Desvendando o teatro: criatividade, públicos e território
DOSSIÊ
Desvendando o teatro: criatividade, públicos e território
Os Editores
Vera Borges*, Pedro Costa* e Claudino Ferreira**
*DINÂMIA'CET, ISCTE-IUL, Av. das Forças Armadas, s/n 1649-026, Lisboa,
Portugal. E-mails: vera.borges@iscte.pt e pedro.costa@iscte.pt
**CES,Universidade de Coimbra, Colégio de S. Jerónimo, Largo D. Dinis, Apartado
3087 3000-995 Coimbra, Portugal. E-mail: claudef@fe.uc.pt
A inspiração para este dossiê surgiu no colóquio internacional organizado pelo
ICS-ULISBOA, DINÂMIA'CET-IUL e CES-FEUC, em novembro de 2012, no qual se
reuniram equipas destes e de outros centros, bem como colegas, alunos,
profissionais do espetáculo, jornalistas e decisores políticos.1 Duas
importantes key-note conferences, proferidas por L. Karpik (École des Hautes
Études, Paris) e A. Markusen (University of Minnesota, USA), lançaram as linhas
centrais do debate. Discutiu-se o teatro, a criatividade, os seus públicos e a
relação com os territórios, focando a análise nas suas dinâmicas e dilemas
atuais, e nos desafios teóricos e metodológicos que o teatro e as artes
colocam, nomeadamente à sociologia, à economia e aos estudos urbanos.
Os artigos que integram este dossiê pretendem contribuir para o desenvolvimento
de algumas destas questões. Como manter, tornar sustentáveis as organizações
culturais, a atividade artística, os artistas e as suas equipas? Que
estratégias nacionais e internacionais podem ajudar a levar mais longe o nome
dos grupos de teatro e dos territórios a que eles estão associados? Que
públicos temos nos teatros portugueses e no mundo? O que fazem hoje os teatros
para recrutar os seus públicos? Em nome de que objetivos e projetos pretendem
recrutá-los? Quais são as consequências deste tipo de dinâmicas para o
enobrecimento de um território, para a sua sustentabilidade cultural, e para
a qualidade de vida das pessoas que o habitam e usam?
Muitos dos desafios e problemas que se colocam hoje às artes, e ao teatro em
particular, prendem-se com as suas organizações culturais, cada vez mais
dinâmicas e diversificadas, sujeitas a fortes constrangimentos, mas encontrando
novos caminhos na sua ação; com os seus artistas e profissionais da cultura,
crescentemente qualificados, trabalhadores por projeto, empresários da sua
carreira, profundamente ligados aos projetos coletivos e às suas dinâmicas
locais; com os seus públicos, muito variados e heterogéneos, à procura de uma
arte mais próxima e colaborativa; com os seus trabalhos, da escrita de palco
à construção de uma cidadania ativa, sujeitos a uma pluralidade de formas de
avaliação e de reconhecimento (v., para o caso francês, o artigo de D.
Urrutiaguer, neste dossiê) − e as suas implicações nos mecanismos de
intermediação, também eles em progressiva desmultiplicação; e, finalmente, os
seus contextos específicos com orientações diversas, enquadradas pela
necessária flexibilidade dos instrumentos das políticas públicas definidas para
este setor.
Em geral, as organizações culturais, os grupos de teatro e os seus artistas
reinventam dia-a-dia a sua missão (Ferreira, 2013; Costa, Borges e Graça, 2014;
Borges, no prelo), as suas trajetórias locais e profissionais, os seus
discursos sobre a arte e os objetos ou as performances, eventos, exposições que
produzem, os modos de trabalhar e apresentar os resultados finais, em grande
parte pela introdução de inovações nos processos e nos materiais utilizados,
mas também nos dispositivos de apresentação e nas formas de divulgação do(s)
teatro(s). Como afirmou L. Karpik na sua conferência, o teatro vive da
proximidade territorial dos seus grupos e das suas audiências; e uma das suas
singularidades é a divulgação, mais limitada do que em outras áreas artísticas,
e muito dependente das redes de relações informais. A mesma informalidade que
caracteriza certos clusters de criação, produção e participação no teatro, no
nosso país (Borges e Lima, neste dossiê). É assim que os públicos também se
reinventam no teatro e na sua participação cultural. A reinvenção dos públicos
faz-se de formas cada vez mais próximas dos artistas, dos seus contextos e
espaços de performatividade, sejam eles teatros, cineteatros, espaços ao ar
livre, como demonstrou A. Markusen na sua conferência, e no texto que aqui
publica com A. Brown.
Por seu turno, as encruzilhadas, desafios e dilemas vividos na arte e no teatro
são experienciados por todos nós, investigadores das artes e da cultura (v.
Alexander e Bowler, 2014) que procuramos novas abordagens para as velhas
questões, as quais nos recolocam dilemas de fundo em relação às lógicas de
pesquisa (Borges, Costa e Graça, no fórum), e nos obrigam a encontrar respostas
para novos desafios, como aqueles descritos no artigo de Dias e Lopes, neste
dossiê.
Por fim, as principais linhas de discussão que se abriram durante o colóquio, a
par da investigação que cada um de nós tem vindo a realizar, a observação de
contextos e processos de produção artística e teatral, permitem-nos elencar
três elementos fundamentais para o entendimento (e a ação) desses desafios e
tecer algumas considerações finais sobre cada um deles:
i A arte é motor de desenvolvimento cultural durável (Unesco,
2013), não apenas como meio instrumental para a obtenção de diversos
outros propósitos mais gerais de desenvolvimento ' muitas vezes
subjacentes a modelos de organização económica nos quais a vida
social precisa de ser justificada pelo mercado ou em termos
utilitários (Alexander e Bowler, 2014, p. 8) ' mas, a arte (o
teatro) deve ser encarada essencialmente como um fim em si mesmo e
como um dos propósitos últimos da noção de desenvolvimento
sustentável;
ii A criatividade alimenta e move os artistas e as suas equipas,
profissionais e/ou amadoras, independentemente das múltiplas
configurações contextuais, organizacionais e socioculturais
subjacentes às dinâmicas de estruturação e evolução deste setor. Mas
a criatividade alimenta naturalmente, também, os seus públicos mais
ativos (não são necessariamente em maior número, mas são mais
comprometidos), dos mais jovens aos segmentos seniores, com novos
modos de participar e de se relacionar com as artes e com os
contextos de fruição e co-criação artística;
iii Os territórios acolhem as experiências artísticas e teatrais,
as suas organizações e os seus artistas, moldam e estruturam
necessariamente as práticas criativas, de intermediação e de fruição
no setor, não só pela via da sua localização, mas sobretudo pela
territorialidade dos processos económicos e sociais que lhes estão na
base, a qual ganha particular relevância no quadro do atual
capitalismo cognitivo-cultural e da forma como ele molda o
ressurgimento do espaço urbano e a importância das dinâmicas
criativas na cidade (Scott, 2008, 2014).
As implicações de uma abordagem sociológica queconjuga e associa estes três
elementos pode levar-nos mais longe na avaliação de políticas públicas na
cultura e na criação de novas propostas mais adequadas aos seus intervenientes
e ao funcionamento dos mundos das artes, mas sugere-nos também a exigência
profunda de realizar, individualmente ou em equipa, muitos mais estudos e
análises sobre as atuais mudanças sociais e económicas, e sobre a forma como a
arte, o teatro, os seus artistas, os seus públicos e territórios se adaptam,
fortalecem, são vulneráveis mas participantes ativos e implicados nas
transformações das sociedades contemporâneas.