O Programa Especial de Realojamento: Ambiente histórico, político e social
INTRODUÇÃO
No contexto das políticas de habitação social em Portugal, o Programa Especial
de Realojamento (PER) é um dos planos mais ambiciosos de sempre. Foi, por isso,
muito debatido desde o início, em 1993. A quantidade de análises já produzidas
sobre o Programa Especial de Realojamento gerou um cansaço temático sobretudo
durante os anos 1990.1 Desde as análises críticas feitas às intenções do PER,
passando pela análise sobre a satisfação residencial das famílias realojadas,
colóquios e encontros dedicados ao tema, cruzando com as perspetivas dos
funcionários municipais que aplicaram o programa, até às perspetivas
científicas, o PER desencadeou um número considerável de trabalhos de âmbito
técnico e científico sobre habitação como até então nunca acontecera. Desta
forma, constitui-se como contexto singular, e de certa forma paradigmático, das
complexidades que atravessam as políticas sociais no contexto português.
A discussão sobre a habitação em geral, embora fértil em análises críticas
sobretudo no domínio da sociologia, carece contudo de afirmação disciplinar. É
na interseção entre disciplinas como a arquitetura e o urbanismo, classicamente
mais associadas à habitação, com as ciências sociais, que aquela se pode
afirmar.
Olhar criticamente para o PER e para os seus discursos é correr um risco, ou
pelo menos estar sujeito aos riscos metodológicos inerentes a qualquer análise
crítica sobre políticas de habitação. As dificuldades prendem-se sobretudo com
o facto de estas análises obrigarem a olhar para diversos tipos de discursos.
Neste artigo atravessar-se-ão sobretudo o discurso legislativo, técnico e
científico. As questões que aqui se colocam procuram, assim, apresentar o PER
através de uma análise conjuntural. Como se chegou à legislação que criou este
programa e quais os posicionamentos críticos desencadeados nos primeiros anos
da sua aplicação? Como programa de habitação de grandes aspirações, quais as
reflexões que o PER suscitou?
A habitação, à semelhança da educação e da saúde, que requerem uma
discursividade política, social e legislativa ajustada ao desenvolvimento das
necessidades das populações, tem sido uma área temática geradora de cientistas
sociais ativamente participativos. Quer isto dizer que, além da produção de
conhecimento na área em causa, os autores são, ou tornam-se muitas vezes também
técnicos envolvidos na execução de políticas sociais. Esta situação, não sendo
exclusiva da habitação, merece destaque no sentido de se compreenderem melhor
as políticas de habitação. Exemplar neste domínio foi o Serviço Ambulatório de
Apoio Local (SAAL) (cf. Portas, 1986; Bandeirinha, 2007; Baía, 2009), inscrito
num ambiente político propício à interação entre especialistas e camadas
populares (Almeida, 2009). Não obstante, antes do 25 de abril momentos houve em
que o desejo de conhecimento e a necessidade de que os contributos científicos
tivessem utilidade política conviveram, apesar das dificuldades que essa
atitude enfrentava, tanto no domínio da produção de conhecimento, como no da
exposição pública de resultados. É o caso dos esforços de Raul da Silva
Pereira, entrevistado neste número da Análise Social, e arauto do Fundo de
Fomento da Habitação (Pereira, 1963a; 1963b).
O PER permitiu um cruzamento entre conhecimentos científicos e técnicos. Os
cientistas sociais operaram em diversos terrenos: ora produzindo estudos a
pedido de instituições estatais; ora implicados na colocação em prática dos
processos de realojamento, ora chamados a intervir em conferências. Ao longo
deste artigo essa relação tornar-se-á mais clara; no entanto cabe aqui referir
os principais meios de ligação. Por um lado, a existência do Laboratório
Nacional de Engenharia Civil, que colaborou com cientistas sociais nas suas
publicações, sobretudo no domínio da ecologia social, a partir da sociologia,
da antropologia e da psicologia social. A título de exemplo, destacaríamos os
trabalhos de Luís Soczka e outros (1988); Susana Trovão Pereira Bastos (1990);
Maria João Freitas (1990); Maia etal. (1992).
Para este artigo utilizou-se uma revisão bibliográfica, tanto ao nível da
produção teórica através da pesquisa de revistas da especialidade, como
através de uma produção técnica e mesmo empírica, consubstanciadas em atas de
colóquios e encontros que ocorreram durante o PER, consultados no centro de
documentação do IGAPHE.2 Em seguida, destacam-se três secções que visam,
nomeadamente, abordar os principais contributos para analisar o PER; apresentar
os fatores que conduziram à legislação do PER; e analisar sucintamente o
Decreto-Lei que o legisla. A quarta secção é dedicada à observação dos
discursos, tanto de especialistas como dos executores, completando a análise
do ambiente social e político que se vivia sobretudo no início do PER.
CONTINUIDADES NAS POLÍTICAS DE HABITAÇÃO SOCIAL
Na história das políticas de habitação em Portugal, alguns contributos foram
demasiado importantes para que se justifique a elaboração de uma nova síntese
histórica. Assim, recordam-se aqui histórias já contadas por António Fonseca
Ferreira (1988), Marielle Gros (1994) e Luís Baptista (1999).
Ao longo da história das políticas de habitação em Portugal, há situações que,
apesar da sua distância no tempo, demonstram proximidades curiosas e permitem
verificar que as políticas mais recentes, e mesmo as críticas que possamos
tecer acerca delas, não são inovadoras. Gostaria de começar por ressaltar uma
constatação recorrente tanto nas políticas higienistas no início do século XIX
como nas políticas de habitação mais atuais, que se prende com as dificuldades
burocráticas associadas à aplicação dos programas. Em 1913-1914 Almeida Garrett
diz que as ordens dos subdelegados de saúde se diluem de tal forma que nenhuma
ordem chega a ser executada (Gros, 1994, p. 81). Ao defender um órgão central
que coordene a Habitação em Portugal, Raul da Silva Pereira (1963b) refere a
fragmentação dos regimes locais no que toca à habitação (Pereira, 1963b, p.
238). Já nos anos 1990, Luís Baptista diz que na habitação social, as rotinas
burocratizadas parecem ter substituído o espírito que dá sentido à iniciativa
pública(Baptista, 2001, p. 76).3 Isabel Guerra refere, por seu lado, que A
organização solidária dos poderes locais' [no PER] é difícil devido à
fragmentação das estruturas administrativas locais (Guerra, 2001, p. 54).
Apesar de as políticas higienistas e de políticas de realojamento terem entre
si quase um século, a sua execução é criticada pelas dificuldades burocráticas.
Outra semelhança que podemos encontrar situa-se ao nível da nomenclatura que
envolve as políticas de habitação em Portugal, em que destacamos as noções de
bairro social e do par casas económicas/casas desmontáveis.
A designação bairros sociais, hoje reconhecida como designação geral para os
bairros de realojamento, surgiu em 1918 na I República, no âmbito de uma
política de habitação com o mesmo nome (Bairros Sociais). Mais tarde, no
contexto do Estado Novo, experimentaram-se alguns conceitos, tanto na escrita
das leis como na sua aplicação. O Programa das Casas Económicas foi o mais
longo e ambicioso programa de habitação do Estado Novo. Imbuído de uma
discursividade que prometia mais do que executava, promoveu no entanto a
construção de bairros sociais baseados em conceitos arquitetónicos inovadores à
época. Cinco anos depois de iniciado o Programa das Casas Económicas (1933),
surge o Programa das Casas Desmontáveis (1938), para famílias que não
conseguiam aceder ao programa das Casas Económicas. Parafraseando Luís
Baptista, as casas afinal não eram tão económicas quanto se previa (Baptista,
1999, p. 60). O objetivo das casas desmontáveis era que as famílias em
situações mais graves de alojamento ali residissem provisoriamente até poderem
ingressar no programa das casas económicas, ao longo do qual o pagamento de
prestações durante 25 anos lhes daria acesso à posse da casa. Com as devidas
diferenças, a espera continuada destas famílias poderá assemelhar-se à
expectativa de realojamento iniciada com as primeiras promessas políticas que
acompanharam o PER, e ainda presente nas famílias inscritas no PER que não
desistiram de uma casa em habitação social. Ao nível das intenções
legislativas, destacam-se outras semelhanças, nomeadamente a participação dos
municípios na edificação de habitação social, em modalidades variáveis a partir
de 1959, com o Decreto-Lei n.º 42 454; a localização excêntrica dos conjuntos
de habitação social face à cidade; a nova residência como locus privilegiado
para mudança de estilo de vida. No caso do PER, veremos adiante como estes
aspetos foram experimentados.
O SAAL é em tudo diferente do PER. Se o SAAL procurou, em muitos casos,
reconstruir e requalificar os bairros cujas casas tinham sido construídas pelos
moradores de acordo com as suas possibilidades, o PER, face aos mesmos tipos de
bairros de construção informal, investiu no realojamento das populações em
bairros sociais, muitas vezes distantes da residência anterior. Se o SAAL
investiu saber técnico, através de arquitetos e engenheiros que se deslocavam
ao terreno para, com os moradores, encontrarem soluções de melhoria das
condições habitacionais de acordo com os cânones da época, procurando ao mesmo
tempo respeitar os interesses dos moradores, o PER construiu para realojar, em
massa e a baixos custos, com a pretensão de acabar com as barracas, objetivo
primeiro do programa. Estas são apenas duas grandes diferenças, mas importa
recordar que o ambiente político do SAAL era propício ao desenvolvimento de
projetos participativos (Almeida, 2009) e que as condições territoriais da
segunda, nomeadamente a pressão urbanística sobre os terrenos onde estavam
localizados os bairros informais nos anos 1990, limitavam as escolhas políticas
para a implementação de medidas de melhoria das condições habitacionais a larga
escala.
FATORES PARA A EMERGÊNCIA DO PER
O PER nasce da necessidade política de solucionar o problema da proliferação de
bairros degradados às portas das principais cidades. Importa, por isso, rever
brevemente em que contexto se deu o crescimento exponencial de bairros de
construção informal, e olhar com atenção para os anos que precedem o PER.
A partir de finais dos anos 1970, a construção clandestina aumentou muito em
toda a área metropolitana de Lisboa (AML). Um dos fatores que contribuiu para
este crescimento foi um vazio da promoção legal da habitação, na sequência de
um acordo entre o governo português e o FMI, que procurava desacelerar o
endividamento provocado pelo excesso de créditos contraídos nos anos
anteriores, e que provocou a suspensão do lançamento de novos empreendimentos
do setor público e cooperativo (Ferreira, 1988, p. 60). A construção civil,
fruto desta conjuntura, centra-se sobretudo na construção de bairros
clandestinos, que permitia satisfazer as necessidades familiares face à
ausência de alternativas (Paiva, 1985, p. 75).
Uma parte dos bairros clandestinos é conhecida pela designação bairros de
barracas, que cresceram muito nesta altura, não só em virtude da crise
financeira, como também devido ao afluxo de imigrantes na sequência da
independência das ex-colónias africanas. Muitos imigrantes sem capacidade
económica assentaram nestes bairros de barracas, onde, numa situação de
ausência de loteamento formal, compraram casas4 ou terrenos a baixos custos aos
primeiros ocupantes, refizeram ou construíram de raiz, e melhoraram a
construção conforme a disponibilidade para adquirir novos materiais. No caso
específico da AML, a construção informal terá beneficiado do estatuto equívoco
da antiga Estrada Militar5, onde os bairros cresceram fortemente.
Em meados dos anos 1980, o crescimento das barracas era notado por todos,
embora essa perceção não tenha tido correspondência em estudos que dessem conta
da realidade dos bairros. No caso da AML, os bairros cresceram em zonas
inicialmente periféricas e progressivamente mais centrais, com o processo de
suburbanização da cidade de Lisboa (Nunes, 2011). Teresa Salgueiro fala em 16
585 famílias a viver em barracas na AML, no início dos anos 1980 (Salgueiro,
1985, p. 63). Além do concelho de Lisboa, os municípios limítrofes com maior
número de barracas eram os da Amadora, Loures e Oeiras. Nesse sentido,
acentuou-se a segregação sócio-espacial. Este contexto social contribuiu para
um consenso político alargado relativamente à necessidade de uma política
habitacional e de uma intervenção estatal forte. O Estado procurou intervir com
o objetivo de acabar com a exclusão social e contribuir para a diminuição da
incidência da pobreza. A pobreza torna-se inclusivamente mote político (Guerra,
1994, p. 13), nomeadamente através do Programa Nacional de Luta Contra a
Pobreza (PNLCP), no seguimento do II Programa Europeu de Luta Contra a Pobreza
(Capucha, 2004, p. 88) iniciado em 1990, que, aliás, é referido no próprio
Decreto-Lei que enquadra o PER. Em 1993, contava já com cerca de 100 projetos
no terreno.
Ainda nos anos 1980, cabe também referir o Plano de Intervenção a Médio Prazo
(PIMP), que projetava o realojamento de famílias residentes em habitações
precárias. Legislado em 1987 (Decreto-Lei n.º 226/87 de 06-06-1987), deu origem
à construção de 9698 fogos até 1993 (Farina, 2001, p. 57). Segundo Fonseca
Ferreira, o PIMP falha porque a lógica quantitativa prevalece em relação à
visão de conjunto do problema habitacional (Ferreira, 1988, p. 58). Em 1993, o
mesmo autor coordena um estudo que acaba por funcionar como mote para o PER, o
Livro Branco da Habitação (Ferreira, 1993). A versão preliminar do Livro Branco
da Habitação é apresentada no Encontro Nacional de Habitação em fevereiro de
1993. Além de fazer um estado da arte, o Livro Branco da Habitação apresenta
sugestões precisas para o futuro próximo: impõe-se uma Lei-Quadro da Habitação
[ ] ao nível central, municipal e dos restantes agentes do sector (Ferreira,
1993, pp. 9-10). Sugere-se que a habitação é responsabilidade das Câmaras
Municipais (idem, p. 25) e, nas propostas, fala-se da necessidade de construir
500 mil novas casas até ao ano 2000 e de se criar um parque social de aluguer
alternativo às barracas e clandestinos (idem, p. 52). As propostas terminam
sugerindo que o Encontro Nacional de Habitação onde o Livro Branco foi
apresentado constituía uma boa oportunidade para dar um novo impulso (idem,
pp. 53-54). Três meses mais tarde o PER seria legislado.
O DECRETO-LEI N.º 163/93 DE 7 DE MAIO ' O PER
O PER foi legislado a 7 de maio de 1993, através do conhecido Decreto-Lei n.º
163/936. São três os principais eixos de leitura que podemos encontrar no texto
deste diploma legal: ao nível dos objetivos, (1) erradicar as barracas; ao
nível da metodologia executiva (2) envolver os municípios de forma vincada no
processo; e finalmente, a um nível mais complexo de leitura sociopolítica (3)
potenciar, com o realojamento, uma mudança no estilo de vida dos moradores.
Logo no início do texto que precede as alíneas do decreto encontramos uma
frase-chave para entender o fundamento argumentativo do decreto:
A erradicação das barracas, uma chaga ainda aberta no nosso tecido
social, e consequente realojamento daqueles que nelas residem impõem
a criação de condições que permitam a sua total extinção [Decreto-Lei
n.º 163/93 de 7 de maio DR, I Série ' A n.º 106 07-05-1993, p. 2381].
As barracas são vistas como uma chaga social, um problema que tarda a ser
resolvido, e que todos podem constatar. A solução explícita é a sua demolição
total e respetivo realojamento das populações que habitam os bairros. Os
artigos que compõem o decreto legislam sobre o envolvimento e responsabilidade
dos municípios na execução do programa. Muito embora o compromisso das câmaras
tivesse já sido ensaiado noutras legislações, como no PIMP, e mesmo durante o
Programa das Casas Económicas do Estado Novo (cf. Baptista, 1999, pp. 184-187),
é com o PER que esse compromisso se torna mais substantivo:
A efectiva resolução do grave problema social de habitação exige que
as autarquias locais envolvidas neste programa assumam claramente o
objectivo da eliminação das barracas como uma das suas tarefas
prioritárias, envolvendo o estabelecimento de um compromisso sério
com a administração central [Decreto-Lei n.º 163/93 de 7 de maio DR,
I Série ' A n.º 106 07-05-1993, p. 2381].
Além do objetivo principal da erradicação das barracas e do meio principal para
o fazer ' o envolvimento ativo dos municípios ' o PER tem a finalidade de
alterar estilos de vida, como solução para a exclusão social a que as
populações estão sujeitas por habitarem nos bairros de barracas, seguindo a
perceção política veiculada no texto legislativo:
Complementarmente à resolução do problema habitacional, é oferecido
aos municípios ou instituições particulares de solidariedade social
um programa alargado de inserção social das comunidades envolvidas,
visando a criação de condições a uma plena integração destas
populações na comunidade e combatendo os problemas de criminalidade,
prostituição e toxicodependência, entre outros, a que a exclusão
social motivada pela falta de condições habitacionais condignas as
deixou votadas [idem].
Esta vertente do texto legislativo do PER traz implícita uma estigmatização
social dos bairros de barracas, e que as condições de habitação degradadas
favorecem comportamentos desviantes, empolando a importância da ação social
sobre eles, e reproduz o conceito de cultura da pobreza. Esta circunstância não
é singular no caso português; ela manifesta-se em vários países da União
Europeia, sobretudo em virtude do Quarto Programa de Bases da Comissão das
Comunidades Europeias (1994), que elabora documentos sobre a falta de controlo
de indivíduos e grupos específicos socialmente excluídos ou discriminados
(referido por White, 1998, p. 148).
PER ' EXPECTATIVAS, AVISOS E IMPRUDÊNCIAS
Ao realizar pesquisa sobre o PER, rapidamente percebemos que os anos 1990,
sobretudo desde o Decreto-Lei n.º 163/93 de 7 de maio, foram anos de grande
esperança por parte dos técnicos que ajudaram a levar a cabo o realojamento,
relativamente à erradicação das barracas e relativamente ao benefício que o
realojamento constituiria para as famílias, que passariam a viver com melhores
condições habitacionais. Contudo, a par das expectativas elevadas relativamente
ao PER, estiveram também os avisos dos erros em que o PER poderia incorrer,
apontados desde o início.
O período de expectativas de que falamos encontra-se espelhado numa sucessão de
reflexões críticas realizadas por técnicos mais próximos do terreno e também
por cientistas sociais. As exposições públicas destas reflexões encontram-se
nas atas dos seminários dedicados à habitação e na publicação de artigos, às
vezes em números de revistas inteiramente dedicados ao tema. E é por este grupo
que começaremos, destacando duas publicações exclusivamente dedicadas às
problemáticas em torno da habitação.
O momento mais marcante de publicação das reflexões científicas sobre as
problemáticas associadas ao realojamento em habitação social é o número 20 da
revista Sociedade e Território, com o título As pessoas não são coisas que se
ponham em gavetas(1994). Este número parece constituir uma tentativa de alerta
para os executores da legislação recentemente publicada. As lições e
prevenções para o PER de Fonseca Ferreira, que abrem o volume, são sinais
claros dessa chamada de atenção para os possíveis erros em que o PER cairia.
Ferreira vaticina: O PER tem à partida todos os ingredientes para o desastre:
construção massiva, realojamentos concentrados, populações de grande
precariedade económica e com graves problemas sociais, serviço de administração
burocratizados (Ferreira, 1994, p. 10). No artigo seguinte, que dá o título à
publicação, Isabel Guerra começa por chamar a atenção para o fracasso de
experiências anteriores ao PER de realojamento densificado e para a crescente
heterogeneidade cultural dos bairros (Guerra, 1994, p. 11). Os argumentos
principais vão no sentido de apelar a uma estratégia de desenvolvimento social
urbano da cidade, e a um aprofundamento da concertação entre os parceiros
(idem, pp. 15-16). Os organizadores do volume convidam um especialista francês
na matéria, Michel Bonetti, que escreve um artigo sobre a revalorização dos
bairros sociais construídos nos subúrbios das grandes cidades francesas, de
construção intensiva, que procurou reproduzir as unidades de habitação
modernistas de Le Corbusier, mas em zonas menos favorecidas, com piores
materiais, e com menos espaço territorial para executá-las. Bonetti (1994)
retrata a realidade francesa de meados dos anos 1990, e o seu artigo funciona
como uma advertência do que pode acontecer se a construção de bairros na
aplicação fosse intensiva: adviriam problemas sociais complexos, com
necessidades de programas específicos de desenvolvimento social.
Este número da revista Sociedade e Território é incontornável na história da
reflexão crítica sobre a habitação em Portugal. É lá que são publicados os
quatro paradoxos do realojamento, da autoria de Maria João Freitas, a qual
chama a atenção para o facto de muitos realojamentos tenderem para cumprir
objetivos quantitativos ' número máximo de famílias realojadas ' em vez de
procurarem em primeiro lugar que a intervenção do realojamento seja feita em
prol das populações-alvo (Freitas, 1994, p. 31)7. Esta autora alerta ainda para
a possibilidade do fechamento em casa, quando as famílias mudam do ambiente
familiar do bairro degradado para os prédios de realojamento (idem, p. 29), uma
ideia que viria a ser amplamente corroborada nos estudos sobre satisfação
residencial.
O número 3 da revista Cidades.Comunidades e Territórios, editado no início dos
anos 2000, depois de alguns projetos de realojamento no âmbito do PER terem
sido aplicados, é outra publicação inteiramente dedicada aos temas sobre
políticas de habitação. Por isso, as análises nele contidas são mais de
avaliação do que de projeção. O artigo de Maria João Freitas concentra-se na
importância da comunicação efetiva entre técnicos e populações para tornar mais
eficazes as políticas sociais de habitação (Freitas, 2001). A autora fizera
parte da equipa técnica para a aplicação do PER no concelho de Cascais
(Freitas, 2002), e é com conhecimento prático que fala destas necessidades.
Numa mesma linha de reflexão que aponta para as preocupações da aplicação dos
programas, Isabel Guerra fala das dificuldades dos técnicos na intervenção
urbana (Guerra, 2001), espelhando as preocupações levantadas por Bonetti em
1994. Outros temas como a satisfação residencial em situação de realojamento
(Gonçalves, 2001), a coexistência interétnica (Castro etal., 2001) e, as
armadilhas teórico-metodológicas na abordagem científica dos temas relacionados
com a habitação (Baptista, 2001), espelham uma década de reflexões sobre o
presente social, em que a habitação em geral, e a habitação social em
particular, foram temas centrais no início dos anos 2000. Esta publicação
aponta para a insatisfação residencial das populações recentemente realojadas.
A satisfação com a casa e a insatisfação com o bairro diagnosticada, e.g., por
Pinto (1994) relativamente a bairros sociais anteriores ao PER, é uma ideia
corroborada nesta altura (Gonçalves, 2001; Cotrim et al., 2001). O volume
conta ainda, curiosamente à semelhança do número da revista Sociedade e
Território anteriormente focado, com o contributo de um teórico francófono,
Jean-Michel Léger, sobre modos de habitar e arquitetura, no qual debate a
diferença de linguagem entre projetos de arquitetura e vivências das populações
que vêm a habitar os bairros.8
Importa salientar relativamente a estes dois importantes volumes o seu tipo de
publicação. O facto de os artigos neles contidos terem sido publicados em
revistas temáticas permitiu uma certa abertura do debate sobre questões de
habitação. Alguns dos especialistas na área estavam também envolvidos nos
próprios processos de realojamento, como pelo menos no caso do PER Cascais
(Freitas, 2002) e do PER Oeiras, com Margarida Marques.9 Vejamos em seguida
algumas das considerações tecidas ao longo da aplicação do PER, invocando, para
isso, alguns encontros, conferências e colóquios dedicados ao tema em foco.
A compreensão do PER passa por perceber como os técnicos foram analisando a
implementação do programa. Para isso, foi importante conhecer o centro de
documentação do IGAPHE10 com um acervo sobre seminários especializados na área
em causa. Analisando-os não apenas como documentos com dados importantes, mas
prestando atenção às comunicações e intervenções como textos que refletem um
certo estado de espírito dos que os dizem ou escrevem, podemos perceber algumas
recorrências neste tipo de eventos, também presentes nas publicações
anteriormente revistas: (1) como devem ser levadas a cabo as políticas de
habitação social, o que reflete um tipo de discurso muito frequente nos textos
sobre habitação social em geral; (2) uma grande esperança relativamente ao PER,
que passa por críticas sobre algumas das ações de realojamento anteriores ao
PER, ou mesmo em relação ao trabalho realizado nos primeiros anos da
implementação daquele programa. Ao mesmo tempo denota-se um nível de exigência
muito elevado. Há, finalmente, um aspeto manifestamente mais reflexivo a levar
em conta na leitura destes textos, que passa pela (3) constatação, na maior
parte dos seminários e conferências, da utilidade deste tipo de encontros no
sentido de partilha de opiniões e no cruzamento de experiências positivas e
negativas. De facto, alguns destes seminários têm a função de manter ativos os
canais de comunicação entre diferentes experiências técnicas nas autarquias
numa mesma área de intervenção. Segue-se a análise de alguns seminários que
exemplificam a reflexão sobre a habitação social em Portugal nos anos 1990.
Em 1994, o seminário Pensar o realojamento é promovido pelo Centro de Estudos
Territoriais (CET). Nele estão presentes representantes dos municípios da AML,
no que parece ser um primeiro momento de reflexão entre autarquias interessadas
no PER (algumas com acordos já estabelecidos com o IGAPHE/INH nessa data). O
objetivo do seminário é:
[ ] proporcionar um espaço de diálogo e de permuta de ideias e
experiências sobre as questões do realojamento no contexto que se
segue à apresentação de candidaturas ao PER [ ] [Seminário Pensar o
realojamento, 24-03-1994, Lisboa].
Uma outra preocupação patente neste e noutros seminários vai no sentido de que
os realojamentos tenham em conta as populações, as suas necessidades e
características específicas. A mesma necessidade é sublinhada nos diferentes
encontros:
Atender às particularidades de cada processo de realojamento
designadamente as que envolvem população com culturas próprias e de
difícil assimilação em conceitos urbanos europeus [ ] [Seminário
Pensar o realojamento, 24-03-1994, Lisboa].
[ ] torna-se fundamental identificar as populações e conhecer
efectivamente as suas necessidades concretas, atitudes, expectativas,
de modo a compreender-se a especificidade das dissonâncias sociais
destas populações alvo [ ] [Isabel Gonçalves, Encontro sobre
Habitação na Área Metropolitana de Lisboa. Comunicações, Oeiras,
1995, p. 48].
[ ] Haverá que considerar grupos étnicos diferenciados [ ] a
merecerem análise específica no contexto do realojamento [ ] [Flores
dos Santos, Encontro sobre Habitação na Área Metropolitana de
Lisboa. Comunicações, Oeiras, 1995, p. 52].
O testemunho de uma técnica da Câmara Municipal de Loures reflete as
dificuldades práticas do seu município, e menciona a necessidade de
compensações às populações por aquilo que não viria a ser feito de acordo com
as expectativas.
[ ] [o realojamento] [ ] tem de ser feito com uma visão
multidisciplinar. [ ] Efectivamente o conhecimento da realidade
sociológica das famílias não pode ser apenas para adequar habitações
às famílias [ ]: a pressão da necessidade de habitação e a falta de
terrenos já aqui invocada estão a fazer com que não seja possível
alojarmos com as características ideais de habitação. Nós temos que
alojar em altura em Loures. [ ] E não como as famílias estão a
querer. Isto leva-nos a que nós temos de compensar os desajustamentos
entre as características da habitação e as expectativas das famílias
com um acompanhamento completo. [ ] [Encontro sobre Habitação na
Área Metropolitana de Lisboa. Comunicações, Oeiras, 1995, p. 59].
Outra questão relacionada com esta é a preocupação com a adaptação das
populações realojadas a novos contextos residenciais, e a novos modos de vida:
[ ] seria muito importante que não tivéssemos em relação a este
Programa Especial de Realojamento a perspectiva exclusiva de que
temos de fazer habitação para tirar as pessoas das barracas. E [que]
tivéssemos muitas preocupações de como vamos fazer [ ] para as
integrar num outro tipo de vida [ ] [Daniel Branco, Encontro sobre
Habitação na Área Metropolitana de Lisboa. Comunicações, Oeiras,
1995, p. 116].
Dentro da mesma linha, mas numa visão mais alargada, pensando nas faces
negativas dos bairros sociais onde as pessoas são realojadas, Isabel Guerra
refere, no III Encontro sobre programas de realojamento INH 1997, que há a
necessidade de revalorizar os habitantes. Os momentos de partilha de opiniões e
de discussão nos seminários vão indicando a perceção, por parte dos
intervenientes, de que não deveria haver habitação social intensiva.
[ ] a concepção inicial privilegiou a habitação e não previu os
equipamentos sociais, culturais, produtivos ou outros [ ] [nem que] o
acesso a uma habitação digna não altera substancialmente as outras
condições de vida da população [ ] [Isabel Guerra, no III Encontro
sobre programas de realojamento INH 1997].
As perspetivas menos céticas estão também presentes nos encontros. Num colóquio
intitulado A política da habitação (1997), Eduardo Vilaça faz uma resenha
histórica da habitação em Portugal e conclui com um comentário relativamente à
execução do PER que pode ser interpretado como uma projeção positiva do
programa:
[ ] O aspecto mais positivo deste regime é a dinâmica que veio
imprimir para uma resolução definitiva e coordenada do problema das
barracas, por via da necessidade de apresentação de uma solução
global e planificada [ ] por parte de cada um dos municípios
aderentes [ ] [Eduardo Vilaça, colóquio A política da habitação,
CGD, promovido pelo Conselho Económico e Social 1997].
Outra perspetiva positiva, contra todas as dúvidas e críticas que vão sendo
levantadas nos seminários: Para os mais cépticos [do PER], eu recomendaria a
presença numa cerimónia de entrega das chaves (Jorge Morgado, III Encontro
sobre programas de realojamento INH 1997).11 No mesmo encontro, Eduardo
Vilaça parece ser o diplomata entre os céticos e os apoiantes do PER:
Dantes tínhamos os programas de realojamento, que eram programas de
construção, hoje estamos a tentar, todos, dar uma nova dimensão ao
realojamento que é uma dimensão mais humana, uma dimensão mais
social, uma dimensão mais virada para a questão da família e para a
questão da pessoa [ ]. E é por isso que vemos crescentemente a
preocupação dos municípios [ ] que têm tido em tornar diferentes os
programas de realojamento. [ ] Depois deste PER teremos, com certeza,
outro PER [ ]. As situações de carência [ ] estão longe de estar
resolvidas, mas entrámos no bom caminho [ ].
Muitos dos técnicos que levaram a cabo o processo de realojamento não publicam
as análises decorrentes do seu trabalho de terreno como o fazem os académicos,
que, aliás, também participam nestes encontros. A exposição das inquietações e
das necessidades dos técnicos pode resumir-se em três ideias. A primeira é a de
que a reflexão crítica sobre a aplicação do PER denota diferentes loci do
discurso: um, mais académico, tratando das análises e das propostas
(publicadas) e outro, mais técnico, criticando a partir da experiência e das
dúvidas (nos encontros públicos temáticos, onde os trabalhadores sociais têm
voz). A segunda é a reprodução e discussão de uma das principais ideias
veiculadas no texto legislativo do PER, a da proposta de alteração dos modos de
vida das populações. A terceira, experimentada através da exposição das ideias
mais sublinhadas em publicações periódicas e em encontros temáticos, é o
próprio diálogo que sobressai entre estas duas vertentes. Em muitas das
reflexões críticas já se antevia, antes dos realojamentos propriamente ditos, o
que se veio a concluir sobre a satisfação residencial no âmbito dos
realojamentos do PER, ou seja que as populações ficam, grosso modo, satisfeitas
com a mudança da sua situação habitacional quanto ao tipo de alojamento, mas
insatisfeitas com os bairros sociais onde são realojadas.
Aos poucos, a leitura das apreciações tanto da Lei como da sua aplicação aponta
para uma crítica geral que parece dizer que tendo em conta a história dos
realojamentos na Europa (cf. Ferrand (dir.), 1990) e mesmo algumas experiências
em Portugal, não faria sentido canalizar os fundos do PER para a construção
intensiva de bairros sociais reprodutores de exclusões prévias e novas. No caso
português, as políticas sociais de habitação parecem muito influenciadas pela
experiência francesa. No entanto, ao invés de levarem em conta os erros
cometidos nos anos 1960 e 1970 e procurarem modelos próprios, as políticas
portugueses reproduzem, no PER, a habitação social europeia do pós-guerra,
produzindo pequenos guetos nos subúrbios das áreas metropolitanas. Durante os
anos 1990, os franceses produziam reflexões sobre a obsolescência dos grandes
conjuntos residenciais de habitação social, com posturas céticas relativamente
à reestruturação dos bairros, e muitos fazendo a apologia da sua demolição (cf.
e.g. Dupuy, 1997; Kerhuel, 1995; Jegouz, 1995; Goussot, 1995; Raynouard, 1996).
Os debates sobre a vida nos bairros precários e sobre a alteração dos modos de
vida remonta, no caso francês, à década de 1970 (cf. e.g. Pétonnet, 1968;
Sailly et al., 1976; Schoonbrodt, 1979), razão pela qual o debate português
soa, por vezes, datado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Leur déception et leurs critiques est à la mesure de leurs espoirs.
(Bonetti, 1994, p. 19).
Ninguém poderá ser responsabilizado por não ter conseguido, mas sim
por não ter tentado. (Ferreira, 1994, p. 10).
Estas frases são retiradas de textos produzidos num dos números de revista
dedicados à habitação anteriormente analisados. Elas resumem, a meu ver, o
ambiente vivido durante os primeiros anos do PER, que se quis retratar neste
artigo a partir da análise de textos provenientes de duas fontes: textos de
índole académica produzidos por especialistas na área, e atas de seminários
alusivas aos processos de realojamento no contexto do PER. A primeira dá conta
do estado de espírito patente na primeira fase do PER e resume os textos
analisados no sentido em que ao longo dos anos 1990 se percebe um crescendo de
esperança nas políticas de habitação, acompanhado de propostas e análises
críticas dos projetos entretanto levados a cabo. A segunda expõe de certa forma
a consciência académica dos erros em que o PER viria a incorrer, denota a
perceção de que o programa já começara e que havia que aplicá-lo o melhor
possível, e refere-se ainda ao mito da requalificação dos espaços urbanos como
panaceia para os problemas das populações que lá habitam.
Reviu-se aqui ainda o texto legislativo que enquadra o PER. O Decreto-Lei n.º
163/93 resulta dos estudos sobre o estado da habitação em Portugal, mas
sobretudo da pressão sobre a visibilidade excessiva dos bairros de construção
informal nas franjas de Lisboa e do Porto. Esta pressão reflete-se num
vocabulário repleto de adjetivos como flagelo e metáforas como chaga social, e
promove uma postura de luta contra a pobreza que parte de pressupostos não
revistos exaustivamente bairro a bairro. Não devemos esquecer que no início dos
anos 1990 existia uma forte pressão devido à exibição da capital a um nível
internacional, tanto através da Lisboa Capital Europeia da Cultura em 1994,
como da Expo'98. A somar a estas pressões, conta-se ainda a não menos
importante pressão urbanística sobre espaços que nos anos 1970 eram
periféricos, e que nos anos 1990 se tornaram centrais. A valorização dos
terrenos onde se erigiram os bairros informais coagiu a uma aposta política e
social de habitação social de alguma forma datada na Europa.
Os atores sociais em causa na aplicação do programa são referidos aqui enquanto
autores de reflexões e/ou enquanto participantes do próprio programa de
realojamento. Eles estudam, colaboram, avisam, analisam e debatem. Com a
revisão destes contributos tomados como dados empíricos, vimos como a habitação
social enquanto política pública se vai formando justamente através dos
diferentes discursos analisados e como estes desvendam o ambiente vivido no
PER.