Trabalhar (n)os grupos de teatro: das potencialidades e desafios de uma
investigação nas artes
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Trabalhar (n)os grupos de teatro: das potencialidades e desafios de uma
investigação nas artes
Vera Borges*, Pedro Costa* e Susana Graça**
*DINÂMIA'CET, ISCTE-IUL, Av. das Forças Armadas, s/n 1649-026, Lisboa,
Portugal. E-mails: vera.borges@iscte.pt e pedro.costa@iscte.pt
**Erasmus Institute for Philosophy and Economics, Faculty of Philosophy, Campus
Woudestein, H-Building, 5th floor, Burgemeester Oudlaan 50 3062 PA, Roterdão,
Holanda. E-mail: susanamgraca@gmail.com
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Em novembro de 2012, o colóquio internacional Desvendando o Teatro:
Criatividade, Públicos e Território proporcionou às equipas de investigação em
arte e cultura, reunidas no Instituto de Ciências Sociais ' Universidade de
Lisboa (ICS-UL), uma discussão muito útil e de grande interesse, que inspira
esta reflexão em torno das potencialidades e dos limites de uma investigação
nas artes, nomeadamente sobre o mundo do teatro.1 Não sendo este tipo de
reflexão uma novidade, devemos, no entanto, acentuar que a virtude deste breve
ensaio é podermos explorar, de uma forma organizada e sistemática, as
implicações que a nossa pesquisa tem no terreno e as bases em que é construída.
Mais do que conteúdo da comunicação por nós apresentada nesse encontro (Borges,
Costa e Graça, 2012a), visamos aqui proporcionar uma reflexão que nos foi
suscitada pela discussão havida aquando dessa mesma apresentação, procurando
com este texto contribuir para o debate acerca da prática de investigação nas
artes, numa perspetiva de análise empiricamente informada pelo quotidiano dos
grupos de teatro (na região de Lisboa) e, em geral, das estruturas culturais
que operam no país.
Num texto publicado em Createquity Guest Blog, Ann Markusen (2012) perguntava:
por que razão os indicadores, que utilizamos para estudar o creative
placemaking, não têm o mesmo sucesso que a temática, propriamente dita, tem
tido? A pergunta, muito sugestiva e pertinente, associa-se a outras questões,
mais amplas, que orientam a presente reflexão: como estudar o trabalho
artístico, que estratégias metodológicas seguir, que indicadores e caminhos de
investigação são possíveis? Que obstáculos e desafios? Como compatibilizar a
investigação aplicada sobre esta realidade com um papel ativo no apoio a
elementos que possam servir de base à definição de políticas públicas? Como
melhorar as nossas práticas de investigação e de análise, no terreno das artes
performativas em particular, e das artes e da cultura, em geral?
São estas as questões que nos ocupam nos pontos seguintes. Por um lado,
apresentamos as principais potencialidades e oportunidades que o estudo dos
mundos das artes e do teatro nos têm suscitado, bem como aquilo que de
particular nos oferece, na relação entre as nossas práticas de investigação e
estes objetos, nomeadamente através das abordagens que temos tentado
prosseguir. Por outro lado, abordamos os limites, os obstáculos e as
impossibilidades destas pesquisas, tendo em conta a mesma referência de prática
empírica. Por fim, assinalamos as conclusões a retirar desta reflexão, as quais
configuram as nossas perspetivas para desenvolvimentos futuros.
POTENCIALIDADES E OPORTUNIDADES DE UMA INVESTIGAÇÃO APLICADA E MUITO PRÓXIMA DO
MUNDO DO TEATRO (E DAS ARTES)
O estudo que apresentámos durante o encontro descrevia o mundo do teatro na
região de Lisboa e Vale do Tejo, nomeadamente o segmento apoiado pela Direção-
Geral das Artes (DGArtes), e tinha dois objetivos principais: (i) escrutinar a
diversidade de organizações artísticas, as modalidades de trabalho e de
funcionamento dos grupos de teatro e das equipas, os tipos de espetáculos,
públicos, configurações de financiamentos; e (ii) avaliar os principais dilemas
que se colocam à intervenção pública e à definição de políticas públicas para
as artes, em particular para o teatro (para um referencial sobre este trabalho
de investigação, v. Borges, Costa e Graça, 2012 e Costa, Borges e Graça, 2014).
No âmbito desta pesquisa, destacamos primeiro a possibilidade de fazer uma
articulação entre as construções teóricas e conceptuais (das artes, das
profissões, das organizações e estruturação dos mercados, dos estudos
territoriais, das políticas públicas) e os modelos de análise empírica.
Procuramos inscrever a nossa pesquisa nos debates teóricos, metodológicos,
críticos e comparativos em que a sociologia e a economia, nacional e
internacionalmente, têm vindo a intervir, utilizando uma perspetiva
interdisciplinar e plural na sua aplicação.2
O debate em torno de conceitos e estratégias metodológicas é transversal a
qualquer domínio artístico (Crane, 1992; Bowler, 1994). Dos mundos das artes
às artes-em-ação (Becker, 1982; Acord e DeNora, 2008), os desafios que se
colocam à investigação nas artes acompanham as suas encruzilhadas, discutindo-
se hoje, por exemplo, a necessidade de novas metáforas e abordagens no
discurso público para velhas questões, como a da cultura em crise (McDonnell
e Tepper, 2014). Por seu turno, ao estudo da dimensão económica dos mundos
artísticos (já conhecida e medida, com exceção dos setores mais informais de
produção), juntam-se ainda a sua dimensão organizacional (Zolberg, 1983; Crane,
1992), cultural (os objetos artísticos e os seus sentidos, Fuente, 2007; o
julgamento do seu valor, Van Maanen, 2009), social (impacto das estruturas
artísticas nas redes comunitárias, na participação dos públicos) e a qualidade
de vida de consumidores e indivíduos envolvidos nas artes (pela aquisição de
competências, impacto na aprendizagem, relação entre diferentes gerações,
etc.).
Todas estas dimensões de investigação nas artes são hoje enriquecidas por uma
discussão que ultrapassa o binómio qualitativo/quantitativo, e promove uma
fertilização cruzada de abordagens conceptuais e metodológicas, com o reforço
das evidências empíricas, e ancorada nas práticas dos atores sociais e das
organizações culturais.3 Esta fertilização cruzada ganha, quanto a nós, uma
dimensão suplementar quando consegue assentar em ferramentas que nos permitam
uma monitorização (sociológica), próxima das práticas quotidianas dos
intervenientes, dos seus problemas e desafios concretos, as quais nos fornecem
um valor acrescentado em relação a abordagens metodológicas mais convencionais
ou ortodoxas.
Chegamos assim à segunda potencialidade deste estudo: o desenho de uma
estratégia metodológica que permita avaliar e monitorizar, em tempo útil, o
comportamento das estruturas artísticas portuguesas. Esta afigura-se, aliás,
como uma das maiores potencialidades da pesquisa, mais ainda se esta for
realizada em parceria com académicos, técnicos e estruturas, e orientada para a
ação. Os técnicos estão fortemente implicados com o terreno, trabalham nas
instituições culturais públicas que lidam diretamente com as estruturas
artísticas e funcionam como informantes privilegiados, para utilizar as
palavras de Firmino da Costa (1986, pp. 129-140). Dito de outra forma: este
tipo de investigação deve criar instrumentos que permitam avaliar e monitorizar
a composição e a estruturação das organizações artísticas e das suas equipas,
ativando um laboratório de dados permanentes, atuais e disponíveis para as
instituições que definem as políticas públicas (nacionais e locais) e para a
comunidade científica em geral.
Deste modo, na atividade de levantamento, caracterização e observação das
estruturas artísticas podemos, e devemos, forjar um sistema de análise de
evolução das mesmas, (como sugerem, por exemplo, Markusen, 1999 e Mercer,
2003). Na verdade, tudo isto deve ser feito sem perder de vista os conceitos,
as suas relações e a forma como respondem aos problemas (Almeida, 2007) e se
constroem diariamente no vai-e-vem da teoria aos elementos operacionais
(Pais, 2001), da estatística e dos indicadores aos contextos operacionais de
governança (Mercer, 2003, p. 4). Trata-se pois de apoiar as instituições no
sentido de criar bases de dados, estatísticas, e indicadores robustos e
instrumentos que funcionem per se.4 O sucesso de um projeto desta natureza
assenta numa relação de confiança entre os investigadores e as estruturas
teatrais apoiadas (leia-se, as estruturas culturais, em geral), processo que
deve ser construído de forma sólida e duradoura e pode ter o apoio da entidade
financiadora e coletora de informação (neste caso, a DGArtes).
Essas fontes alimentam-se, produzem e gerem dados (qualitativos e
quantitativos) que podemos utilizar e analisar enquanto fontes primárias, mas
que não dependem diretamente de nós para se produzirem de forma continuada e
fiável.5 Assegurar a manutenção e a sustentabilidade destas bases de dados
culturais (e o seu envolvimento em pesquisas e quadros conceptuais de suporte)
vai permitir conhecer mais, agir e tomar decisões mais informadas no mundo do
teatro em Lisboa, neste caso concreto. Permitirá ainda dialogar com colegas e
instituições europeias com vista à comparação, que já se vai fazendo, com
outros países (Garcia, 2014; Borges, 2014a e 2014b; Urrutiaguer, 2012 e 2014).
Se, por um lado, as bases de dados6 mais quantitativas promovem uma fotografia
(e permitem uma comparabilidade elementar7) dos grupos de teatro, bem como das
estruturas artísticas e culturais em geral, também é certo que esse quadro
geral beneficiará da possibilidade de desenvolvermos uma atuação complementar
noutra via, a qual ajuda a configurar a terceira potencialidade deste tipo de
trabalho e das investigações nas artes: as entrevistas aprofundadas e os
estudos de caso, iluminados pela nossa pesquisa no terreno e pela observação
continuada, que nos permite demonstrar as especificidades de cada estrutura,
como se aproximam e se afastam umas das outras.
Assim, a terceira potencialidade deste trabalho decorre da observação
continuada e da possibilidade de realizar entrevistas (formais e informais)
que permitem ultrapassar uma visão baseada na mera compilação e análise de
indicadores (quantitativos ou qualitativos) sobre este campo cultural. Em
publicações sobre o trabalho nos grupos de teatro (Borges, 2007; Borges, Costa
e Graça, 2012; Costa, Borges e Graça, 2014; Borges e Lima, no dossiê temático
deste número da Análise Social), na investigação e nas atividades profissionais
que cada um de nós prossegue diariamente, verificamos que o esforço de
selecionar um conjunto de indicadores culturais pertinentes para estudar estas
organizações pode ser dificultado pelas singularidades deste mercado (elencadas
por Karpik na apresentação que fez neste encontro8, bem como por outros autores
' v. Caves, 2002), pelas características sociais do terreno (ultrapassar a
desconfiança ou a resistência dos agentes, sejam os próprios grupos, sejam as
instituições de suporte, é um desafio permanente), pela falta de articulação,
sistematização anterior e/ou insuficiência pura e simples de dados (Costa,
2007; Johanson, Glow e Kershaw, 2014), mas é um esforço necessário e representa
uma das maiores potencialidades de uma área científica que reputamos de muito
promissora.9
Como lembrou A. Abbott (2001), dois métodos são melhores do que um, sobretudo
quando se pretende produzir resultados consistentes10, por isso esta terceira
potencialidade opera já no sentido de melhorar o funcionamento dos próprios
grupos de teatro e estruturas culturais em geral, clarificando os obstáculos ao
seu funcionamento eficaz, não tanto pela apresentação de pequenas histórias ou
curiosidades, a que o mundo artístico é afinal tão permeável, mas pela
descrição destes mini-mundos sociais e das redes de cooperação e conflito
dos intervenientes e a sua organização (Strauss, 1992, apresentado por
Baszanger; Becker, 1970). Isto representará, afinal, inevitavelmente, uma mais-
valia para as organizações culturais, para a atuação pública que se exige
informada e conhecedora da realidade sobre a qual, em nome do interesse
público, atua quotidianamente.
OS LIMITES DA INVESTIGAÇÃO OU OS CONTEXTOS DE OPERAÇÃO: ESCOLHAS, MOTIVAÇÕES
E CONSEQUÊNCIAS DA ANÁLISE
Ao lançarmo-nos na missão de investigar e caracterizar o setor do teatro na
região de Lisboa e Vale do Tejo na perspetiva prosseguida tivemos, desde logo,
a clara noção de que iriamos ser confrontados com algumas limitações nos
contextos de investigação, que naturalmente restringiriam o potencial destes
instrumentos analíticos e metodológicos. Trataremos aqui essas limitações como
desafios à nossa investigação nas artes. As razões associadas a estas
limitações prendem-se com (i) as próprias restrições inerentes ao universo da
nossa análise e às amostras escolhidas, (ii) os critérios associados à
definição das categorias selecionadas para análise, as suas subdivisões e os
indicadores representativos dessas categorias; e, indissociável das anteriores,
(iii) a questão da forma (metodologias, técnicas, procedimentos) como os dados
podem na prática ser recolhidos no terreno, e ser sistematizados, e
posteriormente tratados. Todas estas opções metodológicas têm um conjunto de
implicações em termos de análise, que exploramos brevemente nesta secção.
A amostra com a qual nos propusemos trabalhar para analisar o mundo da arte em
causa cingiu-se a uma região do país, a uma área artística e a três tipologias
de apoios, nomeadamente apoios bienais, quadrienais e tripartidos (Costa,
Borges e Graça, 2014). Independentemente de este estudo exploratório poder
lançar as sementes para outros estudos mais abrangentes, e passíveis de ser
alargados a outras regiões, outras áreas de apoio (que não o teatro) ou outros
tipos de apoio (ou de estruturas não apoiadas pela DGArtes), a sua metodologia
e lógica de análise estão desde logo formatadas pela natureza do processo de
investigação prosseguido por estas opções.
À partida, sabemos que a região com a qual estamos a trabalhar possui
características muito próprias no contexto do país, essencialmente por incluir
a capital. A força de atração de uma cidade capital em qualquer país é grande
e, em geral, no caso das organizações de produção artística, os fenómenos de
concentração (quer nas áreas metropolitanas, quer no litoral, no caso
português) notam-se de forma relevante (Menger, 1993; Costa, 2007; Garcia,
2014). Sabemos, portanto, que estamos a tratar de uma região com
características que não podem, nem devem, ser extrapoladas para o resto do
país.
A escolha de uma só área artística decorre do reconhecimento das
idiossincrasias de cada uma delas. Assumimos que qualquer estudo que se debruce
sobre as artes deve respeitar as diferenças entre os modos de funcionamento, de
relacionamento com o público e da sua participação, as formas como é difundida
a informação, etc., específicas a cada setor. O teatro é, dentro das áreas
artísticas apoiadas pela DGArtes, aquela que engloba maior número de estruturas
e que arrecada os maiores apoios. Isto significa que o seu estudo proporciona
resultados com informação relevante para a caracterização do setor, que tem de
ser bem enquadrado dentro desta realidade. Evidentemente que, se de entre as
dez estruturas mais apoiadas, a maioria diz respeito a estruturas de teatro,
quaisquer resultados que possamos obter, por mais simples que sejam, estarão
sempre distantes daqueles que obteríamos se estudássemos outras áreas
artísticas. Temos consciência desta especificidade do teatro e não a
consideramos um fator negativo. Pelo contrário, queremos enfatizar que as
formas de organização artística e administrativa estão profundamente
dependentes de fatores como este (o apoio público) e só conhecendo em
profundidade essas características específicas e as suas implicações podemos
almejar produzir informação relevante para a reflexão sobre políticas públicas
para o setor.
Esta amostra apresenta um número de casos que equivale à soma de todos os que
existem no resto do país, o que significa uma diversidade extremamente rica.
Se, por um lado, é certo que esta riqueza nos proporciona um panoramaalargado e
representativo do meio do teatro, por outro torna mais difícil de encontrar uma
plataforma comum que permita efetivamente realizar comparações com significado
legível. O reconhecimento da pluralidade de formas de funcionamento é, desde
logo, a base da nossa análise. Os pontos comuns que vamos encontrando entre as
diferentes estruturas analisadas tornam-se, assim, pontos fulcrais para que
consigamos construir uma imagem coerente da área do teatro na região de Lisboa
e Vale do Tejo. Não nos interessa, no entanto, olhar os dados com o propósito
de encontrar apenas semelhanças; é tão importante para esta investigação aquilo
que as estruturas poderão partilhar, como aquilo que as diferencia, como já
referimos mais a cima, uma vez que no campo artístico a diferenciação e
distinção do projeto artístico, modelo organizacional e de divulgação, tipos de
públicos e modalidades de participação, relação com a comunidade local, entre
outros, são fatores-chave para o sucesso e para a sustentabilidade de cada
estrutura.
Os diferentes períodos de apoio estudados excluem os apoios pontuais e as
estruturas não apoiadas, que certamente iriam introduzir tendências diferentes
daquelas que podemos encontrar na nossa amostra. Não podemos negar que os
projetos pontuais apoiados nos diriam muito sobre as dinâmicas da nova criação
artística, provavelmente de pendor mais experimental, e com modos de
funcionamento variados e criativos. Dados sobre estas estruturas e sobre
projetos e estruturas culturais não apoiados, mas a operar e recenseados nas
bases de dados da DGArtes (Garcia, 2014; Borges, 2014, pp. 101-106),
demonstram-nos isso mesmo, bem como o facto de terem projetos mais próximos das
populações, como também ficou demonstrado recentemente (Lopes e Dias, 2014;
Borges, 2014b). Mas no caso dos grupos de teatro que aqui analisamos, esta
exclusão tem a ver com o nosso foco em estruturas que possam permanecer no
tempo e, com a continuação do estudo através dos vários anos de apoio, nos
permitam estabelecer as tendências não só relativamente ao meio do teatro, mas
também em relação aos percursos das estruturas e dos indivíduos que as compõem.
Para a análise das estruturas constantes na nossa amostra selecionámos cinco
grandes categorias: (i) estrutura organizacional, (ii) trabalho artístico,
(iii) relação com o mundo da arte, (iv) estrutura económica e (v) âmbito
territorial (Borges, Costa e Graça, 2012b; Costa, Borges e Graça, 2014; Borges
e Lima, 2014). Escolher é eliminar, pelo que tivemos de usar o nosso
conhecimento da realidade das estruturas artísticas para conseguir uma seleção
que conjugasse os elementos essenciais: relevância para a caracterização do
setor, possibilidade de tratamento rigoroso e abrangência de aspetos abordados.
Qualquer investigação implica depois o isolamento de fatores, no entanto aquilo
que nos pode conduzir a resultados simultaneamente corretos e úteis é a
utilização de fatores que são reconhecidamente os mais relevantes dentro de um
determinado universo.11
Temos conhecimento de muitas categorias que, potencialmente, poderiam ser
aplicadas a um estudo deste tipo e explorámos a possibilidade de inclusão de
algumas delas. O resultado a que chegámos ' a seleção destas cinco categorias
em concreto ' advém de um exercício de avaliação do peso de cada uma na
estruturação da atividade de produção teatral. O mesmo se aplica aos
indicadores criados para categorizar as estruturas artísticas em causa. Muitos
seriam possíveis, no entanto estes acumulam capacidades de produção de
informação e um grau de exequibilidade e de pertinência que outros indicadores
considerados não apresentaram.
Finalmente, há limitações inerentes à forma como podemos recolher e tratar os
dados no contexto da investigação. A nossa abordagem é sempre a de ouvir o que
as estruturas têm a dizer sobre si mesmas, seja através dos seus planos e
relatórios, ou em situação de entrevista. É um critério que assegura a
identificação das estruturas com os dados que tratamos, o que significa uma
ligação à realidade que é fundamental dentro da nossa metodologia e que
contribui para a potencial utilidade do nosso estudo, não só como informação
para a formulação de políticas, mas também para utilização por parte do setor
do teatro. É uma abordagem que permite assumir uma pluralidade de narrativas e
de lógicas discursivas, o que traduz igualmente uma característica fundamental
do setor. É uma abordagem que sacrifica algum distanciamento e neutralidade na
produção dessa informação, o que é encarado de forma desassombrada, mas
cuidada, no processo de investigação.
Temos assim como condicionantes maiores três tipos de impossibilidades com as
quais temos de lidar em permanência nos contextos de investigação das artes: a
impossibilidade de extrapolar para além do âmbito artístico, territorial e
temporal da nossa amostra; a impossibilidade de harmonizar os dados de uma
pluralidade de situações que a nossa amostra contém; e a impossibilidade de
englobar na nossa análise todos os aspetos e elementos que compõem uma
realidade tão rica e diversa como a da produção teatral, que exige uma
adequação do nosso trabalho (e dos indicadores culturais mais pertinentes) ao
contexto específico em que se enquadram. Nenhuma destas impossibilidades,
porém, coloca em risco o rigor e a utilidade das conclusões a que chegamos, as
quais devem ser lidas à luz destas condicionantes, assumindo as naturais
limitações da análise, mas tendo consciência das vantagens que a aplicação
destas metodologias em contrapartida nos proporcionam.
NOTA CONCLUSIVA
Sistematizámos neste texto aquelas que são as principais potencialidades,
desafios e inquietações de um percurso de investigação sobre o mundo do teatro
em Lisboa, a partir de uma abordagem que temos vindo a desenvolver ao longo dos
últimos anos. Tendo em conta o facto de este ser um processo de investigação em
desenvolvimento, que visa ser alargado a uma análise mais ampla tanto da
realidade do mundo teatral no país, como de outros mundos da arte, e
aproveitando também a interessante reflexão suscitada pelo colóquio
internacional que deu lugar ao dossiê temático publicado neste número da
Análise Social, julgámos pertinente elencar as principais potencialidades e as
maiores limitações com que nos confrontamos, em termos das especificidades do
contexto de operação, nas estratégias metodológicas prosseguidas,
convocando para este debate outros investigadores com interesse nestas
temáticas.
Em concreto, este processo de investigação é caracterizado por uma ligação
muito prática e direta à realidade empírica aqui abordada, a qual foi
facilitada pelo enquadramento dos investigadores numa comissão de
acompanhamento e avaliação das próprias estruturas teatrais em análise, durante
esse período.12 Esta proximidade permitiu um estudo direto e em tempo real
acerca das estruturas, suas lógicas de funcionamento e estruturação, e dos seus
dilemas quotidianos, colocando à equipa de investigação significativos e
constantes desafios científicos, conceptuais, metodológicos e epistemológicos.
As oportunidades e as condicionantes elencadas neste ensaio são um contributo
para esta discussão, sendo assumidas pelos investigadores como elementos que
reforçam a confiança e a aposta que têm vindo a fazer neste tipo de trabalho,
com a convicção de que os seus aspetos positivos compensam claramente as
debilidades da abordagem e os obstáculos que têm de ser ultrapassados,
permitindo no cômputo geral uma maior capacidade reflexiva e um conhecimento
mais aprofundado sobre este mundo artístico.
Não gostaríamos, no entanto, de deixar de resumir aqueles que são, quanto a
nós, os principais contributos desta reflexão, aos quais se associam os
principais desafios destas abordagens na investigação nas artes. Em primeiro
lugar, a assunção de uma análise muito baseada no acompanhamento próximo e
direto de cada uma das estruturas per se, quase numa lógica de estudo de
caso, que depois são tratados e confrontados numa perspetiva mais global. Esta
abordagem parte, por um lado, da combinação de metodologias de análise
quantitativas e qualitativas (utilizando estatísticas oficiais e outra
informação de segunda ordem, recolhida pela via dos atos administrativos, mas
muito baseada na recolha de informação de primeira ordem, as entrevistas e os
questionários e a observação continuada, por vezes, participante); por outro
lado, baseia-se numa lógica de acompanhamento e monitorização permanente, quase
como um observatório, mas em articulação com os organismos produtores de
informação.
Em segundo lugar, a grande proximidade em relação a cada uma das estruturas
neste processo. A gestão dessa proximidade é um desafio crucial, e passa por um
conjunto de equilíbrios (na investigação e na ação) que importa quotidianamente
manter e não descurar. Por um lado, a gestão do duplo papel desempenhado pelo
investigador (como cientista social, mas também como membro da comissão de
acompanhamento e aconselhamento das estruturas em análise); por outro lado, a
gestão da pseudo-objetividade do processo de investigação ' por muito que os
investigadores tenham a convicção da sua impossibilidade absoluta, um processo
destes exige maiores cuidados neste campo ' e da proximidade ao objeto de
investigação (com o velho risco de tomar a árvore pela floresta e dos
próprios critérios e metodologias de abordagem condicionarem a visão de
conjunto do setor).
Finalmente, em terceiro lugar, o caráter operativo e orientado da análise para
a formulação de política, muito virada para a produção de instrumentos que
possam ser úteis para a atuação, nomeadamente ao nível de políticas públicas
para o setor. Com efeito, este trabalho tem o objetivo de compreender estes
mundos da arte, mas igualmente o objetivo pragmático de fornecer ferramentas
aos decisores políticos e aos técnicos para atuarem sobre o setor. É neste
contexto extremamente desafiante que podemos contribuir para dotar a estrutura
técnica da administração de saber-fazer, conhecimentos específicos e práticas
metodológicas, bem como apreender e recolher junto dos intervenientes toda uma
panóplia de conhecimentos codificados, mas sobretudo tácitos, que normalmente
não chegam à academia, promovendo um efetivo diálogo entre prática científica e
comunidade.
Será, portanto, de destacar a crucial importância da gestão permanente destes
três fatores, com plena consciência da fronteira (e dos limites) que aqui se
exploram em relação ao fazer ciência, mas também claramente apostados em
procurar formas mais inovadoras, estimulantes e (esperamos) compensadoras, de
conhecer o setor e de dotar os agentes que o constituem e os técnicos e
decisores políticos que nele atuam de ferramentas úteis para a sua ação
quotidiana.