Da utopia da sociedade em rede à realidade da sociedade de risco
Um novo mundo está a tomar forma neste final de milénio. Tem origem
mais ou menos no fim dos anos sessenta e meados da década de setenta
na coincidência histórica de três processos independentes: revolução
da tecnologia da informação; crise económica do capitalismo e do
estatismo e a consequente reestruturação de ambos [ ] A interação
entre esses processos e as reações por eles desencadeadas fizeram
surgir uma nova estrutura social dominante, a sociedade em rede; uma
nova economia, a economia informacional/global; e uma nova cultura, a
cultura da virtualidade real. Castells [1999, p. 411]
INTRODUÇÃO1
Decorridos mais de vinte anos desde a invenção e divulgação pública da
WorldWide Web2 por Timothy John Berners-Lee (Tim Berners-Lee), dispomos de um
horizonte temporal alargado para olhar retrospetivamente os primeiros tempos da
web. Este distanciamento cronológico permite confrontar as expectativas
iniciais com a realidade em que esta se transformou. Assim, neste artigo,
propomo-nos revisitar a sociedade em rede a partir da teorização iniciada por
Manuel Castells e outros, há cerca de uma década e meia atrás. O principal
objetivo é analisar o seu percurso ao longo dos primeiros vinte anos, e avaliar
em que medida estará a originar uma sociedade de risco, no sentido que Ulrich
Beck deu ao conceito. Na análise da evolução/transformação ocorrida, uma ênfase
especial será dada aos ideais tecno-libertários iniciais e à posterior ascensão
do uso económico-empresarial e das preocupações com a segurança na rede.
Questões específicas a que também vamos procurar responder são: (i) saber em
que medida tais tendências estão a pôr em causa a neutralidade da internet e a
liberdade e democracia; (ii) saber se prenunciam uma sociedade de risco, onde a
rede se está a transformar num espaço de conflito e de ciberguerra.
A EMERGÊNCIA DA SOCIEDADE EM REDE: INTERNET, WORLD WIDE WEB3 E REVOLUÇÃO
DIGITAL
É bem conhecido que a internet teve a sua origem na década de 60 do século XX,
no contexto da competição da Guerra Fria, entre os EUA e a ex-União Soviética.
Esta surgiu como resultado de uma colaboração entre os meios militares e
universitários norte-americanos, quando foi criado um sistema de comunicação
entre computadores. Em termos de precursores da atual internet ' e da sua parte
mais conhecida, a World Wide Web', existem alguns marcos relevantes que importa
relembrar. Numa lógica futurista para a época, Norbert Wiener introduziu no
final da década de 40 desse século, o conceito de cibernética, um neologismo
cunhado a partir da palavra grega kybernetiké.4 No sentido que Norbert Wiener
lhe deu, tratava-se de agir pelo comando e controlo da totalidade do ciclo de
informações. Outro precursor, agora sobretudo do ethos da sociedade em rede, o
qual terá inspirado a própria criação da World Wide Web, foi Stewart Brand com
o seu visionário Whole Earth Catalog.5 As suas ideias influenciaram também a
conceção da revista tecno-libertária Wired (Turner, 2008).
Em termos tecnológicos, a primeira antecessora da internet foi a ARPA (NET),6
criada pela Advanced Research Projects Agency ' uma agência associada ao
Pentágono ' e pelo Massachusetts Institute of Technology(MIT). Tratou-se de uma
rede experimental7 que tinha por objetivo permitir que os computadores
comunicassem entre si, independentemente do fabricante, sistema operativo,
hardware ou distância geográfica. Um outro marco relevante data de 1969,
quando ocorreu aquilo que normalmente é considerado o envio da primeira
mensagem de correio eletrónico (email).8O processo deu-se entre um computador
da Universidade da Califórnia (UCLA) e um outro computador situado no Stanford
Research Institute. Em 1973 surgiu um novo avanço importante quando Robert
Kahn, da ARPA, e Vinton Cerf, da Universidade de Stanford, na Califórnia,
elaboraram, num trabalho conjunto, a arquitetura básica da internet. No final
da década de 70, com os protocolos TCP/IP9 em fase avançada de desenvolvimento,
foi constituído o Internet Controland Configuration Board (ICCB), um comité
informal destinado a coordenar o desenvolvimento desses protocolos e da
arquitetura de comunicação. Em 1983, a ARPA(NET)10 ' à qual esteve ligado outro
pioneiro, Jonathan Bruce Postel (ou Jon Postel, como é mais conhecido) ' deu
origem à Military Network (MILNET), usada para fins militares, bem como à
ARPA-INTERNET, criada para pesquisa e desenvolvimento. Em meados dos anos 80, a
National Science Foundation (NSF) dos EUA, tendo por objetivo distribuir o
acesso aos cinco centros de supercomputadores, utilizou os protocolos da ARPA
(NET) a NSF ligando-os entre si para formar o backbone11 NSF(NET). As redes
regionais foram formadas no fim dos anos 80 para fornecer acesso a este
backbone, ao qual as universidades e organizações de pesquisa ligaram também as
suas redes. A designação internet foi então utilizada para se referir ao
conjunto rede.
Nesta fase embrionária, as internetworks eram essencialmente suportadas por
financiamentos públicos, o que implicava, também, regras estritas sobre o seu
uso. As organizações que podiam utilizar a internet ' tipicamente agências
governamentais e universidades ' tinham de o efetuar no âmbito dessas regras.
Ou seja, a rede podia ser usada ligada a atividades de pesquisa científica e
tecnológica, ou para atividades académicas e educativas. Todavia, não podia ser
utilizada, por exemplo, para fins comerciais ou publicitários. Tudo isto sofreu
profundas alterações quando, no início da década de 90, a internet foi retirada
do controlo militar passando a sua gestão para a National Science Foundation
(NSF) dos EUA. Com a tecnologia para a criação de redes informáticas abertas ao
domínio público e com as telecomunicações em processo de liberalização, a NSF
avançou com a privatização da internet.12 Foi nessa altura ' finais de 1990 ',
que foi inventada a World Wide Web13 (designação que poderá ser traduzida como
rede de alcance global), pelo engenheiro britânico Tim Berners-Lee e os seus
colegas do Centre Européeenne pour la Recherche Nucléaire (CERN) de Genebra. A
este se deve a primeira comunicação bem-sucedida entre Hyper Text Transfer
Protocol (HTTP)14 e um servidor, utilizando o protocolo TCP/IP. A partir daqui,
o fornecimento de internetworkspassou a ser, crescentemente, uma atividade
empresarial, dominada por empresas privadas. Estas começaram a fornecer
serviços de internet para uso empresarial ou privado.
A SOCIEDADE EM REDE E A ECONOMIA DIGITAL NOS SEUS PRIMÓRDIOS
Conforme já referimos, a internet surgiu de forma inicialmente restrita,
resultando da colaboração entre universidades e centros de investigação, mais
ou menos próximos dos meios militares norte-americanos. Todavia, apesar das
restrições dessa fase pioneira, existia também uma faceta importante de
abertura à colaboração a nível internacional. Isto permitiu a todos os que
tivessem interesse, e, obviamente também, os conhecimentos técnicos
necessários, uma possibilidade de participar no processo da sua construção e
desenvolvimento. Esta lógica de trabalho comunitário, não lucrativo,
caraterística da contracultura da década de 60 está, assim, inscrita no próprio
ethos da internet e da sociedade em rede. Hoje, as sua projeções mais óbvias
são o movimento para o software livre15 e os partidos piratas, os quais
estão a emergir no espetro político.16 Mas, como foi visto, na altura, o
despontar da internet/web e da sociedade em rede? Entre os teorizadores mais
influentes dos primórdios encontramos o sociólogo Manuel Castells, com diversas
publicações de perfil académico-científico. Por sua vez, numa perspetiva menos
estritamente académica e com um enfoque mais empresarial, o nome provavelmente
mais influente foi Don Tapscott. Vejamos como estes retratavam a emergência da
internet/web e da sociedade em rede nas suas múltiplas facetas.
Para Manuel Castells, a internet/web e a sociedade em rede eram o resultado de
uma encruzilhada insólita entre a ciência, a investigação militar e a cultura
libertária (2004, p. 34). No seu ethos encontrava-se também inscrita a
filiação na contracultura dos anos 60, mas inserida num contexto marcado por
múltiplas influências heterogéneas. Na realidade, Manuel Castells (2004, p. 83)
filiou a cultura da internet de forma bastante abrangente. Viu-a como tendo
sido construída sobre a crença tecnocrática no progresso humano através da
tecnologia, praticada por comunidades de hackersque prosperam num ambiente de
criatividade tecnológica livre e aberta, assente em redes virtuais, dedicadas a
reinventar a sociedade. Mas viu-a também como materializada por
empreendedores capitalistas que impulsionavam uma nova economia17, a qual
começava a ter um peso crescente nas atividades de produção e de criação de
riqueza.
Partindo da referida definição, autonomizou quatro dimensões relevantes, cada
uma das quais com a sua contribuição própria: (i) a dimensão da cultura
tecnomeritocrática; (ii) a dimensão da cultura hacker18; (iii) a dimensão da
cultura comunitária virtual; (iv) e a dimensão da cultura empreendedora. Em
primeiro lugar, a cultura tecnomeritocrática, a qual está inscrita no ambiente
que permitiu a invenção da internet. Este foi um ambiente académico-científico,
de tipo elitista, orientado para a inovação tecnológica, largamente estimulado
pela própria comunidade científica, sobretudo pelo seu impacto prestigiante
dentro desta e na sociedade em geral. Em segundo lugar, a dimensão da cultura
hacker ' no sentido inicial do conceito. Embora a lógica do hacker, dos
primeiros tempos da revolução digital, tivesse também por objetivo a inovação
tecnológica, assentava num ideal que não era exatamente o da técnico-
meritocracia. A lógica típica da cultura hacker era poder usar livremente os
conhecimentos produzidos por outros, e, de forma também livre, ou seja, sem
intuitos comerciais, tornar os novos conhecimentos acessíveis a outros na rede.
A cultura hackerestá, assim, igualmente, no cerne do referido movimento para o
software livre. Por outro lado, os hackers originais da revolução informática
poderiam ser qualificados como imbuídos de uma visão libertária, ou até
anárquica, pois não dependiam de nenhuma instituição educativa, empresarial
ou outra. Este tipo de hacker, pelo seu lado visionário, e pelo seu papel
determinante na fase de criação da internet, aproximou-se do génio criativo,
no sentido que esta designação adquire no mundo das artes. Em terceiro lugar, a
dimensão comunitária virtual, a qual está diretamente relacionada com o uso
dado à tecnologia. Integram-se nesta cultura comunitária virtual os que tendem
a utilizar a internet sobretudo para o desenvolvimento de contactos ou relações
sociais. Tipicamente são indivíduos com conhecimentos técnicos limitados, tendo
apenas competências na ótica do utilizador, de maior ou menor dimensão.
Todavia, mostram grande apetência pela utilização da WorldWide Webdesde a sua
explosão em meados dos anos 90. Esta dimensão transformou a internet num
novo instrumento para a organização social, a ação coletiva e a construção de
sentido (Castells, 2004, p. 76). Uma quarta e última dimensão surge ligada à
cultura empreendedora e está estreitamente direcionada para um uso económico, e
com fins lucrativos, da tecnologia. A cultura empreendedora alicerça-se na
inovação empresarial e no apoio financeiro a projetos de risco elevado, sendo
movida por uma perspetiva de lucros muito significativos resultantes da aposta
em start-ups de base tecnológica, ligados à economia digital em fase de
afirmação.
Em relação à teorização de Don Tapscott (1997), conforme já referimos, foi
efetuada sobretudo numa perspetiva empresarial, sendo mais livre de
preocupações estritamente académico-científicas.19 Mais do que nos fenómenos
gerais da sociedade em rede ' como encontramos na teorização de Castells ',
Tapscott centrou-se na emergência da nova economia ou economia digital (ou e-
economia), uma designação popularizada pelo próprio nas suas publicações e
palestras. Para este, a emergente economia digital, teorizada em contraponto
com a velha economia, surgia com um conjunto de múltiplas caraterísticas20
distintivas: (i) CONHECIMENTO ' o qual se tornou uma componente fundamental dos
produtos/serviços; (ii) DIGITALIZAÇÃO ' passou a dominar nas transações
comerciais e financeiras e na comunicação humana; (iii) VIRTUALIZAÇÃO ' levando
a uma prevalência do virtual sobre o físico e com implicações para a natureza
da atividade económica; (iv) MOLECULARIZAÇÃO ' substituição da produção em
massa por produção à medida; (v) INTEGRAÇÃO/TRABALHO EM REDE ' surgimento de
uma economia com múltiplas e profundas interconexões dos indivíduos e
organizações; (vi) DESINTERMEDIAÇÃO ' eliminação de intermediários nas
atividades económicas, como agentes, corretores, grossistas ou até retalhistas;
(vii) CONVERGÊNCIA ' dos setores económicos-chave no uso de sistemas
informação, na comunicação e conteúdos; (viii) INOVAÇÃO ' a criatividade e a
imaginação inovadora empresarial tornam-se decisivas para a competitividade
empresarial; (ix) PRODCONSUMO ' desvanecimento da distância que separa
consumidores e produtores podendo os próprios consumidores associar-se ao
processo produtivo ' transformando-se em prosumers ', por exemplo quando a sua
informação e/ou ideias passam a ser incorporadas em produtos/serviços; (x)
IMEDIATICIDADE ' surgimento de uma economia em tempo real, onde são efetuadas
transações comerciais e financeiras com meios eletrónicos; (xi) GLOBALIZAÇÃO '
afirmação de uma economia cada vez mais interligada a nível mundial, nas suas
múltiplas dimensões, que faz perder relevância ao Estado-nação como unidade
político-económica; e (xii) CLIVAGENS ' enormes contrastes sociais tendem a
surgir com empregos altamente remunerados para jovens recém-formados,
contrastando com despedimentos em massa de trabalhadores mais velhos,
inadaptados à economia digital. Tendência para o aumento do fosso que separa os
que têm dos que não têm, quer em termos de riqueza, quer no acesso aos novos
instrumentos da sociedade em rede.
Quanto a Castells, embora não tenha teorizado especificamente para os aspetos
empresariais da sociedade em rede, como fez Tapscott, também não ignorou essa
faceta. A existência de práticas empresariais inovadoras, organizadas em torno
das redes, foi igualmente objeto do seu interesse e análise. O mesmo se pode
dizer quanto à capacidade de gerar conhecimento permitida pelo acesso à
informação aberta online, combinada com as ideias inovadoras. Na sua ótica,
estes foram os principais alicerces sobre os quais se começou a erigir a nova
economia (Castells, 2004, p. 100). Para Castells, essas tendências não eram
exclusivas das empresas relacionadas com a internet, ou do setor tecnológico.
Tratava-se, antes, de tendências generalizadas que estavam a ocorrer de forma
transversal a toda a economia. Tal como Tapscott, considerou também que o facto
de a rede tornar possível obter um feedback dos consumidores,em tempo
praticamente real, tinha significativas consequências nas formas de produção e
de gestão.21 Fora da chamada economia real, um traço caraterístico importante
assinalado por Castells foi a volatilidade dos mercados financeiros. Estes
tendiam a ser crescentemente dominados por turbulências de informação
(Castells, 2004, p. 112) e a tornar-se mais instáveis e imprevisíveis na medida
que se afastaram das tradicionais formas prudenciais de avaliação do mundo dos
negócios ' uma análise bastante presciente, sobretudo se pensarmos na forma
como surgiu a crise financeira de 2007/2008 nos EUA. Na economia e sociedade em
rede, o risco, a incerteza e a mudança tornavam-se, assim, numa característica
dominante dos mercados financeiros. Esta tendência também foi alimentada pela
multiplicidade de informações online,muitas delas difíceis de confirmar,
tornando-se quase impossível destrinçar, pelo menos em tempo útil, a informação
fidedigna dos rumores ou manipulações. Obviamente que tudo isto trouxe
dificuldades acrescidas na tomada de decisão pelos investidores, gerando, não
invulgarmente, reações instantâneas, por vezes irracionais, de alguma forma
impulsionadas pela avalanche (des)informativa da sociedade em rede.
Por sua vez, fora do terreno económico e dos mercados financeiros, surgiram
lógicas de sociabilidade novas, através das comunidades virtuais. As pessoas
passaram crescentemente a organizar-se em torno dos seus valores, afinidades,
projetos e interesses específicos, usando as novas possibilidades tecnológicas
conferidas pela revolução digital (internet, telemóveis, correio eletrónico,
etc.). Com a sociedade em rede verificou-se uma transição do predomínio das
tradicionais relações primárias ' família, lugar de residência, emprego ', para
um novo sistema de relações sociais de base mais individualista (Castells,
2004, p. 158). Naturalmente que aqui poderíamos também incluir a tendência para
a expansão do teletrabalho22 (por vezes designado como trabalho na era
digital), especialmente notória no setor dos serviços ' por exemplo através do
outsourcing de call-centers, de empresas telefónicas, bancárias, etc. Outra
tendência, agora no cruzamento do social e do político, foi a do surgimento de
movimentos sociais ativos na internet ' grupos feministas, ecologistas,
religiosos,pacifistas, entre outros. A rede converteu-se, assim, num espaço
para ativismo em prol de causas, ou, então, num espaço privilegiado para
manifestar descontentamento, em termos sociais e políticos ou para mobilizar
pessoas para ações no mundo real. Castells viu nessa tendência uma forma de
aumentar a liberdade e de empowerment(empoderamento) do cidadão. Nesta ótica,
a internet trazia uma mais-valia para a democratização, permitindo,
tendencialmente, igualar as condições nas quais distintos atores e
instituições podem agir (Castells, 2004, p. 197).
UMA REDE GALÁXICA ONDE O PINGUIM CONFRONTA O LEVIATÃ23
Um dos pioneiros da internet, Joseph Carl Robnett Licklider (ou apenas J. C. R.
Licklider), referia-se, em 1962, à formação de uma rede galáxica.
Provavelmente influenciado por essa designação, Castells (2004) deu a um dos
seus livros subsequentes sobre a sociedade em rede o título de A Galáxia
Internet: Reflexões sobre Internet, Negócios e Sociedade. Tratou-se, pela
própria formação do autor, de uma obra de perfil sociológico que procurou
analisar a internet para além dos aspetos tecnológicos, interpretando o(s) seu
(s) uso(s) como um fenómeno social e humano. Mas, tendo como critério de
referência o número de utilizadores da rede, qual é hoje a verdadeira dimensão
da galáxia internet? Para responder a esta questão vamos recorrer às
estatísticas disponibilizadas pela Internet World Stats. Embora não se trate de
informação neutra, pois é recolhida e tratada essencialmente para fins
comerciais24 ' e se possam discutir também os critérios usados para esse efeito
', as suas estatísticas não deixam fornecer uma imagem aproximada da atual
dimensão da galáxia Internet. Começando por dar uma visão panorâmica, uma das
coisas que chama à atenção é a forma como o número de utilizadores da internet
cresceu, de maneira avassaladora, ao longo da primeira década do século XXI.
Atualmente esse número supera já os 2,2 biliões de utilizadores ativos em todo
o mundo, encontrando-se o valor mais significativo (1 016 biliões), na Ásia25 '
que é também o continente mais vasto, heterogéneo e populoso do planeta. Esta
predominância da Ásia, no seu conjunto, não significa que, em termos relativos,
a taxa de penetração da internet na população total desse continente seja
elevada comparativamente a outras regiões mundiais. Na realidade, quando
olhamos para as taxas de penetração da internet, verificamos que a Ásia '
apesar de todo o seu potencial para se tornar o centro do mundo ao longo do
século XXI ', ainda tem um longo caminho a percorrer. Obviamente que esta visão
macro do continente asiático aglutina realidades completamente heterogéneas, em
termos económicos, sociais e de acesso à rede. Basta pensarmos no que é, por
exemplo, a realidade do Japão, da Coreia do Sul ou de Singapura, face à da
Mongólia, à do Afeganistão ou do Butão. De qualquer maneira, importa reter que
a taxa atual de penetração da internet (percentagem de utilizadores da internet
na população total), é de 26,2%, enquanto nas áreas do mundo de desenvolvimento
mais antigo, como a Europa e a América do Norte, a sua taxa de penetração é
muito superior: 61,3% na Europa continental e 78,6% na América do Norte. Pela
sua própria dimensão populacional, verifica-se um peso dos asiáticos no uso da
rede superior aos das populações de qualquer um dos outros continentes. De
facto, em finais de 2011, 44,8% dos utilizadores da internet tinham origem na
Ásia, enquanto 22,1 % tinham origem na Europa continental e 12,0% na América
do Norte. Nas restantes áreas do mundo verificam-se valores menores, que
denotam baixas taxas médias de penetração da internet no conjunto da população
' a exceção é a Oceânia/Austrália, que origina 1,1 % dos utilizadores mundiais,
com escassas dezenas de milhões de pessoas. O peso dos utilizadores oriundos da
América Latina no global é de 10,4%, de África ronda os 6,2%, e do Médio
Oriente os 3,4%.26
Embora estes dados mostrem que a galáxia internet é uma realidade
notoriamente desigual, onde os graus de acesso à rede são muito variáveis
dentro das regiões do mundo e os países considerados ' o que levanta, desde
logo, o problema dos excluídos da sociedade em rede ', é inegável constatar-se
a existência de um processo que pode ser considerado de globalização. Mais de
2,2 biliões de seres humanos, um pouco por todo o planeta, estão ligados em
rede e potencialmente em contacto ' ou seja, cerca de 30% da população mundial,
tendo em conta que a população mundial se cifra atualmente nos 7 0006 biliões
de habitantes.27 Para além disso, a tendência expectável é a de que o número de
utilizadores aumente significativamente nas próximas décadas, quer em termos
absolutos, quer em termos relativos, intensificando este processo de
globalização.
Um outro dado interessante está relacionado com a questão das línguas. De
facto, para existir uma sociedade em rede globalizada é condiçãosine qua non,
mas não suficiente, a difusão de uma tecnologia que permita o contacto e a
interação. É também necessário que exista(am) uma ou mais línguas que seja(m)
um instrumento transversal de comunicação. Por outras palavras, é necessária
uma língua franca global, a par de línguas francas regionais, tal como
ocorreu, em termos históricos, com o latim no Ocidente medieval europeu. Claro
que isto também pode ter um preço a pagar. Esse preço é a progressiva exclusão
e irrelevância a que tendem a ser condenadas as línguas que não podem atingir
esse estatuto, seja pelo número de falantes nativos ser reduzido, ou por outras
razões de tipo geográfico, económico ou cultural. À primeira vista, a internet
é uma babel de línguas, e é um também um espaço de liberdade bastante propício
à revitalização ou recriação de línguas que não tinham o seu estatuto oficial
reconhecido pelos governos, ou estavam tendencialmente mortas. Uma das
aplicações mais emblemáticas da WorldWide Web e dos ideais comunitários da rede
' a enciclopédia livre Wikipédia, onde coexistem o melhor e o pior em termos de
conhecimento humano ', transmite-nos nitidamente essa ideia, ao anunciar ter
edições em 276 línguas.28 A questão é que essa enorme diversidade linguística
é, em grande parte, folclórica. Para a esmagadora maioria dos utilizadores da
rede é irrelevante, quer do ponto de vista do interesse ou curiosidade
cultural, quer, sobretudo, do ponto de vista mais pragmático de meio de
comunicação. Como já era expectável encontra-se uma primazia do inglês (536,6
milhões de utilizadores nessa língua) ' os mais críticos dirão mesmo que a
expansão da internet e da globalização favoreceram o imperialismo cultural da
língua inglesa.
Mas será o modelo de enciclopédia aberta da Wikipédia ' com a sua babel de
línguas e onde todos podem colaborar ', um sinal de substituição da
racionalidade económica capitalista, baseada nos interesses próprios (egoísmo)
do indivíduo, por formas mais altruístas e colaborativas? Será este modelo uma
alternativa viável à lógica capitalista extremada, de prossecução dos
interesses próprios, que está na origem da crise financeira de 2007-2008,
iniciada nos EUA, mas com repercussões mundiais? Estará a expansão da rede
galáxica a abrir caminho a um novo tipo de economia e sociedade menos
hierárquica, mais democrática e colaborativa e onde o indivíduo tem maior
liberdade? No campo económico-empresarial, Don Tapscott e Anthony Williams
(2006, p. 18) sustentam que entrámos numa nova fase ' aquilo a que chamam o
modelo Wikinomics ', na qual as pessoas participam na economia de uma forma
como nunca ocorreu antes. Inovadoras formas de colaboração em massa estão a
mudar a maneira como os bens e serviços são inventados, produzidos,
comercializados e distribuídos globalmente. Numa abordagem mais abrangente '
no cruzamento de uma reflexão filosófico-político-jurídico-empresarial ',
Yochai Benkler, professor da Universidade de Harvard, e um dos diretores do
Berkman Center for Internet and Societydá respostas afirmativas a essas
questões. Na sua mais recente publicação, com o curioso título The Penguin and
the Leviathan (O Pinguim e o Leviatã),Benkler (2011), autor e ativista dos
ideais tecno-libertários da internet, veio reforçar as suas teses anteriores,
divulgadas em 2006 em The Wealth of Networks.29Neste livro, cujo título sugere
já a intenção de interagir com o trabalho clássico de Adam Smith, Riqueza das
Nações de 1776, Benkler defendia as virtudes dos novos modelos de produção
colaborativa de bens não-proprietários, enquanto no The Penguin and the
Leviathan, pretendeu por em confronto o que considera ser o antigo modelo do
Leviatã ' uma referência à clássica obra de Thomas Hobbes de 165130 ', com o
novo modelo do Pinguim ' o símbolo do GNU (General Public License)31/Linux32,
o sistema operativo de código aberto de maior sucesso na sociedade em rede e
economia digital. Desta forma, Benkler procurou rejeitar a ligação entre
racionalidade e egoísmo, fortemente enraizada na economia e ciência política.
Segundo este, novas formas colaborativas estão crescentemente a afirmar-se, e
não só em enciclopédias digitais como a Wikipédia, mas também no universo
económico-empresarial ' neste aspeto, a sua visão aproxima-se, em parte, do
modelo Wikinomics de Tapscott. Benkler aponta vários exemplos, entre os quais
o da fábrica da Toyota na Califórnia e da Southwest Airlines.Para este, o
facto de tais empresas terem adotado modelos de gestão e processos de produção
cooperativos, bem sucedidos, seriam evidências empíricas confirmativas das suas
teses. Todavia, a tendência colaborativa é apenas uma entre outras,
frequentemente contraditórias, que se detetam na sociedade em rede. A questão é
mais complexa e multifaceta do que Benkler, Tapscott e outros entusiastas
tecno-libertários pretendem admitir, como veremos em seguida.
SOCIEDADE EM REDE, SOCIEDADE DE RISCO
No âmbito da reflexão sociológica sobre o atual período da humanidade, Ulrich
Beck, tal como Anthony Giddens, rotulam o período contemporâneo de
modernização reflexiva, ou como segunda modernidade. A atual fase é vista
com um período em que os princípios da modernidade foram levados ao extremo e
se radicalizaram. Assim, a primeira modernidade teria sido caraterizada pela
confiança no progresso e pela crença na possibilidade de controlo do
desenvolvimento científico-tecnológico e da natureza. Por sua vez, a
modernidade reflexiva será a fase contemporânea. Nela, o desenvolvimento da
ciência e da tecnologia já não permitem prever integralmente os riscos que
contribuíram para criar, nem realizar um controlo efetivo dos mesmos. Importa
notar que na abordagem original de Beck, o arquétipo do risco identificavam-
se com questões ecológicas e a sua relação com a tecnologia. A falta de enfâse
na sociedade em rede ' notória quando comparada com trabalhos como o de
Castells ' resulta, desde logo, do facto de o conceito de sociedade de risco
ser anterior à expansão da internet para fora dos meios académico e militar e
ao surgimento da sociedade em rede. Recorda-se que o conceito de sociedade de
risco foi pela primeira vez proposto em 198633, em língua alemã, ainda no
contexto da político-ideológico da Guerra Fria. Ganhou posteriormente uma ampla
difusão, a partir de 1992, com a sua tradução e publicação em língua inglesa,
agora já num contexto de pós-Guerra Fria e de globalização em marcha. Mais
recentemente, num outro trabalho originalmente publicado em finais dos anos 90,
Beck (2002) fazia notar que à medida que se desvanece o mundo bipolar,
passamos de um mundo de inimigos a um mundo de perigos e de riscos. Sobre o
significado de risco, Ulrich Beck clarifica-o da seguinte forma:
Risco é o enfoque moderno da previsão e controlo das consequências
futuras da ação humana, das diversas consequências não desejadas da
modernidade radicalizada. É uma tentativa (institucionalizada) de
colonizar o futuro, um mapa cognitivo. Toda a sociedade, obviamente,
experimentou perigos. Todavia, o regime do risco é uma função de
ordem nova: não é nacional, mas global. Está intimamente relacionado
com o processo administrativo e de decisão. Anteriormente, essas
decisões eram tomadas com normas fixas de calculabilidade, ligando
meios e fins, causas e efeitos. A sociedade de risco global
invalidou precisamente essas normas [Beck, 2002, p. 5].
Segundo este autor, tudo isto se tornou muito evidente nas companhias de
seguros privadas, provavelmente o melhor símbolo do cálculo e da segurança
alternativa, as quais não cobrem os desastres nucleares, nem as mudanças
climáticas e as suas consequências, nem o colapso das economias asiáticas, nem
os riscos de baixa probabilidade e graves consequências de diversos tipos de
tecnologia futura. De facto, os seguros privados não cobrem a maiorias das
tecnologias controversas, como a engenharia genética. Sobre os aspetos novos
que esta noção implica acrescenta ainda o seguinte: o conceito de risco e de
sociedade de risco combina o que em tempos se excluía mutuamente: sociedade e
natureza, ciências sociais e ciências da matéria, construção discursiva do
risco e materialidade das ameaças (Beck, 2002, p. 5).
A referida ideia de risco e de sociedade de risco de Beck pode ser aplicada à
sociedade em rede, na medida em que esta assenta numa criação tecnológica da
modernidade reflexiva. O progresso tecnológico que permitiu a sociedade em rede
' com todos os imensos benefícios que daí resultaram ', trouxe consigo uma nova
área de risco para as sociedades humanas, consequência paradoxal (inevitável?)
do seu sucesso. Para além das possibilidades de extorsão financeira, de vendas
fraudulentas, de pornografia infantil, etc. ' que cabem no âmbito das infrações
legais e/ou criminalidade ', surgiram também possibilidades adicionais de
difusão de ideologias políticas radicais e violentas e, aspeto de risco
inteiramente novo, uma possibilidade de os conflitos internacionais decorrerem
no ciberespaço, em paralelo, ou não, com uma guerra física (cinética).
Paradoxalmente, esta nova possibilidade que, num cenário extremo, poderá ser
imensamente destrutiva, só se tornou possível pelos avanços tecnológicos da
sociedade em rede. Indubitavelmente, estamos perante mais um risco da atual
modernidade reflexiva.
A PERDA DE NEUTRALIDADE34 DA REDE E O LADO NEGRO DA LIBERDADE NA INTERNET
A internet e a World Wide Web estão hoje sujeitas a grandes incógnitas sobre a
sua evolução futura. Continuarão a ser espaços de liberdade ligados
globalmente, como em grande parte têm sido? Serão definitivamente dominadas por
interesses económicos e comerciais? Os Estados afirmarão um crescente controlo
sobre a rede e a informação que nela circula? Assistiremos à afirmação de
fronteiras no ciberespaço e à territorialização nacional do mesmo por razões
políticas e de segurança? Estas incógnitas estão hoje bem exemplificadas na
encruzilhada com que se confronta a World Wide Web, duas décadas depois da sua
criação. Num artigo publicado na revista Wiredcom o título provocatório The
web is dead. Long live the internet, Chris Anderson e Michael Wolff (2010)
sustentam que o uso da WorldWide Web já entrou numa fase de declínio. Para
estes, o processo irá ainda acentuar-se mais nos próximos anos por um conjunto
de razões tecnológicas e ligadas a interesses económicos e comerciais. Todavia,
Anderson e Wolff não vêm esta tendência como problemática. Para estes autores,
a web não é o culminar da revolução digital, mas apenas uma fase datada e em
vias de ser ultrapassada:
[ ] You've spent the day on the Internet ' but not on the Web. And
you are not alone. This is not a trivial distinction. Over the past
few years, one of the most important shifts in the digital world has
been the move from the wide-open Web to semiclosed platforms that use
the Internet for transport but not the browser for display. It's
driven primarily by the rise of the iPhone model of mobile computing,
and it's a world Google can't crawl, one where HTML doesn't rule. And
it's the world that consumers are increasingly choosing [Anderson e
Wolf, 2010].
Ao que tudo indica, como reação ao artigo da Wired, o principal criador da web,
Tim Berners-Lee (2010), num texto publicado na revista Scientific American,
sob o título Long live the web: A call for continued open standards and
neutrality, critica a tendência de fragmentação e de criação de plataformas
semifechadas. Um alvo particular das suas críticas foram as redes sociais como
o LinkedIn ou o Facebook, que representam uma ameaça para a universalidade da
rede. Para Tim Berners-Lee (2010), está a surgir um crescente risco de perda
de liberdade na rede. Essa liberdade tem permitido aos utilizadores acederem
aos websites que desejam sem ficarem presos em ilhas fragmentadas. Alguns dos
casos de maior sucesso dos últimos anos ' como o já referido Facebook ou o
iTunes da Apple ', ameaçam os próprios princípios fundadores da web. Este
argumenta que estratégias como a utilizada pela Apple, com o iTunes, não só
deixam a informação visível aos utilizadores restrita ao próprio site, como
levam à formação de ilhas fragmentadas de informação. Desta forma, foram
criadas barreiras à partilha de informação com o resto da web, pelo que a rede
tende a partir-se em pedaços com prejuízo para o utilizador. Este deixa de
poder beneficiar de um espaço único e universal de informação:
Several threats to the Web's universality have arisen recently. Cable
television companies that sell Internet connectivity are considering
whether to limit their Internet users to downloading only the
company's mix of entertainment. Social-networking sites present a
different kind of problem. Facebook, LinkedIn, Friendster and others
typically provide value by capturing information as you enter it [ ]
Each site is a silo, walled off from the others. Yes, your site's
pages are on the Web, but your data are not. You can access a Web
page about a list of people you have created in one site, but you
cannot send that list, or items from it, to another site. The
isolation occurs because each piece of information does not have a
URI [Universal Resource Identifier]. Connections among data exist
only within a site. So the more you enter, the more you become locked
in. Your social-networking site becomes a central platform ' a closed
silo of content, and one that does not give you full control over
your information in it. The more this kind of architecture gains
widespread use, the more the Web becomes fragmented, and the less we
enjoy a single, universal information space [Berners-Lee, 2010].
Mas as ameaças que pairam sobre a universalidade e neutralidade da rede não se
ficam por aqui. Outro alvo de críticas do fundador da web são as empresas
fornecedoras de acesso wireless à rede. Este denuncia a tendência
discriminatória que se verifica em alguns fornecedores desse serviço, de
baixar, deliberadamente, a velocidade de acesso a certos websites, em
detrimento de outros (normalmente aqueles com os quais não foram feitos
acordos). Naturalmente que tudo isto acaba por prejudicar os utilizadores e por
limitar a sua liberdade de navegação na rede. Atente-se neste excerto do
referido artigo:
Net neutrality maintains that if I have paid for an Internet
connection at a certain quality, say, 300 Mbps, and you have paid for
that quality, then our communications should take place at that
quality. Protecting this concept would prevent a big ISP from sending
you video from a media company it may own at 300 Mbps but sending
video from a competing media company at a slower rate. That amounts
to commercial discrimination. Other complications could arise. What
if your ISP made it easier for you to connect to a particular online
shoe store and harder to reach others? That would be powerful
control. What if the ISP made it difficult for you to go to Web sites
about certain political parties, or religions, or sites about
evolution? [Berners-Lee, 2010]
A propósito desta última questão, a da liberdade e privacidade na rede, Tim
Berners-Lee mostrou ainda uma outra preocupação. Segundo este autor, há uma
tendência dos governos, a qual não ocorre apenas nos Estado autoritários, de
vigiar os hábitos dos seus cidadãos online. Tais mecanismos de controlo e
vigilância dos Estados poderão ser considerado uma violação dos direitos
inerentes ao ser humano na era da sociedade em rede ' daí este falar na
necessidade premente de defesa dos novos direitos humanos eletrónicos.
Num outro plano, mas incidindo também sobre a questão da liberdade e direitos
humanos, uma denúncia cáustica do otimismo libertário da internet/web '
nomeadamente quanto à convicção desta ser um meio imparável de empoderamento
do indivíduo e de difusão da democracia ', foi efetuada recentemente por Evgeny
Morozov (2011). No seu livro The Net Delusion. The Dark Side of Internet
Freedom, este académico e ativista dos direitos humanos traçou um retrato
bastante pessimista sobre o impacto da internet na difusão da liberdade e
democracia a nível mundial. Nele mostrou, por exemplo, grande ceticismo quanto
ao papel que o Twitter e outras redes sociais terão tido nos protestos no Irão
em 2009, na altura da reeleição, vista como fraudulenta, de Mahmoud
Ahmadinejad. Na sua opinião, esse impacto foi largamente sobrestimado pelos
media e políticos ocidentais (um contra-argumento poderia ser, eventualmente, o
do papel desempenhado pelas redes sociais no desencadear da chamada Primavera
Árabe, durante o ano de 2011. Todavia, embora a questão não seja abordada no
livro, dado ser anterior à eclosão destas revoltas populares, Morozov rejeitou
também o seu papel determinante35). Segundo este (Morozov, 2011, p. ix), não é
por acaso que há uma crescente difusão de expressões como recessão da
liberdade, saídas do uso restrito dos think-tank para utilização corrente na
linguagem pública. Muitos decisores políticos começaram também a admitir que o
Consenso de Washington ' esse conjunto de políticas dúbias, o qual, no
passado, prometeu um paraíso neoliberal com grandes descontos ', foi
substituído pelo Consenso de Pequim. Este novo consenso, vangloria-se agora de
uma rápida-e-suja prosperidade sem ter de se maçar com essas incómodas
instituições da democracia. Como se chegou a esta situação que ainda há duas
décadas atrás poucos achariam provável ocorrer? Para Morozov, a explicação
passa, em primeira linha, pelo facto de o Ocidente ter vivido sobre os louros
do final da Guerra-Fria. A partir daí, adotou uma abordagem laxista
subestimando, largamente, a capacidade de os regimes autoritários se adaptarem
ao mundo globalizado e à nova realidade da sociedade em rede. Estes, hoje, são
de uma variedade e sofisticação muito diferente do passado. Combinam
autoritarismo com hedonismo e criaram um ambiente amigável ao consumo e
favorável aos negócios (Morozov, 2011, p. ix). Depois, há paradoxalmente os
efeitos negativos da internet/web e da sociedade em rede, ou seja, um lado
negro tipicamente subavaliado. Muitos decisores políticos entusiasmaram-se com
o que este designou, de forma irónica, por doutrina Google ' a convicção
entusiástica do poder libertador da tecnologia acompanhada pela vontade
irresistível de alistar as start-ups de Silicon Valley na luta global pela
liberdade (Morozov, 2011, p. xiii). Morozov criticou essa convicção como um
ciberutopismo, uma crença ingénua na natureza emancipatória da comunicação
online(Morozov, 2011, p. xiii). Para este, tais convicções ciberutópicas deram
origem a um internetocentrismo ' o qual constitui, nas suas palavras
cáusticas, uma droga altamente desorientadora: leva a ignorar o contexto e
aprisiona os decisores políticos na crença de que têm um aliado útil e poderoso
do seu lado (Morozov, 2011, p. xvi).
ENTRE A TRANSPARÊNCIA NA POLÍTICA E A CIBERGUERRA: O CASO WIKILEAKS
Uma das facetas em que se prolongou a visão tecno-libertária para a atualidade
foi a de que a internet poderia contribuir para criar uma nova era de
transparência na política. Parece, pelo menos, ter sido essa a convicção/
missão de Julian Assange, o carismático fundador do site WikiLeaks. Esta
encontra-se plasmada no seu slogan help WikiLeaks keep the governments open.
Mas o mundo dos hackers imbuídos da visão tecno-libertária foi só uma parte do
solo onde Julian Assange e o WikiLeaks cresceram (Leigh e Harding, 2011, p.
56). A outra parte foram os radicais anticapitalistas, a comunidade dos
ativistas do ambiente, dos direitos humanos e dos revolucionários políticos
designados, nos anos sessenta, como contracultura (Leigh e Harding, 2011, p.
56). Tal como o nome sugere, o WikiLeaks começou por ser concebido como um
projeto wiki, quer dizer, baseado na ideia de site editado pelos utilizadores '
neste caso seriam uma espécie de cidadãos jornalistas. Mas Julian Assange e
os seus colegas rapidamente se aperceberam de que o conteúdo dos materiais
colocados ' e a necessidade de remover a informação perigosa ou incriminadora
', tornavam esse modelo inviável (Leigh e Harding, p. 52). Em seu lugar, e para
garantir a confidencialidade e a não identificação (anonimato) das fontes por
meio de sistemas de vigilância na rede, foi usado um software que resultou do
projeto TOR (The Onion Router) ' ironicamente com origem militar.36
Face ao perfil dos fundadores e objetivos do Wikileaks, não é surpreendente que
as revelações de ficheiros diplomáticos tenham afetado sobretudo os EUA, como
principal potência hegemónica, em termos político-económico-militares. Para uma
parte significativa da opinião pública mundial, a revelação dos bastidores da
sua diplomacia, dominado por manobras obscuras e entendimentos oportunistas,
apenas terá vindo reforçar a convicção da perfídia37 da política externa norte-
americana ' vista como largamente amoral, apesar do discurso oficial em torno
de princípios, valores e questões como a democracia e os direitos humanos. No
entanto, passado o furor inicial sobre as revelações pelos media dos ficheiros
Wikileaks, provavelmente o impacto mais duradouro do caso será ao nível das
questões de segurança da rede e da confidencialidade da informação sensível,
diplomática e não diplomática. A forma relativamente simples como se admite que
as informações reveladas pelo WikiLeaks poderão ter sido obtidas, levanta
muitas interrogações.38 Embora a origem não seja oficialmente conhecida, as
centenas de milhares de telegramas diplomáticos revelados em finais de 2010,
poderão ter sido obtidos/subtraídos de forma similar à que terá sido efetuada
pelo jovem militar Bradley Manning ' detido sob acusação de ter sido
responsável pelas revelações anteriores de documentos feitas pelo Wikileaks
relativos às guerras do Afeganistão e do Iraque.
Importa aqui analisar a reação ocorrida na rede face às tentativas de impedir a
divulgação dos telegramas diplomáticos, nomeadamente pelo governo dos EUA.
Estas envolveram quer pressões políticas, quer ciberataques ao sitedo WikiLeaks
de modo a tentar torná-lo inoperacional, quer ainda a pressões sobre as
empresas onde o alojamento estava efetuado e sobre as empresas que lhe
permitiam efetuar transações financeiras, ou seja, receber donativos para o seu
funcionamento. Em retaliação, um grupo conhecido como Anonymous, que agregará,
informalmente, cerca de um milhar de hackers ativistas, lançou um conjunto de
ataques coordenados de negação distribuída de serviço (DDoS) aos sites das
empresas Mastercard, Visa e Paypal. O motivo invocado foi essas empresas terem
deixado de fornecer os seus serviços ao WikiLeaks ' cedendo, assim, à pressão
do governo dos EUA ', e impedindo-o de receber donativos de suporte ao seu
funcionamento. Esses ciberataques, conhecidos como Operation Payback, deixaram
temporariamente os respetivos sites inacessíveis ou extremamente lentos nas
suas operações. Alvo de ataques similares foi também a Amazon.com, a qual
passou a recusar o alojamento nos seus servidores ao WikiLeaks, devido a
idênticas pressões governamentais.
Poderão tais cibertaques ser considerados atos de ciberguerra, como
frequentemente foram retratados nos media? Em rigor conceptual não podem.
Embora o aprofundamento desta questão ultrapasse o âmbito deste artigo, impõem-
se algumas considerações sucintas. O termo ciberguerra só recentemente é
objeto de um uso generalizado, todavia este data dos primórdios da sociedade em
rede. Surgiu originalmente em 1993, nos meios militares e de segurança ligados
à Rand Corporation, por John Arquilla e David Ronfeldt (2002 e 2003 [1993]).
Nessa altura, apesar do interesse suscitado, foi essencialmente visto como
especulativo e futurista. Todavia, nos últimos anos, com a internet e a web a
entrarem numa fase de maturidade, a perceção mudou. Provavelmente isso
resultou, em grande parte, dos conflitos da Estónia (2007) e da Geórgia (2008)
com a Rússia terem tido um campo de batalha paralelo na rede. Mais
recentemente, em finais de 2010, o caso do vírus Stuxnet que afetou o programa
nuclear iraniano, deu ainda mais plausibilidade a um cenário de ciberguerra.
Entre os múltiplos livros e artigos recentemente produzidos sobre este assunto
destaca-se o relatório elaborado para a OCDE39 no âmbito do projeto choques
globais no futuro intitulado Reduzindo o risco sistémico da cibersegurança
(Sommer e Brown, 2011). Os seus autores procuraram avaliar o risco no mundo
atual e no devir que é descortinável. Como estes explicam, no âmbito do
pensamento sobre segurança e estratégia40, o termo ciberguerra designa
frequente uma guerra conduzida substancialmente no ciberespaço ou no domínio
virtual (Sommer e Brown, 2011, p. 13). Esta conceção tem normalmente
subjacente a ideia de que as ciberguerras tendem a ser muito similares às
guerras convencionais (idem, 2011, p. 13) pelo que idênticas doutrinas de
retaliação ou dissuasão poderão ser aplicadas. Em termos de legalidade
internacional, Sommer e Brown sustentam que ciberguerra deverá se definida,
tanto quanto possível, nos termos utilizados para uma guerra convencional ou
cinética. Desde logo, será fundamental ter em conta as disposições atualmente
contidas nos tratados internacionais.41 Para se decidir se um ato pode ser
qualificado como (ciber)guerra, deverá submeter-se ao teste de verificar se é
equivalente a um ataque convencional de guerra no seu objetivo, intensidade e
duração.42
Voltando ao caso dos cibertaques desencadeados em apoio ao WikiLeaks, o que se
verifica é que estes se inserem na tendência para o uso livre do termo
ciberguerra pelos media. Estes tendem a usar a palavra sempre que ocorre um
ataque mais espetacular na rede envolvendo tipicamente hackers. No caso
WikiLeaks, o que podemos constatar é que os cibertaques à Mastercard, Visa,
Paypal e Amazon.com tiveram uma motivação que podemos considerar política e de
protesto. Uma discussão sobre essa motivação política é efetuada por David
Barnard-Wills (2011). Similar posição é sustentada por Yochai Benkler (2012),
num recente artigo na Foreign Affairs, em reação a declarações do chefe do
cibercomando dos EUA, o general Keith Alexander. Este apresentava o Anonymous '
e o seu sub-produto, o LulzSec ', como ameaças à segurança nacional dos EUA,
sugerindo que, num espaço de um ou dois anos, poderiam ter a capacidade de,
através de um ciberataque, provocar uma corte, ainda que limitado, de energia
elétrica. Para Benkler (2012), ver tais grupos primeiramente como uma ameaça à
cibersegurança é uma abordagem errada. Segundo Benkler, estamos, sobretudo,
perante algo mais parecido com os grupos/movimentos de protesto e a
contracultura da década de 60. Assim, o que Anonymous e o LulzSec
essencialmente têm feito, através de cibertaques, é contestar aquilo que
percepcionam como um abuso de poder dos governos e das empresas e promover a
transparência na política e nos negócios.
Para além dos argumentos de Barnard-Wills e de Benkler, sobre o carácter de
protesto social e político dos ciberataques, importa notar que nenhuma das
entidades envolvidas foi um ator estadual, sendo este, em princípio, um
requisito necessário para a qualificação legal como ato de guerra. Não há,
também, tanto quanto se sabe, provas ou indícios de atuação com a conivência,
ativa ou passiva, de atores estaduais. Tudo isto reforça a ideia da
desadequação da qualificação como ciberguerra43, excetuado, claro, no sentido
metafórico do termo. É necessário ainda ter em conta que os ciberataques em
causa ' recorrendo, sobretudo, à técnica de negação distribuída de serviço ',
não utilizaram uma tecnologia particularmente sofisticada, nem provocaram
danos, em termos materiais e físicos, comparáveis aos de uma guerra cinética.
Tudo isto sugere, conforme já referimos, que estamos num plano mais comparável
a uma manifestação política de protesto. Algo similar, por exemplo, a uma
manifestação de rua contra empresas financeiras, numa situação em que alguns
ativistas procuram impedir que estas abram as suas portas e os seus empregados
trabalhem normalmente.
Por último, o facto do caso WikiLeaks não ter consubstanciado uma ciberguerra
não afasta, naturalmente, a possibilidade da sua ocorrência. Uma rápida
pesquisa sobre a literatura de segurança e estratégico-militar mostra até como
a perceção dominante é a de que o risco tem vindo a aumentar. O caso mais
recente dessa tendência é a NATO onde, no novo documento estratégico da
organização, foi dado um especial destaque às ameaças à segurança na rede e aos
ciberataques.44 Independentemente da avaliação que se possa fazer desta
tendência, é um facto que a revolução tecnológica e digital em curso está,
indubitavelmente, a transformar a economia, a sociedade, e a maneira de fazer a
guerra. Tanto quanto é possível avaliar hoje, a tendência é para que o chamado
ciberespaço ' entendido como a rede global de infraestruturas de tecnologias
de informação interligadas entre si, especialmente as redes de telecomunicações
e os sistemas de processamento dos computadores ', abra uma nova dimensão dos
conflitos internacionais (Fernandes, 2012). Apesar das dificuldades em
antecipar as consequências de uma ciberguerra, é de recear que estas possam ser
bem negativas para o funcionamento das atuais sociedades complexas, cada vez
mais dependentes das redes informáticas e de comunicação.
CONCLUSÕES
O progresso científico-tecnológico que permitiu a sociedade em rede trouxe
consigo uma nova área de risco para as sociedades humanas, consequência
paradoxal, e talvez inevitável, do seu próprio sucesso. A ideia de sociedade de
risco de Beck capta bem essa realidade na atual sociedade em rede. Assim, é
inequívoco estarmos perante mais um risco da modernidade reflexiva, o qual
acresce ao catálogo de outros já bem conhecidos e diagnosticados, como o risco
ecológico. Olhando retrospetivamente, é fácil constatar que nos criadores da
internet e nos teorizadores dos primeiros tempos da sociedade em rede,
ootimismo era a nota dominante, como se verifica na teorização dos anos 90 de
Castells. Todavia, a utopia da sociedade em rede tornou-se uma realidade, mas
não exatamente como os ideais tecno-libertários julgavam ser possível. Em parte
isto ocorreu porque o mundo económico-empresarial se apropriou desta,
submetendo-a às regras do mercado e da produção capitalista, ou seja,
subvertendo o ideal comunitário de partilha e de colaboração numa base não
lucrativa. Em parte ocorreu também porque a internet e a web se tornaram um
espaço que mimetiza a complexidade da natureza humana.
Na atual sociedade em rede constatam-se tendências contraditórias que tornam
difícil discernir a sua evolução futura. Estas contradições estão bem
refletidas na atual abordagem teórica. Por um lado, existe a tendência
colaborativa em massa da wikinomics, dos bens não-proprietários e do modelo
do Pinguim (Benkler, 2011), da nova era de transparência na política
(Assange/WikiLeaks). Este aspeto é enfatizado por todos aqueles que continuam a
discernir um futuro transformado pelos ideais tecno-libertários. Por outro
lado, os riscos que afetam a sociedade em rede estão a ser objeto de crescente
preocupação, nomeadamente quanto à possibilidade de perda de neutralidade da
internet/web e da criação de ilhas fragmentadas (Berners-Lee, 1990 e 2010). O
ciberutopismo e o internetocentrismo dos media e políticos ocidentais é
corresponsabilizado pelo estado deplorável da liberdade e da democracia no
mundo, ao subestimar a capacidade de os regimes autoritários se adaptarem à
sociedade em rede (Morozov, 2011). Num outro plano, está ainda a crescente
preocupação com a possibilidade de uma ciberguerra (Sommer e Brown, 2011; Clark
e Knake, 2010), um risco que tem vindo a aumentar, pela crescente dependência
da economia e da sociedade das redes informáticas e de telecomunicações.
Independentemente dos benefícios, e de qual seja o futuro da sociedade em rede,
tornou-se claro que esta já não se encontra na idade da inocência. Agora é
também uma nova área de risco para as sociedades humanas.