Precariedade habitacional, vida quotidiana e relação com o Estado no centro
histórico do Porto na transição da ditadura para a democracia
INTRODUÇÃO
Apresentam-se neste artigo alguns elementos empíricos e analíticos resultantes
de uma investigação sociológica em curso sobre configuração e consequências
sociais das intervenções urbanísticas e habitacionais promovidas pelo Estado no
chamado centro histórico do Porto ao longo das últimas quatro décadas.1
Tratando-se, na investigação geral a que este texto se refere, de perspetivar
sociologicamente os modos de relação que, no Porto dos últimos quarenta anos,
se vêm estabelecendo, por intermédio das políticas públicas, entre o Estado e
as classes populares2 residentes no centro da cidade, a análise incidirá aqui,
por razões de economia de espaço e de clarificação do argumento, apenas sobre o
período correspondente aos últimos anos do Estado Novo e à transição para a
democracia após o 25 de abril de 1974. Por se tratar de um período que pode ser
considerado a vários títulos excecional no panorama da história social
contemporânea do país, ele coloca muito frequentemente quem decide estudá-lo
perante processos sociais que, pela sua novidade, complexidade e aparência
tantas vezes paradoxal, configuram desafios analíticos assinaláveis e,
portanto, relevantes oportunidades de debate e de aprofundamento conceptual e
teórico.
A forma direta e implicada como, na cidade do Porto, importantes segmentos das
classes populares se envolveram no processo político que sucedeu ao golpe
militar que a 25 de abril de 1974 pôs termo à ditadura, corresponde a um
processo social com as características daqueles a que acaba de se fazer menção.
Especialmente notória nas múltiplas mobilizações que, nos três primeiros anos
do novo regime, tiveram como leitmotiv os temas do acesso à habitação e da
qualificação urbanística e social dos espaços urbanos mais degradados, a grande
intensidade deste envolvimento teve lugar, em diversos casos ' e aqui reside o
aparente paradoxo do processo ', apesar do leque relativamente reduzido de
recursos económicos e culturais ao dispor dos seus protagonistas, da
tradicional estigmatização e menorização pública destes agentes sociais, e da
sua propalada distância, desmoralização e descrença face às virtualidades das
tomadas de posição políticas e, enfim, face às possibilidades de uma ação
estatal transformadora dos seus quadros de vida.
Com efeito, foi nalguns dos mais marginalizados contextos socioterritoriais da
cidade do Porto que surgiram as mais precoces e mais enérgicas formas de
organização e de mobilização popular deste período da história do país; eis,
pois, um bom ponto de partida para uma reflexão sócio-histórica e sociológica
acerca das condições de acesso e de participação das classes populares na
esfera do político e, bem assim, acerca da relação destas com o Estado.
Contra uma visão essencialista das práticas sociais e da participação cívica e
política, mas também contra uma perspetiva mecanicista do funcionamento das
sociedades, este artigo pretende revelar, através da discussão do caso do
centro histórico do Porto, a forma como as mobilizações de moradores
verificadas em várias cidades portuguesas após o 25 de abril de 1974 só em
aparência se afiguram inopinadas ou paradoxais. Na verdade, elas correspondem
antes ao resultado (coerente) do encontro entre, por um lado, matrizes locais
de disposições dotadas de tipos específicos de competências e de propensões
para a participação social e política e, por outro lado, estruturas de
oportunidades aptas a proporcionar as condições de enunciação e atualização
dessas específicas competências e dessas específicas propensões para a ação.3
Por outras palavras, o que a reconstituição sócio-histórica das mobilizações de
moradores características dos primeiros anos após o 25 de abril de 1974 parece
oferecer é um conjunto de elementos empíricos passíveis de fundamentar uma
proposta analítica mais adequada à compreensão da participação política das
classes populares na cidade contemporânea, fenómeno tantas vezes redutoramente
entendido como simples decorrência mecânica de transformações estruturais ou
instrumentalizações partidárias, instintiva libertação de tensões
reprimidas, ou então como manifestação de uma singular cultura política
(definida quase sempre em termos bipolares, ora pela sua combatividade, ora
pela sua passividade).4 No fundo, trata-se de tentar perceber ' a partir da
exploração analítica de uma realidade histórica e socialmente situada, e para
lá destas propostas explicativas excessivamente simplificadoras e das
dicotomias que as mesmas, de forma mais ou menos explícita, encerram
(estrutura/ação; objetivo/subjetivo; emocional/racional; ativo/
passivo) ' quais são, afinal, as condições de possibilidadede uma tal
participação política. Que condições tiveram de conjugar-se para que as
múltiplas mobilizações de moradores ocorridas no centro histórico do Porto
neste período da vida do país pudessem ter lugar? Como foi, afinal, possível
que agentes sociais largamente descapitalizados, simbolicamente depreciados e
habitualmente marginalizados pela ação estatal participassem de forma tão
intensa na vida política local e, por vezes, até supralocal, ocupando e
distribuindo casas, constituindo comissões de moradores, participando na
elaboração de planos e projetos, organizando ações de protesto, desempenhando
cargos associativos e políticos? É a tentativa de resposta a estas questões que
guia os próximos pontos deste artigo.
Assim, e depois de uma breve nota de cariz metodológico, haverá lugar neste
texto a uma caracterização sucinta da realidade social do centro histórico do
Porto nos últimos anos do Estado Novo.5 Em particular, prestar-se-á atenção
ao tópico da configuração da ação do Estado direcionada para este contexto
socioterritorial e às modalidades de participação social e política e de
relação com as instâncias estatais típicas dos agentes sociais locais no
período anterior ao derrube da ditadura. Seguir-se-á uma descrição breve das
transformações sociais e políticas operadas com o 25 de abril de 1974 e uma
discussão acerca dos contornos e implicações das mobilizações de moradores
então verificadas no centro histórico do Porto. Neste ponto, fornecer-se-ão
importantes pistas de resposta às interrogações de partida acima apresentadas.
O artigo termina com uma menção às mudanças operadas nos últimos anos da década
de 1970, que corresponderam à instituição de um quadro de relações sociais
significativamente distinto do que vigorara nos anos imediatamente posteriores
a abril de 1974 ' com implicações relevantes na configuração das modalidades de
acesso e de participação no universo político ', e com uma nota de síntese
acerca dos desafios que a temática das relações entre Estado e classes
populares na cidade contemporânea coloca à investigação sócio-histórica e
sociológica.
NOTA METODOLÓGICA
Os elementos de teoria e de pesquisa empírica que seguidamente se apresentam
resultam de uma investigação em curso no território a que comummente se chama
centro histórico do Porto, um território cuja área corresponde, no imaginário
local, bem como na esmagadora maioria dos enunciados político-administrativos e
dos trabalhos académicos, à área conjugada das freguesias de Miragaia, S.
Nicolau, Sé e Vitória. Neste artigo em particular, as atenções centram-se no
subterritório da Ribeira-Barredo, considerado habitualmente o berço da cidade e
o palco de alguns dos seus mais relevantes episódios históricos (figura_n.º
1).6
Pensada como um dos oito estudos de caso incluídos na programação de um projeto
de investigação de largo espectro iniciado no Instituto de Sociologia da
Universidade do Porto em 2007 acerca das consequências das iniciativas estatais
de incidência urbanística e habitacional materializadas na cidade durante o
século XX7, a pesquisa a que o presente artigo se reporta tem procurado
identificar e documentar as propriedades que esta vertente da ação estatal foi
assumindo ao longo do tempo no centro histórico do Porto, tendo em atenção o
seu efetivo modo de estruturação e, muito em especial, a dimensão dos processos
sociais desencadeados por tal ação.
Fazendo parte dos propósitos fundamentais da pesquisa a reconstituição
diacrónica dos efeitos das intervenções urbanísticas e habitacionais do Estado
nesta área da cidade, foi dada prioridade à exploração de duas grandes fontes
de informação: os fundos documentais e arquivísticos (destacando-se o fundo
geral do arquivo da Câmara Municipal do Porto e os fundos de algumas
instituições operando nestes domínios, com destaque para o fundo do CRUARB '
Comissariado para a Renovação Urbana da Área da Ribeira-Barredo, instituição de
que se falará mais à frente) e as memórias dos protagonistas locais(moradores e
protagonistas institucionais), recolhidas através de entrevista e tratadas num
registo próximo do da história oral.
Neste artigo, cujas atenções se focam no período que vai de finais da década de
1960 a finais da década de 1970, é a estas duas fontes de informação principais
que se faz apelo, tendo em vista a sustentação empírica da análise.
PRECARIEDADE HABITACIONAL, VIDA QUOTIDIANA E RELAÇÃO COM O ESTADO NO CENTRO
HISTÓRICO DO PORTO NAS VÉSPERAS DO 25 DE ABRIL DE 1974
Apresentados, ainda que genericamente, os propósitos fundamentais deste texto '
e feitas algumas observações de ordem metodológica ', é altura de fazer essa
prometida, porém necessariamente breve, viagem até ao centro histórico do Porto
de finais da década de 1960 e princípios da década de 1970.
Por esta altura, a cidade possuía qualquer coisa como 300 mil habitantes, mais
65 mil do que nos nossos dias, mas o respetivo tecido urbano era menos extenso
do que é hoje. O processo de suburbanização começara já, mas a um ritmo
bastante mais compassado do que aquele que viria a conhecer-se nas décadas
subsequentes, em particular depois de 1980, sendo possível encontrar ainda,
dentro dos limites da cidade, amplos espaços livres, alguns de feição
persistentemente rural. A densidade populacional atingia valores máximos nas
quatro freguesias do centro histórico, chegando a rondar, em certos setores, os
40 mil habitantes por quilómetro quadrado. Na área em torno do centro
histórico, a Baixa, o número médio de habitantes por quilómetro quadrado, que
era de pouco mais de 7 mil no conjunto da cidade, rondava os 14 mil, atingindo
valores semelhantes nas áreas de urbanização recente da periferia citadina,
onde entretanto haviam sido edificados os novos bairros de renda social.8
Estávamos em pleno período de vigência da segunda fase do Plano de
Melhoramentos de 1956, o primeiro grande programa de construção de habitação
pública na cidade do Porto, cujo objetivo passava por eliminar a maioria das
ilhas9 existentes, realojando as famílias nelas residentes em espaços de
habitação geridos pela Câmara Municipal do Porto, situados quase todos em zonas
até então não urbanizadas ou esparsamente urbanizadas da cidade.10 O decréscimo
de densidade de certas áreas do centro urbano proporcionada pela importante
transferência de população das ilhas para os recém-criados bairros camarários
teve, todavia, impacto reduzido no centro histórico, porquanto as ilhas se
situavam, na sua esmagadora maioria, nas freguesias localizadas em torno do
núcleo medieval ' Bonfim, Cedofeita, Massarelos, Santo Ildefonso (figura_n.º
1).
No centro histórico, cuja estrutura socioeconómica se alterara bastante ao
longo de toda a primeira metade do século XX' em virtude, entre outros fatores,
da expansão da cidade e da saída das atividades industriais e comerciais, bem
como de diversos equipamentos e serviços, para cotas mais altas; do declínio
dos portos do Porto e de Vila Nova de Gaia, na sequência da abertura do porto
de Leixões, localizado fora da cidade; e do abandono da área por parte dos
grupos sociais mais afluentes, fluxo contrabalançado pela chegada àquele local
dos protagonistas do êxodo rural que se fazia sentir no interior Norte e Centro
do país ', o cenário era de progressiva degradação e pauperização. Para se ter
uma ideia da escassez de recursos com que se confrontava a família modal
residente, por exemplo, no Barredo, coração da freguesia de S. Nicolau, basta
pensar que o respetivo rendimento anual médio rondava os 10 a 12 mil escudos em
meados da década de 1960 (Távora, 1969, pp. 16-17), situando-se o limiar de
satisfação das necessidades básicas, nesta altura, segundo Silva (1982), em
cerca de 35 a 40 mil escudos anuais.
Com efeito, era ali, no vetusto centro da cidade, que se podiam encontrar os
mais acentuados índices de pobreza. A experiência quotidiana dos locais era, na
sua maioria, reiteradamente, a da subordinação social, uma subordinação social
redobrada pelas marcas simbólicas da vivência num contexto residencial que se
tornara muito estigmatizado. A aprendizagem da diferenciação social e, muito em
especial, do sentido dos limites, era, neste contexto, particularmente precoce
e violenta. O episódio relatado por um morador, ao recordar o início de vida no
centro histórico do Porto, ilustra com clareza o que acaba de se afirmar:
É uma das coisas que tenho gravada na minha cabeça [ ], ficou
marcado, porque morava eu na Ribeira e uma bela ocasião assisti a uma
passagem assim Dois indivíduos, que naquela altura já eram uns
velhotes, e eu vi um a pegar num cigarro daqueles de fazer e coisa e
tal. Ia pra fumar e o outro disse-lhe: Não há aí um cigarro pra
mim?. E o outro: Não há nada. Porque o azar era tanto [era]
também o tempo salazarista e depois, com aquilo tudo, trabalhava-se e
não se ganhava e eles viviam encostados uns aos outros e então o
indivíduo disse que não tinha [ ] Começou a mastigar sem ter nada na
boca, mas o outro pegou, partiu a meio [o cigarro] e deu-lhe metade.
Eu era miudito, mas vi isto [ ] Não foi que me dissesse muito, muito,
muito. Veio-me a dizer depois. Só que aquilo ficou-me na cabeça. [ ]
[N]unca me saiu [da cabeça] e eu vi logo ali a miséria daqueles
homens e eu odiava fiquei sempre fiquei assim sentido, que aquilo é
que era o final das pessoas, era andarmos assim encostados uns aos
outros a pedir até para o simples cigarro. Fiquei assim e procurei
sempre na vida equilibrar-me o melhor que pudesse pra ver se o meu
fim não era esse, graças a Deus! Graças a Deus não é, mas esteve a
caminho pra sê-lo [S., 75 anos, estivador reformado].
Para a maioria dos habitantes desta área da cidade, as oportunidades
disponíveis eram, de facto, muito limitadas. Prevalecia o trabalho operário
desqualificado e, as mais das vezes, a instabilidade na ligação com a atividade
económica, ou mesmo a total informalidade. Os homens eram carregadores e
descarregadores de mercadorias, barqueiros, trabalhadores fluviais e marítimos
diversos, na melhor das hipóteses estivadores ou operários metalúrgicos. Muitos
estavam pela escala: às quatro da manhã, reuniam-se junto ao cais, à espera
da chamada; se houvesse trabalho, eram mobilizados, se não houvesse, ficavam
ao alto, o que equivalia a não receber a diária. Os rapazes, logo depois de
deixarem a escola (quando a frequentavam), tornavam-se moços de recados,
ajudavam nas cargas e descargas, acompanhavam os pais nas respetivas
atividades. As mulheres trabalhavam geralmente a dias ou aos carretos.
Muitas eram vendedeiras, frequentemente ambulantes. No seu caso, a
informalidade na relação com o trabalho e a oscilação entre os períodos de
atividade e de inatividade era ainda maior, verificando-se, porém, uma
dependência forte de muitos grupos domésticos relativamente aos seus voláteis
rendimentos, dada a ausência frequente da figura paterna.
Mais de um terço dos residentes ' e aqui extrapolam-se os resultados de um
inquérito a uma amostra de 560 famílias da freguesia de S. Nicolau (zonas da
Ribeira-Barredo e da adjacente Fonte Taurina) realizado por assistentes sociais
do Centro Social do Barredo em 1963 ' eram analfabetos. Se a estes juntássemos
os que, sabendo ler e/ou escrever, não haviam frequentado a escola ou a haviam
frequentado sem terminar a instrução primária, o número suplantava os 50% da
população. Não havia registo de qualquer diplomado do ensino superior no seio
das famílias alvo de inquérito. Uma taxa de analfabetismo como a que naquela
área se verificava quase triplicava a da cidade no seu conjunto, superando em
largos pontos percentuais a taxa de analfabetismo do país (ela própria muito
elevada).11
As difíceis condições de vida com que estes portuenses se confrontavam só eram
toleráveis, de acordo com os próprios, devido aos mecanismos de entreajuda
familiar e comunitária que subsistiam, como nota este antigo morador da zona:
Éramos carregadores, vivíamos Quando, por exemplo, vinham os navios
de sal, as mulheres trabalhavam nas descargas do sal. A maior parte
das mulheres do Barredo e da Ribeira eram vendedeiras de peixe,
tinham as suas barracazinhas. Outras viviam dos carretos que era
quando chegavam os barcos da fruta. Tinham que levar os gigos da
fruta para o Grémio Abastecedor. Lá é que era escolhida e era
novamente [distribuída] por mais cabazes e isso depois era
distribuído pelo Mercado do Bolhão, Mercado do Bom Sucesso, depois de
já existir [ ], e vivia-se assim. Nós vivíamos ali daquelas descargas
das barcas. Os nossos pais uns iam trabalhar umas horas, outros já
pertenciam a uma escala [ ], mas também só eram chamados quando havia
as descargas. Quando não havia, a gente tinha que viver uns com os
outros [B., 70 anos, motorista de pesados de mercadorias reformado].
Uma outra moradora da Ribeira, entretanto realojada num bairro camarário,
clarifica o significado deste viver uns com os outros:
[N]a Ribeira éramos como uma família. [ ] Era pessoas mais chegadas
umas às outras, por exemplo, se houvesse qualquer problema, ou
passássemos fome ou assim, as pessoas que tinham mais posses
ajudavam. Até tínhamos lá uma vizinha em frente, que a gente
morávamos nas Escadas do Barredo, e nós tínhamos lá uma vizinha essa
vizinha era malcriada, era má, mas ao mesmo tempo tinha bom coração.
Tinha bom coração que, prontos, eu lembra-me que a minha mãe Eu uma
vez estava muito, muito doente, foi ela que [me] safou até, com sopa
de nabos. Foi. Não me esquece disso. E nós éramos ali como uma
família. Tinha então a minha mãe aquilo era uma sala pequenina, a
minha mãe até para a gente dormir à noite punha uma corda a dividir a
cama dela, a minha e a da minha irmã e dormíamos assim. Mas éramos
muito felizes, éramos muito dadas [F., 68 anos, operária industrial
reformada].
O problema que mais marcava o quadro de vida destes portuenses, como de um
grande número dos seus conterrâneos, era, entretanto, nesta altura, o da
habitação. A insalubridade e sobrelotação dos alojamentos, a decrepitude de
grande parte dos edifícios, a exploração promovida pelos proprietários ou, mais
frequentemente, pelas subalugas12 nas pequenas casas ou nos quartos
mobilados, muitas vezes divididos por tapumes de madeira ou simples lençóis,
em que a maioria das famílias da zona tinha de se acomodar constituíam, para os
residentes, os mais fortes elementos qualificativos da realidade local. Também
neste caso, vale a pena acompanhar a descrição de um morador da Ribeira-Barredo
de então:
A gente subia escadas onde passávamos pelas pessoas a dormir. Porque
esses quartos mobilados Uma pessoa pagava cinquenta e quatro escudos
por semana, mas, ao fim de oito dias, no máximo, se não pagasse,
vinha para a rua. Esses quartos mobilados existiam quê? Por exemplo,
no número 62 da Rua da Fonte Taurina era uma casa com quatro andares
[que] tinha mais de cinquenta quartos [ ]. O que é que acontecia?
Nesses quartos havia pessoas, como a minha mãe, com quatro, cinco
filhos, onde tinham um balde para fazer as necessidades, fazia-se
tudo nesse balde. Nesse quarto tínhamos que viver todos, dormir
todos. Inclusivamente, havia lá quartos onde havia lá crianças a
dormir em cima de uma mesa. Pior ainda, nós nem que quiséssemos ter
uma casa mais limpa ou assim não podíamos, porque tudo que entrasse
dentro dessa casa tinha que ser [d]as subalugas. Essas subalugas
cobravam um tanto: se a gente quisesse meter uma máquina de petróleo,
que era o caso antigo, nós tínhamos que pagar. Dez tostões ou assim,
mas era da subaluga, não podia ser nosso, porque elas depois diziam
que aquilo era tudo delas. Já por isso era um quarto mobilado, só que
não tinha condições. A gente queria ter outras condições, mais
higiénicas, mas elas não deixavam [B., 70 anos, motorista de pesados
de mercadorias reformado].
Os dados do inquérito realizado em 1963 corroboram esta descrição e ajudam a
sistematizar o quadro de precariedade habitacional que então se verificava: 98%
das famílias eram arrendatárias e apenas 2% eram proprietárias, com mais de 50%
dos grupos domésticos em regime de subarrendamento; cerca de metade das
famílias residia numa única dependência, muito frequentemente sem janelas;
apenas 30% das famílias tinham acesso a WC própria; o acesso a água canalizada
no alojamento era apanágio de um número idêntico de grupos domésticos; apenas
40% tinham acesso a cozinha própria. Dois terços das famílias inquiridas não
possuíam móveis próprios e cerca de 50% não possuíam mais do que uma cama para
todos os respetivos membros. Apesar das más condições, as rendas médias
praticadas não eram inferiores às rendas que podiam ser encontradas noutras
áreas da cidade (designadamente nos recém-criados bairros camarários da
periferia citadina), verificando-se frequentemente rendas altamente
especulativas, numa subversão do princípio de congelamento das rendas para
contenção da subida do custo de vida e, consequentemente, dos salários que o
regime de há anos àquela parte procurava impor.
As péssimas condições habitacionais influíam nas condições de saúde das
famílias locais: mais de 60% tinham a seu cargo, em 1963, pessoas doentes,
sendo que uma em cada cinco famílias registava casos de tuberculose pulmonar, a
mais incidente e mortal doença na zona. Dados de um inquérito a uma amostra de
cerca de 200 famílias do Barredo realizado alguns anos depois para apoiar o
estudo de renovação urbana daquela área proposto por uma equipa técnica
destacada pela Câmara Municipal e coordenada pelo arquiteto Fernando Távora,
dão conta de uma realidade que não mostrava sinais de melhoria, bem pelo
contrário: em finais dos anos 1960, o número de famílias com histórico de
tuberculose pulmonar ascendia a 30%, sendo de cerca de 40% a proporção de
grupos domésticos com crianças e adolescentes portadores de problemas físicos
e/ou mentais de algum tipo. A juntar a este quadro, verificava-se ainda uma
frequência significativa de casos de alcoolismo e de problemas do foro
psiquiátrico.13
Quanto a uma intervenção do Estado face a esta situação ' do ponto de vista
daquilo a que hoje se chamaria, porventura, política social ou, pelo menos,
numa ótica mais circunscrita de intervenção pública no domínio urbanístico e
habitacional ', pouco há a registar até às vésperas do 25 de abril de 1974. Com
efeito, e tomando em consideração o universo das políticas públicas com
componente urbanística e habitacional efetivamente postas em prática no Porto
até ao fim do terceiro quartel do século XX, conclui-se que serão esporádicas
as ações direcionadas para esta área da cidade. A intervenção social, de índole
tendencialmente assistencialista, ficava a cargo da Igreja Católica e de
algumas instituições locais, geralmente pararreligiosas, oscilando a atuação do
Estado entre a inação (excetuando no que dizia respeito ao controlo policial-
repressivo da população local), a resposta imediatista e não planificada a
situações de emergência e, enfim, a imposição, a partir de cima, de propostas
urbanísticas e habitacionais de largo espectro, vocacionados geralmente para o
aclaramento das zonas de habitação popular, através de demolições sistemáticas
e da transferência da população para espaços habitacionais localizados na
periferia citadina.
Dotada de recursos económicos e culturais escassos, simbolicamente depreciada e
sem os meios para aceder aos então muito seletivos universos da burocracia
estatal e da política, a maioria da população residente no centro histórico do
Porto fazia oscilar a sua relação com o Estado entre um predominante silêncio
defensivo e o ocasional tumulto de rua, dirigido às instâncias ' designadamente
policiais ' que, no terreno, representavam a autoridade pública. De acordo com
este residente, episódios como o que é relatado constituíam expressão de uma
espécie de revolta contra a reiterada relegação socioeconómica e política a
que os residentes desta zona eram votados:
A Ribeira tinha má fama. É evidente, porque, quando nesses anos,
[19]50, [19]60, olhamos para a Ribeira, para o Barredo, para aqui,
vemos uma certa classe de pessoas, a maioria são analfabetas E
aconteceu-me a mim, quando ia procurar emprego, dizia que morava no
Infante [um arruamento principal da zona]; se dissesse que era da
Ribeira, era logo porta fora Portanto, [foi] a má fama que se criou,
quando esta gente não é nada disso, pelo contrário. [ ] São pessoas
muito aguerridas, são pessoas trabalhadoras, honestas, sérias, muito
solidárias [E reagem] quando alguém vem de fora impor qualquer
coisa, [ ] as pessoas ficam muito desconfiadas, porque já estão
estão fartas de ser enganadas. [ ] Numa ocasião, pintámos aí umas
frases num muro, a chamar a uma senhoria, que era a Rosa Padeira,
rainha do petróleo. Aquilo era mesmo a rainha do petróleo. Aquilo
realmente era um poço de petróleo. E depois o que é que aconteceu?
Andou aí a Polícia e eu cheio de medo [A polícia pactuava com a
especulação das rendas], até porque se dizia ' não sei se era
verdade, se era mentira, não custa nada acreditar ' que aqui o chefe
da esquadra era amante da tal senhora, portanto tudo isto estava
controlado. E depois as pessoas sentiam-se injustiçadas, revoltadas
com a situação. Ir para uma casa e não poder levar uma cadeira, não
podia levar os pertences dele, porque já estava mobilado? Se tivesse
um bebé, qualquer coisa, não coubesse, se tivesse uma cómoda, era a
gaveta da cómoda, puxava-se, punham-se as coisas e o bebé ficava ali,
portanto, repare, é evidente, já naquele tempo Passou-se aqui muita
fome, muita fome mesmo. E houve aquelas vezes que eu lhe disse, que
as pessoas batiam nos polícias, batiam nos polícias. Uma vez ' e isto
não é mentira! ' puseram um polícia a cantar de galo, puseram-no
dentro dum galinheiro, enquanto ele não cantasse de galo, não o
libertavam Era uma espécie de revolta. As pessoas mal tinham para
comer, ou não tinham, e ainda tinham de pagar multas, etecetera?! [ ]
Claro, tudo isto fomenta o saco vai enchendo. E daí a má fama que se
criou da zona da Ribeira.
Figurando, perante alguns órgãos de comunicação social e perante certos setores
das elites técnicas, políticas e sociais locais, como confirmações da
degradação social e moral que esta zona atingira, estes atos contribuíam para
reproduzir os discursos que sustentavam a imagem pública do centro histórico do
Porto como zona de concentração dos vícios e desgraças da cidade, e davam
força aos que defendiam a adoção de uma solução radical para os problemas
aparentemente irreversíveis deste território e dos seus habitantes.14
Não obstante, o centro histórico do Porto ficará à margem da maioria das
importantes transformações urbanísticas e habitacionais a que, desde pelo menos
meados da década de 1950, a restante cidade assistia. A cada novo plano ' das
propostas de monumentalização previstas nos esboços de planos de urbanização de
finais dos anos 1930 e inícios dos anos 1940 ao modernismo descongestionador do
Plano Diretor de Robert Auzelle, datado de 1962, passando pelas iniciativas de
salubrização e reformulação do espaço público levadas a cabo depois da
aprovação, pela Câmara Municipal do Porto, em 1950, de um estudo urbanístico
pioneiro sobre a zona ribeirinha (CMP, 1949) ', reforçava-se a perspetiva de
uma intervenção definitiva face à realidade daquele contexto, mas poucas eram
as transformações nas estruturas físicas e nas condições de habitação e de vida
locais que encontravam efetiva concretização.
Numa cidade que elegera como principal preocupação política o problema das
ilhas e que conseguira lançar a mais ampla (pelo menos do ponto de vista
relativo) e mais sistemática iniciativa de construção de habitação social
alguma vez promovida no país (envolvendo em processos de realojamento em
habitação camarária, em cerca de quinze anos, entre 1956 e o início da década
de 1970, qualquer coisa como 15 a 20% do total das famílias residentes), não
deixa de ser causadora de certa estranheza a constatação da inércia do Estado
no respeitante ao centro histórico. Uma análise do modo como finalmente se
instituiu em problema digno de intervenção estatal sistemática a realidade
desta área da cidade permanece, aliás, por consolidar, mas talvez se possa
adiantar que o impasse a que o centro histórico do Porto assistiu até às
vésperas do 25 de abril de 1974 terá estado relacionado com um complexo de
fatores envolvendo: i) a incapacidade das finanças públicas para sustentar um
processo de reconversão urbanística do centro histórico15; ii) a preferência do
investimento privado pelo rápido retorno garantido pelas operações de
urbanização da periferia citadina; iii) a ausência dos recursos humanos e da
tecnologia necessários a uma intervenção de fundo num contexto com as
características do Porto antigo; e iv) a própria configuração das relações no
interior do campo burocrático nacional e local ' e, em especial, no segmento
que nele era responsável pela conceção e aplicação de políticas urbanísticas e
de alojamento ', que opunha há vários anos os defensores de uma intervenção
preservacionista e, portanto, relativamente expectante aos grupos mais
abertamente modernizadores, que defendiam o desenvolvimento urbanístico das
zonas antigas, no sentido da valorização do seu potencial paisagístico e
turístico e, em geral, da diversificação e rentabilização dos usos do solo.
Em resultado desta dificuldade em estabelecer um horizonte efetivo de
intervenção (pública ou privada) visando uma inversão do processo de
deterioração das condições urbanísticas, habitacionais e de vida no centro
histórico, não admira que esta área da cidade do Porto tenha chegado ao início
da década de 1970 numa situação idêntica ' se não pior, em certos aspetos '
àquela que vinha sendo descrita desde há várias décadas pelos meios de
comunicação social locais e por diversos relatórios oficiais, e que se
caracterizava, entre outros traços, pela sobrelotação e degradação do
edificado, pela especulação generalizada dos valores das rendas, por taxas de
pobreza e analfabetismo situadas muito acima da média da cidade e do país, pela
fortíssima incidência de tuberculose e de outras doenças contagiosas, e por
elevados índices de mortalidade geral e de mortalidade infantil.
A saída de algumas centenas de famílias durante as décadas de 1950 e 1960,
decorrente da intensificação do movimento emigratório, da eclosão da guerra em
África ou, para aquelas cujos rendimentos o possibilitavam, da opção pela
mobilidade residencial, contribuíra para descongestionar certos setores, mas
não impedira a continuação dos problemas habitacionais e sociais do centro
histórico, havendo mesmo registo, em certas localizações, designadamente na
Ribeira-Barredo e, em especial, na Fonte Taurina, onde havia forte concentração
de edifícios legal ou ilegalmente designados como albergarias ou casas da
malta, de um crescimento da população flutuante, composta por indivíduos à
procura de emprego, mas sem qualificação e sem projeto socioprofissional
definido, provenientes do interior Norte e Centro do país.
A denúncia do agravamento dos problemas nesta zona da cidade do Porto,
articulada com uma crítica do modelo de ação estatal predominante ' descrito
como o de uma insistente passividade, entrecortada apenas pela ocasional
demolição de edifícios considerados insalubres, de uma forma que mais não fazia
do que dar à zona um ar de ruína habitada (Távora, 1969, p. 6) ', constituirá
o acento tónico do Estudo de Renovação Urbana do Barredo que uma equipa técnica
liderada por Fernando Távora, então já um reconhecido arquiteto da escola
portuense, apresentará, em 1969, à Câmara Municipal.
Neste Estudo, que se posiciona simultaneamente contra as propostas de demolição
total ou quase total do setor e contra a defesa da manutenção da situação nos
moldes existentes (ou seja, com restrição da atuação a pequenas beneficiações
no edificado e espaços públicos), dá-se eco aos princípios da Carta de Venezade
1964 e expressão a um segmento do campo do urbanismo e da arquitetura que se
vinha afastando ' em particular depois do Inquérito à Arquitetura Popular em
Portugal(SNA, 1961) ' simultaneamente da ortodoxia modernista e do
conservacionismo moralizante. A renovação urbana preconizada baseia-se aqui
no mote continuar, inovando.16 Especificamente, defende-se uma proposta de
atuação global e aberta, isto é, integrada e dinâmica, vocacionada para a
alteração do quadro físico, porém com manutenção do perfil urbanístico e
arquitetónico da área de intervenção e com preservação e valorização social da
população local (Távora, 1969, pp. 33-35).
Para que uma proposta deste tipo pudesse ter sucesso seria imprescindível a
obtenção de um conhecimento total da situação social e humana dos setores a
renovar, através da realização de um rigoroso e profundo inquérito, e a
promoção de uma ação intensa de preparação e elucidação da população
local, sem a qual não seria possível eliminar a má vontade e a desconfiança
vigentes e garantir a sua indispensável responsabilização (Távora, 1969, p.
35). A constituição de grupos de trabalho (envolvendo sobretudo os habitantes
mais jovens), a realização de reuniões regulares para apresentação e discussão
de problemas e projetos, a organização de sessões informativas com recurso ao
teatro e cinema ou a promoção de visitas aos núcleos habitacionais
renovados ou destinados a realojamento seriam algumas das iniciativas a levar a
cabo com o objetivo de envolver os moradores no processo e assim ultrapassar as
resistências decorrentes de anos e anos de projetos não iniciados ou
precocemente abortados.
Por outro lado, uma proposta de renovação urbana deste tipo implicaria, para
além de algumas inovações legislativas, a reforma das estruturas
burocráticas, tendo em vista a afirmação de um novo estilo de atuação
estatal, baseado numa resposta ágil, num conhecimento exato da situação,
num poder de coordenação, imaginação e decisão e num diálogo permanente com
as realidades e com os homens (Távora, 1969, p. 45).
Apesar ' ou talvez por causa ' do caráter ambicioso e inovador dos seus
objetivos e metodologia, o Estudo de Renovação Urbana do Barredo não conseguirá
superar, nos anos subsequentes à sua publicação, o impasse em que caíra a
intervenção estatal direcionada para o centro histórico do Porto. Ao complexo
de fatores supramencionado ' cuja configuração não verificara entretanto
alterações substanciais ' juntavam-se, nos primeiros anos da década de 1970, o
recrudescimento da tensão social e política, que contribuía para reforçar a
ação autoritária e repressiva do regime, dificultando a viabilização de
propostas de pendor inovador como as que o trabalho coordenado por Fernando
Távora contemplava, e o abrandamento do crescimento económico, a que se
associava a degradação das finanças públicas, que desmobilizava o investimento
em ações urbanísticas de fundo nas principais cidades.17
Perante a continuada decadência do Barredo e a situação verdadeiramente
preocupante que representava a reação das populações a promessas não
cumpridas e ao traumatismo dos sucessivos inquéritos de que nada tem resultado
(DMH/DSH/CMP, 1973, pp. 4-5), a Divisão de Habitações Municipais propõe à
liderança da Câmara Municipal do Porto, em maio de 1973, que avance finalmente
no sentido da concretização dos propósitos da proposta de renovação urbana
daquele setor do centro histórico elaborada quatro anos antes pela equipa
coordenada pelo arquiteto Távora. O enquadramento legislativo chegara no início
desse ano através da publicação do Decreto-Lei 8/73, de 8 de janeiro, relativo
a projetos de renovação urbana em setores insalubres, pelo que, com o plano
contido no Estudo de 1969, pareciam reunidas as condições para a
materialização da intervenção. De acordo com os responsáveis pela Divisão de
Habitações Municipais, faltava à Câmara tomar a decisão política necessária à
concretização deste passo. No imediato, porém, o passo não seria dado ' o
arranque das operações teria de aguardar um ano mais.
CRISE DO ESTADO E MOVIMENTAÇÕES DE MORADORES NO CENTRO HISTÓRICO DO PORTO
APÓS O 25 DE ABRIL DE 1974
Nas vésperas do 25 de abril de 1974, os responsáveis da Divisão Municipal de
Habitações justificavam a urgência da intervenção pública na Ribeira-Barredo,
coração do centro histórico do Porto, com o facto de a zona se ter transformado
num caso típico de degradação a todos os níveis, onde, porém, se vislumbrava
interesse histórico e estético e uma unidade morfológica e social capaz de
facilitar o sucesso da intervenção estatal (DMH/DSH/CMP, 1973, p. 2). Além do
mais, criam estes responsáveis que a população local, traumatizada pelos
sucessivos projetos não concretizados, descrente das intenções oficiais quanto
à sua problemática, não suportaria novos inquéritos sem que houvesse uma
atuação paralela no domínio objectivo (DMH/DSH/CMP, 1973, pp. 13; 9).
Esta crença, mais do que expressão de preocupação com a possibilidade de
eclosão de algum tipo de ação confrontacional organizada da parte dos
moradores, parecia configurar uma tomada de posição de um segmento da
burocracia técnico-administrativa da Câmara Municipal, que procurava afirmar-se
através de uma forma alternativa de pensar e projetar a intervenção
urbanística, habitacional e social na cidade e, especificamente, na cidade
antiga. Na verdade, dificilmente se concebia que os moradores do centro
histórico pudessem afastar-se do retrato dominante que deles se fazia ' o de um
grupo expectante, despolitizado e relativamente passivo. Atente-se, a
propósito, nas palavras desta educadora de infância, à época empregada na
freguesia de S. Nicolau:
Em relação ao Estado, [os moradores do Centro histórico] estavam
sempre à espera que as coisas viessem de fora. Eles não lutavam pelas
coisas, era sempre a Junta, a Câmara, ou não sei quê que deveria
modificar as coisas, pronto, porque eles próprios resignavam-se um
pouco perante aquela situação. [ ] Portanto, aquilo era um espaço
abandonado, um espaço abandonado pelas instâncias superiores, mas
que, de repente, começou a interessar como turismo aquilo começou a
interessar. [ ] Até aí cada um vivia no seu canto. Nunca ninguém os
chateou, aquilo era deles, faziam a sua vida, não havia grande
problema. A partir daí, foi quando começou a pôr-se a questão deles
terem que sair dali, porque realmente não havia condições para para
eles estarem a viver naquele [ ] [Mas] eles não eram politizados.
Aliás, havia poucas pessoas politizadas nessa época, não é? Eu acho
que Ia-se atrás dos outros e não havia as pessoas não viviam para a
política, não sabiam o que isso era, sabiam que havia umas pessoas
que mandavam e que tinham que transformar de alguma forma a sua vida,
mas não havia aquela ideia de partido ou de na altura não é?
Perante este diagnóstico, é compreensível que a presteza e grau de estruturação
das formas através das quais os moradores do centro histórico do Porto
aproveitaram a janela de oportunidade aberta pelo golpe militar de 25 de abril
de 1974 tenha apanhado de surpresa mesmo alguns dos mais profundos conhecedores
da realidade desta área da cidade. A velocidade dos acontecimentos que
ocorreram após o derrube da ditadura é tudo menos consentânea com o diagnóstico
de passividade, resignação e apolitismo associado à população local: a 1 de
maio, grupos de moradores participam organizadamente nas comemorações do dia do
trabalhador, reivindicando, com outros portuenses provenientes de contextos
residenciais igualmente marginalizados, o direito à habitação18; na mesma
altura, é constituída uma comissão de moradores ad hoc na área da Fonte
Taurina, cujas ações junto da Câmara Municipal hão de garantir a mais de uma
centena de famílias alojadas em quartos mobilados o acesso a habitações
devolutas em bairros de renda social da cidade; outras famílias envolvem-se no
movimento de ocupações que percorre a cidade nos primeiros meses após o 25 de
abril de 1974; nascem novas associações e criam-se comissões de moradores,
primeiro no Barredo, depois na Reboleira e Fonte Taurina, mais tarde no Bairro
do Aleixo (para onde serão deslocadas, em virtude do início das operações de
renovação urbana, cerca de três centenas de famílias do centro histórico);
estas comissões de moradores serão responsáveis por inúmeras ações, antes e
depois da institucionalização e arranque das operações de renovação urbana,
desde a realização de levantamentos sociográficos da população local à gestão
dos processos de realojamento, passando por ações de protesto e pressão
pública. A cada conquista ' como então frequentemente se designavam os
sucessos das iniciativas dos moradores ', as comissões viam validadas as suas
estratégias e cresciam em capacidade e ambição.
Os exemplos avançados por duas assistentes sociais que trabalhavam no centro
histórico do Porto nas vésperas do 25 de abril de 1974 e que se viram
ativamente envolvidas nas mobilizações de moradores do período revolucionário
são elucidativos desta ' para muitos surpreendente ' capacidade de
aproveitamento das margens de ação cívica e política abertas pelo processo de
mudança de regime. No primeiro caso relatado, os moradores aproveitam a crise
dos direitos de entrada e a instabilidade dos princípios de estruturação do
campo político típica deste período para transformarem um dos seus principais
recursos ' a força física ' num capital atuante no universo político-
institucional, de uma forma que, num outro contexto espácio-temporal, seria, se
não impensável, totalmente subversiva:
Foi a população [ ] que descobriu que a Câmara tinha casas devolutas
nos bairros camarários e que veio ter comigo e com a F. e que disse
claramente: As meninas conhecem as nossas situações. Ou vêm ou não
vêm. Nós vamos avançar pra termos casa própria. E lá fomos exigir as
habitações devolutas que havia nos bairros. Eles tinham feito um
levantamento, e até me lembro que chegaram à nossa beira e nos
disseram: Sabemos que a Câmara está na disposição de nos dar as
casas. Venha connosco lá acima. Eu fui com eles lá acima, à Câmara;
eles entraram por ali adentro ' alguns eram estivadores, assim homens
para o forte ' e disseram: Queremos falar com o diretor de
serviços. Havia uma fila enorme de pessoas para atender isto em
maio de [19]74. E ele mandou dizer: Eu atendo a senhora, mas não
atendo os senhores. Ao que eles disseram: A menina vá lá dentro e
diga-lhe que ou as casas são pra nós ou nós damos-lhe já uma trepa
que o estendemos. Quem estava naquele lugar era o engenheiro T., que
já morreu. E eu entrei lá dentro, ele foi muito delicado, mas eu
levava tanta força deles, que disse: Ó senhor engenheiro, nem vale a
pena falarmos. O senhor ou os vai receber e as casas são pra eles ou
eles entram aqui, dão-lhe uma trepa que o estendem. Foram eles que me
pediram para comunicar isto. Ele ficou muito nervoso, mandou
bloquear toda a gente, não recebeu mais ninguém nesse dia, mas as
casas, de facto, foram pra eles.
Numa outra situação, ocorrida pouco tempo depois da anterior, é a perceção da
elevada probabilidade de sucesso de uma ação influenciadora do curso do
processo legislativo que impele à mobilização, desta feita revestida de cariz
dialogante e estrategicamente delegada em porta-vozes percebidas comummente
como sendo autónomas:
E então eu lembro-me que uma vez [ ] eles disseram: neste momento, é
preciso um decreto para a gente entregar as casas [entretanto
ocupadas] a toda a gente do Barredo, porque elas não estão legais.
E nós falámos com eles e lá fomos nós a Lisboa pedir o decreto.
Naquela altura, arranjava-se um decreto de um dia para o outro E lá
fomos as duas de avião. Chegámos a casa do M., que nessa altura era
ministro, era noite. Não nos atrapalhámos, saímos do avião e
apanhámos um táxi para irmos a casa do M. O senhor já estava em
pijama, mas atendeu-nos ' pra ver como era na altura, no pós-25 de
abril, como as coisas se passavam. Nós fazemos este trabalho assim e
assim e as pessoas . Sei que ele se informou se íamos [da parte] de
alguma força política, mas, como viu que éramos autónomas, fez o que
nós pedimos. Então, pedimos o decreto. E ele diz: E as senhoras para
quando queriam o decreto?. Bem, nós queríamos para amanhã de
manhã. E ele disse: Pois, tenho Conselho de Ministros às dez
[horas] Se for um bocadinho mais cedo para vos arranjar o decreto de
manhã . Quando viemos, às duas horas [da tarde], já o decreto estava
publicado; portanto, faziam-se coisas com uma rapidez impressionante
[ ].
A criação, por um dos governos provisórios, ainda em 1974, do Comissariado para
a Renovação Urbana da Área da Ribeira-Barredo (CRUARB) conferirá finalmente
enquadramento institucional às propostas que, desde os últimos anos da década
de 1960, uma parte do pessoal técnico da Câmara Municipal vinha preconizando19
e procurará proporcionar a diversas pretensões das comissões de moradores
locais um horizonte estruturado de concretização. Na sua génese, o CRUARB
reivindicará uma visão da intervenção social e habitacional assente em
princípios como a defesa da residência das classes populares nos seus bairros
de origem, e a recuperação e valorização do património histórico, cultural e
edificado do centro histórico da cidade, em linha direta com as preocupações da
equipa de Fernando Távora e de muitos dos que, de forma mais ou menos sub-
reptícia, vinham trabalhando de perto com a população local, com destaque para
o corpo de técnicos do Centro Social do Barredo (instituição da qual, de resto,
sairia algum do pessoal original do CRUARB).20
A interação entre a estrutura técnica do CRUARB e as comissões de moradores
será, nos primórdios da atuação desta instituição, muito intensa ' e não isenta
de tensões, apesar de geralmente articulada e congruente. Os técnicos
instigavam geralmente os moradores a organizarem-se e a participar na
elaboração e acompanhamento dos projetos de renovação habitacional e dos
processos de realojamento; as comissões de moradores transmitiam os seus pontos
de vista sobre diversos aspetos das propostas de intervenção e sobre o
andamento dos trabalhos e organizavam as listas de distribuição de fogos; por
vezes, era deixada aos técnicos a decisão final sobre um assunto polémico;
noutros casos, as comissões de moradores decidiam o rumo a seguir e não
deixavam aos técnicos outra opção senão ir atrás. As desinteligências eram
frequentes, mas prevalecia, nestes primeiros tempos após o 25 de abril de 1974,
o consenso decorrente das vantagens percebidas desta aliança. Para a jovem
geração de arquitetos, engenheiros, assistentes sociais e outros técnicos,
formada, muitas vezes, em círculos culturais e académicos heterodoxos, no seio
do catolicismo progressista, ou em organizações oposicionistas de esquerda ou
extrema-esquerda, a interação com e a integração nas mobilizações populares
oferecia uma oportunidade inédita de participação social e política e, além do
mais, de experimentação, valorização e afirmação profissional; para os
moradores, por seu turno, a presença e colaboração destes aliados
proporcionava os meios de operacionalização de diversas das suas pretensões e
constituía garantia, em virtude do seu papel descodificador e mediador, de um
mais rápido e eficaz acesso à (apesar de tudo) cifrada burocracia estatal, e
aos meandros mais restritos do poder legislativo e decisório.
Referindo-se ao poder assumido pelos populares nos anos que sucederam ao 25
de abril de 1974, esta antiga líder associativa do centro histórico do Porto
não deixa de ligar a sua consecução à interação que nessa altura existia entre
as comissões de moradores ' e respetivas lideranças ' e o pessoal técnico e
político que, no terreno, com elas lidava diária e diretamente:
Nós é que impúnhamos aí. Só em [19]80, [19]80 e tal é que se começou
a botar regras, mas até aí De [19]74 a [19]80 isto andou aí um
bocado conturbado. O poder estava centrado nos moradores, mas os
moradores também tinham uma pessoa que era a R., que a R. nunca os
abandonou, e que também, de certa forma, era uma pessoa que não
admitia que fizessem pouco [deles]. Os moradores falavam, mas se ela
visse que os moradores que estavam os técnicos a querer dar a volta,
ela interferia: Não, não é assim, o que eles querem é isto e é
isto. Na altura, estava o [arquiteto] C. na Câmara e era aqui o
presidente da Junta, que era o L. [ ], e havia ainda o arquiteto T. '
e ele ia à nossa frente. Entrava pela Câmara adentro e era tudo nosso
[R., 60 anos, operária industrial reformada].
Num contexto socioterritorial tão relegado como o do centro histórico dos anos
1950, 1960 e 1970, há de ter sido realmente extraordináriaesta possibilidade
que muitos moradores tiveram de participar ativamente no debate sobre o
direito à cidade que então se fazia, e de influenciar diretamente, ainda que
nem sempre com resultados efetivos, o curso da ação estatal. Mesmo que bastante
limitado no tempo, o período após o 25 de abril de 1974 durante o qual os
moradores do centro histórico, como de outras áreas da cidade do Porto,
sentiram que o poder estava centrado em si mesmos e nas suas organizações
veio a revelar-se perene nas memórias. Em particular para os que mais
diretamente se envolveram no processo, e para os que, de uma forma ou de outra,
puderam experimentar uma melhoria das suas condições habitacionais e de vida, a
memória que persiste ' e que transcorre dos discursos de grande parte dos
participantes nestas mobilizações ' é a de que esse momento constituiu um
espaço de realização e de reconhecimento pessoal e coletivo verdadeiramente
inédito e tendencialmente irrepetível.
Como adequadamente nota Diego Palacios Cerezales (2003, pp. 105-106), é comum
ouvir-se da parte destes protagonistas declarações denotadoras de perplexidade
acerca deste período da história social e política portuguesa: muitos destes
agentes sociais simplesmente não sabem explicar como pôde tanta coisa
ocorrer em tão pouco tempo e, simultaneamente, como foi possível, após tão
intensa participação cívica e política, uma tão súbita e tão perentória
desmobilização.
Contra a explicação, bastante simplista, de que mobilizações como as que se
verificaram em diversas áreas urbanas degradadas das principais cidades
portuguesas após o 25 de abril de 1974 são o resultado de processos de
acumulação e subsequente libertação de tensões, mas também contra a ideia
de que uma determinada cultura política constitui condição suficiente para
que a participação ocorra, Palacios Cerezales (2003, pp. 41 e segs.) recupera a
noção de estrutura de oportunidades políticas. De acordo com a perspetiva
defendida por este autor, as mobilizações ocorrem em consonância com a
estrutura de oportunidades políticas existente num dado momento e lugar, a qual
variará de acordo com a abertura ou fecho relativos do sistema político
institucionalizado; a estabilidade ou instabilidade dos alinhamentos das
elites; a presença e características de elites aliadas; e a capacidade e
propensão do Estado para a repressão (McAdam, citado em Palacios Cerezales,
2003, p. 42). O modelo pretende ser dinâmico:
Os movimentos difundem-se aproveitando oportunidades políticas, mas
através da sua ação forçam o realinhamento dos diferentes atores da
comunidade política, forjam e fazem com que se quebrem alianças e,
nesse mesmo processo, podem forçar a aparição de novas oportunidades
para si mesmos ou para outros movimentos. [ ] Aproveitar uma
oportunidade é mudar, estabelecer novas relações, apresentar-se e
representar-se de novas maneiras. As reconfigurações no sistema
político apresentam-se como oportunidades para ensaiar mudanças,
experimentar alianças, e, segundo os efeitos das interações táticas,
o movimento pode ganhar novas capacidades, conquistar direitos ou
incorporar-se no sistema político [Palacios Cerezales, 2003, p. 43].
No caso de que este artigo se ocupa, verifica-se que a crise de Estado
inaugurada com o golpe militar de 25 de abril de 1974 abriu uma oportunidade
inédita de mobilização e participação política, depressa aproveitada pelos
moradores de zonas sobrelotadas e degradadas das principais cidades. As
ocupações de casas ocorridas logo após a queda da ditadura ' que não só não
foram reprimidas, como foram validadas política e legislativamente pelas novas
lideranças do Estado ' revelaram amplas e inauditas possibilidades de acesso ao
espaço de decisão política por parte daqueles que, até então, dele ficavam
invariavelmente arredados. Para além disso, as elites estatais, culturais e
políticas mostravam-se expectantes ou cindidas, havendo mesmo importantes
setores que apoiavam as mobilizações populares. Perante a instabilidade que
então caracterizava o universo político, e dado o sucesso inicial de diversas
mobilizações, reproduzido e ampliado posteriormente por movimentos de moradores
cada vez mais capazes, aos quais não faltava o enquadramento e apoio de
importantes grupos e organizações sociais e políticas, foi possível a diversos
segmentos das classes populares urbanas, durante um período de dois a três anos
depois de abril de 1974, aproveitar as oportunidades existentes e obter
recompensas efetivas do seu envolvimento cívico. Da mesma forma, a
desmobilização dos anos 1976, 1977 e seguintes terá correspondido não à
dissipação definitiva das tensões acumuladas e entretanto libertadas pelos
moradores, mas ao fecho da estrutura de oportunidades que havia sido aberta
pela crise de Estado dos anos imediatamente anteriores (Palacios Cerezales,
2003, pp. 105-107).
Uma conceção como a que acaba de se propor valoriza os elementos de
enquadramento estrutural e possibilita uma análise mais completa do fenómeno da
participação, que deixa de ser encarado como essência ou idiossincrasia de
um determinado grupo, como mera instrumentalização por parte de uma
organização alóctone ou como simples ato de deliberação racional. Por outro
lado, se é certo que a existência de uma estrutura de oportunidades apta a
contemplar a ação política de grupos sociais como os que compunham os
movimentos de moradores do pós-25 de abril de 1974 aparece como condição
necessária de tal ação, não é menos certo que ela só poderá efetivamente
concretizar-se se existirem no seio dos respetivos promotores competências para
intuir a existência dessas oportunidades e para materializar o seu
aproveitamento. Na proposta explicativa que Palacios Cerezales (2003, cap. III)
apresenta a propósito das lutas urbanas no Portugal revolucionário parece
faltar um maior desenvolvimento desta fundamental dimensão do modelo analítico.
Na verdade, para que uma ação política como aquela a que aqui se tem feito
menção se possa concretizar, é preciso que existam oportunidades viabilizadoras
e catalisadoras das mobilizações, mas também propensões incorporadas para a
ação passíveis de perceber e apropriar tais oportunidades. Com a referência a
esta específica dimensão explicativa, reforça-se o caráter dinâmico do modelo e
restitui-se a relevância da história e prática dos agentes.
No caso do centro histórico do Porto, há alguns elementos analíticos que devem
ser referidos para melhor se perceber a presteza e dinamismo das mobilizações
populares verificadas na zona logo após o 25 de abril de 1974. Com efeito,
dificilmente tais mobilizações teriam ocorrido se não se verificasse a
existência no território de uma elevada integração da matriz local de
disposições (ou habitus), isto é, de geradores amplamente partilhados de
produção e atribuição de sentido e de orientação para a ação. O denso
interconhecimento e os mecanismos de entreajuda existentes no centro histórico
foram certamente decisivos para o ajustamento tácito de atuações face à
situação inaugurada com o 25 de abril de 1974, impelindo um grande número de
agentes sociais locais a apoiarem as ações daqueles que tomaram a dianteira do
movimento. Neste ponto, não foi certamente despicienda a presença na zona de
algumas lideranças locais, constituídas por adultos e adultos jovens fortemente
enraizados, e em vários casos com experiência profissional em atividades muito
reguladas, como a estiva, ou até com experiência sindical, que rapidamente se
assumiram e foram reconhecidas enquanto tal, encabeçando e instigando o
movimento.
A existência deste capital de autoctonia, que Renahy (2010, p. 9), a partir
de Retière (1994; 2003), define como o conjunto de recursos ' bens simbólicos
e formas práticas de exercício de poder ' que a pertença a redes de relações
localizadas propicia, terá sido decisiva para a concretização das mobilizações
políticas verificadas neste território no período posterior ao 25 de abril de
1974.21
Por outro lado, há algum tempo que certas instituições sedeadas na zona, com
destaque para o Centro Social do Barredo, vinham trabalhando com os mais jovens
os tópicos da identidade local, do sentimento de pertença e da arbitrariedade
da situação habitacional e social característica da zona ribeirinha, dessa
forma contribuindo para, a prazo, desmentir as bases do seu próprio diagnóstico
acerca da passividade sedimentada da população local. Na verdade, o trabalho
que estava a ser feito estava a contribuir para reforçar a identidade do grupo
de moradores e para formar cívica e politicamente agentes sociais com
especiais propensões para intuir e aproveitar as oportunidades que viriam a ser
abertas com o 25 de abril de 1974. Complementarmente, a presença deste pessoal
técnico, que conhecia com certo grau de profundidade a realidade local, e que
depressa se solidarizou com as mobilizações populares, constituiu, como se pôde
conferir anteriormente, um recurso fundamental da respetiva concretização e um
elemento importante na consecução de diversos dos seus sucessos.
NOTA CONCLUSIVA. NORMALIZAÇÃO DEMOCRÁTICA E DESMOBILIZAÇÃO NO CENTRO
HISTÓRICO DO PORTO NOS ÚLTIMOS ANOS DA DÉCADA DE 1970
Após os acontecimentos de 25 de novembro de 1975, que comummente se apresentam
como o princípio do fim do período revolucionário português, inicia-se uma
alteração significativa do quadro de relações sociais e políticas vigente.
Removidos do comando militar os segmentos das Forças Armadas associados à
esquerda e à extrema-esquerda, afastados os membros desta área política dos
governos provisórios e dos meios de comunicação social e reafirmados
publicamente os propósitos de repressão das ações ilegais que os movimentos
populares pudessem continuar a desenvolver, as comissões de moradores depressa
intuem que está em curso uma alteração importante das oportunidades políticas
colocadas à sua disposição. A sua ação continuará a fazer-se sentir, em muitos
casos revestindo-se de novos contornos, mas haverá também situações em que a
desmobilização total terá lugar. Depois da realização das eleições legislativas
e autárquicas de 1976, a representação transfere-se para os órgãos eleitos e as
organizações de base local, designadamente as que estavam associadas aos
movimentos de moradores, perdem centralidade enquanto referentes da
legitimidade do poder público e da autoridade e ação estatais. A conotação de
muitas destas organizações com as forças perdedoras do 25 de novembro de 1975
agrava esta sua condição periférica face aos novos centros do poder.
De acordo com grande parte dos discursos político-académicos correntes, este
período é caracterizado como sendo um período de normalização democrática do
país. Referindo-se ao caso específico dos movimentos de moradores, Palacios
Cerezales (2003, pp. 104-105) descreve da seguinte forma os contornos do
declínio acentuado das mobilizações populares verificado a partir de 1976:
O final do ciclo de mobilização não se explica por uma repressão
direta extraordinária, que não existiu, mas pela constatação prática
de que a ilegalidade das massas já não ia ser tolerada e de que as
mobilizações precisavam de interlocutores poderosos que reconhecessem
a validade das suas exigências. O Estado, funcionando já segundo a
coerência interorganizacional que o define, voltou, como poder
constituído, a configurar a paisagem física das ações possíveis. [ ]
A Constituição [de 1976] reconheceu formalmente o movimento de
moradores, [ ] [mas a] prática política marginalizou-
o definitivamente por dois procedimentos: 1) não desenvolvendo as
leis que se anunciavam no texto constitucional e que deviam regular a
participação dos bairros por democracia direta; 2) abstendo-se de
reabrir os processos judiciais de desalojamento ou de não pagamento
de alugueres para evitar a reorganização reativa.
No centro histórico do Porto, este fechamento da estrutura de oportunidades de
participação ao dispor dos moradores não demora a fazer-se sentir. A própria
alteração da visão e forma de atuação do CRUARB reflete esta reconfiguração do
campo político e da burocracia estatal. Resumindo num parágrafo o que
predominantemente veio a acontecer neste domínio no centro histórico do Porto
depois do final dos anos 1970, verificar-se-á uma formalização e burocratização
dos projetos e operações de renovação, com diluição da respetiva autoctonia, e
uma regressão da vitalidade e capacidade de intervenção das comissões de
moradores e das associações locais. A década de 1980, que será de transferência
para o mercado da maioria das responsabilidades em matéria de provisão de
alojamento e, no Porto em particular, de esvaziamento da cidade central,
assistirá à emergência e consolidação de um novo imaginário para a zona
ribeirinha, um imaginário essencialmente patrimonialista e turistificante, o
qual culminará, já na década de 1990, com a classificação do centro histórico
do Porto como Património da Humanidade. Mais recentemente, já depois da
extinção do CRUARB e da criação de uma sociedade de reabilitação urbana, a
tónica passará a incidir sobretudo na gentrificação residencial e comercial do
centro da cidade.22 Quanto à população local que não embarcou nos volumosos
movimentos de saída característicos das últimas três décadas, pauperizada e
envelhecida, e afastada das instâncias estatais e das formas de participação
social e política prevalecentes, que reputa agora, quase sempre, como distantes
e seletivas (eles lá, nós aqui), a descrença e a resignação parecem voltar
a impor-se como sentimentos dominantes.
Dada esta evolução das formas de relação das classes populares com o Estado e a
política no centro histórico do Porto, o período de crise subsequente ao 25
de abril de 1974 vê reforçada a sua aparência de excecionalidade. A sua
pertinência analítica não reside, contudo, nesta singularidade,
irrepetibilidade ou caráter anómalo do caso, mas decorre antes daquilo que
o caso nos oferece enquanto oportunidade privilegiada de estudo das condições
do encontro, esse sim pouco costumeiro, entre as oportunidades, as condições e
as disposições que, conjugadas, podem possibilitar a concretização de
modalidades emancipatórias de relação das classes populares com a política e o
Estado. Tal oportunidade de estudo, se aproveitada, parece prometer o acesso a
elementos muito relevantes para uma crítica quer de conceções mecanicistas,
quer de conceções essencialistas acerca da participação cívica e política e,
bem assim, para uma crítica de noções mais ou menos corriqueiras acerca da
instrumentalização ou então da anomia, indiferença, individualismo ou
apatia dos grupos sociais mais descapitalizados face à ação coletiva
organizada e ao universo das tomadas de posição políticas.