Questionando o social: A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Questionando o social - A propósito do Homo Academicus de P. Bourdieu
Luís Trindade*
*Department of Iberian and Latin American Studies, University of London, 43,
Gordon Square, London, WC1H0PD, United Kingdom. E-mail: ubll089@mail.bbk.ac.uk
Em Homo Academicus, Pierre Bourdieu apresenta uma análise das condições
históricas de produção do conhecimento científico entre 1968 e 1988 na França.
Desde então, grandes mudanças ocorreram no sistema universitário a nível global
e, em especial, no sistema de investigação científica. Por relação a Portugal
hoje, quais seriam para si as grandes questões a levantar para a realização de
um esforço semelhante?
Por estranho que possa parecer, a desvalorização do estatuto do académico na
sociedade portuguesa não teria necessariamente de ser uma coisa má. Em
Portugal, o professor universitário foi tradicionalmente uma figura
privilegiada, sobretudo em termos simbólicos. Ainda hoje, os resquícios desse
privilégio são visíveis nalguns espécimes da classe. O exemplo talvez mais
sintomático é o do desfasamento entre o reconhecimento da qualidade e impacto
da pesquisa no interior da academia, por um lado, e a visibilidade mediática,
por outro. No campo das ciências sociais e humanidades, sobretudo, onde a
investigação se aproxima mais da opinião política e social, não são poucos os
casos de detentores de lugares cativos em espaços jornalísticos e televisivos
cujo trabalho propriamente científico é, no mínimo, despiciendo. O mesmo nas
carreiras académicas: frequentemente, a capacidade de chegar ao topo é ainda
inversamente proporcional à qualidade do trabalho científico. A figura do
catedrático é hoje frequentemente desprezada ' muitas vezes com boas razões '
por colegas, sobretudo aqueles para quem o reconhecimento e a legitimação
académicas é, ou deve ser, antes de mais intelectual.
É nesse sentido que digo que em certas circunstâncias a perda desse estatuto
distante e privilegiado talvez pudesse significar uma maior aproximação entre a
universidade e o seu exterior e, sobretudo, um encurtamento das distâncias (em
boa parte simbólicas, mais uma vez ) entre os vários tipos de trabalho
intelectual e manual. O que está a acontecer, porém, nada tem que ver com isso.
O velho doutor na sua torre não está a dar lugar ao cientista que descobre e
estuda para a sociedade e com ela. Pelo contrário, a renovação e a massificação
do campo da investigação em Portugal aproxima os novos académicos do resto dos
portugueses da pior maneira, pela precarização e pela proletarização. Em vez de
uma nova densidade crítica, feita de trabalho colectivo e numeroso, teremos
tendencialmente uma investigação dependente de agendas de interesses estranhos
às disciplinas e às suas lógicas autónomas. Em vez de uma nova intervenção
social, capaz de questionar radicalmente os fundamentos do sistema, não fazemos
já mais do que reproduzir de forma muito visível a linguagem ' e é com a
linguagem que trabalhamos ' da ideologia do poder político e do mercado que o
domina.
Com a incapacidade de todos os governos nas últimas décadas em conseguir uma
nova articulação entre a docência e a investigação, vai-se rapidamente cavando
um fosso entre os afortunados que entram na carreira e aqueles que vão
sobrevivendo precariamente de bolsa em bolsa. A ironia, aqui, é que enquanto
estes vão publicando, fazendo obra e, frequentemente, ganhando densidade
teórica, mas sem segurança profissional nem possibilidade de transmitir
conhecimento a alunos, os primeiros descobrem rapidamente que deles o que as
Faculdades esperam é o cumprimento de rotinas e ritmos de trabalho
verdadeiramente proletarizados. Nestas condições, dificilmente conseguirão
evitar a estagnação. Prepara-se assim um panorama desolador, em que os
investigadores com ideias mais excitantes e inovadoras correm o risco de, a
qualquer momento, deixarem de poder investigar, enquanto as universidades se
deixam a marcar passo com corpos docentes envelhecidos e desmotivados.
As forças políticas e económicas que nos trouxeram aqui são poderosas e é
difícil ver como as universidades podem resolver o problema sozinhas. Mas é
também preciso dizer que todas estas são também coisas que andamos a fazer uns
aos outros: quando aceitamos importar as lógicas do impacto das outras ciências
para os conhecimentos social e humano; quando decidimos seguir linhas de
investigação sem autonomia nem espírito crítico em relação ao poder e ao
sistema; quando mimetizamos a linguagem das próprias forças que nos estão a
destruir (as palavras produtividade e excelência são os exemplos mais acabados
desta capitulação); quando incorporamos o medo e reproduzimos nos vários níveis
das nossas relações institucionais ' da Faculdade ao departamento, do
orientador ao aluno de doutoramento ' as mesmas prepotências usadas pelo poder
político.
Apesar de tudo, talvez ainda haja alguma margem de resistência. Nas atuais
circunstâncias, vejo-a sobretudo na capacidade de escandalizar: em dizer e
praticar a ideia de que as ciências sociais e humanas são críticas não porque
não gostem do mercado e do governo, mas na medida em que são teóricas,
especulativas, cheias de dúvidas e incertezas, não patenteáveis ou passíveis de
serem postas a uso. E que é assim mesmo que devem ser.