O intelectual de retaguarda
O intelectual de retaguarda
Entrevista a Boaventura Sousa Santos por Helena Mateus Jerónimo* e José Neves**
*CES, Universidade de Coimbra. E-mail: bsantos@ces.uc.pt
**ISEG, Universidade Técnica de Lisboa. E-mail: jeronimo@iseg.utl.pt
***FCSH, Universidade Nova de Lisboa. E-mail: jneves@fcsh.unl.pt
Boaventura Sousa Santos (1940, Coimbra) é uma figura destacada das ciências
sociais, e a sua obra tem sido publicada e discutida em diferentes países.
Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Economia da Universidade de
Coimbra, Distinguished Legal Scholar da Faculdade de Direito da Universidade de
Wisconsin-Madison e Global Legal Scholar da Universidade de Warwick, foi o
fundador do Centro de Estudos Sociais (CES), do qual é diretor, e dos estudos
de sociologia na Universidade de Coimbra. O seu trabalho e pensamento incidem
sobre alguns dos principais tópicos e problemas do mundo contemporâneo, da
justiça e do direito às desigualdades, da epistemologia à teoria pós-colonial,
da globalização aos movimentos sociais. Na sua pesquisa, tem atendido a
diferentes realidades geográficas, da Bolívia à Índia, passando pelo Brasil,
Moçambique e Portugal. Nesta entrevista, assume-se como um facilitador e não
propriamente um guia, recusando o estatuto de teórico de vanguarda, até
porque, nas suas palavras, o que precisamos é de uma teoria geral sobre a
impossibilidade de uma teoria geral. Apresenta-se, então, como um intelectual
de retaguarda, com uma narratividade mestiça, não abdicando do projeto de
uma sociologia crítica, de que fazem parte os conceitos de epistemologias do
sul, ecologia dos saberes, conceitos estes que tem vindo a inscrever no mapa da
teoria sociológica.
Eis a conversa que tivemos em abril de 2012, numa breve passagem por Lisboa,
onde também falámos sobre o estado das ciências sociais e da sociologia em
Portugal.
HELENA JERÓNIMO Pensámos começar de forma um pouco provocatória, recorrendo
precisamente a uma expressão sua Recentemente autocaracterizou-se como um
otimista trágico, que procura ser um rebelde competente. Seria possível
interpretar essa sua caracterização como reveladora de que é um otimista
trágico como sociólogo e um rebelde competente como político?
BOAVENTURA SOUSA SANTOS Não penso que haja uma disjunção total entre as duas
caracterizações. Entre a razão e a vontade há mais pontes do que as que podemos
imaginar. A minha identidade como cientista social, como sociólogo, assenta em
dois pilares. Por um lado, a consciência informada dos problemas que afligem as
sociedades contemporâneas (e a nossa em particular) e da dificuldade em pensá-
los e resolvê-los para além dos limites impostos pelo pensamento único, cuja
hegemonia é hoje mais asfixiante do que nunca. O caráter informado desta
consciência reside no exercício de uma sociologia crítica, analiticamente
consistente. Por outro lado, a crença igualmente informada de que há, pelo
menos potencialmente, alternativas, já que as sociedades não podem prescindir
da capacidade de pensar em alternativas. Isto é particularmente válido nas
sociedades capitalistas onde a desigualdade social, a injustiça e a
discriminação colidem com os valores da igualdade, liberdade e fraternidade que
informam a modernidade ocidental, e não podem, por isso, deixar de suscitar
resistências. O caráter informado desta crença decorre da leitura da história e
do meu trabalho de investigação-ação com os movimentos sociais. Mas não nego
que é uma crença. O grande filósofo espanhol Ortega y Gasset dizia que na
ciência há algo de crença e que era mais prudente reconhecê-lo do que
desconhecê-lo. O meu otimismo trágico resulta pois desta dupla ideia de que são
enormes as dificuldades em imaginar e mais ainda em construir uma sociedade
mais justa e equilibrada, não só nas relações entre humanos, mas também nas
relações entre estes e a natureza, e de que, por outro lado, essas dificuldades
não são tão inelutáveis que eliminem de todo a possibilidade das alternativas.
Quanto à rebeldia competente, acho que tem igualmente duas dimensões. A
primeira é que, com a crescente mercantilização da educação universitária e a
consequente obsessão com a eficiência e as necessidades do mercado, as nossas
universidades, estão hoje, mais do que nunca, a formar conformistas. E
conformistas incompetentes, pois que os estudantes, quando formados, encontram
uma sociedade que em vez de os acolher, os rejeita, porque afinal o mercado já
lá não está ou nunca lá esteve. Os indignados e a geração à rasca são a prova
disto mesmo. A segunda ideia é que a alternativa é a formação de rebeldes
competentes. Rebeldes, porque a sociedade tal qual está exige inconformismo e
vontade de lutar por uma sociedade melhor. Mas rebeldes competentes, porque ao
longo do século XX ficou claro que os rebeldes foram ainda mais incompetentes
que os conformistas. E aqui há obviamente uma crítica às tradições
eurocêntricas, tanto da teoria crítica, como da esquerda. Daí também o falar de
rebeldia em vez de revolução. As lições do século XX, não sendo inequívocas,
são bastante preocupantes. Por um lado, a revolução revelou um impulso
incontrolável para se institucionalizar. Nas revoluções modernas, as primeiras
medidas dos revolucionários visaram quase sempre impedir que houvesse mais
revoluções. Foi tão fácil transformar antigos inimigos em amigos quanto
antigos amigos em inimigos. Com isso fecharam-se muitas portas de
transformação social progressista. A rebeldia preocupa-se em manter as portas
abertas. Por outro lado, a revolução visou construir uma sociedade totalmente
distinta daquela em que nós vivemos, os amanhãs que cantam, e os resultados são
conhecidos. O rebelde dos nossos dias sabe que a esmagadora maioria da
população do mundo tem carências que não lhe permite esperar por futuros
longínquos. Muitos deles e delas estão vivos hoje mas não sabem se estarão
amanhã, têm comida hoje mas não sabem se terão amanhã, estão sãos hoje mas
podem morrer amanhã de uma doença curável, estão hoje nas suas terras mas podem
amanhã ser expulsos por uma empresa mineira. Nestas condições, as mudanças
urgentes não parecem menos importantes que as mudanças civilizacionais. Daí a
necessidade de abandonar a ideia de uma sociedade totalmente distinta e lutar
aqui e agora por uma sociedade com mais dignidade, com mais justiça, com mais
solidariedade, não só com os outros, como com a própria natureza. Não
Alternativa, mas sim alternativas. As possibilidades não serão radicais, mas há
que radicalizar as que realmente existem. O rebelde competente é um rebelde
autorreflexivo que procura aprender com os erros do passado, submetendo-os a um
escrutínio rigoroso sem as fachadas autoritárias da autocrítica nem o
masoquismo rendido da má consciência.
HJContinuando nesta linha provocatória Entre o cientista e o político, se
lembrássemos Max Weber, não faltam vozes nas ciências sociais em Portugal que
pensam que o Boaventura sociólogo é frequentemente subsumido pelo Boaventura
político. Quer comentar?
BSS Salvo o devido respeito, esses comentários provêm, no melhor dos casos, de
uma crença serôdia no positivismo, quase sempre disfarçando uma viragem nas
convicções política da esquerda para a direita, o que tem sido frequente entre
os cientistas sociais em Portugal. E revela também uma grande ignorância dos
debates epistemológicos contemporâneos, sobretudo das epistemologias feministas
e pós-coloniais. A questão central que neste domínio se coloca, tanto hoje como
ao tempo de Weber, como aliás desde o seculo XVII, é a questão da relação entre
objetividade e neutralidade. Esta relação atormentou Weber como atormenta quem
quer que não pense que a sociedade é um espetáculo feito sem a nossa
participação e que nós, cientistas sociais, somos apenas um espetador, quando
muito, um espetador curioso. A objetividade nas ciências sociais significa o
controlo da subjetividade, como aliás Weber salientou, dado o ponto de partida
do valor e do sentido em cada objeto de estudos nas nossas áreas. Alguém pode
defender de boa-fé que o conceito de desencantamento, que é central em Weber,
não tem um componente de normatividade? O controlo da subjetividade dá-se pela
observância competente e de boa-fé das metodologias que as ciências sociais têm
vindo a construir. Isto sem nunca prescindir de contribuir para a criação de
novas metodologias que não só aproveitem ao máximo os recursos tecnológicos de
que hoje dispomos mas também se adeqúem às novas exigências que a sociedade nos
põe e que na minha opinião vão no sentido de criar mais aproximação consciente
do que distância inconsciente dos seus limites. É por esta razão que tenho
vindo a insistir em metodologias mais participativas.
A questão da neutralidade é outra. É a questão de saber de que lado estamos. A
objetividade não nos dispensa de responder a esta questão. Pelo contrário,
exige que lhe demos particular atenção, dado o valor social do conhecimento de
que dispomos. As sociedades estão atravessadas pelo sofrimento injusto causado
por desigualdades, discriminações, exclusões que decorrem da distribuição muito
desigual do poder económico, social e político. Quer queiramos ou não, ao
realizar os nossos trabalhos não nos podemos furtar a responder à questão de
que lado estamos, do lado dos opressores ou do lado dos oprimidos. Se nos
recusarmos a enfrentar esta questão ou se negarmos admitir que ela existe,
corremos o risco de optar ingenuamente pelo lado dos opressores, dado o domínio
que eles têm sobre a opinião pública e o senso comum. A objetividade é assim
muito distinta da neutralidade. A objetividade visa atingir o que Kierkegaard
exigia de todos os seres humanos: sermos mais objetivos para connosco próprios
e mais subjetivos para com os outros. É precisamente por isto que a
objetividade se distingue da neutralidade. Os cientistas sociais devem ser
objetivos mas não podem ser neutros, e os menos neutros são aqueles que de boa
ou má fé se consideram ou dizem neutros. Estou muito consciente de que é mais
fácil afirmar esta distinção do que praticá-la. É preciso ter muita vigilância
epistemológica e eu nem sempre estou seguro de a exercer plenamente. Reconhecer
isto é mais honesto do que pretender que ela não é necessária porque as nossas
metodologias nos põem a salvo de qualquer interferência de valores.
A ilusão da neutralidade decorre da especificidade do conhecimento científico
em relação ao saber prático que emerge de todas as práticas sociais. Só o nosso
conhecimento se assume como uma prática à parte, separada de outras práticas em
que todos intervimos. As universidades foram as instituições que na modernidade
selaram essa separação. Isto permitiu um extraordinário avanço no conhecimento
mas, simultaneamente, criou a ilusão da autonomia, e dela foi um passo até à
suposta neutralidade. Uma das características da modernidade ocidental que mais
me intriga e fascina é o ter permitido, até agora pelo menos, que ideias
revolucionárias sejam desenvolvidas e até defendidas dentro de instituições
reacionárias. O outro lado da moeda é a perda do poder radical das ideias.
HJ O que é que vai diferindo na sua escrita de acordo com as várias condições
que vai assumindo? Ou seja, a escrita como ensaísta no livro Portugal: Ensaio
Contra a Auto-flagelação; ou a escrita como sociólogo que produz saberes para o
Estado, ou até saberes de Estado em relatórios como os do Observatório da
Justiça e outros do género; a escrita como sociólogo que produz saberes
militantes com a coleção das Utopias Possíveis da Gulbenkian, por exemplo, ou
o livro do Fórum Social Mundial; ou ainda a escrita do sociólogo que produz
saberes para e de Estados militantes, com os seus trabalhos na Bolívia e no
Equador Acha que existem diferenças e continuidades no trabalho sociológico
nestas várias condições que vai assumindo?
BSS Há continuidades e diferenças. As continuidades decorrem do facto de eu,
como disse, querer ser objetivo sem pretender ser neutro. Para me referir ao
trabalho do Observatório da Justiça o respeito que as nossa análises
granjearam em setores da sociedade muito distintos decorre da objetividade que
procuramos ter; mas não somos de modo nenhum neutros. Estamos do lado daqueles
que querem construir uma justiça mais democrática, mais eficiente, mais
acessível, em suma, mais justa.
As diferenças estão mais relacionadas com estilos e públicos. Eu acho que uma
das características mais interessantes da escrita e da narratividade das
ciências sociais no princípio do século XXI é ela ser em grande parte o
resultado da crise dos dois grandes paradigmas de narratividade, que eram
também teóricos e analíticos, que coexistiram nas ciências sociais durante o
seculo XX. Refiro-me ao estrutural-funcionalismo e ao marxismo. Cada um destes
grandes corpus teóricos criou um estilo e um cânone narrativo próprios. Nos
anos 1960 e 1970, quando tive o meu treino inicial, costumávamos dizer que para
sabermos de que paradigma ou corrente partia qualquer artigo de sociologia
bastava ler a primeira página, porque isso se tonava claro através dos
conceitos que usava. Se partia do paradigma estrutural-funcionalista falava de
desenvolvimento, modernização e grupos sociais. Se partia do marxismo falava de
capitalismo, dependência e classes sociais. Hoje não é assim porque entretanto
houve a fragmentação celebrada por um certo tipo de pós-modernismo, a viragem
cultural dos anos 1980, os estudos feministas e os estudos pós-coloniais, etc.
Tudo isto criou uma enorme diversidade nos cânones narrativos que se abriram
mais e, com isto, a escrita sociológica tornou-se mais diversa e, no meu
entender, mais interessante.
Por outro lado, os públicos foram-se diversificando e contribuíram para
emergência de novos estilos de escrita. Para dar um exemplo de casa, a minha
escrita era considerada uma escrita bastante esotérica e difícil, dizem-me. Mas
também me dizem que, a partir de Pela Mão de Alice, eu passei a abrir um pouco
mais a minha escrita. Para além disso, nem todos os textos têm o mesmo caráter
e visam atingir o mesmo público. Por exemplo, em Toward a New Common Sense,
Gramática do Tempo ou Crítica da Razão Indolente eu dirijo-me fundamentalmente
a um público académico. Enquanto no Ensaio Contra a Auto-flagelação ou no Fórum
Social Mundial me dirijo ao público em geral, ou, pelo menos, aos cidadãos
inconformados com o pensamento único e interessados em alternativas. Sem
sacrificar os conceitos, é possível, no entanto, formulá-los de diferentes
maneiras e com intencionalidades mais ou menos veementes.
No meu caso, todavia, as coisas são ainda um pouco mais complexas porque na
última década tenho vindo a elaborar uma proposta epistemológica que designo
por epistemologias do sul. As epistemologias do sul são uma tentativa de
confrontar o conhecimento hegemónico, científico, com conhecimentos não
científicos, produzidos nas práticas e nas lutas sociais, conhecimentos que têm
em si um potencial contra-hegemónico, produzidos em grande parte no sul global
e a partir de premissas culturais distintas das que subjazem à modernidade
ocidental. Dessa proposta faz parte o conceito de ecologia de saberes através
do qual mostro que, se os conhecimentos práticos, muitos deles construídos nas
lutas sociais, e o conhecimento criado pelas ciências sociais entrarem em
diálogo, é possível que ambos os tipos de conhecimentos se enriqueçam e, assim,
robusteçam os projetos de transformação social. A ecologia dos saberes em si
mesma obriga a uma narratividade mestiça. Obriga a algum hibridismo nas formas
de narrar o próprio trabalho científico.
HJ Ainda nesse cruzamento entre ciência, narrativas de ciência e da política,
como é que vê os casos clássicos do intelectual marxista, da figura sartriana
ou, depois, os posicionamentos como os de Foucault, Said, Habermas Ou, por
último, Bourdieu, por exemplo
JOSÉ NEVES E como é que se vê em relação, também, a estes autores?
BSS Todos aqueles que acabou de referir me influenciaram e foram as leituras
assíduas na parte mais formativa da minha vida. Nos anos 1980 cheguei a
lecionar todo um curso sobre Foucault na Universidade de Wisconsin-Madison. Mas
a qualquer dos que mencionou fiz quase desde o início duas críticas. A primeira
é que, como referi acima, as universidades, ao terem o monopólio do
conhecimento válido, conferiram aos intelectuais universitários uma autoridade
extraordinária. Daqui foi um passo para que os intelectuais críticos se
transformassem em intelectuais-guia, intelectuais de vanguarda. E realmente os
intelectuais estiveram muitas vezes nas vanguardas dos movimentos sociais. São
eles que julgam saber mais, os que têm uma consciência mais lúcida, e os que
dão lições aos movimentos. Eles são aqueles que guiam e, portanto, aprovam ou
reprovam, são extremamente normativos. Eu nunca me senti bem nessa posição.
Mesmo em Portugal, onde algumas das minhas análises podem parecer mais
normativas, eu procuro sempre criar condições para pedagogias recíprocas.
Portanto, a primeira crítica decorre de que me considero um intelectual de
retaguarda, não sou um teórico de vanguarda. Tenho escrito muitas vezes que o
papel do intelectual não é ir na vanguarda, é ir na retaguarda: é acompanhar os
movimentos, ver onde é que estão as fragilidades; dar-lhes mais informação
acerca daquilo que aconteceu noutros lugares com resultados bons ou com
resultados maus; aquilo que os pode fortalecer; aquilo que os pode perverter.
Caminhar com aqueles que caminham mais devagar, como diz o subcomandante
Marcos. E, portanto, é um papel de retaguarda, de facilitador, e não
propriamente de guia.
A segunda crítica que faço em relação aos autores que mencionou surgiu mais
tarde quando comecei a elaborar as epistemologias do sul. Fui-me dando conta de
que todos eles eram bons porque tinham elevado até ao máximo a consciência
possível da modernidade ocidental e das epistemologias do norte, mas não iam
além dela e com isso desperdiçavam muita riqueza social, teórica e analítica
vigente no mundo. As epistemologias do norte não sabem comunicar ao mundo as
suas ideias a não ser de uma maneira universalizante. Ora estas ideias da
teoria crítica eurocêntrica foram todas construídas em cinco países da Europa:
Alemanha, Itália, França, Reino Unido e depois um pouco nos Estados Unidos, no
final do século XIX, princípio do século XX. Hoje, as inovações sociais e
políticas mais interessantes estão a ocorrer no sul global, em contextos muito
distintos daqueles em que foram elaboradas as teorias críticas. Não admira que
essas teorias não se lhes adeqúem e não dêem respostas às questões que
levantam. No entanto, no norte global continua a ser mais fácil ignorar este
facto. Fui-me convencendo de que todos esses autores foram extremamente
provincianos na sua reivindicação de universalismo. Habermas, que eu respeito
muito, é quem atinge o máximo de consciência possível da modernidade ocidental,
mas não desiste de a transformar em receita universal. Quando ele diz que não
estou certo de que as minhas teorias sejam relevantes para os países do sul,
noutros contextos, está a dizer que a minha teoria é universal, mas não vale
para quatro quintos da humanidade! E isto foi o que nós, europeus, fizemos,
sobretudo desde o século XVI. Só que não nos demos conta disso. Sempre
aceitámos que a nossa universalidade coincide com muito pouca gente no mundo
(uma aceitação dramática em Adorno e Horkheimer) e obviamente a culpa não é
nossa de que assim seja. Eu não aceito isso, e aí reside a vertente pós-
colonial da minha teoria. As epistemologias do sul tentam criar procedimentos
de conhecimento e de validação do conhecimento a partir das perspetivas
daqueles que sofreram sistematicamente as injustiças do capitalismo, do
colonialismo e do patriarcado. Portanto, é a partir deles que eu vou buscar,
hoje, energias para reformular, revitalizar, as ciências sociais. Porque,
trabalhando parte do ano nos Estados Unidos, posso dizer-vos que na área das
ciências sociais são cada vez mais raras as ideias novas. As ideias novas que
vão surgindo nos departamentos de sociologia vêm muitas vezes das experiências
dos estudantes oriundos da América Latina, da África, e da Ásia, ideias que
depois são aproveitadas e elaboradas até ao paroxismo da complexidade ou do
detalhe. E todo o meu trabalho é procurar, utilizando esta situação
semiperiférica e ambígua de Portugal, ser sociólogo da minha circunstância,
abrir um pouco o cânone da sociologia. Com muitas incompreensões, naturalmente,
dos colegas que pensam que estão no Primeiro Mundo, e que tudo aquilo que fazem
é do Primeiro Mundo, mesmo que ninguém saiba deles, da sua existência, no
Primeiro Mundo.
JN Pegando talvez nessa definição, que me parece muito sugestiva, do
intelectual não já de vanguarda mas de retaguarda Poder-se-ia dizer que na sua
obra, até ao pela Pela Mão de Alice, há um percurso que o leva à crítica da
centralidade do movimento operário, e depois há uma espécie de um segundo
momento, já pós-queda da União Soviética, de abertura, também de projeção
internacional, digamos assim, do seu trabalho, em que aí se trata cada vez mais
de pensar a pluralidade dos sujeitos políticos, também já na sua escala global.
Mais do que identificar um sujeito histórico, pensar as formas de subjetivação
política Não sei se esta leitura faz sentido Parece-me, por exemplo, que no
Pela Mão de Alice há ainda uma espécie de ajustar de contas com o percurso
político do país desde o 25 de Abril; e que a partir daí, na fase global do seu
trabalho, há já uma utilização desse legado do 25 de Abril como mais uma
experiência que vai muito para além do cânone tradicional de revolução
europeia, tal como o marxismo a havia pensado, no sentido em que não é
estritamente obra de um movimento operário. Mas faz sentido esta reflexão da
sua obra como uma obra sobretudo da subjetividade política?
BSS Faz todo o sentido. Acho que é uma excelente caracterização. Caracterizou
muito bem tudo aquilo que eu tenho vindo a fazer, talvez a outra característica
que me distingue de outros colegas que procuraram fazer essa ponte entre o
trabalho científico e o trabalho político, assumindo essa diferença de uma
maneira um pouco acrítica. Normalmente para o fazerem tiveram sempre
necessidade de escolher um ator político e de se porem ao lado dele, e de,
aliás, assumirem atitudes em relação a esse ator político que contrariava toda
a sua subjetividade enquanto cientistas. Obediência partidária. Tem exemplos
extraordinários, em Sartre, por exemplo; há o chocante exemplo de Merleau-Ponty
a respeito dos julgamentos de Moscovo no tempo de Estaline; o próprio Foucault,
num certo período. Quer dizer, situações em que as pessoas renunciam a tudo
aquilo que são para poderem entrar numa outra subjetividade superior. É isto
que eu não posso aceitar. Porque eu não poderia nunca estar em qualquer
atividade de recorte político em que eu tivesse de abdicar do meu caráter de
sociólogo crítico que procura realmente ir para além daquilo a que Bourdieu
chamava as fachadas do senso comum. E, portanto, terei de manter sempre essa
dimensão crítica, essa independência. A questão é sempre a de saber como se
cria a agência política, a partir de que contradições na sociedade, uma questão
dramática na sociedade portuguesa de hoje. Nós vínhamos de uma leitura, na
teoria crítica eurocêntrica, para a qual a agência privilegiada era a classe
operária. Entretanto, em 2001, surge o processo do Fórum Social Mundial que vem
demonstrar a riqueza e diversidade extraordinárias dos movimentos sociais, algo
que já conhecíamos desde os anos 1980 e 1990, mas que internacionalmente era
pouco conhecido. No Fórum, o movimento operário nunca foi, obviamente, renegado
' pelo contrário, teve o seu lugar ' mas teve que conviver com muitos outros
movimentos: movimento indígena, de camponeses, de mulheres, de gays, LGBT, de
ecologistas, direitos humanos, etc. A maioria destas lutas não entrava dentro
do cânone das lutas sociais importantes. Como sempre, tinham-se produzido
teorias supostamente universais a partir da experiência europeia e nem sequer
de toda a Europa. Por exemplo, teorizou-se muito a respeito da distinção entre
novos e velhos movimentos sociais. Mas em Portugal os velhos e os novos
movimentos surgiram praticamente ao mesmo tempo. E o mesmo se passou com as
três gerações dos direitos de T.H. Marshall. Corresponde muito bem à
Inglaterra, mas em Portugal as três gerações ' direitos cívicos, políticos e
económicos ', vieram todas no mesmo dia com a Revolução de abril. Os nossos
estudantes doutorandos que, no caso do CES, são em vários programas
maioritariamente brasileiros ou de outros países da América Latina, ajudam-nos
a questionar toda a tradição teórica a partir das experiências que vivem nos
seus países. Do movimento estudantil do final dos anos 1960 até ao Fórum Social
Mundial, torna-se evidente que a subjetividade revolucionária, se existe, não é
um património da classe operária. Com angústia isto tinha sido visto nos anos
1930 pela Escola de Frankfurt. Os revolucionários, ou como prefiro, os
rebeldes, são potencialmente todos os inconformados. Mas, por outro lado,
também não são a multitude espinosiana à la Toni Negri. São o resultado da
articulação política entre diferentes movimentos e organizações sociais e
políticas que à partida pouco mais comungam que a ideia de que vale a pena
lutar por uma sociedade melhor. A grande arma das sociedades capitalistas foi
dividir efetivamente o movimento operário e todos os movimentos sociais que
foram surgindo. Quem se uniu globalmente foi o capital. Dividiram-se os
trabalhadores de país para país e dentro do mesmo país; depois dividiram-se os
diferentes movimentos: trabalhadores, dos ecologistas; os ecologistas, dos
gays; os gays, das mulheres; as mulheres, dos povos indígenas, etc. Essa
divisão tem sido realmente o grande desarme das forças críticas. Portanto, a
minha busca tem sido, não só teorizando, mas também atuando na prática com os
atores sociais no sentido de aprofundar o interconhecimento entre movimentos
que torne possível a articulação política, e, a partir dele, novos agentes
políticos. Por exemplo, no Fórum Social Mundial de 2003 propus a criação da
Universidade Popular dos Movimentos Sociais. Desde então temos realizado muitas
oficinas, como lhe chamamos, em que durante dois dias intelectuais-ativistas e
dirigentes de diferentes movimentos sociais se juntam para discutir os
preconceitos que têm uns a respeito dos outros e o valor relativo das sua
lutas. Serão os povos indígenas mais machistas que outros grupos sociais, como
pensam muitas feministas? Será a luta operária mais importante que a luta LGBT
como pensam muitos sindicatos? Etc. Este esforço de discussão não visa a
compreensão pela compreensão. Visa aumentar a eficácia política das lutas
sociais. Para que amanhã, se houver uma marcha ou um protesto, seja mais fácil
juntar diferentes movimentos ou mesmo partidos. Como não há um comando central,
só o interconhecimento pode facilitar a articulação. Naturalmente, não é um
trabalho fácil, como pode imaginar.
JN Poderíamos fazer um paralelismo, até por coincidência no tempo, com o
percurso dos estudos do subalterno, os subaltern studies, no sentido em que aí
também parece existir uma crítica dos processos de identificação, a partir de
uma tradição de crítica ao colonialismo, mas que depois também se transforma
numa crítica aos próprios processos de identificação dos Estados
independentistas. Estas críticas, porém, chegaram por vezes a um ponto que
pergunto se subscreveria; e que é, de algum modo, o ponto em que se coloca a
própria questão da impossibilidade de falarmos em nome do subalterno, para
utilizar a forma canónica de uma das autoras
BSS Os subaltern studies foram fundamentais na minha construção teórica e isso
vê-se na passagem de Pela Mão de Alice para Toward a New Common Sense, que é o
livro, em meu entender, fundador de muito daquilo que depois vai surgir. E é aí
que eu começo com as epistemologias do sul, embora só as venha a teorizar dez
anos mais tarde. Aprender que há o sul, ir para o sul e aprender com o sul,
ocupa todo o último capítulo do livro. Os subaltern studies foram importantes
precisamente por serem a perspetiva que vinha deslegitimar a historiografia
colonial e colonizada e construir toda uma outra a partir das experiências dos
povos colonizados. A sua pergunta levanta dois problemas. O primeiro é o da
eventual incomensurabilidade das experiências sociais ou históricas e dos
saberes que as constituem. É um problema sério; foi tendo-o em vista que eu
elaborei o conceito de ecologia de saberes. Sem tradução intercultural entre
conhecimentos não será possível ultrapassar a incomensurabilidade. Por
exemplo, que relação existe entre uma política de esquerda, que continua a
apontar para o socialismo, e a ideia de Sumak kawsay defendida pelos povos
indígenas latino-americanos, (Sumak kawsay é a palavra quéchua para bem viver,
buen vivir, em espanhol)? Se as diferenças forem incomensuráveis caímos
facilmente no relativismo, o que, em meu entender, é impensável do ponto de
vista de uma sociologia crítica. Sem um critério de transformação social e de
emancipação, de luta por uma sociedade melhor, não há teoria crítica. Portanto,
nós temos que ser abertos a essa multiplicidade sem entrar no relativismo. Isto
leva à segunda questão. Se há incomensurabilidade, não é possível falar em nome
do subalterno. Mas falar em nome do subalterno só faz sentido se for para o
ouvir e para a partir daí ampliar a conversa do mundo. Para dar exemplos da
minha experiência: se participo num seminário de capacitação para dirigentes de
diferentes movimentos sociais (indígenas, camponeses, mulheres) e me convidam a
falar sobre a globalização ou o neoliberalismo, eu tenho de estar consciente de
duas condições: primeiro, o meu conhecimento não tem o monopólio da verdade e,
portanto, os presentes procurarão educar-me tanto quanto eu os educo a eles, e
por isso as aprendizagens serão recíprocas; segundo, tenho de usar uma
linguagem que eles entendam. Qualquer destas condições exige enorme vigilância.
Eu lembro-me de uma discussão em El Alto, a 4000 metros de altura, por cima de
La Paz, em que estamos numa reunião de mulheres, todas elas líderes indígenas;
ao fim de uma hora praticamente elas estão todas a criticar-se umas às outras:
porque tu és neoliberal, porque tu participaste no governo local, porque
tu fizeste isto, tu recebeste dinheiro, és uma neoliberal . Até que uma
líder indígena, uma mulher aliás notável da organização de mulheres, as
Bartolinas Sisas, vira-se para mim e diz: Oh professor Boaventura, o que é o
neoliberalismo? Estavam há uma hora a discutir. Procurei explicar, e era
claro que as práticas das mulheres em disputa tinham pouco ou nada a ver com o
neoliberalismo. Tu és neoliberal era uma forma de se insultarem, qualquer
coisa semelhante ao insulto, entre nós, tu és comunista, antes do 25 de
Abril, ou tu és fascista depois do 25 de Abril. Era a mesma coisa, não tinha
nenhum outro conteúdo semântico. Levantou-se um debate e eu ouvi mais do que
falei. Não falei em nome do subalterno, participei solidariamente de um
processo que ajudou a ampliar as falas dos subalternos entre si. O subalterno
fala, só que nós não os ouvimos porque não os entendemos nem partilhamos os
lugares onde eles se sentem à vontade para falar. Talvez hoje o subalterno fale
de forma cada vez mais audível. A gente observa o movimento dos Indignados, da
primavera Árabe, dos camponeses e indígenas, da Índia, de vários países
africanos e latino-americanos. A África do Sul foi o país com mais movimentos
sociais, com mais protestos sociais o ano passado (2011). Agora, sabemos disso?
A nossa televisão e os nossos jornais dão notícias? [ ]
JN Continuando ainda nestas questões relativas à subjetividade política Também
tenho a impressão de que passou a haver na sua obra uma maior sensibilidade à
questão nacional. Não é que antes não existisse, mas antes existiria, talvez,
uma crítica da questão nacional enquanto fator de clivagem entre os movimentos
sociais e, portanto, uma certa fidelidade, em última instância, a uma certa
ideia de internacionalismo Nos últimos anos parece haver uma maior
sensibilidade às questões nacionais, que se traduz, por exemplo, na atenção à
questão das diversidades nacionais subjacentes aos diferentes sítios onde tem
trabalhado.
E isto tem levado, por exemplo, a que o termo povo ou popular pareça
regressar um pouco mais aos seus trabalhos do que, se calhar, acontecia no
Pela Mão de Alice.
BSS A sua pergunta obriga-me a rever o meu trajeto. Portugal foi sempre, para
mim, um laboratório interessante e uma experiência de trabalho como sociólogo e
como cidadão. Posso distinguir três impulsos ou momentos nessa experiência. O
primeiro foi reconstruir o conceito de semiperiferia, que fora proposto pela
teoria do sistema mundial de Immanuel Wallerstein, de modo a adequá-lo às
realidades da semiperiferia europeia. Isso obrigou a um trabalho teórico e
analítico que não estava de maneira nenhuma presente na teoria de Wallerstein.
O resultado desse trabalho foi Portugal: Um Retrato Singular, em que
apresentámos as antinomias decorrentes e uma teoria geral que não se aplicava
bem a Portugal. A partir da minha formação nos EUA tornou-se claro para mim que
Portugal estava no contrapé de todas as teorias. As teorias sociológicas tinha
em mente ou as realidades do primeiro mundo, ou as realidades do terceiro
mundo. Adequavam-se bem tanto ao Brasil, onde fiz o trabalho de campo para o
meu doutoramento (nas favelas do Rio), como aos EUA. Mas não a Portugal. O
segundo momento desse trabalho de compreensão da intrigante sociedade
portuguesa resultou da necessidade de, já num registo mais cultural e de
arquétipos culturais da nossa sociedade, tentar fazer uma intervenção sobre as
conceções, mais psicanalíticas, que estavam a dominar sobre a identidade
portuguesa, e de que o meu querido amigo Eduardo Lourenço é o mais brilhante
representante. Nas teses sobre a sociedade portuguesa, em Pela Mão de Alice,
procuro iniciar a crítica a essa leitura, tentando mostrar que, no fundo, foram
as condições sociológicas e a longa duração do império colonial que tinham
criado a especificidade da cultura portuguesa. Uma delas era cultura de vai-e-
vem, como eu dizia, uma cultura em que domina a forma sobre o conteúdo, e que
por isso tem muitas dificuldades em se auto-identificar. Um terceiro momento
surge com os estudos pós-coloniais. Tinha trabalhado em contextos pós-coloniais
nos anos 1970 no Brasil, nos anos 1980 em Cabo Verde e na Colômbia, e nos anos
1990 em Moçambique e finalmente na década passada em Angola. Mas foi nos anos
1990 que os estudos propriamente pós-coloniais explodiram. Mais uma vez,
passando parte do tempo nos EUA, dei-me conta de que, tal e qual como a teoria
da semiperiferia, as teorias pós-coloniais aí vigentes não se adequavam às
condições histórica e sociológicas de Portugal. Por duas razões principais:
primeiro, as teorias eram produzidas por intelectuais diaspóricos que partiam,
fundamentalmente, do colonialismo britânico; segundo, esses teóricos vinham dos
estudos culturais, enquanto eu vinha da sociologia, ainda por cima de uma
tradição marxista. Como é que eu poderia introduzir a economia política nos
estudos do pós-colonialismo? Desta dupla referência, sai o meu primeiro texto,
Entre Próspero e Caliban, que é, segundo me dizem, o mais citado desde sempre
da Luso-Brazilian Review. Nesse texto procuro captar a complexidade dos
processos identitários em Portugal, e afinal também nos países que resultaram
do colonialismo português. Visava mostrar que o pós-colonialismo de raiz
inglesa, do colonialismo inglês, não se aplicava de maneira nenhuma ao
colonialismo ibérico, sem no entanto cair na leitura açucarada de Gilberto
Freyre, cuja crítica fiz e faço. Mas há uma especificidade e ela deve ser
analisada em termos que a não desfigurem. Publiquei depois outros textos,
alguns não disponíveis em português, por exemplo, em Portuguese Literary and
Cultural Studies, da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, Tales of Being
and not Being, que é realmente uma nova elaboração de todo esse paradigma. Este
artigo será incluído na nona edição da Pela Mão de Alice, atualmente esgotado.
Um outro momento surge com a profunda crise social, económica financeira e
política que atravessamos. Aí aparece a inserção insidiosa, como diz, das
palavras povo e popular. Se vir bem, eu não falo do povo, eu falo de
classes populares. Foi sempre o meu modo de falar das classes menos capazes de
promoção e mais vulneráveis à despromoção nas sociedades capitalistas. Não
abdico, pois, do conceito de classe. Mas é verdade que os debates sobre o
populismo e o neopopulismo (tanto na Europa e EUA como na América Latina)
trazem de novo o conceito de povo e também o de nacionalismo. O populismo é uma
forma política que decorre da perda das ideologias e da fragilidade da
institucionalidade política em contextos de grande crise. Historicamente,
envolveu o desmembramento da classe política através de uma relação direta
entre os cidadãos e um líder carismático. À luz destes critérios não há
condições para o populismo em Portugal. Entre muitas outras coisas que faltam
aos nossos políticos, falta-lhes carisma. Mesmo assim, o uso da palavra povo é
problemático. Se o povo é toda a gente, qual é o seu valor analítico? No
sentido mais inerte do conceito, todos os cidadãos (e talvez muitos
estrangeiros que já vivem aqui há muito tempo) são o povo português. Mas se
não é toda a gente, quem é e quem não é? O povo é hoje usado sobretudo para
designar o que chamo de classes populares ou o que no Brasil em jargão urbano
se designa por povão. Tem também a conotação da identificação com a cultura do
país e do valor da lealdade e da soberania. À luz deste conceito, não são parte
do povo pessoas que têm passaporte português mas nada mais os vincula a
Portugal senão aquilo que lhes é ditado pelos seus patrões internacionais. O
ministro das Finanças, Vítor Gaspar, tem o passaporte português, mas não tem
mais do que isso. Realmente, ele está ao serviço do capital financeiro alemão
em cujos bancos se educou. Não se trata de se lhe chamar traidor. Trata-se
apenas de pensar que se ele estivesse na Bielorrússia executaria as mesmas
políticas como se o país fosse apenas paisagem. E o mesmo se pode dizer de
António Borges, que se tiver oportunidade e poder causará graves danos ao país.
Entre ele, Mario Draghi, Mario Monti ou Lucas Papademus não há grandes
diferenças. Têm passaportes diferentes mas a sua lealdade última, o seu
verdadeiro país, é a companhia majestática-colonial Goldman Sachs a que todos
pertenceram ou pertencem.
JN Mas acha que já não é assim tão importante continuar a fazer esse esforço
que, por exemplo, no Portugal: Retrato Singular, é feito de algum modo? De
facto, tem esse diálogo implícito e explícito com o impacto que a obra do
Eduardo Lourenço havia tido antes. Pergunto isto porque às vezes pode criar-se
a sensação, enquanto leitor, de que há uma espécie de clube de pensadores sobre
a portugalidade, digamos assim, entre os quais se destacariam evidentemente
Eduardo Lourenço, Boaventura Sousa Santos, José Gil, isto apesar das diferenças
entre o seu tipo de contributo e o contributo de Eduardo Lourenço, e o
contributo de José Gil, também eles diferentes entre si, parece-me. Há uma
frase sua no Pela Mão de Alice que eu me lembro de ter lido, e de que não me
esqueci, quando diz que o problema das interrogações que visam uma falta de
identidade é que, às vezes, o défice da pergunta se converte em excesso de
resposta identitária. Há muitas questões que se continuam a colocar sobre a
portugalidade, no atual contexto de crise, por exemplo, que parecem acusar esse
excesso de resposta .
BSS Há, acho que tem razão. Veja, o sub-título do meu recente texto sobre
Portugal é Ensaio contra a Autoflagelação. É um título contra quem? Contra o
pessimismo mortificante que por vezes encontramos em Eduardo Lourenço e José
Gil, apesar das diferenças entre eles. Todas estas leituras, sendo leituras de
base psicanalítica, têm também um fundo, em meu entender, religioso porque há
qualquer coisa de pecado original na origem da nacionalidade portuguesa que
nunca foi resolvida. Eu, como sociólogo, sou completamente insensível a esse
tipo de análise. Portanto, o que eu quero analisar são processos como estes: um
país tão pequeno descobre, ou melhor, acha três continentes; constrói o império
mais caótico que podemos imaginar, feito de vários impérios ao longo de uma
larga duração histórica; em certo momento, a capital do império tem de ser
transferida para a capital da colónia para o centro imperial não perder a
independência; Goa, e não Lisboa, é quem governa todas as colónias de Oriente;
Goa é a colónia de ocupação com a mais larga duração da história (1510-1961) e
a única (junto com Macau) que não se tornou país independente depois de
terminar o colonialismo português. E tudo isto, com exceção de Goa, dura até
1975. Em meu entender, há razões políticas, sociais, económicas e
geoestratégicas que nos ajudam a entender este instigante puzzle, que aliás
condiciona muito o nosso presente e é, por isso, matéria para sociólogos e
outros cientistas sociais. Não há lugar à autoflagelação, de que um outro
mestre brilhante é Vasco Pulido Valente, que muito admiro apesar de nunca
concordar com ele. A narrativa auto-flageladora vem da Geração de 1870, em que
tão profundamente bebeu Eduardo Lourenço. A Geração de 70, geração do declínio,
não se vê nenhuma saída e tudo está mal. Em muito do Oliveira Martins isso é
muito claro, e também no Antero de Quental. Na parte final do ensaio contra a
autoflagelação procuro refutar José Gil quando ele diz que os portugueses não
marcam, não deixam marca. Ora, por todo o lado onde vou, vejo marcas
portuguesas nos mais remotos lugares e nos domínios mais familiares, da comida
à língua. A palavra Portugal, e Lusitânia, em pequenas aldeias perdidas nas
lonjuras de Potumayo, sul da Colômbia, termos portugueses em línguas tão
distintas como o swahili ou os dialetos escondidos nas florestas das Guianas. E
os exemplos são imensos. Agora, o fundamental para mim é procurar identificar
os fatores sociais, políticos, culturais e geoeconómicos que tornam esta
portugalidade tão enigmática. Isto também se reflete no facto de, depois da
Revolução do 25 de Abril, e das independências das colónias, termos querido
virar costas a todo o passado colonial. E esse foi o grande mal. Muitas vezes
escrevi nessa altura vamos fazer das fraquezas força, vamos fazer de Portugal
um vai-e-vem entre a Europa e o resto do mundo, dados os muitos séculos de
contactos que temos com mais partes do mundo que qualquer outro país europeu.
Mas a política dominante foi a da vergonha do colonialismo (que também foi, mas
não foi só isso). Somos europeus e devemos cortar as nossas ligações com esse
passado. Agora, perante a crise financeira, tornam-se mais claros os efeitos
negativos dessa política. Mas são irreversíveis e por isso agora me parece
descabida uma solução isolacionista ou soberanista. Pelo contrário, advogo uma
solução federalista, de forte conteúdo democrático como alternativa à
catástrofe que está a ser administrada em doses homeopáticas. O que está a
passar-se em Portugal já o vimos na Grécia, país a que a Alemanha nunca pagou a
indemnização pela ocupação nazi. Uma solução europeia, federalista, democrática
que abra espaço para a auto-estima nacional pós-Vestefália. Vindo de mim, este
apelo à auto-estima não deve ser interpretado como orgulho salazarista e
isolacionista, porque é o contrário. Portugal é um dos países mais antigos da
Europa e o facto de estar endividado não o torna menos digno, até porque parte
dessa dívida é indigna. Outras alianças são possíveis na Europa para além do
eixo Paris Berlim. Contra estas possibilidades estão os atuais detentores do
poder apostado em aproveitar a crise e a boleia da Troika, para conseguir o que
pelo voto nunca conseguiram: que Portugal volte ao 24 de abril.
JN Neste contexto da crise, e aproveitando também o facto de conhecer vários
meios universitários, académicos, em diferentes contextos nacionais, sente
alguma particularidade no caso português do ponto de vista da intervenção ou
não intervenção dos académicos, dos universitários, dos investigadores, dos
mais jovens, dos movimentos, na situação da crise? Ou que há um maior
recolhimento Sente que, desse ponto de vista, a universidade portuguesa, se
quisermos ficarmo-nos pelas ciências sociais, tem uma maior timidez em tomar a
palavra pública? Ou mantém-se mais, enfim, para utilizar uma expressão mais
antiga, na sua torre de marfim do que noutros contextos políticos, do que
noutros contextos nacionais?
HJ Há pouco dizia que formávamos conformistas
BSS Eu acho que sim e, portanto, quem forma conformistas é conformista, não é?
JN Mas isso seria mais verdade num contexto como o português do que noutros?
BSS Eu penso que sim. É uma coisa muito estranha, muito interessante de
analisar. Eu e outros colegas do ICS e de outras instituições estivemos na
origem da institucionalização plena das ciências sociais em Portugal, inclusive
da criação da Associação Portuguesa de Sociologia, de que sou o sócio número
três. O que nos animava era a vontade de contribuir para a transformação da
sociedade portuguesa, para a construção de uma sociedade democrática. De algum
modo sentíamo-nos todos sociólogos públicos, como hoje diríamos. Considerávamos
isto muito importante num país que passou 48 anos em ditadura, em que a
sociologia era virtualmente proibida porque o ditador a considerava igual ao
socialismo. Enquanto a sociologia florescia noutros países, nós tínhamos de
rumar para o estrangeiro, enquanto no Gabinete de Investigações Sociais o
doutor Sedas Nunes e os seus colaboradores faziam um trabalho notável e
arriscado para garantir a dignidade, o respeito, a relevância dos estudos na
nossa disciplina. Por isso, o nosso impulso era o de criar uma sociologia
interventiva, porque a sociedade tinha muitas carências, estava num processo de
acelerada e caótica transformação. Estranhamente, foi um período muito curto.
Rapidamente assistimos a uma reversão completa desse impulso. Para isso
contribuíram alguns excessos revolucionários. A tentativa de controlo
partidário da universidade, nomeadamente por parte do PCP, criou alguns
mecanismos de defesa. Vivi isso intensamente porque estive 12 anos à frente da
direção e depois do Conselho Científico da Faculdade de Economia. Durante o
breve período inicial era, em Coimbra, o único diretor de faculdade não
comunista. O facto é que a defesa da independência universitária e da autonomia
do trabalho deslizou rapidamente da reivindicação da objetividade para a
reivindicação da neutralidade, quase sem que se notasse nas nossas interações.
De alguma maneira, o caldo de cultura favorecia este deslize. Porquê? Porque
era uma sociedade que, tendo estado sujeita ao imaginário salazarista durante
tanto tempo, não tinha criado as condições para uma sociedade civil ativa; e os
cientistas sociais não são heróis. Aliás a fraqueza da sociedade civil foi um
dos temas iniciais da nossa investigação. Mas aqui fazíamos uma distinção muito
importante, entre, por um lado, uma sociedade civil formalmente organizada,
donde poderia surgir uma esfera pública habermasiana forte e uma sociedade
política gramsciana e, por outro lado, a sociedade civil informal, da ajuda
interfamiliar e intergeracional, da ajuda aos doentes e aos mais velhos, etc.
Esta última sociedade civil era forte e ainda hoje tem algum força, como
estamos a ver na gestão familiar da crise atual. Estava vinculada ao familismo
rural analisado por João Ferreira de Almeida, José Madureira Pinto e depois
Pedro Hespanha e Firmino da Costa, entre outros. Foi nessa base que
desenvolvemos a ideia que, em meu entender, continua válida (e até talvez cada
vez mais válida) de que tínhamos uma sociedade civil informal forte que
colmatava as fraquezas do Estado providência português.
Mas a ideia sempre foi que o importante era construir um Estado providência
forte apoiado por uma sociedade civil forte. E era igualmente importante
fortalecer a sociedade civil habermasiana. Penso que nem um nem outro objetivo
se realizou e a universidade é o espelho disso mesmo. Os nossos intelectuais
participam pouco na vida coletiva, e menos ainda na colaboração solidária com
os movimentos e organizações que lutam contra a injustiça social. O país cria
separações estranhas. Para dar um exemplo pessoal e me confinar à Europa, neste
momento recebo muitas solicitações para reuniões de trabalho da parte de alguns
setores dos Indignados em Espanha, o 15M de Madrid, porque querem discutir
temas concretos de alguns textos meus. Por exemplo, tinham lido um texto onde
eu falava da rua como nova esfera pública, o único espaço público que ainda não
foi colonizado pelo capital financeiro. As questões a discutir são como passar
da rua para outros espaços onde se possa fazer formulação política, como criar
formas não centralistas de organização, como definir os objetivos de luta.
Muitas opções emergem: reivindicar uma assembleia constituinte? criar um novo
partido? Criar um movimento de outro tipo? Preferir a intervenção a nível
municipal? Entrar no jogo eleitoral? Os jovens estão perdidos e no seu seio há
posições muito divergentes. A minha intervenção é a do intelectual de
retaguarda, intervenho como facilitador: olhem, isto deu este resultado neste
lugar ali; aquele resultado foi assim. Há outras opções? Será possível dedicar
mais atenção à comunicação com outros movimentos noutros países fora e dentro
da Europa? É um processo de educação recíproca que é mais difícil fazer em
Portugal. Em Portugal tudo ocorre com atraso, com aquele com que chegou até nós
o affair Sokal. Lembra-se? O Discurso sobre as Ciências foi publicado em 1987,
está talvez na vigésima ou trigésima edição, em Portugal e no Brasil. Vinte
anos mais tarde é que os positivistas o descobrem e o transformam num ataque à
ciência no seu conjunto. Portugal é um bocadinho isso, é muito provinciano
ainda e tem uma cultura pública democrática muito pequena ' o insulto é sempre
mais fácil.
JN Continuando nessa questão de como é que o meio académico, as ciências
sociais em Portugal, se relacionam com o espaço do debate público, do debate
político, da intervenção dos movimentos, da intervenção cidadã em geral. Às
vezes também há a sensação de que isso se repercute no próprio trabalho que
essa ciência social faz. Nós, quando preparávamos a entrevista, falávamos um
pouco disso: sobre uma certa hostilidade que no meio das ciências sociais em
Portugal existiria, não em relação ao seu trabalho, mas ao trabalho teórico em
geral
BSS Essa hostilidade é evidente a vai ao ponto de no ISCTE alguns professores
militarem para que os meus livros estejam ausentes, segundo me dizem alguns
estudantes dessa importante instituição, uma instituição para que tanto
contribuí logo depois do 25 de Abril. É um misto de fatores desde a inveja, à
doença infantil do positivismo, e à ignorância arrogante. Felizmente, o mundo é
mais amplo que Portugal. O que eu tenho defendido é que, para quem realmente se
mantém ativo no trabalho de investigação, quer a nível empírico, quer a nível
teórico, é hoje mais que nunca claro que as grandes inovações vêm do trabalho
empírico e da intervenção social. Para isso, é necessário que cada um deles,
ainda que de modos diferentes, parta da distinção entre objetividade e
neutralidade, e tomando em relação a cada uma a posição que defendi em resposta
a uma sua pergunta anterior. E o trabalho empírico deve ser conduzido segundo
hipóteses de trabalho abertas e inovadoras que permitam que a investigação nos
surpreenda. Algumas das hipóteses de trabalho que eu levava comigo quando fui
viver para as favelas do Rio da Janeiro mais do que serem confirmadas ou
infirmadas, explodiram, ou seja, partiam de parâmetros que invisibilizavam o
mais importante. Talvez o meu conhecimento do estado da arte fosse deficiente.
Talvez o estado da arte, por mais bem conhecido por mim, fosse igualmente
deficiente. Afinal, a esmagadora maioria da bibliografia era de autores que
nunca tinham vivido numa favela, que nunca tinham imaginado que escrever
sobre os favelados é algo muito distinto de escrever com eles. Claro que
eu, apesar de ter vivido na favela, também escrevi a minha tese de doutoramento
sobre e não com. Ao longo dos anos fui-me treinando e aos meus estudantes
para escrever mais com. Vamo-nos dando conta de que as nossa técnicas de
recolha de dados são, muitas vezes, um ato de expropriação que praticamos de
boa consciência com base numa distinção acrítica entre conhecimento e
informação. O que os nossos entrevistados nos dizem é muitas vezes um
conhecimento próprio que devia ser tratado como tal no âmbito da ecologia dos
saberes. Em vez disso é reduzido (desmembrado, descontextualizado) a matéria-
prima para alimentar o nosso conhecimento voraz. Dessa ecologia de saberes sai
também enriquecido o conhecimento científico. É por isso que a diversificação
do trabalho empírico é fundamental para a diversificação do trabalho teórico.
Este é algo muito mais criativo de que o suposto procedimento hipotético-
dedutivo. Aliás, Chomsky tem mostrado que a relação entre a teoria e a prática
é fractal. É evidente que para os positivistas, para quem a objetividade é
igual à neutralidade, nada disto faz sentido. Apesar de muitos deles se
reivindicarem de Bourdieu, certamente nunca leram bem Le métier du sociologue,
onde se mostra que o trabalho empírico é teórico, porque a construção analítica
é toda ela construída teoricamente. Ou seja, o empírico é uma coisa, o
empiricismo é outra. Mas como são ignorantes, e pensam que a sociedade em si
mesma é ignorante, passam esses grandes triunfalismos empiricistas como se
fossem, digamos, o máximo da ciência. Qualquer dia, uma pequena análise do
Eurobarómetro e dos estudos que andam por aí passam por ser o grande marco da
sociologia. Quando isso ocorrer, não teremos necessidade de sociologia. Vamos
ter uma outra coisa, que aliás está a surgir nos EUA e é motivo de preocupação
para os sociólogos. Trata-se de um tipo novo de behavioural social sciences que
pretende não ter nada que ver com sociologia e reivindica maior cientificidade
por as suas explicações serem mais coladas aos processos cognitivos. Sem pôr em
causa a seriedade de muitos investigadores que se dedicam a estes estudos, esta
perspetiva tem sido utilizada para reduzir a complexidade analítica própria das
melhores ciências sociais. A ideia subjacente é que as ciências sociais
complicam a vida aos policy makers em vez de a facilitar. Usam-se muitos dos
instrumentos da recolha de dados das ciências socias, mas recusa-se o conteúdo
teórico-analítico que as ciências sociais constroem a partir dos dados.
Sondagens, inquéritos em permanente processo de upgrade ao serviço de quem
pagar os inquéritos e as sondagens, obviamente bastante dispendiosos.
Aparentemente tudo é mais empírico, mais correto e mais exato. É esta a
armadilha! Não interessa que estas análises close range estejam falsificadas
seis meses depois. O importante é sua eficácia política e mediática no momento
em que são apropriadas pelos meios de comunicação e pelos comentadores
políticos.
HJ E o que é que acha da afirmação de que a sociologia é uma disciplina
científica e moral? Ou para si seria preferível dizer-se que é científica e
crítica?
BSS Acima de tudo, é científica e crítica. Ciências morais foi uma designação
muito em voga no seculo XIX. O ser crítica significa que tem um elemento de
normatividade, outra maneira de discutir a questão da neutralidade. Weber e
todos os grandes autores analisaram esta questão com uma angústia
extraordinária. No caso de Weber, ser sociólogo e fazer intervenção política
foi um tema de toda a sua vida. Não há talvez outra maneira de corresponder à
contemporaneidade do nosso tempo. Nos nossos dias é necessário contudo fazer
algumas precisões. É crucial mostrar que a sociologia crítica não é mera
crítica da ideologia; tem um forte conteúdo analítico-empírico. O que a
distingue da sociologia convencional é não reduzir a realidade ao que existe. É
partir do pressuposto de que, naquilo que existe, está contida a potencialidade
do diferente, a possibilidade daquilo a que Ernst Bloch chama o ainda não: as
tendências, as latências, as emergências. São elas, normalmente, os veículos a
partir dos quais são legitimados grupos sociais que sofrem discriminações,
injustiças, exclusões e lutam contra elas, em nome dessa esperança no ainda
não. Há aqui uma normatividade, mas não existirá ela também naqueles que
reduzem a realidade ao que está dado e consolidado num dado momento? Estamos no
domínio de pressupostos meta-teóricos, por assim dizer ontológicos (perguntava
Leibniz: porque é que existe o ser em vez do nada?). A sociologia crítica parte
de um conceito mais amplo de realidade que escapa à sociologia positivista e só
é captável por aquilo que no meu trabalho designo por sociologia das ausências.
Veja como agora, em Portugal, parece não haver alternativa ao modo como é
conduzida a vida política e económica. Quando se reduz a realidade ao que está
dado, o poder político não precisa do consenso dos cidadãos, basta-lhe a
resignação destes. Não se trata, pois, de uma normatividade de tipo moral. A
moral implica a ideia de código e de sistema. A normatividade de que falo é a
abertura da sociedade às potencialidades para ser diferente do que é e lutar
pelas diferenças que a tornem melhor como forma de convivência. É,
naturalmente, necessário distinguir entre as boas possibilidades e as más.
Quando se luta por uma sociedade pós-capitalista, nunca se sabe efetivamente o
que é que vem com o pós-capitalismo. Lutar para que seja uma coisa melhor, mas,
se não lutarmos, provavelmente, pode ser uma coisa pior. Já Rosa Luxemburgo
falava de socialismo ou barbárie. Hoje nem sequer estamos certos de que o
futuro seja o socialismo. Estamos talvez mais certos de que pode ser a
barbárie. Vamos construindo o caminho a caminhar, como diz o poeta.
HJ E qual é a sua opinião sobre o pluralismo paradigmático dentro das ciências
sociais e da sociologia em particular? Diria que já não existe uma teoria
unificadora da sociologia como, na senda dos americanos, foi a de Parsons, e
que as últimas tentativas de construção de uma teoria unificadora teriam sido,
por exemplo, a de Gurvitch ou mesmo a de Habermas ou de Bourdieu
BSS Quando eu fui estudar sociologia nos Estados Unidos, em Yale, estávamos na
ponta final da legitimidade de Parsons. Parsons estava a ser sujeito a uma
crítica radical em todos os departamentos de sociologia. Estávamos no inicio da
década de 1970, era a luta contra a guerra no Vietnam, a radicalização do
movimento negro e do movimento estudantil. O estrutural-funcionalismo norte-
americano começava a ser questionado, inclusivamente nos seus fundamentos e até
na originalidade dos seus textos. Foi nessa altura que começou a problematizar-
se a tradução que Parsons tinha feito de Max Weber, por exemplo, na tradução
dos conceito de Macht e de Herrschaft. Falava-se de uma tradução muito
americanizada dos diferentes conceitos de poder em Weber. Parsons estava a ser
completamente posto de parte. Quanto às outras correntes que menciona, só
Habermas apresenta uma teoria geral com duas fases (pré e pós a teoria da ação
comunicativa). Habermas é o exemplar mais brilhante, sem dúvida, daquilo a que
eu chamo uma epistemologia do norte. É aquele que leva mais longe as
antinomias, as contradições, do pensamento do norte. É realmente uma tentativa
de criar uma teoria geral. Muito mais importante e inclusiva do que a de Niklas
Luhmann, que foi seu rival durante muito tempo, e esse sim ainda muito mais
obcecado com a ideia da teoria única, neste caso a Teoria dos Sistemas.
Habermas não, tem uma teoria bastante mais aberta, que ele vai aliás
reconstruindo ao longo do tempo e revendo. Agora, é evidente que é uma teoria
que assenta em todos os pressupostos que são válidos dentro do norte global, e
que não são válidos fora daí. Por exemplo: não há nenhuma capacidade de
Habermas para entender a interculturalidade. O argumento da ação comunicativa
não é apenas que os cidadãos estejam desinteressadamente a discutir, é que eles
falem uma linguagem em que se entendam. Ora hoje nem mesmo dentro da Europa
todos os cidadãos falam a mesma língua ou entendem as outras línguas, ou usam
os mesmos ritmos e códigos de fala e de silêncio. Esta limitação é válida para
todas as conceções de universalismo, que é, afinal, um particularismo europeu.
Aliás, a Escola de Frankfurt, donde vem Habermas, fala especificamente de
universalismo europeu, o que é um oximoro. Quando Adorno e Horkheimer dizem que
o universalismo é europeu, entram em contradição e, no entanto, nós nunca
notámos essa contradição. Porque se é universal pode surgir em qualquer parte
do mundo: não pode, não tem, de ser europeu. Gurvitch é um autor muito
interessante porque, de diferentes perspetivas, procura criar uma teoria geral.
Só que as perspetivas são tão diversas ' desde os tempos, as escalas, as
regiões, os climas etc. ' que torna impossível imaginar como seria essa teoria
geral. Ele é, digamos assim, um Fourier do nosso tempo, completamente
fragmentado. Mas a sua sociologia tem um encanto extraordinário e para mim foi
muito formativa. O caso de Bourdieu, é realmente uma tentativa séria de criar
uma teoria sociológica forte, digamos assim, com uma strong objectivity, como
diria depois Donna Haraway. Absorve muitos dos inputs críticos que tinham sido
feitos à teoria sociológica (sobretudo nos EUA) e procura centralizá-los e
organizá-los de modo a criar uma teoria geral. Paga, no entanto, um preço alto
por isso, porque a teoria afinal é parcial e não lhe permite fundamentar
adequadamente a intervenção política que no final da sua vida vai ter, para
desgosto dos bourdieuianos. Lembro-me de alguns discípulos afirmarem que o
Bourdieu político nada tinha a ver com o Bourdieu científico. O seu pessimismo
teórico, tal como o de Foucault, tinha-o desarmado para o ativismo político.
Libertou-se, o que revela o grande sociólogo que ele era. É de toda esta
tradição que eu parto para defender o que designa por pluralismo pragmático.
Entendo que hoje não temos nem precisamos de uma teoria geral. Do que nós
precisamos, vindos da tradição de onde vimos, é de uma teoria geral sobre a
impossibilidade de uma teoria geral. É disso que nós precisamos. Abrem-se,
assim, muitas mais possibilidades teóricas e analíticas, o que é sobretudo
importante para as gerações mais jovens de cientistas sociais. A minha proposta
da ecologia dos saberes e da tradução intercultural visa ampliar ao máximo
essas possibilidades. Mas visa também criar humildade analítica, pois torna-se-
nos claro que a compreensão do mundo é bastante mais vasta que a compreensão
ocidental do mundo. A um nível muito concreto tente, por exemplo, comparar os
conteúdos semânticos do conceito de povo indígena na América Latina na África
e na Ásia. Esta complexidade é fascinante e faz com que hoje a teoria
sociológica seja muito mais pluralista, mais democrática. A minha pena é que
nós não usemos essa democracia para mais diálogo entre sociólogos, entre
cientistas sociais. Pelo contrário, cada um se fecha na sua escola, cada um de
nós no seu centro de investigação. Assim não é possível contribuir com o nosso
pluralismo interno para o pluralismo geral da sociedade. Sem diálogo é fácil a
ignorância e o preconceito e daí vai um passo até ao insulto como única
alternativa ao silêncio.
HJ Continuando nessa diversidade, quer académica quer prática, mas focalizando
um bocadinho mais o discurso: como é que vê a trajetória do marxismo e como é
que vê os debates intermarxistas na sua relação com a sociologia? Pensa que se
pode falar de uma crise da influência do marxismo nas ciências sociais?
BSS Bem, a presença do marxismo dentro da sociologia é um dado hoje adquirido,
praticamente em todos os departamentos que eu conheço, com exceção daqueles que
são ou confessionais ou muito conservadores. Marx aparece como um dos
fundadores e inspirador de uma das correntes da sociologia. Também se faz uma
distinção muito grande entre o marxismo como teoria e tudo o que dele foi feito
enquanto doutrina política ao serviço dos Estados. Sobre a crise do marxismo,
ou a crise do seu papel dentro da sociologia: primeiro, ela existiu desde o
início, está implícita logo na Escola de Frankfurt. Depois temos de ter em
mente que todas as correntes que foram apresentadas como totalmente distintas
do marxismo foram, de facto, construídas em diálogo com o marxismo. Max Weber é
todo ele diálogo com Marx; Durkheim é um diálogo com Marx. Em Parsons já não
temos essa tensão com o adversário, é a afirmação triunfalista de uma outra
conceção, que deixou a outra por ser irrelevante, não tem aquela angústia da
diferença que está presente, obviamente, quer em Max Weber, quer no próprio
Durkheim. Portanto Marx é mais constitutivo das ciências socias do século XX do
que usualmente se imagina. O marxismo entra em crise em diferentes momentos por
diferentes razões: a primeira crise é logo depois de Lukács. Lukács é o único,
o último autor, digamos, que tem uma confiança extraordinária (teórica,
política, epistemológica) no marxismo como ciência da transformação social. Com
Adorno e com Horkheimer, a utopia já é um desespero, pois estão a assistir à
traição da classe operária. A segunda crise do marxismo dá-se quando estamos
a chegar aos anos 1980, anuncia-se a débâcle do sistema soviético, a crise do
marxismo ocidental, o declínio da social-democracia, tudo isso contribui para
que a certa altura, no espaço de poucos anos (entre 1978 e 1981) se publiquem
três importantes ajustes de contas com o marxismo, por Habermas, Anthony
Giddens e Stanley Aronowitz. Analiso essas críticas em detalhe em Pela Mão de
Alice. Aliás o capítulo em que trato deste tema (Tudo o que é sólido se desfaz
no ar) é também uma análise dos limites do marxismo. Fundamentalmente, a ideia
que defendo é que o marxismo continua a ser muito útil para analisar as
sociedades capitalistas, mas deixou de ser muito útil para definir a sociedade
futura. A terceira crise do marxismo, e talvez a mais profunda até agora,
ocorre com o Fórum Social Mundial. Torna-se então evidente a diversidade dos
movimentos sociais que lutam por uma sociedade melhor. Muitos deles não têm
nenhuma referência do marxismo, não usam os seus conceitos, até lhe serão
hostis quando os conhecem. Este processo tem duas virtudes notáveis: a primeira
é aprofundar a crítica ecológica do marxismo. O'Connor tinha feito uma crítica
importante na revista Socialismo e Ecologia a partir da ideia de duas
contradições do capital, capital-trabalho e capital-natureza, mas tinha-se
ficado por uma visão sobretudo intelectual. Agora são estes movimentos sociais,
indígenas e camponeses que vêm questionar: O que é isso do desenvolvimento
infinito das forças produtivas? Isso significa extrativismo, destruição das
nossas comunidades, destruição das nossas águas, das nossas florestas, da nossa
biodiversidade. E, portanto, de repente, Marx é um eurocêntrico. E, portanto,
o ativismo que vem de outras cosmovisões (indígenas, camponesas, não-
ocidentais) vêem-no com uma grande suspeita. A outra virtude foi dar a conhecer
a um público muito mais vasto intelectuais marxistas de grande nível que nunca
foram conhecidos porque não falavam, não escreviam nem em francês nem em
inglês, e que viveram ou vivem da Índia à América Latina. Dos que conheço
melhor, José Maria Mariátegui e Álvaro Garcia Liñera.
JN Estava a lembrar-me também de um determinado texto seu em que, a certa
altura, refere que justamente um dos contributos, a nível da produção do
pensamento político, que poderíamos encontrar nas transformações mais recentes,
por exemplo no contexto latino-americano, seria a própria transformação da
forma de pensar a ideia de poder. Há pouco quando referia essa passagem do
pensamento da revolução para um pensamento da rebeldia ou da revolta recordei-
me desse texto, em que referenciava, por exemplo, a ideia de John Holloway de
mudar o mundo sem tomar o poder. Por vezes parece que a crise do marxismo a que
nós assistimos na Europa se traduziu numa espécie de viragem anarquista, que
poderíamos pensar como contemporânea ' com todos os riscos deste paralelismo '
à viragem que leva à crítica ao eurocentrismo marxista Faz sentido este
paralelismo?
BSS Faz, faz. Eu acho realmente ' até já o escrevi ' que, de facto, quando
analisamos as formas de luta e de organização, as narrativas e repertórios
destes movimentos, verificamos que, de todas as tradições críticas ocidentais,
a única que sobrevive é a anarquista. Algumas referências são explicitamente
anarquistas. Um jovem colega, um grande sociólogo, professor em Goldsmiths
College, David Graeber, um anarquista que escreveu um livro importante chamado
Direct Action, narra a sua intervenção no movimento occupy nos EUA e conta como
foi ele que inventou a expressão de 99% (contra o 1% dos ricos). Torna-se
evidente o colapso das formas organizativas institucionais dos partidos, e não
só dos partidos do modelo soviético. Criou-se um vazio dentro do pensamento
crítico e da política que ele sustentava, incluindo o conceito de revolução. Só
que o anarquismo tinha um conceito de revolução muito mais aberto, que era até
próximo do de revolta e de rebeldia que defendo. Mas eu não tiro disso todas as
ilações anarquistas. Por exemplo, no que respeita ao Estado.
HJ Permita-nos que faça ainda uma outra pergunta um pouquinho diferente É que
participou nos Encontros de Cuernavaca, no México, com Ivan Illich, e nós lemos
recentemente numa rubrica diarística, numa espécie de diário que tem no Jornal
de Letras, salvo erro em janeiro passado, em que alude a afinidades e
diferenças com Ivan Illich. Nós gostaríamos que falasse um pouco dessas
afinidades, mas também dessas diferenças, e de saber se estas últimas têm a
ver com o marxismo, e qual a sua opinião quanto ao ceticismo de elites face à
tecnologia.
BSS São questões importantes. Eu fui muito amigo de Ivan Illich. Acho que
realmente ele me considerava um dos seus discípulos mais diletos, passávamos
horas a conversar. Lembro-me de quando ele fez 45 anos e das longas conversas
durante a noite inteira. Por essa altura, também o André Gorz frequentava o
CIDOC ' e até lecionámos juntos um seminário sobre direito e revolução
(talvez em 1971). Tudo isto ocorreu entre 1970 e 1974. O que me separou de Ivan
foi a Revolução do 25 de Abril. Em fim de 1973 vim para Portugal, depois foi a
revolução e obviamente havia tarefas mais importantes para mim do que seguir os
diálogos internacionais. Continuámos em contacto, mas perdemos o fio. Havia
várias convergências com ele. Não é por acaso que a minha tese de doutoramento
foi primeiro publicada pelo CIDOC que ele dirigia. O tema da minha tese era o
direito informal e paralelo e a resolução de litígios no interior e uma favela
do Rio de Janeiro. Ivan considerava muito importante a autonomia em relação ao
Estado e ao oficialmente consagrado, fosse na educação, na medicina ou no
direito. Portanto, tínhamos muita convergência na valorização das energias
sociais que emergiam daqueles grupos sociais que, no meio de tanta exclusão e
marginalidade, lutavam pela dignidade, pela sua sobrevivência, tinham sabedoria
e mereciam respeito. No fundo, foi aí também que nasceu a ecologia dos saberes.
Quais eram as nossas divergências? Bem, eu não vinha da Áustria como ele. Eu
vinha de um país muito pouco equipado com infraestruturas, um país que nessa
altura era extremamente medíocre em termos de Estado social, ainda no
salazarismo, um país muito pobre e em que estas ideias do Estado social como
afronta e da tecnologia como ameaça ao serviço do Estado eram pouco
convincentes. Por outro lado, e quanto à crítica radical da educação formal, eu
o que via em Portugal era acima de tudo o analfabetismo. Tínhamos uma taxa de
analfabetos enorme e eu discutia com o Ivan: Ivan, no meu país, não temos essa
literacia de que tu falas, temos é muito analfabeto. E, portanto, uma crítica
total à escola, em meu entender, era contra-produtiva e até conservadora nesse
momento. Claro que o Ivan dizia que havia outras formas de educação popular,
com a pedagogia de Paulo Freire. Não altura isso não me parecia muito
convincente. Eu preferia a escola crítica à crítica da escola. Como depois
escrevi em alguns textos sobre a universidade, tratava-se de ocupar a
universidade, como hoje se diria, para a transformar por dentro. Fazer um
discurso contra-hegemónico sobre a universidade mas não destruí-la, nem pô-la
de parte. Bem pelo contrário, como tenho mostrado ao longo da minha vida. A sua
crítica ao Estado social e às instituições do Estado parecia-me demasiado
radical. No que respeita à tecnologia, as nossas divergências eram também
significativas. Era toda uma corrente onde estava ele, onde estavam também Jean
Robert, Gustavo Esteva, e Wolfgang Sachs. Defendiam a rejeição da tecnologia
industrial e tecnocrática e a sua substituição por tecnologias próprias e
locais. Mas nessa altura já começavam a desenvolver-se os computadores pessoais
e outras técnicas de informação e de comunicação. Eu dizia-lhe, Ivan, vamos
utilizar essas tecnologias e vamos tentar dar-lhe um conteúdo próprio para as
nossas lutas. Não me parece que a gente possa ficar sem essa alternativa. Mas
aqui havia uma nuance: uma coisa eram as técnicas, e outra essa ideia de que
todos os problemas da sociedade podem ser resolvidos pela tecnologia. Era o
grande, era o grande
HJ O technological fix, não é?
BSS Exatamente. E isso é que era o grande fantasma dele, e aí eu estava de
acordo com ele. No fundo, tratava-se de criticar a ideia que vinha de Marx e,
antes dele, de Fourier, de que um dia a tecnologia tornaria a política
desnecessária. Ora, eu achava e acho que a própria tecnologia é política,
porque há várias soluções técnicas para os mesmos problemas e a escolha nunca é
só técnica. Portanto a política não vai desaparecer. Neste domínio, estava
absolutamente com ele. Onde divergíamos era sobre se não devíamos usar apenas
as tecnologias tradicionais. Eu talvez fosse menos negativo e estava muito mais
interessado em saber como é que vai ser usada essa tecnologia. Claro, o Ivan
tinha um argumento poderoso: toda a tecnologia que nós usamos tem origem
militar. Mesmo a internet. E, portanto, com a tecnologia está-se sempre nas
mãos dos militares. É um argumento poderoso até hoje. Illich era um homem
absolutamente extraordinário, foi uma das minhas grandes convivências.
HJ Uma última questão muito genérica: como é que vê o futuro das ciências
sociais em Portugal? E também da universidade portuguesa, tendo em conta a
conjuntura atual de retração do financiamento para a ciência.
BSS Quanto à universidade, estou absolutamente preocupado, obviamente. Nós
tivemos um avanço extraordinário nas ciências sociais. Nos últimos quinze ou
vinte anos o papel da Fundação para a Ciência e Tecnologia e do Ministério da
Ciência e Tecnologia sob a liderança de José Mariano Gago foi extraordinário na
promoção da ciência em geral, e portanto também das ciências sociais. Em 2009,
Portugal era o país europeu que produzia mais doutoramentos per capita. Estava,
portanto, a preparar-se a mudança na especialização da nossa economia. Mariano
Gago teve a visão e o bom senso de considerar que, se as ciências sociais são
ciências, devem ser adequadamente apoiadas. Foi assim que entre os laboratórios
associados criados no início da década estiveram dois grandes centros de
investigação na área das ciência sociais, o ICS e o CES. Objetivamente, uma
política extraordinária cujos frutos estão à vista. Se eu não estivesse num LA
nunca teria tido condições para concorrer e ver aprovado um projeto europeu tão
vasto como o ALICE que permite trabalhar com um excelente grupo de
investigadores portugueses e estrangeiros. A preocupação atual decorre de que
tudo isto levou muito tempo (sobretudo, criar infraestruturas e equipas) a
construir mas pode ser rapidamente destruído. Basta um orçamento cortado de um
momento para o outro e os investigadores desestabilizam e alguns vão-se embora
para o estrangeiro. E isto é que me preocupa: o estancamento, depois de um
grande esforço em que estamos a criar ciências sociais de alta qualidade que
podem competir a nível mundial. Preocupa-me sobretudo a mensagem que está a ser
transmitidas aos investigadores mais jovens.