Estado e programas municipais de habitação popular em Campos dos Goytacazes
(RJ)
INTRODUÇÃO
O processo de formação e desenvolvimento das grandes e médias cidades
brasileiras é marcado por um profundo processo de diferenciação, pois uma forte
segregação socioespacial foi imposta às camadas mais empobrecidas da população,
especialmente no que se refere à existência de infraestruturas e acesso a
serviços públicos. Uma das formas mais evidentes desta segregação é a
diferenciação no acesso à habitação. A crise da falta de habitação que aflige
os setores mais pobres da sociedade brasileira impede que parcelas
significativas da população tenham acesso mínimo às condições de higiene,
conforto e segurança. Em função desta situação, o Estado brasileiro formulou
diversas soluções cujo objetivo manifesto era o de minimizar os problemas
associados à falta de habitação. No entanto, tais soluções tiveram um impacto
limitado ou, ainda pior, serviram como agentes catalisadores do agravamento da
escassez de moradias e contribuíram para o aumento da dificuldade de acesso a
serviços públicos urbanos.
As tentativas de intervenção realizadas pelo Estado brasileiro no setor
habitacional tiveram um papel centralizador, ainda que tenham sido apresentadas
como oportunidades de promover o crescimento económico e dinamizar o setor da
construção civil. A maioria destas intervenções teve como alvo os grandes
centros urbanos, onde a escassez de habitação era vista como um elemento que
ameaçava a estabilidade social. A partir da promulgação da Constituição Federal
de 1988, a questão habitacional foi descentralizada e passou a ser da
corresponsabilidade dos estados e municípios, que passaram a criar e a gerir os
seus próprios programas habitacionais. Como resultado desta mudança de ordem
constitucional, diversos programas para o setor habitacional foram
desenvolvidos fora da esfera federal. Após três décadas, a oferta de moradias
através de políticas públicas no âmbito estadual e municipal ainda é um tópico
que necessita de pesquisas que contribuam para um melhor entendimento dos seus
impactos sociais, não apenas no aspeto meramente quantitativo, mas,
principalmente, no que se refere aos aspetos mais diretamente ligados à
democratização da ocupação do espaço urbano.
Deste modo, este texto pretende analisar se as formas pelas quais as políticas
públicas habitacionais planeadas e executadas por governos municipais vêm
contribuindo para o processo de segregação socioespacial em cidades médias e
pequenas. A escolha deste nível de análise deve-se ao facto de que nas últimas
décadas o Brasil vem passando por um processo de redistribuição espacial da sua
população, com um paulatino abandono de áreas metropolitanas em direção às
cidades fora da sua área de abrangência. Para tanto, o foco deste estudo foi o
município de Campos dos Goytacazes, localizado na região norte Fluminense, onde
a prefeitura municipal vem construindo conjuntos habitacionais com o objetivo
de promover a desfavelização de regiões periféricas, especialmente as que se
localizam em áreas de interesse ecológico.
A SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL: ENTRE A PROXIMIDADE FÍSICA E A DISTÂNCIA SOCIAL
A complexa estrutura urbana criada através do advento da sociedade capitalista
industrial refletiu uma incapacidade sistémica de desenvolver formas de acesso
equânimes a todos os habitantes das cidades aos benefícios da vida urbana.
Engels (1985), ao analisar o surgimento e desenvolvimento da cidade industrial
capitalista, já apontava para um processo de diferenciação na ocupação do
espaço urbano, em que a população mais pobre era obrigada a viver nas piores
áreas das cidades. Engels argumentava ainda que as condições de acesso à
habitação e aos serviços públicos básicos eram oferecidas de forma insuficiente
face às necessidades existentes. Para Engels, o processo de segregação social
não ocorria de maneira fortuita, mas sim como um processo intencional através
do qual a localização dos bairros operários ocorria em áreas de pouco interesse
económico para a burguesia. Sob esta ótica, o desenvolvimento da cidade
capitalista industrial implicara um paulatino processo de aprofundamento das
tensões sociais, o que foi agravado por sucessivas crises económicas e pelos
intensos ciclos migratórios causados pelo fechamento das áreas rurais aos
camponeses.
Com o passar do tempo, os problemas associados à segregação socioespacial
dentro das cidades capitalistas ficaram evidentes, e ganharam mais espaço nos
debates académicos. No entanto, apesar de os primeiros estudos sobre a
segregação socioespacial terem sido direcionados para ampliar o entendimento da
dinâmica do processo de crescimento e adensamento populacional em grandes
centros urbanos, estes concentraram-se na avaliação dos parâmetros responsáveis
por uma aparente especialização funcional das áreas urbanas. Assim, passou a
predominar a ideia de que o ambiente urbano seria algo estático, pois a
distribuição populacional poderia ser analisada através de uma visão análoga à
do mundo biológico, não havendo necessidade de incluir outros fatores
explicativos como a estrutura de classe ou o papel de diferentes agentes (e.g.
Estado, agentes imobiliários) na modelagem do espaço (Gottdiener, 1997).
Os estudos vinculados a esta perspetiva passaram a compor o que posteriormente
ficou conhecido como a Escola de Chicago. Neste caso, a premissa era de que a
segregação socioespacial se daria a partir de uma diferenciação entre centro e
periferia, e esta visão marcou os estudos sobre a sua ocorrência em áreas
urbanas. Os primeiros modelos formulados por teóricos da Escola de Chicago que
davam conta da segregação socioespacial, como o de causação circular proposto
por Ernest Burguess, tiveram como base os trabalhos do geógrafo alemão Johann
Kohl (Corrêa, 2002). Burguess propunha um modelo em que as elites se deslocavam
para os espaços periféricos das cidades, deixando as áreas centrais
desvalorizadas para as camadas populares, e para os setores de serviços e
comércio. Já Homer Hoyt, embora não se assumindo como teórico da Escola de
Chicago deu continuidade às discussões sobre a organização interna das cidades
a partir da elaboração de um modelo mais sofisticado (o modelo setorial), e
Hoyt inovou ao considerar a variável renda no exame do crescimento urbano
através de grandes eixos. Para Vasconcelos (2006), o modelo proposto por Hoyt
rompeu com os modelos circulares de segregação ao propor que as elites
tenderiam a autossegregar-se através de um eixo de circulação dentro das
melhores áreas da cidade. Assim, dentro do modelo de Hoyt, os setores
elitizados estão cercados pelos locais habitados pelos setores médios da
população que, por sua vez, manteriam contacto com os setores mais pobres.
Ao longo do século XX surgiram outras explicações para a ocorrência da
segregação socioespacial nas cidades capitalistas. Para Castells (1983), o
processo de diferenciação na distribuição dos locais residenciais seguiria as
leis gerais da distribuição dos produtos existentes no sistema capitalista. Em
função disto, o agrupamento no interior das cidades seria definido pela função
social dos indivíduos dentro sistema, isto é, em função da renda, do status
profissional, do nível de instrução, e da filiação étnica (Castells, 1983 p.
249). Na visão de Castells, a segregação urbana seria definida pela ocorrência
de uma diferenciação física, que poderia ser alcançada de forma normativa ou
processos tácitos, que ditaria a ocupação do espaço urbano pelas diferentes
classes sociais. De forma similar, Villaça (2001) argumenta que o processo de
segregação urbana está fortemente atrelado à forma pela qual são construídas as
identidades de classe. Em função disto, as diferentes classes ou camadas
sociais tenderiam a concentrar-se cada vez mais em diferentes pontos do espaço
urbano. Neste sentido, os padrões de identificação intraclasse criariam uma
espécie de seletividade, em que as diferenças e laços de interdependência
contribuiriam para que os indivíduos considerassem até que ponto seria
desejável partilharem um mesmo espaço com indivíduos pertencentes a outras
classes sociais.
Assim, como resultado das opções feitas pelos detentores do capital é que
poderia ocorrer a concentração dentro de uma mesma área residencial de pessoas
que reúnam características semelhantes entre si (i.e. étnicas e/ou económicas),
o que por sua vez contribuiria para uma homogeneização seletiva de diferentes
porções do espaço urbano. Seguindo um viés explicativo ligeiramente distinto,
Harvey (2005) argumentou que a formação urbana da cidade capitalista é ditada
por elementos de caráter burocrático-administrativos, raciais e de género, mas
que também contribuem para a segregação espacial. Harvey sugeriu que isto se
daria porque sob a égide do capitalismo, existe um amplo leque de práticas de
classe que, em associação com a circulação do capital e a reprodução da classe
social, implicam a necessidade de controlar a força de trabalho, determinando
inclusive quais as áreas da cidade em que esta poderia habitar.
A FORMAÇÃO SEGREGADA DAS CIDADES BRASILEIRAS E SEUS IMPACTOS NA DISTRIBUIÇÃO DA
POPULAÇÃO
O processo de consolidação dos centros urbanos brasileiros foi realizado a
partir de uma herança colonial baseada numa forte hierarquia social, em que um
complexo sistema urbano era subjugado à preponderância do mundo rural, tanto na
vida política quanto na vida económica do país. Nesse sentido, Martine e
McGranahan (2010) afirmam que até à proclamação da República em 1889, as
cidades brasileiras não compunham uma rede urbana articulada, não passando de
pontos isolados no litoral que mantinham um contacto muito maior com o mundo
externo do que com cidades mais próximas. Esta situação mudou somente a partir
do impulso modernizante provocado pelo capitalismo emergente no final do século
XIX, quando as instituições políticas e económicas brasileiras sofreram
profundas transformações, e os centros urbanos passaram a representar um
elemento essencial para o desenvolvimento nacional (Martine e McGranahan,
2010).
Este conjunto de transformações não ocorreu de forma harmónica entre os
distintos grupos que compunham a sociedade brasileira, e em função disto o
ambiente urbano passou a ser palco de lutas em torno de projetos hegemónicos,
contrastando com o impulso modernizador que dinamizou os centros urbanos
brasileiros no início do século XX. A pobreza que antes sobrevivia nas áreas
rurais foi transferida para as áreas urbanas devido a intensos ciclos
migratórios. Villaça (2001) afirma que estes ciclos migratórios foram
responsáveis pela criação de dois tipos distintos de ocupações urbanas. Por um
lado, os membros das elites rurais que chegavam aos centros urbanos e
procuravam ocupar as áreas mais privilegiadas em termos de acesso a serviços
públicos, e por outro, a massa composta por migrantes rurais pobres e escravos
recém-libertados, que foi responsável pela criação dos bairros populares
suburbanos ou periféricos e também pela ocupação de cortiços nas regiões
centrais decadentes. A despeito destas tensões, o movimento populacional em
direção às cidades acarretou profundas transformações na sociedade brasileira,
que implicaram uma demanda cada vez maior de políticas urbanas. Entretanto, as
primeiras intervenções urbanísticas tiveram um caráter muito mais estético do
que ordenador do espaço, em que a intenção subliminar era deslocar os moradores
pobres que habitavam as áreas centrais para regiões mais periféricas das
cidades em expansão.
O avanço da industrialização tardia foi responsável por um modo de urbanização
caracterizado por um rápido crescimento das áreas periféricas na maioria dos
grandes centros urbanos, a partir de um intenso processo de êxodo rural
ocorrido no início da década de 60 do século XX. O intenso crescimento das
áreas urbanas no Brasil refletiu uma superação da dependência económica e da
hegemonia política das suas elites agrárias, devido a um maior dinamismo do
setor industrial. Além disso, dado que esta transformação teve lugar num tempo
relativamente curto, ocorreram mudanças drásticas nas densidades demográficas.
Este processo de adensamento urbano impôs ao Brasil uma nova realidade
sociopolítica, visto que o mesmo foi realizado a partir de um massivo emprego
de mão-de-obra barata pelo processo de industrialização. Esta massa de
trabalhadores desqualificados passou a ocupar áreas periféricas desprovidas de
infraestruturas urbana, agindo muitas das vezes como se fossem desbravadores de
regiões marcadas pela precariedade.
Em pouco mais de cinco décadas o Brasil deixou de ser um país rural, passando a
ser predominantemente urbano, em função da diminuição da população rural, de
63,2% em 1950 para 18,8% no ano 2000. O impacto deste crescimento vertiginoso
da área urbana acarretou uma série de problemas que vão desde a incapacidade
das ações governamentais em promover um ambiente urbano capaz de agregar os
diferentes segmentos sociais, até ao agravamento dos padrões de distanciamento
socioespacial entre ricos e pobres.
Lago (2000 e 2001) aponta que a crise económica brasileira nas décadas de 70 e
80 gerou uma grave crise urbana, a qual contribuiu para o aumento da
fragmentação social no tecido urbano, cuja expressão mais visível foi o
acirramento dos padrões de diferenciação socioespacial. Este padrão fragmentado
e excludente, imposto por esta crise, acabou por ter outra manifestação que foi
a construção dos chamados enclaves desconectados da vida urbana local.
Segundo Lago, estes agrupamentos materializam-se no interior das cidades
brasileiras na forma de ilhas que não mantêm nenhum tipo de cooperação ou
identificação com as áreas pobres que existem no seu entorno. Uma das
consequências da formação destes enclaves foi a ocorrência de uma
autossegregação das classes médias e altas que, por sua vez, impuseram uma
segregação compulsória às camadas pobres, que passaram a ser caracterizadas
como sendo formadas por indivíduos disfuncionais e agentes portadores de
grandes riscos para a manutenção da ordem urbana.
Neste sentido, Ribeiro (2004, p. 31) considera que a reconfiguração da
sociedade salarial e o consequente aumento do distanciamento social entre ricos
e pobres foi responsável pela instalação do clima de insegurança e medo
reinantes dentro das grandes cidades brasileiras que serviram como
justificativas para a criação de comportamentos defensivos e individualistas.
No entanto, este mesmo autor postula que apesar de as altas classes terem
progressivamente abandonado a vida urbana elas continuam no centro decisório da
formulação de políticas urbanas, contribuindo assim para o agravamento dos
padrões de segregação socioespacial. Isto manifestou-se diretamente nos
esforços realizados para que fosse permitida a criação de áreas exclusivas
habitadas pelos ricos, que ficaram conhecidas como enclaves fortificados
(Caldeira, 1997). Além disso, Ribeiro afirma que o caráter mais marcante da
segregação urbana contemporânea não está no distanciamento físico (ou, tão
pouco, nos empecilhos ao acesso de parte da população a determinados
equipamento urbanos), mas, principalmente, na institucionalização da
inferioridade social, cuja consequência seria a imobilidade dos segmentos mais
pobres da população nas áreas mais precárias das cidades. De forma
complementar, Ribeiro e Santos Junior (2003) sugerem1 que as formas de inserção
das populações mais pobres no processo democrático têmimplicações diretas na
sua capacidade de criar condicionantes morais baseados em direitos civis,
políticos e sociais2 que permitam uma participação ampliada (e evidentemente
mais autónoma) na defesa dos seus próprios interesses. De forma oposta, a
predominância de condições de distanciamento e isolamento físico e social
associadas a condições de extrema pobreza (i.e. a falta de serviços públicos
básicos, inserção periférica na sociedade industrial) não permitiu a criação da
autonomia necessária para que os cidadãos façam escolhas morais e criem laços
de solidariedade.
A POLÍTICA HABITACIONAL FRAGMENTADA: A FALTA DE SOLUÇÃO PARA UM DILEMA
PERSISTENTE
A evolução recente das cidades brasileiras expôs a incapacidade do Estado e do
seu aparelho burocrático em desenvolver uma infraestrutura urbana capaz de
suportar os intensos fluxos migratórios ocorridos desde a segunda metade do
século XX. Neste sentido, é preciso enfatizar que as primeiras grandes
intervenções feitas no espaço urbano brasileiro tiveram um caráter fortemente
estético, e que o seu objetivo central era integrar os grandes centros urbanos
nas conceções da cidade moderna (Sevcenko, 2003). A negligência em relação às
necessidades que estavam a ser criadas pela transição de uma economia
fortemente agrária para outra de base industrial também contribuiu para agravar
a crise urbana existente nas principais cidades brasileiras. Entretanto, ainda
que de forma tardia, o Estado brasileiro procurou responder a esta realidade
com a criação de instituições como a Fundação da Casa Popular (FCP) e o Banco
Nacional de Habitação (BNH), cuja abrangência nacional refletiu uma tentativa
de dar uma resposta geral ao problema do défice habitacional. Contudo, tanto no
caso da FCP como do BNH, o que ocorreu foi a vinculação das políticas
habitacionais às necessidades de desenvolvimento económico do Brasil, já que os
investimentos diretos no setor de construção civil tinham como objetivo
dinamizar a economia a partir de uma forte e sustentável geração de empregos.
Em função disto, o Estado tendeu a privilegiar o crescimento económico e o
desenvolvimento do setor da construção civil em detrimento de objetivos mais
tangíveis, mas igualmente estratégicos, relacionados com a democratização da
ocupação do solo urbano.
As políticas emanadas pela FCP foram pautadas principalmente pelo
direcionamento dos possíveis ganhos políticos da base aliada ao governo
federal, e não pelas necessidades objetivas dos que necessitavam de ter acesso
à habitação de qualidade. Deste modo, as ações realizadas pela FCP foram
paulatinamente sendo desacreditadas, visto que contribuíram para a construção
de um número reduzido de unidades habitacionais. Além disso, o acesso a estas
unidades foi dificultado pelas restrições burocráticas impostas no processo de
inscrição dos potenciais beneficiários (Azevedo e Andrade, 1982). Mesmo com as
mudanças realizadas nas políticas habitacionais com o regime militar de 1964
(cujo símbolo maior foi a criação do BNH), os pontos de estrangulamento
continuaram sendo os mesmos de antes, incluindo as exigências burocráticas
rígidas e a cobrança de valores elevados pelos financiamentos das habitações. A
combinação destes dois fatores provocou o desinteresse das classes mais pobres
em relação ao acesso às linhas de financiamento para a habitação do governo
federal. Para responder a este desinteresse, o governo federal passou então a
focar as suas ações sobre a classe média, o que implicou uma inevitável
elitização dos programas de habitação popular.
Durante a década de 1970, o reconhecimento de que ocorrera um processo de
elitização das políticas habitacionais fez com que o governo federal realizasse
uma tentativa de reaproximação às classes mais pobres através da criação das
cooperativas habitacionais (COHAB). Tanto Valladares (1981) como Maricato
(1987) argumentam que com a criação das COHAB, a construção de unidades de
habitação popular durante este período tomou a forma de conjuntos
habitacionais. No entanto, o que era para ser uma solução, na prática serviu
para agravar as dificuldades já existentes no campo da habitação popular.
Maricato (1987) afirma que apesar da construção de habitações urbanas requerer
a execução de obras complementares, a prática predominante na construção de
conjuntos habitacionais do BNH e das COHAB era a de construir unidades
residenciais em áreas longínquas, normalmente desprovidas da necessária
infraestrutura urbana. Além disso, Singer (1982) argumenta que apesar de não
terem sido socialmente abrangentes, tais políticas habitacionais conseguiram
ter um impacto negativo na já fragilizada estrutura urbana brasileira. Isto
teria ocorrido de forma indireta, na medida em que a intervenção do Estado, ao
subsidiar a reprodução da força de trabalho através da execução de programas
habitacionais, fez com que houvesse um aumento da procura de espaço, sem que a
oferta de serviços urbanos crescesse na mesma proporção. Deste modo, o
crescimento da procura fez com que o preço do solo urbano aumentasse nos locais
servidos por serviços públicos, impondo ainda mais restrições ao acesso da
população mais pobre.
Uma das principais consequências da crise económica da década de 80 no campo
social foi o completo desmantelamento dos programas federais de habitação
popular (Maricato, 1987). Em 1986, com a extinção do BNH, estas políticas que
eram fortemente centralizadas na forma de execução, mas segmentadas no tocante
à captação de recursos, financiamento, construção e comercialização das
moradias, foram pulverizadas entre diversos órgãos e ministérios3, que se
revezavam na responsabilidade de gerir o défice habitacional. Esta situação
foi agravada ao longo da década de 1990, que foi marcada por um forte ajuste
fiscal derivado do alinhamento do Estado brasileiro com as diretrizes da
ideologia neoliberal. Em função deste alinhamento houve uma ausência quase
total de programas habitacionais de âmbito federal, enquanto eventuais
parcerias com estados e municípios ocorreram apenas nos casos em que estes
poderiam oferecer contrapartidas financeiras. Assim, as poucas realizações
habitacionais que ocorreram durante este período ficaram circunscritas àqueles
municípios que possuíam maior capacidade fiscal, o que ocasionou um agravamento
da situação habitacional aos que não conseguiam cumprir as exigências fiscais e
burocráticas impostas pelo governo federal.
É importante notar que esta situação ia na direção contrária ao estabelecido
pela Constituição de 1988, em que a União, os estados e os municípios passaram
a ser corresponsáveis na gestão das políticas habitacionais, o que deveria ter
implicado um amplo processo de criação de parcerias visando a execução de
programas habitacionais. Cardoso (2006) afirma que em função das reformas
neoliberais, a aplicação das determinações legais da Constituição de 1988
acabou por se transformar num modelo de descentralização por ausência.
Segundo esse modelo, as políticas de descentralização geridas pelo governo
federal resultaram num ambiente de indefinição e ambiguidade no que tange às
atribuições e competência dos distintos entes federativos. Como resultado
disto, apenas os municípios pressionados por movimentos sociais iniciaram o
desenvolvimento de ações no campo da habitação popular.
A POLÍTICA HABITACIONAL EM CAMPOS DOS GOYTACAZES: UMA COMPONENTE MODELADORA DO
ESPAÇO URBANO
Apesar de o processo de descentralização das políticas sociais se ter iniciado
a partir da promulgação da Constituição Federal de 1988, e de o mesmo ter
aberto caminho para diversas experiências no campo das políticas habitacionais,
os governos municipais foram pouco recetivos a pô-las em prática, pelo menos
durante os primeiros anos de vigência da nova Constituição. Cardoso (2006)
explicita que em combinação com o vácuo criado pela extinção do BNH em 1986, e
consequente pulverização das políticas habitacionais em diversos órgãos
federais, os movimentos sociais passaram a pressionar os governos locais para
que criassem as suas próprias políticas habitacionais. Em função disto, algumas
experiências de políticas habitacionais de caráter municipal foram colocadas em
prática. Em certos casos, houve avanços na forma de gestão, na adoção de novos
materiais, e na forma de construção. Em teoria, estas inovações visavam a
diminuição de despesas com as obras e a integração da população beneficiária no
processo de governança local.
Em Campos dos Goytacazes (figura 1), município localizado no Estado do Rio de
Janeiro, que possui aproximadamente 428 mil habitantes (85% vivendo na sua área
urbana) e que registou em 2005 um défice habitacional de 11 511 casas (FJP,
2005), esta realidade não foi diferente. As primeiras tentativas de intervenção
do poder público municipal na questão habitacional ocorreram já no final da
década de 1980, seguindo o processo de descentralização definido pela
Constituição de 1988. Entretanto, Póvoa (2002) aponta que estas intervenções
tiveram uma ação bastante reduzida, pois limitavam-se a ações pontuais e de
emergência em moradias precárias existentes nas áreas periféricas. Esta atuação
limitada deveu-se em grande parte à realidade orçamental do município, que
passava por uma forte escassez de recursos, situação que à época assolava boa
parte dos municípios brasileiros de porte médio. Assim, entre o final da década
de 80 e ao longo da década de 90, a atuação do governo municipal ficou limitada
à construção de 300 unidades habitacionais, e a um número insignificante de
intervenções de emergência para remover moradias localizadas em áreas de risco.
FIGURA 1 - Localização do município de Campos dos Goytacazes, Estado do Rio de
Janeiro.
No entanto, no final da década de 1990, ocorreu uma transformação radical na
realidade orçamental de Campos dos Goytacazes em função da aprovação da
chamada Lei do Petróleo.4 A Lei do Petróleo implicou a transferência, na forma
de royalties, de um alto volume de recursos referentes à exploração do petróleo
para a bacia de Campos. Estes recursos deram capacidade ao governo municipal
para executar programas de assistência social, sem que houvesse a necessidade
de firmar parcerias com outras esferas de governo. Atualmente, o município de
Campos possui um orçamento anual de 1,4 biliões de reais, sendo 90% deste valor
referentes a royalties e a participações especiais da exploração de petróleo.
Este tipo de aporte financeiro deixou o governo municipal numa situação
bastante confortável no que tange a investimentos em diversos setores
económicos e sociais do município. Apesar disso, até 2002 foram mantidas
parcerias entre o município de Campos e a Companhia Estadual de Habitação do
Estado do Rio de Janeiro (CEHAB-RJ), que resultaram na construção de 700
unidades habitacionais através do Programa de Moradia a 1,00 Real.5
A inauguração do Conjunto Habitacional da Chatuba, em 2005, marcou uma nova
fase de investimentos pelo governo municipal, dado que as ações realizadas
foram justificadas por um suposto programa de desfavelização focado na remoção
de famílias pobres de áreas de risco. A partir da construção do conjunto da
Chatuba, o governo municipal tomou para si a responsabilidade de executar, com
recursos próprios, um ambicioso programa habitacional. A questão habitacional
passou a ser o foco das políticas de assistência social em Campos, canalizando
aproximadamente um montante anual de R$ 20 milhões. O Programa Municipal de
Habitação executado pela PMCG diferencia-se das experiências realizadas até a
década de 80 por não utilizar a capacidade de endividamento das famílias como
um critério determinante na escolha dos potenciais beneficiários. No caso de
Campos, as habitações são entregues gratuitamente aos beneficiários em regime
de comodato, com a expectativa de posse definitiva após cinco anos de efetiva
ocupação do imóvel. Em função disto, a ação dos programas habitacionais
beneficiaria os setores mais pobres da população, tidos como aqueles que não
possuem condições de arcar, por menor que fosse o valor, com as prestações
mensais relacionadas com a compra de casa própria. Assim, as famílias estão
formalmente impedidas de vender, alugar, ou fazer outro tipo de utilização que
não seja para fins habitacionais.
Uma das principais polémicas acerca dos programas municipais de habitação
refere-se ao custo das casas, o que é agravado pela inexistência de documentos
oficiais garantindo a devida transparência dos gastos realizados. No entanto,
foi possível determinar que a construção do Conjunto Habitacional do Matadouro,
única experiência de construção de habitações em forma de blocos de
apartamentos, teve o custo médio de R$ 94000,00 por unidade (Oliveira, 2009).
O PROCESSO DE INSERÇÃO DOS CONJUNTOS HABITACIONAIS CONSTRUÍDOS PELA PREFEITURA
NO ESPAÇO URBANO DE CAMPOS
Um primeiro aspeto que merece ser ressaltado em relação à formação do espaço
urbano de Campos é que sua evolução está diretamente ligada à influência
política e poder económico do setor sucroalcooleiro. É consensual entre os
estudiosos locais que os diferentes ciclos que o setor atravessou desde meados
do século XVIII foram determinantes na evolução do ambiente urbano campista. A
ligação com o setor sucroalcooleiro também explica o rápido crescimento das
regiões periféricas a partir da década de 1970, quando o setor entrou num
processo de decadência. O fechamento de dezenas de fábricas de açúcar e álcool
implicou numa forte corrente migratória do campo para as cidades, com a maioria
dos migrantes integrando-se nas periferias dos núcleos urbanos. Estes novos
espaços de ocupação estavam localizados em áreas ambientalmente sensíveis,
dando origem a um cordão de favelas no entorno da área urbana, principalmente
na sua zona norte.
Um aspeto a destacar acerca dos locais onde se materializaram os investimentos
públicos municipais na área da habitação popular é que o movimento de expansão
ocorreu em direção às áreas que historicamente eram ocupadas pela população
mais pobre6 (figura 2).
FIGURA 2 - Localização dos conjuntos de habitação popular na área urbana de
Campos, em destaque (assinalados com uma estrela) os conjuntos estudados.
Uma avaliação preliminar sugere que a localização dos conjuntos habitacionais
construídos pela prefeitura de Campos pode ser explicada pela sua proximidade
em relação às áreas de risco de onde as famílias beneficiárias foram
removidas. Deste modo, a construção dos conjuntos teve dois grandes impactos
sobre estas áreas: 1) embelezamento estético, já que com a remoção das favelas
anteriormente existentes, estes locais tornaram-se mais homogéneos,
diminuindo também o incómodo da pobreza visível7, e 2) melhoria da
infraestrutura urbana, na medida em que os investimentos feitos pelo governo
municipal também incluíram a construção de sistemas de coleta de esgotos, rede
de águas pluviais e pavimentação asfáltica. Portanto, as áreas onde foram
construídos os conjuntos de habitação popular, mesmo sendo áreas periféricas do
município, passaram por uma notória valorização. Entretanto, é importante notar
que as áreas onde se deu a construção já vinham sofrendo um processo de
valorização fundiária. Assim sendo, a disposição dos conjuntos dentro da malha
urbana de Campos poderá ter efeitos que irão além dos enunciados no setor
habitacional, transformando o estado local num poderoso agente modelador do
espaço urbano.
Este estudo utilizou como base empírica, os dados obtidos por uma amostragem
realizada nos 3 maiores conjuntos de habitação popular construídos com recursos
da PMCG. Esta amostragem pretendia obter parâmetros que evidenciassem a
realidade vivenciada pelos moradores em períodos distintos de ocupação destes
conjuntos. Os beneficiários mais antigos começaram a ocupar as casas no ano de
2005, e os mais recentes em 2008. Esta distinção temporal contribuiu para a
identificação dos problemas que afligiram os moradores nos diferentes períodos
de ocupação, bem como para mapear os que persistiram e os que foram sendo
superados. Para tal, foram aplicados 119 questionários8 divididos entre os
três conjuntos que serviram de base para este estudo: a Residencial Oswaldo
Gregório (conhecido como Chatuba); a Residencial Matadouro (conhecido como
Portelinha), e a Residencial dos Nogueiras (conhecido como HGG).
No que se refere à configuração interna das moradias, apenas no conjunto da
Chatuba existem diferentes tamanhos de habitação, com unidades variando entre 1
e 3 quartos, e nos demais conjuntos todas as habitações possuem 3 quartos.9 Do
ponto de vista arquitetónico, a configuração das casas e fachadas é bastante
uniforme, diferenciando-se pela cor das suas fachadas. Apesar de a oferta de
bens de uso coletivo não ter ficado esquecida, a manutenção destes equipamentos
foi negligenciada por parte do poder público, o que tornou inviável a sua
utilização ao longo do tempo por parte dos moradores. A distância até a região
central da cidade é relativamente curta, mas a deslocação faz-se com
dificuldade visto que nos três conjuntos estudados havia apenas uma carreira de
autocarros para atender os moradores, não tendo sido feito qualquer
reordenamento dos transportes.
TABELA 1 - Composição da amostra dos conjuntos habitacionais analisados
CARACTERÍSTICAS FAMILIARES
A composição da renda e o nível de empregabilidade são fatores determinantes
tanto para a manutenção familiar, como para a reprodução social. Deste modo, o
comportamento destas duas variáveis está relacionado com o nível de instrução
educacional de cada indivíduo. No presente caso, além de verificarmos o nível
de renda familiar dos moradores dos conjuntos, procurámos também traçar o
perfil ocupacional dos entrevistados a partir da identificação das suas
principais atividades profissionais (tabela 2).
TABELA 2 - Indicadores de renda e perfil ocupacional dos moradores
entrevistados nos conjuntos habitacionais.
A tendência para a concentração da maioria das famílias beneficiárias nas
faixas de renda mais baixas demonstra o direcionamento da ação da política
habitacional municipal em Campos dos Goytacazes. Além disso, a análise da
formação da renda demonstra que a entrega de unidades domiciliares não é
suficiente para a incorporação das mesmas nos setores formais da economia. Este
facto é evidenciado pela persistência de baixos níveis de renda no conjunto da
Chatuba, após cinco anos de ocupação. É interessante apontar que os moradores
sinalizaram como positivo o facto de morarem em condições físicas iguais (como
no caso do conjunto do HGG) ou mesmo superiores às habitações que ocupavam
anteriormente. Deste modo, o principal problema em relação às ações do poder
público municipal no campo habitacional é que estas têm estado desligadas de
políticas complementares voltadas para a geração de emprego e renda. Tais
políticas poderiam reverter o ciclo de pobreza existente. De facto, como a
maioria dos moradores adultos não possui emprego ou qualquer tipo de ocupação
formal de caráter estável, a situação financeira das famílias depende
fortemente de programas assistencialistas dos governos municipal e federal.10
As dificuldades de formação da renda foram agravadas pelo estabelecimento de
novas regras de controlo de zoonoses associadas à criação de animais
domésticos. Tais dificuldades tornaram-se evidentes pelo facto de muitos
moradores manterem animais (porcos, galinhas, bovinos e equídeos) nos locais
onde anteriormente habitavam, como forma de complementarem os seus rendimentos.
No entanto, este tipo de prática foi proibida pelo poder público municipal
dentro dos conjuntos habitacionais, sem que fossem oferecidas aos moradores
novas formas de complementarem as rendas. Em função disto ocorreu a tentativa
de estabelecimento de novas formas de atividade económica informal, cujo
objetivo era garantir uma renda mensal capaz de cobrir os custos básicos para a
sobrevivência familiar incluindo, por exemplo, o pagamento das contas de água,
luz e a aquisição de gás de cozinha.
A elevada taxa de desemprego e o baixo nível de renda existentes nos conjuntos
habitacionais imprimem a estes espaços mais do que a simples perspetiva da não
reprodução social deste segmento. O facto é que o nível de desemprego aprofunda
ainda mais o distanciamento deste segmento da população com a restante
coletividade urbana. Neste sentido, a política habitacional acaba por
contribuir para a quebra das identidades coletivas, deixando estes espaços em
condições vulneráveis para a atuação de agentes políticos facilitadores, os
quais se aproveitam da exacerbação da situação vivida pelos habitantes dos
conjuntos. Este facto tem influência direta na capacidade de a população agir
de maneira articulada em prol de interesses coletivos, pois a atuação de
facilitadores contribui para criar um processo de cooptação política em troca
de favores pontuais.
Para estimar o grau de autonomia política em face do poder público municipal
foi feito um esforço para obter informações que permitissem estimar o nível de
participação dos moradores dos conjuntos em organizações comunitárias. Neste
sentido, partimos da premissa de que o nível de participação em organizações da
sociedade civil é uma forma eficiente de estimar o engajamento da população em
ações de caráter coletivo, enquanto índice de reconhecimento coletivo e de
criação de sentimentos de pertença a um dado grupo ou comunidade. No entanto,
no caso dos conjuntos habitacionais estudados, o nível de participação e
atuação em associações de moradores é muito baixo, e apenas uma parcela
minoritária dos moradores indicava saber da existência ou atuação de qualquer
tipo de organização comunitária em cada um dos locais analisados.
Além disso, mesmo entre a parcela que indicava conhecer alguma organização
comunitária atuando no seu conjunto, o nível de participação individual era
baixo. A falta de participação política da população dos três conjuntos tem
reflexos diretos na capacidade de estas comunidades apresentarem queixas junto
ao poder público municipal. Em grande parte isto deve-se ao facto de no
município de Campos a representação comunitária ter passado por um amplo
processo de enfraquecimento a partir da ascensão do grupo político liderado
pelo ex-governador do Estado do Rio de Janeiro, e atualmente deputado federal,
Anthony Garotinho. Tal enfraquecimento está ligado às práticas de cooptação
política, especialmente de lideranças comunitárias, que poderiam contribuir
para a formação de uma identidade política autónoma.
FIGURA 3 - Nível de reconhecimento sobre a atuação de entidades de
representação dos moradores nos conjuntos. (%)
A PERSPETIVA DOS MORADORES ACERCA DE VIVER E PERMANECER NO INTERIOR DOS
CONJUNTOS
Um aspeto importante para a agregação da população dos conjuntos habitacionais
ao ambiente urbano em Campos corresponde às características físicas dos seus
domicílios. Mas, além disso, é necessário considerar os problemas ligados à
convivência nos conjuntos habitacionais. Estes elementos são importantes tanto
do ponto de vista interno como externo, visto que deles dependem o surgimento
de um sentimento de pertença e coesão social. Neste sentido, é importante notar
que há uma situação relativamente distinta nos conjuntos estudados (tabela 3).
TABELA 3 - Principais problemas relatados pelos moradores entrevistados no seu
quotidiano nos conjuntos.
A partir dos resultados do presente estudo é possível inferir que a
complexidade existente não foi antevista pelos formuladores da política de
habitação municipal, dado que alguns dos problemas importantes foram
ocasionados pela estrutura interna dos conjuntos e intensificados pelos modelos
de construção utilizados nos dois conjuntos mais recentes, isto é, os blocos de
apartamentos e as casas semi-geminadas. Por exemplo, a insatisfação com o tipo
de casa mostrou-se mais evidente nos moradores do conjunto do Matadouro, pois a
construção dos apartamentos teria criado novos problemas financeiros, como as
taxas de condomínio (e.g. limpeza e manutenção) e o uso coletivo da água. Neste
caso, ficou demonstrado que muitos moradores não podiam (ou não queriam) arcar
com o valor unitário das contas e com a convivência forçada com vizinhos, que
não possuiriam as mesmas práticas de convivência.
Esta situação sugere que os formuladores da política habitacional municipal não
consideraram o efeito que teriam os preços referentes à prestação dos serviços
públicos básicos sobre a sobrevivência das famílias, e que esta política tem
mostrado ser, na prática, uma estratégia de remoção de famílias das favelas e
de áreas de risco. Na sua condição pretérita, a maioria dos beneficiários,
mesmo tendo acesso precário a estes serviços, não pagava pelos mesmos. Assim, a
inserção das famílias num contexto formal de pagamento de taxas e tributos
acabou por ter um grande impacto no escasso orçamento familiar. Alguns relatos
obtidos durante a pesquisa de campo mostram que os moradores tiveram de se
abster do uso de aparelhos eletrodomésticos como o frigorífico e o chuveiro
elétrico por não terem condições para pagar as contas de energia elétrica.
Deste modo, é importante apontar que a disponibilidade de serviços públicos
pode ser um instrumento eficaz para a verificação do grau de integração da
população residente em determinadas áreas. Isto ocorre assim porque um dos
fatores determinantes das regiões periféricas não seria a distância física, mas
sim a ausência de condições mínimas de infraestrutura urbana.11 Neste sentido,
a comparação entre as condições anteriores e a situação atual das famílias no
que tange o acesso aos serviços públicos mais básicos aparece como uma forma
eficaz para se medirem as mudanças ocorridas na inserção socioespacial destas
famílias (tabela 4).
TABELA 4 - Comparação entre o acesso a serviços públicos básicos entre antes e
depois da residência nos conjuntos habitacionais da PMCG.
À primeira vista, a execução das políticas municipais de habitação em Campos
tem tido um relativo sucesso na democratização do acesso aos serviços mais
essenciais (i.e. água, energia e saneamento básico). No entanto, quando se
trata de serviços que possuem um caráter complementar, mas não menos
importantes, (e.g.telefonia pública, correspondência e área de lazer), existem
limitações e até decréscimo na oferta em comparação com a situação anterior.
Assim, é importante notar que aqueles serviços públicos da competência direta
do poder público local não tiveram um desempenho significativo na melhoria do
acesso oferecido aos moradores. Um caso expressivo desta situação deu-se em
relação ao funcionamento dos postos de saúde, cujo serviço foi profundamente
comprometido pela suspensão, pela então prefeita Rosinha Garotinho, do Programa
de Saúde da Família (PSF).
Finalmente, é importante frisar que foi observado um paradoxo entre a avaliação
dos moradores segundo a qual vários aspetos melhoraram na sua vida após a
entrada nos conjuntos, e o estado de ânimo dominante, em que não há um
reconhecimento de que seria benéfico viver nestes espaços. Outro dado que
reforça tal paradoxo é o facto de 85,7% dos moradores que responderam aos
questionários não estarem dispostos a vender as habitações fornecidas pela
PMCG. Entretanto, a principal razão apresentada para não realizarem a venda
seria a inexistência de outro lugar para morarem, o que reforça a perspetiva de
que vivem sob um regime imposto pelo Estado.
OS CAMINHOS PARA AUMENTAR A EFETIVIDADE DOS PROGRAMAS: OUVIR OS POTENCIAIS
BENEFICIÁRIOS
Um elemento marcante da política municipal de habitação é a sua natureza top-
down, em que os mecanismos que ensejem a participação dos potenciais
beneficiários e das suas organizações representativas estão ausentes. Neste
sentido, valeria a pena analisar as opiniões e sugestões dos beneficiários
deste programa para aumentar, no futuro, a sua eficiência. A partir deste
elemento básico, os moradores foram inquiridos a apresentar sugestões aos
órgãos municipais envolvidos na execução do programa no tocante à construção de
novos conjuntos habitacionais (Tabela 5).
Tabela 5 - Aspetos que deveriam ser atentados pela política de HIS da PMCG,
segundo benificiários entrevistados
Um primeiro aspeto a destacar é que as respostas refletiram aspetos peculiares
a cada um dos conjuntos estudados, o que demonstra não apenas diferentes níveis
de apreensão da realidade, mas também as particularidades decorrentes de uma
forma desconexa de execução da política habitacional. Além disso, é importante
notar que no caso dos conjuntos da Chatuba e do HGG, a principal questão
incidiu sobre o nível de participação dos futuros beneficiários dos programas
de habitação na definição do formato (ou desenho arquitetónico) das unidades
que serão distribuídas. Este dado é importante no caso dos moradores da Chatuba
e do HGG porque os mesmos apontaram que as suas habitações anteriores se
adequavam melhor às necessidades das famílias, o que não foi levado em conta na
formulação dos projetos arquitetónicos da PMCG, de natureza uniforme, e sem
relação com a realidade objetiva das famílias.
Assim sendo, o facto de os moradores preferirem as suas habitações anteriores
às unidades oferecidas pelo poder público municipal, demonstra o valor da
autoconstrução. A casa anterior representava um símbolo de sucesso pessoal,
visto que através do empenho desenvolvido na sua construção a família alcançara
o sonho da casa própria. Diversos critérios subjetivos identificados não são
normalmente levados em consideração pelos formuladores das políticas municipais
de habitação. Ao desconsiderarem tais critérios, estes formuladores
contribuíram para a ocorrência de um processo de rejeição dos novos espaços por
parte dos beneficiários. Isto acabou por comprometer o sucesso da melhoria de
qualidade de vida dos habitantes mais pobres e da sua inserção nos processos
formais que ocorrem no interior das cidades. A criação de canais de
participação poderia ser uma chave para que fossem resolvidas as eventuais
resistências às políticas habitacionais, ao dar uma maior legitimidade às ações
empreendidas pelo Estado no nível local. No entanto, foi verificado que os
órgãos da PMCG responsáveis pelas políticas habitacionais, desde o planeamento
até a execução das obras não contavam com um canal que permitisse a interação
(direta ou mesmo indireta) do seu corpo técnico com os futuros beneficiários.
Deste modo, ao colocar a interação com o público alvo num plano secundário, o
poder público municipal contribuiu para um processo de afastamento que
dificultou a criação de uma identidade comunitária.
Além disso, a ineficiência da política habitacional foi aprofundada pela
ausência de uma estratégia de acompanhamento dos beneficiários após a ocupação
dos imóveis (figura 4).
FIGURA 4 - Ocorrência de visitas de agentes do poder público local aos
moradores. (%)
A inexistência de mecanismos de acompanhamento dos beneficiários no período
pós-ocupação indica que a questão da habitação social é vista pelos seus
idealizadores como uma política social compensatória com um fim em si mesma.
Isto fica evidente quando se verifica a ausência de políticas públicas
complementares à da habitação social. A existência deste tipo de lacuna dentro
das políticas habitacionais acaba por ter o efeito perverso de tornar os seus
beneficiários mais dependentes de políticas assistencialistas, devido ao
aumento do custo de vida e da diminuição das fontes de renda informais que
existiam anteriormente.
CONCLUSÕES
A segregação urbana reflete uma dinâmica bastante complexa dentro da cidade
contemporânea, a qual se insere num processo de profunda inflexão nos
mecanismos de acumulação, sendo cada vez mais evidente a apropriação privada do
solo urbano por diferentes frações do capital. O resultado da mercantilização
das esferas da vida política e social é visível na coexistência de áreas com um
amplo acesso a serviços públicos, que operam em contraponto às áreas onde não
existem os serviços públicos de caráter mais elementar. Neste caso, a análise
do papel cumprido pelo Estado na ordenação do espaço, bem como na alocação de
investimentos é essencial para entendermos a construção de espaços
fragmentados, cujo aspeto dominante é a segregação socioespacial, especialmente
na criação de espaços de habitação para os setores mais pobres da população.
A análise da política habitacional engendrada pela PMCG evidencia uma ampla
gama de problemas sociais e estruturais a que as famílias moradoras dos
conjuntos habitacionais estão sujeitas. Este facto contribui para o
aprofundamento e o distanciamento social destas famílias. Entre os problemas
encontrados no interior destes conjuntos destacam-se a permanência de padrões
de emprego e renda similares aos padrões anteriores, o que se repercute numa
grande dependência das famílias beneficiárias em relação a programas
assistencialistas. Deste modo, mesmo com o relativo sucesso da política
habitacional e da existência de avanços no fornecimento de serviços públicos
essenciais, a inexistência de políticas complementares contribuiu para que os
ganhos relativos tivessem um impacto diminuto. O processo de transferência das
famílias beneficiárias para os conjuntos habitacionais colocou-as numa situação
em que o acesso a determinados bens ou serviços foi restringido pela sua
incapacidade de custear o valor da utilização de tais serviços.
Por outro lado, quanto ao nível de engajamento em organizações da sociedade
civil, verificamos que o baixo índice de envolvimento da população em
instituições de representação de bairro aprofunda as condições de
invisibilidade das suas queixas frente ao poder público municipal. A baixa
participação política não decorre de uma incapacidade de verificarem a
limitação da eficácia da política habitacional, mas, principalmente, da atuação
de elementos estruturais. Tais elementos incluem desde a inserção periférica no
mercado de trabalho e na estrutura política assistencialista dos grupos
políticos locais, alcançando elementos que contribuem para a desconstrução das
identidades coletivas e dos padrões de reconhecimento social. Quando tomados em
conjunto, estes elementos afetam diretamente a capacidade de os moradores
agirem coletivamente, tornando-os individualmente dependentes do fornecimento
de benefícios de cunho clientelista.
Finalmente, é importante destacar que o padrão rígido de conceção e execução da
política habitacional ao atuar de forma homogénea em todas as comunidades, não
se mostrou capaz de atender e respeitar as nuancesde cada comunidade removida.
Deste modo, o poder público local não se preparou para interiorizar um dos
grandes avanços propostos pelo processo de descentralização das políticas
sociais que ocorreu no Brasil após a promulgação da Constituição Federal de
1988, qual seja uma maior proximidade dos gestores de políticas sociais com o
público-alvo, ou seja, a população. Ao ignorar o potencial democratizador
trazido pelo processo de descentralização administrativa, o governo municipal
de Campos criou conjuntos habitacionais que operam como verdadeiras ilhas
sociais, onde os seus moradores ficam desprovidos da oportunidade de
efetivamente se inserirem na cidade, seja pelo emprego no mercado formal, ou
pelo acesso efetivo a serviços públicos essenciais. A combinação destes fatores
implica que os conjuntos habitacionais se tornem locus de segregação social, e
não de integração e democratização.