Habermas e a ideia de continuidade reflexiva do projeto de Estado de bem-estar
social
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Em 1984, Habermas apresentou, junto ao parlamento espanhol, um artigo
intitulado A Crise do Estado de Bem-Estar Social e o Esgotamento das Energias
Utópicas, no qual, pela primeira vez nos seus trabalhos, é defendida uma
continuidade reflexiva desse mesmo projeto de Estado de bem-estar social. Ora,
mas o que significa esta proposição? A hipótese defendida por este artigo é a
de que, através desta proposição, Habermas busca contrapor-se à posição
neoliberal ou neoconservadora, seja em termos de realpolitik, na medida em que
o neoliberalismo estaria em franca hegemonia, a partir da década de 1980, em
algumas das mais desenvolvidas sociedades mundiais de então (Inglaterra, com
Thatcher; Estados Unidos, com Reagan; República Federal da Alemanha, com Kohl,
etc.), seja em termos de posição teórico-política, com o fortalecimento,
durante o período acima exposto, da corrente neoliberal ou neoconservadora e o
seu ataque direto ao Estado de bem-estar social; ao mesmo tempo, com aquela
proposição, o autor reafirma a vertente teórico-política social-democrata,
propugnadora do projeto de Estado de bem-estar social, apontando para a
necessidade de se fortalecerem as funções interventoras (regulação económica) e
compensatórias (justiça social) do Estado de bem-estar social, mas ligando-as,
concomitantemente, à realização de processos cada vez mais efetivos de
democracia política, aproximando-se, com isso, o poder político-administrativo
(partidos políticos, Estado) da sociedade civil, dos movimentos sociais e das
iniciativas cidadãs. A necessidade do nosso tempo ' que, por exemplo, a
esquerda deveria levar a sério ' consistiria em justiça social e democracia
política, cuja efetivação dependeria de um movimento recíproco, correlato.
Com isso, o presente trabalho definirá a defesa e a retomada da social-
democracia, por parte de Habermas, enquanto aspetos que explicitam a sua
postura teórico-política ligada à esquerda ' e propugnadora de um projeto
teórico-político de esquerda, que ganharia força após a queda do socialismo
real e que marcaria efetivamente a posição de uma esquerda ocidental não-
comunista no seu combate ao neoliberalismo. Correlatamente, defender-se-á que a
crise do Estado de bem-estar social, em Habermas, e a consolidação de um
processo de modernização económica globalizado, apontariam para a necessidade
de se retomar esse mesmo Estado de bem-estar social em pleno caminho de
desestruturação, nas suas funções diretivas, interventoras e compensatórias, ou
seja, a ideia de uma política diretiva enquanto elemento central no que tange à
evolução socioeconómica ' uma lição com a qual as sociedades ocidentais se
debatem hoje em dia de um modo cada vez mais dramático.
Ao mesmo tempo, buscar-se-á tematizar a crítica de Habermas à esquerda e, em
particular, à social-democracia europeia, desenvolvida a partir da ideia de
continuidade reflexiva do projeto social-democrata de Estado de bem-estar
social. Afinal de contas, o ideal de democracia radical1, que perpassa a
reformulação desse projeto, tem por objetivo exatamente combater a tendência
tecnocrática, burocrática, no que tange à condução da práxis política e da
administração pública ' algo que, desde as suas primeiras obras, Habermas
percebia como uma das características nefastas das posições teórico-políticas
social-democratas (mas não somente delas, naturalmente). A burocratização do
poder e a substituição da democracia de base pelo partido político, nesse
sentido, são os dois grandes pontos da crítica que Habermas desenvolve em
relação à esquerda, apontando para a necessidade de processos democráticos
radicalmente inclusivos, que aproximem o poder político-administrativo da
sociedade civil, dos movimentos sociais e das iniciativas cidadãs. A nossa
época, repito-o, exige não apenas justiça social, mas também democracia
política ' e é nesse duplo objetivo que ainda reside uma possibilidade para a
esquerda teórico-política.
Um último esclarecimento. Neste texto, procurarei fornecer uma chave de leitura
para perceber aquele que considero o núcleo teórico-político dos escritos
habermasianos, a saber, a sua crítica e reabilitação da social-democracia,
concomitantemente à sua feroz contraposição ao neoliberalismo. Insistirei, no
texto, nesta continuidade (muito mais do que nas diferenciações ' que, de todo
o modo, não incidem diretamente na tal chave de leitura e que não a modificam
substancialmente) no que tange ao pensamento político de Habermas. Desde os
seus primeiros escritos, portanto, que Habermas é crítico da posição teórico-
política social-democrata e do projeto de Estado de bem-estar social por ela
propugnado. É crítico da social-democracia no sentido em que o estrondoso
sucesso material consolidado a partir da conciliação entre capital e trabalho
nas sociedades desenvolvidas do pós-guerra ocorreu, no seu entender, à custa do
enfraquecimento do processo de democratização política do poder, o que teria
gerado sociedades altamente desenvolvidas em termos materiais, mas
estruturalmente enfraquecidas em termos de democratização política do poder, de
um modo geral, e do poder administrativo-partidário em particular. Desde os
seus primeiros trabalhos, assim, Habermas defendia que a superação desse
déficit democrático próprio da social-democracia e do Estado de bem-estar
social deveria ser resolvido pela efetivação de processos ampliados de
democratização em todos os âmbitos da sociedade. Ora, a partir da década de
1980, por meio da ideia de continuidade reflexiva do projeto de Estado de bem-
estar social, essa defesa de uma reabilitação da social-democracia e de uma
prossecução reflexiva do projeto de Estado de bem-estar social passa a ganhar,
nos escritos habermasianos, um lugar fundamental, como alternativa teórico-
política ao neoliberalismo. Nesse sentido, haveria de reforçar-se tanto a
diretiva política da evolução social, quanto as tarefas interventoras e
compensatórias do Estado de bem-estar social, que Habermas acredita serem a
base da posição teórico-política social-democrata, como forma de se oferecer
uma alternativa consistente à posição neoliberal hegemónica em grande parte das
democracias ocidentais. A partir da década de 1990, com a progressiva
consolidação da globalização económica, a defesa da social-democracia e a
prossecução reflexiva do projeto de Estado de bem-estar social são utilizados
como mote para Habermas defender a, por assim dizer, globalização da política,
a partir da criação de instituições políticas transnacionais com poder de
intervenção económica e de compensação social ao estilo do Estado de bem-estar
social. Ainda aqui, conforme mostrarei logo adiante, a social-democracia
deveria assumir a sua função de ponta-de-lança de um projeto emancipatório ao
nível global, para se fazer frente a uma globalização económica consolidada e
incontrolada, que estaria a pôr em xeque tanto a solidez política, social e
económica dos Estados-nação contemporâneos quanto uma ordem mundial minimamente
pacífica e justa. Enfim, é essa crítica e retomada da social-democracia,
correlatamente à contraposição ao neoliberalismo, que enquadram a posição
teórico-política habermasiana filiada à esquerda, tanto ao nível de uma
sociedade democrática quanto ao nível da globalização.
O ATAQUE AO ESTADO DE BEM-ESTAR SOCIAL: 1980
Se a década de 1970 foi marcada pelo diagnóstico de uma crise fiscal cada vez
mais acentuada em termos de Estado de bem-estar social (Habermas, 1999 [1975]2,
pp. 88-89 e 1990 [1976], pp. 255-256; O'Connor, 1977, p. 23 e seguintes); e se,
neste mesmo período, teria chegado ao fim um processo de crescimento económico
ininterrupto aliado a sólidos investimentos em termos de política social (que
teria dado a tónica da reconstrução das sociedades desenvolvidas no pós-guerra,
da Europa Ocidental à América do Norte) (Hobsbawn, 1995, pp. 537-562; Judt,
2008, pp. 537-582; Van der Wee, 1987); a década de 1980, como continuação,
seria caracterizada pelo ataque neoconservador ou neoliberal ao Estado de bem-
estar social no que tange as suas funções de intervenção económica e de
integração social, o que, por sua vez, teria implicações no combate ao conteúdo
normativo congregado no conceito de direitos sociais e políticos ' a ideia de
igualdade substantiva3, a ideia de justiça social4, a ideia de democracia
radical (Habermas, 2005a [1985], pp. 24-26; Rosanvallon, 1998, pp. 23-27;
Offe, 1984, pp. 236-240). Nesse sentido, durante a década de 1980, e inclusive
na década seguinte, a programática neoliberal hegemónica marcou o compasso da
reestruturação das sociedades ocidentais (em particular, das citadas acima),
diante dessa crise económica que se teria consolidado desde a década anterior.
Por isso, baseando-nos em Katz (1989), poder-se-ia falar de uma guerra contra o
Estado de bem-estar social enquanto o móbil da ideologia teórico-política
neoliberal nesse período, contrariamente a uma afirmação desse mesmo Estado de
bem-estar social nas décadas imediatamente posteriores à Segunda Guerra
Mundial (Zürn e Leibried, 2005; Marshall, 1967). E, com Offe (1984, pp. 237-
239 e 1989, pp. 269-312) e Habermas (1997 [1985], pp. 236-251), poder-se-ia
falar correlatamente de um ataque neoliberal ou neoconservador ao núcleo
normativo do modelo de democracia social ' modelo esse marcado pela íntima
imbricação e dependência entre direitos individuais, direitos políticos e
direitos sociais ' como dando o tom da reapolitik dos anos 1980.5
Ora, a hegemonia neoliberal não foi ' nem é ' um desafio insignificante à
esquerda ocidental, dado que todo o conteúdo programático do neoliberalismo
ataca diretamente noções-chave da esquerda, noções essas que constituem o
próprio núcleo normativo da esquerda, para não se falar mesmo da gradual
desconstrução e da efetiva desestruturação das atividades interventoras e
compensatórias tradicionalmente enfeixadas pelo Estado de bem-estar social. Com
efeito, para o que me interessa aqui, três das noções mais centrais para uma
posição de esquerda ' centralidade da política enquanto elemento fundamental
para a condução da evolução social, necessidade de focos de democracia direta
(no sentido de uma aproximação entre Estado e partidos políticos profissionais
em relação aos movimentos sociais e às iniciativas cidadãs) e justiça
distributiva ' são postas em xeque pelo neoliberalismo.
É nesse sentido que, em Habermas, a análise do processo de modernização serve
como elemento teórico fundamental para se perceber, nesse caso, o próprio
significado do projeto teórico-político neoliberal e, noutro sentido, para se
pensar uma proposta de esquerda que tem na reafirmação da social-democracia e
no projeto de Estado de bem-estar social o seu paradigma orientador. O correto
entendimento do processo de modernização, portanto, permite uma consistente
tematização das ideologias teórico-políticas em disputa no que diz respeito à
compreensão da crise desse Estado de bem-estar social e às possíveis soluções a
serem perseguidas, ao mesmo tempo que possibilita uma reapropriação dos ideais
normativos ínsitos à modernidade ocidental, da qual a esquerda ' e a teoria
social crítica, quando se posiciona à esquerda ' precisa de beber, em termos de
orientação teórico-política.6
Desde os seus primeiros trabalhos que Habermas procurou considerar o processo
de modernização a partir de um duplo viés, a saber: esse processo de
modernização, em termos de capitalismo tardio, (a) seria marcado pela
centralidade do Estado de bem-estar social no que diz respeito à orientação da
economia e à integração social enquanto tendência basilar das sociedades
contemporâneas, ao mesmo tempo que (b) a política e a cultura democráticas
teriam deixado de ser mera superestrutura do sistema para se tornarem o
elemento central a partir do qual esse mesmo sistema seria legitimado. No
primeiro caso, por conseguinte, a esquerda não poderia ignorar, nas suas
análises e na sua programática política, o facto de que o Estado de bem-estar
seria o conteúdo político da democracia de massas (Habermas, 2001a [1981], pp.
490-491), da mesma forma que, no segundo caso, qualquer ideologia teórico-
política deveria levar em conta, uma vez hegemónica, essa situação na qual a
esfera pública democrática, ainda que constantemente enfraquecida por formas de
comunicação distorcidas, exige permanente justificação das forças teórico-
políticas em disputa, enquadrando-as a partir de interesses generalizáveis,
normativamente definidos, que não podem ser sempre ignorados (Habermas, 1994
[1968], p. 72-81). Seja pela importância do Estado de bem-estar social enquanto
motor do desenvolvimento e da estabilização das sociedades contemporâneas, seja
pela consolidação de uma cultura política democrática e universalista que
marcaria a constituição dessas mesmas sociedades, o processo de modernização
teria de ser percebido na sua complexidade para, então, ser analisado nas suas
ambivalências e nas suas potencialidades.
No que diz respeito a isto, Habermas explicitava enfaticamente, já na década de
1970, a necessidade de se reformular a teoria marxista de modo a que ela
pudesse dar conta da mudança político-económica e sócio-cultural que teria
acontecido nas sociedades industrializadas desenvolvidas ' ou seja, para dar
conta da interpretação das sociedades do capitalismo tardio. Sinteticamente,
três fatores básicos da teoria marxista tradicional ' a dependência da
superestrutura política face à base económica, a luta de classes e a questão da
ideologia ' sofreram o impacto de três condições específicas das sociedades
industrializadas contemporâneas, a saber: a atividade interventora do Estado na
economia com o objetivo de a estabilizar; a realização, ainda por parte do
Estado, de amplos programas de inclusão social, de bem-estar material e de
pleno emprego às classes sociais dependentes do trabalho; e a consolidação de
um ethos normativo que, marcado pela íntima imbricação entre direitos
individuais fundamentais, direitos políticos e direitos sociais, teria
generalizado os processos de inclusão em todos os âmbitos da sociedade e,
portanto, fortalecido a ideia de democracia ou, pelo menos, a teria colocado
como o núcleo paradigmático a partir do qual a legitimação do poder tem de
partir inevitavelmente (de modo que o regime democrático deixa de ser mera
superestrutura ou ideologia para se tornar o ponto a partir do qual a
legitimação do poder e as forças políticas disputantes têm de partir na sua
busca de hegemonia).
No século XX, o capitalismo liberal, caracterizado pela teoria de laissez-
faire, teria sido implodido seja pela consolidação de uma economia monopólica
ou mesmo oligopólica, na qual há uma crescente concentração das empresas e uma
organização de mercados de bens, capitais e de trabalho ao nível nacional e
transnacional, seja pelo crescente intervencionismo do Estado na esfera da
produção, no sentido de a gerir (e, inclusive, no sentido de evitar os efeitos
nefastos de uma economia monopólica). Em relação ao primeiro ponto, tem-se a
destruição do capitalismo concorrencial (que Adam Smith defendia como caso
modelar), na exata medida em que a economia é monopólica; em relação ao segundo
ponto, o Estado substitui e complementa o mercado em vários âmbitos, com o que
se teria a repolitização das relações de produção (que, no capitalismo liberal,
ao entender-se o mercado como fazendo parte da esfera privada e sendo
determinado pela mão invisível, eram compreendidas como parte da esfera
privada, como sendo relações económicas privadas, não podendo, por isso, sofrer
ingerência do próprio Estado). O Estado contemporâneo, em suma, deve mediatizar
os conflitos entre capital e trabalho ' e isso tanto em termos de estabilização
do processo de acumulação capitalista, evitando-se crises permanentes do
sistema e garantindo que o processo de produção e de acumulação da riqueza
aconteça num crescendo, sem sobressaltos graves, quanto em termos de realização
de programas de inclusão social das classes dependentes do trabalho, de modo a
evitar-se que a acumulação privada da riqueza socialmente produzida (que ainda
se mantém na passagem do capitalismo liberal para o capitalismo tardio) possa
gerar concomitantemente processos de pauperização material às classes
trabalhadoras (Habermas, 1999 [1975], p. 68 e 1984 [1962], pp. 97-99; Hobsbawn,
1995, pp. 107-108; Baran e Swezzy, 1978, pp. 218-247; Braverman, 1987, pp. 242-
246; Shonfield, 1968, pp. 21-41; Macpherson, 1974, pp. 28-30; Abendroth, 1973,
pp. 19-20; Horkheimer, 1990, p. 4; O'Connor, 1977, pp. 25-33; Wolfe, 1980, pp.
271-277; Held, 1980, p. 45; Ingram, 1994, p. 199; Pinzani, 2009, p. 69-71).
Nesse aspeto, portanto, percebe-se uma nova configuração da relação entre
Estado e economia, que a teoria de Marx (e as vertentes mais ortodoxas do
marxismo), com os olhos voltados para o capitalismo liberal, não conseguiria
diagnosticar, a saber: a partir do século XX, o Estado passa a ser o motor da
evolução, em termos económicos e em termos sociais ' ele não é mais parte da
superestrutura do sistema, senão que faz parte, ainda utilizando um termo
marxista, da própria base desse sistema. O Estado de bem-estar social, como
quer Habermas, é o conteúdo político da democracia de massas, exatamente porque
garante a estabilidade dos processos de integração social, que, sem essa
atuação interventora e compensatória, ocorreriam de modo como que espontâneo,
arbitrário, e sendo determinados pela configuração das forças presentes na
esfera económica, o que, como consequência, aponta para o Estado como algo
marcado por um poder pacificador e integrador junto da sociedade ' ele
intermedia a esfera produtiva, em termos de economia capitalista, e a esfera da
distribuição do produto social, de modo a garantir que o sistema como um todo
possa evoluir com o mínimo de conflitos estruturais e seja marcado pelo máximo
de inclusão social possível.
Por isso mesmo, nem a política democrática e nem a sociedade civil (congregada,
por exemplo, em movimentos sociais e iniciativas cidadãs) mantêm a compreensão
clássica que possuíam no liberalismo, respetivamente política negativa e esfera
económica privada7. De facto, nas sociedades do capitalismo tardio, a íntima
imbricação entre direitos individuais, direitos políticos e direitos sociais,
correlatamente à repolitização das relações de produção, leva, em primeiro
lugar, à consolidação da política democrática enquanto âmbito em que as
contradições sociais estouram e como o instrumento por meio do qual tais
contradições são amortizadas, bem como, em segundo lugar, enquanto uma esfera
de efetivação da igualdade pressuposta pela imbricação entre os direitos, acima
comentada. Aqui, a política negativa, própria do capitalismo liberal, restrita
à afirmação da justiça comutativa, é ampliada, apontando para a realização da
justiça distributiva (direitos sociais de cidadania), para não se falar da
sempre aguda necessidade de participação das forças sociais no que diz respeito
ao exercício do poder, ao lado dos partidos políticos (democracia radical). Em
tudo isso, a política democrática, diferentemente do liberalismo clássico,
passa a ser compreendida como núcleo organizador da sociedade ' uma política
que encontra no Estado o seu órgão diretivo fundamental (Habermas, 1999 [1975],
p. 72; Maccarthy, 1992, p. 421). Nesta nova compreensão da política, nesta
afirmação do caráter político das relações de produção, uma nova sociedade
civil, altamente politizada e afirmando um ethos normativo que alarga a
compreensão da política para além daquela prática política sintetizada na ' e
monopolizada pela ' política parlamentar representativa a cargo dos partidos
políticos profissionais, tem lugar e enfatiza exatamente a instituição de uma
esfera público-política na qual os processos de legitimação do poder têm de se
curvar, de se submeter permanentemente ' uma esfera público-política que é
radicalmente crítica do poder, em todas as suas formas (Habermas, 2003b [1992],
vol. II, p. 99).
Ora, dado este papel central do Estado de bem-estar social, que deve
estabilizar o sistema económico e garantir a efetividade dos processos de
integração social, o capitalismo tardio é marcado pela mediação política dos
problemas económico-sociais, ou seja, a ideia de um Estado de bem-estar social
enquanto conteúdo político da democracia de massas significa que a estabilidade
sistémica ' que Marx havia diagnosticado como sendo impossível de ser mantida
no longo prazo, e que, por isso mesmo, levaria ao ocaso, à autodestruição do
capitalismo ' é garantida politicamente, através do aparato estatal interventor
(na esfera económica) e compensatório (na esfera social). Aqui, enfim, reside a
afirmação de que a política democrática, enfeixada nas funções interventoras,
regulatórias e compensatórias do Estado de bem-estar social, seria, em termos
de capitalismo tardio, o elemento diretivo da evolução da sociedade ' um
elemento que sob hipótese alguma poderia ser substituído, por exemplo, pelo
laissez-faire económico, ou mesmo pela retomada da ética liberal-protestante do
trabalho.
Note-se, em relação à centralidade do Estado de bem-estar social no que tange à
estabilidade e à evolução das sociedades industrializadas (mas não somente
delas, naturalmente, como podemos perceber em termos de organização das nossas
próprias sociedades, hoje), que uma das suas funções basilares consiste em
garantir padrões de integração social mínimos a todos os indivíduos e grupos
sociais, em particular àqueles indivíduos e grupos que, pelo facto de serem
dependentes do mercado de trabalho, são por ele afetados de diferentes maneiras
(exploração do trabalho, baixos salários, desemprego estrutural, etc.). Quer
dizer, para estes indivíduos e grupos, a realização da política social por
parte do Estado é condição sine qua non da sua integração social bem-sucedida.
Com efeito, como quer Habermas, o Estado de bem-estar social não pode garantir
a viabilidade de padrões de acumulação do capital sem correlatamente realizar,
às classes sociais dependentes do mercado de trabalho e afetadas por ele,
amplos processos de integração material, que se caracterizam, preventivamente,
pela satisfação das condições básicas de vida, acrescidas de acesso universal
aos sistemas formais de educação, bem como, a posteriori, pela instauração de
um sistema de segurança social que protegeria os indivíduos já impossibilitados
de trabalhar da falta de recursos para a sua sobrevivência (Habermas, 1999
[1975], p. 75 e 1990 [1976], p. 234). Em tudo isso, a tentativa de conciliação
entre capital e trabalho dá o tom da programática do Estado de bem-estar
social.
O conflito de classes, inscrito na estrutura do sistema por causa da manutenção
dos processos de acumulação privada da riqueza socialmente produzida, é
mediatizado politicamente, a partir da política social realizada pelo Estado.
Nesse sentido, na medida em que é oferecido a todos os indivíduos dependentes
do mercado de trabalho um conjunto básico de bens sociais primários, de
direitos sociais de cidadania, há uma equalização desses mesmos indivíduos, que
em rigor não podem cair abaixo de um padrão mínimo ' mas decente ' de bem-estar
material. Tal padrão mínimo, se não apaga as fronteiras de classe existentes na
sociedade e reproduzidas no processo produtivo, pelo menos desarticula os focos
de conflito originados pela pauperização material e pela exploração do trabalho
no, para utilizar um termo de Habermas, mundo da vida das classes dependentes
do trabalho. Com isso, a luta de classes é contida e a consciência de classe,
fragmentada ' já que não é mais possível identificar aquela clássica divisão de
classes estabelecida por Marx, pois que a realização de um nível mínimo de bem-
estar material para todos aqueles que dependem do mercado de trabalho eliminou,
no caso das sociedades desenvolvidas, em grande medida, os focos de pobreza
material e de exploração do trabalho que detonariam os conflitos de classe, que
desestruturariam a própria hegemonia de classe, levando a conflitos
sociopolíticos (Habermas, 1994 [1968], pp. 95-96 e 1999 [1975], p. 76-77).
Porém, há, para Habermas, uma dialética aguda entre politização e
despolitização que perpassa esse compromisso de classes assumido pelo Estado de
bem-estar social na sua relação com a democracia de massas. De um lado, como se
disse, o Estado responsabiliza-se, no capitalismo tardio, pela manutenção do
processo de acumulação da riqueza (e, direta ou indiretamente, pela reprodução
das relações de classe); de outro lado, dada a consolidação da democracia
social e dos valores universalistas da modernidade política, bem como devido à
força do movimento de trabalhadores europeu, a realização de amplos processos
de integração material e a necessidade sempre premente de justificação público-
política do aparato administrativo-partidário passam para primeiro plano na
agenda do poder, não podendo ser ignorados ' na verdade, a mediação política
dos conflitos entre capital e trabalho não deixaria outra opção ao Estado de
bem-estar social. Ora, é aqui que a dialética entre politização e
despolitização das relações políticas de produção marca a dinâmica da esfera de
poder congregada no aparato administrativo-partidário do Estado na sua relação
com a democracia de massas. É que essa conciliação entre capital e trabalho nem
sempre pode chegar à tematização pública, nem sempre pode ser objeto de
reflexão do público de cidadãos ' sob muitos aspetos, ela está em conflito com
um ideal de democracia radical. O Estado de bem-estar social, assim, estaria
perpassado, de um lado, pela necessidade de justificação política permanente
acerca da sua dinâmica interna, mas, ao mesmo tempo, de outro lado, para que
essa dinâmica pudesse ser realizada sem percalços maiores, precisaria, sempre
que possível, de despolitizar uma sociedade civil altamente politizada. E ele
faria isso por meio da gradativa independência em relação à ' e substituição da
' sociedade civil enquanto horizonte político por excelência (consolidado pela
modernidade política), seja a partir de uma mudança estrutural da esfera
pública, seja pela integração dos partidos políticos profissionais no horizonte
da administração, desligando-os, em grande medida, do público de cidadãos que
representam, seja mesmo pela substituição da discussão democrática pela ênfase
na tecnocracia, ou seja, neste último caso, pela centralidade da ciência e da
técnica no que diz respeito à resolução das questões sociopolíticas e
económicas pelas quais o Estado se responsabiliza.
Essas posições, que Habermas desenvolveu ao longo das décadas de 1960 e de
1970, no sentido de estudar, influenciado pela primeira geração da Escola de
Frankfurt, as condições de reprodução das sociedades contemporâneas, a
caracterização do capitalismo tardio, a estrutura do Estado de bem-estar social
e a constituição da democracia de massas (enquanto, de todo modo, momentos
interligados e dependentes), foi sintetizada pelo referido autor em Teoria da
Ação Comunicativa. Aqui, Habermas tem como foco de análise o processo de
racionalização ocidental que culminou nas sociedades do capitalismo tardio,
regidas pelo modelo de Estado de bem-estar social. Nestas, por conseguinte, o
principal problema não consistiria no crescimento dos processos de pauperização
social originados da esfera produtiva (que, não obstante, também existiriam),
senão que seria o nada desdenhável aumento da independência do Estado frente à
sociedade civil, paralelamente à consolidação de um processo de racionalização
social que este mesmo Estado de bem-estar social realiza frente a ela ' isto é,
no que diz respeito a este último ponto, a subsunção da sociedade civil aos
imperativos do poder do Estado. Ora, se o Estado de bem-estar social é o
conteúdo político da democracia de massas, o núcleo político diretivo da
evolução social em termos das sociedades contemporâneas, então é claro que,
numa situação na qual ele enfraquece a arena política constituída pela
sociedade civil e se sobrepõe, autonomiza-se frente aos atores políticos
constituídos pelos movimentos sociais e iniciativas cidadãs, esse mesmo Estado
de bem-estar social, assumido por grupos de poder hegemónicos, efetivamente
constituir-se-á em instrumento de dominação de classe.
Isso significa, por conseguinte, que o desafio das sociedades contemporâneas,
na verdade, não é nada mais ' mas também nada menos ' do que, dada a
centralidade do Estado, em avaliar até que ponto, quais os objetivos e que
limites esse mesmo Estado de bem-estar social possui, no que tange à
conciliação entre capital e trabalho. De um lado, tal postura é fundamental
pelo facto de que o Estado é esse núcleo político diretivo da evolução das
sociedades democráticas, que não pode ser abdicado pura e simplesmente, devido
à mediação política por ele realizada entre o económico e o social (entre
outras mediações, naturalmente). De outro lado, essa mesma postura aguça a
compreensão de que a democracia não se restringe ao ' e nem pode ser assumida
pura e simplesmente pelo ' Estado (e nem pelos partidos políticos disputantes
do poder nele centralizado). Quer dizer, o Estado é um instrumento democrático,
a arena na qual a evolução política da sociedade é realizada, mas não substitui
nem funda uma cultura democrática. Na verdade, esta cultura é o substrato
normativo daquele. Com isso, se de um lado o papel do Estado não pode ser
abdicado (por isso a necessidade de consideração das suas funções), de outro
lado a necessidade de ampliação da política democrática para além das
fronteiras da representação parlamentar e da atuação dos partidos políticos
profissionais coloca-se como uma exigência fundamental para as nossas
sociedades ' uma política inclusiva e abrangente, uma política de base, feita
no contato e na interrelação com os movimentos sociais e as iniciativas
cidadãs, aproximaria novamente o Estado em relação à sociedade civil, evitando-
se, desse modo, aquele distanciamento acima comentado e possibilitando uma
remodelação do processo de racionalização social que este mesmo Estado de bem-
estar social leva a efeito hodiernamente.
É por isso que disse, acima, que a correta avaliação do processo de
modernização ocidental se constitui no caminho a partir do qual se pode ajuizar
o sentido dessa relação entre o económico e o social mediados politicamente, ou
seja, a relação entre economia e sociedade civil intermediada pelo Estado
somente pode ser pensada a partir da compreensão das fronteiras, das funções e,
então, de que modo cada âmbito se pode aproximar dos demais. Porque a
modernidade não é um processo unívoco, senão que, por sua
multidimensionalidade, precisa de ser compreendida nas próprias diferenciações
que a constituem. Basicamente, estas diferenciações apontam para, de um lado,
um processo de modernização económica, racionalizada em termos de Estado, e, de
outro lado, para um processo de constituição de uma cultura democrática e
universalista radicalmente secularizada e laicizada, solidária, que, embora
esteja em íntima relação com a esfera político-económica, também é independente
em relação a ela e, mais importante, colocada como seu fundamento normativo,
enquadrando-a em termos de uma necessidade permanente de legitimação e de
justificação. Tem-se, então, a partir da diferenciação da modernidade, a
constituição de um aparato monetário-administrativo no qual economia e Estado
se imbricam a tal ponto que instauram uma dependência como que férrea entre o
económico e o político (capitalismo tardio), bem como a consolidação de um
ethos democrático radicalmente inclusivo em todos os âmbitos da sociedade ' um
ethos normativo que é colocado como o substrato a partir do qual aquele
aparato, como se disse acima, encontra uma escora no que tange à sua evolução.
Na teoria da modernidade de Habermas, conforme ela recebe contornos desde as
obras da década de 1960, passando pelas obras da década de 1970 e chegando, na
década de 1980, à obra Teoria da Ação Comunicativa, enquanto síntese e
maturação das investigações filosófico-sociológicas anteriores, feitas pelo
referido autor, a diferenciação entre modernização económico-social, ou seja, a
imbricação entre economia capitalista e Estado de bem-estar social, e
modernização cultural, marcada pela consolidação de uma cultura democrática
altamente inclusiva e explosiva, politizada, dá a tónica no que diz respeito à
crise do Estado de bem-estar social, às ideologias teórico-políticas em disputa
por hegemonia teórico-política (social-democracia e neoliberalismo, para o que
aqui me interessa) e mesmo em relação às considerações diversas acerca de um
suposto fim, esgotamento da modernidade como um todo.8
O NEOLIBERALISMO ATACA A MODERNIDADE CULTURAL, NEGANDO-A; A SOCIAL-DEMOCRACIA
ENTRAVA A MODERNIDADE CULTURAL
Nesse sentido, remetendo-se novamente ao texto de 1984, A Crise do Estado de
Bem-Estar Social e o Esgotamento das Energias Utópicas, pode-se entender por
que Habermas, num certo sentido, recusa enfaticamente a posição neoliberal e,
noutro sentido, critica e propõe uma reformulação da posição teórico-política
social-democrata em relação ao Estado de bem-estar social, mas sem romper com
ela. Com efeito, no caso do neoliberalismo, somente se pode atacar o núcleo
duro do Estado de bem-estar social (intervencionismo económico e justiça
distributiva) na medida em que se combate o conteúdo normativo da democracia
social, sintetizado na íntima imbricação entre direitos individuais, direitos
políticos e direitos sociais. Assim é que, conforme se disse anteriormente,
Offe e Habermas diagnosticam, de meados da década de 1970 em diante, com
especial ênfase a partir da década de 1980, um ataque massivo à modernidade
cultural, à ideia de democracia política radicalizada e ao conjunto dos
direitos sociais de cidadania.
Nesse período, a afirmação de Thatcher, de que a sociedade enquanto totalidade
social não existe, senão somente indivíduos, explicita a dinâmica da crítica
neoliberal ao Estado de bem-estar social (Harvey, 2008, p. 31; Habermas, 2000
[1998], p. 82). Esta crítica, na verdade, é caudatária da posição defendida por
Hayek, para quem tanto o direcionamento político da evolução social quanto a
realização da justiça social (ou distributiva) não teriam legitimidade. E não
teriam pelo facto de que, para o referido pensador, a evolução social ocorre de
modo espontâneo, a partir da busca individual do interesse pessoal, por parte
de cada sujeito. Ora, a ideia de uma evolução espontânea da sociedade significa
basicamente que não existe uma instituição diretiva da evolução social ' muito
menos uma instituição política que assuma tal função. As instituições não têm
condições de estabelecerem um resultado final e, por meio dele, planearem um
caminho e arranjarem os procedimentos adequados para a consecução daquele
ideal. Não há como saber o resultado final, porque a sociedade não é uma
totalidade social autoconsciente, ou que pudesse ser percebida
institucionalmente com autoconsciência. A sociedade é pura e simplesmente um
amontoado de indivíduos sem qualquer visão profética ou filosófica do todo,
indivíduos estes que estão voltados para os seus objetivos pessoais e que os
perseguem acima de tudo. É esse perseguir cada indivíduo seu interesse pessoal
que, por outro lado, garante a realização, ao longo do tempo, do processo de
evolução social, na medida em que, ao buscar cada um os seus objetivos
pessoais, acaba direta ou indiretamente por se pôr ao serviço dos interesses
dos demais.
E isso significa que se não existe algo assim como (a) a sociedade enquanto
totalidade social, enquanto macrossujeito autoconsciente, e (b) uma instituição
política diretiva e planeadora da evolução social, bem como (c) se apenas
existem indivíduos a perseguirem os seus interesses privados, então somente um
Estado restrito nas suas funções, marcado pela justiça comutativa e garantindo
a viabilidade de uma competição racional entre estes indivíduos (evitando-se,
por exemplo, a concentração monopolística da riqueza), poderia ser sustentado
com legitimidade. Um Estado amplo, caracterizado pela realização da justiça
social, não teria qualquer fundamento. Nesse sentido, a justiça social seria
uma miragem, porque implicaria exatamente conceber-se a sociedade enquanto
totalidade social, que, a partir do arranjo das suas instituições e da
configuração das forças políticas em busca de hegemonia, consolida e legitima
desigualdades entre os indivíduos e grupos sociais ao longo do tempo. Mas a
sociedade enquanto totalidade é uma fantasia, posto que somente existem
indivíduos ' daí o caráter fictício do conceito de justiça social (Hayek,
1985).
Para Habermas, a tentativa neoliberal de revitalização da já esgotada ética do
trabalho liberal-prostestante, nesse contexto de crise do Estado de bem-estar
social, enfeixaria esse ataque à modernidade cultural e, em particular, à
intima imbricação entre direitos individuais, direitos políticos e direitos
sociais. Para essa mentalidade neoconservadora, o problema não estaria no
processo de modernização económica, mas sim no excesso de expectativas
normativas que os movimentos sociais e as iniciativas cidadãs dirigiriam ao
Estado, à esfera política ' expectativas normativas fomentadas em termos de
modernidade cultural. Aqui, na verdade, residiria o grande empecilho ao
processo de modernização económica, na medida em que aquela imbricação entre os
direitos, própria da democracia social, por levar tanto a uma politização das
relações de produção quanto, por causa disso, a um crescimento das funções
interventoras e compensatórias do Estado, bem como a uma necessidade de
democratização progressiva da própria esfera produtiva, travaria o processo de
crescimento económico e retiraria mesmo a centralidade da ética do trabalho
liberal-protestante, para a qual o individualismo possessivo e a meritocracia
do trabalho, assentes na afirmação do caráter privado, meramente económico,
dessa esfera produtiva, dariam a tónica da própria definição do status quo em
termos de estratificação social e, por conseguinte, também da estruturação da
esfera política (Estado guarda-noturno). Assim, sob os motes de
ingovernabilidade e de inflação de expectativas, o neoliberalismo ataca, com a
sua proposição de uma redução das exigências sociais, concomitantemente o
Estado de bem-estar social e o conteúdo normativo da democracia social
(Habermas, 1997 [1985c], p. 271; Offe, 1984, pp. 236-240). E, por causa disso,
o Estado de bem-estar social deveria ser desinchado.
Por outro lado, ainda no texto A Crise do Estado de Bem-Estar Social e o
Esgotamento das Energias Utópicas, Habermas tece considerações acerca da
posição social-democrata, que é a real propugnadora do projeto de Estado de
bem-estar social e que estaria em franca perda de hegemonia política frente às
posições neoliberais, devido à crise do Estado de bem-estar social e à sua
incapacidade em resolvê-la. Ora, um dos grandes pontos de crítica de Habermas
à social-democracia, que desde a década de 1960 marcou sua posição frente
àquela, e que ficou estilizado em Teoria da Ação Comunicativa, consiste em que
a programática social do Estado teria sido elaborada de um modo tal que a
inclusão política das classes sociais dependentes do trabalho foi travada por
meio da normalização dos papéis de trabalhador e de consumidor, talhados
exatamente para a estabilização do sistema (Habermas, 2001a [1981], pp. 494-
495; White, 1995, pp. 113-119). O Estado de bem-estar social, por conseguinte,
nas suas tarefas de estabilização sistémica e de integração social, teria
adquirido relativa independência frente à legitimação democrática,
prescindindo, em grande medida, da participação popular no que diz respeito à
orientação da sua dinâmica, dos seus procedimentos e dos seus fins. E isso
seria possível (a) por uma mudança estrutural da esfera pública (concebida
negativamente, ou seja, como cultura de massas e imbricação entre media, Estado
e partidos políticos, com o que se teria perdido a independência da imprensa em
relação ao poder), assimilada ao poder administrativo, (b) pela transformação
dos partidos políticos profissionais em máquinas de conquista da lealdade das
massas e (c), como se disse acima, pela tendência da política social para
fomentar o privatismo civil (normalização dos papéis de trabalhador e de
consumidor, conformes ao sistema, e destruição da cidadania política). Tais
tendências, que perpassariam a constituição do Estado de bem-estar social e a
sua relação com a democracia de massas, que marcariam muito do sentido e do
direcionamento em termos de dinâmica da constituição do poder na relação entre
Estado e partidos políticos frente à sociedade civil, mediada pela esfera
pública instaurada pelos media de massas, tais tendências, como eu dizia,
imprimiriam essa dinâmica contraditória ao exercício das atividades do Estado e
o seu contacto com a sociedade civil, demarcando uma dialética de politização e
despolitização da massa dos cidadãos, substituídos, no que diz respeito à
participação política concernente à evolução social, pelos partidos políticos e
pela tecnocracia.
A social-democracia, por conseguinte, é criticada por Habermas como imprimindo
à esfera política uma dinâmica eminentemente assente na atividade político-
partidária que prescindiria, sempre que necessário, da democracia de base, que
alcançaria certa autonomia em relação a esta ' uma dinâmica despolitizante,
portanto. A social-democracia teria acreditado que o domínio partidário do
Estado e a colocação desse mesmo Estado enquanto entidade que se
responsabilizaria tanto pela estabilização sistémica quanto pela evolução
social seriam suficientes para garantir a conciliação entre capital e trabalho,
ou, por outras palavras, para garantir o casamento entre desenvolvimento
económico e justiça social. Com isso, teriam crescido vertiginosamente os
processos de racionalização social coordenados pelo Estado frente à sociedade
civil ' motivo pelo qual a crise do Estado de bem-estar social não possui, para
Habermas, apenas um viés económico, mas também um viés psicossocial (Habermas,
2005a [1985], p. 22 e 2002 [1985b], p. 502; Offe, 1984, p. 375).
Ora, a social-democracia tradicional entravaria a modernidade político-cultural
pelo facto de que o conteúdo normativo desta aponta para a consolidação de
processos democráticos radicalmente inclusivos, em todos os âmbitos da
sociedade, da esfera política para a esfera económica e, naturalmente, para a
esfera cultural. Nesse sentido, o aparato administrativo-partidário não pode
pura e simplesmente substituir, no que tange ao processo de democratização
progressiva da sociedade, essa arena política que é a sociedade civil, ela que
é provavelmente a principal conquista da modernidade política, bem como os
atores políticos constituídos pelos movimentos sociais e pelas iniciativas
cidadãs, oriundos da sociedade civil, que, ao diagnosticarem os problemas
político-culturais e socioeconómicos, têm condições de orientar o exercício do
poder administrativo-partidário frente à correção das mazelas sociais e à
efetivação das questões de integração material e sociopolítica. É sugestivo,
portanto, que Habermas termine o seu texto (A Crise do Estado de Bem-Estar e o
Esgotamento das Energias Utópicas) com a afirmação de que a resolução da crise
política pela qual passariam o Estado de bem-estar social e a social-democracia
enquanto sua propugnadora somente poderia ser pensada a partir do momento em
que os partidos políticos profissionais (e a social-democracia em particular)
abandonassem uma das suas funções nefastas, sem qualquer outro substitutivo que
não a instauração de focos de democracia de base, a saber: a conquista da
lealdade das massas (Habermas, 2005a [1985], pp. 32-33). A social-democracia,
como acredita Habermas, não pode subsistir politicamente se não se fundar na,
se não afirmar a democracia de base (e este é, de todo o modo, o grande desafio
e o agudo dilema dos partidos de esquerda quando alcançam ao poder de Estado '
ou seja, a ênfase na capacidade e no valor do próprio partido e dos seus
quadros burocráticos, que se fecham seja à participação popular, seja à crítica
publicamente realizada, permanecendo como que acima das massas e da própria
crítica).
É sugestiva, em relação a isso, a afirmação habermasiana, feita no texto
subsequente Revolução Recuperadora e a Necessidade de Revisão da Esquerda, de
que a social-democracia, a partir do projeto de Estado de bem-estar social, se
por um lado teria sido muito bem-sucedida no que tange à realização de um
consistente programa político assente na efetivação da justiça social, por
outro teria blindado as instituições e a esfera pública de um modo mais geral a
uma democratização abrangente. A democracia de massas, dinamizada politicamente
pelo Estado de bem-estar social, segundo Habermas, assumiu [ ] as
características de um processo de legitimação controlado e dirigido [ ]
(Habermas, 2005b [1990], p. 143), no qual a esfera pública, conduzida
tecnocraticamente e centralizada pelos partidos políticos profissionais, foi
blindada a uma maior participação de movimentos sociais e de iniciativas
cidadãs, consolidando certa autonomia institucional em relação à sociedade
civil e blindando a esfera económica e a esfera política, eminentemente ligadas
em termos de capitalismo tardio, a um questionamento mais abrangente realizado
a partir do mundo da vida pelos movimentos sociais e pelas iniciativas cidadãs.
Com isso, a democracia de massas, de tipo ocidental, segundo Habermas, seria
marcada institucionalmente pela renúncia à democracia radical; e a social-
democracia, por meio do projeto de Estado de bem-estar social, se por um lado
teria sucesso em termos de domesticação das mazelas económicas próprias à
economia de mercado capitalista, por outro teria de reconhecer que contribuiu
para dificultar a extensão dos processos democráticos a todas as esferas da
sociedade, tendo de conviver permanentemente seja com as patologias económicas,
seja com as patologias psicossociais da modernização ocidental (monetarização e
burocratização). Por isso, no seu texto Revolução Recuperadora e a Necessidade
de Revisão da Esquerda, Habermas é enfático ao afirmar, no que tange ao
repensar da esquerda após o colapso do socialismo real, que o socialismo [ ]
sempre significou mais do que a política social (Habermas, 2005b [1990], p.
144). Ora, isto vale também para a social-democracia: ela sempre significou
mais do que a política social, do que os direitos sociais. E é aqui que a
defesa de uma continuidade reflexiva do projeto social-democrata de Estado de
bem-estar social ganha novo sentido: não se trata apenas, utilizando os termos
de Habermas, de uma domesticação da economia capitalista, mas também de uma
democratização progressiva e sólida do poder institucional, do Estado, dos
partidos políticos, a partir da afirmação de movimentos sociais e de
iniciativas cidadãs que podem complementar e eventualmente até substituir
funções institucionais e mesmo os próprios partidos políticos.
DA DEFESA HABERMASIANA DE UM ESTADO SOCIAL E DEMOCRÁTICO DE DIREITO
A partir de Direito e Democracia (Faktizität und Geltung, 1992), Habermas passa
a centrar as suas análises e posicionamentos em torno da necessidade de se
salvar e de se afirmar um Estado social e democrático de direito, temperado
com focos de democracia radical. E, aqui, enfatiza a necessidade de se retomar
a posição teórico-política social-democrata, de modo a oferecer-se uma
consistente contraposição ao neoliberalismo. Com isso, ter-se-ia uma
continuidade reflexiva do projeto de Estado de bem-estar social que, se por um
lado reforça a importância do projeto social-democrata de Estado de bem-estar
social e, com isso, a sua filiação à social-democracia, por outro lado, fiel às
críticas desenvolvidas em momentos anteriores ao caráter autoritário dessa
mesma social-democracia na sua relação com a sociedade civil, afirma a
necessária complementariedade do aparato administrativo-partidário com focos de
democracia de base, de modo a aproximar-se o Estado e os partidos políticos e a
esfera público-política burguesa em relação à sociedade civil, aos movimentos
sociais e às iniciativas cidadãs, bem como às esferas públicas informais por
eles instauradas. No primeiro caso, portanto, o Estado de bem-estar social não
pode ser abandonado nas suas tarefas de intervenção económica e de integração
social ' a sua desestruturação não é a saída para a crise económica pela qual
estariam passando as sociedades contemporâneas (e as sociedades desenvolvidas,
em particular); no segundo caso, conforme lapidar afirmação feita em Direito e
Democracia, de que não haveria ' nem se poderia manter ' Estado de direito sem
democracia radical, a democracia de base é a exigência basilar para as nossas
sociedades, no sentido de que aquela pretensa e problemática autonomia do
Estado frente à sociedade civil e a generalizada autosuficiência dos partidos
políticos frente aos movimentos sociais e às iniciativas cidadãs estão
enfraquecidas, somente podendo ser solucionados a partir de uma maior
aproximação entre estes âmbitos, a partir de uma rearticulação entre eles
(Habermas, 2003a [1992], vol. I, pp. 12-13).
A retomada, a defesa de um Estado social e democrático de direito, como quer
Habermas, congrega em si a afirmação dos conteúdos normativos tanto das
revoluções burguesas quanto dos movimentos proletários modernos. No primeiro
caso, a ideia de um Estado democrático de direito ' no qual a afirmação de
direitos individuais e políticos e a centralidade da esfera jurídico-
constitucional em termos de estruturação das instituições e do processo de
evolução social dão a tónica ' aponta para o procedimento institucional
(política parlamentar-representativa, partidos políticos, direitos individuais,
integração jurídico-constitucional) enquanto o meio a partir do qual os
indivíduos e grupos sociais decidem acerca de como querem estruturar as suas
relações recíprocas e as instituições que as regulam; no segundo caso, a ideia
de uma universalização dos direitos sociais, como condição da efetividade dos
direitos individuais e dos direitos políticos (estes também universalizados),
correlatamente à necessidade de contactos cada vez mais intensos entre o âmbito
administrativo e os partidos políticos frente aos movimentos sociais e às
iniciativas cidadãs (focos de democracia de base), têm por objetivo exatamente
evitar que a democracia se restrinja ao procedimento institucional e aos atores
políticos burocráticos, sendo concentrada e monopolizada neles e por eles tão-
somente, ou seja, como queriam os movimentos proletário-socialistas, que a
democracia possa ser marcada efetivamente pela equiparação sociopolítica de
todos, que apenas aconteceria na medida em que a participação generalizada
fosse efetiva ' e no grau, por conseguinte, em que essa participação
generalizada acontecesse.
Ora, como acredita Habermas, o Estado de bem-estar social é um Estado social e
democrático de direito assente na afirmação de uma democracia de base, o único
herdeiro legítimo das revoluções burguesas e dos movimentos proletários
modernos, uma organização político-administrativa que está intrinsecamente
ligada ao conteúdo normativo da democracia social. Nesse sentido, é inviável,
em termos de sociedades democráticas contemporâneas, uma organização
administrativo-partidária que prescinda das massas no que diz respeito à
discussão e à decisão acerca da sua atuação. Na verdade, é aqui que reside um
dos grandes problemas dessas mesmas sociedades na sua relação com tal estrutura
administrativo-partidária, na medida em que a crise do Estado de bem-estar
social possui o caráter de uma crise económica e de uma crise psicossocial '
nos dois casos, a saída para a crise acabou sendo o acirramento da separação
entre Estado e partidos políticos frente à sociedade civil, seja por causa da
hegemonia neoliberal desde a década de 1980, seja mesmo como forma de se ganhar
suficiente autonomia de decisão por parte dessas administrações e dos partidos
políticos trabalhistas vitoriosos e possuidores do maquinário estatal
(incluindo-se, aqui, a social-democracia), no período do pós-guerra.9 Mas a
saída para a crise não é, nem pode consistir, na despolitização institucional
da massa da população e dos conflitos sociais definidores da dinâmica da esfera
política.
No que diz respeito à crise económica, percebe-se que, dado o caráter mediador
do Estado em relação ao desenvolvimento e à estabilidade económica, qualquer
crise neste último âmbito estourará fatalmente na esfera administrativa, que
será responsabilizada pelos déficits acontecidos no mercado. Entretanto, com
isso fica ainda mais claro o facto de que a causa da crise não está no Estado,
e sim no mercado: o processo de acumulação privada da riqueza socialmente
produzida imprimirá, ao longo do tempo, uma desigual distribuição do produto
social e, como consequência, uma estratificação social cada vez mais acentuada
em termos piramidais, para não falar no facto de que crises cíclicas no
processo de acumulação acontecem devido a vários fatores, entre eles o
crescimento da especulação e o decréscimo dos salários e do consumo. O que se
percebe, aqui, é que o problema consiste em que o foco determinante da
estabilidade do mercado e, por causa disso, da sociedade nele fundada está em
que o processo de acumulação aconteça permanentemente e em graus cada vez mais
elevados, o que implica que a exploração social e a divisão desigual da riqueza
devam aumentar de forma concomitante ' mas isso é impossível e, aliás, nem pode
ser uma constante. Com isso, o Estado, dada a sua centralidade no capitalismo
tardio, vê-se em grande dilema, pois que, de um lado, deve estabilizar a esfera
económica (ou seja, fomentar administrativamente o processo de acumulação, com
todas as contradições que este gera), correlatamente ao facto de que também
precisa de mediá-lo socialmente por meio da concessão de direitos sociais.
As contradições geradas em termos de economia capitalista ' essa é a conclusão
que se pode tirar daí ' acontecem e acontecerão com a participação do Estado ou
sem a participação do Estado, mas o grau em que a domesticação estatal da
economia acontece é que define e definirá a intensidade e o alcance dessas
mesmas crises. Nesse sentido, abdicar das amortizações estatais em relação à
esfera económica implica também abandonar-se tanto medidas tendentes a evitar
uma monopolização pura e simples da economia, como a realização de políticas de
integração social à massa de indivíduos expulsos do processo produtivo, cuja
necessidade (de políticas sociais) cresce à medida que a monopolização da
economia e a sua autonomia em relação ao controlo político aumentam. Aqui, com
efeito, o papel do Estado jamais se tornará defasado, por mais problemático que
ele possa ser. Na verdade, se é difícil conviver-se com ele, mais problemático
ainda é passar-se sem ele, em particular na nossa época, na qual a necessidade
permanente de crescimento económico, tornada aguda por causa de crises quase
quotidianas no processo de acumulação da riqueza, marca a sina diária da vida
de todos nós, imprimindo à esfera público-política o pathos de uma
responsabilização pela crise à qual essa mesma esfera não pode fazer mais do
que amortizar de modo paliativo ao longo do tempo, enquanto não se realizam
reformas mais substantivas no próprio processo de produção e de distribuição da
riqueza. Uma, sob muitos aspetos, pseudo-responsabilização política que, na
posição neoconservadora ou neoliberal, somente pode ser resolvida com a
retirada dos controlos públicos em relação à esfera económica e com um
afrouxamento das leis trabalhistas (hoje, a necessidade de medidas de
austeridadedá o tom das reformas políticas tendentes à resolução da crise
económica), mas que implica em deixar-se o âmbito social completamente
desprotegido frente à dinâmica da exploração económica e do desemprego
estrutural.
Nesse aspeto, também pode divisar-se o sentido de uma crise psicossocial. Esta
é caudatária da cada vez maior necessidade de autonomia administrativo-
partidária no que tange a conduzir estatalmente tais reformas políticas frente
ao mercado, aos direitos sociais e ao trabalho. Como se percebe hoje, as
medidas de austeridade encontram profunda contraposição nas camadas sociais as
mais diversas, que sabem que isso significará um corte dos direitos sociais em
favor do processo de acumulação económica e, portanto, em benefício das classes
mais abastadas da sociedade. Ora, tais medidas de austeridade somente podem ser
implantadas no momento em que se prescinde exatamente dessa discussão pública
ampliada, ou seja, na medida em que, como se disse acima, a esfera
administrativo-partidária se autonomiza da legitimação pública da sua atuação,
substituindo a participação popular pela representação burocrática. Para
Habermas, a grande contradição da esquerda está em que ela também, a exemplo do
neoliberalismo, estaria utilizando cada vez mais, desde os anos 1960, esse
procedimento de substituição da democracia de base pela ênfase nos partidos
políticos burocráticos, que cortam a ligação com as camadas sociais suas
representantes. Com isso, o Estado ' mesmo o Estado administrado pela esquerda
social-democrata ' ter-se-ia sobreposto à sociedade civil, tolhendo-a na sua
participação política e substituindo os focos de democracia de base pela
manipulação da lealdade das massas e pelo fomento do privatismo civil. A
esquerda social-democrata teria como que renunciado à democracia de base, isto
é, à generalização da organização democrática da sociedade em todos os âmbitos
(inclusive no âmbito produtivo, de uma organização autogestionária do trabalho
e da produção). E é claro que, em tal contexto, o caráter da atuação estatal
frente à esfera económica será sempre problemático, porque, politicamente
falando, renunciou-se, em grande medida, à extensão da democracia de base para
todos os âmbitos da sociedade, em favor da afirmação de um processo de
racionalização social que abarca a sociedade como um todo, na sua tentativa de
conciliação entre capital e trabalho por meios administrativos. Mas não se
substitui a democratização progressiva da sociedade pela burocracia sem um
preço muito alto, a saber, o próprio enfraquecimento da democracia de base, o
que tem como consequência essa nefasta autonomia do Estado e dos partidos
políticos frente à sociedade civil e aos movimentos sociais e às iniciativas
cidadãs daí oriundos, correlatamente à transformação da esfera público-política
num espaço de manipulação político-cultural.
É por isso que, na década de 1990, a posição teórico-política de Habermas
claramente se direciona para uma defesa da esquerda social-democrata e do seu
projeto de Estado de bem-estar social, que, entretanto, precisam de ser
retomados reflexivamente. De um lado, com o fracasso do socialismo real, a
esquerda da Europa ocidental, revendo a sua posição, dá-se conta de que o seu
projeto teórico-político, em particular num momento em que a hegemonia
neoliberal fazia e faz sentir seus efeitos, se centra na afirmação do Estado de
bem-estar social, nas suas tarefas de intervenção económica e de integração
social (Habermas, 2005b [1990], p. 156). Esse mesmo Estado de bem-estar social
precisa de ser defendido de um processo de desestruturação cada vez mais
avassalador, devendo ter solidificadas as suas funções de domesticação
económica e de integração material das classes sociais dependentes do trabalho
' na verdade, por causa de uma globalização económica consolidada, há inclusive
a necessidade de se criar mesmo instituições supranacionais de regulação
económica e de inclusão social, ao estilo do modelo representado pelo Estado de
bem-estar social (Habermas, 2003c [2001], pp. 105-106 e 2009, p. 106). Por
outro lado, um projeto teórico-político emancipatório de esquerda, congregado
no modelo social-democrata, somente poderia ser bem-sucedido na defesa do
Estado de bem-estar social (e também num projeto alternativo de globalização)
se se aproximar dos movimentos sociais e das iniciativas cidadãs, se se fundar
em processos de democracia de base, de modo a evitar a autonomia da esfera
administrativo-partidária causada pela burocracia política dos partidos e dos
tecnocratas (Habermas, 2005b [1990], p. 144). Na verdade, o poder de classe é
sempre bem-sucedido quando a burocracia substitui a democracia de base, já que
esse mesmo poder de classe perde qualquer contraponto, qualquer freio,
absolutizando-se devido à sua autonomia frente à participação democrática e,
por causa disso, enfraquecendo-a. Nas sociedades democráticas contemporâneas, o
poder de classe, no fim das contas, foi legitimado e consolidado, em grande
medida, por causa dos partidos políticos burocratizados e autonomizados em
relação à sociedade civil, bem como desligados em relação aos movimentos
sociais e às iniciativas cidadãs, pelo menos em uma poderosa medida.
Ora, um último ponto merece destaque, neste meu argumento de que a crítica e a
retoma da social-democracia e do seu projeto de Estado de bem-estar social,
concomitantemente à contraposição ao neoliberalismo, constituem o núcleo da
posição teórico-política habermasiana ' mormente a partir do meu estudo sobre a
ideia de continuidade reflexiva do projeto social-democrata de Estado de bem-
estar social. Este último ponto diz respeito ao problema da globalização
económica e, aqui, à importância de se retomar o projeto social-democrata de
Estado de bem-estar social, pelo menos em alguns aspetos pontuais, ao nível
supranacional. Nos seus últimos textos, Habermas louva a posição social-
democrata, atribuindo-lhe responsabilidade pela pacificação das mazelas sociais
das sociedades desenvolvidas. Ele diz que os sociais-democratas possuem [ ] o
mérito [ ] de que a sociedade de classes tenha sido pacificada através do
Estado de bem-estar social e se tenha transformado em uma sociedade de
cidadãos (Habermas, 2009, p. 57). Essa pacificação, como o referido pensador
não se cansa de repetir, é uma questão de política forte, a partir da ênfase no
Estado de bem-estar social interventor e compensatório. Portanto, ao contrário
dos discursos neoconservadores contra a política e contra o Estado de bem-estar
social, é exatamente esse modelo de política forte, centralizada num Estado
diretivo e compensatório em relação à dinâmica socioeconómica, que marcou o
compasso do desenvolvimento das sociedades ocidentais de um modo geral e das
sociedades desenvolvidas em particular.
A globalização da economia, já consolidada, entretanto, teria como implicação
um golpe de morte à centralidade da política diretiva da evolução
socioeconómica, na medida em que, devido à desregulação económica reinante ao
nível internacional, o Estado de bem-estar social estaria perdendo o controlo
dos fluxos de capital e de trabalho a um nível interno, tendo de, por sua vez,
adequar-se à desregulação económica e à flexibilização do trabalho reinantes ao
nível internacional, renunciando a uma política diretiva da dinâmica
socioeconómica, marca fundamental do modelo social-democrata de Estado de bem-
estar social. Hoje, acredita Habermas, a implantação das políticas de bem-
estar, ameaçada pela globalização económica, deveria ser complementada com
instituições políticas de alcance supranacional, possuidoras de um projeto de
desenvolvimento internacional, que pudessem enquadrar politicamente, ao nível
global, os fluxos de capital autonomizados, a crescente desvalorização do
trabalho e uma distribuição de renda absolutamente desigual entre países e
povos. Aqui, mais uma vez, a social-democracia teria um importante papel
político a desempenhar, bem como grande experiência no que diz respeito à
instauração de uma política forte, diretiva da evolução socioeconómica, através
da afirmação do Estado de bem-estar social (Habermas, 2009, p. 106). A social-
democracia, na verdade, deveria encampar esse projeto emancipatório a um nível
global, que, por meio da afirmação de instituições políticas supranacionais
fortes, regularia os processos económicos ao nível global, de modo a proteger o
trabalho dos efeitos nefastos da exploração neste nível, correlatamente a
garantir padrões mínimos em termos de direitos sociais a todos os seres
humanos.10
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Pode-se dizer com segurança que a reconsideração do papel do Estado frente à
economia e à vida social deu a tónica dos desenvolvimentos teórico-políticos a
partir da década de 1990 em diante, nas nossas sociedades (naturalmente, não
com a mesma velocidade e intensidade em todas elas). Depois da referida crise
fiscal do Estado de bem-estar social e, em particular, dos confrontos
ideológicos em torno da compreensão do político, levados a efeito pelo
neoliberalismo na sua larga hegemonia na realpolitik ocidental, passou-se, de
um lado, a perceber a crise económica como um problema político (já que a
esfera económica passa a ser entendida como uma esfera eminentemente política,
marcada por relações políticas de poder), que deve encontrar, por conseguinte,
solução política, em termos do poder congregado no Estado; e, de outro lado,
como consequência, solidificou-se a perceção de que não é o Estado e os seus
mecanismos reguladores, interventores e compensatórios que entravam o
desenvolvimento económico, senão que o processo de acumulação possui déficits
internos que precisam de ser permanentemente corrigidos por via política. Com
isso, o Estado ' esse Estado de bem-estar social marcado por funções
interventoras e distributivas ' torna-se o elemento fundamental no que tange à
condução da evolução social, à regulação do mercado e à realização da
integração social, não podendo ser abdicado pura e simplesmente em relação a
essas tarefas. Hoje, na verdade, é muito difícil, na esfera público-política
democrática, expor-se uma luta aberta contra o Estado e suas funções ampliadas,
e pode-se perceber a esquerda concentrando-se exatamente na defesa deste Estado
interventor e compensatório enquanto o pilar da estabilização económica e da
integração social, nos mais diferentes contextos nacionais (Estado esse visto
como o cerne de qualquer projeto teórico-político emancipatório).
No caso de Habermas, é importante perceber-se que a sua diferenciação entre
modernização económico-social, marcada pela íntima imbricação entre Estado de
bem-estar social e economia capitalista, e modernização político-cultural,
caracterizada pela afirmação da democracia (em todos os âmbitos da sociedade) e
pela radicalização e politização da cultura, deixa claro o quanto o papel do
Estado é importante tanto no primeiro aspeto (regulação económica) quanto no
segundo (estabilização social, viabilização da democracia). Ora, uma
continuidade reflexiva do projeto de Estado de bem-estar social vem afirmar
exatamente esse mesmo Estado de bem-estar social nas suas tarefas interventoras
e compensatórias, complementado de focos de democracia de base, que evitariam o
distanciamento e a sobreposição da esfera administrativo-partidária em relação
à sociedade civil, aos seus movimentos sociais e às suas iniciativas cidadãs. E
a razão é bem clara: se, por um lado, a instituição Estado adquire o papel de
núcleo diretivo da sociedade, o locus onde as forças sociopolíticas fazem valer
suas reivindicações, o instrumento a partir do qual os interesses
generalizáveis encontram realização, por outro lado a práxis democrática não se
restringe a ele, senão que possui uma realidade mais abrangente e que engloba
esse mesmo Estado e, além disso, os próprios partidos políticos profissionais.
O Estado e os partidos políticos são máquinas burocráticas que complementam,
enquanto aparelhos, a democracia, mas não podem ser entendidos como
sintetizando a democracia como um todo, porque, se isso acontecesse, a
democracia seria substituída pela burocracia, a normatividade política pela
racionalidade instrumental. Quanto mais se afirma a centralidade do Estado
enquanto instância diretiva da vida social, mais intensamente se exige também a
realização de focos de democracia de base. O erro do neoliberalismo consiste em
dissociar a esfera política (entendida apenas enquanto esfera administrativa) e
a esfera social (entendida, ainda pelo neoliberalismo, enquanto esfera
eminentemente privada, apolítica, englobada pelas relações de produção),
perdendo de vista a radicalidade do político e travando a normatividade que vai
da esfera social para a esfera política; o erro de muitos partidos de esquerda
(incluindo, no caso de Habermas, a social-democracia), quando alçados ao poder,
está em reduzirem o poder político ao poder do partido e a práxispolítica ao
exercício burocrático do poder pelo partido, blindando-se à democracia de base.
Mas não há Estado democrático de direito sem democracia de base (já que aquele
é uma esfera instrumental e esta uma esfera normativa). Nesse sentido, se o
papel do Estado na vida socioeconómica foi reconsiderado, sendo percebido como
absolutamente necessário, das duas últimas décadas do século XX em diante, a
ênfase na democracia de base, da mesma forma, neste período, passou a ser
afirmada como o próprio espírito do poder, como possibilitando (e somente ela)
a fundamentação normativa do poder ' e estabelecendo uma dialética
sociopolítica em que a política democrática e a organização da sociedade passam
a ser confrontadas com as suas contradições e as suas potencialidades.