A arte como contrabando: notas sobre antropofagia e política
CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago.
Oswald de Andrade, Manifesto Antropófago
Escrever é talvez trazer à luz esse agenciamento do inconsciente, selecionar as
vozes sussurrantes, convocar as tribos e os idiomas secretos, de onde extraio
algo que denomino Eu.
Deleuze e Guatarri, Mil Platôs
Este trabalho pretende retomar aspetos das formulações de alguns autores cuja
obra se afigura relevante para a sociologia da cultura e da literatura.
Buscaremos acioná-los como instrumento de articulação de questões que nos
parecem pertinentes na abordagem sociológica da estética literária. Em resumo,
trata-se de indagar: que relações, e de que natureza, podem estabelecer-se
entre estética e poder, entre literatura e política? O universo empírico que
intentamos articular para discutir tais questões circunscreve-se ao contexto de
elaboração da antropofagia1 de Oswald de Andrade2, marcado pelos confrontos
simbólicos inscritos nas transformações político-culturais que atravessam a
dinâmica social da Primeira República brasileira (1889-1930). Para tanto,
servir-nos-emos de certas conceitualizações de Bourdieu, Gramsci, Arendt,
Rancière e Foucault. Se a formulações de questões, mais que a consecução das
suas eventuais respostas, marca o momento em que o teórico e o empírico se
constituem mutuamente, acreditamos que assim procedendo, poderemos situar-nos
sobre um dos principais vetores da prática sociológica: a articulação teoria-
empiria, isto é, a possibilidade que construtos conceituais encerram de
circunscrição e articulação de universos empíricos e, reciprocamente, a
capacidade destes em tensionar, deslocar e impor a reinvenção de novas
categorias e conceitos.
Assim, longe de pretendermos uma síntese entre correntes teóricas distintas, o
nosso objetivo é utilizar tais formulações para ativar uma problemática de
investigação, apontar possíveis elucidações de categorias que lhe sejam
pertinentes e, sobretudo, colocar questões que lhe confiram um maior potencial
de inteligibilidade.
Com efeito, o texto a seguir toma os autores discutidos como momentos de
problematização. Mesmo que tais momentos não logrem traçar uma sequência
linear, compor uma unidade, o exercício que aqui se propõe presta-se, ao menos,
ao esboço de possíveis caminhos a serem posteriormente percorridos pela nossa
problematização, bem como à explicitação dos seus limites.
GÉNESE DE UM PROBLEMA
Para encaminhar estas questões, parece-nos pertinente evitar formulações que
partam da suposição de uma absoluta exterioridade entre os seus termos. Isto é,
que postulem relações extrínsecas entre a dinâmica do estético e do político, o
que possibilita interpretações que acabam por fixar esquemas de hierarquias
causais: a configuração de forças políticas seria a causa determinante de um
estilo artístico-literário ou de uma temática presente em um ou mais autores,
ou ao contrário, as visões do mundo social esteticamente construídas exerceriam
uma determinação sobre o universo político, mediante a sua atuação nas
conceções que os agentes deste universo elaboram de si e da sociedade. Tais
vínculos causais extrínsecos podem, sem dúvida, receber diversas sustentações
analíticas. Contudo, podemos objetá-las com uma ressalva, primeiramente
metodológica: assim procedendo, deduzindo os traços de um a partir da dinâmica
do outro, tais análises não comprometem o acesso às especificidades tanto do
fenómeno estético quanto do político? E, em segundo lugar, cabe-lhes, também,
uma refutação teórica. Neste ponto, a tese foucaultiana da constituição
recíproca entre técnicas de poder e formas de saber como um mecanismo que
preenche de densidade e consistência o que chamamos de realidade, isto é,
pensando com Deleuze (mimeo), como dispositivo que, justamente, instaura a
positividadedo real, permite-nos apontar que a suposição de um primado de
causalidade da política sobre a literatura, ou desta sobre aquela, implica
atribuir uma substancialidade a priori à existência destes fenómeno sociais,
sem a qual um não poderia causar o outro. Semelhante suposição resultaria
numa conceção estática e monolítica tanto do político quanto do literário,
impossibilitada de conceber os procedimentos de poder que articulam os jogos
estéticos e os procedimentos estéticos que se inscrevem nos jogos de poder, bem
como de captar o processo de construção simbólica do mundo social que emerge da
interseção destes elementos.
A hipótese de Bourdieu (1996; 2005) a respeito da homologia entre os campos
sociais, parece interessante na medida em que possibilita uma abordagem das
relações entre o literário e o político mediante o enfoque paralelo dos
universos sociais e das lógicas de poder em que tais fenómenos se constituem.
Em termos gerais, Bourdieu propõe uma espécie de topologia do social, em que
este é pensado enquanto um espaço em que circulam capitais de ordem diversa:
económica, social e cultural. Em função da distribuição/apropriação destes
últimos entre os agentes sociais, constituem-se o(s) campo(s) sociais,
estruturados em posições ocupadas pelos agentes, segundo o grau de desigualdade
entre o volume, o tipo e a composição dos seus respetivos capitais. Os capitais
são pensados como trunfos de poder no jogo social, em torno da disputa por
oportunidades de ganho material e simbólico, pelo que a estrutura dos campos
consiste nas relações de força, de disputas de poder pela manutenção ou mudança
da sua hierarquia interna, assim como das regras e critérios que a definem.
Em conjunção com esta formulação do espaço e dos campos sociais, encontra-se a
maneira como Bourdieu (1996) concebe a constituição dos sujeitos no interior
dos mesmos. Pode-se dizer que esse processo consiste na incorporação de
determinadas disposições (esquemas tendenciais de ação, pensamento, perceção e
apreciação) que variam, por um lado, em função da quantidade e natureza dos
capitais adquiridos e, por outro, das possibilidades da sua utilização segundo
a posição ocupada pelo agente num dado momento da sua trajetória social, e das
relações objetivas que esta sua posição mantém com as demais. Com efeito, o
habitus, conceito fundamental para o autor, como um sistema de disposições
incorporadas, opera enquanto um complexo gerativo de práticas, sempre em
interseção com as estruturas e posições objetivas do mundo social.
Portanto, Bourdieu postula que as disposições constitutivas do habitus são
correlatas às estruturas objetivas do social, ou seja, o funcionamento de ambas
tende a obedecer a uma mesma lógica, o que quer dizer que há uma certa
circularidade entre o campo que produz o habitus, o qual, por sua vez, reproduz
o campo. Vale observar, aqui, que não há precedência ou hierarquia causal pré-
estabelecida, mas, antes, uma dinâmica permanente e simultânea de subjetivação
do objetivo e objetivação do subjetivo.
Neste ponto, entretanto, cabe um pequeno parêntesis acerca do conceito de
subjetividade, que parece inscrever-se em tais formulações, e das suas
implicações para a análise literária. Em Bourdieu, o espaço conceitual da
subjetividade parece ser revestido pela noção de habitus. Com efeito, conforme
o exposto acima, isto é, de acordo com a relação de constituição recíproca que
se arma entre elementos subjetivos e objetivos, tal perspetiva capta os fatores
de subjetividade, que porventura atuem na elaboração literária, em função da
sua correlação com as estruturas objetivas do espaço social. Nessa medida, tal
modelo analítico rejeita as crenças que, a um só tempo, se sustentam e dão
sustentação no e ao jogo de disputas no interior do campo literário ' tal como
a ideia de um génio criador, isento de determinações alheias à singularidade da
sua vontade. Por outro lado, não se pode deixar de indagar se, em conjunto com
o descarte, metodologicamente necessário, de tais crenças egressas da estética
romântica, não se estaria obliterando a análise de fatores subjetivos que,
embora não diretamente dedutíveis da objetividade do mundo social, exerçam
determinado papel na elaboração estética.
Tal indagação toca, no fundo, num ponto crucial a toda a teoria sociológica,
isto é, a relação, na constituição das relações e dinâmicas sociais, entre
sujeito-objeto, ação-estrutura, indivíduo-sociedade. As formulações de
Bourdieu parecem captar, predominantemente, os fatores subjetivos que acabam
por se sedimentar na objetividade das estruturas sociais. As disposições
subjetivas que não encontram uma atualização na margem de possibilidades dadas
pelo espaço social dos campos mantêm-se, assim, fora da ênfase predominante da
análise, relegadas às dimensões da subjetividade cuja eficácia social
permanece inteligível.
Isso implica, para uma análise sociológica da literatura, a dificuldade de
identificação e explicitação dos elementos estéticos, que possam ser portadores
de traços potencialmente transgressivos ou desestabilizadores da ordem
sociosimbólica, em cujo interior foram social e subjetivamente gestados. Por
outras palavras, no âmbito da constituição recíproca entre o campo e o habitus,
entre as estruturas de poder e as configurações da subjetividade, captam-se
predominantemente os fatores subjetivos, cuja elaboração estética coincide com
as solicitações simbólicas inscritas na reprodução das hierarquias sociais.
Portanto, embora substitua os vínculos de causalidade pelo processo de
homologia entre a dinâmica política e a literária, as análises de Bourdieu
ainda parecem atribuir um peso excessivo à sedimentação literária da dinâmica
social, resultando num desequilíbrio explicativo entre esta dimensão, os
fatores subjetivos e os propriamente estéticos.
Assim, encaminhar a problemática que aqui se desenha implica, em boa medida,
evitar eventuais reducionismos teóricos que, a nosso ver, estão na base dos
reducionismos analíticos. Diga-se de passagem, com efeito, que os estudos
devotados ao modernismo de Oswald de Andrade podem ser caracterizados por uma
oscilação das abordagens, segundo os fatores explicativos privilegiados por
eles. Ora se enfoca, como nos estudos de Campos (1972, 2004, 2007), a dimensão
estritamente estética e literária, relegando-se para segundo plano a
importância dos fatores de ordem sociológica que possam ter contribuído para a
sedimentação dos contornos formais e temáticos do texto. Outras vezes, como é o
caso nas análises de Miceli (1979), a dinâmica social sobrepõe-se à obra, que
passa a ocupar o papel de testemunho ou reflexo de uma realidade histórico-
social descrita e analisada. Por outro lado, vale lembrar, o apelo unilateral
aos fatores subjetivos corre o risco de aprisionar a investigação no interior
do seu próprio objeto, de convertê-la na reiteração de uma certa imagem que se
faz da literatura, historicamente tributária da estética romântica, presa, no
dizer de Foucault (2001, p. 141), às alusões ' marteladas há centenas de anos
' ao silêncio, ao segredo, ao indizível, às modulações do coração, enfim a
todos esses prestígios da individualidade, onde, até hoje, a crítica esconde
sua inconsistência.
Nesse sentido, pensar os possíveis vínculos de adesão e de dissidência
identificáveis entre a estética modernista de Oswald de Andrade e o
nacionalismo paulista elaborado durante a Primeira República, implica, em
alguma medida, uma sociologia da literatura que investigue a intricada relação
de constituição recíproca entre o social, o subjetivo e o literário. Parece
interessante arriscar a suposição de que a análise dos aspetos humorísticos e
obscenos da poética oswaldiana abre uma perspetiva apta a captar a socialidade
do literário e, por assim dizer, a textualidade do social. Pode-se pensar o
humor e a obscenidade como procedimentos literários que, mais inequivocadamente
que os demais, nos reportam fortemente à ordem social e à inserção dos sujeitos
no seu interior, tomados tanto como sujeitos de interações sociais, quanto de
expressões estéticas. Afirmamos isso no sentido de que tais formas de expressão
põem em jogo, num mesmo gesto, tanto os códigos de ordem literária, quanto os
de ordem social. Isto é, o humor e a obscenidade oswaldianos incidiam não só
sobre a etiqueta do bem-escrever, como também sobre a gramática que prescrevia
as interações da boa sociedade. Assim, o pendor oswaldiano para o escárnio,
para o deboche, canalizados pelo riso ou pelo emprego de procedimentos
obscenos, pode ser tomado como força simbólica que catalisou a dinâmica da sua
inserção, a um tempo social e literária, numa ordem com cujos imperativos o
autor teve que se haver, seja pela complacência com as solicitações simbólicas
que dela lhe advinham, seja pela ridicularização das mesmas.
O MOMENTO GRAMSCI: HEGEMONIA, CULTURA E POLÍTICA
No que toca à discussão que aqui se ensaia, as formulações de Gramsci parecem
interessar, sobretudo, no que se refere à sua conceção do fenómeno político nas
sociedades modernas, isto é, como aponta Simionatto (mimeo), a teoria
ampliada' do Estado, indicando que o poder estatal, nesse novo contexto, não
se expressa apenas através de seus aparelhos repressivos e coercitivos, mas,
também, através de uma nova esfera do ser social que é a sociedade civil.
Assim, distinguindo e interrelacionando Estado e sociedade civil, o autor
concebe a vida social como uma dinâmica de poder, e o poder não como algo que
se impõe de fora, do Estado, à sociedade, mas sim como um fenómeno que se
constitui na própria dinâmica do social: a dominação, na perspetiva gramsciana,
apresenta-se como um processo que se modula ao longo da realidade social, o que
incluí, entre outros, o facto de que, ainda no dizer de Simionatto (mimeo),
esse exercício do poder ocorre através da direção política e do consenso.
Aqui chegamos à contribuição crucial que Gramsci oferece à nossa
problematização, a saber, o facto de que a hegemonia, a dimensão da direção
política e do consenso, pode ser pensada como uma zona de confronto entre
Estado e sociedade, arena de litígio em torno do poder, na qual se acatam, se
repudiam ou se transgridem os imperativos inscritos numa ordem de dominação.
Como observa ainda Simionatto (mimeo), quando Gramsci fala da hegemonia como
direção moral e intelectual' afirma que essa direção também se exerce no campo
das ideias e da cultura, manifestando a capacidade de conquistar o consenso e
de formar uma base social. Noutras palavras, estamos diante de um conceito que
estende a compreensão do trabalho de dominação até às suas dimensões de
construção coletiva do sentido da vida social, dimensão na qual se opera a
constituição e adesão das subjetividades à objetividade da ordem social. Pois
ahegemonia, assinala uma vez mais Simionatto (mimeo), não significa apenas a
subordinação de uma classe em relação à outra, mas a capacidade das classes na
construção de uma visão de mundo.
Nestes termos, a questão da hegemonia situa a problemática cultural no centro
da análise da dinâmica política. A visão gramsciana, portanto, propicia uma
inteligibilidade política dos processos culturais em cujo interior, na São
Paulo do início do século XX, se gestou a construção da estética modernista de
Oswald.
A passagem do Brasil imperial ao Brasil republicano assinalou também a
progressiva transferência da hegemonia política nacional, deslocada da antiga
capital imperial e então capital republicana, o Rio de Janeiro, para a cada vez
mais influente São Paulo, em plena expansão urbana e económica.
Este movimento não se reduziu a uma mera substituição de elites dirigentes ou
deslocamento geográfico do centro político. Em consonância com estes aspetos, a
mudança mais importante diz respeito a toda uma movimentação simbólica de
reelaboração da nacionalidade. A prosperidade gerada pela expansão da lavoura
cafeeira, o crescimento urbano e a progressiva industrialização de São Paulo,
davam margem a toda uma elaboração de acento épico que, mediante a ritualização
da figura do bandeirante3, operava a exaltação das proezas e virtudes da
pátria paulista, espaço simbólico para o qual letrados e políticos
reivindicavam a condição de vanguarda e polo norteador da nacionalidade.
Entretanto, estes mesmos processos que despertavam os brios dos círculos
cultivados das elites paulistanas, colaboravam também para o sobressalto dos
seus receios: uma sociedade recém egressa da escravidão, tributária da precária
inserção social dos ex-escravos e dos seus descendentes, somava as suas
distorções e desigualdades irresolutas a novos focos de conflito, ligados à
crescente presença de uma população adventícia, cindida entre carcamanos
novos-ricos e um crescente operariado das novas indústrias. À condição social
precária e à mobilização política destes últimos, expressa em tintas anarco-
socialistas, vinha-se conjugar a não menos ameaçadora agitação da orla de
desocupados, prostitutas, contraventores e desordeiros de toda a ordem,
que figuravam nos relatórios policiais.
Somadas ao espaço social conflituoso de São Paulo, as pressões advindas dos
grupos dirigentes dos demais estados, impunham às pretensões hegemónicas das
elites paulistas o desafio de que a sua elaboração político-cultural da
nacionalidade deveria responder ao duplo imperativo de neutralizar as demandas
políticas e identitárias que nasciam no topo da hierarquia da sociedade,
ligadas aos grupos afastados do esquema oligárquico federal, assim como a
configuração de identidades contra-hegemónicas que pulsavam nos modos de vida e
repertórios culturais dos grupos subalternos.
Já em 1920, tais perspetivas estariam presentes no pensamento de letrados e
políticos paulistas, articuladas no slogando assimilamos ou seremos
assimilados, de Pinto Pereira, como imperativo de manutenção da hegemonia da
alta cultura e da ordem sociosimbólica correlata, o que se desdobraria no
ideário da Reação Nacionalistade Sampaio Dória: Os brasileiros estão ameaçados
a passar, por imprudência, de senhores da terra a colonos dos estrangeiros, que
vencem. [ ] A reação nacionalista será, pois, necessariamente, uma reação da
cultura pela supremacia do nacional (apud Sevcenko, 1992, p. 246).
O espaço e a dinâmica culturais configuravam-se, portanto, como um território
estratégico em que estavam em jogo os embates e conflitos que punham em litígio
a constituição da nova ordem social republicana.
Esta mesma problemática, a da diversificação sociocultural do estado de São
Paulo, intensificada pela imigração ligada à expansão da economia do café e da
industrialização, marca profundamente a atividade poética de Oswald de Andrade
(1966, p. 97): Japoneses/ Turcos/ Miguéis/ Os hotéis parecem roupas alugadas/
Negros como num compêndio de história pátria/ Mas que sujeito loiro.
Intitulado Guararapes, referência a uma das inúmeras cidades que surgem no
interior do estado de São Paulo em decorrência da expansão da lavoura de café,
o poema extrapola para o interior do Estado a temerária paisagem étnico-
racial da capital. A composição opera fragmentações tanto ao nível semântico,
com a origem dos personagens sendo designada ora pela nacionalidade, ora pelo
nome próprio e ora por marcadores étnico-raciais, quanto sintático, com o
último verso introduzindo uma dicção exclamativa, que corta abrutamente a linha
até então descritiva. No conjunto, tais procedimentos resultam na afirmação
poética da heterogeneidade ética e cultural do estado, positivando os mesmos
aspetos considerados negativos pela Reação Nacionalista. Contudo, no mesmo
passo, o enquadramento fragmentário compartimenta as respetivas
singularidades, minimiza a sua ameaça, como se as confinasse, cada uma, no seu
lugar. É exemplar, neste sentido, a alocação da presença negra: negros como
num compêndio de história pátria, figuram como resquícios obsoletos, no melhor
dos casos, museologizados. Entretanto, o tratamento aí dispensado ao grupo
étnico que compunha a maioria da população brasileira, contrasta com uma das
passagens programáticas de Oswald (1972 [1924], p. 204): Uma sugestão de
Blaise Cendrars: Tendes as locomotivas cheias, ides partir. Um negro gira a
manivela do desvio rotativo em que estais. O menor descuido vos fará partir na
direção oposta a vosso destino. Note-se que é justamente a figura
marginalizada por excelência, descendente de escravos, um negro, no anonimato
do artigo indefinido, que ocupa a centralidade da ação. A sua aparição
apresenta o caráter da intromissão inadvertida, evento irruptivo que transtorna
a previsibilidade das coisas, redefine os possíveis. Parece que a literatura
oswaldiana não deixou de praticar certos descuidos, por cujas brechas
irrompem os elementos nocivos à boa ordem social e poética.
Portanto, considerando o esforço de construção identitária de um Brasil
consensual, forjado sob a ótica paulista,paulicêntrico, na expressão de
Bertelli (2009), tais figurações oswaldianas da pátria paulista levam-nos à
interrogação da medida em que o modernismo paulista esteve vinculado ao novo
nacionalismo ligado à emergência de São Paulo como polo dinâmico da economia e
ponto hegemónico da política nacional, tomando a produção modernista de Oswald
de Andrade na sua inserção nas redes de relações de força que se estendiam no
espaço social de São Paulo e cujos fios eram (re)tecidos na trama de construção
da nacionalidade, investigando, assim, as dimensões de consenso e as
possibilidades de dissenso que a literatura oswaldiana introduziu no interior
da máquina escriturária da nação.
O MOMENTO HANNAH ARENDT: ESPAÇO PÚBLICO, RISO E OBSCENIDADE
Posto que aventamos a hipótese de que oriso e a obscenidade são traços da
estética oswaldiana que constituem vias de acesso à dinâmica de mútua
constituição entre o social, o subjetivo e o literário, dinâmica cuja apreensão
nos possibilitaria uma análise mais articulada e menos reducionista das
relações entre literatura e política, cumpre, antes de mais, encaminhar uma
conceituação destes termos tão polissémicos quanto equívocos.
Embora possamos chegar, mediante um aprofundamento analítico, a marcar as suas
diferenças respetivas, o riso e o obsceno parecem guardar entre si íntimas
afinidades. A sua proximidade talvez se evidencie se os considerarmos não como
meras manifestações do cómico, do grotesco, do impudente ou do lascivo.
Isto, aliás, seria dar por explicação justamente o que deve ser explicado.
Devemos, antes, perguntar o que dispara estas manifestações enquanto tais, o
que constitui a possibilidade da aparição de algo cujos atributos são
confinados a tais categorias vazadas em registos que mesclam o moral e o
percetível, o comportamental e o estético.
Neste particular, cumpre observar o nosso afastamento em relação a certas
conceções correntes sobre o riso e o obsceno. O célebre trabalho de Bakhtin
(1993) sobre Rabelais, por exemplo, conceitua o riso como movimento de
rebaixamentodo nobre, erudito e oficial, pretensamente acabado e
perfeito, ao nível do quotidiano, popular e contra-oficial,
característico do universo sociosimbólico dos grupos subalternos, regido pelo
princípio estético da materialidadee corporeidade, onde as coisas, os seres e o
mundo por eles habitado, aparecem permanentemente envolvidos no processo vital
de constante inacabamento e renovação. Sendo assim, o pensador russo
postula, por um lado, o a prioride pares binários que conformam as dinâmicas
socioculturais e, por outro, a correspondência entre estes pares e os conteúdos
culturais dos grupos nelas envolvidos. Ora, o que serve de evidência e ponto de
partida a Bakhtin é o que compõe, justamente, os elementos que aqui
problematizamos e pretendemos captar no movimento mesmo da sua construção. Algo
semelhante se passa com a noção de obsceno, ou, mais rigorosamente, com a sua
habitual identificação com as noções de erotismo e pornografia. Se concordamos
com Frappier-Mazur (1999, p. 220) que a representação escrita de cenas e
imagens eróticas pode ser considerada obscena mesmo sem quaisquer palavras
grosseiras, pela mesma razão devemos discordar que a pornografia e o obsceno
se sobrepõe largamente (ibidem). Na nossa perspetiva, a esfera do obsceno
ultrapassa em muito a dos conteúdos e práticas da sexualidade, embora, por
vezes, a atravesse. Isto é, a pornografia e o erotismo ' conceitos de definição
e distinção controversas ' seriam, a nosso ver, um caso particular, uma
modulação específica do obsceno: nem toda a obscenidade é erótica ou
pornográfica e tão-pouco o erotismo ou a pornografia guardam, necessariamente,
a potência política do obsceno. Vejamos o poema As meninas da gare(Andrade,
1966, p. 72): Eram três ou quatro môças bem môças e bem gentis/Com cabelos mui
pretos pelas espáduas/E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas/Que de nós as
muito bem olharmos/Não tínhamos nenhuma vergonha. Trata-se da apropriação de
um trecho da Carta em que Pero Vaz Caminha informa à Coroa portuguesa sobre a
descoberta das terras que viriam a compor o Brasil. Note-se que Oswald elide
justamente a nota realística4 que, na Carta, o escrivão interpunha entre o
adjetivo saradinhas e a justificativa que de nós Com efeito, na Carta, a
ausência da vergonha parece ligada não à supressão do pudor da castidade
cristã, a uma afirmação desembaraçada do erotismo, mas à presença de uma outra
estética corporal, em que o escrivão não reconhecia as codificações do erótico,
dadas, por assim dizer, na significação genital convencionada na sua cultura de
origem. Tal supressão intensifica a duplicação semântica, presente na Carta e
mantida pelo poema, entre as vergonhas, revestimento simbólico de sentido moral
da anatomia feminina, e a vergonha, sentimento moral da castidade cristã.
Delineia-se um circuito que se fecha entre aquele que observa e enuncia e
aqueles que são observados e enunciados. No trânsito de um ao outro, reside um
desvio de sentido: o que no observado é enunciado em termos enviesados de
reprovação, as vergonhas, converte-se, no observador, em cancelamento do
automatismo da reação moralmente prescrita, isto é, a supressão da vergonha.
Oswald diria que, se o catolicismo europeu vestiu o índio, a nudez do índio
despiu o europeu.5 Isto é, o poema opera ironicamente o desnudamento do
português, a descoberta o descobrede traços centrais da sua cultura. Assim, o
potencial crítico do poema não decorre do sensualismo visual da cena, levemente
erótico. O que dispara a sua contundência obscena não são os atributos
anatómicos das meninas, ou o desembaraço de quem os observa, mas o deslocamento
cognitivo das categorias que enformam a própria observação, correlato ao
próprio deslocamento de papéis entre descobridor e descoberta.
Nesse sentido, o conceito de mundo, em Hannah Arendt (2008), abre terreno para
pensarmos o riso e o obsceno do ponto de vista não dos conteúdos semânticos
passíveis de lhes serem atribuídos, mas sim do ponto de vista de uma forma de
aparição específica. Para Arendt (2008, p. 19), o mundo ' a saber, a coisa que
surge entre as pessoas e na qual tudo o que os indivíduos trazem inatamente
consigo pode se tornar visível e audível, constitui, com efeito, um espaço de
visibilidade e discursividade, um inter-esse que separa e une os homens e que
constitui a possibilidade de toda a relação de uns com os outros. Este mundo,
por sua vez, é imprescindível para a constituição do espaço público, que, ainda
com Arendt (idem, p. 18), é constituído pela ação conjunta e a seguir se
preenche, de acordo consigo mesmo, com os acontecimentos e estórias que se
desenvolvem em história. Enquanto espaços de discurso, visão e ação, mundo e
espaço público podem ser pensados, por assim dizer, como um solo ontológico da
experiência socialmente compartilhada, um espaço cujo facto da co-habitação
entre fala e visão, entre ambas e a ação, preenche de realidade a experiência
dos homens uns com os outros, dos homens uns dos outros, enquanto seres
falantes, videntes e agentes.
Assim, tanto o riso quanto o obsceno podem ser pensados como formas de agir e
perceber na medida em que os tomarmos sob o ponto de vista da sua relação com
este espaço de experiência da perceção e da ação, considerado como uma espécie
de fundo em que tais figuras se recortam e evidenciam. Caberia, nesse sentido,
determinar a modalidade, a modulação desta relação, que faz com que tais
figuras apareçam enquanto obscenidade ou riso. A própria Hannah Arendt (idem,
pp. 15-16), referindo-se a Lessing, considera que o tipo de riso de Lessing em
Minna von Barnhelm tenta realizar a reconciliação com o mundo. Tal riso ajuda a
pessoa a encontrar um lugar no mundo, mas ironicamente, isto é, sem vender a
alma a ele. Reconciliação e realocação, desvinculados contudo de uma adesão
irrestrita ao mundo com que se reconcilia e em que se realoca: eis o riso como
uma forma de relação com mundo. Aqui ele aparece como ação/discurso, o ato de
rir, de ironizar aspetos do mundo, que dispara a aparição de aspetos do mundo
que são reduzidos ao risível, ao ironizável. Assim, o riso como tensão
instalada no intervalo entre o acolhimento e a ressalva para com uma ordenação
do mundo.
Do mesmo ponto de vista, o obsceno pode ser pensado, tal como o riso, como
ação/discurso/perceção que confronta o mundo. Portanto, a própria etimologia do
termo, obsceno como fora de cena, oferece-nos uma pista e simultaneamente
impõe-nos a sua correção. Mais do que algo relegado à exterioridade da cena,
cuja aparição estaria condicionada às meras remissões da metonímia ou da
perífrase, o obsceno requer ser pensado como uma espécie de saturação da
cena, decorrente tanto da intromissão inoportuna de elementos previamente
deportados, quanto de deslocamentos interiores que suspendem as fronteiras das
suas esferas internas de circulação simbólica. Em ambos os casos, trata-se de
exorbitar, no plano da visibilidade, da discursividade e da ação, os limites
que acondicionam o conteúdo e o continente, que circunscrevem o pertinente e o
alheio.
Cumpre, portanto, pensar o potencial político do riso e da obscenidade nos
termos das suas relações com mundo e o espaço público. Neste particular,
algumas das formulações de Jacques Rancière parecem-nos extremamente úteis.
Referimo-nos à sua noção de partilha do sensível, que, em certo sentido,
desdobra os conceitos de mundo e de espaço público de Arendt. Como aponta
Rancière (2005, p. 15):
Denomino partilha do sensível o sistema de evidências sensíveis que revela ao
mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e
suas partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa, portanto, ao mesmo
tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e
dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividade que
determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como
uns e outros tomam parte nessa partilha.
Assim, na medida em que aponta a simultaneidade da delimitação do comum e da
circunscrição de partes exclusivas no seu interior, o autor criva os conceitos
arendtianos com relações de força que atravessam a constituição do mundo da
política e configuram as dimensões da visibilidade, do discurso e da ação, isto
é, o procedimento estético em que a política opera e a operação política
contida nos procedimentos estéticos. Com efeito, o tomar parte, o participar da
política, é um processo que se apresenta, ao mesmo tempo, como produto e
produtor de um regime do sensível, o qual, segundo pensamos, pode ser
concebido como uma rede de remissão recíproca entre lugares, tempos e
atividades, que regula o grau de legitimidade de diferentes pretensões/
pertencimento ao político. Assim, parece tratar-se de uma espécie de gramática
normativa, inscrita, justamente, nas evidências sensíveis, a partir das
quais, mediante afinidades, simpatias e repulsas simbólicas, se prescrevem, se
admitem e se repelem as diversas possibilidades de ação e do discurso no plano
político.
Nesse sentido, a abjeção da obscenidade reside no inconveniente político-
simbólico acionado sempre que os signos insistem em extraviar-se dos seus
circuitos, as coisas e os lugares não cessam de se repelir, os sujeitos teimam
em esquivar-se das suas posições. O obsceno como a deriva dos co-pertencimentos
que armam uma partilha do sensível, que estabilizam uma cena.
Analogamente, tanto a dimensão de abstenção ou conivência, quanto a de ofensa
contidas na comicidade e na ironia do riso, podem ser tomadas na sua relação
com a gramática normativa do político. Tratar-se-ia, num primeiro momento, de
uma suspensão das suas regras, da sua desnaturalização, que, num segundo
momento, seriam recolocadas pela ridicularização da sua inobservância (o riso
como advertência de regulação), ou, num sentido diverso, subvertidas pela
ironização dos seus princípios, explicitando, justamente, o caráter artificioso
da partilha, a inevidência das evidências sensíveis, reabrindo-as, assim, à
possibilidade de novas invenções do político.
No contexto considerado, as mudanças sociais que atravessavam por todos os
lados a sociedade paulista arrastavam consigo antigos referenciais, deslocando
as fronteiras que demarcavam identidades e posições. No momento mesmo em que
letrados e políticos paulistas fabulavam o elogio e exaltação das
prodigalidades de São Paulo, as mesmas forças que compunham os temas da sua
celebração colaboravam também para a relativa corrosão da ordem simbólica de
cuja construção se investiram. Dessa forma, traçavam-se no espaço social as
novas linhas nas quais simultaneamente se ia inscrevendo o texto da
paulistanidade/nacionalidade. Dito mais precisamente, esboçavam-se linhas de
contornos ainda indefinidos, pois que controversas eram as versões dos próprios
textos a preenchê-las, as disputas em torno do léxico e sintaxe sociais a lhes
conferir forma e matéria, e, por fim, as tramas, tecidas no equilíbrio precário
dos confrontamentos.
No poema Biblioteca Nacional, a conflitualidade simbólica gerada em tais
processos comparece, uma vez mais, no interior da elaboração estética de
Oswald de Andrade (1966, p. 115): A criança Abandonada/ O doutor Coppelius/
Vamos com Ele/ Senhorita Primavera/ Código Civil Brasileiro/ A arte de ganhar
no bicho/ O Orador Popular/ O Pólo em Chamas. O procedimento paródico e
irónico, com o seu efeito de suspensão da evidência de um sentido único e
inequívoco, conduz-nos para além da constatação de que a peça pode ser lida
como exemplo da destreza de Oswald em compor, nas palavras de Campos (1972, p.
xix), penetrantes ideogramas lírico-satíricos da realidade nacional e das
condições alienadas em que ela se manifesta, levando-nos a assinalar a
ambivalência do efeito cómico deflagrado pela enunciação dos títulos de livros
dispostos na estante, em cuja sequência linear, entre as sugestões de
respeitabilidade erudita e oficialesca do Código Civil Brasileiroe de
prescrições retóricas de O Orador Popular, é maliciosa e sorrateiramente
introduzida A arte de ganhar no bicho(o único grafado com minúsculas), cuja
hipotética publicação em livro, já vale por si só um gesto de sátira corrosiva.
É quase inevitável a perceção da gargalhada oswaldiana irrompendo nas
entrelinhas destes versos, comprazendo-se em promover, inadvertidamente, a
intromissão, no seio do templo da cultura oficial, do contraste entre o
pedantismo da cultura afetada e livresca das elites de bacharéis e a ludicidade
irreverente das pequenas contravenções populares. Entretanto, é igualmente
inevitável apontar a possibilidade de o riso oswaldiano se ter nutrido da
energia de possíveis efeitos catárticos, oriundos da sua inserção numa lógica
cultural com cujos imperativos políticos o autor, enquanto pretendente a uma
posição consolidada de escritor, se impeliu a transigir com certa complacência.
Assim, se o humor poético de Oswald deflagra o estranhamento face à
naturalização dos lugares sociais da cultura, suspendendo a hierarquização
simbólica entre os seus universos e as pretensões ao monopólio da legitimidade
cultural, incluindo aí uma alfinetada irónica nos círculos que o acolheram ' e
portanto em si mesmo ' não deixou de funcionar, pelo que encerra de meias-
palavras, como expediente gracioso de reiteração dos vínculos simbólicos
tecidos no interior destes mesmos círculos de sociabilidade.
Devemos observar que o efeito de suspensão das evidências que configuram a
gramática social reguladora da legitimidade cultural, no caso as obras
dignas de figurarem na Biblioteca Nacional, isto é, o efeito cómico, para
falarmos com Saliba (2000, p. 26), de desfamiliarização do familiar, provém,
justamente, da desestabilização das fronteiras que tal gramaticalidade traçava
entre os grupos e repertórios socioculturais hegemónicos e subalternos. Isto é,
o humor oswaldiano parece fundar-se, primordialmente, na potência do obsceno
em baralhar as co-pertinências socialmente instituídas entre os signos, os
sujeitos e as posições sociais.
Portanto, a antropofagia opera mediante uma espécie de contrabando estético-
cultural, mobilizando elementos heterogéneos saqueados dos mais diversos
repertórios e procedendo à sua intromissão no interior de universos culturais
nos quais, a princípio, são estranhos, desautorizados e, muitas vezes,
inoportunos. Daí, em grande parte, o riso e a obscenidade do antropófago
Oswald. Cabe, com efeito, pensar as figurações do riso e da obscenidade
acionadas pela estética oswaldiana como formas de tensionamento do espaço
político. Captar a medida em que o contrabando oswaldiano agencia os
potenciais políticos da dinâmica social em que se insere, a medida em que
pacifica a conflitualidade do riso e da obscenidade em reconciliação ou a
potencializa em subversão, leva-nos a uma breve discussão sobre poder e espaço
social.
O MOMENTO FOUCAULT: A ONTOLOGIA DO PODER
Em certo sentido, podemos dizer que Foucault radicaliza a visão gramsciniana
que apontamos acima, acerca da dinâmica social como uma dinâmica de poder. Como
aponta o filósofo francês (2005, p. 22):
O poder é a guerra, é a guerra continuada por outros meios. E, neste momento,
inverteríamos a proposição de Clausewitz e diríamos que a política é a guerra
continuada por outros meios. [ ] as relações de poder, tais como funcionam numa
sociedade como a nossa, têm essencialmente como ponto de ancoragem uma certa
relação de força estabelecida em dado momento, historicamente precisável, na
guerra e pela guerra. E, se e verdade que o poder político pára a guerra, faz
reinar ou tenta fazer reinar uma paz na sociedade civil, não é de modo algum
para suspender os efeitos da guerra ou para neutralizar o desequilíbrio que se
manifestou na batalha final da guerra. O poder político, nessa hipótese, teria
como função reinserir perpetuamente essa relação de força, mediante uma espécie
de guerra silenciosa e de reinseri-la nas instituições, nas desigualdades
econômicas, na linguagem, até nos corpos de uns e de outros. Seria pois, o
primeiro sentido a dar a esta inversão do aforismo de Clausewitz: a política é
a guerra continuada por outros meios isto é, a política é a sanção e a
recondução do desequilíbrio das forças manifestado na guerra.
Embora possamos extrair de tais formulações uma conceção do social que, tal
como em Gramsci, considera as relações sociais como dinâmicas de poder, estamos
distantes do primado que o pensador italiano concede ao Estado e à sociedade
civil, como entidades substanciais entre as quais se instala o poder. O
materialismo ' se assim se pode dizer ' gramsciniano assenta sobre o primado
ontológico da dialética sujeito-objeto, o que transparece, entre outras
formulações, na conceção que Gramsci (1977, p. 1244, [apud Simionatto, mimeo]),
elabora da política como catarse:
Pode-se empregar o termo catarse para indicar a passagem do meramente econômico
(ou egoístico-passional) para o momento ético-político, ou seja, a elaboração
superior da estrutura em superestrutura na consciência dos homens. Isso
significa, também, a passagem do objetivo ao subjetivo. A estrutura, a força
exterior que esmaga o homem, que o assimila a si, que o torna passivo,
transforma-se em meio de liberdade, em instrumento para criar uma nova forma
ético-política, em origem de novas iniciativas.
O materialismo de Foucault, por seu turno, parece ater-se ao materialismo do
próprio poder, e, mais profundamente, à própria materialidade como efeito das
relações de poder. Para Foucault, parece não haver, em particular, Estado,
sociedade civil, ou mesmo, em geral, instituições, linguageme corpos, que
precedam às relações de poder, que não existam senão na medida em que se
efetivam, em que se objetivam nas e pelas relações de poder. O primado
ontológico do poder, as relações de poder como produtoras de real, de
subjetividades e objetividades, levam as considerações foucaultianas acerca da
dominação a desviarem-se de seu suposto polo central, a soberania ' a partir do
qual a dominação se exerceria sobre o conjunto de sujeitos a ela submetidos '
para se dirigir à problemática dos mecanismos pelos quais o poder se exerce,
que circunscrevem o plano de constituição dos sujeitos e das instituições, que
atrelam as disposições subjetivas daqueles à ordem objetiva destas, que
produzem, numa palavra, a sujeição. Como adverte Foucault (2005, pp. 31-32):
E, com dominação, não quero dizer o fato maciço de uma dominação global de um
sobre os outros, ou de um grupo sobre o outro, mas as múltiplas formas de
dominação que podem se exercer no interior da sociedade: não, portanto, o rei
em sua posição central, mas os súditos em suas relações recíprocas; não a
soberania em seu edifício único, mas as múltiplas sujeições que ocorreram e
funcionam no interior do corpo social.
Portanto, deste ponto de vista, o poder não é algo que se imponha, de fora,
aos sujeitos, mas algo que, desde dentro, constitui sujeitos. Assim, podemos
extrair da conceção de Foucault o facto de que não há sujeitos a priori. Os
sujeitos são produzidos nos processos de subjetivação que, em larga medida,
assumem a forma de processos de sujeição. Aqui tocamos num ponto crucial à
nossa problematização, referimo-nos a um vetor de reflexão que parece
atravessar a filosofia de Foucault, algo que poderíamos nomear como o tema das
relações entre forçae forma. Isto é, formas de subjetividade, de poder, formas
institucionais e de discurso, que se inscrevem nas configurações de força que
articulam um espaço social. Sendo assim, a literatura oswaldiana pode ser
pensada como espaço estético co-extensivo ao espaço social assim concebido.
Entre outros lances poéticos, é interessante observar, nesse sentido, o
tratamento dado às comemorações do Carnaval, no dizer do próprio poeta
(Andrade, 1972 [1924], p. 203), acontecimento religioso da raça, em dois
poemas paralelos, Nossa senhora dos cordões(idem, 1966, p. 102):
Evoé/Protetora do Carnaval em Botafogo/Mãe do rancho vitorioso/Nas pugnas de
Momo/Auxiliadora dos artísticos trabalhos/Do barracão/Patrona do livro de ouro/
Protege nosso querido artista Pedrinho/Como o chamamos na intimidade/Para que o
brilhante cortejo/Que vamos sobremeter à apreciação/Do culto povo carioca/ E da
Imprensa Brasileira/Acérrima defensora da verdade e da Razão/Seja o mais
luxuoso novo e original/E tenha o veredictum unânime/No grande prélio/Que
dentro de poucas horas/Se travará entre as hostes aguerridas/Do Riso e da
Loucura;
Seguido de Na avenida (idem, p. 103):
A banda de clarins/Anuncia com os seus clangorosos sons/A aproximação do
impetuoso cortejo/A comissão de frente/Composta/De distintos cavaleiros da boa
sociedade/Rigorosamente trajados/E montando fogosos corcéis/Pede licença de
chapéu na mão/20 crianças representando de vespas/Constituem a guarda de honra/
Da Porta-Estandarte/Que é precedida de 20 damas/Fantasiadas de pavão/Quando 40
homens do coro/Conduzindo palmas/E artisticamente fantasiados de papoulas/Abrem
a alegoria/Do Palácio Floral/Entre luzes elétricas.
Deve-se observar que o Carnaval demarcava uma arena simbólica de confrontos
entre a cultura dos grupos hegemónicos e a dos grupos subalternos. A atração
que os festejos dos bairros populares exerciam sobre alguns segmentos das
elites consubstanciava as recomposições de forças que atravessavam a dinâmica
sociocultural da cidade (Sevcenko, 1992). É deste núcleo de tensão que parece
nutrir-se o Carnaval oswaldiano. Os dois poemas defrontam o universo popular,
referido simultaneamente na evocação da festiva santidade de uma nossa senhora
dos cordões, e o universo dos grupos hegemônicos, designado na alocação solene
e distinta de na avenida6. E, cumpre notar, fazem pender o equilíbrio de forças
para o lado do rancho vitorioso. Este movimento é observável na diferença dos
registos. No primeiro poema, mais afeito ao universo popular, exaltam-se
osartísticos trabalhos do barracão, atesta-se a intimidade, no diminutivo
afetuoso, com o queridoartista Pedrinho, no mesmo passo em que se ironiza o
culto povo cariocae a Imprensa Brasileira, acérrima defensora da Verdade e da
Razão. Mas, mais importante, o poema desloca a sua enunciação para o interior
do universo narrado: o brilhante cortejo quevamos sobremeter à apreciação. Ao
passo que no segundo poema observa-se um relativo decréscimo de exaltação e
euforia. Embora ricos na descrição visual da festa, os versos restringem-se à
apresentação do cortejo, sem gestos que denotem comprometimentos, sejam apelos
a padroeiros, sejam afirmações de co-participação. O poeta sai do barracão e
assiste à festa na avenida, observando-a de fora, do passeio. As composições
circunscrevem, assim, uma espécie de espaço de (re)subjetivação, em que o
poeta, filho da elite paulistana, reagencia as suas disposições e
pertencimentos, articulando-os ao regime de afetos e signos dos grupos
subalternos.
É simultaneamente a este gesto que o poema convoca obscenamente os grupos
subalternos para o centro da cena hegemónica, ao promover os seus agentes e
manifestações à categoria de artistas e de arte. Entretanto, o registo neutro
que deixa intocadas as manifestações da avenida ' salvo um possível sarcasmo
contido no deslizamento semântico de cavalheiros para cavaleiros ' deixa, no
mesmo passo, simbolicamente também intocadas as composições de forças e as
dinâmicas de poder que articulam os próprios critérios do que se define como
arte e artistas. O que mais importa, contudo, é assinalar que justamente no
entrecruzamento entre tais forças que se circunscreve o ponto de
(re)subjetivação de Oswald, o que se manifesta, em termos da composição, na
própria bipartição do Carnaval: de um lado os barracões, de outro a avenida,
compartimentados e apartados, mas não inteiramente imunes à presença daquele '
o próprio poeta ' que se interpõe entre ambos e abre, obscenamente, a
perigosa possibilidade das invasões e dos contágios recíprocos.
Portanto, se o poder anima e configura corpos e linguagens, sujeitos e
instituições, podemos concebê-lo como o feixe de forças em que o social, o
discursivo e o subjetivo se articulam. Por outras palavras, a ontologia
foucaultiana instaura uma rede de relações de forças em cuja trama conflitiva
se inscrevem e ganham contornos provisórios, posto que litigiosos, as formas do
social, do subjetivo e do literário. Assim, a nossa questão sobre literatura e
política, assentada sobre a interseção entre dinâmica social, subjetivação e
escrita literária, circunscreve a estética oswaldiana como um espaço de embate
em que o social, o subjetivo e o literário se confrontam e se deslocam
mutuamente. A elaboração estética configura-se, portanto, na relação de
simultaneidade entre a dinâmica social que adentra, subjetiva e
discursivamente, o texto, e o próprio texto literário como força discursiva que
intervém na dinâmica social ' relação em cujo interior o cómico e o obsceno
antropófago Oswald emerge enquanto sujeito, social e subjetivamente, inclinado
a escritor e, simultaneamente, enquanto escritor que investiu a literatura da
possibilidade de um espaço em que se (re)colocar como sujeito, seja na
transigência, seja na dissensão com os imperativos e solicitações que a
dinâmica social reservava ao homem de letras.
O que equivale a dizer, matizando a interrogação de momentos acima, que, se é
possível pensar, com Bertelli e Pellegrini (2009), a parte que coube ao
modernismo oswaldiano na construção de uma nacionalidade paulicêntrica, deve-se
também atentar para as dimensões da sua literatura que, de um modo ou de outro,
solapavam a arquitetura da nação plasmada sob a ótica paulista. Isto é,
considerar o próprio modernismo oswaldiano como elaboração que se teceu,
subjetiva e socialmente, nas linhas de força que atravessavam o espaço social
paulistano, na medida mesma que com elas se entreteceu enquanto uma linha
literária em confronto, em luta ou em colaboração, com as demais.
Nesse sentido, as formulações de Foucault são igualmente úteis na deteção da
lógica que presidiu à canalização das forças do espaço social para o interior
da estética oswaldiana. Vejamos o que nos propôs Oswald de Andrade (1972
[1924], p. 207):
Temos a base dupla e presente ' a floresta e a escola. A raça crédula e
dualista e a geometria, a álgebra e a química logo depois da mamadeira e do chá
de erva-doce. Um misto de dorme nenê que bicho vem pega e de equações. [ ]
Obuses de elevadores, cubos de arranha-céu e a sábia preguiça solar. A reza. O
Carnaval. A energia íntima. O sabiá. A hospitalidade um pouco sensual, amorosa.
A saudade dos pajés e os campos de aviação militar.
Mais que mistura entre repertórios e linguagens distintas, a devoração
antropofágica, enquanto poética dos fluxos e deslocamentos culturais, tendia à
revogação dos contornos que delimitavam identidades e universos culturais, que
traçavam as fronteiras hierárquicas entre o erudito e o popular, o hegemónico e
o subalterno. Como se observa em Relicário: No baile da Corte/Foi o Conde d'Eu
quem disse/Pra Dona Benvinda/Que farinha do Suruí/Pinga de Parati/Fumo de
Baependi/É comê bebê pitá e caí (Andrade, 1966, p. 86).
O intercurso entre o conde, devidamente particularizado, dirigindo-se a uma
genérica dona, pronome típico do tratamento popular, arma a interação entre
ambos de modo a transparecer um tom amigável, que faz supor uma sociabilidade
modulada pela conciliação, em que as partes interagem apoiadas num consenso.
Leitura esta que pode ser reforçada pelo conde, posição de enunciação erudita/
hegemónica, vinculado ao enunciado revestido, no conteúdo e na expressão, de
caráter popular/subalterno: comêbebê pitá e caí.
Entretanto, esta leitura de caráter descritivo pode assumir novos contornos, se
atentarmos nos termos e nas lógicas socioculturais que a cena agencia. É neste
ponto que a noção de genealogia intervém:
A genealogia seria, pois, relativamente ao projeto de uma inserção dos saberes
na hierarquia do poder próprio da ciência, uma espécie de empreendimento para
dessujeitar os saberes históricos e torna-los livres, isto é, capazes de
oposição e de luta contra a coerção de um discurso teórico unitário, formal e
científico. A reativação dos saberes locais, menores, talvez dissesse Deleuze
' contra a hierarquização científica do conhecimento e seus efeitos de poder
intrínsecos, esse é o projeto dessas genealogias em desordem e picadinhas. Eu
diria em duas palavras o seguinte: a arqueologia seria o método próprio da
análise das discursividades locais, e a genealogia, a tática que faz intervir,
a partir dessas discursividades locais assim descritas, os saberes
dessujeitados que daí se desprendem [Foucault, 2005, pp. 15-16].
Assim, a noção de genealogia pode orientar a análise dos procedimentos de
saque e contrabando estético-cultural que a poética antropofágica
mobilizavaintra e entre universos sociais. Com efeito, tais considerações de
Foucault sugerem-nos a interrogar a estética oswaldiana enquanto construção que
se erigiu mediante a seleção e reaproveitamento poético de ingredientes
culturais que fervilhavam no bojo dos conflitos socioculturais do espaço social
e, na mesma medida, a interrogar os efeitos estético-políticos desta inserção
de saberes culturais diversos na hierarquia da literatura. Nos termos de
Foucault (2005, p. 11), trata-se de investigar o potencial antropofágico de
insurreição dos saberes sujeitados:
[ ] por saber sujeitado [ ] quero designar, em suma, conteúdos históricos que
foram sepultados, mascarados em coerências funcionais ou em sistematizações
formais. [ ] apenas os conteúdos históricos podem permitir descobrir a clivagem
dos enfrentamentos e das lutas que as ordenações funcionais ou as organizações
sistemáticas tiveram como objetivo, justamente, mascarar. Portanto, os saberes
sujeitados são blocos de saberes históricos que estavam presentes e disfarçados
no interior dos conjuntos funcionais e sistemáticos [ ].
Operacionalizadas nos termos que propomos, as considerações de Foucault
apontam para o facto de que toda a ordem, todo o regime discursivo e de poder
que definem uma gramática do social, das subjetividades e da literatura, se
situa sobre o terreno movediço da clivagem dos enfrentamentos e das lutas.
Portanto, no âmbito das relações que o modernismo oswaldiano teceu, por um
lado, com o nacionalismo bandeirante paulista e, por outro, com os repertórios
e lógicas culturais dos grupos subalternos, cumpre averiguar a medida de
pacificação ou de intensificação de conflitos operada pela estética
antropofágica, mediante a identificação do grau de desarticulação da potência
do popular através da sua filtragem pelo erudito ou da subversão do erudito
através da sua desmontagem pelo popular. Isto é, mediante a análise da equação
antropofágica destes elementos: Oswald submete os ingredientes populares/
subalternos à ordenação da lógica cultural do universo erudito/hegemónico ou,
ao contrário, submete os ingredientes eruditos/hegemónicos à lógica cultural do
universo popular/subalterno? Ou, ainda, oscila entre estes dois
equacionamentos?
Visto desta ótica, o arranjo da cena de Relicárioagencia literariamente o ponto
nevrálgico da conflitualidade implicada na diversificação sociocultural de São
Paulo, na medida em que a circunscreve no confronto entre o hegemónico e o
subalterno, o erudito e popular. A simples possibilidade de interação entre o
condee dona Benvinda desconjunta os pertencimentos e legitimidades de toda uma
ordem social. A aparente placidez dos versos repousa, assim, sobre a
truculência de amplos deslocamentos e realocações entre sujeitos e posições,
que, numa sociedade altamente hierarquizada, como a brasileira, encerram um
alto grau de obscenidade. A lógica sociocultural da sociabilidade de corte é
antropofagicamente contagiada pelos termos contrabandeados do repertório
popular, a pinga, a farinha, o fumo, que, longe de serem assimilados, acabam
por rearticular as interações, as condutas e a linguagem: comê, bebê, pitá,
caí. Donde o riso que se insinua entre os versos, advindo do caráter
inadvertido do processo, em que o popular ironicamente confere forma e conteúdo
à sociabilidade das elites.
Eis algumas das questões imprescindíveis à identificação dos procedimentos
políticos inscritos na estética antropofágica. Tomá-las como parâmetro talvez
possibilite explicitar os princípios que presidiram, estética e politicamente,
à fundação da República Pau-Brasil, como figuração assumida pela descoberta
do Brasil, missão e façanha que os escritores e artistas de 22 se auto-
imputaram. Sobretudo se pensarmos que a proclamada fundação modernista da
nacionalidade implicou, em larga medida, o elogio estético e cultural do
popular rude e iletrado na pátria do beletrismo elitista e afrancesado.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Evidentemente, os momentos deste texto dificilmente se prestam a uma síntese
final. Entretanto, pode-se divisar uma linha que, ainda que ténue, estenda o
fio da meada das problematizações que articulamos. Bourdieu marca um ponto de
partida consistente, tanto com os ganhos teóricos presentes na sua conceção do
espaço social como campos de força regidos por homologias, quanto com as suas
eventuais deficiências na apreensão da dinâmica de subjetivação. Os três
momentos subsequentes desdobram-se daí. Gramsci reafirma o caráter de
relações de poder das dinâmicas socioculturais, sem atrelar, entretanto, a
adesão ou a dissidência à internalização/exteriorização das estruturas
objetivas do espaço social. Arendt e Rancière permitem especificar as relações
de força do social de modo mais apropriado a uma sociologia política da
estética literária, além de elucidarem a politicidade do risoe do obsceno,
categorias pertinentes à nossa problematização. Por fim, Foucault leva as
relações de força às suas últimas consequências ontológicas, permitindo enfocar
o literário como elemento constituído pelas ' e simultaneamente constituinte
das ' dinâmicas sociais, o que abre a própria escritura como território de
subjetivação. Tais considerações apontam para a necessidade de se evitar uma
visão substancializada do fenómeno político e do literário, assim como das
dimensões sociais, estéticas e subjetivas que eles encerram.
Portanto, se o enfoque da constituição recíproca entre a dinâmica social, o
processo de subjetivação e a elaboração literária é uma pré-condição para se
captar o político inscrito no estético e o estético que opera no político, a
discussão que vimos empreendendo leva-nos a afirmar, provisoriamente, que o
elemento a ser perseguido pela análise deve ser aquele que, justamente, é o
traço de ancoragem em que se dá a interseção destes termos, o vetor que os
atravessa e que os articula num mecanismo de remissão recíproca, que os
transforma num dispositivo literário.
De qualquer modo, parece certo que a antropofagia oswaldiana, para além ou
aquém das interpretações ligadas à ideia de representação, pode ser tomada como
a explicitação, a presentaçãoestética dos confrontamentos político-culturais
que clivavam a dinâmica de transformações em São Paulo. A obra como nó estético
que se insere e se enlaça às linhas conflitivas que armam um espaço social, que
delineiam as suas possibilidades subjetivas. E, podemos complementar, retomando
as epígrafes destas considerações, o antropófago Oswald e a sua prática
devorativa como limiar litigioso da gramaticalidade do social e da socialidade
da literatura, fronteira movediça de contágios, contrabandos, deportações e
repulsas entre dicções, grupos e dialetos evocados, muitas vezes à sua própria
revelia, pela estética do modernista.
Como estas considerações não são um ponto de chegada, mas, no máximo, o esboço
de um ponto de partida, terminemos com as perguntas que elas mesmas nos
sugerem: em termos sociais e literários, o riso e a obscenidade antropofágicos
não traçariam um tenso limiar entre a cumplicidade e a dissidência em relação à
ordem sociosimbólica de que a estética oswaldiana era co-partícipe?
Correlatamente, em termos subjetivos e identitários, não se poderia pensar o
humor oswaldiano como um gesto poético que se instaura na incongruência entre
os potenciais rebeldes da sua subjetividade e as solicitações simbólicas de sua
identidade de homem de letras, configurada nos contornos da ordem social
hegemónica? Isto é, não estaríamos diante de uma literatura situada na tensa
aproximação de uma subjetividade mal ajustada à identidade que o autor
insinua acolher, no mesmo passo em que procede à sua ridicularização? E ainda,
se coube a Oswald um quinhão nos esforços de construção da paulistanidade/
nacionalidade bandeirante, tal cumplicidade não seria também um via de acesso
simbólico à cultura oficial, por meio da qual o autor traria, obscenamente,
para o centro da cena hegemónica, elementos identitários e subjetivos por ela
marginalizados, elementos oriundos da sua própria experiência social ou dos
universos simbólicos dos grupos subalternos? Por fim, tais considerações não
poderiam ser estendidas aos arroubos obscenos que, muito frequentemente,
vinham de par com o seu escárnio? Isto é, a antropofagia não se armaria, ele
mesma, da aliança entre risoe obscenidade? Pois, conforme apontamos, não há
menos obscenidade no humorismo da Biblioteca Nacional que humorismo na
obscenidade do baile na corte.