Desigualdades digitais: Acesso e uso da internet, posição socioeconómica e
segmentação espacial nas metrópoles brasileiras
INTRODUÇÃO
As Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) estão a produzir
transformações na vida económica, social e cultural em diversos países e, como
veremos, o Brasil está a ser velozmente inserido nesta dinâmica de mudança
societária.1 Muito tem sido escrito e debatido sobre o caráter democratizador
destas mudanças, em razão de a disseminação dos equipamentos e meios de uso das
TIC promover amplo acesso a condições de maior participação social, política e
económica.
O objetivo central neste trabalho é avaliar se a difusão nas metrópoles
brasileiras do acesso às oportunidades abertas por meio da principal dessas
tecnologias ' a internet ' vem sendo condicionada ou não pelas nossas
históricas desigualdades sociais e também pela segmentação territorial.
Buscaremos avaliar em que medida as possibilidades de acesso e as habilidades e
condições necessárias ao uso da internet são influenciadas pela posição social
dos indivíduos ' especialmente em termos de renda e educação, tomadas como
proxy de capital económico e capital cultural (Bourdieu, 2008) ' e pela
localização da sua residência em áreas de periferia e/ou favelas
metropolitanas.
Dessa forma, procuraremos compreender a estratificação do acesso e capacidade
de uso da internet, partindo do pressuposto ' baseado na literatura
especializada e em trabalhos empíricos, sobre os quais teceremos comentários
mais aprofundados na próxima secção ' de que ter acesso e saber utilizar a
internet pode levar ao aproveitamento de diversas oportunidades com efeitos
significativos sobre a trajetória dos indivíduos e as suas condições de
mobilidade e acesso a recursos materiais e imateriais. Assim, caso se confirme
a hipótese de que tais oportunidades estão a ser monopolizadas pelas camadas
já dominantes da população, poderemos concluir que nas metrópoles brasileiras o
desenvolvimento e disseminação da internet, nos atuais moldes, ao invés de
combater, tem na verdade encorajado a reprodução das desigualdades sociais.
Nas próximas secções fundamentaremos as questões aqui propostas com base numa
sumária revisão da bibliografia. Em seguida analisaremos, por meio de
estatísticas descritivas e multivariadas, as condições de acesso ao
microcomputador e à internet nas principais regiões metropolitanas
brasileiras. Na secção subsequente trataremos dos diferentes tipos de uso da
internet. Por fim, na conclusão discutiremos os resultados mais gerais da nossa
análise buscando interpretá-los à luz das referências teóricas sobre esta
matéria.
IMPACTOS SOCIETÁRIOS DAS TIC: BREVE REVISÃO DA LITERATURA
A constante revolução tecnológica dos meios e serviços de produção, difusão e
acesso a informações, aliada à vertiginosa diminuição dos seus preços, vem
sustentando no mundo a imagem de uma transformação societária na direção da
superação das conhecidas desigualdades de renda, educação, oportunidades, e da
maior democratização do poder. Os recentes acontecimentos nos países do Médio
Oriente parecem consolidar esta perceção da emergência de um mundo social mais
horizontalizado nas suas relações económicas, sociais e políticas.
Entretanto, os resultados de pesquisas sobre os impactos societários das TIC
têm gerado fundadas dúvidas sobre estas promessas. Os primeiros estudos, que em
grande parte analisavam as sociedades economicamente mais desenvolvidas, já
mostravam a estratificação do acesso às TIC. O volume de pessoas que conseguem
ter acesso a essas tecnologias vem aumentando consideravelmente; no entanto,
esses trabalhos apontam para a permanência da distância entre conectados e uma
massa de não conectados. Além disso, também se evidencia a relação entre
possibilidade de acesso às TIC e desigualdades de renda e educação. Ou seja,
essa literatura mostra que são justamente os mais abastados e escolarizados
aqueles que mais possibilidades têm de aceder às tecnologias como o telemóvel e
a internet (Wareham, Levy e Wei, 2004; Horrigan, 2006).
Nesse sentido, o sociólogo Manuel Castells, apesar de reconhecer o surgimento
de um novo tipo de organização social ' a sociedade em rede ', sem dúvida mais
aberta e horizontal do que a sociedade industrial, em diversos trabalhos tem
assinalado a emergência de novas modalidades de estratificação em muitos
aspetos mais poderosas na constituição de barreiras económicas e sociais. Como
balanço de um amplo trabalho de pesquisa realizado em vários países, Castells
(2007) menciona a possibilidade do surgimento de uma infoexclusão (p. 287) '
resultante de uma nova tecno-exclusão (p. 297) e da nova fratura do
conhecimento (p. 299).
O fundamento do seu argumento baseia-se no facto de que o novo paradigma
societário em emergência não se refere apenas ao mais amplo acesso aos meios de
produção e difusão de informação e conhecimento proporcionado pela revolução
eletrónica, mas também ' e sobretudo ' às diferenças de capacidade que os
indivíduos têm em usá-los para ter acesso às novas formas de riqueza e de poder
da sociedade em rede, cujo fundamento essencial é a estratificação da
capacidade informacional-comunicacional dos indivíduos, comunidades e
organizações (Castells, 2006). Tal capacidade dependeria de um conjunto de
condições sociais, culturais e institucionais que habilitariam comunidades e
indivíduos a exercer um poder de conectividade, isto é, de se conectarem com as
redes de circulação e acesso a informações e conhecimentos que podem constituir
recursos de poder e proporcionar acesso a diversos recursos e oportunidades.
Com efeito, cada vez mais as competências e a experiência adequadas para lidar
com essas novas tecnologias estão a tornar-se condicionadoras do acesso à
renda, riqueza e poder, consequentemente afetando a trajetória social dos
indivíduos e a reprodução das desigualdades. A maior intimidade com as mesmas
pode implicar maior facilidade e liberdade de acesso a fontes de conhecimento,
ampliação dos âmbitos de interação e das redes sociais, e acesso facilitado a
informações sobre o mercado de trabalho e notícias de emprego. Além disso, o
uso e o conhecimento das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) podem
facilitar os vínculos com a administração pública, já que atualmente muitos
serviços oferecidos pelo Estado, ou informações sobre os mesmos, podem ser
acedidos via internet. Sobre este ponto há uma série de estudos já publicados,
como veremos nos próximos parágrafos.
Se num primeiro momento esses estudos se centraram na posse de computador e,
posteriormente, da internet, nos últimos anos é o tipo de uso que tem vindo a
ganhar relevância. Obviamente que este facto está relacionado com a
popularização, ao menos nos países economicamente mais avançados, do
microcomputador com acesso à internet. No Brasil, onde, como veremos, ainda há
uma imensa parcela da população que se encontra desconectada, a posse de
microcomputador ainda é extremamente relevante para se entender a
estratificação do acesso à internet.
No entanto também pode haver muitas desigualdades mesmo entre indivíduos
conectados. Como mostra a literatura (Hargittai, 2008), o nível de
aproveitamento das possibilidades e oportunidades oferecidas pelo acesso a
estas tecnologias ' no caso, conexão à internet através de um microcomputador
no domicílio ' está diretamente relacionado com o tipo de uso que se faz delas.
É possível utilizar a internet para realizar atividades diversas, como procurar
oportunidades de emprego, vender bens, comprar bens, pesquisar preços,
pesquisar informação, ler jornais, revistas, estudar, comunicar, assistir a
competições desportivas, novelas e etc. Aproveitar mais e melhores
oportunidades oferecidas pela rede depende, é claro, do conhecimento e
competências do utilizador, o que, por sua vez, é possível que esteja
relacionado com a posição social dos indivíduos. Assim, mais uma vez, a
crescente importância do uso das TIC poderia vir a contribuir para a reprodução
das desigualdades, reforçando-a ou enfraquecendo-a.
Nesse sentido, é imprescindível entender as oportunidades abertas e os recursos
proporcionados pelo acesso e uso adequado da rede. Segundo a literatura afirma
(Hargittai, 2008, Krueger, 1993 e DiMaggio et al., 2004), parte dela baseada em
dados empíricos, o eficiente uso das TIC seria capaz de aumentar o capital
humano, económico, cultural, social e político dos indivíduos.
Em relação ao capital humano, trabalhos empíricos recentes mostraram que o uso
dessas tecnologias seria capaz de aumentar a renda proveniente do trabalho dos
indivíduos (DiMaggio et al., 2004), mesmo mantendo-se constantes outras
variáveis. Isso aconteceria porque o acesso às TIC aumentaria a eficiência,
efetividade, capacidade e qualidade do trabalho; num mercado em que cada vez
mais empregos requerem atualização constante de conhecimentos e dinamismo por
parte dos empregados, ter acesso e saber utilizar as TIC de maneira eficaz
seria uma grande vantagem, já que facilitaria a acumulação de conhecimento.
Através da internet, por exemplo, é possível descarregar tutoriais, ter
assistência online e descobrir ou aprimorar competências. Além disso, cada vez
mais vagas de empregos têm exigido dos candidatos certos níveis de conhecimento
destas tecnologias; portanto, saber utilizá-las constitui muitas vezes uma
necessidade no momento de procurar trabalho.
Mas o acesso às TIC também poderia ter efeito direto sobre a renda dos
indivíduos. Em primeiro lugar porque através da internet é possível economizar
por meio da comparação quase instantânea dos preços de serviços e produtos. Por
outro lado, através da internet também é possível vender bens e serviços com
grande facilidade e menores custos. A capacidade de fornecer informações
instantâneas sobre o mercado, como por exemplo na questão da comparação de
preços, aliada ao poder de alcance desse meio a fim de facilitar compras e
vendas, torna a rede uma ferramenta eficientíssima. Saber utilizá-la pode,
dessa forma, ter efeitos diretos sobre o rendimento dos indivíduos.
Mas o efeito mais evidente dessas tecnologias talvez seja sobre o capital
social dos indivíduos. Através delas é possível contactar pessoas e trocar
informações. Messengers, redes sociais e e-mail reduzem distâncias e facilitam
a comunicação entre pessoas que espacialmente e socialmente podem estar
distantes. Na internet há, por exemplo, serviços de procura de emprego que
facilitam, por parte das empresas, encontrarem o perfil de empregado desejado
e, por parte dos candidatos, conseguirem um emprego. Assim, num curto espaço de
tempo o candidato consegue entrar em contacto e enviar o seu currículo para um
grande número de empresas. Por outro lado, os empregadores também obtêm
vantagens no momento de selecionar os novos empregados.
Também em relação ao capital cultural, as TIC podem trazer grandes benefícios.
O grande volume de informações disponíveis em rede permite que o utilizador se
familiarize com cidades, países, obras de arte, filmes, restaurantes ou museus,
mesmo que nunca tenha ido a esses lugares, visto esses filmes, ou visitado tais
museus. Assim, há grandes e amplas oportunidades para aumentar os
conhecimentos. Além disso, a posse de computador com acesso à internet nos
domicílios tem-se mostrado um importante fator na explicação dos diferenciais
de desempenho escolar de crianças, adolescentes e jovens (Kaztman, 2010). Com
efeito, a utilização dessas tecnologias não apenas pressupõe, como estimula e
facilita, o acréscimo de conhecimento/capital cultural, e tem sido cada vez
mais relevante na educação e vida escolar de crianças e jovens (Castells, 2007;
Kaztman, 2010).
Por fim, o acesso a essas tecnologias também pode ser importante no
desenvolvimento da cultura cívica (Inglehart, 1988), através de fóruns de
discussão, acesso a notícias e informações. Além disso, diversos serviços
oferecidos por instituições públicas podem, ou devem, ser acedidos via
internet. Atualmente é possível, por exemplo, acompanhar processos na justiça,
pagar contas, solicitar documentos ou realizar diversos outros serviços através
da internet.
Dessa maneira, o acesso a essas tecnologias pode levar ao aproveitamento de
diversas oportunidades. Mas, caso as oportunidade de acesso sejam dominadas
pelas parcelas já privilegiadas da população, o desenvolvimento das TIC pode
vir a contribuir para a reprodução das desigualdades. Assim, o desenvolvimento
e difusão da internet pode não conduzir necessariamente a uma maior
democratização social.
Como base nestas referências, podemos agora enunciar melhor os propósitos que
orientam este trabalho. Temos como objetivos verificar, em primeiro lugar, as
desigualdades de acesso à principal dessas tecnologias ' a internet ' em
relação a fatores como os rendimentos, a escolaridade e, também, o local de
moradia. Como o acesso à internet no domicílio depende da posse de
microcomputador, e, como veremos a seguir, no Brasil ainda há um grande grupo
de domicílios sem esse equipamento, trabalharemos em dois níveis: primeiro
tendo como variável dependente a posse de microcomputador e, em seguida, o
acesso à internet. Entretanto, como afirma Castells (2007), o acesso à internet
é necessário, mas não suficiente, para resolver a questão da infoexclusão. A
resolução desta depende também da capacidade de uso que se faz dessa
tecnologia. Assim, na última secção deste artigo trataremos dos tipo de uso que
os utilizadores fazem da internet.
Partimos da hipótese de que o pleno aproveitamento das oportunidades oferecidas
pela rede dependeria de condições materiais (renda, localização geográfica e
etc.) e imateriais (disposições culturais, conhecimento, informações), que são
desigualmente distribuídas entre a população. Por essa razão, é possível que os
setores já dominantes da sociedade sejam justamente aqueles que tiram maior
proveito dessas oportunidades, empurrando para a infoexclusão parte dos
setores populares (Castells, 2007). Além disso, como os utilizadores da
internet são ao mesmo tempo recetores e produtores das informações veiculadas
na rede, quanto maiores as dificuldades de acesso das camadas inferiores da
sociedade, quanto mais tempo elas passarem afastadas dessa tecnologia, mais a
internet se moldará ao uso dos setores dominantes, criando barreiras duradouras
à sua democratização. E mesmo que as camadas inferiores venham a ter acesso
massivo à internet, há uma boa probabilidade de que no futuro, caso a
desigualdade de acesso se mantenha presente por muito tempo, tenhamos uma
divisão entre utilizadores ativos (não apenas recetores, mas também produtores
de informação) e utilizadores passivos (meros recetores).
Testaremos, portanto, a hipótese de que seriam justamente aqueles domicílios
com maior nível de capital económico e cultural aqueles com maiores
possibilidades de acesso e maior capacidade de uso da internet. Caso tal
hipótese seja confirmada, poderemos argumentar que, ao invés de influenciarem
no sentido da horizontalização das relações sociais, as oportunidades
oferecidas pelas Tecnologias da Informação e Comunicação ' comentadas acima '
estariam a ser monopolizadas pelos setores já dominantes da população,
funcionando assim como mais um mecanismo através do qual as desigualdades
sociais se reproduziriam. Portanto, entender como se estruturam as
desigualdades de acesso a essas tecnologias torna-se fundamental.
Nas próximas secções procuraremos analisar empiricamente essas desigualdades no
Brasil metropolitano. Porém, como a tentativa de capturar os efeitos do
território sobre as desigualdades de oportunidades de acesso e uso da internet
constitui uma novidade dentro deste debate, considerámos adequado na próxima
secção tecer breves comentários sobre a literatura e as hipóteses que nos guiam
especificamente a esse respeito.
COMENTÁRIOS SOBRE O EFEITO-TERRITÓRIO
Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio (do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística), no ano de 2009 aproximadamente 8,3% dos
domicílios metropolitanos do Brasil encontravam-se em aglomerados subnormais2,
e 42,2% em periferias. Uma das novidades trazidas pelo presente trabalho é a de
analisar se, e de que maneira, a segmentação territorial expressa por esses
números poderia contribuir para as desigualdades de acesso e uso das TIC.
Partimos assim da hipótese de que ao mesmo tempo que o território expressa a
estrutura social e as suas desigualdades, ele também seria capaz de reproduzi-
las (Harvey, 1973), seja pela desigualdade de acesso a recursos materiais
(Kowarick, 1979), seja pela conformação de contextos sociais ' recursos
imateriais (Wacquant, 2001; Wilson, 1987).3
Nas últimas décadas inúmeros estudos (Wilson, 1987, 1996; Massey e Denton,
1993) ' na sua maior parte pertencentes à sociologia norte-americana ' vêm
defendendo a ideia, e tentando demonstrá-la empiricamente, de que não só os
fatores ligados aos indivíduos e às famílias de origem dos mesmos ' como
escolaridade, renda e etc. ' influenciariam as suas trajetórias sociais (em
relação à escolaridade, emprego, por exemplo). Tal literatura trabalha com a
hipótese de que a maneira como os indivíduos se encontram distribuídos no
espaço, assim como as características do local de residência e da sua
população, ou seja, a vizinhança, também seriam elementos que deveriam ser
levados em conta nos estudos sobre reprodução das desigualdades, seja pelas
restrições impostas pelo espaço à capacidade de os indivíduos aproveitarem
certos serviços/recursos, seja pelo papel da vizinhança sobre a socialização
dos mesmos (Jencks e Mayer, 1990; Brooks-Gunn etal., 1997; Sampson e Morenoff,
2002; Small e Newman, 2001).
Ao comentarem os estudos até então publicados sobre o tema ' efeito
território ', Small e Newman (2001) afirmam que os autores costumam seguir por
dois caminhos distintos: alguns partem da ideia dos mecanismos de socialização
bairral, e acreditam que as características da vizinhança condicionariam as
ações dos seus moradores através de formação de contextos sociais homogéneos;
outros preferem fazer as suas análises através do prisma dos mecanismos
instrumentais, explorando a maneira como as ações individuais são limitadas
pelas condições objetivas e os serviços oferecidos no bairro. Desta maneira,
o espaço poderia contribuir para a reprodução das desigualdades através de dois
mecanismos: o primeiro ligado à relação entre a localização dos grupos sociais
no espaço e a distribuição dos bens ou serviços públicos e privados; e o
segundo relacionando-se com as desvantagens criadas pela formação de contextos
sociais homogéneos, em que os comportamentos não-virtuosos poderiam ser
encorajados.4
Assim, o local de residência seria importante tanto pela formação de contextos
sociais positivos/negativos quanto pela facilidade/dificuldade de acesso a
serviços e instituições (Small e Newman, 2001). Em geral essas pesquisas estão
mais voltadas para o efeito do território sobre a escolaridade ou o desemprego
(Brooks-Gunn etal. 1997; Sampson e Morenoff, 2002), mas aqui lançaremos
hipóteses sobre os seus possíveis efeitos em relação ao acesso e capacidade de
uso da internet. Em primeiro lugar, perguntamo-nos se a formação de contextos
sociais concentradores de famílias em situação de desvantagem (como as favelas
localizadas nas metrópoles brasileiras) poderia diminuir as probabilidades de
acesso e, principalmente, o aproveitamento dessas tecnologias; em segundo
lugar, investigaremos se a localização dos domicílios em áreas periféricas
(afastadas do centro) poderia também influenciar o acesso à internet. Assim,
tomaremos a localização dos domicílios em área de favela e/ou periferia como
indicadores através dos quais buscaremos analisar o efeito-território.
Podemos encontrar nas metrópoles brasileiras um modelo de estratificação
socioespacial em dupla escala. De um lado, em escala macro, temos a
conformação de núcleos e periferias metropolitanas; de outro, em escala
micro, temos a conformação de favelas ' muitas vezes incrustadas em áreas
abastadas. Já sabemos, por exemplo, que os moradores de favelas e periferias
metropolitanas sofrem desvantagens educacionais, ocupacionais e de renda
(Ribeiro, Koslinski e Lasmar, 2010; Ribeiro, Correa e Rodrigues, 2010), mesmo
quando controlamos pelo efeito de diversas outras variáveis. Interessa-nos
aqui, em relação ao efeito-bairro, verificar se mesmo quando mantemos
constantes os efeitos do nível socioeconómico dos indivíduos, o facto de o
domicílio se localizar em área de favela ou periferia poderia reduzir as suas
oportunidades de acesso e capacidade de uso dessas tecnologias.
METODOLOGIA
Os dados utilizados na elaboração das análises que fundamentam este artigo são
provenientes da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios (PNAD)5, do
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que desde 2001 fornece
informações a respeito da posse de computadores e conexões de internet. Dessa
maneira, foi possível ter à nossa disposição dados que cobremquase a última
década inteira ' que, como sabemos, apresentou transformações importantes no
mercado de trabalho e distribuição de renda (Barros etal., 2010) ', e mostrar
informações a respeito das mudanças na distribuição do acesso à internet entre
as diferentes camadas sociais nos últimos anos. Além disso, utilizamos algumas
informações do suplemento da PNAD 2008, que contem dados complementares a
respeito deste tema, como o tipo de uso que os indivíduos fazem dessas
tecnologias, o que contribuirá para aprofundar as nossas análises.
Além das estatísticas descritivas trabalharemos com modelos de regressão logit,
cujas variáveis dependentes serão: a posse ou não de computadores no domicílio,
e a existência ou não de conexões de internet nos mesmos; e como variáveis
independente teremos a idade (em anos), género (sendo feminino a referência),
cor (sendo não branco a referência), região (sendo norte e nordeste a
categoria omitida)6, renda domiciliar de todas as fontes (logaritmo natural),
escolaridade (em faixas, sendo até quatro anos de estudo a categoria de
referência), o conjunto de dummies correspondente às categorias sócio-
ocupacionais7 (sendo os profissionais de nível superior a categoria omitida)
e as variáveis indicadoras da localização do domicílio em área de favela (sendo
bairro a referência) e de núcleo (sendo periferia a referência)
metropolitano.8 Na última secção construiremos uma tipologia de tipos de uso da
internet e rodaremos um modelo logit multinomial a fim de verificar os fatores
que influenciam as possibilidades de os indivíduos pertencerem a cada um dos
tipos de utilizador.
Como será melhor explicado adiante, os modelos logit, referentes à presença ou
não de computador e internet nos domicílios, foram construídos a partir das
informações sobre a pessoa de referência no domicílio; já o modelo multinomial,
sobre os tipos de uso, foi construído a partir de informações individuais. O
recorte adotado em todo o artigo é o Brasil metropolitano, entendido como o
conjunto das regiões metropolitanas pesquisadas pela PNAD: Belém, Fortaleza,
Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba, Porto
Alegre e Brasília (apenas DF).9
ACESSO AO MICROCOMPUTADOR E À INTERNET NO BRASIL METROPOLITANO
Começaremos por analisar o acesso ao computador e à internet nos domicílios
metropolitanos. No entanto, como pode ser argumentado, há outros locais nos
quais os indivíduos podem ter acesso a essa tecnologia, como os domicílios de
parentes, no trabalho, no estabelecimento de ensino, em centros públicos de
acesso pago ou gratuito, por exemplo. O nosso recorte justifica-se pelo peso
que o acesso à internet no próprio domicílio possui atualmente. Dados do ano de
2008 (PNAD ' IBGE), para as mesmas regiões metropolitanas, mostram que entre as
pessoas que acederam à internet nos últimos três meses, mais de 65% o fizeram
no próprio domicílio; e essa percentagem sobe para mais de 98% quando tratamos
apenas daquelas que possuíam acesso à internet no domicílio. Em segundo lugar
vinha o local de trabalho, cujas cifras ficavam, respetivamente, em 33% e 37%.
Ou seja, ainda é através do acesso no próprio domicílio que a grande maioria da
população se liga à internet, e por essa razão acreditamos que possuir
microcomputador e conexão à rede no próprio domicílio deve merecer a nossa
atenção, apesar de haver outros locais nos quais os indivíduos possam também
conectar-se à internet.10
Segundo os dados da PNAD, entre os anos de 2001 e 2009 houve um aumento
substantivo na percentagem de domicílios metropolitanos com computador. Se no
ano de 2001 os números rondavam os 19,9%, em 2009 sobem para 46,1%. Ou seja,
mais que duplica a percentagem de domicílios com computador nesse período. Em
2001, dos domicílios que tinham computador, 72,9% também tinham acesso à
internet; já em 2009 esse percentual sobe para 83%, constituindo um aumento de
mais de 10%.
Portanto, nos últimos anos houve um crescimento considerável da proporção de
domicílios com microcomputador e internet no Brasil metropolitano. Por outro
lado, quase 54% dos domicílios continuavam sem microcomputador em 2009. E dos
domicílios que tinham computador, mais de 15% ainda não possuía internet. O
mais grave, no entanto, como veremos, é que estas percentagens não se
distribuem uniformemente pelas diferentes camadas sociais; há grandes
desigualdades nas oportunidades de acesso a essas tecnologias. Analisando em
termos da distância entre os setores mais ricos e mais pobres da população, o
acesso às TIC ainda é bem maior nos grupos de renda mais alta dos domicílios
metropolitanos. Os gráficos n.º_1 e n.º_2 mostram as desigualdades no acesso a
computadores e internet segundo os quintis de renda.
Segundo os referidos gráficos, no ano de 2001, por exemplo, 59% dos domicílios
no quintil mais rico da população (Q5) possuíam computadores; em 2009 essa
percentagem subiu para 86%. Para o quintil mais pobre (Q1) os valores ficaram
em 1,6% em 2001 e 13% em 2009.
Em relação ao acesso à internet ' dada a posse de computador ' também é
possível notar grandes desigualdades. Em 2001, 81% dos domicílios no quintil
mais rico da população que possuíam computador, tinham também acesso à internet
(gráfico_n.º_2); em 2009 esse valor subiu para 93%. Para o segundo quintil mais
pobre as percentagens ficaram em 37% em 2001 e 67% em 2009. Assim, nos últimos
anos verificamos, para todos os quintis de renda, um aumento significativo de
acesso ao computador e à internet. Além disso, em termos proporcionais foram os
quintis mais pobres aqueles que mais aumentaram o seu acesso a essas
tecnologias, o que pode estar relacionado com o aumento do montante de renda
dessas camadas nos últimos anos (Barros etal., 2010).11
No entanto, vimos também que ainda há grandes desigualdades nas oportunidades
de acesso ao computador e à internet entre os setores mais ricos e mais pobres
da população. A seguir analisaremos, através de modelos multivariados, quais os
principais fatores conformadores dessas desigualdades.
No quadro_n.º_1, temos os resultados dos nossos modelos logit, cujas variáveis
dependentes são a posse de microcomputador e o acesso à internet no domicílio '
dada a existência do microcomputador. Apesar de notarmos que variáveis de
controleo como a cor, o género, a idade e a região geográfica possuem
efeitos significativos sobre as possibilidades de acesso ao computador e/ou à
internet, concentraremos a nossa análise nas características socioeconómicas e
socioespaciais.12
Em relação à escolaridade observámos que quanto maior a escolaridade do chefe
de domicílio, maiores são as probabilidades de ter acesso a um computador.Os
domicílios com chefes com 12 anos e mais de escolaridade, quando comparados com
os grupos dos que tinham até 4 anos de escolaridade, apresentaram 4,12 vezes
mais probabilidade de ter computador no domicílio. Observamos que quanto mais
elevado o nível educacional do chefe de domicílio, maiores também são as
chances de possuir conexão à internet no domicílio ' dado que possui
microcomputador. Os domicílios com chefes com 12 anos e mais de escolaridade,
comparados com os grupos dos que tinham até 4 anos de escolaridade,
apresentaram 3,03 vezes mais possibilidades de ter internet no domicílio.
O resultado da renda também foi positivo e bastante acentuado, quanto maior a
renda maior as probabilidades de posse de computador no domicílio. Cada unidade
a mais no logaritmo da renda aumenta em 268% a probabilidade de o domicílio
possuir microcomputador. Quanto maior a renda maiores também as chances de
posse de conexão à rede no domicílio; cada unidade a mais no logaritmo da renda
aumenta em 121% a probabilidade de o domicílio possuir acesso à internet.13
Em relação ao território, o facto de o domicílio se localizar em área de favela
reduz a sua probabilidade de ter computador em 37%; por outro lado, o facto de
o domicílio se encontrar no núcleo, e não na periferia da metrópole, aumenta
essa chance em 24%. Portanto, os moradores da periferia, e principalmente das
favelas, têm menos probabilidade de possuír computador. Também encontramos a
presença do território como uma forma de barreira no acesso à internet. Apesar
de a localização na favela não produzir efeitos significativos neste caso, o
facto de o domicílio se localizar no núcleo aumenta em mais de 60% as
probabilidades de estar conectado à internet ' dado que possui computador.
Os dados apresentados acima evidenciam que tanto o nível socioeconómico quanto
a localização socioespacial constituem critérios importante de nivelamento no
que diz respeito à posse de computador e acesso à internet. São justamente
aqueles domicílios com maior aporte de recursos materiais (rendimentos) e
imateriais (escolaridade), localizados fora de favelas e nos núcleos
metropolitanos, aqueles com maiores probabilidades de acesso às oportunidades
oferecidas pela internet. No entanto, a fim de expor mais claramente os
resultados trazidos pelo modelo, inserimos alguns gráficos com simulações de
probabilidades preditas a respeito dos resultados que consideramos mais
interessantes, o que nos ajudará na interpretação dos dados trazidos pelo
modelo.14
Os gráficos atrás ajudam-nos a entender melhor a dimensão dos efeitos das
variáveis socioeconómicas e territoriais, mantendo-se constantes todas as
demais variáveis. Através dos gráficos n.º_3 e n.º_4 podemos ter acesso aos
efeitos da escolaridade e da renda sobre a posse de computador e acesso à
internet. Enquanto o efeito da renda (cujos valores expostos correspondem aos
intervalos dos quintis de sua distribuição) deve ser visualmente mensurado pelo
grau de inclinação das retas, o efeito escolaridade deve ser graficamente
identificado pelo espaço entre as diferentes retas. Em primeiro lugar, devemos
destacar que tanto a renda como a escolaridade possuem efeitos bastante agudos.
É possível perceber, em segundo lugar, que tanto o efeito renda quanto o
efeito escolaridade são mais acentuados em relação à posse de microcomputador
do que em relação ao acesso a internet, já que no primeiro gráfico encontramos
uma maior inclinação e um maior espaço entre as retas. Ou seja, no Brasil a
barreira socioeconómica de acesso à internet no domicílio inclui aspetos
materiais (renda) e imateriais (escolaridade), e encontra-se mais presente
sobre a posse de microcomputador do que sobre o acesso à internet.
Já os gráficos n.º_5 e n.º_6 traduzem os efeitos do território, cruzando-os com
variações de renda. Enquanto no gráfico_n.º_5 o espaço entre as linhas expressa
graficamente o efeito-favela sobre as probabilidades de o domicílio possuir
microcomputador, no gráfico_n.º_6 podemos ter acesso ao efeito-periferia
sobre as probabilidades de possuir acesso à internet. Vemos que em ambos os
casos, mesmo quando mantemos constantes todos os outros fatores incluídos no
nosso modelo, encontramos evidências significativas do efeito-território '
expresso pelo gap entre as linhas dos dois gráficos em questão.
Em relação ao gráfico_n.º_5 acreditamos que reflita o efeito de contexto gerado
pela concentração espacial de uma população em desvantagem. É possível que o
isolamento social da população moradora em favelas, ao colocar em contacto
famílias de nível socioeconómico próximo, crie um meio-social desvantajoso, em
que a posse de computador não seja tão valorizada como noutros contextos
sociais. Já a vantagem do núcleo sobre a periferia no que diz respeito à
conexão de internet ' expressa no gráfico_n.º_6 ', deve ser explicada por outro
efeito do território, mas sem ligação à criação de contextos sociais ' ou
recursos imateriais ', mas sim à desigualdade de acesso a recursos e serviços
materiais. Sabemos que as periferias metropolitanas costumam sofrer com a
escassez de serviços coletivos e equipamentos de infraestrutura. É provável que
também haja maior dificuldade, nessas áreas, de se encontrar provedores de
acesso à internet.
Assim, através das análises realizadas até ao presente momento, vimos que no
Brasil ainda há uma grande massa de não conectados, e que a principal
barreira em relação ao acesso à internet nos domicílios ainda se encontra na
questão da aquisição do microcomputador. As camadas mais privilegiadas da
população, com maiores níveis de capital económico e cultural, apresentam mais
probabilidade de possuírem tal equipamento e, uma vez possuindo-o, de se
conectarem à internet. Além disso vimos que a segmentação espacial também
contribui para a conformação desse contingente de não conectados.
Dessa forma, concluímos que há grandes barreiras sociais em relação ao acesso à
internet. Mas, como já tivemos oportunidade de dizer, o pleno aproveitamento
das oportunidades oferecidas pelas TIC depende também da competência de uso dos
utilizadores. Na secção seguinte verificaremos se além das barreiras de acesso
haveria também grandes diferenças na capacidade de uso que se faz da internet,
e procuraremos avaliar quais os fatores condicionantes dessas diferenças.
TIPOS DE USO DA INTERNET
No suplemento de 2008 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, além da
existência da variável sobre o acesso ao computador e à internet, foram
introduzidas variáveis que diziam respeito ao tipo de uso da internet nos
últimos três meses no período de referência da pesquisa. Este suplemento
forneceu-nos uma chave para compreender um pouco mais como os diferentes grupos
sociais têm lidado com o conhecimento e técnica na utilização da internet.
Os tipos de uso captados por esse suplemento foram: educação ou aprendizagem
(pesquisa, educação à distância, etc.); comunicação com outras pessoas ' quando
a pessoa utilizou a internet para comunicar com outras pessoas (por meio de
correio eletrónico, sala de bate-papo (chat), página de relacionamento,
programa de mensagem instantânea, blog, fotolog,etc.); atividade de lazer '
quando a pessoa utilizou a internet para atividades de lazer (ouvir músicas ou
programas de rádio, assistir a programas de televisão ou vídeos, jogar,
descarregar arquivos de músicas, vídeos ou jogos, etc.); leitura de jornais ou
revistas ' quando a pessoa utilizou a internet para ler jornais e revistas;
interagir com autoridades públicas ou órgãos do governo ' quando a pessoa
utilizou a internet para interagir com autoridades públicas ou órgãos do
governo (requisitar documentos; enviar declaração do imposto de renda ou outros
formulários; agendar exames, consultas ou entrevistas etc.); comprar ou
encomendar bens ou serviços ' quando a pessoa utilizou a internet para comprar
ou encomendar algum bem ou serviço; transações bancárias ou financeiras '
quando a pessoa utilizou a internet para efetuar transações bancárias ou
financeiras (home banking); pesquisar informações e outros serviços ' quando a
pessoa utilizou a internet para procurar informações ou outros serviços
(procurar emprego, enviar currículo, etc.).15
Grande parte dos utilizadores (84%) usou a internet para comunicar com outras
pessoas; uma porção razoável fez uso da internet para atividades de lazer
(63,%), educação e aprendizagem (59%) e leitura de jornais ou revistas (58%);
36% das pessoas utilizaram a internet para pesquisar informações ou outros
serviços; e cerca de 22% das pessoas navegaram na rede para comprar ou
encomendar bens ou serviços, 23% para realizar transações bancárias ou
financeiras e 23% a fim de interagir com autoridades públicas ou órgãos do
governo.
De forma a facilitar a análise criamos uma tipologia de tipos de uso da
internet.16 O primeiro tipo, que denominamos básico, corresponde a 47% da
amostra (7 411 687 casos expandidos); já o segundo tipo, denominado
intermediário, agrupa 33,1% da amostra (5 222 522 casos expandidos); por fim
o terceiro grupo, avançado, corresponde a 19,9% da amostra (3 137 509 casos
expandidos).
O gráfico_n.º_7 descreve a tipologia criada de acordo com os tipos de uso. O
gráfico deixa clara a diferença de tipos de uso da internet existentes entre os
três grupos por nós criados. Vemos que o primeiro grupo, básico, tende a
realizar em menor grau as atividades listadas; além disso, nesse grupo
predomina a realização de atividades mais simples, já que há pouca frequência
de atividades como compras, transações bancárias, interação com órgãos do
governo e busca de informações e serviços; o seu uso da internet restringe-se,
em especial, à comunicação com outras pessoas (com grande supremacia nesse
grupo), educação, leitura e lazer. O grupo intermediário, por sua vez, apesar
de apresentar um perfil de uso semelhante ao primeiro, possui uma tendência
muito maior do que aquele para realizar as atividades listadas, principalmente
no que se refere à comunicação, educação, leitura (jornais e revistas) e lazer.
Além disso, aumenta também a participação em atividades mais avançadas, como
compras online, transações bancárias e interação com órgãos governamentais. No
entanto, é o terceiro grupo, avançado, que realiza com frequência as
atividades mais diversas, inclusive as últimas citadas (transações bancárias,
compras e interação com órgãos governamentais), que exigem um conhecimento mais
aprofundado dessa tecnologia.
Assim, a nossa tipologia baseia-se na intensidade e diversidade da realização
de diversas atividades ' algumas mais simples (como comunicação e lazer),
algumas intermediárias (como educação, leitura e informações) e outras
avançadas (como compras online, transações bancárias e interações com órgãos
governamentais). A partir desses eixos conseguimos, portanto, fazer uma
diferenciação entre utilizadores básicos, intermediários e avançados.
Como já tivemos a oportunidade de dizer no início deste artigo, quanto maior a
competência do utilizador para fazer uso dessas tecnologias, mais oportunidades
ele poderá extrair delas. No entanto, caso esta se concentre nos grupos do topo
de nossa escala social, maior será a influência das TIC sobre a reprodução das
desigualdades. Interessa-nos saber, portanto, quais os fatores que influenciam
as probabilidades de o indivíduo pertencer a cada um dos três grupos, a fim de
verificar uma possível estratificação das capacidades de uso da internet mesmo
entre indivíduos conectados. Seguindo Castell (2007), a nossa hipótese aqui
é a de que o pleno aproveitamento das oportunidades oferecidas pela rede
dependeria de condições materiais e não materiais desigualmente distribuídas
entre a população.
Por forma a fazer essa análise, testámos um modelo logit multinomial17 cuja
variável dependente é o tipo de uso, sendo a categoria básico a referência.
As variáveis independentes utilizadas foram basicamente as mesmas do modelo
apresentado na secção anterior ' sobre a posse de microcomputador e o acesso à
internet.18 O quadro_n.º_2 exprime os resultados do modelo testado.
O quadro_n.º_2 traz os coeficientes, testes de significância e dados sobre o
ajuste do modelo. No entanto, para facilitar a interpretação dos resultados, e
assim como fizemos na secção anterior, selecionámos alguns dados gerados pelo
modelo ' que consideramos os mais interessantes ' e inserimos abaixo alguns
gráficos (n.º_8, n.º_9, n.º_10 e n.º_11) com simulações de probabilidades
preditas. Tal exercício mais uma vez ajudar-nos-á na análise dos efeitos de
algumas das variáveis independentes sobre o tipo de uso da internet.19
Vemos, no gráfico_n.º_8, que quanto maior a renda20 dos indivíduos maiores as
suas probabilidades de se encontrarem na categoria avançado, e menores as de
fazerem um uso intermediário e, principalmente, básico, da internet. O
gráfico expõe um efeito renda bastante acentuado, de maneira que, se por um
lado quando fixamos os rendimentos por volta de R$500,00 as probabilidades de
uso básico são muito maiores que as demais, quando alcançamos mais ou menos
R$2800,00 as probabilidades de uso avançado ultrapassam as do tipo
intermediário e básico. Trata-se, assim, de um efeito bastante
considerável.
O mesmo pode ser dito em relação à escolaridade (gráfico_n.º_9), que também
exerce grande influência, aumentando consideravelmente as probabilidades de o
indivíduo se encontrar na categoria intermediário e, principalmente,
avançado ' diminuindo, portanto, as probabilidades do tipo básico ',
conforme caminhamos em direção aos níveis mais elevados de escolaridade.
Diferentemente do efeito renda, no entanto, o efeito escolaridade está
positivamente relacionado com a categoria intermediário. Tal resultado pode
ser explicado pelo facto de a categoria intermediário ser caracterizada por
um tipo de uso que mais pressupõe certos níveis de capital cultural, como
educação e/ou aprendizado e leitura de jornais e revistas.21
Em relação ao território, no gráfico_n.º_10 notamos que morar em favelas
diminui as probabilidades de se estar na categoria avançado e aumenta as
probabilidades de o indivíduo se encontrar na categoria básico, mesmo quando
mantemos constantes todas as demais variáveis incluídas no nosso modelo. Aqui
também a interpretação desses efeitos deve passar pela ideia da formação de
contextos sociais. Saber utilizar a internet depende, muitas vezes, da troca de
experiência entre utilizadores; morar num local onde há uma concentração de
pessoas com pouco acesso a essas tecnologias, e com carência de aporte dos
recursos materiais e imateriais necessários para se fazer um uso mais completo
das mesmas, pode dificultar essa troca de informações. Mais uma vez encontramos
evidências do efeito-território que, apesar de tímidas quando comparadas com
fatores como a renda ou a escolaridade, são significativas.
Por fim, não poderíamos deixar passar em branco o acentuado efeito exercido
pela idade sobre os tipos de uso da internet. O gráfico_n.º_11, com as
probabilidades preditas para os diferentes tipos de uso da internet de acordo
com a idade do indivíduo, ajuda-nos a compreender a dimensão e o sentido deste
efeito. Vemos que quanto mais anos de idade têm os indivíduos, muito maiores
são as probabilidades de fazerem um uso básico da internet; em contrapartida,
quanto menos anos de idade, muito maiores são as probabilidades de os
indivíduos fazerem um uso intermediário ou avançado da internet. Ou seja,
pessoas mais jovens têm vantagens sobre pessoas mais velhas em relação à sua
capacidade de aproveitamento das inúmeras oportunidades oferecidas pela rede '
mesmo quando controlados os efeitos de diversas variáveis, como a renda e a
educação.
Portanto, os dados apresentados acima evidenciam que tanto o nível
socioeconómico quanto a localização socioespacial ' e também a idade '
constituem critérios importante de nivelamento no que diz respeito ao tipo e
competência de uso da internet. São justamente indivíduos jovens, com maior
nível de recursos materiais (rendimentos) e imateriais (escolaridade),
localizados fora de favelas, aqueles com maiores probabilidades de melhor
aproveitarem o leque de oportunidades oferecido pela internet. Assim, as
camadas dominantes da população possuem vantagens não somente em relação ao
acesso, mas também em relação à capacidade de uso da internet, confirmando a
hipótese levantada por Castells (2007) a respeito do processo de
infoexclusão.
CONCLUSÕES
No início deste trabalho afirmámos que a nossa hipótese era a de que a
crescente importância das TIC ' no caso, a internet ', poderia vir a
contribuir para a reprodução das desigualdades sociais. Para tanto, seria
necessário que houvesse uma má distribuição do acesso e da capacidade de uso da
mesma, concentrando-se esses fatores nos grupos já privilegiados em termos de
capital económico e capital cultural (Bourdieu, 2008). Assim, baseando-nos
na literatura internacional e em alguns trabalhos de cunho empírico,
argumentámos que o desenvolvimento dessas tecnologias traria oportunidades
(financeiras e culturais) aos indivíduos, o que poderia atuar no sentido de
combater as desigualdades sociais. No entanto, caso tais oportunidades fossem
monopolizadas pelos setores socialmente e economicamente dominantes da
população, essas tecnologias reforçariam as desigualdades já existentes.
Propusemo-nos, assim, investigar a estratificação do acesso e competência de
uso da principal dessas tecnologias ' a internet ' nas metrópoles brasileiras.
Tal questão, sobre a importância da democratização das oportunidades oferecidas
pela internet tem sido, inclusive, reconhecida pelo governo brasileiro, que nos
últimos anos tem procurado lançar novas políticas ' como o chamado Plano
Nacional da Banda Larga ' incentivando a expansão e universalização do acesso
à chamada conexão de banda larga, procurando assim promover a inclusão
digital.22 Tais programas traduzem-se, em geral, em políticas de implementação
de redes de comunicação e incentivos financeiros ' ou subsídios ' no sentido de
levar a conexão de banda larga aos setores menos privilegiados da população.
No entanto, a análise desenvolvida no presente trabalho mostrou que no Brasil
metropolitano o acesso à internet para os grupos menos privilegiados ainda é,
em grande parte, impossibilitado pela não existência de um microcomputador no
domicílio. Ou seja, mais do que a conexão à internet em si, a posse do
computador ainda constitui uma grande barreira, de maneira que domicílios com
menor aporte de capital cultural e, principalmente, capital económico
(Bourdieu, 2008), possuem muito menos oportunidade de possuir um
microcomputador.
Mas os nossos dados também evidenciaram que não basta ter acesso à internet,
pois encontramos grandes diferenças quanto à competência de uso da mesma entre
indivíduos conectados. Mais do que isso, vimos que há enormes diferenças
sociais quanto à capacidade de aproveitamento das oportunidades oferecidas pela
rede, pelo que indivíduos com maior renda e escolaridade possuem muito mais
probabilidade de fazerem um uso mais avançado dessa tecnologia. Além disso,
percebemos que também há uma grande diferença geracional nessa capacidade de
uso, já que indivíduos com mais anos de idade apresentam uma probabilidade
muito maior de fazerem uso apenas básico da internet. Ou seja, além de se
promover a necessária expansão e barateamento do acesso à internet, seria ainda
mais importante garantir o acesso aos dispositivos de uso da rede ' o
microcomputador, no caso estudado ' e, principalmente, estimular as condições e
capacidades necessárias ao pleno aproveitamento das oportunidades oferecidas
pela mesma, com enfoque na população menos abastada, menos escolarizada, e com
idade mais avançada.
Assim, o presente trabalho desenvolve a discussão sobre um tema cada vez mais
importante, mas ainda relativamente pouco explorado na literatura brasileira e
latino-americana, a respeito da relação entre as oportunidades abertas pelas
internet e as desigualdades sociais. Os resultados apresentados mostram que não
basta incentivar apenas a expansão da conexão à internet. Por um lado porque no
Brasil ainda há grandes barreiras económico-sociais em torno da aquisição dos
equipamentos necessários à conexão (no caso, o microcomputador), por outro lado
porque mesmo entre os indivíduos conectados encontramos grandes diferenças em
relação à capacidade de aproveitamento das oportunidades oferecidas pela rede.
Tais resultados confirmam a tese da infoexclusão levantada por Castells
(2007), de que não basta promover o acesso a estas tecnologias, pois a
capacidade de uso das mesmas depende de condições materiais e, principalmente,
imateriais (conhecimento), que são desigualmente distribuídas entre a população
de uma maneira geral.
Castells (2007) já havia identificado uma tendência geral, global, de
desaparecimento das diferenças de acesso à internet, sendo justamente os países
menos desenvolvidos ' ou em desenvolvimento, como o Brasil ', aqueles onde
proporcionalmente mais tem crescido o uso dessa tecnologia. No entanto, esta
tendência positiva estaria a ser acompanhada por grandes desigualdades internas
nesses países, onde os grupos que se aproveitariam desse crescimento seriam
justamente os setores dominantes. Isto porque o aproveitamento dessas
condições pressuporia condições materiais e culturais propícias. Os nossos
dados corroboram esse argumento, já que as probabilidades de aceder e fazer um
uso mais aprofundado da internet estão relacionadas com o perfil
socioeconómico (e etário) dos indivíduos.
A literatura nacional já há décadas vem gerando robustas evidências empíricas,
e construindo um sofisticado quadro analítico explicativo sobre os efeitos da
segmentação socioespacial criados pelos processos de estratificação
socioespacial na constituição e reprodução de desvantagens. Nesta literatura
têm presença fundamental as análises das divisões socioespaciais favela/não
favela e de núcleo/periferia metropolitana na explicação das desigualdades
sociais (Ribeiro, Alves e Junior, 2008; Kowarick, 1979). Às problemáticas
condições habitacionais, de provisão de serviços públicos, desigualdade de
oportunidades escolares (Ribeiro, Koslinski e Lasmar, 2010) e no mercado de
trabalho (Ribeiro, Correa e Rodrigues, 2010), somam-se, então, as desvantagens
de acesso e capacidade de uso dessas tecnologias sofridas por moradores das
favelas e periferias metropolitanas.
Por um lado, os resultados como a menor oportunidade de acesso à internet para
os moradores de periferias podem ser interpretados pela escassez de oferta
desses serviços em localidades mais distantes dos núcleos metropolitanos. Por
outro lado, a tendência para um uso mais básico dessa tecnologia nessas áreas
pode estar relacionada com a própria concentração espacial de indivíduos
desprovidos destas competências e conhecimentos. Saber utilizar a internet,
conhecer as suas ferramentas, sites e etc., muitas vezes depende da ajuda ou
dicas de pessoas próximas, como amigos e vizinhos. Dada a importância desse
conhecimento compartilhado, a segmentação espacial, ao concentrar uma população
com uma situação socioeconómica próxima, pode produzir efeitos (contextuais)
para além daqueles ligados a características individuais e domiciliares/
familiares. Assim verificamos evidências consistentes da influência do
território através dos mecanismos descritos pela literatura (Jencks e Mayer,
1990; Small e Newman, 2001), sobre a capacidade de acesso e aproveitamento da
internet, contribuindo para o processo de infoexclusão.
Como afirma Castells (2007), a infoexclusão de uma grande parcela da
população prende-se com a questão da oferta de acesso e do conteúdo encontrado
na rede, ambos ' acesso e conteúdo ' mais acessíveis aos setores abastados da
sociedade. Isto porque dependem de condições materiais (renda, localização
geográfica e etc.) e imateriais (disposições culturais, conhecimento,
informações), que são desigualmente distribuídas entre a população. As análises
apresentadas nesse artigo trazem, pela primeira vez, dados consistentes que
corroboram a aplicabilidade da tese da infoexclusão para o caso das
metrópoles brasileiras, assim como evidenciam as suas peculiaridades ' como a
da importante barreira de acesso ao microcomputador e o papel exercido pelo
território. Dessa forma concluímos que no Brasil, caso se mantenha o atual
padrão, a difusão da internet funcionará mais como reprodutora das
desigualdades do que como democratizadora das relações sociais.
Por fim, gostaríamos de concluir este trabalho afirmando que o acesso a essas
tecnologias, ou melhor, a exclusão ao acesso e as assimetrias nas capacidades
de utilização dessas tecnologias, devem ser seriamente encaradas, pois os seus
efeitos vão muito além da simples desigualdade de acesso a um determinado bem.
O desenvolvimento destas tecnologias vem acarretando mudanças importantes na
forma das interações sociais (Simmel, 2006), de maneira que não ter acesso às
mesmas implicaria a impossibilidade de aproveitar cada vez mais oportunidades
sociais. Desta forma, os efeitos da infoexclusão não se medem apenas pelo
número de acessos à internet, mas também pelas consequências que a conexão e a
falta da mesma comportam. A internet não é apenas uma tecnologia, mas também um
instrumento tecnológico e uma forma organizativa que distribui o poder da
informação, a produção de conhecimento e a capacidade de os indivíduos se
ligarem em rede a qualquer âmbito da atividade humana (Castells, 2007).