objetivo principal analisar a perceção dos ativistas em
relação ao funcionamento interno do Partido Socialista português (PS). Em
particular, este trabalho procura examinar algumas das dimensões relevantes da
democracia intra-partidária através da opinião dos filiados e delegados do
partido. Outro objetivo é explorar a importância relativa de vários modelos
utilizados para explicar a variação neste tipo de atitudes. Este trabalho
também ambiciona investigar as diferenças existentes entre filiados e delegados
na perceção relativa ao funcionamento interno do partido. Em relação a estudos
anteriores, o contributo deste estudo prende-se com três aspetos. Em primeiro
lugar, analisa um tópico pouco explorado pela literatura, apresentando dados
originais e difíceis de recolher, sobretudo para o caso português. Em segundo
lugar, este estudo de caso permite confirmar (ou não) as teorias existentes.
Finalmente, a análise dos ativistas do PS oferece uma excelente oportunidade
para analisar não apenas o perfil sociodemográfico dos ativistas, mas também os
valores e as atitudes políticas relativas a aspetos importantes do papel
desempenhado pelos partidos políticos.
O interesse em considerar o caso português prende-se com as especificidades das
características organizacionais dos partidos em Portugal e da sua evolução ao
longo do tempo. Por um lado, os partidos apresentam uma base de filiados
relativamente reduzida em relação a outras democracias europeias e com uma
estrutura organizacional fraca no que diz respeito à capacidade de mobilização
e aos recursos disponíveis (van Biezenet al., 2012). Por outro lado, os
partidos portugueses apresentam um nível de centralização muito elevado e uma
grande predominância da liderança, sobretudo se observamos os padrões de
recrutamento, os processos de decisão sobre as principais questões políticas,
assim como a gestão dos recursos (Lobo, 2003; Lopes, 2004; Jalali, 2007; Lisi,
2011). Para além disso, a evolução das organizações partidárias indicia o
caráter instrumental e estratégico das reformas internas, que tiveram sempre um
impacto limitado sobre o funcionamento interno dos partidos (Lisi, 2011). Deste
ponto de vista, a análise da perceção da democracia intra-partidária pode
contribuir para esclarecer não apenas as patologias das organizações
partidárias, mas também a inércia que tem caracterizado a experiência dos
partidos portugueses.
O PS destaca-se dentro dos partidos com representação parlamentar pela maior
adesão aos princípios e procedimentos democráticos, pelo menos segundo a
análise dos documentos estatutários e programáticos (Belchior, 2008). O
contexto particular que caracterizou a evolução do PS depois de 2011 torna
ainda mais interessante examinar a questão da democracia intra-partidária no
caso dos ativistas socialistas. A demissão de Sócrates a seguir à derrota
eleitoral deu lugar a um intenso debate acerca da necessidade de implementar
reformas estatutárias para revitalizar a vida interna do partido. Os dois
candidatos que competiram pela liderança3, António José Seguro e Francisco
Assis, enfatizaram na campanha interna a necessidade de renovar a elite
dirigente e atribuir um papel mais relevante aos órgãos partidários. Para além
disso, uma das principais divergências entre Seguro e Assis baseava-se na
introdução das primárias para a seleção dos candidatos a cargos públicos.4
Finalmente, durante a liderança de Seguro (2011-2014) foi implementada uma
reforma inédita no panorama partidário português, nomeadamente a introdução das
primárias para a escolha do candidato socialista ao cargo de primeiro-ministro.
Deste ponto de vista, a análise da perceção dos delegados acerca do
funcionamento interno do partido contribui para interpretar melhor esta
importante mudança, avaliando a presença de pressões internas que possam ter
contribuído para adotar esta reforma.
O artigo está estruturado em seis partes. Depois da introdução, o estudo
continua com uma revisão da literatura sobre democracia intra-partidária. Na
terceira secção apresentam-se os dados e a metodologia utilizada neste artigo.
Na quarta secção examina-se a perceção do funcionamento interno dos partidos
segundo a opinião dos filiados e dos delegados, enquanto na secção seguinte
procura-se analisar os fatores explicativos. Finalmente, as conclusões resumem
os principais resultados e discutem as suas implicações.
A DEMOCRACIA INTRA-PARTIDÁRIA: TEORIA E PRÁTICA
Os filiados partidários representam um segmento fundamental dos partidos
políticos. Embora as transformações partidárias tenham reduzido a importância
deste grupo, sobretudo em termos do seu caráter representativo e da sua
capacidade de ligação com a sociedade civil (Scarrow, 2007), não há dúvidas de
que esta componente é ainda um indicador fundamental das características e do
funcionamento dos partidos políticos.
Apesar da importância do tema, os estudos sobre filiados são relativamente
escassos devido à dificuldade em recolher dados sobre os ativistas e à
tendência para examinar o partido no território (base social e eleitoral) ou
nas instituições, deixando de lado o papel e as características dos filiados e
das elites intermédias (van Haute, 2011). Em geral, a literatura sobre
militância partidária considera principalmente três aspetos.5 A primeira
refere-se à evolução quantitativa e longitudinal (Mair e van Biezen, 2001; van
Biezen etal., 2012). A segunda diz respeito às motivações individuais e aos
padrões de participação e socialização (Whiteley e Seyd, 2002), enquanto o
terceiro aspeto relaciona-se com a oferta dos partidos em termos das mudanças
das estruturas de base, dos padrões de mobilização e de recrutamento (Scarrow,
1996; Poguntke, 2002). Nesta secção iremos abordar apenas a (escassa)
literatura que considera as atitudes dos diferentes tipos de ativistas em
relação ao funcionamento internos das organizações partidárias.
A democracia intra-partidária tem sido considerada um aspeto marginal para o
funcionamento dos regimes democráticos. Tradicionalmente, os partidos são
considerados atores essenciais para o funcionamento da democracia enquanto
desempenham uma multiplicidade de funções (Schattschneider, 1942). Deste ponto
de vista, seria legítimo que os partidos adotassem critérios de inclusividade,
transparência e participação. Contudo, a visão liberal sublinha que a
democracia não equivale à soma das partes, e que para ter um regime
democrático é suficiente que as forças partidárias assegurem, através de uma
competição democrática, a escolha dos futuros dirigentes (Downs, 1957; Sartori,
1987).
Porém, há vários argumentos que sublinham a importância da democracia intra-
partidária (Ware, 1996). Em primeiro lugar, a maior influência dos cidadãos
dentro dos partidos teria efeitos positivos para a dimensão participativa dos
regimes democráticos, aumentando a consciência cívica dos cidadãos e as formas
de mobilização. Em segundo lugar, a democracia intra-partidária assegura também
uma maior deliberação interna (Teorell, 1999). Finalmente, um maior nível de
democracia intra-partidária contribui para evitar a cartelização entre os
principais partidos, tornando as diferenças programáticas mais claras e
incentivando uma responsabilização mais eficaz (Scarrow, 2005).
A implementação de reformas organizativas no sentido de uma maior
democratização tem levantado reticências sobretudo devido às diferenças
ideológicas entre os filiados e os eleitores. Desde a formulação da lei de
disparidade curvilinear (May, 1973), emergiu a visão de um maior
fundamentalismo e intransigência dos filiados que levariam o partido a afastar-
se das posições do eleitorado. Segundo esta lei, os filiados mais ativos
(considerados como as elites intermédias) apresentam posições mais radicais em
relação às bases eleitorais dos partidos. Neste sentido, os partidos que
atribuem mais voz aos militantes seriam levados a adotar posições mais
radicais, levando o partido a ser derrotado nas eleições. Contudo, os estudos
empíricos que procuraram testar esta lei não conseguiram validar estes
pressupostos. Apesar da maior radicalização das posições dos ativistas em
relação aos eleitores, os líderes apresentam posições tão (ou mais) extremistas
do que os ativistas (Kitschelt, 1989; Iversen, 1994; Norris, 1995; Narud e
Skare, 1999).
A lei da disparidade curvilinear tem sido aplicada também ao caso português
(Jalali e Lobo, 2007; Belchior e Freire, 2011). Jalali e Lobo (2007) consideram
as posições dos delegados socialistas em comparação com a respetiva base
eleitoral. Este estudo evidencia a maior radicalização da elite intermédia em
relação aos temas do aborto e da religião, apesar de se colocar mais à direita
dos respetivos eleitores em matérias económicas (intervenção do Estado na
economia). Este contributo não considera questões relativas à democracia intra-
partidária, mas a análise multivariada das opiniões dos delegados sobre certos
temas sugere que as variáveis de socialização política têm um fraco impacto
explicativo sobre as atitudes políticas. Contudo, os delegados com uma
experiência partidária mais recente apresentam um grau de insatisfação maior em
relação ao funcionamento da democracia em geral.
O estudo de Belchior e Freire compara a opinião dos deputados à posição
assumida sobre vários temas pelos votantes do PS e do PSD com e sem atividade
política, considerados um proxy das elites intermédias e dos simpatizantes do
partido, respetivamente. Em geral, os resultados confirmam a aplicabilidade da
lei de May para os dois principais partidos quando considerarmos a posição na
escala esquerda-direita, mas no caso dos temas socioeconómicos ou da nova
política as elites tendem a apresentar posições mais radicais. Outro resultado
interessante é que no caso do PS a lei de May aplica-se sobretudo aos temas
socioeconómicos, enquanto para o PSD os ativistas apresentam posições menos
alinhadas em relação aos temas libertários-autoritários. Na opinião dos
autores, esta diferença relaciona-se sobretudo com o facto de a opinião dos
cidadãos se inclinar mais à esquerda no caso dos temas económicos, enquanto os
eleitores apresentam uma posição mais conservadora nos temas culturais.
A questão da avaliação da democracia intra-partidária tem sido menos estudada.
Saglie e Heidar (2004) conduziram um estudo sobre democracia intra-partidária
nos partidos noruegueses. Os resultados evidenciam a preferência dos modelos de
democracia representativa face à democracia direta, sendo minoritários os
militantes que defendem uma mudança radical no funcionamento interno dos
partidos. Apesar de a pressão para a mudança ser relativamente fraca, há
diferenças entre os mais ativos e os filiados mais passivos. Em geral, quanto
menor a participação, maiores são as críticas em relação à democracia intra-
partidária. Estudos comparados sobre a Noruega, Dinamarca e Suécia confirmam o
facto de os eleitores dos partidos serem ainda mais críticos do que os filiados
(Saglie e Heidar, 2004, p. 402).
A perceção da democracia intra-partidária segundo as elites intermédias é
também analisada no caso espanhol (Baras etal., 2012). Este estudo avalia a
opinião dos delegados em relação a várias dimensões do funcionamento interno
dos partidos, testando o impacto de diferentes modelos explicativos. Os
resultados indicam que a avaliação da elite intermédia depende da congruência
ideológica entre os delegados e os respetivos partidos, do nível de
envolvimento nas atividades partidárias, nas razões da adesão a um partido, na
experiência da militância e no facto de ocuparem ou não cargos públicos ou
partidários. Contudo, as atitudes dos delegados (em termos ideológicos e das
motivações) parecem ter um impacto muito maior do que os padrões de
socialização ou de participação.
Quanto ao caso português, os estudos sobre democracia intra-partidária
centraram-se sobretudo no nível de centralização para a seleção dos líderes
(Lisi, 2010; Lisi e Freire, 2014) ou dos candidatos (Teixeira, 2009; Freire e
Teixeira, 2011). Outros estudos ocuparam-se especificadamente das oportunidades
formais que os estatutos fornecem aos filiados para influenciar o funcionamento
interno do partido (Lobo, 2003; Belchior, 2008). A perceção da democracia
intra-partidária por parte dos filiados é analisada num estudo sobre a
federação socialista e a distrital do PSD de Lisboa (Coelho, 2014). Neste caso
considera-se a avaliação dos filiados em relação ao método de seleção do líder,
evidenciando como os militantes dos dois partidos diferem nas suas perceções.
Em particular, enquanto no caso dos socialistas há uma maior satisfação e
consenso acerca do método de seleção, no PSD emergem divergências mais
profundas.
Tendo em conta estes contributos, a primeira hipótese que este estudo coloca
refere-se ao grau de democracia intra-partidária. Young (2013) nota o facto de
que os partidos com um elevado grau de facciocismo interno, mais eleitoralistas
e com lideranças mais personalizadas tendem a marginalizar o contributo dos
filiados. Nestes partidos não existem apenas poucas oportunidades para os
ativistas influenciarem a vida interna do partido, mas também os níveis de
participação e envolvimento são fracos, pois a liderança do partido considera
de forma instrumental o papel dos filiados. O PS apresenta, em grande medida,
estas características. Em primeiro lugar, é clara a importância dos objetivos
eleitorais para o partido; em segundo lugar, ao longo da sua existência sempre
existiram várias tendências internas, sobretudo nos períodos em que se
encontrava na oposição (Lisi, 2009). Em terceiro lugar, os líderes têm ocupado
uma posição privilegiada e têm utilizado as reformas organizacionais de uma
forma instrumental (Lisi, 2011). Contudo, a análise programática e estatutária
dos partidos portugueses evidencia como o caso do PS regista a mais clara
adoção de princípios e de procedimentos democráticos em relação ao seu
funcionamento interno (Belchior, 2008, p. 147). Por estas razões, a primeira
expectativa é de que haverá divergências dentro dos ativistas socialistas no
que diz respeito às atitudes relativas à qualidade democrática da organização,
com uma parte (mais ou menos) substancial de ativistas a avaliarem
negativamente a democraticidade do partido.
Contudo, é expectável que haja diferenças entre delegados e militantes de base
na avaliação do funcionamento interno.6 Enquanto ativistas dos partidos, com um
grau de envolvimento maior em relação aos simples militantes, os delegados têm
uma experiência política mais profunda, muitas vezes baseada em cargos públicos
ou em associações cívicas, a nível nacional ou local (Stock, 1985; Pierre,
1986). Neste sentido, os delegados partidários apresentam atitudes, valores e
opiniões mais estruturadas e mais bem informadas do que os militantes de base.
Por outro lado, as elites intermédias constituem um instrumento essencial de
ligação entre as diferentes componentes da organização partidária. Estes atores
desempenham um papel de intermediação fundamental entre os vértices do partido
e as bases, entre as estruturas nacionais e locais, entre o partido nas
instituições e o partido na sociedade. É esta função de intermediação,
coordenação e ligação que atribui às elites intermédias uma mais-valia
política, muitas vezes não reconhecida pela literatura.7 Finalmente, os
delegados ocupam com frequência uma posição institucional importante como, por
exemplo, um cargo eletivo ao nível local ou nacional. Por estas razões, é
plausível que a defesa de uma maior democracia intra-partidária seja mais forte
para os militantes de base em relação aos delegados.
Uma das razões que podem levar à insatisfação dos filiados no que diz respeito
ao funcionamento interno do partido relaciona-se com a congruência ideológica
entre a elite intermédia e o próprio partido. O estudo sobre filiados nos
partidos da Bélgica e do Canadá indica que os desajustados ideológicos
(ideological misfits) são também os mais passivos e os menos integrados do
ponto de vista organizativo (van Haute e Carty, 2012). No caso da Espanha, esta
hipótese é confirmada também para as elites intermédias, sendo os delegados
mais distantes ideologicamente os que apresentam uma visão mais negativa da
qualidade das organizações partidárias. Por isso, a terceira hipótese é a de
que quanto maior for a incongruência ideológica, menor será o apoio à
democracia intra-partidária.
Para além da distância ideológica, outra variável importante que pode
influenciar o grau de insatisfação baseia-se no nível de ativismo. No caso dos
partidos noruegueses, Saglie e Heidar (2004, pp. 391-392) evidenciam como os
filiados menos ativos são também os que mais consideram que a liderança é
indiferente às preferências dos filiados. Este resultado é confirmado também
pelo caso espanhol (Baras etal., 2012). Neste sentido, colocamos a hipótese de
a perceção da democracia intra-partidária ser influenciada pelo nível de
participação interna. Em particular, quanto menor o grau de envolvimento nas
atividades partidárias, maior a insatisfação no que diz respeito à democracia
intra-partidária.
DADOS E METODOLOGIA
Este estudo baseia-se principalmente em dois tipos de dados. Por um lado,
conduziu-se um inquérito junto dos delegados no XVIII congresso do PS (Braga,
9-11 setembro de 2011). Neste caso procedeu-se a um inquérito auto-
administrado, tendo sido recolhidas 265 respostas num universo de 1695
delegados, correspondente a 16% do total dos participantes.8 Por outro,
realizou-se um inquérito on-line com base no universo dos filiados
socialistas.9 A recolha de dados foi efetuada entre janeiro e fevereiro de
2014, tendo obtido 1582 respostas. Os inquéritos que apresentavam uma duração
demasiado curta ou comprida, assim como os que não apresentavam respostas
válidas para algumas perguntas fundamentais (género, idade) foram excluídos da
base de dados. Depois da aplicação destes filtros obtiveram-se 1347 respostas
válidas.
Tratando-se de amostras não aleatórias, este tipo de dados apresenta algumas
limitações no que diz respeito à representatividade e à capacidade de produzir
inferências e generalizações. Deste ponto de vista, os resultados apresentados
neste estudo têm um caráter exploratório que devem ser validados de forma mais
rigorosa e sistemática por estudos futuros. Apesar destas limitações, os
intervalos de confiança ao nível de 90% não parecem particularmente
preocupantes (3% e 5,7% para as amostras dos filiados e dos delegados,
respetivamente). Para além disso, a distribuição das observações em relação às
principais variáveis sociodemográficas (género, idade, educação, área de
residência) é relativamente equilibrada, sendo possível considerar estes
fatores como variáveis de controlo.10
Para testar ulteriormente a validade destas amostras podemos comparar o perfil
dos ativistas em relação a outras amostras (no caso dos delegados) ou do
universo (dos filiados). Em particular, no caso da elite intermédia é oportuno
confrontar o perfil dos delegados que participaram no XVIII congresso com os
que participaram no XV congresso (2006).11 Relativamente ao perfil
sociodemográfico dos delegados socialistas, os dados confirmam a prevalência
dos homens, correspondendo a mais de 70% dos delegados em ambos os congressos
(Anexo_A).12 No caso da idade, a grande maioria dos delegados pertence às
faixas etárias centrais, ou seja, entre 45 e 64 anos (60%), enquanto
minoritária é a proporção de jovens com menos de 34 (menos de 14%).13
Outra característica importante é o nível de educação. Confirma-se o elevado
capital cognitivo da elite intermédia, com mais de 55% dos delegados com um
curso superior completo. A diferença aqui é significativa em relação aos
filiados, tendo em consideração que no universo dos militantes apenas 25% dos
socialistas têm um grau académico superior.14 Finalmente, a última
característica importante em termos sociodemográficos refere-se à ocupação. Em
geral, os dados disponíveis sugerem uma elite partidária que pertence
maioritariamente a quadros superiores ou dirigentes de empresas, com uma forte
penetração no setor do Estado e uma componente importante de especialistas que
exercem profissões liberais. Este dado confirma-se também para a amostra dos
filiados, com cerca de 42% de militantes que trabalham no setor público.
Os dados sobre o perfil sociodemográfico indiciam que a elite intermédia do PS
apresenta características homogéneas, com elevados recursos socioeconómicos,
sobretudo quando comparada com as bases do partido (Lisi, 2011). Para além
disso, os dados existentes sugerem uma substancial continuidade nos traços dos
ativistas partidários. Como já foi sublinhado por estudos anteriores (Jalali e
Lobo, 2007), o perfil da elite intermédia resulta, pelo menos no caso do PS,
muito distinto do seu eleitorado, aproximando-se de forma substancial da elite
parlamentar. Este facto tem implicações relevantes no que diz respeito não
apenas ao percurso de socialização mas também à probabilidade de partilharem
opiniões e atitudes comuns.
A parte empírica deste artigo procede em duas etapas. A primeira baseia-se numa
análise descritiva das principais variáveis utilizadas para medir as atitudes
em relação à democracia intra-partidária.15 Na segunda etapa procede-se com um
análise multivariada em que são testados diversos modelos explicativos.
A DEMOCRACIA INTRA-PARTIDÁRIA VISTA PELOS ATIVISTAS SOCIALISTAS
Neste estudo a democracia intra-partidária é analisada através de vários
indicadores incluídos no inquérito aos filiados socialistas. Adotou-se a mesma
estratégia utilizada nos inquéritos conduzidos para os ativistas dos partidos
espanhóis e italianos baseada em perguntas que procurem medir a distribuição do
poder interno, sobretudo no que diz respeito à relação entre a liderança do
partido e os filiados (Bordandini e Di Virgilio, 2009a e 2009b, Baras etal.,
2012).16 Esta abordagem parte do pressuposto de que o modelo de referência para
avaliar o funcionamento interno segundo os parâmetros democráticos se baseia no
partido de massas no qual os filiados influenciam as políticas do partido
através da estrutura organizacional.
No inquérito aos filiados socialistas foram colocadas oito perguntas acerca do
funcionamento interno do partido. O primeiro bloco de perguntas refere-se ao
nível de institucionalização e à capacidade dos líderes em influenciar as
dinâmicas internas. Por outro lado, o segundo bloco de questões procura medir
diretamente o nível de democracia intra-partidária segundo a perceção dos
ativistas.17 As respostas são classificadas numa escala que vai de 1 (discorda
totalmente) a 4 (concorda totalmente).
Quais são, segundo a perceção da elite intermédia, os pontos mais críticos do
funcionamento do partido? A primeira questão prende-se com a importância das
regras estatutárias para o funcionamento do partido. A maioria dos ativistas
considera que as regras formais são importantes na vida do partido, não se
registando diferenças significativas entre delegados e filiados (Quadro_1). Por
outro lado, a maioria dos militantes concorda com o facto de as tendências
internas serem um fator importante nas dinâmicas intra-partidárias. Esta
opinião é mais consensual junto dos filiados (78,4%), enquanto para os
delegados há uma discordância relativamente maior (66,6%). Outra pergunta
relaciona-se com a dialética entre líder e organização. Neste caso a grande
maioria da elite intermédia (84,6%) perceciona como suficiente a autonomia do
líder, enquanto cerca de um terço dos filiados gostaria de ver reforçada a
liberdade de manobra da liderança partidária. Esta é a dimensão em que emerge
uma maior divergência entre filiados e delegados. Finalmente, a última pergunta
deste bloco de variáveis refere-se à importância dos incentivos materiais no
envolvimento partidário. A maioria dos ativistas (64,5% dos delegados e 58,9%
dos filiados) discorda do facto de a participação interna ser influenciada
pelos benefícios individuais, sugerindo a importância das motivações
identitárias ou ideológicas, sobretudo no caso das elites intermédias.
Passando às dimensões relacionadas diretamente com a democracia intra-
partidária, o inquérito inclui uma pergunta sobre a oportunidade de aumentar a
democracia interna, uma questão sobre a importância do pluralismo interno nas
dinâmicas partidárias e, finalmente, dois indicadores relativos à
responsividade dos dirigentes em relação às preferências dos filiados. Em
relação à oportunidade de aumentar a democracia intra-partidária as opiniões
dos delegados e dos filiados são parecidas, sendo bastante consensual a opinião
da necessidade de democratizar a vida interna dos partidos (86,9% e 85,8%,
respetivamente). Contudo, emergem divergências mais significativas no que diz
respeito às dimensões da responsividade. Em primeiro lugar, a maioria dos
delegados (51,9%) discorda do facto de os filiados não influenciarem as
políticas do partido, mas a maioria dos filiados (66,8%) é da opinião
contrária. Também no caso da afirmação segundo a qual os dirigentes não se
interessam pelas opiniões dos militantes regista-se uma divergência semelhante.
Finalmente, embora a maioria dos ativistas considere que a estrutura do partido
garante a expressão do pluralismo, os delegados apresentam uma opinião muito
mais positiva do que os militantes de base (51,9% e 43,3%, respetivamente).
Para analisar melhor a avaliação dos filiados socialistas perguntou-se
diretamente qual é o grau de satisfação em relação à vida interna do partido.
No caso dos delegados as opiniões foram bastante divergentes, com cerca de
metade dos inquiridos a declarar-se bastante ou muito satisfeitos em relação ao
funcionamento interno (53,2%), enquanto outra metade apresenta uma atitude mais
negativa (Figura_1). No caso dos filiados, a percentagem de opiniões positivas
é significativamente mais baixa, com apenas 32,1% dos militantes que estão
satisfeitos com a vida interna do partido.
É importante também sublinhar que o PS tem experimentado várias mudanças
estatutárias, evidenciando, deste ponto de vista, um nível relativamente fraco
de institucionalização. Em 1998, nomeadamente, os socialistas foram os
primeiros a introduzir a eleição direta do líder. Desde então a prática tem
sido a de uma fraca competitividade e um nível muito reduzido de mobilização.
As eleições para a eleição direta do secretário-geral têm apresentado uma
competitividade muito reduzida, pelo menos se observarmos a diferença de votos
entre o primeiro e o segundo candidato (Lisi e Freire, 2014, p. 135). Este
fenómeno emergiu sobretudo nos momentos em que o partido se encontrava no
governo, enquanto na oposição as críticas internas foram sempre mais
consistentes.
Como vimos anteriormente, uma das questões que caracterizou a campanha interna
para a liderança refere-se ao método de eleição do líder do partido. Assis
defendeu uma maior democratização como um mecanismo crucial para abrir o
partido e reforçar a ligação com a sociedade civil, admitindo a participação
de simpatizantes nas primárias. Seguro mostrou-se mais prudente, sobretudo
devido à impopularidade que estas medidas tinham junto dos ativistas a nível
local e regional.18 Neste sentido, o secretário-geral defendeu que apenas os
filiados poderiam participar na escolha dos dirigentes através da eleição
direta.19
O inquérito realizado em 2011 perguntava aos delegados qual é a melhor forma de
eleição para o secretário-geral, tendo sido uma das questões do debate
partidário interno, sobretudo a partir da liderança de Sócrates. Os resultados
indicam uma clara preferência dos delegados socialistas (68% dos inquiridos)
pela eleição do líder por parte dos filiados (Figura_2). No entanto, cerca de
um quinto dos delegados (19,8%) apoia um método de eleição mais aberto que
inclua também os simpatizantes ou os eleitores. Finalmente, a percentagem de
delegados que prefere o método tradicional de eleição através do congresso é
residual (8,8%). É interessante evidenciar que não se registam diferenças
significativas em relação aos filiados, embora haja uma ligeira preferência
pela abertura do método de seleção do líder (22,5%).20
Um dos argumentos recorrentes na literatura é a perda de influência dos
filiados ao longo do tempo. Segundo vários autores (Katz e Mair, 1995; Hopkin,
2004; Ignazi, 2014), a passagem dos partidos de massas para partidos
eleitoralistas teria implicado uma crescente centralização e uma progressiva
marginalização dos militantes. Este processo acentuou-se com a emergência dos
partidos de cartel, com o esvaziamento do poder dos filiados mais ativos,
atomizando a militância e incentivando uma mobilização ad hoc e flexível. Deste
ponto de vista, é expectável que a avaliação dos delegados seja mais negativa
em relação aos filiados no que diz respeito às mudanças do funcionamento
interno dos partidos.
Para procurar determinar até que ponto há uma mudança na perceção da
democraticidade interna do partido por parte dos ativistas, adotaram-se duas
estratégias distintas. Em primeiro lugar, perguntou-se diretamente aos
militantes se houve uma mudança ou não no papel atribuído aos filiados. Em
segundo lugar, tentou-se verificar até que ponto os militantes com diferentes
trajetórias partidárias apresentam opiniões distintas. Em particular,
distinguiu-se entre os que se filiaram no partido antes e depois de 2004. Esta
data representa um marco importante na história do partido, pois a eleição de
Sócrates inaugura não apenas uma maior importância da participação dos filiados
na escolha do líder ' com uma maior visibilidade destas eleições ', mas também
um longo período em que o partido exerce posições de governo. Segundo a
teorização do partido de cartel, estes dois fatores deveriam contribuir para
uma maior insatisfação dos militantes mais ativos.
Em geral, a opinião de que a influência dos filiados teria diminuído é
partilhada por cerca de um terço dos delegados (Figura_3). A mesma percentagem
(35%) acredita que o papel dos militantes tenha permanecido igual, enquanto
minoritária (cerca de 28%) é a proporção dos delegados que julga ter havido um
aumento da influência das bases durante o período de governação socialista. Por
outro lado, considerando os dados relativos aos filiados socialistas, há uma
proporção mais elevada das opiniões negativas (a opinião de que houve uma
diminuição da importância do papel dos filiados é partilhada por 46,9% dos
inquiridos), enquanto apenas 21,3% dos militantes de base considera que houve
um aumento. Estes resultados não confirmam a hipótese do partido de cartel
segundo a qual haveria uma marginalização da elite intermédia.
Se considerarmos a relação entre experiência partidária e a avaliação da
evolução dos poderes dos filiados, os resultados para os delegados socialistas
confirmam que quanto maior é a experiência de militância, maior é o
descontentamento. De facto, os coeficientes de correlações são significativos
para ambos os indicadores utilizados. Quanto maiores os anos de militância,
maior é a tendência a considerar que houve uma diminuição dos poderes dos
filiados. Por outro lado, os que entraram no partido mais recentemente
apresentam uma opinião mais positiva. Estes resultados são confirmados também
no caso dos filiados. Neste caso a correlação com a variável muda filiação
(antes e depois de 2004) parece particularmente significativa, sugerindo que os
novos militantes avaliaram mais positivamente a experiência interna em
comparação com os delegados. Concluindo, os resultados sugerem que a perceção
relativa à mudança do papel dos filiados não depende tanto da posição e do
envolvimento dentro do partido mas da maior ou menor experiência. Os filiados
com mais anos de militância percecionam de facto uma maior centralização,
independentemente do seu grau de ativismo.
A AVALIAÇÃO DA DEMOCRACIA INTRA-PARTIDÁRIA: FATORES EXPLICATIVOS
Que fatores explicam as diferentes atitudes dos ativistas socialistas em
relação ao funcionamento interno do partido? Para responder a esta pergunta
utilizou-se uma análise multivariada baseada num modelo que inclui como
variáveis independentes não apenas as principais características
sociodemográficas, mas também três grupos de fatores que estão associados à
avaliação da democraticidade das organizações partidárias, nomeadamente
atitudes políticas, ao grau de envolvimento nas atividades partidárias e o
status dos filiados, isto é, se pertencem a órgãos nacionais ou periféricos do
partido e se ocupam cargos públicos (a nível nacional ou local).
Nos estudos empíricos sobre a perceção da democracia intra-partidária, uma
variável que influencia de forma significativa estas atitudes relaciona-se com
a distância ideológica que separa os ativistas da posição atribuída ao próprio
partido, medida através da escala esquerda-direita (van Haute e Carty, 2012;
Baras et al., 2012). Estes filiados ' os desajustados ideológicos
(ideological misfits) segundo a denominação de van Haute e Carty ', não são
apenas os menos integrados do ponto de vista organizacional, mas também
apresentam um menor interesse em participar na vida do partido e defender as
próprias divergências.
Considerando o posicionamento ideológico dos ativistas socialistas, é
importante evidenciar, em primeiro lugar, que os delegados do congresso de 2011
apresentavam uma média de 2,9 no continuum esquerda-direita (escala de 0 a 10),
enquanto a média para os filiados é de 3,7 (escala de 1 a 10). A grande maioria
dos ativistas posiciona-se no centro ou centro-esquerda (3-5), enquanto cerca
de um terço se coloca nas faixas de extrema esquerda (0-2). Finalmente, a
posição dos filiados e delegados nas posições de direita permanece
substancialmente insignificante, correspondente a menos de 5% dos inquiridos.21
Por outro lado, podemos verificar que o posicionamento médio atribuído pelos
delegados ao partido é de 3,7 (de 0 a 10), enquanto para os filiados é de 4,7
(de 1 a 10). Deste ponto de vista, os ativistas apresentam posições ideológicas
mais radicais, facto que se confirma também pelos dados recolhidos em
congressos anteriores.22 Em relação aos ideological misfits, a proporção dos
ativistas que apresentam uma incongruência em relação ao próprio partido é
bastante significativa (21,4% dos delegados e 23,3% dos filiados). Isso
significa que cerca um em cinco filiados ou delegados se posiciona dois ou mais
pontos de distância em relação ao PS, sendo a posição dos ativistas
maioritariamente à esquerda do partido.23 Esta variável é, de facto, a que se
relaciona mais fortemente com os indicadores da perceção da democracia intra-
partidária. A correlação mais forte regista-se para as variáveis os dirigentes
não se interessam pela opinião dos militantes e é desejável aumentar a
democracia interna do partido, mas resulta estatisticamente significativa para
todos os indicadores considerados. Os ativistas que apresentam uma maior
incongruência ideológica em relação ao próprio partido são também os mais
críticos relativamente ao funcionamento interno.
Para além da distância ideológica, outro fator que pode estar associado à
avaliação da democracia interna relaciona-se com as motivações que levaram à
adesão ao partido. Em geral, distinguem-se três razões principais para a
militância partidária: ideológicas, materiais ou processuais (Whiteley e Seyd,
1996; 2002). Com base nos resultados empíricos existentes (Baras etal., 2012),
é plausível que os ativistas que aderem mais por razões programáticas ou
ideológicas defendam também mais ativamente uma maior democratização, isto é,
sejam mais críticos em relação à qualidade democrática da organização
partidária. Para testar o impacto potencial desta variável utilizou-se uma
variável dicotómica que assume o valor 1 quando os ativistas expressam
motivações ideológicas e o valor nulo quando a adesão é determinada por outras
razões.24
Outro fator que afeta a perceção do funcionamento interno dos partidos
relaciona-se com o grau de participação e envolvimento nas atividades
partidárias. Os estudos de caso sobre democracia intra-partidária indicam que
quanto menos ativos, mais negativa é a avaliação dos filiados em relação ao
funcionamento interno (Baras et al., 2012). No caso do PS, esta variável foi
operacionalizada utilizando vários indicadores relativos ao grau de ativismo. O
primeiro refere-se à frequência das reuniões partidárias, enquanto o segundo se
baseia nas horas de trabalho dedicadas semanalmente às atividades partidárias.
Quanto às variáveis dependentes, utilizam-se dois indicadores para medir as
atitudes relativas à democracia intra-partidária. A primeira dimensão diz
respeito à insatisfação face à influência dos ativistas na vida do partido,
enquanto a segunda assenta num índice de responsividade construído a partir
de dois itens (a influência dos filiados na vida interna e o interesse dos
dirigentes em relação às opiniões das bases). Estes dois itens foram escolhidos
pelo facto de apresentarem a correlação mais elevada em ambas as amostras
consideradas (coeficiente kendall tau-b 0.60, p<.01) dentro do conjunto das
variáveis que medem a democracia interna.
Os resultados da análise multivariada indicam que, em geral, os delegados que
desempenham um cargo público tendem a estar mais satisfeitos do que os
ativistas que não ocupam nenhuma posição institucional (Quadro_3). Para além
disso, ambas as variáveis relativas à participação alcançam significância
estatística. Os ativistas menos envolvidos nas atividades do partido ' com
menos horas de trabalho partidário e que participam com menor frequência nas
reuniões ' são os que apresentam uma avaliação mais crítica da democracia
intra-partidária. Finalmente, a educação também é importante para discriminar a
avaliação da qualidade democrática da organização partidária. O coeficiente
sugere que quanto maior for o nível de educação, maior é a insatisfação
relativamente ao funcionamento interno do partido. Finalmente, é interessante
notar que nem os anos de militância nem o período de entrada no partido
aumentam a capacidade explicativa do modelo, não tendo qualquer impacto
significativo sobre a satisfação ou sobre a influência dos filiados dentro do
partido.
A análise multivariada para o índice da democracia intra-partidária apresenta
resultados parcialmente distintos. Do ponto de vista sociodemográfico, as
mulheres e os ativistas mais novos tendem a ter uma opinião mais negativa
acerca da influência dos filiados. Mas a variável com um maior impacto é a
distância ideológica entre os delegados e o próprio partido. O resultado
confirma a hipótese inicial, segundo a qual uma maior distância ideológica
corresponde a uma visão mais crítica da importância dos filiados na vida
interna do partido. A ocupação de cargos partidários também resulta um fator
significativo, sendo que os delegados sem qualquer posição de relevo expressam
uma visão mais crítica em relação à democraticidade interna.
Passando à análise dos determinantes da democracia intra-partidária para os
filiados, confirma-se em geral a importância da ideologia, da participação e do
status institucional ou partidário sobre a avaliação do funcionamento interno.
No caso do índice de responsividade, a distância ideológica, as horas de
trabalho e a ocupação de cargos dentro do partido apresentam uma significância
estatística elevada (p.<001). Os efeitos vão na direção esperada, confirmando
as hipóteses de partida. Este modelo funciona ainda melhor no caso da
satisfação na vida interna do partido. Apesar de os cargos partidários e a
ideologia terem um impacto maior, todas as variáveis associadas aos três
paradigmas explicativos alcançam níveis standard de significância estatística.
CONCLUSÕES
O presente artigo teve três objetivos principais. Em primeiro lugar, analisou a
perceção dos ativistas em relação à democracia intra-partidária. Em segundo
lugar, procurou-se examinar as diferenças entre filiados e delegados nas
atitudes relativas ao funcionamento interno do PS. Finalmente, o terceiro
objetivo prende-se com os fatores explicativos da maior ou menor insatisfação
relativamente à influência dos diferentes tipos de filiados na vida interna do
partido.
Antes de destacar as principais conclusões deste estudo, é importante
evidenciar as suas limitações. Devido ao caráter não aleatório das amostras e,
no caso do inquérito aos delegados, ao reduzido número de casos, não é possível
fazer generalizações. Deste ponto de vista, este contributo tem principalmente
um caráter exploratório, procurando examinar um problema sobre o qual o
conhecimento existente era praticamente nulo. Contudo, os controlos que foram
conduzidos relativas às amostras utilizadas reforçam a validade dos dados
recolhidos e a confiança nos resultados alcançados. Para além disso, no caso
dos delegados a relativa homogeneidade da elite intermédia confere um caráter
mais robusto à qualidade normalmente associada a este tipo de dados.
A análise das opiniões dos ativistas socialistas acerca da democracia interna
evidencia pelo menos três conclusões principais. A primeira conclusão deste
estudo é que a demanda para uma maior democracia intra-partidária é presente
não apenas na opinião pública ou nos militantes de base, mas também dentro de
um grupo substancial da elite intermédia, tradicionalmente mais envolvida na
tomada de decisões e mais comprometida com a estabilidade organizacional. Isso
significa que, em abstrato, há uma proporção substancial de ativistas que apoia
a implementação de reformas no sentido de uma maior democratização. No entanto,
os filiados apresentam uma maior insatisfação em relação à vida interna do
partido quando comparados com as atitudes da elite intermédia. Estes resultados
confirmam, em geral, a primeira e segunda hipóteses colocadas por este estudo.
No entanto, a interpretação deste resultado exige alguma cautela devido às
diferentes metodologias utilizadas na recolha dos dados.
Em segundo lugar, os resultados confirmam estudos anteriores relativos ao
perfil dos ativistas mais críticos. Em particular, os filiados e delegados que
defendem a necessidade de uma maior democracia intra-partidária são os menos
ativos e os que se identificam menos com as posições do partido. Neste sentido,
os dados sugerem que é pouco provável que o funcionamento interno seja alterado
através de reivindicações mais explícitas e uma maior mobilização por parte dos
militantes. Por outras palavras, uma maior democratização da vida interna do
partido depende sobretudo de uma ameaça externa ou de uma decisão estratégica
por parte dos líderes. Deste ponto de vista, os resultados deste estudo
contribuem para explicar a grande inércia organizacional dos partidos
portugueses e o facto de a mudança ter sido, antes de mais, a consequência de
fatores externos tais como uma derrota eleitoral ou a passagem para a oposição
(Lisi, 2011).
A terceira conclusão diz respeito às determinantes da perceção da democracia
intra-partidária. Apesar de recobrir a mesma posição dentro do partido, a
perceção do grau de democraticidade varia de forma significativa dentro dos
diferentes tipos de ativistas. A conjuntura em que se realizaram os inquéritos
(com o partido na oposição) pode ter influenciado a avaliação da democracia
intra-partidária, aumentando as posições críticas dos ativistas. Os resultados
sugerem que há uma divisão entre os que fazem política por profissão, exercendo
cargos públicos ou partidários, e o resto dos militantes. Os primeiros tendem a
estar mais satisfeitos com as oportunidades oferecidas pela organização para
influenciar as decisões, enquanto os filiados de base são mais favoráveis a
mudanças do status quo no sentido de uma maior democratização. A confirmar-se,
este fenómeno seria uma indicação do pragmatismo da elite partidária, mais
interessada em assegurar a continuidade das suas funções e a autorreprodução da
(futura) direção política e partidária do que em pôr em causa os equilíbrios
existentes. Esta consideração sugere também a instrumentalização do debate
sobre democracia intra-partidária e a utilização das reformas internas como
instrumento de conquista de poder por parte dos candidatos à liderança
partidária ou como formas de resolver problemas da direção do partido. Como
demonstrou o recente debate acerca das reformas organizativas e da revisão dos
estatutos do PS durante a liderança de António José Seguro, a mudança ocorreu
de forma circunstancial, sem um debate alargado e com uma grande indefinição
quanto aos objetivos que se procura alcançar, acabando por neutralizar ou
marginalizar a discussão sobre a necessidade de rever as orientações
programáticas ou a estratégia de alianças.
Quais as implicações deste estudo? Por um lado, a análise da perceção dos
ativistas relativamente ao funcionamento interno pode ajudar a interpretar as
razões que levam os militantes a saírem ' ou não fazer parte ' das
organizações partidárias. O facto de os filiados e delegados mais críticos
serem também os menos ativos pode ser o primeiro passo para deixar de exercer a
militância dentro dos partidos. Deste ponto de vista, estes resultados podem
também contribuir para explicar as tendências da filiação, pelos menos nos dois
principais partidos onde os laços entre militantes e a organização partidária
têm sido mais fracos e instáveis. O facto de uma parte substancial de os
ativistas achar que a liderança é indiferente às preferências dos filiados e ao
contributo que podem fornecer ao partido pode ser o primeiro passo para a
desmobilização, ou pelo menos pelas fracas lealdades internas. No entanto, é
necessário explorar melhor a relação de causalidade entre ativismo e avaliação
da democracia intra-partidária, pois estudos recentes sugerem que a
democratização dos partidos reforça os níveis de participação dos mais
envolvidos e as opiniões positivas sobre o funcionamento interno, sem afetar de
forma significativa as atitudes e os comportamentos dos mais apáticos (Sandri e
Amjahad, 2015).
Por outro lado, esta análise evidencia a tensão entre o objetivo de
democratizar internamente os partidos e os resultados destas reformas em termos
de políticas. Como alguns estudos evidenciam (Rahat, 2013; Gauja, 2013), uma
maior democracia intra-partidária não implica necessariamente políticas mais
inclusivas e representativas. Dado o caráter elitista dos ativistas (elevado
status sócio-profissional), um maior poder aos filiados pode levar à
marginalização dos interesses mais gerais em detrimento de interesses cada vez
mais específicos ou setoriais. Last but not least, a interpretação destes
resultados pode estar relacionada com a importância dos contactos pessoais
dentro das organizações partidárias. Uma ideia que merece ser explorada no
futuro é a de que os mais ativos estão mais satisfeitos com o funcionamento
(formal) do partido porque podem utilizar os contactos informais para
influenciar as principais decisões.
Apesar das limitações que os dados utilizados apresentam, este estudo considera
um aspeto claramente negligenciado pela literatura e difícil de analisar
empiricamente. Deste ponto de vista, vem preencher uma lacuna fundamental para
o estudo dos partidos em Portugal. Para além disso, este contributo é apenas o
primeiro passo para investigar outros aspetos importantes e pouco explorados
como, por exemplo, o facciosismo interno, as razões que levam à adesão ou à
saída dos filiados, assim como os processos de decisão interna.