O contributo das ciências sociais para a análise de acidentes maiores: dois
modelos em confronto
ORGANIZAÇÕES DE ALTA FIABILIDADE: SUCESSO OU INSUCESSO PERANTE OS ACIDENTES?
As organizações existem, essencialmente, para desempenhar uma função social
útil. Este é o seu lado positivo e benéfico. Porém, se observarmos a perspetiva
de Max Weber (1947), torna-se claro que as organizações representam o arquétipo
da racionalização ou o tipo ideal da burocracia (características que as tornam
eficientes), mas, simultaneamente, podem também produzir resultados inesperados
(o designado paradoxo das consequências), cujos efeitos podem ainda
transformar-se num verdadeiro colete-de-forças, passível de oprimir e
aprisionar a humanidade. A visão pessimista do autor resulta, em parte, do
seguinte entendimento: a disciplina imposta pela burocracia limita fortemente a
liberdade individual, o que acaba por originar uma massa de subordinados e
uma despersonalização das relações sociais. Para Weber, é difícil conceber a
modernidade sem a infiltração da racionalização e da burocratização nas
organizações contemporâneas, mas este fenómeno gera no autor um sentimento de
desencantamento do mundo. Na mesma linha de pensamento, Merton (1936) refere
que as organizações produzem, inevitavelmente, consequências secundárias que
vão contra os seus objetivos pré-estabelecidos ou, por outras palavras, são
suscetíveis de produzir efeitosnão desejados. Segundo Vaughan (1999) este
pensamento constitui o pilar de qualquer tipo de considerações sobre o lado
negro das organizações.
Parece relativamente consensual que o mundo moderno se encontra repleto de
perigos e de riscos, nomeadamente os decorrentes das atuais tecnologias
complexas, tal como referem alguns cientistas sociais (Douglas e Wildavsky,
1982; Beck, 1992; Renn, 1992; Giddens, 1998). Segundo LaPorte e Consolini
(1991) a partir de meados do século XX emergiram determinadas tecnologias que
possibilitaram o aumento dos níveis produtivos, mas cujo poder destrutivo, em
caso de acidente, é catastrófico. É importante referir que o funcionamento das
organizações que utilizam este tipo de tecnologias é influenciado por múltiplos
fatores (internos e externos) que podem afetar a sua resiliência.1 A ocorrência
de acidentes maiores é a prova cabal da existência de erros, falhas, ou de
circunstâncias dificilmente antecipáveis. Esta ideia inscreve-se e dá sequência
às abordagens de Weber e Merton referidas anteriormente.
Os sistemas de alto-risco revelam sempre algumas vulnerabilidades e
imperfeições, por isso, como é que poderemos tentar contrariar a ocorrência
de situações inesperadas e ameaçadoras nas organizações? Um grupo de
investigadores, designado como teóricos da alta fiabilidade organizacional,
acredita que é possível manusear tecnologias complexas e perigosas sem originar
grandes acidentes.2 Considerando então a existência e utilização de tecnologias
de alto-risco pela humanidade, quais serão os principais argumentos, utilizados
pelos teóricos das organizações de alta fiabilidade (High Reliability
Organizations ' HRO), para afastar os medos públicos e privados acerca dos
eventuais cenários de acidentes maiores ou desastres de larga escala?
Contrariar estes receios parece, à partida, uma tarefa difícil.3 Sagan (1993)
interroga-se se serão este tipo de acidentes preveníveis? Ou se serão eles uma
inevitável consequência das tecnologias perigosas do mundo moderno? Se tivermos
em conta a complexidade de algumas organizações, em que podem ocorrer, em
certos casos, interações não-lineares, parece mera utopia colocar a hipótese de
que é possível prever e prevenir todos os tipos de acidentes. Apesar de raros,
os acidentes maiores parecem inevitáveis; este é um dos motivos pelo qual se
considera este tipo de eventos como algo normal (Perrow, 1999 [1984]). No
entanto, Roberts (1990, p. 173) afirma que as HRO encontraram diversas
estratégias para evitar os efeitos negativos provocados por algumas
características estruturais destes sistemas, nomeadamente, as interações
complexas e as ligações apertadas.
O debate sobre as designadas organizações de alta fiabilidade emerge a partir
da longa discussão acerca do acidente de Three Mile Island (TMI).4 Segundo os
teóricos das HRO, a fiabilidade pode ser entendida (em sentido metafórico) como
a capacidade para produzir repetidamente um resultado particular (neste caso a
não ocorrência de acidentes). Algumas pesquisas no âmbito das HRO pretendem
demonstrar que é possível e viável recorrer à utilização de tecnologias
complexas de alto-risco sem dar origem a acidentes maiores. A capacidade para
lidar com este tipo de tecnologias depende, em larga medida, de alguns
preceitos organizacionais, tais como designs organizacionais adequados,
técnicas de gestão designadas inteligentes, ampla promoção de atividades
livres de falhas, forte adaptação a situações limite ou de pico nas
atividades e troca de informação entre pares. LaPorte e Consolini (1991)
afirmam que as HRO não podem cometer erros graves, dado que os seus efeitos
podem dar origem a consequências desastrosas como um elevado número de mortos,
catástrofes ambientais suscetíveis de afetar várias gerações, ou ampla
destruição de infraestruturas (fundamentais para o funcionamento das
sociedades).
A discussão sobre os níveis de segurança em sistemas tecnológicos complexos é
um dos temas centrais da teoria das organizações de alta fiabilidade. Aliás,
este debate surge como um dos aspetos mais polémicos e controversos entre o
modelo da alta fiabilidade organizacional e a perspetiva dos acidentes
normais. Tendo ainda como pano de fundo as múltiplas divergências entre ambas
as correntes, se, por um lado, a abordagem teórica dos acidentes normais
poderia ser acusada de transmitir um discurso pessimista perante o controlo dos
níveis de segurança organizacional na utilização de tecnologias complexas, por
outro lado, a teoria HRO pode ser rotulada de preconizar um excessivo otimismo
acerca desta mesma questão. Outra das grandes diferenças entre as duas
correntes está na forma como explicam os acidentes; isto é, enquanto a
perspetiva dos acidentes normais aprofunda as causas dos acidentes (explicações
para estes eventos), a teoria HRO não explica o porquê destes acidentes
ocorrerem, mas antes, por que motivo ocorrem com tão pouca frequência. No
âmbito deste debate, LaPorte e Consolini (1991) publicaram um artigo com um
título bastante sugestivo (Working in practice but not in theory), onde são
apresentados alguns dos principais argumentos sobre como é possível lidar com
tecnologias perigosas muito complexas e, simultaneamente, manter níveis
elevados de performance (incluindo a área da segurança organizacional).
Os mentores teóricos das HRO defendem que determinados sistemas complexos ' a
aviação (comercial ou militar), a marinha, os sistemas ferroviários, os
controladores aéreos, as centrais nucleares, entre outros ' apenas
representariam um benefício para as sociedades caso a sua performance estivesse
próxima de um nível livre de falhas. As HRO dedicam particular atenção à
partilha de erros5, visto que as suas consequências podem ser tão grandes que
eles têm de ser evitados a qualquer preço. Existe uma forte aposta no
recrutamento, na socialização e na missão das HRO, tentando evitar que os
lapsos ou contingências individuais possam originar problemas. Os autores das
HRO sabem que os relatórios sobre a análise de acidentes maiores apontam
normalmente a intervenção humana como o catalisador de luxo para
desencadear o acidente (D'Oliveira, 2006), embora nós corroboremos a
perspetiva de que o erro humano deve ser, cada vez mais, entendido como uma
consequência da atividade organizacional e não tanto como a principal causa dos
acidentes (Reason, 1990; 1997).
Para além disso, as HRO deparam-se, por vezes, com a necessidade imperiosa de
ir até ao limite das suas capacidades (devido às necessidades sociais a que
tentam responder), e este cenário constitui-se, à partida, como um acréscimo
para os níveis de risco da organização, tornando-se num teste (perigoso) à sua
resiliência. Todavia, LaPorte e Consolini (1991, p. 29) reiteram que existe uma
fictícia contradição no desempenho das organizações de alta fiabilidade, em que
o limite das suas capacidades e/ou o reforço da produção (atingindo o seu pico
durante um determinado período) pode até coincidir como uma redução dos erros
na atividade, devido aos excelentes padrões de tomada de decisão organizacional
permitirem suportar este aparente paradoxo (aumento da produção versus redução
de erros ou falhas).6
FIABILIDADE NAS HRO
A tecnologia é normalmente indisciplinada e as suas caixas negras são, por
vezes, difíceis de decifrar (Wynne, 1988). Segundo a perspetiva de Paul Virilio
(1983), toda e qualquer tecnologia é suscetível de produzir acidentes
específicos. O autor refere os seguintes exemplos: A invenção dos navios deu
origem aos naufrágios; a criação da locomotiva possibilitou os
descarrilamentos; e a invenção dos aviões permitiu os desastres aéreos. Por
este motivo, a continuidade do desenvolvimento tecnológico implica que teremos
de pensar mais nas suas consequências, incluindo o tipo de acidentes que podem
provocar. Contudo, nas HRO a fiabilidade passa por articular de forma
meticulosa os seguintes quatro aspetos:
1. Consenso entre a performance das tarefas e os objetivos de segurança;
2. Promoção de uma forte cultura de responsabilidade na organização, onde os
trabalhadores são socializados e treinados para responder às situações de crise
e emergência (controlo hierárquico centralizado perante situações normais e
descentralizado em momentos de crise);
3. Utilização de formas sofisticadas de aprendizagem organizacional (incluindo
o relato imediato de erros, falhas ou lapsos) e sensibilidade nos julgamentos e
na gestão da organização;
4. Recurso extensivo a formas redundantes nos múltiplos componentes sistémicos,
bem como nas diversas atividades da organização.
Um dos grandes desafios que se coloca a quem tem de construir sistemas fiáveis
(em particular quando estão envolvidas tecnologias complexas perigosas) é
precisamente a sua idealização/construção, a qual ocorre, por vezes, a partir
de componentes ou partes com menor fiabilidade. Ou seja, será possível
construir sistemas fiáveis a partir de subsistemas menos fiáveis? Segundo os
teóricos das HRO a resposta é indubitavelmente afirmativa. Esta dificuldade
(tentar criar a perfeição através de partes imperfeitas) é normalmente
ultrapassada através da redundância (sistemas paralelos), isto é, mediante a
duplicação sistémica para a mesma função (em caso de falha da primeira unidade
atua a segunda). Deste modo, a redundância pode ser vista como um mecanismo
protetor perante a ocorrência de falhas. Porém, segundo Sagan (1993, p. 251)
temos algumas evidências históricas que demonstram a inadequação de tentar
assegurar a fiabilidade a partir da criação de mais e mais partes redundantes
nos sistemas. Aliás, Sagan (2004) refere ainda três aspetos em que a
redundância pode produzir menos (e não mais) fiabilidade dentro das
organizações:
1. Os dispositivos (de segurança) redundantes tornam os sistemas mais complexos
e podem produzir novos erros e falhas.
2. A colocação de novos dispositivos redundantes leva, tendencialmente, a que
exista uma menor atenção, vigilância, e responsabilidade por parte dos membros
da organização, dado que esta situação gera a sensação de que o sistema se
tornou mais seguro.
3. Por último, a redundância pode também ampliar a confiança das hierarquias
sobre a fiabilidade do sistema, e isto pode gerar maiores pressões sobre os
trabalhadores para aumentarem a produção; mas esta situação reduz, por vezes,
as condições de segurança.
Tal como já foi afirmado anteriormente, a redundância organizacional7 é uma das
principais características das HRO. Na perspetiva de LaPorte e Consolini
(1991) as HRO encontraram nos princípios da redundância um dos seus melhores
trunfos para obter desempenhos fiáveis (mesmo sendo operadas por seres humanos
suscetíveis de cometerem erros e/ou falhas ou contendo componentes menos
fiáveis). Estas organizações promovem a partilha dos seus erros e desvios, mas
ao contrário de outras organizações conseguem corrigir esses mesmos erros quase
de imediato. Isto só se torna possível, por exemplo, devido a uma vigilância
rigorosa e a uma sobreposição de tarefas e competências dos seus trabalhadores.
Eles são capazes de detetar e corrigir os erros dos seus pares, visto que a
cultura organizacional está assente na deteção de falhas, pois os mais pequenos
erros podem dar origem a acidentes de larga escala. Para além disso, os
trabalhadores mantêm um contacto direto (olhos-nos-olhos) uns com os outros
(visto que existe uma forte aposta, por parte da organização, no contacto
informal8 e aberto entre trabalhadores), permitindo uma fácil comunicação entre
todos os membros da organização. As HRO procuram que o conhecimento técnico dos
seus membros seja o mais completo possível.9 É por isso que dedicam particular
atenção às subtilezas comportamentais dos seus sistemas sociotécnicos, e
exercem uma forte vigilância sobre as armadilhas que podem estar por detrás de
algumas tomadas de decisão, visto que uma pequena falha ou uma ligeira dose de
indecisão (por exemplo, fruto de alguma incerteza10) podem causar efeitos
adversos. Naturalmente que os elevados níveis de segurança e fiabilidade nestas
organizações não se enquadram dentro de padrões económicos baratos, mas a
aceitabilidade social destas organizações depende, em parte, destas
características.
AS DIMENSÕES DA REDUNDÂNCIA ORGANIZACIONAL
Rosness etal. (2000) preconizam que a rápida recuperação nas situações de erro
ou falha se deve à redundância organizacional, que, por sua vez, tal como
demonstra a figura 1, depende de duas dimensões essenciais: as pré-condições
estruturais/instrumentais e as pré-condições culturais. A dimensão estrutural
está relacionada com a possibilidade de os trabalhadores observarem o trabalho
uns dos outros, corrigindo eventuais erros (mas sem que isto possa originar
atritos ou a perda de confiança mútua); está também assente na sobreposição de
tarefas, competências e responsabilidades. Algumas organizações constroem a sua
robustez estrutural e resiliência a partir da distribuição do poder de veto por
alguns dos seus membros, particularmente em situações onde a inação pode ser
mais segura do que a ação (Schulman, 1993). Outro aspeto relevante é a
qualidade e diversidade dos canais de comunicação neste tipo de organizações,
embora também exista uma forte aposta na comunicação informal entre os diversos
membros da organização (tal como é demonstrado na dimensão seguinte).
Figura 1 - As duas dimensões da redundância organizacional
A dimensão cultural da redundância organizacional está em grande parte
dependente da vontade e capacidade para a troca de informação entre todos os
colaboradores. Uma das formas de obter a informação pode passar por dedicar uma
atenção especial à avaliação dos feedbacksemitidos pelo próprio sistema. As HRO
promovem a troca de informação organizacional porque isso permite aos seus
trabalhadores reconsiderarem as suas próprias decisões ou ajudarem os seus
pares a reconsiderá-las, ou seja, isto possibilita uma rápida intervenção na
recuperação de falhas ou ações erradas. Normalmente os trabalhadores têm
iniciativa para identificar e melhorar as eventuais deficiências nos
procedimentos utilizados quer nas operações regulares, quer nas situações de
trabalho raras ou excecionais. Nas HRO, a dimensão cultural da redundância
organizacional promove também uma atitude responsável (não laxista) dos seus
colaboradores relativamente ao relato de erros, falhas ou outros sinais
anómalos encontrados no funcionamento do sistema, sem, no entanto, que isto se
torne contra-produtivo ao nível da autonomia individual e da necessária
confiança entre pares. Por último, as HRO conseguem, segundo os seus principais
teóricos, alterar e flexibilizar a sua estrutura hierárquica formal, em
situações de crise, transferindo a responsabilidade das decisões para quem tem
um verdadeiro conhecimento empírico dentro da organização. Autores como LaPorte
e Consolini (1991) acusam Perrow (1999 [1984]) de não ter dado atenção a este
aspeto quando concebeu o seu modelo dos acidentes normais.
A NOÇÃO DE MINDFULNESS
O debate sobre as características das HRO não ficou confinado aos anos
subsequentes ao acidente de Three Mile Island, visto que ainda nos dias de hoje
esta discussão se mantém viva.11 Recentemente foi introduzida a noção de
mindfulness12 para identificar uma das características mais proeminentes das
HRO. Os teóricos das HRO sabem que é impossível eliminar todas as falhas dentro
destas organizações, por isso existe uma profunda necessidade de gerar saberes
e conhecimentos para detetar atempadamente os erros e falhas (preferencialmente
logo após a sua ocorrência, ou sempre que possível antecipando-os antes da sua
efetivação). É por este motivo que Weick e Sutcliffe (2001) apresentaram a
ideia de mindfulness como algo equivalente a uma constante vigilância sobre o
funcionamento das organizações, de modo a que os seus membros possam intervir
rapidamente caso isso seja necessário. Assim, a noção de mindfulness está
relacionada com a deteção e contenção de eventos inesperados e/ou sem
precedentes, passíveis de surgirem em qualquer lugar da organização e
suscetíveis de causar efeitos não desejados (particularmente acidentes).
Vejamos, através da tabela 1, quais os principais elementos da noção de
mindfulness preconizados pelos autores.
Tabela 1 - Descrição dos principais elementos da noção de mindfulness
Segundo Weick e Sutcliffe (2001) a ideia de mindfulness pode ser vista como uma
das características universais das HRO, dado que esta conceção tem subjacente o
reforço da sensibilização para antecipar e detetar situações não previstas.
Porém, uma das críticas apontadas a esta noção relaciona-se com a reduzida
importância que os seus autores atribuíram às características específicas da
tecnologia utilizada por cada organização, tendo em conta que este é um aspeto
decisivo para se poder alcançar a fiabilidade organizacional, tal como é
sugerido por Perrow (1999 [1984]) na teoria dos acidentes normais. Para além
disso, é dado pouco destaque ao facto de os trabalhadores poderem ter visões e
comportamentos distintos perante os perigos, os riscos e as ameaças, tal como
observou Granjo (2004) na sua pesquisa sobre Sines. Assim, a perspetiva de
Weick e Sutcliffe (2001), parece esquecer estes pressupostos, como se pode ver
pela esquematização da figura 2 sobre a fiabilidade organizacional.
Figura 2 - Infraestrutura da alta fiabilidade organizacional
Por mais fiável que um sistema se apresente, isto não significa a total
ausência de falhas. Mas segundo Weick, Stucliffe e Obstfeld (1999) o processo
de mindfulness tenta suprimir uma certa tendência para a inércia, tendo em
conta que esta infraestrutura cognitiva permite, simultaneamente, uma
aprendizagem adaptativa e uma performance fiável. Este processo permite reduzir
os pontos cegos dentro da organização, que por sua vez iriam possibilitar a
acumulação de falhas (passíveis de resultar em catástrofe). Subjacente à
conceção de mindfulness está o intercâmbio de informação entre os membros da
organização, onde a troca de ideias é um aspeto valorizado, ou, recorrendo às
palavras de Westrum (1993, p. 405) os trabalhadores têm licença para
pensar.13 Em resumo, a capacidade de mindfulness permite, alegadamente, a
projeção, a descoberta e a correção de eventos inesperados passíveis de
originar acidentes maiores.
A TEORIA DOS ACIDENTES NORMAIS
Na perspetiva de Charles Perrow (1991), as organizações atuais dominam uma
parte significativa do funcionamento das sociedades contemporâneas, visto que
absorveram diversos campos importantes das interações sociais. Para o autor
vivemos numa era em que reina o imperialismo organizacional. Entre muitos
outros aspetos, a teoria social sobre as organizações ajuda-nos a compreender
como é que as estratégias organizacionais podem contribuir ou influenciar a
ocorrência de acidentes, particularmente dos acidentes de grandes dimensões. Os
acidentes maiores, designados na teoria de Perrow como acidentes sistémicos ou
acidentes normais,14 converteram-se num problema de difícil resolução para as
sociedades atuais. A espetacularidade de alguns acidentes com estas
características transformaram-nos em eventos fortemente mediatizados, dando
origem a uma amplificação social dos riscos tecnológicos produzidos pelo homem.
Segundo Perrow (1999 [1984]), alguns sistemas ou organizações, designados de
alto-risco (por incorporarem, por exemplo, sistemas tecnológicos complexos),
possuem determinadas propriedades estruturais que tornam certos tipos de
acidentes virtualmente impossíveis de prever e evitar. Assim, no âmbito dos
sistemas de interações complexas15 os acidentes constituem-se como eventos
normais. Um dos aspetos que caracteriza os acidentes normais é a sua
incompreensibilidade, devido à interação inesperada de múltiplas falhas.
A teoria dos acidentes normais16 pode ser vista como uma visão contrária ou
concorrente ao modelo apresentado anteriormente. Porém, ambas as perspetivas
emergem do amplo debate que se seguiu ao acidente de Three Mile Island. Segundo
Perrow, as organizações que possuem sistemas tecnológicos complexos já provaram
que não dispõem de condições para eliminar todos os acidentes maiores. A
ocorrência de alguns acidentes de grandes dimensões e com forte impacto social,
tais como Flixborough (Inglaterra, 1974), Seveso (Itália, 1976), Three Mile
Island (Estados Unidos, 1979), Bhopal (Índia, 1984), Chernobyl (Ucrânia,
1986), Piper Alfa (Reino Unido, 1988) ou Avianca (Estados Unidos, 1990),
vieram suscitar uma certa desconfiança pública em relação a estes sistemas. É
com alguma dose de ironia que Perrow profetiza boas e más notícias sobre a
questão dos acidentes. As boas notícias são as seguintes: se nós conseguirmos
conhecer melhor a ampla natureza dos riscos organizacionais, por exemplo,
através da investigação de acidentes, é possível que se consigam reduzir ou
eliminar alguns tipos de perigos; embora o autor revele bastante cepticismo
acerca da efetiva aprendizagem organizacional perante este tipo de acidentes.17
As más notícias vaticinam que acidentes com estas características irão voltar a
acontecer no futuro.
Na ótica de Perrow (1999 [1984], p. 19), os acidentes sistémicos envolvem, por
vezes, alguns mistérios. A conceção estrutural das organizações de alto-risco
foram geradas a partir de designs tão complicados que se torna impossível
antecipar todas as interações entre possíveis falhas. Os dois fatores mais
importantes para a produção de acidentes normais são a high complexity e o
tight coupling. O primeiro fator está relacionado com a elevada complexidade do
sistema, o qual gera potencial suficiente para ocorrerem interações
imprevisíveis, enquanto o segundo está relacionado com as ligações apertadas
(malha estreitaou acoplamento forte) entre os diversos componentes do sistema.
Esta apertadainterconetividade estrutural do próprio sistema permite ou
facilita a rápida e incontrolada propagação de eventos indesejados, em que os
componentes que falharam dificilmente podem ser desligados ou isolados dos
restantes, devido às características internas do próprio sistema. No entanto, a
observação quer do tipo de propriedades internas (interações e ligações), quer
da estrutura organizacional de controlo (centralizado versus descentralizado),
podem fornecer dados relevantes para as análises de acidentes. Para Perrow
(1999 [1984]), as organizações que simultaneamente apresentam interações
complexas e ligações apertadas podem tornar-se um forte dilema para os seus
gestores (v. tabela 2), devido à necessidade de utilizar estruturas
centralizadas para umas situações e descentralizadas para outras.
Tabela 2 - Sistemas de gestão e controlo organizacional
É referido por Perrow (1999 [1984]) que os sistemas com interações complexas
apenas podem ser efetivamente controlados através de uma estrutura
organizacional descentralizada. A elevada interatividade dentro dos sistemas
complexos dá origem a diversas tarefas não rotineiras, dificilmente
programáveis ou estandardizáveis. Pelo contrário, os sistemas com ligações
apertadas devem ser controlados internamente a partir de uma estrutura
organizacional centralizada. Uma falha ou perturbação numa organização com
estas características pode propagar-se rapidamente por todo o sistema. Assim,
é necessário ter uma estrutura de controlo organizacional centralizada para
que, em caso de falha, se possa atuar de forma rápida, visto que as estruturas
de controlo descentralizado são passíveis de gerar alguns conflitos de opinião
(por sua vez incompatíveis com a necessidade de uma atuação rápida). Em resumo,
um dos grandes dilemas na gestão das organizações que apresentam conjuntamente
as características de interações complexas e de ligações apertadas é não
poderem ter, em simultâneo, processos decisórios centralizados e
descentralizados. Este é um dos motivos pelo qual o autor indica que os
sistemas com estas características deveriam ser modificados ou, em certos
casos, abandonados.
A obra de Perrow (1999 [1984]) sugere a distinção entre os acidentes sistémicos
e os eventos menores ou pequenos acidentes. Numa perspetiva com alguns aspetos
semelhantes, Reason (1997) também distingue os acidentes individuais dos
acidentes organizacionais.18 Os eventos menores, preceituados por Perrow, não
são mais do que as designadas falhas nos componentes que possibilitam a
ocorrência de acidentes ligeiros. Quando os eventos menores são provocados pela
falha de um dos componentes do sistema19 eles não traduzem, normalmente,
nenhuma interação inesperada e, regra geral, podem até ser detetados
antecipadamente, como por exemplo, através das metodologias de análise de
riscos. Estas falhas, incidentes ou pequenos acidentes não constituem
geralmente motivo de grande preocupação para os diversos agentes sociais da
organização, pois são facilmente ultrapassáveis e não costumam provocar grandes
lesões, danos ou prejuízos. Porém, o grande enigma destes eventos menores é
que eles podem significar que algo não está bem dentro da organização.
Podemos considerar estes eventos menores como pequenos sinais de alerta para
ameaças potencialmente maiores, mas o maior perigo de todos é a rápida
interação entre falhas aparentemente desconectadas, sem ligação visível, mas
que acabam por interagir surpreendentemente em determinadas circunstâncias
excecionais.20 Estas interações de falhas podem assumir um efeito de
cascataouefeito dominó, sem possibilidade de controlo, devido ao seu rápido
desenvolvimento e à proximidade dos diversos componentes do sistema (partes,
unidades ou subsistemas). Estes efeitos são difíceis de controlar não apenas
porque são constituídos por diversos componentes, mas principalmente porque as
interações entre componentes são não-lineares. Vejamos, agora, qual a definição
que o autor preconiza para distinguir os dois tipos de acidentes atrás
referenciados:
Component failure accidents and system accidents are distinguished on the basis
of whether any interaction of two or more failures is anticipated, expected or
comprehensible to the persons who designed the system, and those who are
adequately trained to operate it. A system accident, in our definition, must
have multiple failures, and they are likely to be in reasonably independent
units or subsystems. But system accidents, as with all accidents, start with a
component failure, most commonly the failure of a part, say a valve or an
operator error. It is not the source of the accident that distinguishes the two
types, since both start with component failures; it is the presence or not of
multiple failures that interact in unanticipated ways [Perrow, 1999 (1984), pp.
70-71].
Já afirmámos anteriormente que para os autores das HRO a redundância é um
fator-chave na prevenção de acidentes. Porém, na ótica de Perrow, os sistemas
redundantes e os dispositivos de segurança que supostamente deveriam proteger
estes sistemas podem acrescentar ainda maior complexidade ao próprio sistema,
tornando-o mais opaco. A opacidade dos sistemas complexos revela dois aspetos
essenciais: o desconhecimento sobre aquilo que pode vir a acontecer, e a
incompreensão sobre aquilo que o sistema pode fazer (Reason, 1990, p. 179).
Esta situação pode confundir os trabalhadores que operam o sistema, tornando
algumas falhas intratáveis. A maior preocupação relacionada com os acidentes
normais acaba por estar situada nos danos ou prejuízos causados e não tanto na
frequência da sua ocorrência. Todavia, considerando algumas características
aleatórias, desconhecidas e/ou disfuncionais dos sistemas hiper-complexos,
aliada à fraca experiência histórica em lidar com estas novas realidades,
Perrow (1999 [1984]) interroga-se sobre o motivo pelo qual não ocorrem mais
acidentes deste tipo. É recorrendo um certo tom profético em que o autor acaba
por vaticinar que acidentes como o de Three Mile Island irão voltar a acontecer
no futuro. Na sua opinião, a probabilidade de acontecer um novo acidente
sistémico não é de um para um milhão de anos, mas antes, de um durante a
próxima década. O prognóstico de Perrow não foi nada tranquilizador, mas se
considerarmos a data da publicação original do seu livro (1984) e a data do
desastre de Chernobyl (1986) verificamos que a sua intuição estava correta.
DUAS PERSPETIVAS EM CONFRONTO: POTENCIALIDADES E LIMITES DE CADA MODELO
Ironicamente, Sagan (1993) interroga-se sobre como é que as HRO podem ter tanto
sucesso, dado que incorporam homens imperfeitos, que trabalham em organizações
imperfeitas, onde são manuseadas máquinas imperfeitas? Será que a humanidade
conseguiu realmente construir organizações suficientemente fiáveis ao nível da
segurança, ou, pelo contrário, temos tido muita sorte por não haver mais
acidentes de grandes dimensões? O autor tenta responder a estas e outras
questões recorrendo ao confronto entre a teoria dos acidentes normais e a
teoria das organizações de alta fiabilidade. De facto, parece indiscutível que
a obra de Sagan (1993) apresentou de forma extraordinária as virtudes e limites
de ambos os modelos, tornando-os bastante mais maduros do ponto de vista
científico. A tabela 3 apresenta as principais diferenças entre ambas as
teorias.
Tabela 3 - Diferenças na abordagem aos sistemas de alto-risco
A partir da tabela anterior podemos verificar que muitas das condições que os
mentores das HRO preconizam como elementos fundamentais para promover a
segurança organizacional são vistas por parte dos teóricos dos acidentes
normais como fatores que podem reduzir essa mesma segurança. Esta oposição
valorativa é notória em diversos aspetos. Existe ainda um outro contraste entre
a teoria das organizações de alta fiabilidade e a teoria dos acidentes normais,
ou seja, é postulado pelos teóricos das HRO que um determinado conjunto de
preceitos ou mecanismos (já apresentados anteriormente) conseguem por si só
assegurar a fiabilidade organizacional, independentemente do tipo de tecnologia
utilizada e do ambiente externo da organização. Pelo contrário, a teoria dos
acidentes sistémicos afirma que uma determinada performance fiável ao nível da
segurança organizacional estará sempre dependente das propriedades intrínsecas
do sistema sociotécnico, logo não existem fórmulas universais de prevenção. Da
comparação efetuada por Sagan (1993) entre ambas as teorias é ainda sugerido
que a teoria dos acidentes normais é mais sustentada do ponto de vista
estrutural e político, posição que corroboramos em absoluto.21
Segundo Rasmussen (1994), a teoria das organizações de alta fiabilidade e a
teoria dos acidentes normais podem ser mais compatíveis do que a análise de
Sagan (1993) sugere. O autor assegura que nem Perrow afirma que a redundância
deve ser evitada nos sistemas de alto-risco, nem os mentores das HRO preconizam
que estas organizações nunca falham.22 Paralelamente a esta discussão,
Rasmussen afirma que a redundância pode ser algo difícil de gerir nas
organizações e a vontade para mantê-la pode baixar drasticamente em períodos de
elevada competitividade. No entanto, a utilização da redundância em
organizações de alto-risco é essencial para o seu funcionamento e para a
manutenção de padrões elevados de segurança (Rasmussen, 1994).
Uma das críticas feita à teoria das HRO relaciona-se com o facto de estes
autores considerarem, por exemplo, que os níveis elevados de redundância
organizacional são a causa da excelente performance de segurança na
organização. Segundo os teóricos do modelo dos acidentes normais, a crença de
que uma gestão e um design organizacional inteligentes são fatores
suficientemente fortes para operar com tecnologias de alto-risco de forma
segura é uma mera ilusão (Sagan, 1993, p. 28). O seu otimismo é também apontado
como algo exagerado, devido à existência de determinadas condições impossíveis
de antecipar e que podem assumir um efeito dominó e originar acidentes. A
incerteza incorporada no funcionamento das HRO é algo transversal às suas
dimensões técnicas, tecnológicas, organizacionais e sociais, e isto é também
uma condição que não joga a favor da segurança e fiabilidade deste tipo de
organizações. Segundo Perrow (1999 [1984]), o sucesso da improvisação em
situações de crise e de emergência será sempre limitado, ao contrário daquilo
que é afirmado pelos teóricos das HRO. São também utilizadas por LaPorte e
Consolini (1991, p. 23) as noções de alto-perigo e baixo-risco para definir
e caracterizar as HRO; quanto a nós, estas noções são contraditórias e não
podem ser utilizadas em simultâneo para caracterizar a mesma realidade, visto
que os riscos decorrem dos perigos, logo quando um perigo é alto, o risco
também o será. Na melhor das hipóteses, será aceitável a subdivisão do risco em
baixa-probabilidade versus altas-consequências e alta-probabilidade versus
baixas-consequências (Kasperson etal., 2000, p. 232). Para além disso, tal como
Weick (1990) dá a entender, a interação de dois riscos23 tende a ser um fator
multiplicativo em vez de aditivo.
A título de exemplo, outra das críticas que pode ser apontada às HRO diz
respeito à ligação entre a estrutura fortemente autoritária e hierarquizada de
certas organizações e a possível ocorrência de acidentes (Sagan, 1993, p. 254).
O autor afirma que a disciplina extrema de certas instituições pode originar um
excessivo sigilo e lealdade para com as hierarquias superiores (desdenhando
eventualmente outras formas de conhecimentos especializados exteriores à
organização) e isto pode, em certas situações, obscurecer determinados
problemas de segurança, com o objetivo de proteger a reputação da organização
(esta questão pode ser particularmente visível em organizações militarizadas ou
influenciadas por uma cultura militarizada).
Centremo-nos agora nas críticas à teoria dos acidentes normais. Segundo Roberts
(1989), não é absolutamente claro que todas as tecnologias de alto-risco irão
falhar. Foi também preconizado que as noções de interações complexas e de
ligações apertadas são conceitos muito vagos e difíceis de transformar de
objeto teórico em objeto empírico, ou seja, a operacionalização destas noções
torna-se problemática. Assim, parece difícil conceber um método para a análise
ou avaliação de acidentes sistémicos devido a limitações empíricas dos
conceitos. Para Weick (1990) os sistemas com ligações soltas e interações
lineares não estarão absolutamente imunes a sofrer grandes acidentes, até
porque estas condições podem alterar-se ' transformando as ligações soltas em
ligações apertadase asinterações lineares em interações complexas ', tornando
os sistemas mais vulneráveis (tal como aconteceu no desastre aéreo de
Tenerife). Esta transformação sistémica pode ocorrer, por exemplo, devido a
elevados picos de stress dos trabalhadores, à sobrecarga de trabalho, ao facto
de se terem ignorado alguns dados importantes ou a fatores externos
extraordinários.24 Alguns críticos de Perrow (Weick, 1990; Hopkins, 1999)
afirmam que a teoria dos acidentes normais apenas é relevante e aplicável para
os sistemas que apresentem simultaneamente interações muito complexas (high
complexity) e ligações apertadas (tight coupling). Um dos preceitos-chave,
apresentado por Perrow (1999 [1984]) na teoria dos acidentes normais, está
relacionado com o dilema (irresolúvel na sua ótica) que as organizações têm de
tentar gerir quando incorporam, simultaneamente, interações complexas e
ligações apertadas no seu funcionamento, visto que a primeira característica
necessita da uma estrutura organizacional centralizada, e a segunda de uma
estrutura organizacional descentralizada. Ou seja, Perrow preconiza que a
estrutura das organizações não pode ser centralizada e descentralizada ao mesmo
tempo. Weick (1987) critica este pressuposto e afirma que os aspetos culturais
das organizações podem conseguir ultrapassar a necessidade de uma estrutura
organizacional centralizada no caso de sistemas de funcionamento com ligações
apertadas. Outros autores partidários das HRO afirmam que este preceito de
Perrow é meramente tautológico. Por fim, é ainda referido que algumas dimensões
externas ao sistema (naturalmente mutáveis em determinadas circunstâncias), mas
passíveis de influenciar o seu funcionamento, são pouco consideradas pelo
autor. Assim, é referido que a teoria do acidente normal deveria passar de uma
estrutura estática (centrada no interior do sistema) para uma conceção mais
dinâmica, visto que os fatores externos ou ambientais podem influenciar falhas
e recombinar novas interações complexas.
Das diversas críticas apontadas à teoria dos acidentes normais poucas são
aquelas que nos parecem fazer sentido (exceto, por exemplo, a última referida
no parágrafo anterior, em que é destacada a fraca relevância atribuída aos
fatores externos). Entendemos, por isso, que este modelo teórico apresenta um
forte contributo para a compreensão dos acidentes maiores, independentemente de
algumas fragilidades ou limitações que possa revelar. A sua conceção foi sem
dúvida um avanço epistemológico para um assunto que ainda revela bastante
terreno por desbravar, quer por se tratar de uma temática relativamente
recente, quer pelas dificuldades teóricas e empíricas que suscita.
NOTAS FINAIS SOBRE A PREVENÇÃO DE ACIDENTES
As tecnologias complexas incorporam determinadas incertezas mal
compreendidas que não conseguimos controlar, nomeadamente as suas interações
com o sistema social. Parece que ainda estamos longe de aceitar esta condição.
As indefinições dos sistemas sociotécnicos transformam as sociedades atuais em
verdadeiros laboratórios experimentais, cujas consequências podem ser
imprevisíveis (Beck, 1992). Os riscos organizacionais são, em grande medida, as
antecâmaras para os acidentes (Areosa, 2009a; 2009b). Não existem organizações
isentas de risco, logo, os acidentes são eventos que podem ocorrer a qualquer
momento. Porém, isto não significa que a prevenção não seja útil, mas é
pertinente considerar que até a melhor estratégia de prevenção tem os seus
limites. Para além disso, tal como referiu Rasmussen (1997), existem diversas
condicionantes internas e externas às organizações que podem conduzir a que se
ultrapassem as fronteiras de segurança consideradas aceitáveis (naturalmente
que este aspeto é sempre algo que implica juízos de valor). É importante
referir que as organizações, particularmente as de alto-risco, visam cumprir
diversos objetivos (por vezes incompatíveis entre si) e isso torna-as mais
vulneráveis a imprevistos na sua atividade. Devemos ainda ter em conta que
incorporam muitos outros fatores de risco, de incerteza e de aleatoriedade, aos
quais não conseguem escapar. Afinal, o mundo é um local cuja imprevisibilidade
é muito maior do que nós, a priori, conseguimos imaginar (Taleb, 2008).
Na perspetiva de Sagan (1993), quer os mentores da teoria dos acidentes
normais, quer os teóricos das HRO, recorrem, por vezes, a uma linguagem
imprecisa; os primeiros afirmam que os acidentes maiores, apesar de serem
eventos raros, são inevitáveis, enquanto os segundos preconizam que existem
boas hipóteses de os acidentes poderem ser prevenidos ou que as organizações de
alto-risco podem trabalhar num cenário próximo de operações livres de falhas.
Todavia, a discussão polarizada entre as duas escolas teve o mérito de
consolidar nas ciências sociais o debate sobre os grandes acidentes, dando
continuidade ao trabalho iniciado por Turner (1978). Talvez a divergência de
fundo entre ambas as perspetivas nos remeta para a resposta à questão primitiva
do risco: How safe is safe enough? (Douglas, 1992, p. 41). É verdade que esta
é uma pergunta sonante, mas a sua resposta é pouco satisfatória, dado que nunca
poderemos afirmar que a segurança é suficientemente segura. A incerteza é
algo que caracteriza a modernidade (incluindo as suas organizações), embora,
tal como é referido por Granjo (2004), esta condição extravase largamente o
atual período em que vivemos, tendo em conta que a incerteza acaba por estar
imiscuída em toda história da humanidade; exemplos disto mesmo são os múltiplos
sistemas de adivinhação e de previsão do futuro.
A perspetiva das HRO concebe a prevenção de acidentes do seguinte modo: é
possível efetuar operações/atividades extremamente seguras, mesmo estando
perante tecnologias altamente perigosas, desde que exista um design
organizacional apropriado e se sigam determinadas técnicas de gestão
inteligentes. A criação de sistemas organizacionais redundantes, a utilização
de formas sofisticadas de aprendizagem organizacional, a socialização e treino
dos trabalhadores para responder a determinadas situações (controlo
centralizado em situações normais e descentralizado em situações de crise), um
consenso alargado entre a performance organizacional e os objetivos de
segurança, são alguns dos mecanismos mais adequados para a prevenção de
acidentes. A produção de uma cultura organizacional que aposte num desempenho
livre de falhas, conjugado com a idealização de determinados cenários em que
se perceba que os erros podem sempre ocorrer, são também dois aspetos
essenciais que, segundo esta perspetiva, permitem consolidar uma estratégia
adequada para a prevenção de acidentes. Do ponto de vista teórico, julgamos que
os pressupostos das HRO estão bem fundamentados, porém a sua aplicabilidade
empírica suscita-nos inúmeras reservas. Entre outros aspetos parece-nos que os
mentores das HRO deixam transparecer um otimismo exagerado sobre a forma
segura e eficaz de como os indivíduos podem funcionar em contexto
organizacional, esquecendo, por exemplo, os inevitáveis conflitos
interrelacionais, bem como os interesses pessoais e organizacionais (nem sempre
coincidentes).
Segundo Perrow (1999 [1984]), as organizações que possuem sistemas tecnológicos
ultra-complexos já provaram que não dispõem de condições para eliminar todos os
acidentes. No entanto, isto não significa que estejamos perante organizações
incompetentes, ou incapazes de controlar os riscos das suas atividades,
significa que a segurança das organizações revela limites inerentes à sua
própria condição (Sagan, 1993, p. 279). De certo modo, os acidentes são
produzidos socialmente e tornaram-se um acontecimento normal, devido à
elevada complexidade de alguns sistemas, às suas interações não-lineares, bem
como às suas ligações muito próximas. Isto denota que seria irrealista
pensarmos que seria possível prevenir todos os acidentes no contexto das
organizações. Toda a teoria de Perrow (1999 [1984]) reforça a ideia de que os
acidentes são acontecimentos inevitáveis, e a sua prevenção, em certos
contextos, virtualmente impossível de realizar. Mesmo a experiência de
acidentes anteriores pouco pode acrescentar à prevenção de futuros acidentes,
visto que o alinhamento das suas causas e circunstâncias é normalmente singular
e quase irrepetível. Não estando esta apreciação isenta de subjetividade,
tendemos a corroborar a perspetiva de Perrow, em detrimento dos alicerces que
sustentam as HRO (quanto a nós bastante mais frágeis). Apesar das múltiplas
diferenças relatadas ao longo do texto, os dois modelos estimam quase em
uníssono que a possibilidade de ocorrer um grande acidente é baixa. Talvez a
grande diferença entre estas duas perspetivas se possa resumir ao seguinte:
Perrow may look at a glass of safety and find it 1 percent empty; high
reliability theorists may see the same glass of safety as 99 percent full
(Sagan, 1993, p. 48).