A mobilização estudantil no processo de radicalização política durante o
Marcelismo
INTRODUÇÃO
O 25 de abril de 1974, um golpe de estado militar, derrubou em menos de vinte e
quatro horas o Estado Novo, o regime autoritário fundado por António Salazar
havia mais de quarenta anos. A nível internacional, este acontecimento
inaugurava aquela que seria definida como a terceira vaga do processo de
democratização (Huntington, 1991 e Schmitter, 1999). Todavia, desde logo a
transição democrática portuguesa parecia caracterizada por elementos de rutura
bem mais significativos do que os sucessivos processos de democratização
espanhol e grego (Pinto, 2006). Tal rutura emergia da própria forma que a
mudança do regime assumiu, através de um golpe militar, e foi continuada e
prolongada pela grande mobilização social que logo ocorreu após o golpe. A
crise do Estado e a mobilização social que a acompanharam deram lugar a um
período chamado Processo Revolucionário Em Curso (PREC, 1974-1975). Estes
desenvolvimentos do golpe militar foram considerados desde logo imprevistos,
sobretudo porque o começo de um processo de transição revolucionária parecia
contradizer os cânones considerados habituais no caso de intervenção militar na
vida política (Rezola, 2010).
Por outro lado, os autores que se dedicaram ao estudo deste fenómeno têm
geralmente sustentado que se tratou de algo anómalo relativamente aos
tendencialmente baixos níveis de mobilização da população portuguesa, quer
durante a ditadura quer depois da consolidação democrática (Cruz, 2000). Esta
efervescência considerada improvisada é um dos elementos que mais têm
interpelado os estudiosos que analisam este período. Na diversidade das
interpretações, o elemento comum é representado pelo enfoque posto na crise do
Estado, acompanhada por uma profunda perda de legitimidade dos seus órgãos, que
provocou um vazio institucional (Schmitter, 1999), com uma abertura das
oportunidades políticas logo percebida pelos atores sociais (Durán Muñoz, 2000
e Palacios Cerezales, 2003).
Este conjunto de análises foi de grande importância sobretudo por dois motivos.
Por um lado, porque permitiu estudar a democratização portuguesa, de forma
comparada, através dos instrumentos que a ciência política tem vindo a fornecer
para a análise das transições políticas (a assim chamada transitologia). Por
outro lado porque, no caso dos estudos de Durán Muñoz e sobretudo de Palacios
Cerezales, abriu-se o caminho para a aplicação, na análise dos fenómenos de
mobilização social em Portugal, das ferramentas teórico-metodológicas da
sociologia dos movimentos sociais. No caso do trabalho de Palacios Cerezales,
estas diferentes perspetivas foram integradas por uma frutuosa abertura à
sociologia política, sobretudo de matriz francesa, que permitiu a aplicação da
teoria das crises políticas de Michel Dobry ao caso do processo revolucionário
português, com resultados imprescindíveis para todas as investigações
seguintes.
Se em geral os estudos citados sublinham os aspetos de rutura que a queda do
regime veiculou ' tanto ao nível de processos sociais como políticos ' neste
artigo tentamos seguir, com enfoque no movimento estudantil, as dinâmicas de
mais longo prazo que, a nosso ver, caracterizaram as mobilizações sociais
portuguesas do período pós-revolucionário e que podem ajudar a explicar as suas
origens. Com isso não pretendemos subestimar a rutura que o 25 de abril
efetivamente introduziu e os profundos efeitos imprevistos que a sucessiva
crise de Estado determinou. O objetivo será mais de compreender qual era a
matéria-prima na qual este evento se inseriu, claramente modificando muitos
dos seus aspetos e provocando efeitos inesperados. De facto, vários estudos
recentes sobre o período pré-revolucionário têm vindo a iluminar um panorama
que contradiz a visão de um país adormecido até ao momento da revolução. Pelo
contrário, os investigadores que têm estudado o período marcelista (Cardina,
2008, 2010 e 2011; Accornero, 2009 e 2010) têm reparado numa agitação cada vez
mais intensa e cada vez mais plural, e, sob certos aspetos, cada vez menos
escondida e menos subterrânea.
Já a partir dos últimos anos do Estado Novo em Portugal, sobretudo em Lisboa,
houve uma mobilização social crescente que viu, por um lado, uma pluralização
dos atores, por outro, um processo de intensa radicalização política. Estas
mobilizações contribuíram decisivamente, na nossa visão, para criar as
condições para uma transição de tipo revolucionário. Como evidencia Villaverde
Cabral, os militares que concretizaram o golpe de estado que derrubou a
ditadura não foram a última instância da mudança social, antes pelo contrário,
é a mudança social que deve explicar, embora de formas mediatizadas, as novas
atitudes dos militares (Cabral, 1983, p. 130). O autor evidencia também
elementos de continuidade na própria abertura das oportunidades políticas pós-
revolucionária, interpretada como o êxito de um processo mais longínquo:
Sabemos hoje que a intensa mobilização que fertilizou o confronto partidário
correspondeu, basicamente, ao aproveitamento de uma estrutura de oportunidades
proporcionada pela prolongada crise do Estado português, a qual se deveu, por
seu turno, à divisão das forças armadas ante a solução a dar à questão
colonial, motivo primeiro do golpe militar e causa da nossa revolução (Cabral,
2008, p. 115).
Esta constatação está de acordo com uma releitura do conceito de estrutura de
oportunidades políticas (EOP). Como sugere Olivier Fillieule, as oportunidades
políticas não são stockspreexistentes à ação e estruturalmente insensíveis,
mas atualizam-se continuamente através da relação com os movimentos
(Fillieule, 1997, p. 97). Assim, será oportuno olhar não apenas para a forma
como os atores estatais definem o meio em que os indivíduos agem, mas também
para o modo como os grupos contestatários contribuem para modificar as
condições em que os indivíduos agem (Fillieule, 2005, p. 213).
A MOBILIZAÇÃO PRÉ-REVOLUCIONÁRIA E O PAPEL DO MOVIMENTO ESTUDANTIL
Em Portugal, a partir de 1968, a mobilização tinha assumido as características
de um ciclo de protesto transversal aos mais variados setores sociais,
sobretudo graças à geral oposição à guerra colonial. A guerra, começada em
1961, para além de chegar a absorver, em 1973, quase 25% das despesas do Estado
e contar, ainda em 1973, com 140 000 efetivos mobilizados nas colónias1,
impondo o serviço militar obrigatório de dois até quatro anos, representava uma
espada de Dâmocles para os jovens portugueses de todas as classes sociais. Como
Nancy Bermeo sublinha: as guerras eram longas e dispendiosas e os seus
profundos efeitos sobre a vida de pessoas comuns tinham grandes consequências.
Pelo início dos anos 1970, era raro encontrar uma família portuguesa em que não
houvesse alguém a combater na África (Bermeo, 2007, p. 391).
A oposição à guerra tornou-se uma das principais temáticasdo movimento
estudantil, sobretudo a partir do início dos anos 70 (Lopes Cordeiro, 2011, p.
31; Cardina, 2011, p. 42) quando os estudantes chegaram a representar uma das
mais perigosas ameaças para a sobrevivência do regime durante os seus últimos
anos.2 Até há algum tempo, os estudos sobre o movimento estudantil consideravam
a crise de 1969 como o episódio mais saliente no último período do regime.
Entretanto, análises mais recentes têm chamado a atenção para o fenómeno de
intensa mobilização e radicalização política que caracterizou o meio
universitário, sobretudo a partir do início dos anos 70, sob a influência das
novas organizações de extrema-esquerda, e que antecipou muitas das
reivindicações e do próprio repertório de contestação na base do consequente
processo revolucionário (Cardina, 2008 e 2011; Accornero, 2009).
Através de um processo de difusão, a mobilização e politização dos estudantes
estendeu-se aos outros setores sociais, sobretudo ao setor fundamental das
Forças Armadas, de onde surgiu, por iniciativa dos oficiais intermédios, o
movimento que derrubou o regime. Como veremos ao longo deste artigo, a
mobilização passou dos estudantes aos assistentes e professores universitários,
muitos dos quais tinham sido, por sua vez, ativistas. Além disso, as temáticas
sociais e políticas introduzidas pelo movimento estudantil contribuíram para
criar uma intolerância cada vez maior, em variados setores sociais, em relação
às instituições autoritárias. Se é difícil demonstrar que o movimento
estudantil fosse quantitativamente o mais extenso, é no entanto possível
afirmar que ele foi, no final do regime, o mais perigoso para a sua
sobrevivência, como demonstra o facto de os estudantes terem chegado a
representar, na vigília da revolução, a categoria social mais atingida pela
repressão, sendo estudantes quase a metade dos presos políticos de 1973 e dos
primeiros quatro meses de 1974. O ano de 1973 e os primeiros meses de 1974
representam também o momento, desde 1956, em que se contam em absoluto mais
estudantes presos pela polícia política (Polícia Internacional e de Defesa do
Estado/Direcção -Geral de Segurança, PIDE/DGS).
Para termos uma imagem mais concreta do que estas proporções significam, vamos
apresentar alguns gráficos sobre os fluxos de prisões políticas entre 1956 e
1974. No primeiro_gráfico, extraímos do total das prisões políticas3 entre 1956
e 1974 o grupo das prisões de estudantes. O número total de aprisionamentos
para o período considerado é de 7357, enquanto o número de prisões de
estudantes é de 936, o que significa que, no conjunto dos aprisionamentos entre
1956 e 1974, a componente estudantil representa quase 13%, com uma média de
cerca de 52 prisões de estudantes por ano. É também fundamental salientar que,
em 1974, até ao 25 de abril, ou seja, num período de apenas quatro meses, já
tinham sido efetuadas 43 prisões de estudantes, ou seja, mais do dobro da média
anual. Temos assim duas curvas, uma relativa a todos os aprisionamentos,
excluindo os de estudantes, a outra relativa apenas às prisões de estudantes. A
primeira consideração é que as duas curvas coincidem em muitos pontos e têm um
percurso semelhante. Entretanto, a curva que representa as prisões de
estudantes atinge o seu pico em 1973 quando estes, contando quase metade de
todas as prisões, representam a categoria social mais atingida pela repressão
policial. Por outro lado, a descida da curva em 1974 não deve ser enganadora,
pois deriva exclusivamente do facto de que com o 25 de abril a PIDE/DGS deixa
de existir.
Para melhor percebermos o aumento da percentagem das prisões de estudantes
sobre o número total de prisões, vamos apresentar em seguida dois gráficos
(Gráfico_2) que apresentam esta proporção em 1962 e 1974. Em 1962 temos um
total de 1045 prisões políticas, sendo apenas 12%, isto é, 124 prisões, de
estudantes. Mesmo tratando-se de um ano que também foi caracterizado por fortes
agitações sociais, quer operárias, quer estudantis, emerge todavia uma
proporção de prisões estudantis que, com respeito ao conjunto das prisões,
continua menor do que a que encontramos nos últimos anos do regime. Em 1974
temos, até ao 25 de abril, 117 prisões, das quais 43 são de estudantes, isto é,
37%. E não se trata de um dado casual, que pode ser explicado pelo curto
período considerado, pois 1973 apresenta percentagens muito parecidas: 39% das
prisões (187) são de estudantes, sobre um total de 476 prisões. Logo depois
apresentamos, no mesmo Gráfico_2, a percentagem de prisões políticas de
estudantes e de não estudantes para todo o período considerado.
Ocorre por outro lado sublinhar que muitas destas prisões de estudantes nos
últimos anos do regime eram realizadas durante as cada vez mais frequentes
manifestações e ocupações universitárias. De facto, o aumento das prisões
estudantis foi em parte determinado pela mudança e radicalização do repertório
de contestação, que levou à adoção de formas de protesto mais duras. Entre
estas ações, lembramos aqui as demonstrações relâmpago ' frequentemente
acompanhadas por destruição de carros e montras ' irrupção nas salas
universitárias e interrupção das aulas, ocupação de alguns espaços da
universidade. Esta situação evidencia o nível de radicalização atingido pela
contestação estudantil e o processo de distanciamento do regime por parte das
futuras elites do país.
De certa forma, podemos olhar para o setor universitário como uma incubadora da
radicalização política, tanto ao nível de ideologias e conteúdos do protesto,
como ao nível das formas adotadas para a contestação. Este processo, começado
já nos anos 60, intensifica-se a partir do início dos anos 70 e, pelo que
emerge da documentação ' imprensa oficial, documentos policiais e, sobretudo,
na própria imprensa estudantil ' conhece uma aceleração importante a partir de
finais de 1972. Se queremos encontrar um momento simbólico no processo de
escalada do conflito entre estudantes e autoridade, podemos reconhecê-lo no
assassinato pela PIDE/DGS, a 12 de outubro de 1972, de José Ribeiro dos Santos,
estudante de Direito ligado ao Movimento Reorganizativo do Partido do
Proletariado (MRPP), durante uma reunião no Instituto Superior de Ciências
Económicas e Financeiras (ISCEF). O funeral de Ribeiro dos Santos, celebrado
dois dias depois da sua morte, foi ocasião de duros choques entre estudantes e
forças da ordem, com numerosas detenções, e a memória desta morte representou
um significativo fator de mobilização e de radicalização para os anos
seguintes. A adoção de estratégias de contestação mais duras representava a
resposta, na propaganda estudantil mais radical e ligada aos grupos da nova
esquerda, à violência das autoridades e era por esta justificada.4
Por outro lado, constata-se também que os primeiros anos da década de 70,
caracterizados por esta radicalização da luta estudantil, vêem um aumento
notável da participação dos estudantes mais novos, muitos ainda frequentando a
escola secundária. Esta consideração é confirmada pelos dados relativos aos
estudantes presos (Gráfico_3): em 1973 temos 24% de estudantes presos com menos
de 19 anos, enquanto os estudantes da mesma faixa de idade em 1962
representavam apenas 7%.
AS OPORTUNIDADES POLÍTICAS NO FINAL DO REGIME
Para além de ser o principal inimigo do regime nas suas fases finais, o setor
universitário desenvolveu também um papel de verdadeira incubadora da
radicalização política. Como lembra Rui Grácio: O ano lectivo de 1968-69
iniciava-se com sinais de vitalidade e alguma radicalização do movimento
associativo [ ] factos a que não são estranhos a descompressão política
controlada dos primeiros tempos do caetanismo e a sugestão indutora da
contestação estudantil em França (Maio de 68) e na RFA (Grácio, 1989, p. 250).
De facto, a partir dos finais dos anos 60, verificou-se em Portugal um processo
de intensa politização do meio académico, que se estendeu sucessivamente a
outros setores sociais. Aumentavam ao mesmo tempo as referências e a procura
de contactos por parte dos estudantes para com os outros movimentos,
nomeadamente o movimento operário. As referências ao movimento operário, para
além de serem resultado da penetração no país de uma ambiência radical-juvenil
na qual a figura do operário tinha lugar de destaque, surgiam também como
resposta a uma intensificação das lutas nas fábricas que, iniciadas em 1968,
continuaram durante todos os últimos anos do regime, com uma radicalização
depois da revolução.
Também por efeito dos grupos ligados à nova esquerda, pela maior parte surgidos
em volta do movimento estudantil ou com ele relacionados, o movimento operário
apresentava uma inovação de repertórios, como comportamentos de baixa produção,
até ao próprio boicote e à introdução de novas reivindicações, como os salários
mínimos e os aumentos salariais iguais para todos. Estas lutas operárias eram
acompanhadas por vagas de protesto que envolviam outros setores de trabalho,
como o da pesca, o dos empregados do setor terciário (sobretudo bancários e
empregados de seguros) e o dos serviços, sobretudo dos transportes. Para
favorecer esta agitação contribuíram vários fatores. Antes de mais, a fase de
expansão económica em que se encontrava o país, que em 1968 atingiu o pleno
emprego (Barreto, 2000), determinava um maior poder contratual dos
trabalhadores e, entretanto, as relativas aberturas sindicais introduzidas pelo
novo Governo de Caetano (como a descriminalização da greve) em 1969 reduziam
sensivelmente os custos da mobilização (Patriarca, 2004).
O próprio marcelismo pode ser considerado como um ulterior momento de
abertura das oportunidades políticas. As aberturas não acabavam nas reformas
sindicais, mas atingiam também outros setores. Por um lado, foi permitida uma
relativa pluralização dos atores políticos admitidos na área de governo, com o
ingresso no partido único, a União Nacional, e depois no Parlamento, de
expoentes daquela que será a chamada ala liberal. Além disso, empreendeu-se a
reforma da Constituição, acabada em 1972 e em que foi introduzida alguma
limitação no poder da polícia política. A sucessiva reforma do Código Penal ia
na mesma direção, ao conferir maiores direitos aos imputados e, sobretudo, ao
eliminar definitivamente as medidas de segurança, isto é, normas especiais que
permitiam prolongar de forma indeterminada o tempo de detenção por crimes
políticos, muito para além dos limites estabelecidos pela pena.5
Do ponto de vista da instrução, muito importante para o nosso estudo, em 1970
foi nomeado ministro da Educação Nacional o jovem Físico Veiga Simão.6 Na
opinião de Rui Grácio:
O Prof. Veiga Simão [ ] parecia vocacionado para a renovação, ou
para a evolução, como preferiam dizer, segundo Caetano, os
liberais. Não pertencia ao partido único; organizara de raiz e
gerira com dinamismo uma universidade, longe do torvelinho e da
intriga metropolitana; assumia um discurso político-educacional
aparentemente ajustado a uma necessidade de mudança. Como reitor da
Universidade de Lourenço Marques, na oração de abertura do ano
lectivo de 1969-1970 faz o diagnóstico da crise da Universidade
portuguesa [ ] oração esmaltada de citações [ ] também de Camus e de
Marcuse [Grácio, 1989, p. 252].
Veiga Simão, doutorado em Física pela Universidade de Cambridge, elaborou e
começou a implementar uma reforma da escola particularmente modernizadora.
Embora as medidas previstas pela reforma tivessem características relativamente
progressistas, nos meios da oposição considerava-se que, sem uma mudança de
regime, este novo curso da política educativa não teria trazido nenhuma
inovação estrutural. Os estudantes e os opositores políticos mais radicais
afirmavam também que esta reforma era nada mais que uma resposta às exigências
dos grupos económicos e que servia apenas para pôr o conhecimento ao serviço do
mercado. Por outro lado, como constata ainda Rui Grácio, se no seu discurso de
reitor, Veiga Simão tinha incluído o tema da gestão universitária participada
(Grácio, 1989, p. 252), este ponto desaparece do seu discurso enquanto
ministro, embora ele tenha feito apelo à participação da opinião pública, com a
qual esperava um diálogo aberto e franco (ibid., p. 253), uma abertura que
parecia de facto mais uma procura de legitimidade do que uma oferta de
participação efetiva. De facto, como evidencia António Teodoro, a reforma
educacional de Veiga Simão não ia além, nos seus traços principais, da
estratégia inicial de Marcelo Caetano, resumida na fórmula primeiroo
desenvolvimento, depois a democracia, como o próprio Veiga Simão reconhece
vinte anos depois (Teodoro, 2001, p. 274).
Além disso, se as aberturas que a reforma viabilizava satisfaziam algumas das
reivindicações que havia anos constituíam o núcleo do protesto estudantil, ela
favorecia por outro lado a emergência de temáticas mais radicais, que iam na
direção de uma reestruturação geral da sociedade e do sistema político. Não
pretendemos com isto dizer que a nova política educativa coincidia exatamente
com as expectativas estudantis, mas sim que, para além de haver inegavelmente
alguns pontos que iam na mesma direção e que, uma vez satisfeitos, contribuíram
para um efeito de aumento da aposta das reivindicações, as temáticas
contribuíram para estimular um debate em todos os níveis da sociedade, assim
que as questões de uma certa forma escaparam da área institucional, para
atingirem a esfera da sociedade civil e aí assumirem formas e conteúdos
diferentes: Fora do regime, ou nas suas margens, mas de qualquer modo em
postura de oposição, os desígnios do desenvolvimento aparecem articulados a
propostas de democratização do ensino e do sistema político (Grácio, 1989, p.
256).
O debate em torno da reforma contribuiu portanto para a politização dos
ambientes académicos e, em geral, da sociedade portuguesa. Uma situação
parecida é evidenciada por Sidney Tarrow com respeito ao movimento estudantil
italiano a partir de 1967, que se inseriu num debate aberto pelas elites sobre
a reforma universitária:
As reivindicações e as ações dos estudantes não nasciam do vazio;
eram o efeito de um movimento mais duradouro e difuso que tinha
nascido nas duas principais subculturas políticas do país [católica e
comunista, n.d.a.] nos inícios dos anos 60 e se tinha desenvolvido a
partir dos seus conflitos internos e dos seus interesses políticos
[ ]. O problema da reforma da escola alimentou uma das mais difíceis
controvérsias da história política da Itália pós-guerra, mas não
prevalentemente por causa do movimento dos estudantes. Ela, de facto,
dividiu os partidos, as associações, os professores, os assistentes,
os pais [Tarrow, 1990, pp. 133-134].
No caso português, podemos encontrar uma tendência parecida: as temáticas
debatidas ao nível das elites atravessaram a área do governo para se estenderem
à dos desafiadores, neste caso, o movimento estudantil.7 Esta dinâmica, assim
como as outras que temos vindo a descrever, sugere que observemos a estrutura
das oportunidades políticas e movimentos como elementos reciprocamente
constituintes que se modificam um com o outro através de uma interação
contínua. Por outro lado, é significativo o facto de que um processo deste tipo
se desenvolvesse num contexto autoritário. Neste sentido, parece muito
pertinente a constatação de Olivier Fillieule (2005, p. 209) de que os regimes
não-democráticos atraem a atenção sobre a fraqueza de uma definição de
estrutura das oportunidades políticas baseada numa clara distinção entre Estado
e sociedade civil .
O EFEITO DA GUERRA COLONIAL SOBRE A MOBILIZAÇÃO
A guerra colonial, começada em 1961, amplificava todas estas dinâmicas. Para
além de absorver quase metade do orçamento do Estado, envolvendo uma força
militar de 140 000 homens no território africano, o serviço militar obrigatório
de 2 até 4 anos representava uma espada de Dâmocles sobre o futuro de jovens de
todas as classes sociais. O conflito fazia com que fossem encaminhadas para as
Forças Armadas as energias mais dinâmicas do país, com graves consequências
sobre o seu desenvolvimento. Por outro lado, juntamente com o aumento da
emigração juvenil (Pereira, 2007), também em grande parte consequência da
guerra, verificava-se uma situação de constante falta de mão-de-obra.
Uma das principais consequências da guerra no plano da ação conflitual foi no
entanto o amplo movimento de resistência à incorporação (draft resistance), ele
também muito incentivado através de redes estudantis, que apoiavam o exílio
quer de refratários, quer de desertores. Na base da escolha pela resistência à
incorporaçãoestavam motivações diferentesde ordem política, moral, económica e
pessoal,sendo ao mesmo tempo muito difícil traçar uma nítidalinha de demarcação
entre umas e outras. De qualquer forma, a resistência ao recrutamento atingiu
em Portugal percentagens muito significativas. Segundo os dados publicados pelo
Estado-Maior português em 1988, em 1961, o primeiro ano de guerra, 11% dos
jovens chamados a prestar serviço militar não se apresentaram, em 1962 esta
percentagem subiu para 12,8%, em 1963 para 15,6%, em 1964 para 16,5%, entre
1965 e 1968 para 19% e, entre 1970 e 1974, estabilizou em cerca de 20%.
Por um lado, portanto, a guerra determinava a adoção de uma ação como a
resistência à incorporação ' ainda que nem todos os refratários tivessem uma
motivação política ' por outro favorecia abertamente uma outra ação contra o
regime, isto é, o boicote a partir do interior do exército. Se a resistência à
incorporação e a deserção constituíam elementos fundamentais do repertório dos
grupos da esquerda radical com base estudantil, estas ações eram contrariadas
por parte do Partido Comunista Português (PCP), cujos militantes eram
incentivados a entrar nas Forças Armadas, cumprir o serviço militar e
desenvolver uma obra de propaganda e boicote a partir do interior. Num
relatório de 1970, o Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército resumia assim as
mudanças no repertório de ação do PCP no que dizia respeito à guerra:
Imediatamente após o início da subversão em Angola, em 1961, o PCP,
como organização revolucionária portuguesa mais importante, difundiu
directivas concretas convidando todos os militares à deserção [ ]
Posteriormente, o PCP reviu esta atitude inicial, passando então a
advogar apenas a deserção em massa, como forma de enfraquecimento das
Forças Armadas e como processo de descrédito da luta do Ultramar. Aos
seus militantes e simpatizantes o PCP começou a ordenar que se
alistassem e que, uma vez nas Forças Armadas, começassem
discretamente a movimentar acções de contestação e revolta, a partir
de situações de má vontade dos militares, criadas por injustiças e
excessos. E mais, começou a ordenar que os verdadeiros comunistas
escolhessem posições de comando de tropas, que fossem para o
Ultramar, que combatessem e que, uma vez regressados, mantivessem
ligações com os seus antigos companheiros de armas para o seu
eventual aproveitamento em acções de rebelião.8
Além disso, a partir de 1969, com a nova normativa sobre a incorporação militar
adotada pelo Decreto 49 0999, o qual estabelecia o recrutamento forçado e
antecipado dos ativistas estudantis, esta prática entrista difundia-se
inevitavelmente também entre os estudantes pertencentes aos grupos mais
radicais. Estes, entretanto, de forma diferente dos estudantes ligados ao PCP,
ativavam-se desde o interior do Exército, sobretudo para incentivar e favorecer
as deserções. A própria polícia política assinalava um aumento de agitação nos
quartéis e nas escolas militares, como a de Mafra ' através de ações como
deserções, roubos de material militar, propaganda subversiva ' em coincidência
com a incorporação militar dos principais ativistas da crise académica de 1969.
Assim, se a incorporação dos ativistas estudantis tinha contribuído em parte
para acalmar o meio universitário, esta solução criava uma situação perigosa no
seio das próprias Forças Armadas e, sobretudo, na instituição para a qual foram
encaminhados estes estudantes: a escola de Infantaria de Mafra. Mesmo em Mafra,
como assinalava a PIDE/DGS, começou a ser encetada uma acção revolucionária
que em poucos meses permitiu a fuga em direção a França de oito estudantes que
estavam a desenvolver o serviço militar. A chefia desta operação foi atribuída
a Celso Cruzeiro, considerado o activista mais perigoso que entrou nesta
incorporação.10
O percurso de Celso Cruzeiro é paradigmático do processo de difusão da
mobilização dos estudantes às Forças Armadas, favorecida pela incorporação de
muitos universitários ativistas. Celso Cruzeiro tinha sido um dos principais
dirigentes estudantis da crise académica de Coimbra de 1969 e um dos primeiros
a serem atingidos pela nova legislação para o serviço militar, que determinou a
sua entrada na Escola de Infantaria de Mafra. Aí, como vimos, levou a cabo
várias ações de sabotagem e ativou uma ponte com França que permitiu a deserção
de alguns estudantes; até que, em 1973, uma vez transferido para a frente na
Guiné, participou na criação dos primeiros núcleos do Movimento das Forças
Armadas (MFA) (Cruzeiro, 1989).
Para além da nova legislação para a incorporação antecipada dos estudantes
dissidentes, o serviço militar obrigatório em si constituía um excecional canal
de socialização política e difusão de ideais subversivos nas fileiras das
Forças Armadas. Todos os estudantes, dissidentes ou não, eram obrigados à
incorporação e apenas uma minoria conseguiam escapar a isso. O testemunho de
muitos ex-ativistas concorda em considerar o período do serviço militar como
uma ulterior possibilidade de politização e difusão da mobilização contra o
regime. Fernando Martinho, por exemplo, na altura estudante de Medicina e
dirigente académico de Coimbra próximo do PCP, passou pela Escola de Mafra, na
qual, afirma ele: era 1970 e estavam aí pessoas que vinham da crise de 1969 e
havia claros sinais da sua passagem (Cruzeiro e Bebiano, 2006, p. 90).
Transferido para a frente angolana, entrou sucessivamente em contacto com
outros estudantes politizados, como Ernesto Melo Antunes ' entre os fundadores
do Movimento dos Capitães, futuro MFA, e um dos principais estrategas do golpe
de 1974 ' o qual o pôs em contacto com o ambiente da oposição de Luanda
(Cruzeiro e Bebiano, 2006, p. 92).
Ações subversivas realizadas no interior das Forças Armadas por parte dos
estudantes que se encontravam a cumprir o serviço militar continuaram até à
queda do regime. Em fevereiro de 1973 celebrava-se um dos últimos e também mais
significativos processos políticos contra estudantes acusados de ações de
sabotagem militar. Os estudantes julgados, todos pertencentes ao grupo
marxista-leninista ligado à publicação O Comunista,eram 5, de idadesentre os 23
e os 26 anos e, como sublinhava a acusação, todos milicianos do exército.
Foram acusados de favorecer a deserção e as penas atribuídas foram exemplares,
com detenções que iam desde os 8 até aos 12 anos e com a aplicação do regime de
segurança especial destinado aos delinquentes de difícil correção.11
As Forças Armadas eram obviamente o setor mais sensível relativamente à questão
da guerra e aquele em que de forma mais forte se difundiu a mobilização
estudantil. Por outro lado, a resistência à incorporaçãoe emigração
juvenil,juntamente com a extensão do conflito, provocavam uma constante falta
de homens no Exército e, com efeito, um profundo mal-estar no setor mais
diretamente envolvido, o dos oficiais intermédios, os quais muitas vezes eram
ex-estudantes, ou pelos menos próximos, por idade e extração social, ao meio
estudantil. Foram mesmo os oficiais intermédios a criar, em 1973, as primeiras
células do MFA, autor da revolução e principal ator político dos primeiros
momentos da transição democrática portuguesa.
OUTRAS TRAJETÓRIAS DE DIFUSÃO DA MOBILIZAÇÃO
Um outro setor-chave para a sobrevivência do regime, sobretudo porque funcional
à reprodução das elites políticas, mas ao mesmo tempo particularmente sensível
à difusão da mobilização estudantil, era o dos docentes universitários
(assistentes e professores). No início dos anos 70, a PIDE/DGS denunciava um
significativo afastamento do corpo docente relativamente aos superiores
objetivos da nação e motivava esta situação com o facto de muitos assistentes
e professores terem participado, muitas vezes com papéis de primeiro plano, no
movimento estudantil. Considerada a dimensão do fenómeno, era difícil por parte
do regime expulsar estes docentes do ensino, mas eles eram atentamente
controlados. Os dados mais certos relativamente a este fenómeno, elaborados
pela própria polícia política em 1973, dizem respeito à Faculdade de Direito de
Coimbra. É necessário sublinhar que se tratava da instituição em que se tinham
normalmente coagulado as teorizações jurídico-políticas mais conservadoras,
como a oposição contra o progressismo da Primeira República, que se
institucionalizou depois na ditadura salazarista.
Além de ser um sinal da difusão da politização do movimento estudantil a um
setor das elites do país, este fenómeno atingia portanto o regime na sua
própria auto-justificação e reprodução jurídica. Os dados relativos aos
docentes da Faculdade de Direito de Coimbra são os seguintes: 14 elementos de
direita, 12 de esquerda e 18 sem uma colocação política clara. Se a proporção
em si parece desde logo significativa, sobretudo num regime autoritário, a
polícia política evidenciava também que os elementos (professores e
assistentes) de esquerda eram mais ativos do que os de direita em promover as
suas ideias políticas, também entre os estudantes. O processo de politização
era portanto circular: estudantes ativos tornavam-se docentes ativos e
difundiam os ideais subversivos a novos estudantes.
Particularmente evidente é também a difusão de repertórios e temáticasdo
movimento estudantil aos movimentos urbanos que se desenvolveram logo depois da
revolução, sobretudo os de moradores. Em maio de 1973, menos de um ano antes do
25 de abril, um grupo de estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa ligados
ao MRPP organizou a primeira manifestação em Lisboa no bairro da Boavista,
deslocando carros para o meio das ruas para impedir o trânsito e destruindo com
pedras os vidros do quartel da PSP (Polícia de Segurança Pública). O
exponencial crescimento do bairro da Boavista, começado nos anos 60 como efeito
do processo de urbanização e imigração das zonas rurais do país, não tinha sido
objeto de qualquer plano de regulamentação e a construção e distribuição de
casas sociais era insuficiente e demorada, criando condições de profunda
degradação social e urbana (Pinto, 2007). A realização por parte dos estudantes
de manifestações de denúncia destas condições, diretamente nos espaços urbanos
em que se verificavam, era um ulterior sinal do processo de politização do
movimento estudantil que, saído das universidades, começava a participar
abertamente nas problemáticas sociais. Esta ação no bairro da Boavista
antecipava também de forma direta um dos primeiros e mais amplos movimentos do
período revolucionário, ou seja, o das ocupações das casas por parte dos
moradores dos bairros de lata. Este movimento começou mesmo na Boavista poucos
dias depois da revolução, a 2 de maio de 1974, quando 270 apartamentos sociais
ainda em fase de construção foram ocupados pelas famílias residentes nos
bairros de lata. Ramos Pinto evidencia a ligação direta entre as mobilizações
estudantis dos finais do Estado Novo e os movimentos urbanos de ocupação das
casas que caracterizaram o PREC. Este autor refere uma história oral relativa à
Comissão dos Moradores da Quinta dasFonsecas,segundo a qual: poucos dias
depois do golpe de estado, um grupo de mulheres locais decidiu ir falar com
alguns estudantes da vizinha Faculdade de Direito (Pinto, 2007, pp. 91-92),
com o fim de receber sugestões para a organização das ocupações das casas. A
mesma história oral evidencia que muitas destas mulheres da Comissão eram
empregadas no Hospital de Santa Maria junto da Cidade Universitária e sede da
Faculdade de Medicina, no qual muitas vezes se tinham realizado as assembleias
plenárias do movimento estudantil. Elas assim foram ter com os estudantes da
Faculdade de direito muito provavelmente inspiradas pelo facto de que, antes do
25 de abril, todas as vezes ' e foram muitas ' que as autoridades fechavam a
universidade por causa dos conflitos estudantis, a luta entre estudantes e
polícia deslocava-se para a frente da cantina e do Hospital de Santa Maria
(Pinto, 2007, pp. 91-92).
CONCLUSÕES
Nestas páginas tentámos demonstrar que o processo revolucionário que
caracterizou a transição portuguesa foi a última fase de um ciclo de protesto
mais longínquo que começou nos finais dos anos 60 e atravessou, sendo por este
estimulado, todo o marcelismo. Vários atores da transição portuguesa,
institucionais ou não, surgiram ou delimitaram de forma mais definida o próprio
campo político durante o último período do Estado Novo, quando a abertura
marcelista ' ainda que, sob alguns aspetos, superficial e breve ' aumentou as
possibilidades de participação política. Neste ciclo de protesto, como
procurámos evidenciar, os estudantes, também enquanto futuras elites do país,
tiveram um papel essencial, quer na escalada da radicalização, quer na difusão
da politização.
Como referimos na introdução, não pretendemos afirmar que a crise de Estado não
tenha tido efeitos nos processos de mobilização social que caracterizaram a
transição portuguesa. Mas sim que esta mesma crise de Estado possa ser lida à
luz das mobilizações anteriores. Os ciclos de protestos são por definição
processos, pelo que as dinâmicas que os compõem não permanecem iguais desde o
início até ao fim, mudando antes através da relação entre os atores dos
movimentos e entre estes e as instituições. Assim, se a abertura de
oportunidades políticas veiculada pelo golpe de Estado foi com certeza um dos
elementos fundamentais na base do processo revolucionário e da crise do Estado,
ao mesmo tempo parece-nos importante a observação de Sidney Tarrow, que afirma
que quando as oportunidades dão a possibilidade aos desafiadores de se
mobilizarem, são os recursos culturais, organizacionais e materiais deles que
constituem os fundamentos dos movimentos sociais (Tarrow, 1998, p. 141).
Igualmente, Doug McAdam salienta que:
As mudanças num sistema de políticas institucionalizadas pôde apenas
fornecer um desafio potencial para a ação coletiva. São os meios à
disposição do grupo no momento em que as oportunidades se apresentam
que condicionam a capacidade deste grupo de explorar a nova abertura.
Na ausência de tais meios, o grupo pôde perder a ocasião de agir no
momento em que as oportunidades políticas o permitiriam [McAdam,
1999, p. IX].
O objetivo deste estudo foi assim de evidenciar quais foram estes recursos, ou
meios ' culturais, organizacionais e materiais ' que se puderam ativar no
momento em que, com a crise de Estado, as oportunidades políticas se abriram,
criando as possibilidades para uma excecional mobilização social, utilizando
como enfoque privilegiado para esta análise um específico ator social que teve
grande relevância na oposição dos anos finais do regime: o movimento
estudantil.