Identidade e estigmatização: as notícias na perceção de crianças e jovens de um
bairro de realojamento
INTRODUÇÃO1
A nossa proposta neste trabalho é analisar processos de construção identitária
entre crianças e jovens de um bairro de realojamento face, nomeadamente, aos
discursos frequentemente estigmatizantes dos media. Para isso, recorremos a
metodologias qualitativas aplicadas em encontros semanais com cerca de 15
crianças e jovens, entre os 9 e os 16 anos, no Projeto Esperança. Esta
associação sem fins lucrativos é financiada pelo Programa Escolhas do Alto
Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) que, segundo o
seu site oficial, visa promover a inclusão social de crianças e jovens
provenientes de contextos socioeconómicos vulneráveis, particularmente
descendentes de imigrantes e minorias étnicas.
Durante nove meses, entre agosto de 2011 e maio de 2012, realizámos grupos de
foco, entrevistas, observação participante e utilizámos especialmente
metodologias visuais participativas, que incluem a produção de vídeos e fotos
pelas crianças e jovens. Estas práticas metodológicas, que analisaremos com
mais detalhe neste artigo, procuram aliar investigação e ação, estimulando
entre os sujeitos investigados uma reflexão crítica sobre os seus direitos e
identidades.
Levamos também em consideração de forma central neste estudo o que Ulrich Beck
(1998, p. 78) chama de biografização dos jovens. Embora sujeitos a
constrangimentos decorrentes da estrutura social, estes possuem também
autonomia para fazer escolhas entre as oportunidades possíveis (Passeron in
Carvalho, 2010, p. 61). Processo identificado por Esteves (2011, p. 73) como
constituição do indivíduo enquanto sujeito social, no qual este se reconhece e
é reconhecido como membro de uma sociedade.
Um processo de reconhecimento que, no caso das crianças e jovens deste estudo,
é marcado pela cobertura noticiosa negativa do território onde vivem. A Quinta
do Mocho (freguesia de Sacavém, concelho de Loures) é noticiada regularmente
nos telejornais e jornais impressos portugueses a propósito de acontecimentos
violentos. Notícias positivas, no entanto, são raras.
Rotulado muitas vezes como problemático pelos media, o bairro foi construído
entre 1998 e 2000 para acolher famílias provenientes principalmente dos PALOP
que habitavam torres residenciais inacabadas e degradadas e barracas (Pereira,
2005; Esteves, 2004). Hoje abriga cerca de 2600 moradores, dos quais
aproximadamente 700 são crianças (0 a 18 anos), segundo dados da Câmara
Municipal de Loures. Este território é um espaço fundamental de construção da
identidade das crianças e jovens filhos destes imigrantes, que rejeitam a
denominação oficial do sítio onde vivem (Urbanização Terraços da Ponte) e
continuam a identificá-lo pelo antigo nome da comunidade onde viveram os seus
pais ou avós. Talvez não por coincidência, o mesmo acontece no discurso
noticioso.
CRIANÇAS E JOVENS: A IDENTIDADE NUM MUNDO MEDIATIZADO
Inspirado no pedagogo alemão Giesecke, Allan Prout (2005, p. 30) afirma que é
fundamental perceber as crianças tanto enquanto indivíduos quanto como
coletividade, a partir de um esforço de interpretação coerente do seu mundo. A
construção da identidade e a elaboração de projetos individuais são feitas num
contexto em que diferentes mundos', ou esferas da vida social, se misturam e
entram muitas vezes em conflito (Correia, 2004, p. 119). O contexto em que as
crianças vivem caracteriza-se por uma pluralidade de valores e perspetivas
concorrentes, complementares e divergentes disponibilizadas pelos pais, escola,
sociedade de consumo, relações entre pares e pelos media. Este último elemento
da vida social ganha importância à medida que tem vindo a desempenhar um papel
mais central na maneira como as crianças e jovens interpretam o mundo. Já em
1994, Gerbner afirmava que as crianças ouviam mais histórias e factos através
de diferentes media do que através dos pais, escolas ou comunidade, fenómeno
que Livingstone (1998) identificou como infância mediada.
É a partir desta diversidade de contexto, marcada pelos media enquanto recursos
simbólicos centrais, que podemos falar das experiências vividas pelas crianças,
dos seus sentimentos de pertença e relações de sociabilidade que contribuem
para a construção da sua identidade pessoal (representação do eu como único e
diferente a partir da autoatribuição de traços psicológicos percebidos como
particulares) e social (autoconceito derivado do reconhecimento de pertença a
grupos sociais, a partir do valor e do significado emocional associado a essa
pertença) (Tajfel e Turner, 1986, p. 255).
Neste sentido, as infâncias são, assim como a vida dos adultos, fortemente
influenciadas pelas diferenças que marcam a vida social (Prout, 2005, p. 14).
Idade, género, etnia, nacionalidade, estatuto socioeconómico, cultura,
localização geográfica, estrutura familiar ' e também a relação com os media '
são apenas algumas das categorias relevantes para contextualizar o estudo da(s)
infância(s), que interferem no labirinto de negociações onde se dá a construção
identitária individual (de uma pessoa, de uma voz, de uma posição, de uma
subjetividade) e grupal (nós, que nos assemelhamos, em relação a outros que
de nós se diferenciam), como sublinha Machado Pais (2005).
Carvalho (2010, p. 257) chama a atenção para a influência fundamental que o
território onde as crianças residem exerce na maneira como interpretam,
reconstroem e representam os problemas sociais e como se posicionam diante
destes.
Entre as crianças do nosso estudo, por exemplo, o facto de viverem num bairro
de realojamento, a escassez de possibilidades de vivenciarem experiências fora
dele e a sua condição de descendentes de imigrantes, parecem ser determinantes
para o sentimento de pertença comunitária que expressam. À semelhança de outros
estudos sobre imigrantes em espaços não privilegiados, o bairro configura-se
como um fator de identidade, expresso na sua valorização como um porto seguro
e na consequente preocupação quanto à sua imagem externa negativa,
frequentemente reproduzida pelo discurso mediático (Padilha, 2011, p. 164).
É nesta perspetiva que pensamos a relação das crianças e jovens com os media.
Estes trabalham simbolicamente para classificar o mundo e as nossas relações
dentro dele, construindo lugares a partir de onde os indivíduos se podem
posicionar e falar (Woodward, 1997, p. 14). A representação mediática, como um
processo cultural, estabelece identidades individuais e coletivas em sistemas
simbólicos que possibilitam respostas possíveis para questões como: quem sou
eu? O que posso ser? Quem quero ser? (Woodward, 1997, p. 14).
Por outro lado, a par do que afirma a nova sociologia da infância (Corsaro,
1997; Mayall, 2002; Prout, 2005; James e Prout, 1997; Almeida, 2009), pensamos
as crianças e jovens como participantes ativos no seu processo de socialização.
Eles são percebidos como capazes de elaborar, interpretar e reconstruir as
lógicas sociais e as suas experiências, incluindo a sua relação com os media.
Nesta perspetiva, chamamos a atenção para a relação entre representação
mediática e construção identitária, que analisaremos a seguir.
MEDIA E IDENTIDADE: ESTIGMATIZAÇÃO E DIVERSIDADE EM QUESTÃO
Espaço privilegiado para a produção e representação de significados, símbolos e
mensagens que nos ajudam a compreender a nossa experiência e quem somos
(Schudson, 2002, p. 265), os media são atores culturais centrais nas sociedades
contemporâneas com uma crescente importância na construção social da realidade
(Correia, 2004, p. 13).
A construção de sentido para a conduta social; a perpetuação e
reprodução de enquadramentos axiológicos e normativos que permitem a
formação de identidades sociais e coletivas; a construção e o reforço
da imagem que essas identidades fornecem de si próprias e das outras,
seja a nível individual seja ao nível coletivo; a conquista de
visibilidade que permite a luta pelo reconhecimento estão, cada vez
mais, dependentes dos media [Correia, 2004, p. 33].
Em concordância, Pissarra Esteves (1999) afirma que o trabalho da identidade
desenvolvido pelos media cumpre funções sociais básicas de reprodução cultural,
de socialização e de integração social dos indivíduos, através de uma ampla
oferta de modelos de pensamento e de ação, de quadros simbólicos difundidos e
que se impõem socialmente por processos de imitação e formas ritualizadas.
O trabalho mediático de agendamento e de enquadramento dos acontecimentos e
problemáticas influencia significativamente as imagens que as pessoas fazem
delas mesmas, dos outros, das suas necessidades, dos seus objetivos e das suas
relações com os outros (Patterson in Correia, 2004, p. 33). Por outras
palavras, os media funcionam como recursos simbólicos de reforço e até de
construção das identidades (Correia, 2007, p. 132).
Embora existam diferenças entre os diversos veículos mediáticos e os seus
conteúdos, que variam de acordo com o tipo de media e o público para o qual
estão orientados, de uma maneira geral que identidades a representação
noticiosa nos media mainstream reforçam ou constróem sobre a comunidade aqui
estudada?
Uma pesquisa pelo termo Quinta do Mocho no Google Notícias dá pistas iniciais
para responder à questão. Constatamos uma esmagadora predominância do tema
criminalidade, como por exemplo: Jovem esfaqueado nove vezes nas costas na
Quinta do Mocho (Jornal de Notícias, 18-08-2011); Técnicos de saúde nem
querem cá vir (Jornal de Notícias, 25-08-2008) e PSP ferido em desacatos na
Quinta do Mocho teve alta (Diário de Notícias, 06-08-2011). Nestas peças
noticiosas prevalecem enquadramentos frequentemente reduzidos ao que Bennett
(2007, p. 43) chamou de síndrome da autoridade-desordem: as notícias dão conta
de um mundo onde a ordem está ameaçada ou foi reencontrada. A questão central é
se as autoridades são capazes de estabelecer ou restaurar a ordem, em
detrimento de uma contextualização de fundo. Podemos afirmar que estas notícias
divulgam versões e visões preferenciais sobre o que é e como deve ser esta
ordem social a partir de três aspetos fundamentais: a avaliação moral (o que
está dentro ou fora da ordem é julgado em termos de se é bom ou mau, saudável
ou não, normal ou anormal), os procedimentos (metodicamente necessários para a
manutenção ou restabelecimento da ordem) e a hierarquia (a ordem está
diretamente relacionada com atributos como classe, estatuto e posição social)
(Ericson etal., 1991, p. 4).
A partir destes três elementos, o discurso noticioso acerca da Quinta do Mocho
constrói sentidos sobre o bairro que frequentemente o identificam como fora da
ordem, como um alvo necessário de procedimentos policiais e como um lugar onde
vivem pessoas de baixo estatuto social, perigosas ou em vias de o ser. Uma
representação que faz ressoar expressões pejorativas largamente utilizadas
dentro e fora dos media, como bairro problemático, e que se revela
estigmatizante em histórias contadas pelas crianças e jovens desta comunidade,
sujeitos desta investigação.
A palavra estigma é aqui usada para designar um atributo que diferencia e
lança descrédito profundo, dificultando as relações entre o indivíduo
estigmatizado e os indivíduos normais (Goffman, 1975, p. 13). Uma pessoa
estigmatizada tem os seus direitos ameaçados, é alvo de discriminações
consideradas muitas vezes justificáveis e é frequentemente isolada.
Embora Goffman (1975) afirme que os códigos de conduta que promovem o
isolamento das pessoas estigmatizadas estejam em declínio, e que estas tendem a
ter as mesmas ideias que nós sobre identidade (o sentimento de ser uma pessoa
normal, que merece ter chances e respeito), ao mesmo tempo podem perceber que
os outros não as aceitam verdadeiramente e não estão dispostos a relacionar-se
com elas em pé de igualdade.
A sociedade (aqui incluímos os media) estimularia estas pessoas a interiorizar
critérios que as transformam em muito sensíveis ao que os outros veem como a
sua diferença, sentindo não estarem à altura do que deveriam ser. Estas
identidades estigmatizadas têm origem frequente, por exemplo, em questões
relacionadas com a etnicidade e a diversidade cultural. As minorias étnicas
tornaram-se objeto de suspeita, indiferença mais ou menos hostil ou hostilidade
aberta nos países de acolhimento, tornando por vezes mais difícil a manutenção
de um ideal multicultural (Correia, 2004, p. 123).
Esta é uma suspeição que tem presença marcante na representação mediática
dessas minorias, em especial da parcela jovem desta população. Ponte (2006, p.
3) chama a atenção para a definição do outro ' que representa um corpo
estranho às considerações dominantes de identidade por parte de um determinado
grupo ' como estratégia de normalização, de exclusão e inclusão no discurso
noticioso sobre o risco. É essa perceção do outro social (em oposição aos
adultos, leitores de jornais, brancos de classe média) que vai influenciar a
cobertura noticiosa sobre a violência envolvendo jovens a partir de
enquadramentos que não promovem investimentos a longo prazo e que encorajam
campanhas punitivas contra grupos quase sempre pobres e marginalizados
(Hammarberg, 1997, p. 248).
Esta ideia de um mundo dos outros marcado por atributos como pobreza,
violência, desvio e distância (Ponte, 2007) tem dominado com frequência o
discurso noticioso em Portugal sobre grupos minoritários. Os atos delinquentes
de jovens de estratos sociais mais elevados são geralmente representados a
partir de atributos como leviandade, desvios de caráter, coisas da idade ou
meras brincadeiras, enquanto a cor da pele e a origem social de outros jovens
pode estimular a espetacularização exacerbada e apressada (Carvalho etal.,
2009), contribuindo para a condenação moral destes. No mesmo sentido, Azeredo
(2007, p. 205) afirma que o destaque dado à representação de jovens não-brancos
contribui para um ampliação da perceção do seu envolvimento no fenómeno da
delinquência e consequente estigmatização.
A partir de uma análise exploratória sobre o discurso da imprensa portuguesa
acerca dos jovens, Coelho (2009, p. 375) conclui que a representação
predominante assenta no estereótipo do jovem problemático, sendo este tratado a
propósito dos problemas que cria para as autoridades ou enquanto elemento
gerador de problemas em que as autoridades podem ajudar, não sendo reconhecido
o seu direito a expressar-se sobre estas questões. A categoria jovem ganha
uma conotação intrínseca negativa, na medida em que na descrição dos criminosos
é muito frequente a referência ao termo. Por outro lado, omite-se a referência
à idade quando o crime é cometido por um adulto ou por um indivíduo de meia-
idade. Por detrás da atribuição de um papel constrói-se uma identidade,
demarcam-se fronteiras, o que favorece o afastamento do leitor em relação aos
jovens em causa (Coelho, 2009, p. 370).
Aqui podemos identificar uma perceção do outro social (com referência à
juventude, em oposição aos adultos e, também, com conotações de classe social e
etnia, em oposição aos leitores de jornais, brancos de classe média) que
influenciou diretamente, por exemplo, a cobertura noticiosa de um incidente
muito conhecido que ocorreu na Praia de Carcavelos, no feriado do Dia de
Portugal (10 de junho) em 2005. A praia popular em Cascais, frequentada
habitualmente por jovens negros da periferia, foi palco de roubos e desacatos
com a polícia (quatro pessoas foram detidas, três civis e dois polícias ficaram
levemente feridos), num episódio destacado e extensamente coberto pelos media,
imediatamente enquadrado pelo termo arrastão, a partir de imagens (captadas
por amadores) que aparentavam correria e confusão. Violência juvenil,
gangues, bando de jovens, arrastão à brasileira foram expressões
utilizadas nos títulos de jornais de referência, numa imposição do discurso do
medo e de culpabilização do outro simbólico (Ponte, 2006, p. 13).
Rosa (2011) analisa a cobertura do acontecimento como uma onda noticiosa
construída a partir do consenso estabelecido pelas fontes definidoras primárias
(principalmente forças policiais) em torno de um comportamento de desvio por
parte de um grupo étnico estigmatizado. Para o autor, o fenómeno revela uma
assustadora predisposição para a representação leviana destas minorias,
associadas apriori a comportamentos desviantes.
Há muito que a investigação tem verificado que a cobertura de territórios
periféricos das grandes cidades, bairros sociais e comunidades imigrantes
suscita preocupações semelhantes, em caraterizações destes como espaços
exclusivos de violência em peças noticiosas onde a polícia atua como a fonte
definidora primária (Hall etal., 1978, p. 57) dos acontecimentos e onde vozes
alternativas dificilmente encontram espaço significativo.
Numa análise deste fenómeno a partir da realidade brasileira, Ramos e Paiva
(2007, p. 77) apontam diversas razões para a estigmatização de comunidades
pobres no discurso noticioso: a falta de fontes locais legítimas e
independentes, o desconhecimento da realidade local pelos jornalistas que vivem
em bairros de classe média e raras vezes são parte destas minorias, o público-
alvo dos media que vê de forma preconceituosa estas comunidades e a sensação de
insegurança dos profissionais do jornalismo que evitam entrar nestes sítios sem
o acompanhamento policial.
Razões que remetem para as forças preponderantes em cada sociedade, para as
prioridades comerciais dos media, para as limitações das rotinas profissionais
dos jornalistas e para o estatuto minoritário destas populações (Marôpo, 2012).
Neste sentido, prevalecem no jornalismo os enquadramentos que reforçam
identidades estigmatizadas e são mais escassas representações variadas e
complexas de territórios e populações vistos como estranhos (Correia, 2007,
p. 145).
Este discurso noticioso negativo tem impacto significativo na imagem social
destes grupos minoritários e é neste contexto que as crianças e jovens do nosso
estudo constróem as suas identidades. Diferentemente do ponto de vista
mediacêntrico, não estamos aqui a sublinhar a sua vulnerabilidade diante de
notícias sobre temas traumáticos ou a importância do uso das tecnologias para o
desenvolvimento infantil, como critica Buckhingham (2000). Queremos, sim,
conhecer os pontos de vista dos sujeitos investigados, percebendo-os como úteis
para uma reflexão sobre a relação entre discurso noticioso e processos
identitários.
ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS E APROXIMAÇÕES AO TEMA
Recorremos a diversas metodologias qualitativas e participativas para estudar
os significados gerados pelas crianças e jovens sobre as suas realidades,
procurando perceber como o discurso noticioso faz parte das suas negociações de
identidade. As nossas opções metodológicas passam por uma prática de
investigação que visa a produção de conhecimento de forma paralela a uma agenda
de mudança social, utilizando a comunicação como ferramenta primordial. Assim,
investigação, ação e participação caminham lado a lado num processo construído
em grande parte a partir da experiência regular no terreno, que pode ser
identificado como investigação-ação (Greenwood e Levin, 1998).
Aproximadamente 15 crianças e jovens entre os 9 e os 16 anos participaram na
investigação, com diferentes níveis de envolvimento e assiduidade, de acordo
com os seus próprios interesses e vontades. Esta presença não-regular
dificultou uma caracterização mais aprofundada dos participantes, mas alguns
dados observados ajudam a contextualizar de forma mais precisa os sujeitos
deste estudo.
Nas sessões de contacto houve um equilíbrio entre a quantidade de rapazes e
raparigas, no entanto predominavam os participantes do sexo masculino entre os
mais velhos, enquanto as raparigas mais novas eram maioria. Frequentemente as
jovens justificavam as suas ausências devido a obrigações domésticas, numa
clara demonstração de como o género é uma condicionante da participação.
Constatámos também uma maior regularidade da presença dos mais novos, com
idades entre os 9 e os 13 anos, enquanto, acima desta idade, a maior liberdade
de mobilidade dos jovens e a concorrência com outros interesses tornava mais
difícil mantê-los motivados.
Todos os participantes têm família de origem africana ' com predominância de
Cabo Verde, Angola e Guiné Bissau ', mas nasceram em Portugal. Os progenitores
têm na quase totalidade profissões pouco qualificadas, como empregadas de
limpeza ou de mesa, no caso das mães, e trabalhadores da construção civil, no
caso dos pais. Estes frequentemente estão ausentes por terem emigrado para
outros países da Europa ou por terem constituído novas famílias. Várias das
crianças e jovens vivem com famílias alargadas e relataram situações de
desemprego das mães e pais. Insucesso, ou pelo menos dificuldades no percurso
escolar, são as razões principais que os levaram a participar no Projeto
Esperança, ao qual se referem como Spot Mocho.
Os nossos contactos com este grupo aberto começaram em agosto de 2011, com a
intenção de dinamizar um clube de jornalismo onde se discutisse o discurso
noticioso (acerca do bairro e sobre outros temas que envolvessem especialmente
crianças e jovens) e, ao mesmo tempo, se produzissem conteúdos (notícias,
imagens, vídeos ) sobre a realidade local e temáticas de interesse do grupo. A
proposta era utilizar estas metodologias participativas para analisar a relação
entre jornalismo e direitos das crianças e jovens, a partir das suas
perspetivas.
O interesse e preocupação do grupo acerca das notícias que referiam
especificamente o bairro, demonstrados em diversas ocasições, levou-nos a
privilegiar este aspeto na nossa investigação, como demonstra a anotação no
diário de campo transcrita abaixo.
A notícia exibida na SIC numa tarde de agosto falava sobre o
esfaqueamento de um rapaz no bairro e a sala repleta ficou a assistir
quase em silêncio. Até àquele momento, a televisão estava sempre
ligada no Spot Mocho, mas como um acessório ao qual ninguém prestava
muita atenção. De repente as crianças fizeram silêncio, interroperam
suas brincadeiras, e ficaram atentas ao telejornal [anotação do
diário de campo, 18-08-2011].
No fim da notícia, todos dispersaram e voltaram às suas atividades, mas alguns
comentários e situações reforçaram a necessidade de aprofundar a perceção das
crianças sobre as notícias acerca do bairro. Só há notícias más sobre o
bairro, lamentou um dos rapazes (15 anos). Um dos técnicos do projeto também
comentou que sentia um clima de tensão a crescer no bairro e que achava
preocupante o facto de as fontes terem pedido para não serem identificadas na
reportagem: isso não era assim antes. Uma das raparigas (12 anos) contou
discretamente que viu tudo e que sabe quem cometeu o crime noticiado, mas
preferiu não responder à polícia: Minha mãe chega do trabalho tarde e tenho
medo que façam alguma coisa com ela. No dia seguinte, ouvimos na rua uma
pessoa de referência na comunidade dirigir-se a um rapaz: muito mal fazer o
bairro virar notícia por essas vossas asneiras. Já chega, não é?.
Que consequências têm essas representações noticiosas predominantemente
negativas nas construções identitárias destas crianças e jovens? A partir desta
pergunta central realizámos cinco grupos de foco, metodologia utilizada em
estudos de receção, e que permite perceber como as pessoas compreendem o tema
em questão a partir da conversação e interação entre elas (Hansen etal., 1998).
Nestes, debatemos questões como: o que são e para que servem as notícias?
Interessam-se e veem notícias? Lembram-se de notícias sobre a Quinta do Mocho?
Como são essas notícias? Que consequências têm essas notícias para a imagem do
bairro e para as suas vidas? Visionámos e discutimos com as crianças as
notícias sobre o bairro veiculadas na televisão e publicadas em jornais. Para
uma melhor contextualização, debatemos também o que as crianças e jovens gostam
e não gostam no bairro e como veem o mundo hoje.
Com o intuito de superar constrangimentos que encontrámos no terreno '
dificuldade de concentração e de utilização da linguagem escrita por parte das
crianças e jovens e uma visível preferência por atividades práticas que
envolvessem tecnologias de comunicação ' estabelecemos uma parceria com colegas
investigadores e ativistas, no hoje designado Projeto Olhares em Foco, para
complementar os dados obtidos através dos grupos de foco. Idealizado
inicialmente por Daniel Meirinho (2013), o projeto utiliza metodologias
participativas audiovisuais ' especialmente fotografias e vídeos ', que são
apresentadas às crianças ou produzidas por elas próprias como ferramentas de
reflexão e transformação pessoal e social.
Neste âmbito, acompanhámos as crianças na produção do vídeo Quinta do Mocho, o
nosso bairro (um pequeno documentário amador sobre a sua visão da comunidade);
realizámos um workshop de fotografia (ministrado por Daniel Meirinho) que
resultou na exposição Mocho na Mira (com imagens produzidas pelas próprias
crianças); e colaborámos na produção da curta-metragem A Balada do Mocho para
o 3.º Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa (FESTIN), com guião e
realização de Francisco Baptista e das próprias crianças e jovens, que também
atuaram no filme. No mesmo contexto, as crianças e jovens assistiram a diversas
curtas-metragens e participaram em debates sobre os seus direitos e sobre a sua
representação nos produtos comunicacionais que produziram.
Esta metodologia, por outro lado, não deixa de ter uma inspiração etnográfica,
já que utilizámos durante um significativo período de tempo a observação e a
interação informal como ferramentas metodológicas prioritárias. O diário de
campo que escrevemos e a gravação em áudio das atividades foram instrumentos
fundamentais para registar a voz, as ações e os significados construídos pelas
crianças e jovens.
Toda esta vivência/convivência regular permitiu-nos um maior conhecimento da
realidade local e uma construção de relações de proximidade com estas crianças
e jovens, que geraram dados tão frutíferos quanto as atividades sistematizadas
que realizámos. Os discursos e atitudes registados em diário de campo durante o
processo de produção e nos próprios produtos de comunicação revelaram-se uma
rica fonte de informações acerca das questões centrais desta investigação.
Esta investigação-ação também nos forçou a lidar com situações conflituosas.
Por exemplo, como construir uma dinâmica democrática de interação que
possibilite também um ambiente favorável ao debate num grupo com grande
dificuldade de concentração? Outro aspeto a enfrentar foi a falta de uma
estrutura adequada para a realização de muitas das atividades propostas, além
do desafio de compatibilizar, concomitantemente, intervenção e observação
científica, neste processo que Durham (1984) chamaria de participação
observante. Este trabalho suscita-nos ainda questionamentos éticos que temos
dificuldades em ultrapassar: apesar de termos a autorização formal do Projeto
Esperança para a investigação-ação, é muitas vezes inviável conseguir que
todos os pais de crianças que participam ocasionalmente deem também o seu
consentimento formal, bem como conseguir destas próprias crianças o seu
consentimento esclarecido. Outro dilema é como conciliar direitos de
privacidade e participação. Nos nossos artigos preferimos não identificar
diretamente as crianças e jovens e utilizamos nomes fictícios para evitar
constrangimentos de qualquer natureza2. Por outro lado, a sua voz, imagem e
consequentemente identidade são divulgadas nos objetos de comunicação por si
elaborados, enquanto direitos de participação e de liberdade de expressão
assegurados pelos artigos 12.º e 13.º da Convenção sobre os Direitos das
Crianças.
Com base nestes procedimentos metodológicos, analisaremos a construção
identitária entre as crianças e jovens estudados em face de uma representação
noticiosa frequentemente estigmatizante. Como é que esta representação
mediática influencia a construção das identidades individuais e grupais destas
crianças e jovens? Em que medida o estereótipo do bairro e dos jovens
problemáticos divulgado pelos media se interseta com os discursos que os
jovens elaboram sobre si mesmos? Como percebem o papel dos media nos seus
processos de afirmação identitária? São estas as questões que serão debatidas a
partir dos dados recolhidos.
CRIANÇAS, JOVENS E NOTÍCIAS
Pesquisar a ligação entre as construções identitárias destas crianças e jovens
e o discurso noticioso começou por parecer uma tarefa bastante difícil. Reações
de desinteresse nos mais velhos e de repulsa entre os mais novos predominaram
fortemente no primeiro grupo de foco que realizámos para debater os conteúdos
jornalísticos. Não gosto de notícias! foi a resposta mais frequente quando
questionados sobre o tema. Muitos afirmaram ter contacto com as notícias em
momentos de reunião familiar (meu pai vê e eu vejo também, Carla, 12 anos;
vejo telejornal com a minha mãe e com meus dois primos na sala, Guto, 12
anos; vejo telejornal com a minha mãe e com a minha avó na sala, Zito, 12
anos; vejo de noite, quando venho da escola, com todos que moram em casa,
Délia, 10 anos) ou apenas como uma forma de ocupar o tempo livre quando não têm
nada melhor para fazer (é o que sobra para ver, Helena, 12 anos; às vezes
Quando acabam as telenovelas , Pedro, 15 anos), numa aparente indiferença
apontada também por autores como Buckingham (2000).
No entanto, esta afirmação maioritária de que não se interessam ou que não
gostam das notícias foi sendo contradita à medida que aprofundávamos o debate
nos diversos grupos de foco e que colocávamos as questões de diferentes formas.
A hipótese de não terem acesso à informação por meio da televisão, rádio,
jornal ou internet, por exemplo, provocou reações unânimes de forte desagrado:
Eu ia morrer! (rapaz, não identificado); não era humana! (Helena, 12 anos);
a vida era uma porcaria! Era uma prisão! (Carla, 12 anos); a vida não era
normal, não ouvir as notícias (Ana, 11 anos); eu achava que esse lugar era
mal, claro. Pior do que numa prisão! (André, 15 anos).
Temas que são frequentemente noticiados são percebidos como repetitivos e
enfadonhos: mortes, guerras e crises (Há notícias que não me interessam:
morreram pessoas ou notícias sobre a crise e a guerra. Por exemplo: desde março
que passam notícias da Líbia. Léo, 14 anos). Por outro lado, a sua curiosidade
sobre o mundo recai justamente sobre os países e temas destacados repetidamente
nas notícias. Quando tentámos conversar sobre os países de origem das suas
famílias a partir da exibição de um grande mapa do globo, os questionamentos e
comentários das crianças e jovens insistentemente referiam-se a países
envolvidos em conflitos que estavam no centro da atenção mediática: Líbia,
Afeganistão e Iraque, especialmente.
As crianças e jovens demonstram familiaridade com o discurso noticioso. As
notícias são definidas como informação (Léo, 14 anos); coisas recentes
(Pedro, 15 anos); coisas que foram descobertas agora (Carla, 12 anos);
mensagens para a população: um alerta (Léo, 14 anos); servem para
entretenimento (rapaz não identificado); servem para saber sobre o mundo
(Helena, 12 anos); servem para prevenir (João, 12 anos).
Esta familiaridade estende-se também ao processo de produção das notícias. Se a
pergunta Como é que os jornalistas decidem o que vai aparecer ou não nas
notícias? motivou inicialmente respostas mais ligeiras (com base nos
acontecimentos, Léo, 14 anos; as que afetam mais o mundo, rapaz não
identificado), o decorrer dos debates nos grupos de foco demonstrou um
conhecimento significativo sobre as rotinas e constrangimentos do jornalismo.
Por exemplo, a pergunta porque algumas guerras aparecem mais do que outras?
suscitou reflexões críticas sobre os interesses económicos e as relações de
poder que existem por trás do que é noticiado, para além de um conjunto de
comentários que revelam uma perceção de vários critérios substantivos de
valores-notícia3 de seleção (novidade, relevância, notabilidade e inesperado) e
de pelo menos um critério contextual dos valores-notícia de seleção (a
disponibilidade) (Traquina, 2002): Porque estas acontecem há anos e não vale a
pena falar (rapariga); Algumas são mais importantes Morreu mais gente
(Carla, 12 anos); Importância do sítio (rapaz); Gravidade (rapariga); Tem
mais interesses económicos (rapaz); Porque pode ser perigoso para os
jornalistas irem lá (André, 15 anos); Talvez porque se calhar não conseguem
ir lá filmar (Pedro, 15 anos).
Além disso, no decorrer dos debates passámos a identificar o que podemos chamar
de interesse seletivo pelas notícias. Temas de ciência que envolvem novas
descobertas e conquista do espaço promoveram animados debates, com os mais
velhos (rapazes e raparigas) a querer demonstrar que estavam informados e a
tentar utilizar o seu conhecimento sobre as notícias como uma prova de
maturidade e de superioridade intelectual. O género marca as diferenças de
preferência pelos dois outros temas que causam maior interesse nas notícias,
com os rapazes a referir o desporto (sendo os únicos que afirmam procurar
notícias em jornais impressos, nomeadamente nos diários especializados em
futebol) e as raparigas que revelam especial interesse por notícias de
celebridades (procuradas principalmente em sitesespecializados na internet).
A partir destas constatações, que revelam uma proximidade muito maior das
crianças e jovens com as notícias do que previmos inicialmente, focámo-nos nos
processos de construção identitária destas crianças e jovens face,
nomeadamente, aos discursos frequentemente estigmatizantes dos mediasobre a
comunidade onde vivem.
IDENTIDADES E REPRESENTAÇÕES NOTICIOSAS
Quem se lembra de notícias sobre o bairro?. A pergunta inicial do terceiro
grupo de foco que realizámos suscitou muito interesse e respostas em catadupa.
Todos falavam ao mesmo tempo e praticamente a mesma coisa: são notícias más!.
Após alguns momentos a tentar organizar a ansiedade das crianças e jovens,
surgem respostas mais específicas sobre a sua memória das notícias acerca do
bairro, principalmente por parte dos rapazes mais velhos: Mataram um jovem
(André, 15 anos), um jovem agrediu (Valter, 16 anos), um jovem foi agredido
e levou facadas (Pedro, 15 anos), os jovens são problemáticos na Quinta do
Mocho (Jorge, 14 anos). Os mais novos e as raparigas complementam estas
respostas numa percepção unânime da relação entre jovens e violência como o
tema de destaque no discurso noticioso acerca do bairro.
A violência é também a preocupação absolutamente prioritária quando
questionados sobre o que não gostam no bairro. Queixas generalizadas sobre o
problema marcaram diversos momentos do trabalho de campo, em descrições da
comunidade como um território de comportamentos desviantes, com referências a
tiros, violação de crianças, agressões, tiroteios, criminosos, discussões e
bandidos. Os participantes da investigação mostraram-se ansiosos para contar os
episódios violentos que presenciaram, muitos dos quais transformados em
conteúdo noticioso.
Neste sentido, a vivência da violência no bairro e a sua representação
noticiosa (percebida como a principal causadora da má imagem externa da
comunidade) marcam fortemente as crianças e jovens, contribuindo para
construções identitárias que classificamos, para efeito de análise, em três
categorias ' estas não são estanques e co-existem frequentemente nas crianças e
jovens do estudo.
A IDENTIDADE DESCONFIADA
Se, por um lado, a vivência e a visibilidade mediática da violência contribuem
para uma perceção do bairro como um gueto violento, por outro, as crianças e
jovens ressaltam relações de amizade e experiências gratificantes associadas ao
lazer e à aprendizagem que reforçam um forte sentimento de pertença local.
Nesta perspetiva, o bairro é também visto como uma extensão do lar, um espaço
de liberdade fundamental para estas crianças e jovens, que têm permissão da
família para aí circular, e onde o comércio local promove um sentimento de vida
comunitária. Por outro lado, são escassas as suas possibilidades de vivenciar
experiências além das fronteiras da comunidade, devido à falta de tempo e/ou
recursos financeiros dos pais.
Fazer parte e ter raízes bem vincadas nesta comunidade, aliás, parece ser
também algo valorizado pelas crianças como parte da sua identidade. Os mais
velhos têm orgulho em afirmar que se lembram da antiga Quinta do Mocho e,
embora tivessem poucos anos de idade quando foram realojados, gostam de
alimentar diante dos mais novos um sentimento de nostalgia pelo anterior sítio
onde viviam, descrito como um tempo de felicidade idealizada, sem referências,
por exemplo, às más condições de habitação de então.
Quando, a partir dos nossos encontros semanais, surgiu a ideia de fazermos um
vídeo e uma exposição fotográfica sobre o bairro, as crianças rejeitaram com
veemência a possibilidade de utilizarem o nome oficial Urbanização Terraços da
Ponte (designação que engloba os edifícios vizinhos que ficam além da fronteira
do bairro de realojamento onde habitam) e nos dois casos escolheram títulos que
remetiam para o antigo bairro: Quinta do Mocho ' O nosso bairro (vídeo) e
Mocho na Mira (exposição fotográfica).
Esta identidade de grupo fortemente ancorada na comunidade como um lugar de
pertença e o desconforto causado pela imagem pública negativa do bairro
fortalecem um sentimento de desconfiança quanto a outros grupos externos,
especialmente em relação à polícia e aos media, identificados como os
principais propagadores desta má imagem.
As forças policiais, por exemplo, são acusadas em diversos depoimentos de serem
abusivas e causadoras de incómodos diversos. Aqui prevalece um sentimento de
que nós, moradores do bairro sofremos as consequências de ações violentas e/
ou excessivas da polícia.
Eu acho que a polícia é bom vir de vez em quando ver como é que está
a situação, mas todos os dias já incomoda. Eu acho que todos os dias
é um incómodo para a vizinhança [Helena, 12 anos].
Em relação aos media,identificamos uma perceção das notícias como responsáveis
demasiado frequentes por uma representação falsamente ampliada dos problemas
que acontecem no bairro. Os outros (algumas vezes identificados pelos mais
velhos como jornalistas) não gostam de nós! Em diversos momentos, as
narrativas deixavam clara esta perceção. Embora não consigam identificar as
razões, os jornalistas são vistos como tendo uma deliberada intenção de falar
mal sobre a comunidade:
O que vocês sentem quando veem essas notícias? [Investigadora]
Que não gostam do bairro [Léo, 14 anos]
Porquê? [Investigadora]
Estão a dizer que no bairro há uma facada por semana! [Léo, 14
anos]
Dizem que toda semana é tiroteio! [Carla, 12 anos]
Esta construção identitária é marcada fortemente pela perceção da comunidade
como uma extensão do lar, pela desconfiança em relação aos outros e por um
sentimento de vitimização. A diferença (em relação aos outros) é construída
em torno da violência na comunidade, cuja representação é tida como distorcida
(exagerada) e imposta a partir do exterior pelos media. Estes dão, assim,
origem à referida atitude generalizada de desconfiança em relação ao outro,
provocando reações de indignação.
A IDENTIDADE ANGUSTIADA
Nesta segunda construção identitária, que assinalámos preponderantemente entre
os mais novos, a ameaça é percebida como causada por um elemento interno à
própria comunidade, uma espécie de inimigo no meio de nós.
As narrativas são marcadas por um sentimento de medo da violência, a qual seria
causada por uma minoria de habitantes do bairro identificados como bandidos,
fugitivos da polícia e miúdos que assaltam as pessoas.
As pessoas que não vivem no nosso bairro gostam sempre de falar que o
nosso bairro é que é má influência, os professores falam na escola
que nós devemos sair daqui desse bairro e eles não sabem que isso não
somos nós que fazemos, são outras pessoas [Helena, 12 anos].
O discurso noticioso visto nos telejornais diários reforça o sentimento de
angústia e medo vivido em situações quotidianas conflituosas. Por meio da
representação de acontecimentos violentos bastante próximos das crianças e
jovens, acontecidos algumas vezes na sua presença, as notícias promovem
sentimentos de tristeza e temor.
Do que vocês se lembram quando veem essas notícias?
[Investigadora].
Do que aconteceu [Mário, 10 anos].
Tu disseste que assististe também, o que sentiste?
[Investigadora].
Medo [João, 12 anos].
E o que é que tu achas quando vês essas notícias na televisão?
[Investigadora].
Acho tristeza, acho que é triste [Sílvia, 9 anos].
Nesta construção identitária prevalece a perceção da comunidade como um gueto
de violência, a partir de ameaças surgidas internamente. O discurso noticioso
funciona como um reforço do sentimento de insegurança.
A IDENTIDADE ESTIGMATIZADA
A última e mais forte construção identitária refere-se às consequências
estigmatizantes que as notícias, na perceção das crianças e jovens, potenciam.
A maioria fez questão de se pronunciar sobre o problema, referido diversas
vezes nos grupos de foco e em outros momentos informais da nossa presença.
As notícias são consideradas ' a par da presença dos bófias e dos miúdos que
assaltam ' como uma das causas centrais que levam as pessoas de fora a se
esquivarem quando convidadas ou solicitadas a ir ao bairro.
O Pedro estava a dizer porque não gosta (das notícias negativas
sobre o bairro) [Investigadora].
Porque há muita gente, familiares que não gostam de vir pra
aqui. Pensam que vão entrar e vão logo ser assaltados. Os meus
familiares não vêm cá por causa disso [Pedro, 15 anos].
As pessoas de fora já não têm coragem de entrar aqui! [Helena,
12 anos].
Os taxistas não querem entrar aqui! [vários]
Quando vamos fazer compras, chamamos o táxi e às vezes nem
aparece Ouvem só Quinta do Mocho e dizem: está bem, está bem
[Carla, 12 anos].
Nestas narrativas estão presentes os elementos que Goffman (1975) identificou
como caracterizadores de estigma: descrédito, dificuldade de relação entre
estigmatizados e normais, isolamento, discriminação justificada, direitos
ameaçados.
As reações a estas experiências variam entre uma perceção bastante clara com
respostas frontais ao estigma que enfrentam e uma tendência para minimizá-lo e
não o levar a sério, ou ainda uma atitude resignada.
E as pessoas comentam convosco sobre essas notícias?
[Investigadora].
Alguns dizem na escola: moras na Quinta do Mocho? Vou lá pôr o
pé e levo um tiro na cabeça e sou assaltado! [Carla, 12 anos].
Quem é que diz isso? [Pedro, 15 anos].
Depois eu digo assim, já lá foste para ver? [Carla, 12 anos].
Brincam na escola com isso. Dizem a brincar: não vou na Quinta
do Mocho com medo de ser assaltado [Pedro].
A mim não dizem a brincar! [Carla].
Se fosse num outro bairro não faziam essas brincadeiras! [André,
15 anos].
Acho que as pessoas vão logo falar que fomos nós que fizemos
[Mário, 10 anos].
Esta construção identitária é marcada pelo desafio em lidar com a suspeição
externa. Os media são vistos com uma das principais causas do problema, já que
destacam amplamente a violência que ocorre no bairro. Este discurso noticioso
motiva frequentemente reações externas negativas em relação à comunidade, com
as quais as crianças e jovens precisam lidar na sua vida quotidiana.
PISTAS PARA UMA INTERVENÇÃO
O enfrentamento dos desafios identitários debatidos acima está intrinsecamente
ligado às possibilidades de desenvolvimento social que a linguagem e a
comunicação oferecem (Esteves, 2011). Neste sentido, destacamos cinco
experiências na nossa investigação-ação que apontam caminhos capazes de
estimular as crianças e jovens a confrontarem estas imagens negativas:
a) Nos debates sobre as notícias, as crianças e jovens por diversas
vezes mostraram-se críticos e reflexivos acerca dos processos de
agendamento e enquadramento do discurso noticioso. Os mais velhos, em
especial, parecem perceber que frequentemente os critérios de
noticiabilidade dos media privilegiam representações estigmatizantes
de grupos minoritários e questionam isso.
Aqui e no Brasil, nas favelas, quando vemos na Record é só crime. A
minha mãe foi lá e disse-me que não era assim [Jorge, 14 anos].
O depoimento do rapaz gerou um intenso debate sobre as coisas boas que há no
Brasil e uma constatação da semelhança com o que acontece na representação
mediática do bairro.
b) Apesar de grandes dificuldades de concentração e de uma
participação mais comprometida, as crianças e jovens mostram-se
orgulhosos pelos objetos de comunicação que conseguiram produzir
(vídeo, exposição de fotografias, entrevistas), percebem-nos como uma
oportunidade para gerarem novos discursos sobre a Quinta do Mocho e
parecem sentir-se agentes de transformações positivas na comunidade.
Se a gente trabalhar e terminar o nosso vídeo muita gente vai ver
boas notícias [Pedro, 15 anos].
Acho que nosso bairro tá a melhorar pouco a pouco [Helena, 12
anos].
Porquê? [Investigadora].
Porque nós aqui do Spot em geral, as crianças do bairro, tamos a
melhorar o nosso bairro pouco a pouco [Helena, 12 anos].
c) Interessam-se por outras crianças e jovens que lutaram de forma
assumida pelos seus direitos e por uma vida melhor. Especialmente em
três atividades demonstraram empatia e pareceram expressar um sentido
de responsabilidade social: quando assistiram ao vídeo Nascidos em
Bordéis (um documentário que mostra crianças de Calcutá, na Índia,
enquanto aprendem a fotografar) estavam excecionalmente concentrados
e participativos no debate que se sucedeu; quando viram um vídeo
documentário sobre jovens brasileiros (que também participaram do
Projeto Olhares em Foco) de uma comunidade rural, mostraram-se
preocupados e comovidos com o facto de estes não terem acesso à
internet e viverem de forma tão isolada. Por último, receberam com
motivação a proposta para preparar e apresentar um powerpoint sobre
crianças e jovens que foram notícia porque lutaram pelo que
acreditavam ser os seus direitos.
d) Se as crianças reagem de diferentes maneiras à suspeição e à
estigmatização que por vezes sofrem de pessoas de fora, parecem ao
mesmo tempo valorizar o interesse e atenção que estas lhes dispensam,
aproveitando estas situações para construir sentidos mais positivos
sobre as suas identidades. Helena (12 anos) respondeu rapidamente que
não se interessava por Cabo Verde (o país de origem dos seus pais)
quando soube que o jornalista de viagens e escritor de livros
infantis que iam entrevistar tinha gostado muito do país. Mas durante
a entrevista com João Ferreira Oliveira, que gravámos em vídeo, a sua
reação e a das outras raparigas (que nessa atividade eram a maioria)
foi já bem diferente. Demonstraram orgulho quando o entrevistado
afirmou que Cabo Verde foi um dos lugares que mais gostou de visitar,
colocaram diversas perguntas sobre o país e fizeram questão de lhe
ensinar palavras e expressões em crioulo.
e) Por último, se as notícias negativas sobre o bairro são vistas
como potencializadoras das situações estigmatizantes que vivenciam, o
enquadramento positivo parece, por outro lado, funcionar como uma
legitimidade externa para autorrepresentações mais positivas. À
semelhança do que acontece com as pessoas de fora que referimos no
item anterior, estas peças noticiosas geram interesse e parecem
fortalecer representações positivas da comunidade e de instituições
que usualmente são vistas com suspeição, como a polícia. Uma
reportagem intitulada Dia de Festa na Quinta do Mocho, exibida
originalmente na RTP1, em 28 de setembro de 2008, sobre um convívio
promovido pela autarquia de Loures, suscitou entusiasmo e muitos
comentários sobre o evento. O desafio parece ser então estimular
iniciativas positivas da própria comunidade capazes de se integrar
nos critérios de noticiabilidade (Traquina, 2002, p. 173) dos
media. Se isso não parece ser tão fácil no registo noticioso factual,
quotidiano, é pelo menos mais passível de acontecer em espaços
alternativos, que também parecem ser valorizados pelas crianças.
Numa reportagem sobre a exposição Mocho na Mira, o programa Rumos
da RTP África ouviu as crianças sobre a experiência de fotografar o
bairro. Estas disputaram espaço para serem entrevistadas e
valorizaram bastante terem sido alvo desta atenção mediática.
CONCLUSÕES
Apesar do aparente desinteresse demonstrado inicialmente pelas notícias, a
nossa investigação permite-nos afirmar que as crianças e jovens são audiência
frequente de telejornais em momentos de reunião familiar ao fim do dia ou em
momentos de ócio. Vimos também que procuram informação de acordo com os seus
interesses (principalmente sobre desporto, no caso dos rapazes, e sobre
celebridades, no caso das raparigas), que possuem conhecimentos sobre o
processo de produção noticiosa e que utilizam informações sobre factos
noticiados para demonstrar sabedoria e maturidade perante os mais novos. Além
disso, as suas curiosidade e preocupações sobre o mundo recaem fundamentalmente
sobre temas noticiados, numa demonstração da capacidade de agenda setting
(McCombs, 2006) dos media sobre as crianças e, especialmente, sobre os jovens
deste estudo.
Enquanto sujeitos sociais, as crianças e jovens reagem de diferentes maneiras,
de acordo com as suas aptidões e capacidades, às representações do discurso
noticioso. No entanto, podemos concluir que a representação noticiosa do
bairro, predominantemente negativa e percebida como a principal causadora da
má imagem externa da comunidade, marca significativamente as construções
identitárias do grupo estudado. Mesmo que prefiram outros conteúdos mediáticos
em detrimento das notícias, estas crianças e jovens estão frequentemente
expostos ao discurso noticioso, diretamente nas suas casas e indiretamente
quando são confrontados na escola ou em outros ambientes com as informações
divulgadas pelos telejornais ou por outros meios jornalísticos.
A visibilidade mediática do bairro onde vivem, fortemente ancorada em atributos
negativos como o desvio e a violência, contribui para realçar o sentimento de
medo e angústia, especialmente entre os mais novos, que revivem através dos
media episódios violentos a que assistiram pessoalmente ou que vivenciaram de
forma próxima. Contribui também para fortalecer, especialmente entre os mais
velhos, uma identidade local bastante vincada, um sentimento de desconfiança
em relação aos media e a outros atores sociais externos à comunidade. Além
disso, une a todos num desafio comum nos seus processos identitários:
confrontar uma imagem estigmatizada, onde nós temos sempre de enfrentar a
suspeição e transpor inúmeras barreiras para tentarmos estabelecer uma relação
de igualdade com os outros e sermos reconhecidos como pessoas normais,
dignas de respeito.
Com base nas pistas apontadas pela nossa investigação-ação, este reconhecimento
identitário pode ser estimulado utilizando a comunicação em três vias: Os media
e os seus conteúdos como objeto de reflexão junto das crianças e jovens; a
produção de objetos comunicacionais pelas crianças e jovens, para serem
divulgados em diversos suportes (vídeos, fotografias, textos etc); o
fornecimento de subsídios de informação (Schlesinger, 1990, p. 70) para
estimular os media a divulgarem enquadramentos positivos sobre estes
territórios e populações, reconhecendo-as como vozes credíveis no debate
social. Caminhos percorridos neste trabalho e que pretendemos aprofundar em
futura investigação-ação.