Theoria hominis: Hermínio Martins, filosofia, ciência e tecnologia
Theoriahominis: Hermínio Martins, filosofia, ciência e tecnologia.
Renato Rodrigues Kinouchi*1
*Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC ' Brasil.
E-mail: renato.kinouchi@gmail.com
Há 50 anos, a filosofia da ciência encontrava-se prestes a sofrer uma
importante inflexão. Durante décadas, ela havia estado associada, quase
exclusivamente, à lógica e à epistemologia na tarefa de elucidar, dentro do
contexto da justificação, quais os procedimentos metodológicos que garantiriam
a adequada fundamentação do conhecimento científico. No entanto, o notável
impacto do livro TheStructure of Scientific Revolutions(Kuhn, 1962) abalou
diversas teses das visões então predominantes, e provocou uma acentuada
reavaliação do papel da história da ciência, bem como da sociologia, num
terreno anteriormente defendido como prioritariamente filosófico. A partir de
então, a paisagem teórica, por assim dizer, alterou-se de maneira significativa
e nenhum dos ramos disciplinares logrou novamente entronizar-se no comando das
investigações sobre a ciência, ainda que alguns deles possam não ter abdicado
dessa pretensão.
Foi dentro desse extraordinário contexto que Hermínio Martins publicou o seu
primeiro texto teórico longo em inglês ' intitulado The Kuhnian revolution'
and its implications for sociology ' cujo objetivo era o de analisar as
implicações das teses kuhnianas para o estabelecimento de uma sociologia do
conhecimento científico, que a um só tempo superasse, por um lado, a corrente
mertoniana e, por outro, o relativismo epistemológico. Cumpre sublinhar a
presteza com que Martins (1972) intuiu a senda aberta por Kuhn; em entrevista
recente (Jerónimo, 2011), relata que se debruçara sobre a obra pouco depois do
seu lançamento e, além disso, que foi o primeiro sociólogo a escrever um longo
texto sobre o assunto (Martins, 1972), apenas dois anos após a publicação da
coletânea Criticismand the Growth of Knowledge, organizada por Lakatos e
Musgrave (1970).
A trajetória de Hermínio Martins já foi apropriadamente apreciada por Garcia
(2006) na sua introdução à coletânea Razão, Tempo e Tecnologia. Aqui, o nosso
intuito é apenas o de mostrar como essa trajetória muito dificilmente se
enquadra em determinadas dicotomias que se tornaram clichês nos últimos 50
anos. No plano geral, recordemos a famosa dicotomia das duas culturas de Snow
(2001 [1959]), a opor cientistas ' que trariam o futuro em seus ossos ' e
intelectuais ' que, no entender de Snow, mal perceberiam a sua própria
scientificilliteracy (curiosamente, tal défice já havia sido apontado por
Álvaro de Campos, ao glosar que poucos se apercebem que O binómio de Newton é
tão belo como a Vénus de Milo). Por outro lado, particularmente no plano da
filosofia, mas com repercussões em áreas adjacentes, há a dicotomia entre o
estilo analítico de investigação filosófica ' reputado como claro, preciso, mas
geralmente circunscrito a questões de linguagem ' e o dito continental ' cuja
variada gama de orientações só encontra abrigo comum sob o rótulo devido a
todas serem consideradas não-analíticas. Cabe agora perguntar: qual o lugar de
Hermínio Martins nessas dicotomias que povoaram o imaginário da academia por
tantos anos? Trata-se de um cientista ou de um intelectual? E em relação ao
muito que há de filosofia na sua obra, esta é analítica ou continental?
Creio que a imensa maioria dos leitores há-de reconhecer o conteúdo científico
presente no ExperimentumHumanum de Hermínio Martins (2011). Se houver dúvidas a
esse respeito, cumpre esclarecer que o autor faz prioritariamente teoria, uma
modalidade de estudos que já gozou de maior prestígio, e que o empirismo
vigente tende a depreciar. Todavia, mesmo que utilizemos critérios mais
pragmáticos, tais como o da utilidade prática do seu pensamento, Hermínio
Martins faz ciência indubitavelmente (conquanto faça ética, também, como
veremos). Por exemplo, a sua análise dos conceitos de risco e incerteza (2011,
cap. V) é um dos elementos mais práticos que pode haver para as sociedades
contemporâneas: basta notar a incrível expansão da indústria de seguros ' que
se faz acompanhar pelo recuo dos Estados nos setores da saúde e da previdência
social (2011, pp. 204-205) ' e das indústrias lúdicas, dos casinos e das
lotarias. Capaz de articular um arco argumentativo que compreende Cournot, Von
Mises, Peirce, Popper, Keynes e Knight, entre outros, o teórico social oferece
uma síntese daquilo que se poderia denominar de tentativas de domesticação do
acaso (Hacking, 1990) no terreno das avaliações de risco, chamando a atenção
para a insuficiência do conceito de risco e para a necessidade do conceito
de incerteza. Ocorre que no caso de Hermínio Martins, o cientista não inibe o
intelectual. Exercendo essa última função, o sociólogo alerta-nos, neste texto
em particular, mas também em diversos outros, sobre as ameaças escamoteadas por
análises deficientes no que diz respeito às incertezas epistémicas relativas ao
alcance e à irreversibilidade das decisões tecno-científico-económicas. Em
resumo, Hermínio Martins é um cientista e é um intelectual, e não apresenta
contradições performáticas na atuação destes dois papéis.
No tocante ao estilofilosófico do sociólogo português, de certo apresenta uma
forte componente analítica; e provavelmente não poderia ser diferente, dado o
seu convívio junto à nata da filosofia da ciência anglo-saxónica. Todavia,
Martins (2011, e.g., cap. II) empreende uma intensa reflexão sobre a
importância, para o bem e para o mal, da visão fáustica da tecnologia, cujos
expoentes (bastante heterogéneos nas suas opiniões) são usualmente
classificados como continentais: Spengler, Heidegger, Adorno e Horkheimer,
entre tantos outros. Ocorre que em Martins (2011), clareza, precisão e rigor
analíticos se associam a uma enorme erudição filosófica, que se derrama em
períodos longos, mediante um vocabulário rico e repleto de neologismos. E
nisso ele não faz concessões: não substitui uma boa frase longa por dez curtas,
nem expressões semanticamente ricas por outras mais pedestres. Enfim, não cai
nas facilidades dos papers. Entretanto, em hipótese alguma transige com o tipo
de verborragia sincrética que foi exposta ao ridículo há alguns anos atrás e,
por conseguinte, afasta-se completamente do tipo ideal do filósofo continental
que os analíticos costumam pintar: confuso, obscuro e enredado por conceitos
metafísicos que não possuem referente algum, exceto na cabeça daqueles que
sofreram semelhante inculcation.
Para finalizar, vale a pena assinalar uma questão de fundo que perpassa todo o
ExperimentumHumanum, mas que fica mais saliente quando o autor discute temas
como o gnoticismo tecnológico(cap. 1); a sucessão de teodiceias e
antropodiceias que atravessam a história do pensamento ocidental (cap. 3); ou
ainda o ritmo acelerado do desenvolvimento tecnológico (cap. 8), que promete
para breve alcançar um de seus mais significativos patamares ' a possibilidade
de efetivar o trans-humanismo ', num crescendo exponencial a caminho da última
das utopias, a singularidade. O que me parece é que ao procurar fornecer algum
tipo de compreensão total (à maneira de Mauss?) do experimento da humanidade,
Hermínio Martins implicitamente tece a sua teoria do homem. Salvo engano da
minha parte, é uma teoria cética, no melhor sentido da palavra, que desmonta
aqueles sistemas de crenças, mostra-lhes a sua história, as suas contingências,
assim como a vaidade que os anima. Essa visão cética, porém, não recai na
misantropia ou na censura generalizada à ciência (no que diz respeito a esse
tipo de reflexão em língua portuguesa, cf. Aires, 2005 [1752], pp. 130-149).
Pelo contrário, há uma forte sensibilidade humanista, já destacada pelo
filósofo Hugh Lacey. A propósito, parece-me sintomático que a apreciação desse
humanismo venha de um estudioso com vivências tão marcadamente multiculturais
quanto as de Martins; Hugh Lacey é australiano, radicado nos Estados Unidos, e
fluente em português em virtude de mais de quarenta anos de colaboração com
universidades brasileiras. Ocorre-me que as trajetórias de ambos, no conjunto,
recobrem cinco continentes. E relembro-me de que no universo da cultura o
centro está em toda parte (Reale, 1994, p. 46).