Uma antropologia do político?
Discutido neste ensaio:
MONTERO, Paula, ARRUTI, José Maurício e POMPA, Cristina (2011), Para uma
antropologia do político. In A.G. Lavalle (org.), O Horizonte da Política:
Questões Emergentes e Agenda de Pesquisa, São Paulo, UNESP, pp. 145-184. ISBN:
9788539302567.
Este artigo nasce da necessidade de interpelar uma perplexidade de ordem
disciplinar ' antropológica ' e, ao mesmo tempo, política. Sabemos que, pelo
menos nos últimos trinta anos, o debate multicultural, os chamados estudos
culturais, os estudos pós-coloniais e os subaltern-studies esgrimiram, de
diferentes maneiras e em diversas circunstâncias, críticas e estocadas
académico-políticas ao monopólio disciplinar da antropologia. Passada a
ebulição e o agito produzidos pelo impacto do giro cultural (cultural turn)
nas ciências sociais da década de 1980, o cerne da questão gravita ainda ' mas
agora sob bases renovadas ' em torno da utilidade ou não da noção de cultura
como substantivo plural e, ao mesmo tempo, em volta dos usos políticos que
agentes diversos fazem dessa noção.1
Em virtude desse duplo imperativo ' disciplinar e político ' estas páginas
transitam, necessariamente, por um terreno minado. O nosso objetivo é, pois,
traçar um mapa provisório desse terreno, já que as armadilhas que a interface
antropologia-política(o) nos apresenta são, sempre, mutáveis e movediças. Uma
primeira constatação é testemunha da ambiguidade que o hifen que liga os dois
termos consagra: a noção de cultura, tal como utilizada pelos antropólogos, e a
noção de cultura (cultura com aspas, diria Manuela Carneiro da Cunha,
2009), tal como utilizada pelos militantes e ativistas, confundem-se em
circunstâncias as mais variadas. Trata-se, em grande medida, de uma das
dimensões do que Antony Giddens denominava hermenêutica dupla (Guiddens,
1991, p. 15; 1987, p. 166). Essa condição vai além do facto, quase banal, de
que muitos antropólogos se tenham tornado militantes, do mesmo modo que muitos
militantes têm buscado subsídios na antropologia para melhor legitimar as suas
causas. A duplicidade dessa hermenêutica ' a sua circularidade ' reside no
facto de que a construção do saber antropológico e sociológico utiliza, por
assim dizer, matéria-prima que os leigos lhe fornecem, ao mesmo tempo que
essa materia se constroi, hoje mais do que nunca, com os conceitos e problemas
que tal saber proporciona. Manuela Carneiro da Cunha retoma essa circularidade
ao anunciar que Há um trabalho dialético que permeia os diferentes níveis em
que a noção de cultura emerge, que permite jogar em vários tabuleiros a um só
tempo. Um trabalho que lança mão de cada ambiguidade, de cada contradição
introduzida pela reflexividade (Cunha, 2009, p. 371).
Caminhamos, pois, sobre um terreno escorregadio. Os seus itinerários ' os mais
célebres, talvez ' foram analisados sob a rubrica das chamadas políticas de
reconhecimento e, na sua dimensão mais Estado-cêntrica, sob o mote, hoje
demodé, do multiculturalismo. Esses tópicos tão-pouco estão imunes ao drama
reflexivista. A maldição ' leia-se, o desafio ' das ciências humanas consiste
em ter de se debruçar sobre um objeto que fala: eis a sentença, esgrimida por
Pierre Bourdieu (2005, p. 56) e seus colegas, que adquire para a nossa
discussão um peso singular. Trata-se de identificar os agentes envolvidos nas
disputas concretas em prol da visão legítima do mundo social: o desafio do
analista consiste, pois, em lidar com um objeto que reflete acerca da sua
própria condição (multi)cultural. Essa constatação, que os hermeneutas
denominam reflexividade, confronta-nos com uma segunda evidência: o dilema das
chamadas políticas de reconhecimento constitui, também, um momento que
interpela o saber docto da antropologia, ou seja, aquela ciência que reflete,
ao menos na sua tradição romântica, sobre as dimensões culturais e simbólicas
da experiência humana. Com efeito, pelo menos nos últimos vinte anos, os
antropólogos tiveram de apelar a uma nova imaginação teórica para dialogar com
interlocutores que, mesmo não sendo especialistas, lidam, a partir de diversos
âmbitos, com as coisas da antropologia. É possível que, para os mais
receosos, esse impasse gere uma ameaça virtual ao nosso preciosismo disciplinar
e à nossa frágil autossuficiência analítica. Essa suposta ameaça nasce do facto
de que a cultura ' como matéria de reflexão ' não é mais um monopólio dos
antropólogos. Durante muito tempo, o lugar-comum da crítica antropológica
baseou-se no questionamento do chamado culturalismo, o qual muitas vezes
funcionou como uma autêntica categoria acusatória. Agora, os próprios
antropólogos assistem perplexos à irónica circunstância dos seus nativos se
terem tornado mais culturalistas do que nunca. Um dos mandatos disciplinares da
antropologia ' alçado, praticamente, à categoria de verdade revelada' reside no
imperativo de que o observador se deve esforçar para apreender o ponto de
vista do nativo. Mas, como assumir esse ditado sob essa nova circunstância
(multi)culturalista e, ao mesmo tempo, atender às exigências críticas que
advertem acerca do caráter construído, arbitrário ou imaginado de todo o
construto cultural? Eis o dilema da reflexividade.
Diante da vastidão do problema ' e da infinitude de discrepâncias ' adotaremos
um olhar distanciado, ou melhor, uma perspetiva. Para tanto, parto das
inquietações suscitadas pela leitura de um ensaio, publicado em 2011,
intitulado Para uma antropologia do político. Esse texto integra o livro O
Horizonte da Política, organizado por Adrian Gurza Lavalle. Tal volume reúne
uma série de capítulos representativos de temas e agendas de pesquisadores do
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento/CEBRAP (filósofos, historiadores,
cientistas políticos, sociólogos e antropólogos). Trata-se, por assim dizer, de
textos programáticos redigidos, cada um deles, por três ou mais autores. O
ensaio concernente à antropologia ( do político) foi escrito por Paula
Montero, José Maurício Arruti e Cristina Pompa. Propomos, à maneira de pre-
texto, seguir o trilho que esses autores nos indicam. A interrogação
provisória e inicial, cuja resposta, por ora, deixaremos em suspense, é se, de
facto, o ensaio em questão consegue fornecer-nos instrumentos eficazes para
lidarmos com um dos tópicos mais prementes da antropologia do político: a
questão do reconhecimento.
A CULTURA COMO FARDO
A primeira parte de Para uma antropologia do político apresenta as principais
contribuições da antropologia política (na sua versão britânica e francesa) a
fim de analisar, em um segundo momento, os impactos vernáculos desses
desenvolvimentos. No Brasil, como bem mostra o ensaio, a chamada antropologia
do contacto, preocupada com as dinâmicas de fricção interétnica e com a
relação entre o Estado e as populações indígenas, alimentou-se das vertentes
interacionistas da antropologia política britânica. Mas, também, procurou
subsídio nas abordagens dinamistas da antropologia francesa, sobretudo nos
trabalhos de Georges Balandier surgidos entre 1950 e 1960 (época na qual se
iniciam os processos de descolonização na África). Na altura, as inquietações
da antropologia no Brasil começam a envolver-se com as políticas indigenistas e
com o processo de nation-building. Um pouco mais tarde, no início da década de
1970, aparecem as contribuições pioneiras sobre o campesinato, elaboradas
notadamente por Otávio Velho. Era um momento em que a antropologia brasileira,
não obstante a forte hegemonia estruturalista, começava a dialogar com o
marxismo. A primeira parte do ensaio ' um panorama dos principais temas e
problemas da antropologia política ' culmina com uma referência ao Núcleo de
Antropologia da Política (NUAP) surgido no Rio de Janeiro, no Programa de
Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ, no início de 1990.
As páginas iniciais de Para uma antropologia do político são, pois, uma
leitura obrigatória para aqueles que desejam ter contacto com uma visão global
das contribuições da antropologia política clássica, bem como dos seus
desdobramentos locais. Na sua segunda parte, Montero, Arruti e Pompa apresentam
os postulados teóricos e programáticos do que convieram em chamar antropologia
do político. Trata-se de uma contraproposta que pretende dialogar criticamente
com as contribuições da antropologia política tout courte da antropologia da
política desenvolvida no seio do NUAP.
O ensaio inicia-se com uma constatação antropologicamente correta: o suposto
consenso em torno do esvaziamento analítico do conceito de cultura. O corolário
desse postulado é quase previsível: a necessidade de abandonarmos a ideia,
vulgarmente consagrada, de que a antropologia está indissoluvelmente associada
ao estudo da alteridade cultural. Contudo, isto não significa que os autores
descartem esse conceito, já que ele dialoga conflitiva e criativamente com o
político. Nas palavras dos próprios autores: Ao buscar compreender os próprios
processos de produção e generalização das diferenças, não faz sentido recortar
o universo de investigação a partir dos portadores das diferenças ou das
culturas, mas sim observar como, onde e para que a diferença é agenciada (p.
148). Nesse caso, a cultura, mais do que um ponto de partida, tornar-se-ia o
resultado de um processo de disputas em torno dos [ ] processos de
apropriação, por parte dos atores, das categorias utilizadas tradicionalmente
pela antropologia para descrever justamente aqueles outros' que eram
considerados externos a tal campo de disputas ou apenas objeto dele, isto é,
grupos étnicos, culturais, religiosos, populações tradicionais (ibidem). Esse
argumento traz consigo uma tautologia mordaz, cuja chave de compreensão pode
ser encontrada na noção de hermenêutica dupla referida acima.
Por ora, convém lembrarmos que a escola britânica de antropologia, de onde se
origina a antropologia política, sempre desconfiou do conceito de cultura e os
nossos autores sabem disso.
É preciso, no entanto, explicitar sem eufemismos o significado político dessa
desconfiança, sobretudo no que concerne aos antropólogos sul-africanos, que se
formaram, tal como Max Gluckman, na tradição britânica. Evoquemos brevemente os
primeiros passos da chamada antropologia política, herdeira dessa tradição. O
seu ato fundacional é o prefácio redigido por Radcliffe-Brown (1940) ao livro
African Political Systems, que foi organizado por Meyer Fortes e E.E. Evans-
Pritchard. Atrelados irremediavelmente às inquietações empíricas e etnográficas
da época, os seus promotores buscavam uma resposta às especulações da filosofia
política. O cerne da questão era a existência de sociedades com Estado e
sociedades sem Estado. Não se tratava de moralizar acerca de como essas
sociedades ' isentas de um sistema político centralizado - deveriam ser, mas
de entender como elas eram e como, realmente, funcionavam. A partir daquelas
descobertas empíricas, foi possível concluir que a inexistência de um Estado
centralizado não equivalia à ausência de sistemas políticos. Ao contrário, eles
assumiam formas sui generis cuja dinâmica era preciso analisar. A linguagem do
parentesco, as acusações de feitiçaria, os chamados sistemas segmentários, a
vendetta, os sistemas religiosos e outras tantas gramáticas sociais permitiam
ampliar o espectro do político para além das estreitas dinâmicas estatais. Esse
é um legado inquestionável da antropologia política britânica. Uma antropologia
' para dizê-lo com todas as letras ' social e não cultural.
A etnografia paradigmática desse momento foi Os Nuer. Uma Descrição do Modo de
Subsistência e das Instituições Políticas de um Povo Nilota, publicada por
Evans-Pritchard em 1940 e resultado do seu trabalho de campo no sul do atual
Sudão. O contexto histórico e político em que se desenvolveu a pesquisa de
Evans-Pritchard é conhecido: por volta de 1930, os Nuer estavam a ser
pacificados ' obviamente, através da violência ' pela administração
britânica. Seria necessário, findado esse processo, instaurar um sistema
administrativo fundado nos padrões do Indirect Rule, o chamado governo
indireto, a partir do qual os chefes Nuer teriam um papel fundamental como
intermediadores entre as populações locais e os administradores britânicos. Em
resumo, era necessário encontrar os chefes. A etnografia de Evans-Pritchard é
o resultado dessa exigência (Johnson, 1982). Mas a tarefa torna-se árdua.
Evans-Pritchard não consegue identificar um poder centralizado, ou uma
organização política em torno de um chefe ou de uma figura semelhante. Em
contrapardida, as funções políticas são assumidas por linhagens unilineares que
operam através de uma espécie de relatividade estrutural: em determinadas
circunstâncias, os grupos podem ser solidários e, em outras, hostis. Daí a
famosa frase de Evans-Pritchard, segundo a qual os Nuer viviam numa anarquia
ordenada: é impossível viver entre os Nuer e conceber a existência de pessoas
que os governem (2002, p. 191). O estudo do sistema de parentesco forneceria a
chave para a compreensão dessa aparente ausência de sistema político.
Uma das grandes ausências do ensaio que analisaremos é a referência ao
antropólogo sul-africano Isaac Schapera, discípulo de Malinowski e mestre de
Max Gluckman2. Schapera instava aos seus alunos que estudassem não apenas os
chefes indígenas ou a política indígena, mas, também, os missionários, os
administradores coloniais, os chefes de posto, os recrutadores de força de
trabalho, bem como as respetivas interações entre esses agentes. Portanto, para
além das meras inquietações com as dinâmicas da alteridade cultural, importavam
as relações sociais concretas construídas no campo. Na África do Sul, a
antropologia social de inspiração britânica implicava, também, um desafio
político contra as violências de uma sociedade segregada. Max Gluckman soube
traduzir esse desafio nas suas pesquisas de campo.
Os autores de Para uma antropologia do político detêm-se na célebre
etnografia, Análise de uma situação social na Zululandia moderna, de Max
Gluckman, realizada no norte da atual província de KwaZulu-Natal, África do
Sul. Gluckman e outros [ ] autores da escola inglesa de origem sul-africana
[ ] passam a colocar a ação política, entendida como conflito e manipulação das
regras, no centro de sua análise da cultura' (p. 156). A origem sul-
africana, evocada quase en passant, constitui, nesse caso, um ingrediente
significativo que merece a nossa atenção. Lembremos que a pesquisa do sul-
africano Gluckman foi realizada no final da década de 1930 (apesar de ter sido
publicada, pela primeira vez, em 1958). As leis segregacionistas do primeiro-
ministro boer (afrikâner) Barry Hertzog já haviam começado a vigorar; elas
seriam o precedente do apartheid da década de 1950. Entre as novidades
trazidas pela abordagem gluckmaniana dizem os autores, [ ] está a tentativa
de reintroduzir a noção de cultura em seu modelo interpretativo da ação
política (ibidem, o itálico é dos autores). É preciso dizer que, do ponto de
vista da trajetória e do pensamento de Gluckman, essa é, na verdade, uma
novidade ultrapassada. Ou melhor, essa preocupação não representa o cerne do
pensamento antropológico e político de Gluckman, para quem a cultura (ou os
padrões simbólicos) se converteriam num perigoso subterfúgio. Agora sim, em
pleno apartheid, advertia:
Não questionaria o fato de que esta tentativa para entender e
interpretar linguagens culturais, ou padrões simbólicos, seja
importante, bem como dificultosa. Mas ela se constitui apenas em um
dos conjuntos de problemas com os quais a antropologia social está
preocupada, e não o nosso problema, ou seja, o único. Aliás, a
insistência em considerá-lo como o único problema é politicamente
perigosa, bem como restritiva do ponto de vista acadêmico [Gluckman,
1975, p. 29].
Essa crítica à cultura não representa uma simples estratégia metodológica ou
teórica mas, sobretudo, uma estratégia política: na África do Sul da segregação
racial, a noção de cultura era o dispositivo sine qua non dos antropólogos do
Volkenkunde, isto é, daqueles que justificaram antropologicamente a ideologia
do apartheid. A equação duas raças=duas culturas, como sabemos, conduziu à
política do desenvolvimento separado. Há uma longa genealogia de antropólogos
progressistas que, nesse contexto de segregação, enfrentaram as estocadas
culturalistas da etnologia afrikâner (Volkenkunde). Uma das reivindicações
fundamentais do Volkenkunde era a manutenção da pureza cultural e racial dos
diferentes grupos étnicos (era preciso evitar a destribalização). Esse
imperativo de pureza devia ser aplicado tanto à minoria branca afrikâner quanto
à ampla maioria bantu. Max Gluckman e, posteriormente, Adam Kuper pronunciaram-
se abertamente contra o fardo desse conservacionismo cultural (e racial): o
problema, disseram, não é o da diferenciação cultural, mas o da integração
social.
A genealogia intelectual de Gluckman (a sua semente anticulturalista) pode ser
identificada primeiramente em Radcliffe-Brown, que, na década de 1920, funda a
primeira cátedra de antropologia social na Universidade de Cape Town. Na
segunda metade de 1930, Issac Schapera assume a cátedra de Radcliffe-Brown.
Ele deixará uma plêiade de discípulos ' Max Gluckman, Hilda (Beemer) Kuper,
dentre outros ' que terão um impacto fulcral na formação de ilustres
antropólogos sul-africanos contemporâneos, tais como Adam Kuper, Jean Comaroff
e John L. Comaroff3.
O próprio Adam Kuper (2002, p. 14-15) reconheceria mais tarde os riscos do
apelo à cultura numa sociedade segregada. Pelo mesmo motivo, ele tem sido
particularmente crítico à tradição (multi)culturalista da antropologia norte-
americana. Nesse aspeto, segue, pois, os passos de Max Gluckman. Para nós,
dizia Gluckman (1975), não é uma simples questão científica, mas de
sobrevivência como cidadãos. Ele sabia que os ideólogos do apartheid tinham
incorporado aos seus argumentos ferramentas provenientes não apenas da
antropologia cultural norte-americana, mas, também, do ideário romântico alemão
do Volk e da sua conseguinte celebração à singularidade do espírito (geist)
dos povos. Por isso, ao criticar o culturalismo da etnologia afrikâner, clamava
pela valorização dos agentes da mudança social a fim de integrá-los na análise
antropológica. Gluckman recordava ainda a advertência de Isaac Schapera,
quando afirmava que [ ] o comissário de distrito e o chefe, o missionário e o
mago, são pessoas dentro de um mesmo sistema social (Gluckman, 1975, p. 24) e
devem, portanto, ser objeto da análise etnográfica. A diferença cultural
passava a um segundo plano, para dar lugar ao estudo da interação entre esses
agentes específicos.
DA ANTROPOLOGIA POLÍTICA À ANTROPOLOGIA DO POLÍTICO
Os autores anunciam, de maneira correta, que a antropologia política da escola
britânica, os trabalhos de Georges Balandier na França e os estudos das
relações interétnicas de Fredrik Barth inspiraram, no Brasil, a chamada
antropologia do contato. Essa vertente está associada ao nome de Roberto
Cardoso de Oliveira, bem como ao conceito, por ele cunhado, de fricção
interétnica. Essa antropologia política do contacto procurará apreender a
relação do mundo dos brancos com os índios. Um desdobramento mais recente
dessas preocupações encontra-se marcado pelos trabalhos de João Pacheco de
Oliveira. Essa marca de origem da antropologia brasileira, dizem os autores,
[ ] ajuda a explicar porque o tema do contato entre índios e brancos se impõe
à etnologia desde muito cedo independentemente de afiliações teóricas (p.
160). Como sabemos, esse paradigma da antropologia do contacto manteve-se, no
Brasil, como um contraponto às vertentes da etnologia mais interessadas nas
cosmologias do que nas interações, nos sistemas de pensamentos do que nas
fricções, nas classificações do que nas disputas, nos perspetivismos
ameríndios do que nos contactualismos de cunho naciocêntrico e
estadocêntrico. O debate entre a tradição contactualista (inaugurada por
Roberto Cardoso de Oliveira e continuada por João Pacheco de Oliveira) e as
teorias perspetivistas de Eduardo Viveiros de Castro não passou despercebido
nos meios antropológicos brasileiros. Ele culmina com a publicação do ensaio
Etnologia brasileira, no qual Viveiros de Castro (1999) arremete não apenas
contra as teorias da fricção interétnica (ou do contacto) mas, sobretudo,
contra as variantes fundamentalistas ' o adjetivo é dele ' dessa tradição.
A primeira parte de Para uma antropologia do político pretende, pois,
dialogar criticamente com os desdobramentos locais da antropologia política
britânica e da antropologia política dinamista de Georges Balandier. O
conceito de fricção interétnica, a antropologia do contacto colonial, os
trabalhos sobre o campesinato brasileiro são temas e problemas que, como
adiantamos, se alimentam daquelas contribuições primordiais.
A certa altura do texto, os autores evocam a comparação, por muitos trilhada,
entre o modelo de colonização britânica do Indirect Rule (Governo Indireto) e o
modelo colonial português. No entanto, mostram-se indiferentes à imensa
literatura produzida no Brasil sobre o tema.4 Em contrapartida, preferem
procurar contributos numa compilação de textos do historiador Michael Crowder.
Vejamos, a título de exemplo, a seguinte afirmação: Quando os chefes nativos
ocupavam cargos políticos ou administrativos coloniais, isso não implicava (na
África especialmente depois dos anos 1930) a preservação de qualquer tradição
ou forma de legitimação nativa. Eram os administradores portugueses que
detinham o poder de coerção e aplicavam a justiça, recolhiam os impostos e
controlavam as fronteiras e fluxos de nativos (p. 160). Uma rápida leitura de
qualquer trabalho concernente ao chamado Sistema de Indigenato nas colónias
portuguesas evidenciaria a inexatidão dessa afirmação. Para não me estender
longamente sobre essa questão5, é preciso lembrar, antes de mais nada, que o
Sistema de Indigenato nas colónias portuguesas (denominadas, na altura, de
Províncias Ultramarinas) se estendeu até 1961. Apesar do discurso
assimilacionista, os primeiros formuladores da administração colonial
portuguesa possuíam uma grande admiração pelo Indirect Rule (ver, a esse
respeito, o livro de Mahmood Mamdani (1996) e a sua noção de Estado
bifurcado). Mas não se tratava, apenas, de uma admiração. Contrariamente ao
que propagam os manuais, o arcabouço jurídico-colonial português inspirou-se,
também, nesse modelo. O próprio Sistema de Indigenato ' as formas de controlo
dos indígenas, o recrutamento da força de trabalho nativa, o recolhimento dos
impostos, as formas locais de legislar os conflitos entre os indígenas (através
do direito costumeiro ou gentílico) ' possuía muito em comum com o Indirect
Rule britânico. Até o término do Sistema de Indigenato, os chefes e
funcionários indígenas, vulgarmente chamados de régulos, sipaios,ndunas e
cabos de terras (dependendo do grau de hierarquia dessas chefias
tradicionais) cumpriram, sim, um importante papel na coerção dos seus
próprios conterrâneos.
A primeira parte do ensaio finaliza, pois, com o referido diálogo crítico com a
antropologia política e com os seus desdobramentos locais. A partir daí, um
protagonista, também local, entra em cena: a antropologia da política.
No início da década de 1990 é criado, no Rio de Janeiro, o Núcleo de
Antropologia da Política (NUAP), no seio do Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social da UFRJ. Coordenado por Moacir Palmeira, o núcleo reunia
pesquisadores de vários programas de pós-graduação em antropologia no Brasil.
Numa das suas primeiras publicações, o grupo explicita sua posição
programática: Uma antropologia da política distingue-se, pois, da antropologia
política na medida em que consagra a abordagem etnográfica, refina a comparação
como enfoque metodológico, reforça o interesse em determinado domínio empírico
sem substantivá-lo, e acentua a legitimidade das categorias nativas (1998, p.
10). Do NUAP resultaram inúmeras pesquisas, teses de doutoramento e livros.
Algumas dessas obras já integram a bibliografia fundamental das disciplinas
sobre antropologia (da) política nos cursos de graduação e pós-graduação
(Comerford e Bezerra, p. 2013). Os nossos três autores reconhecem esse legado,
contudo pretendem dar um passo além.
É preciso entender as contribuições do grupo de Moacir Palmeira no contexto,
sobretudo, das campanhas eleitorais e das eleições municipais de 1996. Rituais
da política, representações da política e violência na política
constituíam três dos seus principais eixos temáticos. Essa perspetiva ' a
política como categoria nativa ' permite ao grupo cunhar o conceito de tempo
da política, visto que as eleições não se limitariam ao confronto
circunstancial dos candidatos e à conseguinte votação dos eleitores. Haveria,
também, um período de rearranjos, de trocas de lealdades e de uma série de
microconflitos, cuja dinâmica necessitava ser identificada para além do momento
específico do processo eleitoral. Não se trataria simplesmente de apreender a
política a partir de categorias já cristalizadas e residuais, tais como
mandonismo, coronelismo, ou clientelismo (Kuschnir, 2007, p. 165), mas
sim através do estudo empírico e etnográfico das categorias nativas que operam
no próprio tempo da política.
Se quiséssemos resumir a questão a uma simples frase de efeito, poderíamos
dizer que Para uma antropologia do político comporta um jogo quase previsível
de tese (antropologia política), antítese (antropologia da política) e
síntese (antropologia do político). Passemos pois, à parte programática em
si: a antropologia do político.
O estatuto dessa antropologia do político apoia-se numa teoria da mediação de
inspiração habermasiana e barthiana. De Habermas, os autores extraem a
preocupação com as estruturas comunicacionais da esfera pública (p. 177); de
Fredrik Barth (e, portanto, também de Max Weber), incorporam uma preocupação
interacionista fundada na antropologia da ação (p. 157). O conceito de
mediação, dizem, nos permitiu abordar o problema dos mecanismos de produção
de consenso em torno de certos modos de postular as diferenças, por meio de uma
abordagem antropológica menos interessada na constitucionalidade das estruturas
políticas e suas funções integrativas ou assimiladoras do que na interação dos
agentes (p. 171, os itálicos são dos autores). A importância dos agentes
(mediadores) e das suas sempre situadas capacidades para categorizar a
alteridade é, ao longo do texto, sublinhada uma e outra vez como condição sine
qua non para esta antropologia do político.
O que o trabalho da mediação faz, dizem os três autores, [ ] é categorizar a
alteridade, compará-la e generalizá-la, isto é, projeta as diferenças em um
grau de relação mais abstrato para que as alteridades se mantenham em relação e
não se expulsem mutuamente (p. 174). É possível indagar até que ponto o
trabalho da mediação difere ou não do trabalho dialético da reflexividade,
ao qual Manuela Carneiro da Cunha se referia no seu livro. De qualquer forma, o
pano de fundo tanto da mediação como da reflexividade introduz-nos num
cenário que ultrapassa o nosso saber docto e, portanto, opera na dimensão dos
imponderáveis da vida política. O locus desses imponderáveis situa-se, como
diria Max Weber, no momento em que disputas políticas específicas são capazes
de criar sentidos e universos de significados inéditos e imprevisíveis.
O meu comentário sobre essa segunda parte do ensaio ' a parte, por assim dizer,
programática ' será necessariamente seletivo, já que privilegia uma oração
que parece condensar o núcleo da proposta: a intenção dos autores de tomar a
política de reconhecimento como caso exemplar dos fenómenos de mediação (p.
183). O contexto que inspira essa reflexão é bem conhecido: as mudanças
oriundas da Constituição de 1988 no Brasil que impulsionaram, através do
diálogo com os chamados movimentos sociais, a instauração de uma série de
medidas jurídicas reparadoras, a fim de atender às demandas de grupos
vulneráveis (ou melhor, grupos vulnerabilizados).
O FALSO PROBLEMA DO RECONHECIMENTO
No ensaio em questão, o estudo dos mecanismos de produção de consensos
abrange a reflexão sobre as políticas de reconhecimento a partir da referida
teoria da mediação. Não há dúvidas de que o tratamento político da diferença
cultural sofreu mudanças. Nesse caso, alegam os autores, não se trata de
entender a relação entre cultura e política como simples dimensões que remetem
a instâncias de dominação ou de resistência, e tão-pouco de focar ' como a
antropologia historicamente tem feito ' os aspetos positivos ou negativos da
mudança e do conflito intercultural. O que eles pretendem é, precisamente,
evitar essa perspetiva externalista, derivada das antropologias políticas do
contacto acima referidas. Trata-se, portanto, de indagar sobre as [ ]
dinâmicas sociais de produção e apropriação simbólica das diferenças por atores
situados e que contracenam (Montero,et al., 2011, p. 172). Há nessa proposta
um esforço louvável de nos livrar ' através de um retorno à noção de agência
' das tentações do essencialismo e do substancialismo cultural. Mas, seria essa
antropologia capaz de abranger todo o espectro da experiência do político? Ou
melhor, o que aconteceria com aquelas dimensões do político que não operam
necessariamente na esfera pública habermasiana ou nos espaços de negociação dos
códigos culturais? É no mínimo um contrassenso, os autores admitirem não
estar interessados nas funções integradoras da política quando, ao mesmo tempo,
consideram a questão do reconhecimento no âmbito da chamada esfera pública
como o cerne do seu argumento. Evocarei, a seguir, alguns autores e problemas,
não necessariamente considerados no ensaio de Montero, Arruti e Pompa, a fim de
inquirir essa aparente aporia.
Lembremo-nos, de passagem, de um dos mais ilustres representantes da teoria do
reconhecimento: Charles Taylor. O seu ensaio A política de reconhecimento
inscreve-se num contexto institucional bastante específico: a inauguração, em
1990, do Centro Universitário para os Valores Humanos daPrinceton University.
Já a partir dos seus primórdios, a sua diretora, Amy Gutmann, apresentava a
questão do reconhecimento como um iniludível problema moral. No entanto,
algumas conclusões de Taylor não deixam de ser surpreendentes. Uma delas
consiste em aceitar, no final do seu ensaio, a suposição de Herder, que
consiste em vincular a variedade cultural ao imperativo de uma maior harmonia
fundada na providência divina. Taylor apresenta dessa maneira o seu decálogo
de boas intenções:
[ ] é sensato supor que as culturas que conceberam um horizonte de
significado para muitos seres humanos, com os mais diversos
caracteres e temperamentos, durante um longo período de tempo [ ]
possuem, é quase certo, algo que merece a nossa admiração e respeito,
mesmo que possuam, simultaneamente, um lado que condenamos e
rejeitamos [Taylor, 1998, p. 93].
Não deve, pois, surpreender-nos que o filósofo canadiano apele, para alimentar
o seu sonho humanista, à conhecida fórmula de H.G. Gadamer sobre a fusão de
horizontes. Não faltam, na sua investida, acusações contra intelectuais
eurocêntricos, que supostamente se apressam em emitir juízos de valor sobre
culturas que mal conhecem. Mas não nos enganemos: a antropologia no catecismo
de Taylor brilha pela sua ausência. Devemos por isso repetir um previsível
lamento? Referimo-nos àquele que brada contra o facto de os filósofos políticos
abusarem do termo cultura, ao mesmo tempo que ignoram os debates antropológicos
elementares sobre o assunto. Terence Turner (1994) assume com razão que os
próprios antropólogos são, em grande medida, os próprios responsáveis pela
indiferença com a qual eles mesmos são tratados.
Como é sabido, aquilo que os filósofos políticos de modo grandiloquente
denominaram políticas de reconhecimento ocupa o centro do célebre debate de
liberais versus comunitaristas. Os autores de Para uma antropologia do
político não explicitam essa clivagem, mas ela persiste nas entrelinhas. Como
honrar, numa sociedade democrática, os acordos de equidade e justiça sem ferir
as demandas legítimas de todos os grupos envolvidos? Como criar dispositivos
capazes de mediar as tensões entre o altruísmo e o egoísmo? Como alcançar um
equilíbrio entre racionalidade e moralidade, entre liberdade e igualdade, e
assim por diante? Para superar essas dicotomias, alguns foram buscar as suas
receitas ao trabalho de John Rawls. O problema foi, por momentos, apresentado
em termos dos benefícios ou dos inconvenientes, ora de um relativismo
cultural tolerante, ora de universalismo social integrador. Mas o dilema
das políticas de reconhecimento não se resolve nos falsos imperativos dessa
dicotomia abstrata. Charles Taylor, mas sobretudo, Jürgen Habermas e Axel
Honneth ' dois inspiradores primordiais do ensaio aqui comentado ' não se
conseguem esquivar desse maniqueísmo. Em virtude dessa limitação, os agentes
alvo das políticas de reconhecimento são considerados simples sujeitos de
direito, enquanto as disputas identitárias e as políticas concretas que os
constituem permanecem invisíveis nas amarras de um renovado didatismo
moralizador.
Nesta altura, cabe perguntarmos: os autores de Para uma antropologia do
político conseguem manter-se a salvo deste risco?
O diálogo que Montero, Arruti e Pompa estabelecem com o trabalho de Habermas '
e de Axel Honneth ' não é em si passível de questionamento. Afinal, a
antropologia, desde os seus primórdios sempre dialogou ora cordialmente, ora
de maneira tensa, com a filosofia (essa mesma cordialidade e tensão é também
evidente em relação ao seu diálogo com a história). No entanto, essa busca bem-
intencionada possui uma contrapartida irónica. Habermas, por exemplo,
interessou-se por um fragmento da antropologia britânica, mas não pelos debates
sobre política que ela promoveu. O seu conhecimento da obra de Evans-
Pritchard advém das suas leituras do filósofo Peter Winch, sobretudo do seu
ensaio Understanding a Primitive Society. Na altura, a filosofia britânica
promovia um grande debate em torno do problema da racionalidade (nele
estiveram envolvidos, além do próprio Winch, I.C. Jarvie, Robin Horton, Steven
Lukes e Alasdair MacIntyre, entre outros). Nesse contexto, a etnografia de
Evans-Pritchard sobre bruxaria e magia entre os Azande foi intensamente
debatida. Habermas (1989) não se interessou pelo Evans-Pritchard político
(dos Nuer), mas pelo Evans-Pritchard filósofo (dos Azande).6
Retornemos, pois, ao problema do reconhecimento. Anthony K. Appiah tem
chamado a atenção para o facto de a linha que demarca a diferença entre a
política de reconhecimento e a política da compulsão não ser tão evidente.
Também filósofo ' o facto de ser negro e homossexual é, nesse caso, secundário
' Appiah desabafa contra as tentações da compulsão etnicista: Se tivesse de
escolher entre o mundo do armário e o da libertação homossexual, ou entre o
mundo do Uncle Tom's Cabine e o Poder Negro, eu escolheria, claro, o último de
cada caso. Mas gostaria de não ter de escolher. Gostaria de ter outras opções
(Appiah, 1998, p. 179). Esta conceção liberal do sujeito moderno aparece,
também, em Alain Touraine mas, dessa vez, sob a forma daquilo que poderíamos
chamar um multiculturalismo moderado. Como podemos combinar igualdade e
diversidade?, pergunta Touraine. A resposta a essa indagação exige um esforço
para combinar democracia política e diversidade cultural sob a perspectiva da
liberdade do Sujeito. Essa perspectiva implica que toda referência à
identidade cultural se legitime mediante [ ] o recurso à liberdade e à
igualdade de todos os indivíduos, e não através da apelação a uma ordem social,
a uma tradição ou às exigências da ordem pública (Touraine, 1999, p. 175).
De facto, como sublinha Habermas (1995, p. 852), a problemática incrustada nas
chamadas lutas pelo reconhecimento já aparecia na obra de Hegel,
Fenomenologia do Espírito, no seu capítulo consagrado à dialética do senhor e
do escravo. Ora, se em vez de partirmos de uma visão filosófico-normativa da
diferença ampliássemos empiricamente o espectro, seríamos obrigados a aceitar
que o problema não é o reconhecimento em si, já que posso reconhecer o Outro
tanto como amigo ou inimigo, como igual ou diferente, como próximo ou distante,
e assim por diante. Aliás, de um ponto de vista empírico, a distinção entre
amigo e inimigo é relativa e não absoluta. A constatação parece banal, mas essa
lição é ensinada não apenas por uma vasta literatura etnográfica, mas,
sobretudo, por exemplos históricos dramaticamente recentes. É preciso,
portanto, olhar para as formas positivas ' hospitalidade ' e negativas '
hostilidade ' do reconhecimento. Mas não apenas isso. De um ponto de vista
concreto, a questão é quando e por que motivo os que hoje são reconhecidos como
amigos podem amanhã ser reconhecidos como inimigos (e vice-versa); ou,
parafraseando o livro de Mahmood Mamdani (2001) sobre o genocídio ruandês,
quando e porquê as vítimas de ontem também poderão ser os assassinos de amanhã.
O aspeto fulcral dessa questão não se refere tanto à construção social da
confiança e do consenso, mas, sobretudo, a formas micro e macrossociológicas da
traição. Ao partirmos dessa perspetiva, não pretendemos fazer um convite de
adesão aos postulados de um relativismo ético irresponsável. Tão-pouco é nossa
intenção aderir cegamente àquilo que Michel Foucault (1992) denominou
reversibilidade tática do discurso. Contudo, a crítica de Foucault às visões
ontológico-normativas do poder podem auxiliar-nos a pensar a questão a partir
de pressupostos menos metafísicos e, portanto, mais empíricos. Do contrário, o
binarismo que insiste em apresentar a questão como uma simples disputa entre
liberais e comunitaristas ' ou entre laCivilisation do paradigma
republicano-universalista e o Volk do paradigma romântico-culturalista '
continuará a ofuscar a verdadeira natureza das lutas reais, bem como suas
implicações concretas.
Axel Honneth (2003), cujo livro traduzido em português assumiu a forma de um
novo vade-mécum, também permanece refém de uma filosofia política moralizadora.
No entanto, os autores de Para uma antropologia do político parecem tomá-lo
como uma referência verossímil. As críticas que Honneth faz ao seu predecessor
frankurtiano' Habermas ' e à própria herança hegeliana pretendem apoiar-se numa
crítica à filosofia da consciência, a partir de um retorno aos fundamentos
intersubjetivos da vida social. Nessa esfera, Honneth distingue três formas de
reconhecimento ' amor, direitos e solidariedade ', cujas contrapartidas
negativas seriam, respetivamente, três formas fundamentais de desprezo '
abuso e violência sexual, negação de direitos e exclusão e, por fim,
desqualificação e insulto. Mas, apesar da repercussão do seu trabalho, a sua
gramática moral não diz nada de novo sobre a questão política e moral por
excelência: o problema, tanto na sua dimensão microssociológica, como na sua
dimensão macrossociológica, da traição. Para tanto, torna-se também necessário
estudar as dinâmicas que revelam a transitoriedade dos laços sociais (pessoais,
grupais, étnicos ou nacionais), e não apenas as estruturas que os reproduzem.
INIMIGOS, INQUILINOS E TRAIDORES
A transitoriedade ' e a persistência ' dos laços sociais interessou, de forma
peculiar, ao escritor britânico Edward Morgan Forster. Em plena Segunda Guerra
Mundial, quando o imperativo patriótico era uma questão de vida ou morte, ele
escreve um ensaio intitulado What I Believe, que se tornará célebre. Nesse
escrito, Forster admite sua preferência não pela grandiloquência das grandes
causas, mas pelas relações interpessoais pautadas pelos vínculos de confiança e
afetividade. É precisamente nessa microdimensão em que, para ele, se constroem
as afinidades duradouras. No entanto, Forster acrescenta a esse argumento uma
provocação: num caso hipotético em que tivesse de escolher entre trair um amigo
ou trair a nação, admite sem pestanejar que escolheria a segunda opção. Essa
confissão, diz, escandalizará o leitor moderno, que, caso deseje, poderá
aproximar sua mão patriótica do telefone e ligar imediatamente à polícia
(Foster, 2008, p. 196). Na Divina Comédia, relembra-nos Forster, Dante
Alighieri condena Brutus e Cassius ao último círculo do Inferno, já que eles
preferiram trair um amigo (Julio César) em vez de trair Roma. O velho problema
da traição é um incómodo não apenas para os patriotas circunstanciais ou '
utilizando uma categoria de Balibar (1991) ' para os Homo Nationalis. Ele
interpela, também, as nossas certezas disciplinares, que exigem fronteiras
classificatórias mais ou menos claras em relação aos grupos e aos agentes
sobre os quais refletimos. O perturbador problema da traição ' ao amigo, à
família, ao grupo étnico, à pátria, ao partido, e assim por diante ' converte o
debate sobre as políticas de reconhecimento num devaneio filosófico estéril,
já que ele outorga primazia ao problema da confiança, do contrato, do consenso.
Por que não fitá-lo a partir da sua contrapartida?
Nesse caso, torna-se necessário distinguir nas análises empíricas concretas as
dinâmicas que envolvem o par adulação/acusação. Esse amplo espectro, em cujos
extremos se situam ambos os polos, mostra-nos que o reconhecimento (do amigo ou
do inimigo) depende também das formas categoriais que delimitam a construção
política da simpatia ou, dependendo do caso, da ameaça. Trata-se de uma
gramática em que as acusações, as suspeitas e os boatos convivem, no mesmo
registro da linguagem política, com as adulações, as afinidades e a invenção do
aliado. A questão conduz-nos, por um lado, ao tema fulcral das afinidades
eletivas, cuja problemática ' nunca é demais relembrar ' nasce de uma ciência
eminentemente empírica (a química), é incorporada pela literatura e,
finalmente, chega às ciências sociais (Löwy, 2004). O problema da construção
dos amigos e dos inimigos remete-nos também para a análise dos pequenos e dos
grandes ritos de agregação e separação. Os ritos de comensalidade, de
fraternidade, de saudação que Arnold Van Gennep (2008) estuda na sua obra vão
ao encontro (uma compatibilidade impensada?) daquilo que Thomas Hobbes, no
capítulo X do Leviatã ' Do poder, valor, dignidade, honra e merecimento '
chama de formas ou maneiras de honrar (ways of Honouring): elogiar, oferecer
grandes dons, louvar, exaltar, felicitar, acreditar, confiar, apoiar-se no
outro
É claro que a distinção entre Nós e os Outros é decidida pelos escritórios de
migrações, pelas leis de nacionalidade, pelas polícias de fronteira, pelos
documentos de identidade, bem como através de todos os outros dispositivos que
contribuem para a reprodução do exercício do monopólio legítimo da violência de
um Estado. Mas essa distinção também se processa nos pequenos e cotidianos
rituais de incorporação e separação. Ou seja, para além das ideologias e das
categorizações que se têm ensaiado para explicar o orgulho étnico e os
marcadores da diferença (primordialismo, etnicismo, nativismo, essencialismo
estratégico), haveria uma dimensão microssociológica na qual o
reconhecimento ' do amigo ou do inimigo ' assume sua forma empírica e
observável: é nesse espaço em que podemos identificar os pequenos e grandes
ritos de hospitalidade e hostilidade. Diante desses imponderáveis, o conceito
de mediação ' sempre relativo e residual ' torna-se inoperante. A pesquisa
etnográfica fornece-nos, sob a forma de um caleidoscópico jogo de tensões, a
possibilidade de verificar in loco essas dinâmicas. De maneira peculiar, essas
tensões também têm sido retratadas pelo cinema. Gostaria de evocar um exemplo
paradigmático: a densa metáfora apresentada por Roman Polanski no seu filme O
Inquilino7. O protagonista, um francês de origem judaico-polonesa, ao tentar
refazer sua vida na Paris do pós-guerra, não consegue escapar à identidade
que os seus interlocutores e vizinhos, através de pequenos gestos quase
inconscientes, exigem que ele assuma. O desenlace para essa situação sem saída,
à qual poderíamos aplicar o conceito de duplo vínculo cunhado por Gregory
Bateson (1998), é tão grotesca quanto dramática. Afinal, quem é esse inquilino,
um ser ambíguo, transitório e liminar cujo alter ego (uma ex-inquilina do mesmo
apartamento) é uma mulher? Na ausência dos rituais que deveriam encurtar a
distância social entre anfitriões e hóspedes, a identidade da personagem dilui-
se. Essa diluição chega a um extremo tal que o espetador já não sabe se está
diante de um complô contra o protagonista ou de uma alucinação de perseguição
paranoica da qual esse estrangeiro é vítima. O desenlace funciona como uma
profecia que se autorrealiza: tudo começa com uma perceção falsa acerca do
Outro, a qual, através dos comportamentos que ela mesma gera, se torna
verdadeira. Tal como o feiticeiro do célebre ensaio de Lévi-Strauss8, o
protagonista acaba por construir progressivamente a personagem que através de
pequenos rituais de (des/re)conhecimento lhe impuseram os seus anfitriões:
apesar de nunca tê-la conhecido, o inquilino assume a identidade da inquilina
anterior, ou melhor, passa a ocupar, literalmente, o seu lugar. Para que o
estigma imaginário seja consumado, é preciso, pois, construí-lo previamente a
partir de relações de sociabilidade reais, mas expressadas subtilmente em
mecanismos quotidianos negadores da identidade do Outro. A versão bem-
humorada desse drama identitário pode ser encontrada num outro filme, Zelig,
dirigido por Woody Allen. Apelando à técnica do falso documentário, o filme
(a preto e branco) debruça-se sobre o caso de Leonard Zelig. A personagem
apresenta um distúrbio peculiar: conforme o momento e a situação, Zelig
metamorfoseia-se, involuntária e camaleonicamente, para adquirir a aparência
dos seus próximos. A psicanalista que o trata descobre que as causas desse
estranho sintoma resultam da sua virulenta e irreprimível necessidade de ser
reconhecido pelos Outros. Num dado momento, o protagonista converte-se em
inimigo público número um da sociedade: afinal, de que lado está Zelig? De quem
ele é amigo? E de quem ele é inimigo? Somente após a cura da sua estranha
doença ele se torna um indivíduo digno de confiança e, como tal, um cidadão que
merece ser reconhecido. Com uma sensibilidade que nos remete às teorias
interacionistas de Erving Goffman, ambos os filmes nos advertem que algo de
errado acontece quando uma humanidade mínima ' recorrendo a uma evocação
levistraussiana ' não pode ser mantida.
Há, também, exemplos históricos que nos convidam a pensar relacionalmente o
problema do reconhecimento ' do amigo ou do inimigo ' sob essa perspetiva
interacionista. Albert Soboul, o historiador da revolução francesa, descreve
com habilidade goffmaniana o quotidiano do uso de determinados signos externos
e rituais de reconhecimento utilizados entre os militantes populares das
secções revolucionárias parisienses: os sans-culottes. As discussões em torno
do uso ou não de determinadas vestimentas, símbolos e diacríticos foram, a
partir de 1792, cada vez mais intensas entre os revolucionários franceses.
Nessa época aconteceram debates acalorados quando os revolucionários
pretenderam substituir, na linguagem do dia-a-dia, senhor por cidadão.
Essas novas formas não hierarquizadas de reconhecer o Outro provocaram inúmeros
equívocos e violências. Algumas dessas tensões aconteceram inclusive nos cafés
parisienses, espaços que se tornariam um lugar de sociabilização por
excelência. Soboul relata duas dessas situações microssociológicas, metáforas
incontornáveis do novo ambiente igualitarista que se espraiava pela sociedade.
Numa ocasião, um velho garçon, ainda socializado nos antigos costumes, chamou a
dois cidadãos senhores (vous). Os dois jovens revolucionários não demoraram
em reagir diante dessa linguagem submissa, acusando o garçon de se comportar
como um escravo. Noutro local, que passaria a ser um famoso espaço de
discussão entre os revolucionários ' o caféde Foy ' uma briga ocorreu após um
simples cidadão haver tratado um general por tu (toi) (Soboul, 1987, p. 210).
Salut citoyen! Era essa a saudação ritual que entre os revolucionários
franceses funcionava como um mecanismo de agregação e de reconhecimento de um
semelhante, de um cidadão. Assim, os laços primordiais (Shils, 1957) e as
distinções entre Nós e os Outros são também suscetíveis de ser produzidas no
confronto desses microuniversos de significados que Forster ' o traidor da
pátria ' denominava personal relationships, isto é, aquilo que os sociólogos
e os antropólogos chamariam de sociabilidade (Simmel, 2006) e que os filósofos,
de Plutarco a Montaigne, denominariam amizade9. A noção de re
(des)conhecimento é, pois, empiricamente multívoca. Ela apresenta-nos um
desafio análogo ao que acontece com o conceito global de étnico', tal como
anunciado por Max Weber: trata-se de um [ ] termo genérico completamente
inoperante para toda investigação rigorosamente exata [ ] (Weber, 1964, p.
324). Diante desta encruzilhada, seria prudente aceitarmos o facto de estarmos
a lidar, pura e simplesmente, com um falso problema: o problema do
reconhecimento.
Voltemos ao ensaio em questão. A proposta de Montero, Arruti e Pompa é fazer da
análise da política de reconhecimento um aspeto inerente à antropologia do
político, e considerar essa política como caso exemplar dos fenômenos de
mediação (p. 183). Tal proposta assume, por momentos, objetivos pretensiosos:
[ ] refazer o percurso conceitual e político do projeto de construção da
nacionalidade [ ] (p. 181). Mas a pretensão seria um detalhe menor, não fosse
pelo facto de se apoiar na quimera do reconhecimento. Apesar das declarações
de boas intenções sobre a importância dos agentes, da historicidade, da
mediação etc., essa antropologia do político não consegue emancipar-se das
aporias criadas pelos filósofos políticos aos quais nos referimos. Vejamos, a
título de exemplo, o seguinte parágrafo:
Buscando uma primeira síntese da abordagem aqui proposta, diríamos
que os atores se constituem (ou não) em agentes políticos na lógica
do jogo político das controvérsias quando, a partir delas, elaboram
demandas por direitos, tendo em vista constituírem-se como sujeitos
de direitos (p. 179).
Quer dizer que os atores só se constituem em agentes políticos enquanto
sujeitos de direito? Em que essa proposta difere das abordagens que pretende
criticar? Qual a diferença entre essa antropologia do político e as
perspetivas jurídicas ' e externalistas ' da antropologia política
contatualista? Os três autores pretendem expulsar o instrumentalismo pela porta
principal, que no entanto regressa sigiloso e reconfortado pela porta dos
fundos.
COMENTÁRIOS FINAIS (OU EINSTEIN E OSSELVAGENS 10)
A missionary blamed his African flock for walking
undressed.
And what about yourself? they pointed to his
visage, are not you, too, somewhere naked?
Well, but that is my face
Yet in us, retorted the natives, everywhere
it is face11.
Roman Jakobson [1960, p. 277].
A teoria da mediação convida-nos a pensar a política de reconhecimento como um
caso exemplar de uma antropologia do político. O convite pode resultar
tentador quando pensamos a mediação à luz, por exemplo, das relações entre
missionários e indígenas (Montero, 2012), ou entre agentes do Estado e
movimentos sociais (Arruti, 2006). Mas as outras dimensões ' menos
negociáveis ' da experiência do político também não mereceriam entrar no
nosso campo observacional? Ao mesmo tempo, parece-nos que o risco dessa crítica
' legítima e necessária ' à antropologia política contactualista e
contratualista consiste em atribuir ao dualismo nós-eles um viés
externalista produzido apenas pelo pensamento dicotómico do analista. No
entanto, o que acontece quando esse dualismo é produzido pelas próprias
categorias nativas suscetíveis de autorizar, por sua vez, as mais variadas
práticas exclusivistas e, por que não, culturalistas? Trata-se, mais uma vez,
da construção e, portanto, do reconhecimento do inimigo. Eis quando, da
perspetiva dos atores, a distinção Nós-Eles se torna significativa e
merecedora de atenção. Recentemente, alguns trabalhos, pautados, também, pelos
enfoques microssociológicos e etnográficos da agência [agency], vêm transitando
por caminhos que nos conduzem a esses problemas (Lubkemann, 2008; West, 2009;
Thiranagama e Kelly, 2010). Entretanto, resta saber se aquela antropologia do
político ' e a sua teoria da mediação ' poderá fornecer-nos subsídios para
pensarmos as formas elementares da violência, da hostilidade, do conflito, do
genocídio, do massacre. Elas são a dimensão constitutiva de uma outra
sociabilidade, cuja dinâmica é preciso entender. Se não nos ajudar a pensar um
dos aspetos incontornáveis do político (a guerra e a sua contrapartida mais
perturbadora, a traição), a teoria da mediação converte-se numa panaceia.
Não é possível, pois, uma antropologia do político convincente se não
atentarmos no facto de que a matéria que vincula amigos (hospitalidade) e
inimigos (hostilidade) possui a mesma raiz etimológica e sociológica.
Etimologicamente, tal como nos anuncia Émile Benveniste, hostilidade deriva de
hostire, que significa intercambiar.Graças a uma imensa literatura
antropológica, sabemos que a guerra é, na verdade, a outra face do intercâmbio
e vice-versa. Intercambio ou me caso com os meus inimigos para não guerrear com
eles, diria Lévi-Strauss em As Estruturas Elementares do Parentesco (um
cunhado, diz David Webster na sua etnografia sobre os Chope de Moçambique,
[ ] não deixa de ser um inimigo potencial que o casamento transformou num
amigo). Recordemos também que o potlatsh, esse grande ritual de intercâmbio
imortalizado por Franz Boas, não é apenas uma guerra sublimada, mas a própria
guerra assumindo outras linguagens. A etimologia de hostire também remete para
hostis (do latim inimigo) e, ainda, para um termo bastante familiar aos
cristãos católicos: hóstia. Na tradição romana, essa palavra identifica a
vítima que serve para aplacar a ira dos Deuses (Benveniste, 1969, p. 93).
Trata-se, em ambos os casos, de um intercâmbio simbólico com os deuses para
evitar o conflito. Através desse arti-fício ' ou, literalmente, desse sacri-
fício ' passa-se do social ao simbólico, da hostilidade à hospitalidade. A
vítima (como no O Inquilino de Polanski?) também se pode tornar um convidado
ambiguamente desejável. Lembremos, além disso, que autel (homófono de
hotel), do francês o altar onde se sacrificam os deuses, provém de alter.
O problema da alteridade condensa e reúne esse duplo sentido reciprocamente
excludente. Eis um paradoxo impossível de resolver, mas que envolve um problema
antropológico e sociológico fundamental. De um ponto de vista estritamente
histórico, ainda não sabemos como a conotação positiva de hostire (reciprocar
ou intercambiar) assumiu uma forma negativa (hostilidade). Estamos, sem dúvida,
em face do que Benveniste (1969, p. 87) denomina palavras reveladoras de uma
instituição, cujos traços se deixam entrever apenas de forma fugidia. Por
detrás dessa opacidade da língua, vislumbra-se uma relação metonímica entre a
reciprocidade e a guerra, entre a amizade e a inimizade, entre a hospitalidade
e a hostilidade. A identificação etnográfica dessa incómoda contiguidade vai a
contrapelo do falso problema do reconhecimento.
Esse esforço ' o estudo da tensão dissémica entre hospitalidade/hostilidade '
não nasce de uma tábula rasa antropológica. Sabemos que entre as décadas de
1950 e 1960, a chamada antropologia mediterranista (aquela que se especializou
nos trabalhos etnográficos no sul da Europa) trouxe contribuições pioneiras
sobre o assunto.12 Mais tarde, os trabalhos de Michael Herzfeld (2001; 2005)
veicularam uma renovada imaginação teórica para repensar essas tensões.
Ultimamente, uma das mais importantes revistas científicas de antropologia '
Journal of the Royal Anthropological Institute ' dedicou um dossiê ao tema sob
o sugestivo título The return to hospitality: strangers, guests, and ambiguous
encounters13 (Candea e Col, 2012). Compartilhando essas mesmas preocupações,
propus em trabalhos recentes um retorno ao problema das afinidades eletivas e
ao estudo daquilo que chamei de construção colonial da simpatia (Macagno,
2012a, 2012b).
Retomemos, para terminar, o pequeno diálogo da epígrafe, evocado por Roman
Jakobson, entre um missionário e um grupo de africanos. O trecho pertence a um
ensaio no qual o linguista discute a noção de poética, enquanto movimento de
ampliação e de revalorização do discurso e não como sua mera ornamentação
retórica. Entendida dessa maneira, a poética ' tal como acontece quando a
antropologia nos convida a ampliar o registo empírico da experiência humana '
provoca, nesse movimento de ampliação, um efeito político: o desafio crítico às
nossas certezas mais arraigadas e, ao mesmo tempo, frágeis. Pois, para nós
tudo é rosto replicavam os nativos nus ao missionário escandalizado. Essa
resposta ' poética e política ' aciona o disparador do relativismo. Mas o
problema do relativismo, somado à questão da demanda de tolerância e
reconhecimento, restringe-se a um segundo plano se olharmos para um facto
universalista que, à primeira vista, esse (des)encontro parece eclipsar: o
rosto do nativo e o do missionário são, por assim dizer, constituídos pela
mesma matéria. Tal constatação é mais perturbadora do que o suposto escândalo
cognitivo envolvido nessa hipotética situação colonial ou choque cultural.
Em tais circunstâncias, o etnólogo possivelmente nos convidará a indagar sobre
as noções de corpo ' ou de pessoa ' envolvidas nessa situação, enquanto os
políticos do reconhecimento nos proporão legislar e intervir nesse aparente
diálogo de surdos, a fim de evitar a anulação recíproca de ambas as faces,
rostos ou culturas. Sem embargo, não conseguimos vislumbrar como os
promotores dessa intervenção poderiam conciliar a tão alardeada agency com as
estocadas normativistas e moralistas que suas políticas de reconhecimento
promovem.
Para além do falso problema do reconhecimento e do seu embaraçoso reverso '
nascido da instabilidade dissémica evidenciada no par hospitalidade/hostilidade
' resta, por ora, um corolário e uma pergunta inevitáveis: é possível que, como
almejava Pierre Clastres (2003), a antropologia política tenha finalmente
conseguido realizar a sua revolução copernicana; poderá no futuro realizar a
sua revolução quântica? A julgar pela proposta programática aqui comentada,
parece que essa tarefa ' a ruptura com o velho paradigma ' não será realizada
imediatamente.