O rural e o urbano no Brasil: uma proposta de metodologia de classificação dos
municípios
INTRODUÇÃO
Os conceitos de rural e urbano servem, antes de tudo, para designar dois tipos
diferentes de produção e organização do espaço, embora esta dimensão não esteja
dissociada do seu conteúdo relacional e social. A cada um destes tipos de
espaço correspondem formas de uso social definidas, geralmente, por fatores
demográficos como o número de habitantes, a densidade populacional ou por
fatores económicos como o tipo de atividade económica, ou ainda por indicadores
sociais, como a presença de determinados bens de uso coletivo. Assim, pode
argumentar-se que o conceito de urbano, geralmente associado à ideia de cidade,
remete para um ambiente produzido e modificado. Esta definição não parece ser
suficiente, pois o espaço rural é também modificado, ainda que nele as
características do ambiente natural sejam mais visíveis.
O presente artigo tem como objetivo analisar como o rural e o urbano são
definidos no Brasil, e estabelecer uma metodologia de classificação do espaço.
Partindo da crítica à definição oficial, que considera urbana toda a sede de
município e de distrito, independente do tamanho e da infraestrutura, passando
pela análise das críticas académicas, propomos uma tipologia de classificação
dos municípios brasileiros segundo as características rurais e urbanas. Desta
forma, o principal contributo do artigo é de carácter metodológico.
Todavia, o artigo não descura a análise conceptual própria do exercício
sociológico, sendo necessário todo um enquadramento teórico tanto na análise
das diversas abordagens teóricas do rural e do urbano, quanto no esforço em
situar o debate teórico sobre o rural no Brasil, relacionando-o com a
bibliografia internacional. Do ponto de vista teórico, assumimos uma abordagem
de base territorial, na qual o rural e o urbano são partes do mesmo território,
como suporte para a análise e para a construção da tipologia, numa perspetiva
pluridimensional, e tomando como unidade de análise o município na sua
totalidade. A tipologia apresentada justifica-se pela ausência de uma definição
oficial baseada em critérios científicos, sendo o rural e o urbano no Brasil
definidos por critérios meramente administrativos.
O artigo está dividido em seis secções, incluindo esta introdução. Na secção
seguinte apresentamos o enquadramento teórico no qual se discutem as diversas
abordagens conceptuais do rural e do urbano. Na terceira secção, situamos o
debate teórico sobre o rural e o urbano no Brasil, e analisamos a classificação
oficial e as críticas académicas à mesma. Na quarta secção apresenta-se a
metodologia adotada, desde a escolha dos indicadores ao tratamento estatístico
utilizado (análise de componentes principais e análise de clusters). Na quinta
secção apresenta-se a tipologia dos municípios que resultou da análise dos
dados, e a caracterização de cada uma das categorias de espaços urbanos e
rurais. Na sexta e última secção, apresentam-se as principais conclusões e o
contributo para a produção teórica sobre o rural e urbano no Brasil.
CONSIDERAÇÕES SOBRE OS CONCEITOS DE RURAL E URBANO
Os conceitos de rural e urbano designam formas distintas de organização do
espaço. A produção do espaço, tal como afirma Henri Lefebvre (1974), resulta
dos processos sociais que nele tomam lugar. Assim, estes conceitos são
portadores de significado que vai além da mera diferenciação espacial. Eles
remetem também para diferentes formas de organização social e económica, assim
como para diferentes padrões culturais. Para L. Wirth (2001 [1938]), os
conceitos de urbano e rural indicam também dois modos de vida distintos.
Na sociologia, estes conceitos têm sido tratados como polos de uma dicotomia
que, em sentido lato, remete para a oposição clássica entre o tradicional e o
moderno. Esta oposição já está presente nos escritos de sociólogos clássicos
como Émile Durkheim (1997 [1893]) e Max Weber (1991 [1920]). Entretanto,
Ferdinand Tönnies (1989 [1887]) no seu ensaio Comunidade e sociedade, que
melhor sistematiza esta dicotomia, tendo influenciado os estudos sobre o rural
e a própria formação da sociologia rural na primeira metade do século XX, está
ainda presente nos estudos atuais, como observam Paul Cloke (2007) e Renato
Miguel do Carmo (2009).
Importa, pois, apreender o que distingue o rural do urbano. Nas abordagens
clássicas, o rural tem sido classificado como o espaço da agricultura, em
oposição ao urbano, tido como o espaço da indústria. Para além de ser o espaço
da agricultura, as outras características atribuídas ao rural são: a relação
direta dos seus habitantes com a natureza, a baixa densidade populacional e o
interconhecimento entre os seus habitantes. As abordagens clássicas situam o
rural relativamente ao urbano de duas maneiras: como oposição campo-cidade e
como um continuum rural-urbano. A perspetiva do continuumfoi sistematizada por
R. Redfield (1960), que propõe três tipos ideais de sociedade: pequenas
comunidades, sociedades camponesas e sociedades urbanas. A representação
espacial desta tipologia (city-town-village-tribe) exprime o domínio do urbano.
A definição de rural está sempre subsidiada pela definição de urbano, sendo na
maioria das vezes, o rural classificado como o que está fora do urbano. Para
Marc Mormont (1996, p. 161), o rural é uma categoria historicamente situada,
que emerge com o processo que vê as forças conjugadas da industrialização e da
urbanização (a mobilidade mais que a expansão das cidades) integrarem
progressivamente os campos dentro de um sistema económico e sociopolítico
unificado. O termo rural, ou melhor, sociedade rural, é utilizado no sentido
de dar uniformidade a uma realidade diversa, constituída pelos campos que
circundavam as cidades. Para este autor, o rural é menos um conceito do que uma
categoria operatória de descrição do espaço. No entanto, é também uma categoria
de leitura da realidade social, na medida em que expressa uma representação do
mundo que vai além da mera diferenciação do espaço.
A categoria do rural é utilizada para diferenciar o campo da cidade, dentro de
um contexto específico: o da sociedade industrial. Portanto, para a sociologia,
o rural é pensado a partir de uma relação com o urbano. Para Marcel Jollivet
(1997), o adjetivo rural, que designava os habitantes dos campos, foi
transformado em substantivo e passou a designar, ao mesmo tempo, o espaço e o
ambiente social em que eles vivem. Daí, conclui-se que a visão clássica da
relação urbano-rural é sempre orientada pela subordinação do campo à cidade
(Wanderley, 2000). Isto fica evidente quando se analisam as transformações
ocorridas nos espaços rurais resultantes do processo de urbanização e
modernização da sociedade. A própria modernização da agricultura era vista como
um fator de esvaziamento dos espaços rurais, o que levaria ao seu
desaparecimento. Assim, a abordagem do rural como espaço da agricultura é
também a do rural como espaço em extinção. Isto decorreria da urbanização dos
campos (Rambaud, 1969), que, para Lefebvre (1974), representava a urbanização
completa da sociedade, ou seja, o próprio fim do rural. Esta visão clássica do
rural predominou até fins da década de 1970 (Ferrão e Lopes, 2004).
Os processos de reestruturação da economia e da sociedade fizeram com que a
abordagem clássica do rural como espaço da agricultura fosse questionada. Viver
no campo deixou de ser sinónimo de ser agricultor. Isto porque se verifica uma
relativa perda da importância da agricultura e a emergência de novas atividades
económicas de carácter não agrícola nos espaços rurais. Como resultado do
processo de modernização, a agricultura tende a ocupar menor quantidade de
pessoas, permitindo assim o desenvolvimento da pluriatividade. Este vem a ser
um dos temas dominantes na produção sociológica sobre o rural nas décadas de
1980 e 1990, nomeadamente entre estudiosos franceses como Marcel Jollivet
(1997) e Bernard Kayser (1990).
Na década de 1980, o surgimento da abordagem territorialista, que se
consolidaria nas décadas seguintes, representa uma quebra de paradigma no
estudo do rural. A mudança de abordagem não se resume à perspetiva económica.
Nota-se também que o processo de modernização da agricultura levou aos campos
produtos e serviços antes considerados tipicamente urbanos. Isto não significa
que o rural deixou de ser espaço da agricultura, mas que se torna um espaço
multifuncional, marcado sobretudo pela pluriatividade (Jollivet, 1997); Mathieu
(1998); Kayser (1990).
A mudança de abordagem pode ser sintetizada em duas perspetivas teóricas, que,
a nosso ver, têm orientado os estudos sobre o rural a partir da década de 1990.
A primeira é a do renascimento do rural, lançada pelo geógrafo e sociólogo
francês Bernard Kayser (1990), na sua obra La Renaissance rurale, na qual o
autor contesta as teses do fim do rural e apresenta a diversidade dos espaços
rurais num período de intensa modernização e urbanização. A ideia de
renascimento é reforçada pela reconfiguração do rural como espaço pluriativo e
multifuncional, e pela presença de bens e serviços nos espaços rurais. Kayser
sintetiza ainda as formas de classificação do rural em países como França,
Estados Unidos da América e Alemanha. A segunda perspetiva teórica é a do rural
restructuringdesenvolvida por investigadores britânicos como Terry Marsden,
Philipe Lowe e Sarah Whatmore (Marsden etal., 1990). Estes autores interpretam
as transformações do rural como resultado do processo de reestruturação da
economia global (Marsden etal., 1993).
Esta mudança de abordagem indica que a relação entre rural e urbano deixa de
ser analisada de forma dicotómica, passando estas duas realidades a ser vistas
como partes complementares de um mesmo território. Do ponto de vista da
diferenciação quanto ao urbano, Bernard Kayser (1990, p. 13) sintetiza o rural
a partir de quatro dimensões:
a) uma baixa densidade de habitantes e de construções, com a
cobertura vegetal como paisagem predominante;
b) um uso económico do solo predominante por atividades agro-silvo-
pastoril;
c) um modo de vida dos seus habitantes caracterizado pela pertença a
uma coletividade de tamanho limitado e por uma relação com a
natureza.
d) uma identidade e uma representação específicas fortemente marcadas
pela cultura camponesa.
Esta definição do rural evidencia as suas diferenças relativamente ao urbano a
partir das características da cidade apontadas por M. Weber (1991 [1920], p.
408). Para este autor, a cidade, do ponto de vista sociológico, seria um
povoado, isto é um assentamento de casas contíguas, as quais representam um
conjunto tão extenso que falta o conhecimento mútuo dos seus habitantes; já do
ponto de vista económico, a cidade seria um povoado cujos habitantes em sua
maioria não vivem do produto da agricultura, mas sim da indústria ou do
comércio (Weber, 1991 [1920], p. 409).
Contemporâneo de Weber, Georg Simmel (1971 [1903]) apresenta um importante
contributo para a análise do fenómeno urbano e mesmo para a diferenciação deste
relativamente ao rural. Para Simmel, a cidade, ou mais precisamente, a
metrópole, caracteriza-se por favorecer o desenvolvimento da vida intelectual,
a racionalização das relações sociais, bem como pela economia monetária, em
contraste com as pequenas localidades e a vida rural.
O conceito de urbano e a sua representação pela forma espacial da cidade
adquirem importância na década de 1920, quando sociólogos da Escola de Chicago,
como Ernest W. Burgess e Robert E. Park (1925) incorporam na sociologia os
problemas relacionados com o ambiente urbano e com o crescimento da cidade. A
ecologia e a forma urbana com zonas especializadas para trabalho, residência e
recreação, além da mobilidade, são problemas que se colocam à sociologia para
entender a cidade como ambiente produzido e o próprio crescimento das cidades
como fator de diferenciação da vida moderna.
Todavia, a definição mais elaborada do urbano é formulada por L. Wirth (1997
[1938]): aquilo que na nossa civilização é distintivamente moderno é o
crescimento das grandes cidades. Para este autor, os três elementos que
distinguem a cidade são: o número de habitantes, a densidade populacional e a
heterogeneidade. Estas são para Wirth as características do urbanismo como modo
de vida. Para este sociólogo da escola de Chicago, o urbano, ou a influência
que a cidade exerce na vida social, não se restringe aos limites da grande
cidade, estendendo-se às localidades menores que se encontram sob influência da
grande cidade.
Depreende-se assim que o urbano não pode ser visto como exclusivo das grandes
cidades. A visão de urbanização e industrialização como dois processos
distintos constitui uma das preocupações de Jean Rémy e Liliane Voyé (1992). Os
dois autores propõem uma nova definição de cidade enquanto forma de organização
do espaço. Para os mesmos, o espaço está organizado em situações não
urbanizadas e situações urbanizadas. E dentre as situações urbanizadas, algumas
estão em zonas industriais e outras em zonas não industrializadas. Entre as
situações não urbanizadas, podemos encontrar as aldeias e as cidades não
urbanizadas.
Em resumo, podemos sistematizar as definições conceptuais de rural fornecidas
pela bibliografia internacional em duas abordagens paradigmáticas: a abordagem
tradicional de rural, na qual este é visto como sinónimo de espaço agrícola e
simétrico do urbano; e a abordagem territorialista de rural, uma abordagem em
que o rural adquire identidade própria, é economicamente multifuncional e com
modalidades de articulação com os espaços urbanos que ditam a sua
especificidade. Em ambas as abordagens, o rural é sempre definido tendo o
urbano como referência.
DAS CONCEÇÕES TEÓRICAS ÀS DELIMITAÇÕES GEOGRÁFICAS
As definições teóricas fornecem os elementos necessários às formas empíricas de
delimitação do espaço quanto às características rurais e urbanas. Ficam
evidentes três dimensões fundamentais para a distinção entre rural e urbano:
demografia, desenvolvimento económico e modos de vida. A perspetiva
territorialista tem ainda uma dimensão metodológica e operacional, tanto no
campo das políticas de desenvolvimento rural como nas novas formas de
delimitação entre rural e urbano, como a proposta pela OCDE (1993).
A bibliografia académica fornece vários exemplos de exercícios metodológicos
cuja finalidade é definir uma tipologia de espaços rurais. A título de exemplo,
vejam-se os trabalhos de Lopes (1998); Ferrão etal. (2000); Ferrão e Lopes
(2004); Rodrigues (2010).
Paralelamente, a generalidade das entidades responsáveis pelo sistema
estatístico dos respetivos países (tanto na Europa como na América) adotaram
nas últimas duas décadas tipologias específicas de classificação dos espaços
rurais e urbanos para fins estatísticos ou de intervenção política. Neste
particular, merece destaque o empenho revelado pela OCDE em definir uma
classificação de espaços urbano-rural que torne comparáveis os estudos
territoriais envolvendo realidades nacionais distintas.
Inicialmente (OCDE, 1994), a metodologia de classificação usada pela OCDE era
bastante complexa. Definiam-se três tipos de espaços: áreas rurais remotas;
áreas economicamente integradas e áreas rurais intermédias. A classificação da
OCDE pode ser assim resumida:
Para definir rural, a OCDE articula duas escalas: o local e o
regional. A escala local é utilizada para diferenciar as áreas rurais
das áreas urbanas, usando como critério a densidade populacional. São
classificadas como rural as áreas com menos de 150 hab./Km2, sendo as
restantes consideradas áreas urbanas.
A partir da classificação anterior, a OCDE recorre à escala
regional para definir três tipos de espaços: regiões
predominantemente rurais (se mais de 50% da sua população vive em
comunidades rurais); regiões predominantemente urbanas (se menos de
15% da sua população vive em comunidades rurais), e regiões
intermédias (se a proporção da população a viver em comunidades
rurais for entre 15% e 50%).
Adicionalmente, a OCDE considera na sua classificação a
dimensão dos centros urbanos. Assim, uma região definida à luz do
critério anterior como predominantemente rural é reclassificada
como intermédia se na região houver um centro urbano com pelo menos
200 mil habitantes. Uma região que tenha sido classificada como
intermédia passa a predominantemente urbana se dispuser de um
centro urbano com pelo menos 500 mil habitantes.
Muito recentemente a OCDE (2012) veio estabelecer uma classificação dos espaços
urbanos que é complementar da tipologia rural anterior. Aliás, o objetivo das
duas tipologias é convergente: adotar uma metodologia internacional que permita
estudos comparativos da performance regional em países diferentes e que sirva
de suporte territorial às políticas de desenvolvimento.
O RURAL E O URBANO NO BRASIL
O debate atual sobre o rural brasileiro está centrado em dois aspetos: o seu
tamanho e a sua natureza. Quando se fala em tamanho do rural pretende-se
referir o tamanho da população rural. Ou seja, o número de pessoas que vivem
nas áreas consideradas rurais. A menção à natureza do rural corresponde, por
sua vez, às características socioeconómicas e culturais dos espaços rurais e
dos seus habitantes. Deste modo são identificadas duas formas de perceber o
rural e o urbano no Brasil. A primeira, através do conceito de população rural
medida pelos censos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE). A segunda corresponde a aspetos socioeconómicos como a
presença de atividades agrícolas e a ausência de bens e serviços modernos. Os
conceitos de população rural e população urbana utilizados no Brasil derivam do
que o IBGE chama situação de domicílio. Isto é, a localização do domicílio
quanto à área urbana ou rural de cada município.
Esta situação é definida a partir de um critério jurídico e administrativo,
cuja origem data de 1938, quando a preparação do Recenseamento Geral da
População de 1940 conduz a uma redefinição da organização do território
brasileiro pelo governo do Estado Novo. O Decreto-lei n.º 311 de 2 de março de
1938 tem ainda a finalidade de organizar a nomenclatura dos municípios
brasileiros. Este diploma legal estabelece que as localidades sedes dos
municípios recebam o estatuto de cidade, ao mesmo tempo que o município passa a
ser denominado com o mesmo nome da sede. Por esta razão, os termos cidade e
município são tomados como sinónimos no Brasil. O mesmo decreto estabelece que
os municípios podem ser subdivididos em distritos, e as sedes distritais passam
à categoria de vila.A exemplo dos municípios, os distritos recebem o nome da
sede. Assim como as cidades, as vilas são também consideradas urbanas, cabendo
aos Estados definir os quadros urbanos e suburbanos das cidades e vilas.1
Todavia, não se estabelece qualquer critério populacional para uma localidade
aceder à condição de vila ou cidade. O que o decreto afirma é que as cidades
não podem ter nos quadros urbano e suburbano, uma quantidade menor do que 200
moradias, enquanto as vilas não poderiam ter menos de 30.
Tanto as sedes dos municípios (cidades) como as dos distritos (vilas) são
consideradas urbanas, independentemente do tamanho ou de qualquer outra
característica. Em consequência, cidades e vilas cuja população não ultrapassa
duas centenas de habitantes são consideradas urbanas, ao mesmo tempo que
localidades com maior contingente populacional e maior densidade, mas que não
são sedes de distrito ou município, são consideradas rurais. Este critério tem
sido alvo de constantes críticas por parte dos estudiosos do rural brasileiro,
que consideram sobrestimados os números da população urbana no país. De acordo
com o Censo de 2000, 81,23% dos brasileiros viviam em áreas urbanas (IBGE,
2000).
Um dos maiores críticos desta definição de rural e urbano, José Eli da Veiga
(2003), defende que não deveriam ser considerados urbanos os habitantes das
pequenas cidades e vilas, o que reduziria consideravelmente a percentagem da
população brasileira considerada urbana. Para este autor, boa parte da
população tida como urbana vive em localidades que, efetivamente, não se
caracterizam como urbanas. Trata-se de pequenos aglomerados que não apresentam
infraestrutura de serviços e de equipamentos urbanos, que justifiquem o
estatuto de cidade. De acordo com Veiga, somente deveria ser considerada urbana
a população dos municípios que tivessem pelo menos 20 mil habitantes na sede. O
que reduziria a percentagem da população urbana brasileira de 81,23% para 68%.
Este critério, defendido também por Faria (1991), também não é suficiente, pois
leva em conta apenas a dimensão demográfica.
Embora significativo, o critério demográfico, por si só, não é suficiente. De
facto, uma parte dos municípios acima dos 20 mil habitantes, também está
inserida em contextos regionais que, por outros critérios, como a baixa
densidade, e pelas atividades económicas, baixos níveis de industrialização e
acesso a serviços, seriam considerados essencialmente rurais. Por outro lado,
outros municípios que estão abaixo deste patamar, encontram-se em áreas
metropolitanas ou fazem parte de aglomerações urbanas, ou apresentam ainda
características de centros regionais de serviços, de modo que não poderiam ser
classificados simplesmente como rurais.
Deste modo, compreende-se que a definição de rural e urbano a partir do seu
tamanho não é suficiente, embora o número de habitantes seja uma componente
importante para a sua compreensão. É preciso analisar outros aspetos que
constituem anatureza do rural. Neste sentido, o trabalho de investigação levado
a cabo pela socióloga Maria de Nazareth Wanderley (2000) constitui um
importante contributo para entender a trama social e espacial de uma
localidade. Para esta autora, a maioria dos pequenos municípios brasileiros,
aqueles com menos de 20 mil habitantes, têm uma trama social e espacial
definida pelo rural. Na maioria dos casos, a sede municipal (a cidade),
diferencia-se do seu entorno rural apenas como um centro administrativo e local
onde o poder é exercido.
Para Wanderley (2000), no Brasil o rural distingue-se do urbano em dois aspetos
fundamentais: 1) é um espaço fortemente marcado pela agricultura, sobretudo
pela agricultura familiar; 2) é também um espaço marcado pela precariedade no
acesso aos serviços e bens de consumo coletivo. De acordo com a autora, a
precariedade que caracteriza o rural brasileiro está presente também na pequena
cidade que é parte integrante do rural.
A preocupação em compreender a natureza do rural brasileiro é partilhada também
por autores como Maria José Carneiro (1999) e Ricardo Abramovay (2004). Para a
primeira, o rural deve ser entendido a partir de um conjunto de representações
sociais, que vão além da demarcação de áreas como rurais ou urbanas. Deve ser
pensado como um espaço multifuncional e pluriativo. Enquanto para Abramovay, o
rural está associado à ideia de território. A ruralidade não pode ser pensada
como uma etapa do desenvolvimento a ser superada pela urbanização ou pelo
progresso. Mesmo sendo um espaço onde os indicadores de desenvolvimento são
geralmente mais baixos, o rural é um território cujo desenvolvimento depende do
capital social dos seus moradores e da ação de políticas públicas.
Não basta medir o tamanho do rural e do urbano brasileiro, é necessário
compreender a sua natureza e as articulações entre duas realidades que se
complementam. Pensar a articulação campo-cidade no Brasil exige uma reflexão
sobre dois aspetos da história do país. A ocupação do território, com base na
propriedade da terra, o que serviu para sedimentar o poder político dos grandes
proprietários de terra e um sistema de oligarquias regionais, e o padrão de
urbanização que se baseou na formação de complexos regionais, permitindo o
surgimento de centros urbanos em todas as regiões, embora mais concentrada na
costa. Este tipo de urbanização difusa, que Carlos Brandão (2007) considera
paradoxal, gerou uma maior concentração demográfica em algumas grandes
metrópoles e outros centros urbanos (regionais e sub-regionais) de grande e
média dimensão, por um lado, e permitiu o surgimento de uma grande quantidade
de pequenos núcleos por todo o país. Estes pequenos núcleos, embora façam parte
da rede urbana e estejam integrados nos centros de média e grande dimensão,
formam o que Milton Santos (1993), chama centros locais e conservam uma forte
identidade com o mundo rural.
Concordamos com Veiga (2003), Wanderley (2002) e Abramovay (2004), que em
grande parte dos casos, os espaços oficialmente urbanos não se diferenciam
qualitativamente do entorno rural. Entretanto, consideramos que a dimensão
demográfica por si só, não é suficiente para definir o que é rural ou urbano.
Assim, propomos uma metodologia que venha a superar as limitações das formas
atuais de classificação do rural e do urbano no Brasil.
METODOLOGIA: A PROPOSTA DE UMA NOVA CLASSIFICAÇÃO DOS MUNICÍPIOS
A utilização de critérios quantitativos como o número de habitantes, a
densidade populacional e o número de pessoas ocupadas na agricultura para
identificar o rural tem a vantagem de ser operacionalizável do ponto de vista
empírico. No entanto, consideramos necessário avançar no sentido de perceber de
que forma as noções de rural e urbano se articulam na organização do espaço
para além da mera dimensão administrativa e da dimensão demográfica. A
metodologia proposta apoia-se tanto na bibliografia internacional e brasileira,
quanto na crítica à definição oficial de rural e urbano no Brasil. Entretanto,
distancia-se das formas atuais de classificação em dois aspetos. Primeiro, ao
utilizar o conjunto do município como unidade de análise, em vez das suas
subdivisões internas definidas por critérios administrativos. Em segundo lugar,
utilizamos um conjunto diversificado de indicadores através dos quais se
procura diferenciar os espaços em função de três dimensões: estrutura
demográfica, estrutura económica e dinâmica territorial. No quadro_n.º_1
apresentamos as dimensões e os indicadores que compõem cada uma.
Desta forma, apresentamos as razões que nos levam a tal opção metodológica:
1) Quando tomamos o município como unidade de análise e o
definimos como urbano ou rural, queremos dizer que o que define o seu
grau de urbanização ou de ruralidade é a dinâmica, ou a trama social
e territorial na qual está inserido. Ou seja, optamos por privilegiar
o território, e não por uma solução simplificadora como é a situação
de domicílio.
2) Pese embora a existência, em todo município, de um aglomerado
populacional que se configura ora como vila ora como cidade, ou seja,
uma parte urbana, e as zonas subjacentes tidas como rural, há em
cada um, uma dinâmica predominante e tal dinâmica é determinada pelo
grau de urbanização ou de ruralidade.
3) Assim, quando se fala em municípios rurais, não se está a negar
os aspetos urbanos eventualmente encontrados na sua sede, mas a
realçar que os aspetos de ruralidade predominam e são definidores da
sua dinâmica territorial e socioeconómica.
4) Da mesma forma, quando se fala de municípios urbanos, o que se
está a afirmar é que a sua dinâmica é definida pelo urbano, embora os
elementos de ruralidade estejam presentes no seu território. Apenas
na tipologia metropolitana e em alguns dos municípios de elevada
densidade, é que as características rurais não são encontradas ou são
praticamente nulas.
ESCOLHA DAS VARIÁVEIS E TRATAMENTO ESTATÍSTICO
A ausência de algumas variáveis indicativas das formas de uso do solo, tais
como o tamanho das explorações agrícolas, e das áreas artificializadas de
caráter urbano deve-se, nomeadamente, à ausência de dados estatísticos
precisos. Dada esta lacuna, acredita-se que os indicadores relativos à
população e às ocupações agrícolas, ou seja o número de pessoas ocupadas em
atividades agropecuárias, constituem indicadores clássicos de ruralidade e
atendem aos objetivos da análise proposta. Relativamente às variáveis
deslocamento e deslocamento proporcional, a primeira corresponde ao número de
pessoas que se deslocam de um município a outro para estudo e trabalho, e a
segunda indica a proporção das pessoas que se deslocam para estudo e trabalho,
relativamente à população de cada município. A variável polarização foi
elaborada a partir do cálculo da área de influência das cidades, nomeadamente
das regiões metropolitanas, e da pertença ou não do município a uma região
metropolitana. Por se tratar de uma análise que procura dar ênfase à dimensão
territorial, não foram utilizadas variáveis como o crescimento económico e o
crescimento populacional.
Aos 19 indicadores, aplicou-se o método da análise fatorial, (vulgarmente
conhecido como análise de componentes principais). A análise fatorial foi
realizada a partir da rotação varimax, sem que fosse estipulado o número de
componentes extraídas. A aplicação deste método com as 19 variáveis originais
resultou na extração de cinco fatores ou componentes, cujo alcance explicativo
total foi de aproximadamente 80% da variância. O quinto fator extraído foi
desconsiderado por representar baixo alcance explicativo, apenas 9% da
variância, e por ser formado por variáveis já representadas nos demais fatores.
No quadro_n.º_2 está representada a análise da correlação entre as variáveis.
A utilização de valores absolutos em algumas variáveis como população, ocupação
(emprego), PIB e deslocamento (migrações pendulares) foi necessária por se
tratar de indicadores fundamentais para as definições a que se queria chegar,
nomeadamente para a diferenciação entre rural e urbano. Já a utilização das
percentagens no caso das variáveis relativas ao PIB e ao emprego, fundamenta-se
na necessidade de medir a participação relativa de cada um dos setores na
economia e na estrutura ocupacional dos municípios.
A primeira componente, denominada estrutura económica, representa 21,47% da
variância explicada e resulta da associação das variáveis relativas à
composição do PIB e à ocupação nos setores de atividade, sendo o valor do PIB
calculado pela soma da riqueza produzida pelos três principais setores da
economia: agropecuária, indústria e serviços, acrescentando-se ainda o valor
dos impostos. No que diz respeito ao setor de serviços, sendo este composto
também pelos serviços públicos, a parte relativa ao setor público foi
desagregada, formando assim um subsetor. A participação do setor público na
composição do PIB corresponde aos salários pagos pelo emprego público, além das
transferências da segurança social, como as pensões e reformas, e das
transferências de programas sociais.
Os indicadores relativos à ocupação permitem verificar o peso de cada setor da
economia no emprego da mão-de-obra local. Esta constitui uma dimensão
importante para perceber o grau de diversificação económica, bem como da
estrutura social. No caso, as variáveis relativas à ocupação e ao PIB no setor
agropecuário, constituem indicadores de uma maior presença da ruralidade,
enquanto nas áreas mais urbanizados, os setores da indústria e dos serviços
apresentem maior peso relativo na absorção da força de trabalho.
A segunda componente congrega as variáveis PIB da Indústria, produtividade da
indústria, produtividade global, e PIB per capita,explicando 17% da variância.
Estas variáveis são indicadoras do grau de eficiência produtiva, sobretudo do
setor industrial, sendo duas dessas variáveis relacionadas com a produção
industrial. Esta dimensão poderia estar apenas relacionada com este setor. No
entanto, os indicadores PIB per capita e produtividade total, permitem
relacionar esta componente com eficiência produtiva da economia como um todo.
Por sua vez, a relação destas variáveis com o PIB per capita implica ainda uma
associação com a concentração da riqueza produzida.
A terceira componente, cujo alcance explicativo é de 16,87%, mostra uma
associação entre variáveis demográficas e económicas, estando as primeiras
representadas pelos indicadores de população e densidade demográfica. Como
variáveis económicas, temos, neste caso, os indicadores do PIB total e dos
impostos. O conjunto dessas variáveis pode ser interpretado como representantes
de uma dimensão da densidade socioeconómica, pois os indicadores demográficos,
como a população total e a densidade, apresentam uma forte correlação entre
estas variáveis e os indicadores do PIB total e dos impostos. Neste caso,
depreende-se que à maior concentração demográfica corresponde uma maior
densidade económica. Esta dimensão indica uma característica dos espaços
urbanos, nomeadamente os de carácter metropolitano e os de elevada densidade.
Estas duas componentes são, de certa forma, complementares e indicam uma
concentração tanto da população quanto da produção, ou seja, a maior
concentração da população e maior produtividade são responsáveis pelo aumento
da arrecadação de impostos. O que pode também significar que o adensamento
populacional leva a maior densidade socioeconómica. Esta relação, de alguma
maneira, produz uma diferenciação espacial.
A quarta componente, com alcance explicativo de 14,27% da variância, agrega
variáveis de carácter demográfico como a densidade populacional e as
deslocações pendulares para estudo e trabalho, e outra variável que está
relacionada com o efeito de polarização exercido pelos principais centros
urbanos. Assim se compreende que nas áreas de maior densidade demográfica,
tende a ser mais frequente a migração pendular, e as relações de articulação
entre um polo de atração e uma periferia polarizada também tende a ser mais
intensa. Esta dimensão, que se pode chamar dearticulação territorial, indica
claramente a presença de uma dinâmica urbana e de uma tendência de
metropolização.
O resultado da análise fatorial, apresentado no quadro_3, aponta para uma
perspetiva multidimensional para caracterização dos espaços entre rurais e
urbanos, e ao mesmo tempo indica que mesmo tratando-se de conceitos que remetem
diretamente para a dimensão espacial, são também reveladores dos processos
sociais e económicos que estes abrigam. Pode assim dizer-se que a análise
estatística vem complementar o quadro teórico proposto como enquadramento para
o estudo do rural e do urbano no Brasil. Para além de se constatar a
pertinência dos indicadores tradicionais de ruralidade (demográfico e atividade
agropecuária), acrescentam-se a dimensão territorial, e duas outras que têm a
ver com a estrutura económica e com a produtividade, sendo que esta última está
ligada com a competitividade dos territórios.
As quatro componentes obtidas na análise fatorial foram submetidas à análise de
clusters. Primeiro utilizamos o método K-means, com 10 clusters, e a seguir
fizemos uma nova análise com o método hierarchical clusters, com distribuição
entre 5 e 10 clusters. O procedimento foi repetido com os 19 indicadores
iniciais, em seguida com os cinco scores fatoriais transformados e finalmente
com o vetor médio obtido pela soma dos scores transformados. O mesmo
procedimento foi repetido para cada análise. Isto é, primeiro com os
indicadores originais, depois com os cinco fatores, e por último com a média
dos cinco fatores. Cruzando-se os dois resultados, verificou-se que dos 10
clusters obtidos nos dois procedimentos, seis eram consistentes, apresentando o
mesmo número de casos. Os clusters não consistentes foram agregados de acordo
com as características dos municípios. Apenas três dos clusters apresentaram
variações quando se mudou o método, ficando assim demonstrada a consistência da
análise.
O resultado da análise de clusters apresenta-se-nos aplicável e com um grau de
coerência com a realidade de forma a descrevê-la com consistência. Desta
análise resultou uma tipologia dos municípios brasileiros, com sete categorias,
que vão das áreas mais urbanizadas, como as regiões metropolitanas, aos
municípios de características rurais mais acentuadas. No quadro_n.º_4
apresentam-se as médias dos 19 indicadores para cada uma das categorias de
municípios que compõe a tipologia.
A TIPOLOGIA: UMA PERSPETIVA MULTIDIMENSIONAL DO TERRITÓRIO
A tipologia proposta representa uma metodologia de classificação do rural e do
urbano numa perspetiva multidimensional. Desta forma, tomando como unidade de
análise o município na sua totalidade, classifica-os em sete categorias, sendo
três urbanas, três rurais e uma intermédia. A seguir descreve-se cada uma
destas categorias. Quando tomamos o município na sua totalidade como unidade de
análise corre-se o risco de deixar de perceber as dinâmicas internas de cada
município. Entretanto, a escolha justifica-se tanto em termos metodológicos, do
ponto de vista da operacionalização, quanto do ponto de vista teórico, uma vez
que se assume como perspetiva teórica a abordagem territorialista.
De acordo com esta tipologia, os municípios brasileiros estão classificados em
sete categorias, contando com três tipos de urbano: urbano metropolitano,
urbano de alta densidade e centros urbanos; três tipos de rural: rural
agrícola, rural semi-periférico e rural periférico. Observa-se ainda uma
categoria intermédia, na qual se observam características urbanas e rurais, por
isso denominada de espaços urbano-rurais. A seguir descrevem-se as
características de cada uma destas categorias. No mapa da figura_n.º_1 e no
quadro_n.º_5, podemos visualizar a distribuição espacial da tipologia nas
diversas regiões brasileiras.
O URBANO METROPOLITANO
Esta categoria compreende as metrópoles e os municípios que integram as
principais regiões metropolitanas do país, apresentando um elevado nível de
integração à dinâmica metropolitana na sua respetiva região. São municípios que
apresentam características próprias das áreas metropolitanas, como a elevada
densidade demográfica, concentração de serviços especializados e forte
integração territorial, conferida pelo elevado fluxo, as migrações pendulares
entre o núcleo metropolitano e as suas áreas periféricas. A base económica é
dividida entre a indústria e os serviços. A primeira corresponde a 50,59% do
PIB, enquanto 39,65 vem dos serviços, sendo complementado pelos impostos, e por
uma participação insignificante do setor primário. No que se refere ao emprego,
61,08% da população ativa está ocupada no terciário, enquanto a indústria ocupa
33,75 da mão-de-obra.
Quanto à distribuição geográfica, a região Sudeste, como a mais urbanizada,
concentra 66,5% dos municípios desta tipologia. A sua presença é ainda
significativa nas regiões Sul, com 17,3%, e Nordeste com 10,9%. As regiões
Centro-Oeste e Norte, as menos urbanizadas, contam cada uma com três municípios
desta categoria, o que equivale a 2,7%.
URBANO DE ALTA DENSIDADE
O segundo tipo de urbano é formado por 269 municípios, dos quais boa parte
integra as regiões metropolitanas. Estes municípios têm uma economia formada
basicamente pela indústria e pelos serviços, apresentando um equilíbrio entre
os dois setores no que se refere ao emprego, e uma preponderância da indústria
na formação do PIB, com mais de 50%. Diferenciam-se do urbano metropolitano
pela densidade populacional mais baixa, embora ainda muito elevada para os
padrões brasileiros, e pelo tamanho da população, cuja média é de duzentos mil
habitantes.
De forma semelhante ao urbano metropolitano, a presença dos indicadores de
ruralidade é praticamente nula neste grupo de municípios. A distribuição
espacial também é semelhante, sendo mais concentrada na região Sudeste, onde
estão 51,7% e no Sul com 33,8%. Os restantes estão distribuídos pelo Nordeste,
9,3%, Centro-Oeste, com 4,5%, enquanto no Norte apenas dois municípios têm
essas características.
CENTROS URBANOS
A terceira categoria de urbano é composta por 535 municípios e compreende tanto
algumas cidades médias, como centros urbanos de pequena dimensão. Com uma
densidade populacional média de 95,51 habitantes por quilómetro quadrado, estes
municípios formam a rede urbana que se integra aos centros urbanos de elevada
densidade, e às regiões metropolitanas. A base económica é dominada pelos
serviços e pela indústria, havendo um equilíbrio entre os dois setores. Este
equilíbrio revela-se tanto na composição do PIB quanto na ocupação, sendo que
neste último indicador, o setor de serviços apresenta uma ligeira vantagem
sobre a indústria. Todavia, por estarem nesta categoria muitos centros urbanos
de pequena dimensão, nos quais se nota a ausência de serviços especializados, o
volume de recursos gerados pelo setor de serviços tem um peso relativo menor
que o da indústria, apesar de empregar um número maior de pessoas.
Este é o grupo mais heterogéneo no que se refere ao urbano, pois tanto reúne
alguns centros de média dimensão, e de considerável importância regional,
quanto pequenos centros urbanos cuja área de influência não vai além do
território municipal. Muitos destes centros urbanos destacam-se mais pela sua
posição na hierarquia administrativa dos seus respetivos estados, como polos
regionais de serviços, além de exercerem influência sobre uma determinada
região. A centralidade é, nesse caso, um elemento de articulação territorial,
cuja intensidade é mais baixa do que nas duas categorias anteriores.
ESPAÇOS URBANO-RURAIS
Um número significativo de municípios (1043) compõe este grupo, que pelas
características demográficas, pela estrutura económica, e pela articulação
territorial, não chega a perceber-se neles, de forma clara, uma dinâmica
propriamente urbana, ao mesmo tempo que não se apresenta também uma
característica predominantemente rural. Este grupo tanto reúne pequenos
municípios cuja atividade principal é a indústria ou o turismo, quanto alguns
centros com população urbana superior a 50 mil habitantes, mas com uma elevada
percentagem de população rural e forte presença do setor agropecuário.
No que diz respeito à estrutura económica, o setor agropecuário é o que
apresenta maior peso relativo na composição do PIB e na ocupação, sem, no
entanto, deter a predominância, uma vez que contribui com 29,8% do PIB e 27,3 %
do emprego. Logo a seguir, vem o setor de serviços, com 27% e 24,4%
respetivamente. O setor público ocupa uma posição muito próxima da indústria na
composição do PIB com 21,5% e 18,9%.
O equilíbrio entre os setores económicos sem que algum deles se afigure como
dominante é também elucidativo de uma situação de ambiguidade na caracterização
espacial. Contudo, quanto ao aspeto demográfico, estes municípios apresentam
uma baixa densidade, sendo a média do grupo de 36,6 habitantes por quilómetro
quadrado.
O RURAL AGRÍCOLA
Nesta tipologia, composta por 1385 municípios brasileiros, distribuídos em
praticamente todas as regiões, mas com maior incidência nas regiões Centro-
Oeste, Sudeste e Sul, percebe-se como principal característica o predomínio do
setor agropecuário na formação do PIB e na oferta de emprego, para além da
baixa densidade demográfica e do tamanho da população que também contribuem
para a sua caracterização rural.
A nomenclatura rural agrícola indica que apesar da presença de outras
atividades, esses municípios continuam a ter na agropecuária a sua maior fonte
de riqueza, representando 35% do PIB e 47,62% da ocupação. O setor público
ocupa a segunda posição no PIB, com 22,3%, seguido dos serviços com 23,3%, e
com a indústria respondendo apenas por 13,71%, ficando assim claro que o peso
da agricultura é predominante na economia e também na estrutura ocupacional
desses municípios. Quanto à ocupação, o setor de serviços detem a segunda
posição, com 26,76% da força de trabalho, e a indústria representa 21,5%.
Quanto à dimensão demográfica e económica, estes municípios apresentam baixa
densidade populacional e uma variação muito grande quanto ao tamanho da
população. Os municípios desta categoria têm apresentado um forte crescimento,
a partir da década de 1990, quando se assiste a um crescimento do setor
agrícola, contribuindo para o que Domingues (2008) chama de reprimarização da
economia.
Geograficamente, os municípios desta tipologia estão localizados sobretudo nas
regiões que conheceram uma modernização da agricultura, nomeadamente no Sul e
Sudeste e Centro-Oeste. Este tipo de espaço rural está presente também de
maneira significativa no Nordeste, principalmente na zona canavieira e nas
áreas de agricultura irrigada.
O RURAL SEMI-PERIFÉRICO
A segunda tipologia de espaços rurais, composta por 1331 municípios, é bastante
semelhante ao primeiro tipo. A principal diferença é que o setor agrícola já
não é predominante. Nesta tipologia, é o setor público o que tem maior
participação na composição do PIB, respondendo por 35,1%, enquanto o setor
agropecuário corresponde a 31,69%. O setor de serviços apresenta uma relativa
importância (20,56%), enquanto a indústria participa em apenas 11,16%. No que
se refere à ocupação, a agricultura ocupa também a primeira posição,
respondendo por 49% da população ocupada, enquanto a indústria contava com
11,5% e os serviços 17,15%.
A contradição entre a percentagem da ocupação agrícola e o maior peso do setor
público na composição do PIB pode ser explicada pelo facto de nos municípios
rurais a participação do setor público na economia se dever aos salários da
administração pública, e às transferências sociais como as pensões e reformas.
Mais recentemente têm-se intensificado as transferências de programas sociais
de renda mínima, sendo o Programa Bolsa Família, o mais importante.
Quanto à dimensão densidade demográfica e económica, esta tipologia assemelha-
se bastante à anterior, bem como ao terceiro tipo de espaço rural. Apresenta
uma baixa densidade demográfica (28,5 habitantes por quilómetro quadrado), e a
população média ronda os 11 mil habitantes. Contudo, a maior parte reside em
áreas oficialmente definidas como rurais. São também municípios de PIB muito
baixo, tanto em termos absolutos, como no PIB per capita. Nestes municípios,
observa-se ainda que o volume de impostos é muito pequeno, sendo quase
insignificante na composição do PIB. Já no que se refere à mobilidade e
articulação territorial, estes municípios apresentam baixíssimo grau de
integração e a proporção de deslocações para trabalho e estudo não chega a 3%
da população, o que mostra um baixo nível de articulação territorial entre
esses municípios, conforme se verifica pelo pequeno número de deslocamentos
para trabalho e estudo. Depreende-se assim que estes municípios, tal como os da
tipologia seguinte, tenham uma economia pouco competitiva, fechada ao nível
local. Outra inferência que se faz é que nesta tipologia as migrações têm
carácter duradouro, sobretudo para os grandes centros do país.
O RURAL PERIFÉRICO
O terceiro tipo de espaço rural, formado por 887 municípios, diferencia-se do
rural semiperiférico por uma densidade populacional mais baixa, menor
participação da agropecuária na composição do PIB, e maior dependência em
relação ao setor público. Entretanto, a maior parte da população ativa está
ocupada no setor primário, o que pressupõe a existência da agricultura familiar
como atividade de subsistência. Predomina, assim, uma agricultura familiar de
baixa produtividade, voltada sobretudo para o autoconsumo, típica das áreas
rural profundo. A definição de rural profundo aqui adotada é aquela proposta
por Kayser (1990) e reforçada por autores como Pedroso (1998) e Ferrão e Lopes
(2004). Nestes municípios, tanto a indústria quanto os serviços se apresentam
como setores frágeis tanto na estrutura das ocupações, como na composição do
PIB. A fragilidade destes setores é compensada por uma elevada participação do
setor público no PIB, sendo que nas regiões mais pobres como o Norte e o
Nordeste, as transferências públicas representam mais de metade da do Produto
Interno Bruto.
Ainda por se tratar de áreas rurais e, na maior parte dos casos, de zonas
deprimidas, a articulação territorial e a mobilidade apresentam os patamares
mais baixos. A proporção dos deslocamentos pendulares não vai além dos 6% da
população, no caso do valor máximo, sendo que a média para o conjunto dos
municípios é de 1,5%, o que representa pouca integração territorial. O que não
significa dizer que não haja nestes municípios movimentos migratórios. Como
estes municípios são, geralmente, localizados em zonas tradicionais de
migração, esta tem-se direcionado para os grandes centros urbanos do País, e,
mais recentemente, para as capitais estaduais e principais centros urbanos de
cada estado.
CONCLUSÕES
As noções de rural e urbano são, antes de tudo, definições dos espaços onde têm
lugar determinados processos sociais e económicos. Todavia, os limites entre as
duas situações não são claros, sendo definidos a partir de características que
lhes atribuímos. No caso brasileiro, as dificuldades são acrescidas pela
ausência de um limite quantitativo que leva a sobrestimar o urbano e, de certa
forma, a negar o rural. Qualquer classificação de uma área como rural ou urbana
será incompleta, porque elaboradas a partir de indicadores escolhidos pelo
investigador, e o que este faz nada mais é do que uma interpretação desses
indicadores.
O que se pretende com a tipologia apesentada é propor uma metodologia de
classificação do rural e do urbano no Brasil, que venha a superar as limitações
do critério administrativo atualmente utilizado. Se o modelo oficial de
classificação do rural no Brasil é insuficiente e anacrónico, os seus críticos
não tinham até então apresentado uma alternativa que fosse além da discussão
académica, geralmente baseada na dimensão demográfica. Neste sentido, o nosso
principal contributo é passar da crítica académica e propor um modelo de
classificação dos municípios brasileiros baseado em indicadores que podem ser
testados na realidade empírica. Para isto, foram apresentadas variáveis que
ultrapassam a mera definição a partir da situação de domicílio, ou ainda pelo
número de habitantes ou densidade populacional.
Entendendo o rural e o urbano como um compósito no qual se somam os aspetos
geográficos do território e os processos sociais e económicos, a tipologia
proposta permite analisar o território brasileiro a partir das dinâmicas
territoriais presentes nas diferentes regiões do País. Para além dos aspetos
empíricos, a tipologia foi elaborada com base no referencial teórico e
metodológico fornecido pela bibliografia internacional e brasileira,
nomeadamente a abordagem territorialista. Portanto, do ponto de vista teórico,
propõe-se uma releitura dos conceitos de rural e urbano e de como estes se
apresentam na produção do espaço no contexto brasileiro.
Obviamente que a tipologia foi elaborada a partir de dados obtidos num
determinado ano, e por isso reflete uma situação específica. Entretanto, o que
se propõe com a mesma é identificar as dinâmicas predominantes em cada
município que permitam classificá-lo como urbano ou rural. A mesma não deve ser
tomada como estática, uma vez que a metodologia utilizada pode ser aplicada com
dados estatísticos mais recentes, o que já se apresenta como desdobramento para
futuras investigações. Ao mesmo tempo, a atualização da informação estatística
permitirá exatamente perceber de forma dinâmica a alteração da distribuição dos
municípios pelas sete categorias, bem como a mobilidade entre os diferentes
tipos de rural e urbano. Ou seja, de que forma as trajetórias de
desenvolvimento dos municípios poderão vir a alterar a sua situação dentro da
tipologia.
Quanto à escolha do município como unidade de análise, já explicada na secção
que trata da metodologia, justifica-se por ser a este nível da divisão
territorial que são percebidas, de facto, as dimensões de urbano e rural no
Brasil. Diferentemente da metodologia adotada pela OCDE, há, no caso
brasileiro, uma dificuldade de se trabalhar estas dimensões a um nível
regional. Embora reconheçamos que restringindo o estudo às áreas metropolitanas
e ao seu entorno, seria possível expandir a unidade de análise para além dos
limites do município, nomeadamente ao trabalhar o conceito de cidade-região.
Tal opção metodológica, entretanto, limitaria os objetivos do presente artigo,
de estabelecer uma metodologia de classificação de rural e urbano para o
conjunto dos municípios brasileiros.
Certamente que a forma estática da tipologia, e a utilização do município na
sua totalidade como unidade de análise, não analisando as dinâmicas internas de
cada município, constituem os pontos críticos e as principais limitações do
modelo proposto, embora tais limitações sejam próprias do trabalho de
investigação que, na maioria das vezes, requer do investigador decisões
teórico-metodológicas. Diante de tais opções, cabe ao investigador tanto a
responsabilidade pelas escolhas, quanto a humildade para se submeter ao juízo
crítico dos leitores.