Resgates sociológicos do corpo: Esboço de um percurso conceptual
INTRODUÇÃO
O lugar relevante que o corpo tomou na sociedade contemporânea (Ferreira, 2008)
tem-no transformado num objeto analítico fértil nas ciências sociais, no âmbito
de diferentes tradições disciplinares e teóricas. A sua emergência na pesquisa
e reflexão social tem sido de tal forma arrebatadora que há quem tenha
diagnosticado uma espécie de histeria:
Em vários lugares, por vários nomes, e por muitas imagens, o corpo
tomou recentemente uma presença quase obsessiva na cultura
contemporânea, nomeadamente nos seus debates intelectuais. [ ]
Espetacularizado de todas as maneiras pela cultura dominante dos
media ao longo das últimas décadas, o corpo subiu pois aos palcos
mais recentes da cultura erudita [Cruz, 2000, p. 363].
Resgatado como potencial objeto de estudo da antropologia, psicologia,
filosofia, história, estética, linguística, semiótica, economia, ciência
política, etc., o corpo viu-se simultaneamente livre das suas supostas
determinações biológicas, e desfigurado nas suas múltiplas e profusas
figurações teóricas. Aquilo que à partida parecia constituir um conjunto
estável de atributos, relativamente familiares e evidentes, torna-se uma
realidade parcelar onde, como apontou Merleau-Ponty, nenhuma das suas
representações corresponde exatamente ao objeto representado (1993 [1962], pp.
230-231). Ou, como coloca Paulo Cunha e Silva, uma realidade fractal sobre a
qual só se pode falar fractalmente, isto é, através de um processo que celebre
a sua diversidade, mantendo a unidade. Falar do corpo é falar dos seus
fragmentos, sem receio de se ser insuficiente ou incompleto (1999, p. 25).
Neste esforço pluridisciplinar1 que se faz sentir, o corpo tem deixado de ser
equacionado enquanto realidade una e homogénea para ser colocado num lugar de
interseção de múltiplos discursos (sociais, económicos, políticos, culturais,
artísticos, etc.), cada um com uma variedade de pontos de vista, modelos de
inteligibilidade ou elaborações conceptuais possíveis. Nesta perspetiva, e
apesar de se revestir de uma natureza física muito objetiva, o corpo humano
passou a constituir um objeto científico heteróclito na sua
multidimensionalidade e polissemia.
Daí o interesse científico da sociologia, a par de outras ciências sociais e
humanas, em aprofundar o saber sobre o corpo através do resgate conceptual da
sua dimensão social: por um lado, por que as aproximações empíricas a esta
realidade até há pouco tempo escasseavam na área das ciências sociais2,
sobretudo da sociologia; por outro, por que sempre se tratou de uma realidade
historicamente monopolizada pelas ciências da vida ' elas próprias, como vários
autores chamam a atenção (Le Breton, 1993; Leder, 1992; Turner, 1992; Williams,
2003), em grande medida produtoras de saberes responsáveis por muitos dos
aprioris naturalistas e essencialistas que regem as vivências corporais, dado o
grau de generalização e de legitimidade social auferido pelo discurso biomédico
relativamente a outros discursos sobre o corpo. Não obstante a autoridade que
tem enquanto saber oficial, o saber biomédico acaba por constituir uma
abordagem limitada da realidade corporal, na medida em que ao reificar o corpo
como entidade autónoma, com fronteiras, estrutura interna e comportamentos
autopoiéticos', perde o que de mais fascinante o corpo oferece, a sua
incessante comunicabilidade, a sua abertura permanente ao meio (Cunha e Silva,
1999, p. 24).
Situado na fronteira entre as ciências sociais e naturais, o corpo foi-se então
tornando um objeto de estudo apaixonante para as ciências sociais. Na
antropologia já o era há muito, desde a sua formação enquanto disciplina
(Burkitt, 1999; Shilling, 1993, 1997a, Turner, 1995 [1991], 1997). Isto porque
desde cedo o corpo do Outro funcionou como demarcador principal da alteridade,
enquanto sustentáculo para a visibilidade da diferença e respetiva confirmação
social, tendo as correntes da antropologia cultural ancoradas no darwnismo
eleito o corpo humano como objeto fundamental de análise (Asad, 1997; Dias,
1996; Lock, 1993). Mas também porque à antropologia sempre interessou discutir
as relações entre natureza/cultura e corpo/mente, tradicionalmente pensadas em
termos dicotómicos no Ocidente. A partir de perspetivas etnográficas sobre
formas de viver o corpo em contextos não ocidentais, muitas abordagens
antropológicas vieram não apenas relativizar e integrar as dualidades
historicamente enraizadas nas sociedades ocidentais3, como também desmistificar
a representação moderna de um corpo universal, fazendo surgir os corpos
particulares na grande diversidade das suas expressões, usos e significados.
A suposta independência entre biologia e cultura foi, durante muito tempo, uma
das razões pelas quais a sociologia descuidou o corpo como objeto de estudo.
Profundamente influenciadas pelo legado cartesiano do dualismo mente/corpo,
traduzido na dicotomia entre a dimensão sociocultural e a dimensão biológica do
ser humano, as correntes clássicas e dominantes da sociologia remeteram este
segundo pólo para fora da esfera legítima de investigação e produção
sociológica. Os sujeitos da sociologia tendiam a surgir desencarnados, e a
prioridade era dada ao pensamento de um ator racional, às suas propriedades de
consciência e razão, supostamente desconectadas do corpo (Shilling, 1993,
1997b, 2001; Shilling e Mellor, 1996).
Por outro lado, em reação às várias cambiantes teóricas do reducionismo
biologicista, e por forma a evitar os riscos epistemológicos de naturalização
dos comportamentos sociais que tinham disposições genéticas por fundamento
explicativo, a sociologia evitava o corpo humano enquanto objeto de estudo,
centrando-se no ator social como criador de signos e significados. É neste
sentido, também, que Guibentif atribui o esquecimento do corpo por parte da
sociologia clássica ao facto de esta privilegiar tradicionalmente o simbólico
em relação ao material:
Talvez possa interpretar-se como uma reacção a este esquecimento do
material o recente surto de interesse, no campo das ciências
sociais, pelo que pode valer como material par excellence [ ]: o
corpo. Reacção favorecida pelo aparecimento de novas procuras sociais
de discursos sobre o corpo, oriundas do campo de diversas políticas
sociais (nomeadamente saúde, prevenção da violência), bem como de
outras práticas institucionalizadas ligadas ao corpo (desporto,
tempos livres, modas vestimentárias e cosméticas, etc. [Guibentif,
1991, p. 78].
Por último, o haver relegado para segundo plano o indivíduo a favor das
estruturas e instituições coletivas, é também um argumento válido para explicar
a negligência sociológica com o corpo (Turner, 1996 [1984], 1995 [1991], 1997),
uma realidade de difícil abstração coletiva, na medida em que é habitualmente
pensada em concreto, isto é, sempre relacionada a alguém (Guibentif, 1991, p.
19). É neste sentido que Le Breton assevera nunca se ter visto um corpo: vêem-
se homens, mulheres. Não se vêem corpos (1997 [1992], p. 25). Só como
organismo é que o corpo existiria enquanto entidade abstrata relativamente à
pessoa, sendo o organismo, porém, produto de uma experiência sábia socialmente
salvaguardada às ciências da vida e da saúde.
Neste contexto, percebe-se por que foram poucos os olhares da sociologia,
sobretudo entre as suas visões mais estruturalistas, que trouxeram para o
centro da análise teórica e pesquisa empírica aquele objeto de estudo. Como
afirma João Teixeira Lopes, salvo raras excepções, o corpo constituía uma
espécie de anexo das correntes mais poderosas da sociologia e mesmo da
antropologia (2004, p. 122). Só de forma tangencial, implícita, marginal,
através de zonas de abertura proporcionadas pela investigação em campos como a
saúde, o desporto, a religião, o poder, a tecnologia, o consumo, a moda, o
género e a sexualidade, por exemplo, a sociologia reencontrava casualmente o
corpo (Featherstone e Turner, 1995). Uma sociologia em pontilhado, como lhe
chamou Le Breton (1997 [1992], p. 18), que se formava a partir de diversos
tópicos analíticos.
Esta negligência sociológica tem vindo, todavia, a ser corrigida nos anos mais
recentes. O corpo já não é o ausente da reflexão social, como há cerca de três
décadas denunciavam Bryan Turner ou Jean-Michel Berthelot, afiança João
Teixeira Lopes (2004, p. 122), chamando a atenção para o facto de, desde os
anos 80, se ter assistido a uma ampla expansão do interesse sociológico pelo
corpo. Esse movimento traduziu-se num crescente manancial de produtos
académicos sobre o assunto, de natureza mais teórica ou empírica, sob a forma
de livros, artigos, antologias, conferências internacionais, números especiais
de revistas consagradas, ou até na criação de novas revistas especificamente
focadas no corpo nas suas mais diversas dimensões, práticas e domínios
sociais4. Daí para a frente, de objeto marginal, o corpo foi obtendo a sua
centralidade no discurso contemporâneo da sociologia, chegando a ser tentada a
sua autonomia específica enquanto área especializada desta ciência social. Ora,
o objetivo primeiro deste artigo é, justamente, resgatar o desenvolvimento
conceptual desse percurso.
POR UMA SOCIOLOGIA DA CORPOREIDADE: O RESGATE DA SOCIALIDADE DO CORPO
Face à proliferação de discursos sociológicos sobre o corpo, começaram a
esboçar-se esforços de autonomização e legitimação de uma sociologia do corpo
como área de estudo específica, na tentativa de produzir uma teoria capaz de
dar conta da diversidade de abordagens sobre a realidade corporal. Elegendo
explicitamente o corpo como objeto de estudo, um conjunto de autores preocupou-
se em constituir e legitimar uma área com autonomia relativa no campo da
sociologia, invocando o paradoxo entre a omnipresença do corpo na vida social
com o seu silêncio analítico na vida sociológica. É possível uma sociologia do
corpo? (Drulhe, 1982); Uma sociologia do corpo faz sentido? (Berthelot,
1982). Por quê uma sociologia do corpo? (Berthelot, 1983, p. 120),
interrogavam-se, discutindo os estatutos epistemológico, teórico e metodológico
dessa nova disciplina sociológica, os eventuais domínios a investigar, bem
como os riscos próprios a essa empresa, considerando a fugacidade, diversidade
e ambiguidade do objeto que pretendiam abarcar, não obstante a sua aparente
ubiquidade, tangibilidade e objetividade.
Nomearam como seu objeto de estudo não o organismo humano, mas a corporeidade,
enquanto conjunto de manifestações simbólicas da existência corporal,
devidamente contextualizado no tempo histórico e no espaço social. Diz-nos
Berthelot que se entendermos por corporeidade o conjunto de traços concretos
do corpo como ser social, diremos que uma dada sociedade define simultaneamente
um certo espaço de corporeidade (ou seja, um número de possíveis corporais,
formado por regras de conveniência na apresentação e na gestão do corpo) e uma
certa corporeidade modal(ou seja, um conjunto determinado de traços
valorizados) (Berthelot, 1983, p. 128), consubstanciada em figuras e
estruturas de corporeidade próprias a determinadas épocas, modeladas pelos
contextos sociais e culturais em que emergem (Berthelot, 1998).
No resgate da socialidade do corpo, para empregar uma expressão de Maffesoli
(1990a, 1990b, 1996), a abordagem sociológica distingue-se assim por uma
aproximação que coloca o organismo humano in situ, ou seja, em ato e em
contexto, um organismo que age e interage, que apreende e modela o espaço que
ocupa, modulado quer na sua configuração estática (morfologia e fisiologia),
quer nas suas propriedades dinâmicas (movimentos, gestos, mímica), a partir da
sua inserção numa dada realidade histórica, da sua imersão num dado sistema
social, político-ideológico, económico e simbólico situado no tempo e no
espaço. Michel Certeau resume um dos pressupostos básicos na aproximação
histórica e sociológica da corporeidade:
O que faz o corpo é uma simbolização socio-histórica característica
de cada grupo. [ ] Numa palavra, cada sociedade tem o seu corpo,
tal como tem a sua língua, constituída por um sistema mais ou menos
sofisticado de escolhas entre um inúmero de possibilidades fonéticas,
lexicais e sintáticas. Tal como uma língua, este corpo é submetido a
uma gestão social. Ele obedece a regras, a rituais de interação, a
teatralizações quotidianas. Tem igualmente os seus excessos,
relativos a essas regras [Certeau, 1982, pp. 179-180].5
A aproximação ao corpo por via da corporeidade vem, portanto, focalizá-lo
enquanto realidade simbólica socio-historicamente localizada e construída,
mutável de época para época, de formação social para formação social, nas
imagens que o definem, nos sistemas de conhecimento que procuram elucidar a sua
natureza, nos ritos que o colocam socialmente em cena, nos desempenhos que
cumpre e que lhe são exigidos, no conjunto de valores e representações, de
fantasmas e imaginários, de mitos e tabus, de normas e preconceitos, de
tradições e ritualidades, de convenções e disciplinas, de fantasias e desejos,
de discursos e utopias que sobre ele recaem e o densificam simbolicamente.
A corporeidade acabou por assumir o estatuto de axioma teórico-epistemológico
transversal às várias sociologias do corpo que proliferaram no decurso dos
anos 80, em resposta à problematização crescente do organismo humano na vida
social. Axioma esse que vai fundar o que Shilling (1993) vem a designar como
paradigma construtivista na abordagem sociológica do corpo6, por oposição
aoparadigma naturalista emanado não só pela sociobiologia, mas também por
algumas correntes do feminismo. No paradigma construtivista, o corpo é tomado
não como uma identidade biológica natural, universal e pré-social, mas enquanto
uma realidade culturalmente construída, um produto social e simbólico
poderosamente modelado por forças históricas e processos discursivos.
O corpo nunca está naturalmente no mundo, chama a atenção Le Breton (1982, p.
223). Em última instância, o construtivismo mais radical nem sequer admite o
valor e a ação de uma natureza do corpo: o corpo é uma construção simbólica,
não uma realidade em si, na medida em que as representações do corpo e os
saberes que o atingem são tributários de um estado social, de uma visão do
mundo, e no interior desta última de uma definição de pessoa. [ ] O corpo não é
uma natureza. Nem sequer existe (Le Breton, 1997 [1992], pp. 13-14, 25).
Trata-se de uma ficção ou um mito (Certeau, 1982, p. 180), um simulacro produto
de uma cadeia de signos (Baudrillard, 1972), uma realidade elusiva (Radley,
1995), um corpo fantasmático (Valabrega, 1972).
Nas abordagens informadas pela semiologia e/ou pela semiótica, essa visão
desencarnada do corpo foi levada ao extremo. Entre estas, o corpo surge não
apenas como uma realidade socializada mas, sobretudo, como uma realidade
semantizada, matéria moldável pelo processo de semiosis. Em última análise, uma
metáforaproduzida, apreendida e reproduzida através de práticas discursivas e
convenções linguísticas, enquanto locus de criação de significado. Nesta ótica
[ ] o discurso semiológico esforça-se por retirar o corpo à sua
corporeidade para ver nele o espaço da representação. O corpo
desnaturaliza-se, desloca-se para uma postura significante, de um
sentido que nele se inscreve [ ] para fazer dele signo ou sistema de
signos [Babo, 1990, pp. 7-8].
A corporeidade apresenta-se, nesta perspetiva, na forma de estrutura textual,
de sistema que fala, a cada instante, na gestualidade que lhe é impressa, nas
emoções que expressa, nas técnicas que mobiliza, nas aparências que manifesta:
Corpo a corpo, lado a lado ou face a face, alinhados ou afrontados, o
mais das vezes somente misturados, tangentes, pouco tendo a ver uns
com os outros. Neste sentido, os corpos que não trocam propriamente
nada enviam uns aos outros quantidades de sinais, de avisos, de
piscadelas de olho ou de gestos sinaléticos [Nancy, 2004, p. 16].
Todo o vestígio que emane da superfície do corpo possui o valor semiótico de
indício. Esses sinais comunicam mesmo que não haja emissão intencional de
mensagens, em situações em que a capacidade de controlo das expressões
corporais é limitada ou nula. Ainda que o indivíduo guarde silêncio, cada
gesto, emoção, tonalidade, expressão facial, invoca subtilmente uma constelação
de signos corporais ou infracorporais que, inevitavelmente, estabelecem laços
comunicativos entre quem os envia e os recebe, exigindo aos interlocutores
capacidades e gramáticas de produção e receção, de interpretação e decifração,
de codificação e descodificação de uma suposta linguagem corporal.7
O trabalho de tradução intersemiótica que o vocabulário corporal convoca8
sempre se vislumbrou, todavia, tarefa árdua e ingrata, senão mesmo obsoleta. Se
na sua dimensão anátomo-fisiológica o corpo se apresenta como evidência que va
de soi, já a sua simbolização, ou seja, a linguagem corporal de que é investido
é sempre enigmática, controversa, escorregadia, ambivalente. Numa palavra,
polissémica: tantos são os signos, tantos os sinais, as mensagens, os avisos
que nenhum sentido definitivo pode saturar (Nancy, 2004, p. 17). Nas palavras
de Valabrega,
Se é verdade que a linguagem do corpo coloca problemas irresolúveis,
em contrapartida linguagem e corpo parecem bem originalmente
unidos por um laço simbólico indissolúvel. [ ] Fica em aberto a
difícil questão de saber se estes sistemas de signos são ou não, em
todo o rigor, linguagens ou línguas, e se podem ou não ser
assimilados a um sistema linguístico [Valabrega, 1972, p. 33].
Maria Augusta Babo vai mais longe perante a mesma questão: nas suas palavras,
se pelo corpo perpassam processos de semiosis isso não quer dizer que o
discurso semiológico possa reduzi-lo a um signo ou a um sistema de signos. Na
sua polissemia, o corpo não é linguagem mas espaço da sua inscrição, estando
ex-posto às múltiplas inscrições dos vários códigos que nele se vêem alojar
(Babo, 1990, p. 8). No mesmo sentido, Le Breton (1982, p. 225) já havia
denotado como o corpo manifesta a sua impregnação de uma simbólica social
particular em todas as modalidades [de relação] que regista com o mundo,
enquanto espaço de comunicação suscetível de, segundo a situação, não apenas
histórica e cultural, mas também de interação concreta, se inserir em regimes
de significação diferentes.
É nesta perspetiva que se pode compreender como, na ausência de codificação
tácita e instituída relativamente a alguns sinais corporais, ou consequente
descoincidência entre gramáticas de produção e gramáticas de interpretação
desses mesmos sinais, podem ocorrer equívocos e transgressões, voluntárias ou
involuntárias, em atos tão simples e banais como um olhar, um sorriso, um
cumprimento, um adorno ou um gesto que, sendo adequado num contexto ou
situação, noutro pode ser tomado por ofensivo, ridículo, estranho. Percebe-se,
ainda, como o corpo não é uma realidade permanente e universal: a sua
inevitável implicação no movimento da história social ' que o encontra sempre
aberto, acessível a novas modalidades semiológicas, a novos regimes de
significação ' faz com que a cada mudança temporal e/ou espacial, a
configuração e a valorização simbólica da realidade corporal também se
transforme.
Em síntese, tal como sucede com a linguagem verbal, também a linguagem do
corpo se multiplica culturalmente, em diversas línguas corporais. Ainda que
existam regularidades que, numa dada formação social, se reificam na forma de
códigos sociais ' códigos de apresentação, de postura, de emoção, de
gestualidade, etc. ', o corpo é e será sempre um significante flutuante9 (Babo,
2001, p. 1; Gil, 1980, p. 10, 1988, p. 124), de estrutura sígnica por definição
ambígua, ambivalente e indeterminada. O corpo não é incorporação de uma
simbólica petrificada, mas de uma simbólica viva, que se inscreve numa ligação
permanente com o futuro desta ordem aproximativa e sempre em mudança que é uma
sociedade, argumenta Le Breton (1982, p. 231). Como decorrência, o autor alega
que
[ ] face a uma mesma realidade, os corpos atravessados por culturas
diferentes não descrevem os mesmos stimuli e não provam as mesmas
sensações: eles são, cada qual, sensíveis às informações que
reconhecem e que reenviam ao seu sistema de referência próprio [Le
Breton, 1991 [1985], pp. 67-68].
Em cada instante, o corpo interpreta o seu contexto e age sobre ele em função
das orientações que recebe da ordem simbólica que incorpora. Todas as suas
manifestações se enquadram nos limites da cultura que representa, pelo que,
enquanto corporeidade, o corpo não pode ser avaliado fora do contexto
sociocultural que o enquadra. Do mesmo modo, é de relevância fundamental na
análise de um dado contexto considerar o enquadramento que dá aos seus corpos,
conhecer a cultura somática que enforma a experiência corporal, para utilizar
um velho conceito de Boltantsky (1975) ainda bastante heurístico de um ponto de
vista analítico.10
DA INCORPORAÇÃO À EXCORPORAÇÃO: O RESGATE DO PODER SOBRE O CORP
POR UMA SOCIOLOGIA DA INCORPORAÇÃO
Não deixando de presumir o corpo enquanto universo de significações e de
valores sociais, algumas propostas teóricas foram mais longe no sentido de
localizar as configurações simbólicas de que é investido e as práticas que
reproduz num quadro de relações sociais mediadas por estruturas de poder. O
corpo não está, efetivamente, consignado ao estatuto de espaço de inscrição de
texto, situado num contexto social e ideológico, enquanto pretexto para
inumeráveis discursos que visam fechar a sua realidade fugidia. Vislumbra-se
também uma textura, uma trama de inscrições da lei, da memória, do poder, das
instituições e das pessoas em geral, em interação corpo a corpo. O corpo
encontra-se efetivamente inserido num caleidoscópio de relações e de
instituições sociais, de forças históricas e políticas, onde está sujeito a
formas de controlo e disciplina, constituindo também foco de contestação,
resistência e luta social. Daí a importância fundamental de não ficar pela
carga semântica inscrita no corpo, mas considerar também o poder energético
dos signos que nele são inscritos, as forças que eles captam, encerram, e por
que mecanismos são susceptíveis de desencadear certos efeitos [práticos] (Gil,
1988, p. 11).
Desde a sua eleição como objeto das ciências sociais, o corpo tem tido um
enfoque privilegiado enquanto lugar de exercício de poder. Já na antropologia,
ciência social que iniciou esta abordagem de forma mais sistemática, a
constante troca simbólica entre corpo natural e corpo social era
recorrentemente analisada com o propósito de compreender as condições
sociosimbólicas em que a experiência física medeia e reforça a experiência
social. Na análise de Mary Douglas, o corpo é tido como o mais natural
(lizado) e privilegiado meio de classificação social, onde as normas associadas
ao seu controlo individual emergem como poderoso meio de controlo social (2000
[1970]). A naturalidade e disponibilidade com que o corpo físico atua em
sociedade deixa-o vulnerável ao poder simbólico de doutrinas cosmológicas,
religiosas, políticas e outras teorias morais produtoras de modelos
classificatórios. Esse poder é exercido através da incorporação de categorias e
regras socialmente construídas em torno das suas características fenotípicas,
diacríticas, gestos e processos orgânicos, construções essas, por sua vez,
reproduzidas e vividas pelos indivíduos de uma forma naturalizada e
universalizada. O corpo acaba, assim, por emergir analiticamente construído
como locus privilegiado de expressão, reprodução e reforço dos padrões de
relações sociais e das estruturas de poder que lhes são imanentes.
Pense-se, por exemplo, em categorias tão naturalizadas na aplicação à realidade
corporal como pureza, repugnância, pecado, vergonha ou pudor, entre
tantas outras. No âmbito desta problemática, Douglas analisou em profundidade a
forma como, no quotidiano das sociedades tradicionais, a distância social tende
a ser expressa em distância fisiológica e vice-versa. Segundo a autora, a forma
mais natural de investir na dignidade de uma dada situação social é camuflar
os processos orgânicos que lhe estão necessariamente subjacentes (ruídos,
fluidos, excreções, estados emocionais mais exacerbados no gesto e na palavra,
etc.), assumindo esses mesmos processos como idioma de distância social,
símbolos naturais que servem para pensar e representar relações sociais como
as de género, de amor, de sexualidade, etc. Daí que quanto mais elevada é a
pressão social envolvida em determinada situação, mais a conformidade tende a
ser expressa através da procura do controlo físico da situação. Ao invés,
quanto mais relaxada é a situação social, menor é o controlo social imanente e,
consequentemente, maior o abandono pessoal sobre os processos orgânicos
(Douglas, 1967).
Também Norbert Elias, no contexto da história das sociedades ocidentais
europeias, veio a encontrar no corpo um símbolo de distância social por
excelência, enquanto lugar de demonstração de civilidade, habilitado a
representar distinção e estatuto. Nas suas palavras, era na etiqueta que esta
distância, enquanto fim em si, encontrava a sua expressão mais perfeita
(Elias, 1989 [1939], p. 75). No âmbito do que designou de processo
civilizacional, a exibição de um elevado autocontrolo sobre o corpo veio a
tornar-se um importante símbolo de refinamento cultural e distinção social,
expressão de valores de contenção e discrição aristocrática (Elias, 1989
[1939]; 1990 [1939]). Em termos mais latos, no lento processo histórico de
mudança sociogénica e psicogénica de que o autor dá conta, o corpo, nas suas
várias funções, impulsos, ações e emoções, foi sendo sujeito a mecanismos de
regulação interna e externa cada vez mais intensos no sentido da adaptação aos
padrões e convenções normativas associados ao que entendia ser um corpo
civilizado. Nesse processo, a necessidade de auto-regular cuidadosamente o
próprio ethos corporal enquanto marca distintiva de uma personalidade
civilizada passou, em grande medida, pela internalização pessoal e a
operacionalização social de categorias como as acima enunciadas.
Embora sujeitos a mecanismos de controlo e regulação social do corpo diferentes
dos que estes autores descrevem para sociedades tradicionais ou remotas, os
corpos ocidentais contemporâneos continuam igualmente sujeitos a fortes
mecanismos disciplinares e punitivos de regulação social. O exercício legítimo
de tais mecanismos não se encontra apenas nas mãos de instituições e saberes
como a medicina, a psiquiatria, a educação, o direito, ou o próprio Estado, mas
é implícito a todas as relações sociais, forjando um controlo tanto mais eficaz
quanto mais naturalizado. Esta é a posição de Foucault (1979), para quem os
corpos se disciplinam a eles próprios e uns aos outros, micro-fisicamente,
disseminando-se por todo o tecido social e desmultiplicando-se em instâncias
que não as do aparelho de Estado e, por esta via, transformando as sociedades
modernas em somocracias11 (Cascais, 2004, p. 45). Tal sucede, na versão de
Foucault (1969), aquando da transição da sociedade moderna ocidental de uma
sociedade disciplinar para uma sociedade de controlo12, em que os mecanismos de
regulação social sobre o corpo não são apenas exercidos por instituições e
saberes disciplinares, exteriores aos indivíduos, mas mediados por imagens e
respetivas linguagens individualmente incorporadas e socialmente reproduzidas,
a partir das quais se estrutura o simbólico-corporal e as relações com as
demais corporeidades, tanto em público como em privado.
Na sociologia, os ensaios de Foucault sobre as formas como as relações de poder
penetram e exercem a sua ação sobre os corpos ocidentais ' não obstante a
natureza predominantemente histórica e filosófica da sua obra ' foram de facto
paradigmáticos no âmbito desta problemática. Nas suas palavras,
É preciso começar por descartar uma tese muito difundida segundo a
qual o poder nas nossas sociedades burguesas e capitalistas havia
negado a realidade do corpo em proveito da alma, da consciência, da
idealidade. Com efeito, nada é mais material, mais físico, mais
corporal que o exercício do poder [Foucault, 1979, p. 105].
Institucional ou informal, a política do corpo13, tal como Foucault a concebe,
é sempre de ordem relacional e prática, através da aplicação de fórmulas
políticas como a criminologia, o eugenismo ou a segregação, ou tão-somente
através de um trabalho insistente, obstinado, meticuloso, diário e praticamente
invisível ' de agentes representantes de instituições como a religião, a
família ou corporações de natureza diversa ', sobre a sexualidade, a imagem do
corpo ou os seus usos e desempenhos. A política do corpo diz respeito a ações
que remetem diretamente para a questão da materialização do poder e do controlo
social sobre os corpos dos indivíduos, na medida em que implicam a inibição de
determinadas atividades corporais, a sua conformação a determinadas imagens, a
sua formatação a determinados gestos, forçando o corpo a realizar certo tipo de
tarefas, a participar em certas cerimónias, a incorporar determinados signos
socialmente codificados e instituídos.
A análise tecida a partir desta perspetiva tem-se dedicado, em boa parte, à
compreensão do corpo como lugar de contenção, inscrevendo-o na teoria
sociológica sobretudo como recetáculo passivo de repertórios de competências,
códigos e técnicas (Wacquant, 2003a, p. 171) que, ante a força de mecanismos e
processos sociais mais amplos, ele aprende e usa, o inscrevem e ele reproduz;
como objeto em conformidade submetido quer ao exercício de poderes
disciplinares exteriores que o tentam repetidamente reprimir ou docilizar
(Foucault, 1999 [1975], 1994a [1976], 1994b [1984], 1994c [1984]), controlar e
civilizar (Elias, 1995 [1991]), quer aos dispositivos de autovigilância
socialmente disponibilizados para que o indivíduo, ele próprio, seja
responsável pelo controlo das respetivas emoções, posturas e dramatizações.
A incorporação surge como conceito-chave nesta tradição analítica, dando conta
do processo corporal de
[ ] interiorização não-verbal, inconsciente, mimética, automática, de
certas disposições de desigualdade e de poder; mas não só como
interiorização ' também como reprodutor dessas realidades, seu
confirmador constante pelo simples facto de estar lá, de aparecer, de
ser. É a este nível micro, quase imperceptível, da incorporação dos
esquemas de diferença e de desigualdade, que se joga uma política de
baixa intensidade, uma política de difícil intervenção por parte da
usual macropolítica. É a política do face a face, do encontro casual
de rua, da visibilidade confirmadora do que nos rodeia [Vale de
Almeida, 2004, p. 30].
Olhando-o pelo lado da incorporação, o corpo é tratado como lugar de inscrição
de sentidos aptos a gerar diversas redes metafóricas, todavia lugar sígnico que
reflete ele próprio uma determinada posição social na estrutura de relações de
poder (que pode ser de classe, mas também de género, de raça, de orientação
sexual, etc.). O social, por sua vez, visto como incorporado, deixa de ser da
ordem da abstração, para corresponder ao implícito expresso pelo corpo no
decorrer interactivo da ação. [ ] A incorporação aparece como dimensão do
processo de socialização através do qual se auto-constrói e se auto-mantém a
vida social (Drulhe, 1987, p. 6). É uma categoria conceptual que concede ao
corpo o estatuto de operador social, onde se revela a eficácia do social sobre
o indivíduo e, reciprocamente, onde o social se torna possível (Berthelot,
1986, p. 158; Drulhe, 1987, p. 5).
Esta visão estruturalista sobre o corpo tem em Bourdieu o seu expoente máximo,
para quem a incorporação é analisada enquanto duplo movimento de interiorização
da exterioridade (isto é, das condições objetivas de existência do agente
incorporado) e de exteriorização da interioridade (sob a forma de perceções,
representações, esquemas de classificação da realidade e práticas por parte do
agente incorporado), processo biunívoco supostamente gerado por um mesmo
princípio orientador, o habitus, frequentemente ignorado pelo agente social,
mas reconstruído pelo sociólogo. O habitus surge, assim, entendido como corpo
biológico socializado, ou como social biologicamente individuado pela
incorporação num corpo (Bourdieu, 1998, p. 138), perspetiva que manifestauma
conceçãosobressocializada da ação corporal, investindo na prática princípios
organizadores socialmente construídos e adquiridos no decorrer de uma
experiência social situada e datada (Bourdieu, 1998, p. 120).
Com efeito, embora Bourdieu dê ao corpo um estatuto fundamental na relação que
o agente estabelece com o mundo, enquanto operador da sua presença no mundo,
de ser e estar no mundo, no sentido de pertencer ao mundo (Bourdieu, 1977, p.
51), essa relação é entendida como uma relação de possedo corpo por parte do
mundo (social). O corpo funciona como operador através do qual o sujeito
apreende o social e o naturaliza, lugar onde é evidenciada a naturalização do
arbitrário cultural e social. Acaba, desta feita, por ser tido como um lugar
tendencialmente reprodutor da ordem do mundo. A própria exteriorização corporal
do habitus é concebida, no esquema conceptual de Bourdieu, de uma forma
mecânica, reprodutiva, da ordem do hábito pré-reflexivo ou dotado de uma
reflexividade pouco densa, de intenção sobretudo mimética.
Os processos de incorporação operam através da ação pedagógica quotidiana
(põe-te direito, segura a faca com a mão direita), ou através dos ritos de
instituição, ação psicossomática exercida através da emoção e do sofrimento,
psicológico ou mesmo físico, nomeadamente o que se inflige inscrevendo signos
distintivos, mutilações, escarificações ou tatuagens na própria superfície dos
corpos (Bourdieu, 1998, p. 125). Nesta ótica, o corpo bourdiano, como atenta
Teixeira Lopes, embora fora das grilhetas cartesianas, permanecia aprisionado
pela circularidade da incorporação socialmente determinada. Corpo domesticado,
de certa forma (2002, p. 61).
Para sair desta circularidade, a abordagem sociológica do corpo teve de ir além
da sua conceção como lugar de atuação disciplinar, olhando-o também como lugar
de oposição, resistência e emancipação social. A mobilização social do corpo
não está efetivamente reduzida a mecanismos que operam no sentido da sua
sujeição e contenção, nomeadamente quando o sujeito investe em usos corporais
que têm na sua base a intenção de desafiar a ordem corporal e social existente
(Ferreira, 2008). Daí que,em termos conceptuais,o corpo também seja passível de
ser socialmente apropriado enquanto instância de contra-poder, na medida em que
nele também há lugar para a reação e a enunciação(Hardin, 1999, pp. 84-85).
Torna-se espaço de reação quando, fugindo aos dispositivos de vigilância e
disciplina corporal instituídos, é apropriado no sentido de desafiar a
legitimidade dos padrões de corporeidade dominantes, bem como a autoridade dos
que produzem e reproduzem esses mesmos padrões, insurgindo-se espetacular ou
intimamente contra determinadas convenções normativas e prescritivas que regem
a integridade corporal. É lugar de enunciação quando essas mesmas ações, muitas
vezes de aparência eminentemente estética, são tomadas como recurso expressivo
de convicções éticas, sociais e políticas, no sentido amplo do termo.
Ainda que Foucault, ao identificar a emergência de um corpo biopolítico14como
um ato fundador da modernidade, reconheça a hipótese do corpo ser utilizado
enquanto recurso crítico na luta pela rearticulação dos termos da sua própria
legitimação simbólica, ele tende, simultaneamente, a negar a possibilidade dos
corpos operarem com sucesso como lugares de resistência ao poder. Para aquele
autor, as habilidades individuais no uso político deste recurso são altamente
limitadas pelos dispositivos hegemónicos de poder, na medida em que, quando os
corpos tentam subverter e resistir às disciplinas que lhes são impostas, o
poder responde com um modo de controlo inteiramente novo no sentido da sua
docilização (Foucault, 1979).
Independentemente dos limites da sua eficácia, o facto é que o poder que
microfisicamente impregna todos os corpos, também designado de biopoder15,
tanto se pode manifestar em ações socialmente constrangidas, como em ações
socialmente libertárias, potencialmente produtoras de efeitos sociais e
simbólicos mais ou menos calculados. O corpo tem sempre, em potência, essa
dupla capacidade de se revelar lugar não apenas de conformação social, mas
também de confrontação social, de forças ativas e reativas, de controlo e
resistência, de autoridade e subversão, de contenção e excesso, de disciplina e
transgressão, de poder e evasão, de alinhamento e oposição, de reprodução e
inovação, de dominação e agenciamento, de subordinação e emancipação.16
POR UMA SOCIOLOGIA DA EXCORPORAÇÃO
Se a análise dos processos de incorporação tem proporcionado um conhecimento
profundo sobre a forma como os mecanismos de docilização e a reprodução social
atuam através do corpo, recentemente começou-se a olhar com mais atenção para o
que eu chamo de dinâmicas de excorporação ' ou seja, para as práticasdeexibição
e ostentação social do corpo, materializadas em manifestações expressivas que
decorrem de opções e decisões do sujeito, atos de vontade conscientemente
ponderados e projetados relativamente aos usos e investimentos que faz no
corpo, com significados, objetivos e efeitos mais ou menos calculados. Em suma,
o que designo por excorporação refere-se, em grande medida, às propostas
teóricas que ambicionam analisar as práticas reflexivas e voluntárias
mobilizadas pelo agente social no sentido de (re)construir, manter e dar a ver
o corpo, no seu todo ou partes específicas. Trata-se de um conceito que não
deve ser tomado como oposto ao de incorporação, na medida em que a capacidade
que o corpo tem em se excorporar se faz sempre, inevitavelmente, sobre e a
partir do que foi incorporado, considerando que não existe um corpo realmente
natural, vazio de incorporações.
A relevância heurística da abordagem às práticas de excorporação está no facto
dela considerar analiticamente a agência do indivíduo sobre o próprio corpo,
pressupondo a subordinação dos modos de ação do corpo (atos do corpo)e dos
modos de açãosobre o corpo (atos sobre o corpo) a uma intenção reflexiva. Neste
pressuposto, o indivíduo passa a ser encarado não apenas como sujeito ao seu
corpo (biológico e social), mas também sujeito do seu corpo. Nesta medida, as
práticas de excorporação implicam um duplo movimento: desde logo, um movimento
de desnaturalização do corpo, que passa pelo afastamento de atitudes que o
tomam como um dado adquirido no curso de vida;17 concomitantemente, um
movimento de planificação e execução de estratégias de recriação de um outro
corpo.
Olhar para o corpo na ótica da excorporação implica, portanto, tomá-lo na sua
condição de objeto de reflexividade. Conceitos como o de reflexividade
corporal (Giddens, 1997 [1991]) ou de reflexividade carnal (Crossley, 1995,
2005) dão conta dessa dinâmica de sobre-consciencialização da fisicidade
presente em segmentos sociais cada vez mais alargados na sociedade
contemporânea ocidental: como refere Balandier, hoje, cada vez mais, o corpo,
desde sempre visto como um aparato mecânico, submete-se à soberania do
espírito; a união da matéria e da forma é de início pensada enquanto relação de
dominação, apropriação e comando do segundo sobre o primeiro (Balandier, 1997
[1985], p. 23).
Há inclusive quem acuse estas teorias de prolongar a visão cartesiana que
conceptualiza de forma binária a relação entre mente e corpo, submetendo o
segundo à prevalência do primeiro. Tais críticas argumentam que as propostas da
reflexividade corporal estão essencialmente comprometidas com a mente, ao
sobre-enfatizar o pensamento cognitivo como mediador da agência e da estrutura,
e ao negligenciar a mediação somática e as bases encarnadas da ação social como
modo de implicação primário com o mundo. A ênfase no processo de reflexividade
produziria um ator social cuja mente toma o controlo do corpo, uma consciência
desencarnada e não um agente possuidor de sentidos, sensualidades e hábitos
físicos que foram parcialmente socializados, mas que também formatam a ação e
as estruturas sociais (Budgeon, 2003, p. 37; Shilling e Mellor, 1996, p. 4;
Turner, 1992, p. 87).
Qualificativos como sociedade somatófila (Pais, 1998), corporeísta
(Maisonneuve, 1976) ou somática (Turner, 1992), são designações para a
sociedade contemporânea que, no fundo, salientam uma vivência social onde a
consciência do corpo e do valor do capital físico (Shilling, 1991, 1997a;
Wacquant, 1995) é bastante mais elevada, bem como a possibilidade da sua
modificação. E esse facto social, analiticamente reconhecido e tratado por
Giddens, não entra inevitavelmente em contradição com uma postura analítica
que privilegie como objeto o papel das bases necessariamente encarnadas da
ação social. São planos analíticos diferentes, realizados a partir de
diferentes recortes da realidade, podendo até complementar-se do ponto de vista
da constituição de uma sociologia do corpo. O reconhecimento do aceleramento e
difusão do controlo e monitorização reflexiva do corpo, concretizada na decisão
do agente perante um conjunto de opções e escolhas cada vez mais alargado sobre
esse suporte, não faz da reflexividade corporal uma condição básica para a ação
incorporada de todos os agentes, e não anula tão-pouco todas as ações do corpo
e sobre o corpo naturalmente empreendidas.
Na atual cultura somática, o corpo já não é efetivamente concebido como uma
realidade pré-definida, fixa e inviolável, um destino herdado para ser
conservado e para se reproduzir naturalmente. O corpo é cada vez mais tratado
e apropriado como materialidade contingente e volátil, compósita e inacabada,
suscetível de ser explorada, projetada e modificada sob diferentes modalidades.
Para isso conta com uma cada vez mais diversificada panóplia de meios técnicos
oferecidos pela ciência, divulgados pelos media e disponibilizados pelo
mercado, sistema que institui uma cada vez mais vasta e poderosa indústria de
design e engenharia corporal.
Neste contexto, o conceito de reflexividade adaptado ao corpo pressupõe por
parte do sujeito uma perceção distanciada e consciente perante o seu corpo,
tratado como um acessório relevante no seu projeto de identidade como se de um
alter-ego se tratasse (Le Breton, 2000, 2004), suscetível de ser mobilizado no
sentido de realizar uma identidade desejada. A reflexividade carnal
corresponde, assim, à capacidade de o indivíduo olhar sobre o corpo como algo
de seu mas, simultaneamente, exterior a si, acedendo, simultaneamente, a uma
perspetiva fora sobre si próprio. Trata-se de um processo que implica o
[ ] paradoxo máximo da auto-reflexividade: a exterioridade do sujeito
face à imagem; ou, dito de outro modo, a exterioridade máxima da
imagem face ao sujeito. [ ] [A reflexividade] exige pois um
dispositivo opaco que lhe devolva a imagem como se o próprio olhar,
autonomizando-se e saindo para fora do corpo, se pudesse, só então,
apropriar dele [Babo, 2000, p. 336].
A reflexividade carnal implica, portanto, um processo de objetificação do corpo
na sua carne, um processo de descentramento percetivo do corpo como algo
exterior a si, um corpo que se tem. Mas que se tem para ser, nomeadamente para
ser quem ainda não se é. Todos temos e somos um corpo. Esta alusão ao trabalho
de Merleau-Ponty é uma das mais recorrentes ' provavelmente já cliché ' na
literatura sobre o corpo. Trata-se, no entanto, de uma importante distinção
analítica, na medida em que nela é jogada a possibilidade de distanciação entre
o corpo enquanto estrutura concreta (carne) e o corpo enquanto matéria
simbólica (corporeidade), na qual se funda a capacidade individual de poder
manipular e modificar a carne de uma forma criativa e inovadora, no sentido da
conformidade ou contestação dos modelos corporais hegemónicos.
O desenvolvimento de uma postura reflexiva perante o corpo permite ao sujeito
tornar o corpo um objeto para si próprio e experimentar-se enquanto sujeito da
sua carne. Isto é, um sujeito que não se entrega naturalmente ao seu corpo,
como se de um destino fatal se tratasse, mas que sente que o pode experimentar
e alterar, na sua estrutura (morfológica e fisiológica) e hábitos (imagéticos,
cinéticos e sensoriais). Esta dinâmica reflexiva implica por parte do sujeito
carnal intencionalidade na ação do corpo ou sobre o corpo, envolvendo a
capacidade de produzir discursivamente, para si próprio e/ou para os outros, os
seus sentidos, de elucidar as suas justificações, de analisar os riscos
(físicos e sociais) que envolve, de prever os efeitos que decorrem da ação do
corpo ou sobre o corpo.
A perspetiva sobre as dinâmicas de excorporação não deve, porém, arriscar-se a
ficar refém de uma ótica ensimesmada e centrada num homo clausus. Aliás, um dos
principais perigos para o cientista social que estuda o corpo humano é, como
atenta Pina Cabral, o pessoalismo, ou seja, o risco de exacerbar da
importância da pessoa física, tratando-a como se fosse uma unidade elementar da
vida sócio-cultural. Quer dizer, no discurso antropológico recente, a ênfase
posta sobre o corpo, a consciência e o self tende a empolar a importância do
indivíduo, reduzindo o significado teórico de formas de identidade e
agencialidade suprapessoais (Cabral, 1996, p. 201). Em sentido análogo, numa
crítica explicitamente dirigida a Giddens e aos seus seguidores, João Teixeira
Lopes atenta no facto de quão indesejável é, do ponto de vista analítico,
reduzir a importância do corpo à unidimensionalidade de uma visão reconfortante
sobre a contemporaneidade, assente, meramente, na experiência reflexiva e
emancipadora (2004, p. 126).
Analisar a postura reflexiva perante o corpo deverá vir a par de uma perspetiva
intersubjetiva da ação do corpo e sobre o corpo. O corpo só é objeto para o
sujeito quando este tem consciência de que é também objeto para os outros, de
como as suas diferenças corporais são codificadas dentro de determinados
esquemas e categorias de representação e classificação. O conceito de imagem
corporaltraduz esse movimento intersubjetivo da reflexividade carnal: sendo
crucial na reconstrução da forma como o sujeito se pensa e se sente
fisicamente, como experiencia e expressa corporalmente as suas emoções, é, em
simultâneo, um produto reflexivo sensível ao contexto sociocultural e
histórico em que se insere. A imagem do corpo não corresponde tão-somente a
uma realidade anátomo-fisiológica, na medida em que nela está integrada toda
uma vida corporal significativa, um corpo vivo e vivido de prazeres,
sofrimentos, desejos, angústias, estádios morfológicos, fisiológicos e
cinestésicos variados, figuras de referência corporal diferenciadas, etc.
Por outro lado, a imagem corporal é necessariamente tão física como psicológica
e social, na medida em que todos os aspetos da imagem corporal (perceções,
representações, classificações, avaliações) são desenvolvidos e construídos
dentro e através das relações sociais, constrangendo a forma como o sujeito se
apropria do seu próprio corpo e se relaciona com o corpo dos outros. Como
sugere Agostinho Ribeiro,
É natural que, ao representar o seu corpo (na terceira pessoa), o
indivíduo o avalie pelo confronto com modelos (por exemplo, de
estética) [ ]. A imagem do corpotem de facto um determinado valor
para o sujeito, e é com base nesta cotação que ele define atitudes e
organiza comportamentos no plano social. E a nota que atribui ao
corpo conta, com um peso significativo, para a sua auto-estima
[Ribeiro, 2003, p. 50].
Olhar para o corpo na ótica da excorporação implica, portanto, tomar o corpo
não apenas na sua dimensão reflexiva, mas também na sua condição expressiva
ecomunicativa(Crossley, 1997; Falk, 1995; Polhemus e Benthall, 1975), virado
para o exterior enquanto display nos termos de Radley (1998). Daí, inclusive, o
prefixo excorporar: o corpo não providencia apenas um território existencial
para o self(Csordas, 1990, 1994), mas também um território de representação
deste para alter. Ao mesmo tempo que é ressoador, simbólico e sensível, de
registos culturais e estruturas sociais, o corpo é também tela que se interpõe
em todas as relações, do próprio consigo mesmo e com os outros. Pertencente ao
mundo do visível e sensível, o corpo é o cordão umbilical com o social. Ser
social é em primeiro lugar ser intercorporal (Jung, 1996, p. 5). Sobre o corpo
recaem determinados investimentos que estruturam não apenas a relação do self
com o seu próprio corpo ' intracorporalidade ou subjetividade carnal ', como as
interações do corpo próprio com os outros corpos que com ele se cruzam '
intercorporalidade ou intersubjetividade carnal.
O corpo, na sua condição expressiva, envolve sempre a co-presença de outros.
Apesar de ser o signo de referência e reverência da individualidade, através do
qual o self se reconhece enquanto si-próprio, o corpo participa com igual valor
simbólico na apresentação de si ao mundo pela visibilidade que o implica em
situações de interação social. A apresentação do corpo, ou a sua fachada,
como lhe chama Goffman (1993 [1959], 1988 [1963]), potencialmente investida de
uma variedade de significados, ocupa um lugar privilegiado na troca simbólica
intrínseca à vida social. Contextualizado e interpretado num conjunto
específico de convenções, representações e valores sociais representativos de
uma dada cultura somática, o corpo dá-se a ver, a ser percebido e etiquetado
segundo categorias de perceção e sistemas de classificação social, nele também
ganhando expressão privilegiada categorias historicamente reificadas como as de
género, raça ou idade, por exemplo. O corpo torna-se, assim, num eixo axial de
categorização no âmbito das relações sociais quotidianas, nomeadamente das que
são vividas face a face, ou melhor, corpo a corpo, no decorrer dos ritos de
interação ' essa classe de acontecimentos que têm lugar aquando de uma co-
presença e em virtude dessa co-presença (Goffman, 1974, p. 7).
Neste contexto, qualquer intervenção voluntária na sua superfície (pre)tende a
ser olhada, julgada e classificada em função de um conjunto de normas e de
representações sociais. Sendo que, inevitavelmente, as relações que os
indivíduos estabelecem com a sua própria imagem corporal encontram a sua
essência no reconhecimento por parte de outros das categorias de perceção que
lhe são aplicadas. Como afirmam Maisonneuve e Bruchon--Schweitzer,
[ ] em matéria estética não se trata apenas de salvar as aparências
mas, mais ambiciosamente, de agradar agradando-se a si próprio. É
que as reações dos outros ao corpo que lhes apresentamos vêm
confirmar ou não a experiência do nosso espelho, fortificando ou
amortecendo a nossa imagem do corpo, lugar muito sensível da nossa
identidade [Maisonneuve e Bruchon-Schweitzer, 1999, p. 27].
Quer busque a conformidade com o modelo, quer cultive a originalidade e a
diferença, quem investe na aparência corporal espera sempre algum tipo de
retorno social, de reconhecimento, seja na forma de admiração, estranheza,
aversão ou até de indiferença pela discrição (Dostie, 1988, p. 68).
POR UMA SOCIOLOGIA DA ENCARNAÇÃO: O RESGATE DO CORPO VIVO, VIVIDO E EM DEVIR
As propostas atrás espelhadas puseram em prática um processo de
desnaturalizaçãodo corpo humano ' quer na suposta neutralidade,
universalidade e objetividade que o saber biomédico lhe concedia enquanto
organismo; quer na aparente naturalidade, unidade e evidência da incorporação
quotidiana. As qualidades supostamente naturais e orgânicas foram
desconstruídas ao incluir o corpo na cultura e na história, bem como numa
estrutura de relações verticais e de poder, sujeito a processos de dominação,
de resistência e de reflexividade.
No entanto, no mesmo movimento analítico em que essas propostas afirmam o
enraizamento sociohistórico do corpo, este tende a desaparecer como carne. O
corpo pouco mais é que um símbolo sobre o qual se inscrevem um conjunto de
ritualidades e códigos culturais. Já no passado, os sociólogos que olhavam de
relance para o corpo enquanto meio de produção e reprodução social, como
Durkheim, Simmel ou Weber, confinavam o seu tratamento enquantorecurso gerador
de símbolos e formas sociais nas suas propriedades naturais, lugar primeiro de
inscrição dos símbolos através do qual as formas sociais se produzem e
reproduzem, e meio através do qual os indivíduos são posicionadosno grupo, na
interação ou em outras formas de relação social.
Na evanescente facticidade que o caracteriza enquanto representação simbólica
(Berthelot, 1987), o corpo tende a perder toda a substancialidade que lhe é
própria, em detrimento de uma cadeia infinita de reflexividade e de signos
socialmente instituídos ou difusos. O referente deixa de ser, ele próprio, o
objeto de conhecimento, para passar a ser a significação (semântica) e a
eficácia (social) dos enunciados que, através e a propósito dele, são feitos.
Naturalismos e construtivismos pecam, assim, por excessos simétricos: onde o
primeiro hipostasia a ordem biológica, os outros fazem paradoxalmente
desaparecer o somático enquanto fenómeno semiológico e ritual.
A carnalidade do corpo e as respetivas implicações sociais que dela advêm
tendem também a desaparecer como objeto empírico, permanecendo obscurecidas no
excesso teoricista e discursivo que pretendem legitimá-las enquanto construção
simbólica. Para a crescente produção teórica ocorrida desde os anos 70, pouca
investigação sobre as vivências sociais das experiências corporais concretas e
quotidianas foi levada a cabo. A pouca atenção prestada às performatividades e
às vozes que emanam dos corpos sobre si próprios, terminou num silêncio sobre
as práticas corporais efetivas, a forma como são vividas as experiências
corporais, e os universos sociais nos quais se engendram concretamente as
diversas corporeidades em circulação no mundo social.18 A carnalidade que
vivifica as práticas corporais no quotidiano desaparece por entre processos
abstratos de regulação e categorização social, fazendo-se tábua rasadas
qualidades morfológicas, necessidades fisiológicas, estruturas somáticas e
capacidades sensoriais vividas pessoal e socialmente, bem como dos seus
respetivos desenvolvimentos no tempo da vida. Marginalizado na sua dimensão
vivaeem devir, o corpo aparecia como entidade inefável, alegórica, elusiva
(Radley, 1995, p. 4).
Ainda que elusiva, não será decerto ilusória. Os sentidos podem até iludir no
que dão a ver do mundo, mas não são ilusões em si. Em contraste com a
radicalidade das propostas em que o corpo material é marginalizado, é
importante entender que essa realidade não é simplesmente uma construção
simbólica constrangida por relações sociais ou sujeita à reflexividade do seu
portador, mas constitui efetivamente uma base viva, vivida e em devir que
enforma a construção dessas relações, considerando as bases inevitavelmente
encarnadas da ação social. Em última instância, como formula João Teixeira
Lopes (2004, p. 122), uma sociologia da prática [é], sem qualquer dúvida, e
antes de mais, uma sociologia do corpo; do mesmo modo que não existe ritual que
não tenha o corpo como seu suporte.
Embora sempre informado por um princípio vital de socialidade e cultura, o
corpo é carnalna fisicalidade das imagens que dá a ver, dos movimentos que
possibilita fazer, das sensações e emoções que permite sentir, das funções e
necessidades que exige cumprir. Nos termos de Jung (1996, p. 4), a existência
humana não é uma ideia na medida em que o corpo é uma realidade concreta, uma
concretude que não se confina a ser inscrita, que não corresponde apenas a um
sistema de signos ou ao produto de efeitos sociais, mas uma realidade
encarnada. Já autores clássicos como Durkheim e Simmel, no parecer de Shilling
(2001, p. 339), construíam modelos de humanidade em que o corpo era
conceptualizado como um lugar socialmente construído mas caracterizado por
propriedades e capacidades extra-societais, ainda que implicadas na ação e
interação social. Esta divisão entre os aspetos sociais e associais do ser
humano pressupõe que a experiência do mundo é irredutível à vida em sociedade.
O corpo humano não é, integralmente, uma construção socio-simbólica, na medida
em que é dotado de qualidades e providencia experiências que resultam da sua
realidade orgânico-sensorial.
Enquanto carne, o corpo humano é caracterizado por propriedades materiais,
impulsos vitais, necessidades homeostáticas e capacidades físicas e sensoriais
que vão além dos parâmetros estritamente sociais. É certo o corpo ser um dado
socialsituado no tempo e no espaço, mas não deixa de ser igualmente uma
estrutura material, carnalidade dotada de características que são particulares
a cada corpo (sexo, idade, cor da pele, peso, silhueta, estado de saúde,
etc.)19, de fronteiras morfológicas, de órgãos com funções fisiológicas
identificáveis, de capacidades sensoriais e sensíveis mensuráveis e
otimizáveis, sujeita a mecanismos e necessidades de ordem biológica, química e
física, que exige manutenção e reparação perante a doença, o abuso, o acidente
ou a deterioração que decorre do seu tempo de vida.
É um corpo que existe enquanto substância, corpo anatómico caro aos anátomo-
fisiologistas (Valabrega, 1972). É dotado de uma exterioridade, superfície com
as suas formas, os seus orifícios, as suas características fenotípicas
(pilosidade, estrutura, cor da pele, do cabelo, dos olhos, etc.), os seus
gestos e movimentos cinestésicos. É também dotado de uma interioridade,
realidade com os seus órgãos, as suas secreções (dejetos, saliva, suor,
sémen ), as suas produções orgânicas (sangue, leite, placenta ), as suas
necessidades metabólicas e homeostáticas (alimentação, sono, micção, defeção ).
Este corpo material é, portanto, uma estruturaviva e não uma realidade
inanimada, um mero objeto ou acessório. Trata-se também de uma estruturaem
devir, processual, e não estática, volátil e não fixa, uma realidade
inescapável à erosão do tempo, componente particularmente perturbadora para os
sujeitos modernos. O limite deste corpo objetivo é o cadáver(Baudrillard, 1972,
p. 96), esse resto físico que fica depois da morte, realidade exterior à
consciência, pura forma, simples volume desenraizado de vivência, sem história
nem trajetória, coisa impessoal, mecânica e orgânica, o corpo de referência
para o saber biomédico.
Mas a carne, esse conjunto de propriedades, funcionalidades e capacidades
físicas é socialmente vivida, mobilizável e capitalizável de forma socialmente
muito diversificada. A perspetiva fenomenológica de Merleau-Ponty tornou-se
popular entre os que pretenderam explorar a experiência corporalmente vivida do
sujeito.20 Isto apesar das críticas que lhe têm sido feitas, interpostas aos
que têm trabalhado sob a alçada das suas conceções sobre o corpo, críticas
associadas, em grande medida, ao facto da base conceptual da fenomenologia
radicar em tradições mais filosóficas que sociológicas. Para Inglis e Howson
(2001, 2002), por exemplo, a tentativa de transferência e de equivalência de
debates e análises conceptuais com tradições teóricas diferentes (como o
problema filosófico da distinção entre sujeito e objeto, e a sua tradução
teórica na sociologia para o debate entre ação e estrutura social), não será a
mais adequada, acusando a escassez de visão sobre o corpo vivido dentro das
configurações estruturais e das relações de poder.21
Da revisitação sociológica do pensamento de Merleau-Ponty, ficou a premissa que
identifica a dimensão invariavelmente encarnada da relação do indivíduo com o
mundo, nas suas várias dimensões da vida. Enquanto território existencial do
self (Csordas, 1990, 1994), forma inescapável de estar e de ser no mundo
(being-in-the-world), de experimentar e pertencer ao mundo, o corpo funciona
como lugar mediador entre as esferas exterior e interior do indivíduo,
interpondo-se em todas as suas experiências mundanas. Para Merleau-Ponty (1993
[1962]) a função primeira da perceção, por exemplo, não é meramente
contemplativa, mas de envolvimento prático.
A relação com o mundo vê-se assim estruturada com base na encarnação sensório-
motora do indivíduo. Enquanto substância sensível e sensorial, o corpo vivido é
entendido como realidade com capacidades de sentir e de se fazer sentir, de ser
visível e de se dar a ver, de ser tangível e tocar, de ser audível e de ouvir,
de se emocionar e de estimular emoções. Daí Csordas, a par de outros autores22,
preferir a noção de embodiment ' que aqui traduzo como encarnação ' à de corpo
enquanto objeto de estudo, na medida em que se trata de um conceito que implica
mais do que uma entidade material (que se tem): designa um campo metodológico
definido pela experiência percetiva e um modo de presença e de implicação no
mundo (que é, está e se faz) (Csordas, 1994, p. 10).
Nesta perspetiva, como enuncia Vale de Almeida (1996, p. 12), a incorporação
não é experienciada, é a base mesma da experiência. [ ] O corpo é o terreno da
experiência e não objeto dela. O corpo vivido é presumido, simultaneamente,
como um corpo que constrói e é construído pelo mundo da vida do sujeito.
Enquanto organismo vivo e sensório-motor, é a partir das respetivas
potencialidades percetivas, cinéticas e sensitivas que ele se apropria, age
sobre e interage com o mundo material e social. Nas suas imagens, posturas,
gestos, emoções e outras iniciativas, o corpo é vivido e construído em reação
(que pode ser não apenas conformação) ao contexto tal como o perceciona
(material e simbolicamente) nas suas estruturas e organização.
Nesta perspetiva, pode dizer-se que a carnalidade, enquanto estrutura material
com propriedades, funcionalidades e capacidades que lhe são próprias, encarna a
corporeidade. Nesta perspetiva, poder-se-ia questionar com Marzano-Parisoli que
papel joga a encarnação na vida social das pessoas: entre as condições que
fazem com que eu seja a pessoa que eu sou, encontra-se o facto de eu ser
constituída por este corpo e não outro, responde a autora (Marzano-Parisoli,
2002, pp. 3-4). Cada pessoa existe no mundo enquanto ser carnal entre outros
seres carnais, na sua espacialidade, volume e materialidade. Por outro lado, é
da encarnação que emergem e se manifestam os desejos, sensações e emoções: não
há desejo ou emoção num espírito desencarnado, porque desejos e emoções
requerem a expressividade do corpo e a existência de nós mesmos como criaturas
carnais (Marzano-Parisoli, 2002, p. 8).
Da proposta da encarnação tal como é formulada porSelgas (1994), advém a
vantagem de sistematizar o duplo movimento de incorporação e de excorporação
reciprocamente implicado. Etimologicamente, a encarnação concerne ao movimento
de entrar em carne, integrando a ideia de que existe uma conexão, uma
retroalimentação entre o espiritual (cultural ou simbólico) e o carnal
(corporal ou material) (Selgas, 1994, p. 63). Assim sendo, enquanto a
utilização do conceito de incorporação tende a apenas aludir metaforicamente ao
corpo, já o conceito de encarnação implica uma personificação, colocando em
perspetiva a relação implicada e vivida do corpo com os processos de construção
de identidades sociais e pessoais. Ao mesmo tempo que o corpo físico é
constrangido na sua perceção e tratamento pelo corpo social, qualquer que seja
a configuração do corpo também é configuração da identidade, condicionando o
modo como a vida é vivida e a experiência social é construída.
Olhar para os fenómenos de encarnação não implica, portanto, uma abordagem
morfogenética, que vê as interações entre corpo e ambiente como respostas não-
sociais a realidades não sociais. Longe disso, trata-se de assumir que o corpo
humano, enquanto organismo visível e sensório-motor, exerce também os seus
constrangimentos e disponibiliza as suas potencialidades quer no exercício da
agência humana, quer na reprodução das estruturas, isto na medida em que o seu
design físico, necessidades homeostáticas e capacidades sensoriais impõem
limitações estritas sobre as capacidades de movimento e perceção da agência
humana (Giddens, 1984, p. 111). Por consequência, há que prestar atenção às
componentes encarnadas da agência social, aos poderes criativos e dinâmicos
devedores da própria carnalidade, capazes de afetar a ação, a reprodução e a
transformação das estruturas sociais.
Assumindo o realismo carnal do corpo como estrutura viva e dinâmica em
interação com o meio físico e social (Shilling, 2008), o conceito de encarnação
efetua um movimento conceptual que facilita a superação entre agência e
estrutura:
[ ] ressaltar o caráter encarnado' da nossa identidade e da nossa
experiência, e centrar a atenção na constituição dos agentes sociais,
conduz-nos a ver as duplas naturezas que habitam o nosso corpo: é
carne e osso, mas também entidade social; é símbolo primeiro do self,
mas também da comunidade; é algo que temos e algo que somos, que nos
tem; é individual e único, mas também é comum a toda a humanidade; é
ao mesmo tempo objeto e sujeito. Com ela [a encarnação] também se
reforça a necessidade de admitir que o nosso vínculo cognitivo mais
direto com o exterior, com o mundo, é em si mesmo uma construção
social, isto é, que a nossa estruturação sensorial e experiencial
varia socio-historicamente e ela afeta necessariamente todo o nosso
conhecimento, incluindo o que criamos como sociólogos ou sociólogas
do corpo [Selgas, 1994, p. 45].
Esta posição sugere a necessidade e a possibilidade de prosseguir o trabalho
sociológico sobre o corpo seguindo por uma via que evita quer a dissolução do
corpo material em construtivismos extremos, quer o retorno ao essencialismo e
naturalismo biológico. Não sendo o corpo apenas uma fundação natural, tão pouco
uma mera superfície passiva sobre a qual os sentidos são determinados por
sistemas de significação e/ou de relações de poder, trata-se de uma
possibilidade de analisar o corpo como interface entre material e simbólico,
entre experiência e representação (Budgeon, 2003, p. 36), onde os seus limites
propriamente físicos são desafiados e as suas capacidades potencializadas no
decorrer da vida social
Deixando para trás anteriores conceções do corpo como mera superfície legível
de inscrição biológica, social ou discursiva (conforme os determinismos), a
análise direciona-se no sentido da recuperação das experiências vividas por um
corpo que existe de facto, vivo e em devir, nas suas propriedades objetivas,
potencialidades concretizáveis e limitações concretas em determinadas práticas
e usos do mesmo, simbolicamente enquadrados por representações, valores,
ideais, tabus, expectativas normativas ou transgressivas socialmente produzidos
e contextualizados (Joyce, 2005).
O impacto desta perspetiva na sociologia inaugurou um novo paradigma nos
estudos sociais sobre o corpo, o qual, por contraposição aos paradigmas
naturalista e construtivista, poderá ser designado de paradigma animista, no
sentido em que reúne um conjunto de abordagens sociológicas que tentam dar vida
(anima) à carne, anteriormente resumida à condição epistemológica de
discurso, material ou ideal: uma sociologia carnal(Crossley, 1995; Wacquant,
2003a, 2003b), corpórea (Burkitt, 1999) ou encarnada (Marzano-Parisoli, 2002;
Selgas, 1994), aproximações sociológicas que, de formas conceptualmente
diversas, traduzem modos de conhecimento da sociedade que passam pelo seu
conhecimento erótico (Sirost, 2000), pela sua razão sensível (Maffesoli, 1996),
pela sua mediação somática (Lock, 1993), por uma hermenêutica carnal(Jung,
1996), ou por um realismo carnal (Shilling, 2008).
Os conceitos de corpo vivido e de encarnação explorados neste paradigma
trazem para o centro da discussão sociológica o pressuposto da indivisibilidade
entre o sujeito e a sua carne, ultrapassando dualidades e dualismos enraizados
na história do pensamento sobre o corpo. O corpo vivido não é apenas uma coisa
no mundo, mas a forma através da qual o mundo acaba por ser (comes to be)
(Leder, 1992, p. 25). Não é um objeto inerte entre outros objetos, mas, ele
próprio, um sujeito que experimenta e produz o mundo. A perspetiva animista
torna assim possível entender as forças ativas do corpo no mundo (Lingi,
1994, p. 2), nomeadamente no mundo social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao admitir-se que a referência corporal está na base de toda a experiência
social e cultural, enquanto mediadora das relações, das práticas, dos
discursos, das apropriações do outro e do mundo, as respetivas consequências
sociológicas devem ser consideradas. A primeira é de ordem epistemológica:
enquanto unidade constitutivada existência humana, é a partir do corpo que se
opera, simultaneamente, a nossa encarnação no mundo e a incorporação do mundo
em nós. Os indivíduos precisam de adquirir ou incorporar as estruturas ou os
esquemas sociais da sociedade que os integra (como a linguagem, por exemplo),
para que se tornem nos agentes que são. Mas essas estruturas e esquemas apenas
existem na medida em que são encarnadosnas ações dos próprios e nas de outros
agentes que lhes pré-existem (através da fala, por exemplo), sendo a respetiva
encarnação o que dá vida àquelas mesmas estruturas e que facilita a sua
reprodução. É nesta perspectiva que os seres humanos, argumenta Merleau-Ponty,
estão numa espécie de circuito com o mundo social (1964, p. 123).
Na interseção da relação e da praxis, da linguagem e do símbolo, da instituição
e da contestação, da perceção e da ação, da sensação e da emoção sobre o mundo,
o corpo acaba por assumir, em termos sociológicos, não apenas o estatuto
epistemológico de objeto de poder, mas também de locus de ação (Crossley, 1996,
p. 104; Frank, 1995 [1991], pp. 48-49). Daí a necessidade de trazer não só a
carnalidade à sociologia, como de repensá-la de uma forma ativa, entendendo o
corpo na sua concretude, não apenas como produto de estruturas sociais e
culturais, mas também como agente social, como ator e enjeu (Berthelot, 1987,
p. 7), como operador social ativo(Crossley, 1996, p. 99).
Como Crossley argumenta na sua proposta de uma sociologia carnal(1995), uma
sociologia que dê conta não apenas da experiência objetiva da incorporação, mas
também do que os sujeitos experimentam subjetivamente desse processo, partindo
do exame das bases necessariamente encarnadas dos constituintes praxiológicos e
simbólicos da ação social. Uma sociologia que dê conta do modo como as pessoas
respondem corporalmente às estruturas sociais, e de como estas últimas são
formatadas por selves sensóriosesensuais (Shilling e Mellor, 1996, p. 2),
compreendendo e explicando como as normas, valores e constrangimentos sociais
são subjetivamente experimentados nos terrenos sensual e sensorial. Ainda que a
experiência corporal seja formatada pelas estruturas prevalecentes, não é
irredutível a essas mesmas estruturas, na medida em que os indivíduos podem
experimentar e responder ao contexto social em que emergem, questionando
(distanciando-se e criticando como objetos que necessitam de ser transformados)
ou naturalizando (através da sua rotinização e reprodução) as respetivas
estruturas, no sentido reflexivo ou cognitivo vulgarmente atribuído a esses
termos (Shilling e Mellor, 1996, p. 4; Shilling, 2001, p. 336).
Nesta perspetiva, a sociologia do corpo, de estatuto fluído e controverso, de
conceitos indecisos e metodologia tateante, acaba por obter um privilegiado
interesse heurístico: participar numa sociologia que parta não apenas do seu
campo de análise habitual (instituições, classes, grupos, etc.), mas,
paralelamente, de formas e manifestações sociais mais anódinas, permitindo
devolver dimensões aos fenómenos sociais que, noutras aproximações, seriam
difíceis de captar, e por aí dar conta de alguns novos problemas sociológicos.
Por outro lado, enquanto pólo de análise conceptual, o corpo emerge como um
lugar privilegiado de reflexão sobre dualismos recorrentes na tradição moderna
das ciências sociais: natureza/cultura, material/simbólico, indivíduo/
sociedade, corpo/mente, ação/estrutura, resistência/poder, razão/emoção, etc.
Deste modo, ao seu estatuto de operador social nas formas que assume e nas
ações para que é convocado, junta-se o de operador epistemológico(Berthelot,
1983, p. 121; 1987, p. 7; 1992, p. 15): não apenas um objeto a conhecer, mas um
meio de conhecimento, pela possibilidade que confere em, através dele,
(re)conhecer as formas de poder que o social imprime na natureza, ou ainda o
modo como recursos, capacidades e atributos que lhe são naturais são
socializados e/ou explorados socialmente.