Que trajetórias de classe? Uma análise da mobilidade social em duas gerações de
portugueses
INTRODUÇÃO
A sociologia das classes e estratificação social é um dos domínios clássicos
duradouros na sociologia portuguesa (Machado, 2009). O próprio desenvolvimento
e autonomização da sociologia portuguesa, enquanto disciplina científica
autónoma, se relaciona com a evolução da sociologia das classes e da
estratificação social. Quer pela sua longevidade, quer pela sua ligação às
raízes da sociologia em Portugal, a temática da estratificação e das classes
sociais acumula uma assinalável riqueza em termos de património teórico, de
discussão epistemológica, de pluralidade metodológica, como ainda de produção
empírica.
Atualmente identificam-se duas grandes linhas de investigação acerca das
classes sociais na sociologia portuguesa.1 A linha dominante, ou pelo menos com
maior produtividade, é a que parte do trabalho de autores procedentes do ISCTE.
Ao longo de uma série de trabalhos sobre os mais variados temas desenvolveram
uma tipologia de classes (designada por ACM) que tem sido uma das ferramentas
mais utilizadas na análise das classes sociais em Portugal na última vintena de
anos, dispondo já de considerável acumulação cognitiva e empírica em vários
projetos de investigação (Almeida, Costa e Machado, 1988 e 1994; Costa etal.,
2000; Machado e Costa, 1998; Machado et al., 2003). A tipologia desenvolvida
por estes autores procura conjugar uma perspetiva de inspiração (neo) marxista,
a de Erik Olin Wright, na medida em que valoriza a posse de propriedade,
acrescida dos recursos organizacionais e das qualificações profissionais, com
uma perspetiva culturalista, a de Bourdieu, que valoriza a posse, volume e
composição dos capitais. Para estes autores é essencial a utilização do grupo
doméstico de origem como unidade de análise da classe e mobilidade social,
reconhecendo-se assim o papel do mesmo nas trajetórias de vida e nos modos de
pensar e agir dos indivíduos. Em termos de resultados empíricos, num estudo
representativo da população portuguesa, Machado e Costa (1998) observaram a
existência de elevados fluxos de mobilidade absoluta e de reprodução
consideráveis, bem como a existência de trajetórias sociais muito heterogéneas
e diferenciadas em termos de género.
Os estudos acerca da estrutura de classes sociais em Portugal realizados por
Estanque e Mendes (Estanque, 1997; Estanque e Mendes, 1998; Mendes, 1997)
representam uma outra perspetiva, de orientação mais vincadamente marxista, que
se orienta pelo trabalho de Wright (1985, 1997) e pela tipologia W dos lugares
de classe. Salientando a importância das variáveis históricas e contextuais,
nomeadamente a transição para a democracia, a entrada na UE e uma rápida
modernização económica, os autores consideram que existe uma fragmentação e
precarização da força de trabalho que se estende do setor industrial para o
setor dos serviços. A expansão do setor público e administrativo justifica que
as camadas médias da população, quadros técnicos e qualificados, se encontrem
essencialmente no setor estatal. A pequena dimensão média das empresas
privadas, a sua escassa modernização tecnológica e o recurso a um modelo
industrial de trabalho intensivo, justificam o pouco peso dos quadros no setor
privado. Sendo o mercado de trabalho português dos mais feminizados da Europa,
os autores notam que nas categorias profissionais operárias existe menor
feminização que em outras sociedades consideradas desenvolvidas. Já nas
posições mais qualificadas da estrutura de estratificação existe uma maior
abertura ao emprego feminino. O maior sucesso das mulheres na educação, ainda
sem uma correspondência na ocupação de cargos de chefia, terá impactos na
recomposição da estrutura de classes portuguesa e será resultado de uma lógica
patriarcal que tende a encaminhar os filhos para o trabalho em idades mais
precoces, reservando a possibilidade de continuar os estudos para as mulheres.
Estes trabalhos relevam o impacto das alterações estruturais que a sociedade
portuguesa sofreu na sua (re) composição em termos de classes sociais. Essas
alterações incluem: a evolução demográfica, marcada pelo envelhecimento da
população; o aumento da escolarização; a crescente urbanização e litoralização
da população; a terciarização da atividade económica; o incremento do trabalho
feminino; e transformações no domínio da vida familiar. Como Estanque e Mendes
(1999) salientam, esta é uma das áreas mais problemáticas na análise da
mobilidade social, uma vez que parte do que poderia ser considerado um fluxo
ascendente será certamente parte da mudança da própria estrutura social, com
o decréscimo ou estagnação de certos grupos profissionais e frações de classe e
o rápido crescimento de outros, sobretudo aqueles que necessitam de
qualificações escolares mais elevadas.
RECENTRANDO A DISCUSSÃO EM TORNO DAS CLASSES SOCIAIS
O período de maior vitalidade e produtividade científica, tanto teórica como
empírica, sobre os temas das classes, mobilidade e recomposição da estrutura de
classes portuguesa teve lugar nas décadas de 1980 e 1990, com contributos de
autores procedentes de diversas escolas e orientações (Almeida, Costa e
Machado, 1988 e 1994; Cabral, 1998; Costa, 1987; Costa, Machado e Almeida,
1990; Estanque, 2000; Estanque e Mendes, 1998, 1999; Machado e Costa, 1998;
Machado, Costa e Almeida, 1989; Mendes, 1997). Esse terá sido o período de
institucionalização e consagração académica da sociologia das classes sociais
em Portugal (Nunes, 2008).
A partir do ano 2000 inicia-se um período em que as pesquisas produzidas em
Portugal sobre classes sociais tanto se internacionalizam como se especializam
(Nunes, 2008). Já no início da segunda década do século XXI, o conceito tem
sido retomado por diversos autores, seja explorando a relação entre classes e
precariedade, seja com o intuito de compreender a relação entre as
desigualdades de classe e a atual crise económica (Alves, etal., 2011; Carmo,
2013; Matos e Domingos, 2012). Em todo o caso, datam já de finais da década de
1990 as derradeiras análises de fundo à estrutura de classes ou à mobilidade
social em Portugal.
A contestação ao conceito de classe social vem de longe e tem origens diversas.
Desde as teorias da sociedade pós-industrial (Bell, 1973; Nisbet, 1959),
passando pelas teorias dos valores pós-materialistas (Inglehart, 1997) que o
conceito de classe social vem sendo rotulado de anacrónico e ultrapassado pela
modernização das sociedades e pela perda de importância da esfera produtiva na
organização da vida social, sendo substituído pelo conceito de estrato na
abordagem da desigualdade social. Esta é a posição das teorias funcionalistas
segundo as quais, nas sociedades modernas, a noção de mobilidade social resulta
dos princípios de igualdade de oportunidades e da eliminação dos mecanismos de
reprodução mecânica das ordens sociais (e da desigualdade que lhes era
característica).
A linha argumentativa contra a relevância das classes sociais produzida pelos
(neo) funcionalistas sustenta-se em argumentos de natureza económica, cultural
e política (Clark e Lipset, 1991 e 2001; Pakulski e Waters, 1996). A
terciarização da economia teria contribuído para um nivelamento das condições
de vida nas sociedades contemporâneas, tornando irrelevantes as relações com a
esfera produtiva. Os estilos de vida definidos a partir de padrões identitários
e orientados pela preferência, opinião ou afinidade, teriam substituído a
classe social e sua relação com a posição na esfera da produção como aspeto
essencial na diferenciação social. A nível cultural, a democratização do acesso
à cultura e à educação, e o desenvolvimento de uma cultura de massas teriam
eliminado expressões culturais vincadamente classistas. A nível político também
seria possível observar o fim das classes, patente no decréscimo da votação de
partidos marcadamente classistas como ainda na emergência de novos movimentos
sociais, potenciados pela tecnologia, frequentemente desterritorializados e
afastados de reivindicações redistributivas ou emancipatórias.
Nos tempos mais recentes, as teorias da modernidade reflexiva, pós-moderna ou
tardia engrossaram a fileira dos críticos do conceito de classe, questionando a
sua relevância na estruturação do mundo. Nas versões mais radicalizadas o
conceito é obliterado e reduzido a uma categoria zombie (Beck, 1992). Existe,
mas não tem potencial de determinação no percurso do indivíduo (Bauman, 2000),
é inútil para entender a identidade ou a ação coletiva dos indivíduos (Pakulski
e Waters, 1996). Segundo estes autores, os indivíduos são impelidos a uma
autodeterminação que substitui os posicionamentos e constrangimentos sociais ou
estruturais. Para isso defendem a necessidade de desenvolver outras ferramentas
capazes de analisar os processos de mudança social, numa época em que observam
fenómenos como a fragmentação dos grupos sociais, a destradicionalização ou a
individualização.
Embora a importância do processo de individualização seja inegável, uma
abordagem sociológica que incida exclusivamente nesse aspeto tende a obscurecer
a significância, por exemplo, de padrões familiares de reciprocidade e
obrigação ou a existência de padrões comportamentais diferenciados por classe
social e género (Crompton, 2006).2
Apesar dos importantes contributos que estes desenvolvimentos teóricos têm
trazido à sociologia, o conceito de classe social continua a ser essencial para
a análise das sociedades contemporâneas. Atkinson (2010b) repara que algumas
conceções de classe social utilizadas são inadequadas, superficiais ou
contraditórias e que, ao não encontrarem indícios fortes de uma mobilização de
classe, encontram aí um argumento que julgam suficientemente forte para darem
as classes sociais como moribundas. Paradoxalmente utilizam um argumento
marxista: buscam a correspondência entre uma classe em si (latente, formada na
esfera económica) e uma classe para si (mobilizada e possuidora de uma
consciência política). Uma outra crítica que Atkinson (2010b) aponta é que a
obra de muitos dos teóricos da modernidade (Beck, Giddens, Bauman) é
essencialmente teórica, carecendo as suas hipóteses de cuidadosa investigação
empírica.
A denominada viragem cultural (Crompton, 2003) colocou uma ênfase exacerbada
na relevância da dimensão cultural da hereditariedade social, fundindo a
hierarquia cultural com a desigualdade económica, quase fazendo espelho de um
anterior determinismo económico das teorias da reprodução social. Mesmo quando
o conceito de classe social é utilizado, as análises tomam com frequência um
pendor culturalista exacerbado, que tende a esvaziar a dimensão económica do
conceito. A perceção da existência de outras formas de diferenciação social não
implica o desaparecimento das anteriores e o processo de individualização não
implica a morte da classe social, mas antes alterações à forma como se
manifesta (Savage, 2000).
A proposta teórico-metodológica de Bourdieu (1984, 1997) constitui um
importante contributo para (re) centrar a discussão em torno das classes
sociais e da mobilidade social com bases sólidas. Este autor privilegia a
análise da trajetória social, conceito que liga a posição atual na estrutura
social com a origem social (familiar) e que caracteriza as disposições e
práticas assimiladas através da socialização, das condições originárias de
existência e também do percurso percorrido. Compreender as trajetórias sociais
implica desenvolver um enfoque específico sobre a evolução histórica do
posicionamento dos indivíduos, dando atenção à posição que ocupam no espaço
social (em termos hierárquicos e de recursos disponíveis) e à sua origem
social, pela importância que o domínio familiar desempenha tanto na transmissão
de recursos como na formação de disposições, expectativas, ambições, etc.
(Montagner, 2007).
A conceção bourdiana da estrutura social rompe com a ideia de uma estrutura
unidimensional e incorpora três dimensões: a estrutura dos capitais em
presença, o volume dos capitais e a sua evolução ao longo do tempo. A
conjugação destes elementos permite captar tanto os deslocamentos laterais como
os horizontais, na estrutura social. Esta conceção da estrutura social é um
contributo importante para a compreensão da mobilidade/recomposição da
estrutura de classes, pois articula as transformações da estrutura social, as
pressões que são exercidas sobre os indivíduos, as suas respostas estratégicas,
e o peso relativo dos seus recursos nos diferentes domínios da vida, não
descurando a importância do enquadramento institucional providenciado pelo
Estado, sistema de ensino, sistema legislativo, entre outros (Grácio, 1997).
Usualmente a análise da mobilidade social recorre a modelos estatísticos em que
se cruza, recorrendo a tabelas de contingência, posições de classe na origem
com posições no destino. Aqui é essencial que se destrince a mobilidade
absoluta da mobilidade relativa (fluidez social). Enquanto a mobilidade
absoluta contabiliza todas as transferências entre formações de classe, a
mobilidade relativa quantifica a probabilidade de um indivíduo oriundo de uma
classe social vir a ocupar qualquer outra posição na estrutura de classes
(Breen, 2007). É ainda possível distinguir entre mobilidade intrageracional, em
que se comparam dois pontos da biografia dos indivíduos, e mobilidade
intergeracional, em que se comparam (pelo menos) duas gerações.3
A explicação da estrutura e funcionamento da sociedade implica o reconhecimento
do papel do capital na sua forma plural. Os dois eixos fundamentais de
transmissão da desigualdade por via familiar são o eixo material e o eixo
cultural (Crompton, 2008). A transmissão do capital económico é mais linear e
está institucionalizada pelo direito hereditário e outros mecanismos legais. A
transmissão por via cultural é mais difusa e complexa, sendo a dimensão
temporal variável determinante, na medida em que está intrinsecamente
relacionada com a socialização (Bourdieu, 1997). Embora existam mecanismos que
permitem a conversibilidade dos capitais, a aquisição/transmissão do capital
cultural implica inculcação, assimilação, o que faz com que este tipo de
capital apenas possa ser parcialmente adquirido ou trocado. Na transmissão do
capital cultural, a transmissão do capital escolar é apenas a dimensão mais
linearmente contabilizável. Sendo um recurso relativamente escasso, de
transmissão sinuosa, e crescentemente necessário à ocupação das posições
dominantes na sociedade, a transmissão deste capital marca fortemente as
estratégias de reprodução e conversão do capital.
TRAJETÓRIAS DE CLASSE EM PORTUGAL: UMA COMPARAÇÃO GERACIONAL
A partir desta reflexão teórica, a pesquisa que realizámos procurou, em
primeiro lugar, analisar a existência de diferenças nas trajetórias de classe
de portugueses nascidos em dois tempos históricos diferentes. Em segundo lugar,
procurámos saber em que medida a origem de classe teve impacto sobre as
trajetórias de classe social dos indivíduos. Em terceiro lugar, pretendíamos
aferir se o impacto da classe social de origem nas trajetórias de classe de
indivíduos é distinto em diferentes contextos temporais. Por fim, visávamos
avaliar a importância do género, enquanto eixo fundamental de diferenciação
social, na relação entre origens e trajetórias de classe social dos indivíduos.
Os dados que analisámos referem-se a uma amostra representativa de 1054
indivíduos, do sexo masculino e feminino, pertencentes a duas coortes
diferentes (nascidos entre 1950 e 1955; e entre 1970 e 1975).4 A coorte que
incorpora inquiridos nascidos entre 1950 e 1955 é aquela que viveu as enormes
transformações sociais e políticas que se seguiram à Revolução de 25 de Abril
de 1974, tendo atingido a maioridade apenas recentemente aquando desse
acontecimento. A coorte mais jovem, englobando nascidos entre 1970 e 1975,
representa a população que cresceu já num país com regime democrático e entrou
na vida adulta após a entrada de Portugal na União Europeia.
A análise realizada aproxima-se daquilo a que se convencionou denominar de
estudo longitudinal pois analisa a evolução ao longo do percurso de vida de
uma característica particular dos mesmos indivíduos (Babbie, 1989), neste caso
a classe social. No entanto, ao contrário dos estudos longitudinais,
tradicionalmente observacionais, neste caso trata-se de uma retrospetiva sobre
a vida. Uma vez que acompanhamos a evolução da posição de classe dos inquiridos
(e a relação com a sua origem social), os dados que analisamos dão-nos uma
aproximação à mobilidade social absoluta.
Foi levado em consideração o indicador socioprofissional de classe desenvolvido
por Almeida, Costa e Machado (ACM) (Almeida, Costa e Machado, 1988 e 1994;
Machado e Costa, 1998; Machado, etal., 2003). O indicador socioprofissional de
classe dos indivíduos é construído a partir das variáveis situação na
profissão e profissão.5 A nossa opção por esta operacionalização do conceito
de classe sustenta-se em dois argumentos. Em primeiro lugar, a proposta ACM
permite diferenciar entre as categorias de assalariamento na agricultura,
indústria e serviços, o que se revela essencial para compreender a mobilidade
social.6 Esse aspeto reveste-se de particular importância numa sociedade como a
portuguesa, caracterizada por uma modernização tardia e muito rápida (Barreto,
2005). Em segundo lugar, o reconhecimento da centralidade do grupo doméstico de
origem, na mobilização e transmissão de recursos materiais e outros, implica
que o mesmo seja levado em consideração na análise das trajetórias sociais.
A operacionalização proposta por ACM permite articular, ao contrário do esquema
de Erik Olin Wright, o nível individual com o nível familiar, com a vantagem de
não estabelecer uma hierarquia de género na determinação da classe do grupo
doméstico de origem, sendo utilizado um critério que valoriza o tipo de capital
dominante ou a conjugação de capitais entre os progenitores (Machado, etal.,
2003).
Para além do indicador de classe, a análise das trajetórias de classe foi
complementada com outra dimensão de diferenciação social, essencial para a
compreensão das sociedades contemporâneas: o capital escolar. O indicador
socio-educacional permite captar um outro tipo de recursos que, pela sua
distribuição desigual, é passível de produzir efeitos específicos tanto nas
representações, disposições e sistemas classificatórios dos indivíduos como
também nas suas práticas e estratégias (Costa, 1999).
HIPÓTESES
Apresentamos sucintamente as principais hipóteses de trabalho subjacentes à
nossa análise. A primeira hipótese estabelece que a classe social de origem
mantém a sua influência na trajetória de classe dos indivíduos, muito embora
seja expectável que os processos de reconversão de capital, nomeadamente de
capital económico em capital cultural, mais especificamente escolar, tenham
produzido efeitos na forma como essa influência se expressa.
A segunda hipótese será a da existência de padrões de mobilidade social
diferenciados em cada geração. A perspetiva intergeracional pretende perceber
quais as alterações ao nível de mobilidade social nas últimas décadas,
comparando o efeito do crescimento e vivência em períodos históricos
diferenciados no percurso de vida dos indivíduos. Para tal, é necessário
estabelecer uma relação entre o tempo histórico e a mobilidade social, em cada
uma das gerações. A estratégia implica portanto a combinação de uma abordagem
macro social (ao colocar as trajetórias de vida num contexto social e
geracional) com uma abordagem micro (centrada nos percursos individuais),
permitindo observar o desenvolvimento de trajetos diversificados.
Uma terceira hipótese acrescenta um eixo adicional que analisa a construção de
diferentes trajetos de mobilidade social ao longo da vida de homens e mulheres.
O género constitui uma variável-chave para interpretar a mobilidade social numa
perspetiva geracional. É admissível que a entrada massiva das mulheres no
mercado de trabalho, a partir dos anos 60/70, bem como o aumento da
escolarização, entre outros fenómenos, tenham produzido alterações
significativas na mobilidade social das mulheres.
TRAJETÓRIAS DE CLASSE SOCIAL: UMA TIPOLOGIA
A trajetória de classe social foi analisada tomando por referência o indicador
socioprofissional de classe, ao nível do indivíduo. A trajetória de classe
social foi observada empiricamente, acompanhando o percurso socioprofissional
dos indivíduos em cada ano da sua vida, entre os 18 e os 35 anos de idade.
Com base na posição de classe dos indivíduos, construímos uma matriz de
distâncias entre as trajetórias de classe, recorrendo ao método optimal
matching (Abbott, 2001; Abbott e Tsay, 2000)7 e a uma análise de clusters
(método de Ward).8
A figura_1 indica a proporção dos indivíduos que, em cada ano da sua vida entre
os 18 e os 35 anos de idade, ocupava cada uma das categorias do indicador
socioprofissional de classe acrescida das condições de doméstica, desemprego, à
procura do primeiro emprego, estudante, militar, na reforma, invalidez, etc.
O primeiro tipo representa cerca de 4,9% dos casos. É um conjunto diversificado
que agrupa franjas da pequena burguesia tradicional e agrária (trabalhadores
independentes ou agricultores independentes). A segunda trajetória, com 5,1%
dos casos, compreende o empresariado e os dirigentes.9 No terceiro tipo de
trajetória, que representa 7,2% dos indivíduos, encontramos as mulheres em
condição doméstica. Dentro deste grupo podemos diferenciar entre as que já
tinham essa ocupação aos 18 anos de idade e as que a ocuparam no seguimento de
matrimónio ou início de coabitação, após 2 ou 3 anos de inserção profissional
em assalariamento. Na quarta trajetória (15,8% dos casos) encontram-se os
indivíduos que se tornaram profissionais técnicos e de enquadramento,
transitando para essa condição após um período de escolarização relativamente
longo, em geral não precedido por inserção no mercado de trabalho. As duas
últimas trajetórias são marcadas por uma considerável estabilidade durante o
período de tempo considerado. O quinto grupo, o mais numeroso, com 35,7% dos
indivíduos, agrupa os operários (industriais e agrícolas).10 A sexta
trajetória aglomera 31,2% dos casos e representa o grosso dos empregados
executantes. A maioria desses já ocupa essa posição à partida, embora de 15%
dos indivíduos nesta trajetória tenha estudado até aos 19 ou 20 anos.
TRAJETÓRIAS DE GÉNERO E TRAJETÓRIA DE GERAÇÃO
As trajetórias de classe social diferem em função da geração e do género
(figura_2). Na geração de 1950-1955, que entra na vida adulta e no mercado de
trabalho numa época em que o trabalho na agricultura está já em fortíssimo
declínio, a trajetória do operariado é a mais numerosa (40,7%), seguida da
trajetória dos empregados executantes (27,8%). A trajetória das mulheres em
condição doméstica ainda tem um peso significativo (10,8%) suplantando
inclusive o peso da trajetória dos profissionais técnicos e de enquadramento
(9,5%) e dos pequenos proprietários (6,9%). A trajetória da burguesia
representa 4,2% dos casos.
Comparando a geração de inquiridos nascidos entre 1950-1955 com a geração de
1970-1975, há um declínio do peso relativo da trajetória para o operariado,
agora substituída como a mais numerosa pela dos empregados executantes (34,5%
vs. 30,8% do operariado). A trajetória dos profissionais técnicos e de
enquadramento é também significativamente mais numerosa (22,0%). Aumenta
ligeiramente o peso da trajetória dos empresários e dirigentes (6,0%). Declinam
as trajetórias independentes (3,0%) e sobretudo a trajetória do trabalho
doméstico (3,7%).11
Este conjunto de alterações é em parte consequência da evolução da estrutura da
economia portuguesa. A partir dos anos 60 a estrutura económica vai atravessar
um período de modernização. Para além do desenvolvimento dos serviços, surgem
vários polos de industrialização, que se irão desenvolver e disseminar ainda em
meados dos anos 70, aumentando substancialmente a oferta de postos de trabalho
na indústria. Simultaneamente ocorre um maciço êxodo rural com destino às zonas
urbanas em torno de Lisboa e do Porto ou em direção ao estrangeiro. Esse
contexto aplica-se à geração nascida em 1950-1955. A geração de 1970-1975 entra
no mercado de trabalho já em meados dos anos 90 do século XX, época de plena
terciarização da economia, com uma grande expansão do setor dos serviços, em
que o acesso ao ensino superior e profissões técnicas e qualificadas se começa
a generalizar (Barreto, 1996 e 2005; Machado, etal., 2003).
A expansão da participação feminina no mercado de trabalho formal é outro facto
que marca significativamente o contexto histórico em que estas duas coortes
chegam ao mercado de trabalho. Falamos aqui, naturalmente, de trabalho
assalariado, pois as mulheres sempre estiveram no trabalho agrícola, para além
de realizarem as tarefas domésticas. O aumento do número de mulheres ativas tem
um impulso na década de 1960, o que já se reflete na geração de nascidos entre
1950 e 1955. Essa expansão do assalariamento feminino é alimentada inicialmente
por mulheres jovens e solteiras que ocupam os lugares vagos por homens que
partiam para a guerra colonial ou que emigravam. Se até esse tempo tanto o
casamento como, particularmente, o nascimento de filhos eram acontecimentos que
retiravam as mulheres do mercado de trabalho, a partir da década de 1960 as
mulheres mais frequentemente permanecem a trabalhar e assim desenvolvem
carreiras longas no mercado de trabalho.
A forma como o mercado de trabalho se vai feminizar mostra-nos que tal não pode
ser interpretado com mero efeito mecânico (Cabral, 1998). Na comparação entre
as duas gerações, a muito considerável diminuição do número de mulheres que se
tornam domésticas vai dar lugar a trajetórias de inserção profissional e de
qualificação escolar. As trajetórias femininas diferem substancialmente das
trajetórias masculinas e contribuem para uma composição sexual do mercado de
trabalho muito diferenciada em termos de género, como havia sido observado por
Estanque e Mendes (1998).
Comparando as duas gerações, articulando género e geração (figura_3), as
diferenças mais assinaláveis têm que ver com o peso relativo da trajetória de
maior qualificação escolar. De facto, na geração nascida entre 1950-1955 apenas
8,2% das mulheres seguiam esse trajeto, valor que se cifra em 21,8% na geração
nascida entre 1970-1975. Também cresce o número de mulheres que seguem uma
trajetória de emprego executante (de 34,3% para 42,7%), sendo esta a trajetória
de classe mais comum entre as mulheres, independentemente da geração.
A trajetória do operariado continua a ser maioritária entre os homens na
geração nascida entre 1970-1975 (45,6%) apesar do decréscimo face à primeira
geração (56,1%). A diminuição da importância da trajetória operária entre as
mulheres é similar comparando as gerações (21,5% face a 30,1%).
Estes resultados parecem corroborar, pelo menos parcialmente, os de Machado e
Costa (1998) que identificaram dois canais de promoção/reprodução social com
protagonistas diferentes. O primeiro desses canais é a via empresarial ou
dirigente, mais fechada, tendencialmente menos qualificada, e mais
masculinizada. O segundo canal assenta na qualificação técnica ou especializada
e numa via mais aberta e progressivamente mais feminina.
A RELAÇÃO ENTRE ORIGENS SOCIAIS E TRAJETÓRIA DE CLASSE: CONTINUIDADES E
MUDANÇAS
Começamos esta secção com uma caracterização das origens de classe dos
inquiridos do projecto Trajetórias familiares e redes sociais. Posteriormente
analisa-se a relação entre origens e trajetos individuais.
A análise do indicador socioprofissional familiar da classe de origem (Almeida,
Costa e Machado, 1988, 1994; Costa, etal., 2000; Machado e Costa, 1998;
Machado, et al., 2003) revela diferenças geracionais, apesar do predomínio das
famílias de origem operária (respetivamente 29,6% e 29,8%). Observa-se um
decréscimo acentuado do peso dos assalariados agrícolas (de 12,8% para 3,6%),
que é compensado pelo duplicar do peso da pluriatividade e, em menor grau, pelo
aumento da importância relativa dos empregados executantes. Os empresários,
dirigentes e profissionais liberais praticamente duplicam o seu peso na origem
de classe dos inquiridos da geração nascida entre 1970-1975 face à nascida
entre 1950-1955 (12% e 6,2%).
O crescimento da origem de classe profissionais técnicos e de enquadramento
é, em termos proporcionais, muito significativo, representando esta categoria
11,1% da origem de classe dos nascidos entre 1970-1975, quando para os nascidos
entre 1950-1955 contabilizava apenas 4%. De salientar ainda a redução do peso
dos agricultores independentes, que somavam apenas 6,5% das origens de classe
dos nascidos entre 1970 e 1975, face aos 16,6% entre os que nasceram no período
que vai de 1950 a 1955.
Os capitais escolares são um indicador relevante para a compreensão dos
processos de mobilidade social contemporâneos. Embora não substituam nem
suplantem as desigualdades de classe, complementam-nas pela importância
crescente que as qualificações têm no mercado de trabalho e, desse modo,
influenciam a inserção profissional dos indivíduos. Mas são-no também pela
forma como a sua presença no grupo doméstico é passível de ser tanto um recurso
mobilizável, por exemplo no apoio às tarefas escolares, como um aspeto que
fornece incentivo e valorização ao desempenho escolar.
Olhando para os dados é evidente que, independentemente da geração e do género
dos progenitores, os recursos escolares disponíveis nos agregados de origem são
extremamente baixos. A esmagadora maioria dos pais dos nascidos tanto na
geração de 1950-1955 como na geração de 1970-1975 tem, no máximo, o 1.º ciclo
do ensino básico, existindo um número considerável que não possui sequer
qualquer escolaridade formal, valor particularmente elevado entre as mães dos
inquiridos nascidos na geração de 1950-1955 (46,5%).
Os progenitores dos nascidos entre 1970 e 1975 têm, na sua grande maioria, o
1.º ciclo do ensino básico, a escolaridade obrigatória à época, correspondendo
esse grau a apenas 4 anos de escolaridade. Embora em comparação com os pais dos
nascidos na geração de 1950-1955 se observe a existência de mais indivíduos com
famílias de origem com maiores recursos qualificacionais, ao nível do ensino
secundário ou superior, estes não representam mais que 18,4% no caso dos pais e
16,3% no caso das mães. Observa-se ainda a existência de maior volume de
capital escolar nos pais do que nas mães. Estamos pois perante duas gerações
marcadas por uma aguda escassez de qualificações escolares e também por uma
enorme desigualdade na sua distribuição.
No sentido de perceber a natureza da relação entre a origem social e a
trajetória de classe realizámos um conjunto de regressões logísticas entre a
classe social do grupo doméstico de origem e a trajectória de classe entre os
18 e os 35 anos de idade. Foram incluídas nos modelos de regressão outras
variáveis independentes que, pelo exposto anteriormente, podem contribuir para
uma melhor compreensão da mobilidade social (coorte/geração, género, indicador
socioeducacional de cada um dos progenitores). Os resultados são apresentados
no quadro_3, com recurso a odds ratio e significâncias associadas, para além da
explicação global do modelo.
É relativamente à trajetória dos operários que o modelo explicativo se revela
mais eficiente (Nagelkerke;=;0,303). Olhando para os efeitos significativos
constatamos que esta é uma trajetória essencialmente masculina, marcada por uma
forte reprodução da origem social e para a qual contribui o baixo capital
escolar de ambos os pais, muito em particular o das mães.
O modelo também revela boas potencialidades explicativas relativamente à
trajetória dos profissionais e técnicos de enquadramento (Nagelkerke=0,284).
Neste caso, os efeitos significativos indicam que, mais do que mera reprodução
da condição de origem, esta trajetória é influenciada positivamente por
qualificações acima da média de ambos os pais. Naturalmente que os efeitos da
abertura do acesso ao ensino superior se fazem sentir e por isso é uma
trajetória mais característica da geração de 1970-1975. Mas confirma-se, como
já anteriormente havia sido sugerido, ser esta uma trajetória que os inquiridos
oriundos das categorias de operários, de independentes ou assalariados
executantes em pluriatividade têm baixas probabilidades de seguir, em
comparação com outras categorias sociais.
Em relação à trajetória das mulheres em condição doméstica, o modelo tem um
Nagelkerke de 0,121. Esta é uma trajetória sobretudo de mulheres provenientes
de famílias em que havia assalariamento na agricultura, mais provável na
geração de 1950-1955 do que na geração posterior. É importante notar que também
neste caso a baixa escolaridade das mães contribuiu significativamente para que
as filhas sigam esta trajetória.
O modelo explicativo revela-se menos eficaz relativamente às restantes
trajetórias. Ainda assim, é possível dizer que a trajetória dos empregados
executantes (Nagelkerke;=;0,084) é essencialmente feminina. Por fim,
relativamente à trajetória dos EDL (Nagelkerke=0,070), os efeitos
significativos indicam que é uma via essencialmente masculina e relativamente
fechada, sobretudo aos indivíduos com origens em famílias em que predomina o
trabalho executante.
Os resultados aqui apresentados evidenciam a existência de padrões de
mobilidade social diferenciados em cada geração, muito embora se encontrem
semelhanças nas trajetórias identificadas, em termos da sequência de lugares de
classe sucessivamente ocupados. As diferenças são patentes nas mudanças da
importância relativa de cada tipo de trajetória, tanto em termos de geração
como em função do género.
Na comparação geracional observamos uma redução substancial da trajetória do
trabalho doméstico feminino e uma diminuição do peso das trajetórias no
operariado. Em sentido oposto, cresce a via do trabalho executante. Estas
tendências resultam sobretudo da entrada das mulheres no mercado de trabalho. A
entrada em força das mulheres no mercado de trabalho desencadeia-se a partir
dos anos de 1960/1970, época de industrialização da economia portuguesa e em
que parte significativa dos homens estava envolvida na guerra colonial. O
processo de feminização do mercado de trabalho português não abrandou no
período subsequente, marcado pela descolonização e pela terciarização da
economia, contribuindo para uma situação de excecionalidade no que diz respeito
à taxa de atividade feminina (muito elevada desde meados dos anos 80), e que
distingue a sociedade portuguesa de outras sociedades do Sul da Europa
(Costa,et al., 2000). Para além de intensidade do trabalho feminino, a
diferenciação de género é outra característica muito vincada do mercado de
trabalho em Portugal. Mas apesar das transformações estruturais da economia, do
mercado de trabalho e das qualificações da população, as trajetórias que dão
acesso a profissões com menores recursos materiais e de autoridade, sejam elas
na indústria ou nos serviços, e continuam a representar mais de dois terços do
total.
O crescimento do acesso às profissões qualificadas é muito significativo,
embora o seu peso na estrutura ocupacional portuguesa seja ainda bastante
inferior ao da maioria dos países europeus (Costa, etal., 2000). Esta franja da
população, que em termos latos seria definível como as novas classes médias
assalariadas, é particularmente bem apetrechada, em termos de conhecimentos
técnicos, capacidade e recursos simbólicos, para integrar tanto as novas
profissões ligadas à sociedade da informação, como as profissões ligadas às
atividades lúdicas, culturais ou estéticas, como ainda os empregos nos serviços
públicos ligados à saúde, educação ou proteção social (Costa, etal., 2000).
Muito embora esse crescimento possa ser relacionado com alterações estruturais
na economia e no próprio sistema de ensino superior, também neste caso são as
mulheres que protagonizam as mudanças mais significativas, sobretudo em função
da situação particularmente subalternizada em que se encontravam anteriormente.
Entre os nascidos em meados dos anos de 1970, o primeiro grupo etário a
beneficiar do boomde acesso à universidade a partir de finais da década de
1980, homens e mulheres equivalem-se no acesso às trajetórias qualificantes
(muito embora devamos ter em conta a existência de uma forte segmentação em
termos das áreas científicas preferenciais) (Machado, etal., 2003).
NOTAS CONCLUSIVAS
Salientam-se diversas observações no que diz respeito ao efeito da classe
social de origem nas trajetórias. Sendo certo que a inserção profissional,
ponto de acesso ao indicador socioprofissional de classe social, é determinante
para as trajetórias, parece evidente que o mecanismo de reprodução das
desigualdades opera a montante da mesma, i.;e., nas origens familiares. Nas
gerações consideradas neste artigo os grupos domésticos são marcados pela
escassez de recursos, pelas raízes operárias e pelas situações de
assalariamento em pluriatividade. O crescimento dos provenientes de famílias de
quadros na segunda geração não altera de modo significativo um perfil
qualificacional extremamente baixo em ambas as gerações. Os recursos escolares
são também assimetricamente distribuídos em termos de género, com privilégio
claro para os homens.
A desigual distribuição de recursos materiais e escolares revelou-se essencial
para a compreensão das trajetórias de classe e da mobilidade social, muito
embora existam diferenças geracionais assinaláveis nos mecanismos de reprodução
das desigualdades. Se no caso dos indivíduos procedentes de famílias de
quadros, por norma se observa a reprodução de classe, através de trajetórias de
qualificação, já em relação aos oriundos de famílias de empresários e
dirigentes a situação é diversa. Na primeira geração analisada predominava a
reprodução da condição proprietária ou dirigente na trajetória de classe,
enquanto na segunda geração predomina o acesso às posições mais qualificadas.
Este processo é indiciador da relevância que as qualificações têm vindo a
adquirir e estará relacionado com a busca de legitimação para a manutenção e
exercício de posições de autoridade.
Entre as posições de menores recursos, também se observam fluxos de mobilidade
pela via da qualificação. Tal ocorre essencialmente entre aqueles que provêm de
famílias onde predomina o trabalho executante, em casos onde existe alguma
acumulação de capital escolar. Pelo contrário, é entre os indivíduos que provêm
do operariado que, com maior probabilidade, se observam trajetórias que
conduzem à reprodução da situação dos pais, sobretudo no caso dos homens.
O conjunto de resultados obtidos, em particular a diferença observada no acesso
à trajetória de maior qualificação e acesso ao emprego técnico, confirma que a
uma igualdade teórica no acesso não corresponde, maquinalmente, uma igualdade
de oportunidades. As profissões mais qualificadas, que sempre gozaram de
prestígio social, passaram a fazer parte das aspirações e anseios de mobilidade
dos progenitores e dos seus investimentos, materiais e outros, na educação dos
filhos, sobretudo a partir do momento em que se tornaram relativamente mais
acessíveis por via da expansão do ensino superior. Mas a verdade é que as
substanciais diferenças no ponto de partida, em termos de classe social, tanto
em termos de recursos materiais como educacionais, continuam a ser decisivas
para explicar as trajetórias de classe.
Um dos resultados substantivos mais relevantes desta investigação diz respeito
à importância das qualificações escolares das mães nas trajetórias dos seus
descendentes, que têm maior impacto que o nível qualificacional dos pais. Em
comparação com o nível médio, quanto mais baixas as qualificações das mães,
mais verosímil se torna que os seus descendentes sigam trajetórias no
operariado ou sigam para a condição de domésticas. Quando o nível educacional
das mães é superior à média, é mais provável que os descendentes sigam
trajetórias de emprego executante ou de trabalho mais qualificado. Estes dados
sublinham a importância da relação entre o perfil educacional das progenitoras
e os percursos de mobilidade social protagonizados por estudantes
universitários já identificada por Almeida etal.(2003). Se é verdade que os
investimentos pedagógicos dos ascendentes serão diferenciados em função do
habitus de classe social (Lahire, 2004), as diferenças na valorização das
esferas do trabalho e da escola, manifestas em saídas precoces da escola para
ingressar no mercado de trabalho, corresponderão também a necessidades
objetivas.
Pelo relevo que as qualificações das mães têm nas trajetórias de classe dos
seus filhos, será importante considerar os efeitos que o maior sucesso das
mulheres na educação produzirá na mobilidade social e na recomposição da
estrutura de classes portuguesa. Apesar de a análise dos efeitos do grupo
doméstico nas trajetórias ser fundamental, os resultados demonstram a
importância de observar também os efeitos diferenciados de recursos
qualificacionais de cada um dos ascendentes. A assimetria de recursos entre os
dois progenitores não é totalmente captável por qualquer indicador sintético da
classe social de origem. Importará futuramente aferir também a influência da
inserção profissional de ambos os progenitores, bem como explorar efeitos
diferenciados de situações de homogamia vs. situações de heterogamia entre os
progenitores. Um último aspeto que está ausente desta análise, mas que
importará considerar em trabalhos futuros, é o impacto do nível meso nas
trajetórias de classe, em particular no que diz respeito às redes de
sociabilidade e ao capital social.