O poder visível: D. Carlos, a imprensa e a opinião pública no final da
monarquia constitucional
INTRODUÇÃO: A EMERGÊNCIA DA MASSPOLITIK EM PORTUGAL
Num livro publicado em 1906, Sampaio Bruno utilizou uma pequena história para
ilustrar o que considerava ser a falta de cultura e consciência cívica dos
portugueses, referindo ser frequente deparar com pessoas que desconheciam o
nome e a existência dos monarcas nacionais. Segundo ele, uma vez, em Braga,
estavam dobrando os sinos para as exéquias de D. Pedro V. Um lavrador acercou-
se de um amigo meu e perguntou-lhe por quem dobravam os sinos ' Por D. Pedro V.
O homem arregalou os olhos e depois sorriu: ' Ah! Sim; entendo; algum sujeito
lá de Lisboa (Bruno, 1906, p. 110).
A ter sido verdade, este episódio data de 1861, dois anos antes do nascimento
do futuro rei D. Carlos. É menos provável ' embora no Portugal rural mais
recôndito não fosse impossível ' que semelhante ignorância fosse regra geral
décadas mais tarde, aquando da morte de D. Carlos. Quanto mais não seja porque
o penúltimo monarca português, sobrinho de D. Pedro V, reinou num tempo de
espaço público e opinião pública renovados e alargados, em que o voyeurismo da
imprensa e a divulgação da fotografia emprestaram ao poder uma visibilidade
nova, iniciando assim, também em Portugal, a tendência para a mediatização das
figuras do Estado e da política.
Ser rei na época em que D. Carlos o foi (1889-1908), com as responsabilidades
que a cultura política do liberalismo e a letra da Carta Constitucional exigiam
aos monarcas, e perante os múltiplos desafios que o país vivia, estava longe de
ser uma tarefa simples. Os finais do século XIX e inícios do século XX, ou
seja, o período que vai do ultimato ao regicídio (e depois à implantação da
República), foram uma época de acrescida instabilidade e agitação, reveladora
do impasse e crise de velhas estruturas políticas, institucionais, económicas e
sociais, vivida num ambiente cultural e mental de pessimismo e de
decadentismo. Tudo isto contribuiu para a erosão da velha legitimidade
monárquica e para o crescente confronto desta com a nova força ideológica do
republicanismo. Por todo o país, mas particularmente no universo sociopolítico
de Lisboa, generalizou-se um clima de contestação e de busca de renovação que
colocava em xeque não apenas a ordem pública imediata, mas também as velhas
convenções constitucionais e certezas culturais que até aí tinham servido de
base ao sistema monárquico liberal.
Basílio Teles foi um dos observadores que melhor exprimiu a situação portuguesa
na viragem do século, detetando que o ambiente tinha começado a mudar antes de
D. Carlos ter subido ao trono. O que ele saudava como a aparição do factor
democrático na política portuguesa, rompendo enfim com a subserviente apatia
da nação (Teles, 1905, pp. 15 e 20) e predispondo-a a descobrir e tornar
audíveis as suas reivindicações coletivas, mergulhava raízes na renovação da
intelligentsia portuguesa, iniciada na Questão Coimbrã e na militância da
Geração de 70, e nas chamadas campanhas democráticas contra D. Luís, no final
da década de 1870 e início da década de 1880 (Teles, 1905, p. 16 e Silveira e
Fernandes, 2006, pp. 206-214).1 A isso se juntara, em 1880, a comemoração
camoniana, momento decisivo para a maturação da intelectualidade portuguesa e
para a dinâmica de doutrinação das massas urbanas, que o republicanismo ou a
esquerda radical monárquica nunca mais deixaram de incitar e enquadrar. Em
poucos anos, portanto, notava Basílio Teles, todo o microcosmos do
constitucionalismo, artificial, ignaro, verboso, ridículo, ficava desde logo
exposto à análise desapiedada de filósofos, escritores, jornalistas,
agitadores, de todos quantos, no espaço público, formavam, informavam e
mobilizavam a consciência e a ação das massas (Teles, 1905, p. 47).
Os últimos anos do reinado de D. Luís foram assim férteis em meetings, clubes,
conferências, comícios, panfletos de ocasião e editoriais de imprensa mais ou
menos incendiários, que muito contribuíram para difundir na opinião pública uma
atitude iconoclasta, feita de desdém, vaga hostilidade e indisciplina nas
camadas sociais mais expostas à renovação cultural e social (Teles, 1905, pp.
61-62). A partir de então, as massas agitaram-se e organizaram-se com
entusiasmo e êxito, revelando a existência e enraizamento social de uma
poderosa corrente democrática, que dos rebeldes de Coimbra se arrastara até à
mocidade das escolas e às massas populares (Teles, 1905, p. 72). Foi como se,
no espaço de alguns anos, o país tivesse consciencializado os limites do
progresso económico e do modelo político fontista e exigisse agora, nos quadros
de um ativismo cívico mais alargado, aprofundar e completar o primeiro
liberalismo (o da geração romântica), num sentido de democratização e de
massificação que extravasava já os tradicionais modelos de enquadramento e
participação cívica à disposição dos portugueses.
Esta consciência era naturalmente causa e consequência das profundas mutações
socioeconómicas e políticas ocorridas em Portugal nas últimas décadas do século
XIX. É verdade que o país não deixou de ser pobre, rural e analfabeto ' mas o
facto é que ele mudou então muito, num salto modernizador apenas comparável
àquele outro registado mais tarde, nas décadas de 1960 e 1970 (Ramos, 2001, p.
35). O desenvolvimento fontista, apesar de todos os seus limites, escolarizara
mais gente, rompera isolamentos ancestrais e engendrara cidades maiores, onde
novos estratos de classe média e nascentes bairros operários animaram a
sociedade civil e fizeram emergir uma masspolitik mais radical e ruidosa (Pinto
e Almeida, 2000, pp. 8-10 e Bonifácio, 2010, pp. 81-82 e 113-114). Esta
masspolitik seria avidamente explorada pelos opinionmakers da vida nova
monárquica e pelas estruturas políticas do republicanismo e do anarco-
sindicalismo, como já antes o fora pelas vozes radicais do Partido
Progressista. Lisboa mais do que duplicou o seu número de habitantes entre 1878
e 1911, passando de 187 mil para cerca de 435 mil; no Porto, o acréscimo
populacional excedeu, nestes anos, os 70%, passando de 105 mil habitantes para
cerca de 194 mil (Ramos, 2006, pp. 71 e 229).
Era mais gente em espaços muito politizados, e gente que ia já acedendo à
leitura e à consciencialização cívica, com os progressos da alfabetização, e à
participação política, com o alargamento do direito de voto. Quanto ao primeiro
aspeto, vale a pena lembrar que a população alfabetizada subiu de 21% em 1878
para 31% em 1910 (Candeias, 2007, pp. 96 e 120). O ganho ' 10% da população,
uns 540 mil portugueses num total demográfico de cerca de 5,4 milhões em 1900 '
foi obtido sobretudo entre os homens e nas cidades, fazendo do espaço urbano, e
acima de tudo de Lisboa e Porto, uma autêntica ilha de leitura num oceano
de ruralidade e analfabetismo. Em 1900, na viragem do século, a taxa de
analfabetismo em Lisboa era de 46,1%, e no Porto de 56,7%, quando no total do
país ascendia a 74% (Marques, 1991, p. 519). Quanto ao segundo aspeto, deve
realçar-se que enquanto em meados da década de 1860 apenas 10% dos portugueses
tinham direito de voto, depois da reforma eleitoral de 1878 este foi alargado a
18,8% dos portugueses, rondando os 70% da população masculina adulta, numa
clara aproximação ao sufrágio universal masculino (Almeida, 1998, p. 733).2
IMPRENSA E OPINIÃO PÚBLICA NOS FINAIS DO SÉCULO XIX
Neste país que então despertava para a contestação social, arregimentável para
o radicalismo político e recetivo aos slogans de renovação cultural que se
alinhavam como antídotos contra o decadentismo pátrio, novos núcleos
organizadores da opinião foram alargando o seu poder e influência. Ao lado do
Paço, do parlamento, dos partidos de notáveis (com os seus pequenos centros
eleitorais), os grandes canais de comunicação de massas passaram a ser os
meetings, os comícios, as conferências, as comemorações e, muito especialmente,
os jornais ao estilo fin-de-siècle ' baratos, generalistas, redigidos em
linguagem simples, misturando o slogan político-ideológico com a diversidade
dos temas sociais e de quotidiano mais atuais.
Perante um espaço público e uma opinião pública geográfica e sociologicamente
alargados, a função exercida pela imprensa e a própria forma como os
jornalistas, e em geral os escritores e publicistas, exerciam o seu ofício
conheceram alterações profundas. Os jornais tornaram-se uma espécie de meta-
instrumento para a reorganização sociocultural da nação, e os jornalistas
agentes construtores e porta-vozes da nova consciência coletiva. Superando os
simples literatos românticos ou noticiaristas de folhetim, os jornalistas
assumiram-se então como intelectuais ativos na vanguarda da mutação da vida
pública, que se atingiria não pelo culto das letras para as elites, mas através
de uma militância ética forte, conquistando e doutrinando diariamente os
espíritos no caminho da consciencialização e da revolução (Ramos, 2004, p.
114). Consequentemente, através da intenção e do modus operandi desta geração
nova, o final do século XIX foi o período em que a opinião pública ascendeu à
maioridade em Portugal, reforçando a sua moderna função de referencial básico
da luta política e da agenda quotidiana, e de barómetro da democracia
ambicionada por muitos. Como resumem António Costa Pinto e Pedro Tavares de
Almeida, referindo-se ao Portugal finissecular, in such a pluralistic context,
a free press naturally flourished and played a decisive role in building a
civic consciousness within the literate urban strata (Pinto e Almeida, 2000,
p. 6).
A aceitar-se a interligação entre democracia moderna e magistério da
imprensa (Vargues, 2003, p. 157), não há dúvida de que o tempo que mediou
entre o início da fase industrial do jornalismo ' com a fundação do Diário de
Notícias em 1865 (Tengarrinha, 1989, pp. 211-215) ' e a vitória republicana, em
1910, constituiu a época mais marcante da modernização dos jornais em Portugal,
quer em termos quantitativos (mais títulos), quer em termos qualitativos (novos
e melhores jornais), assinalando o apogeu, até aos dias de hoje (antes de a
República e de o Estado Novo terem restringido a capacidade de expressão da
opinião pública), da influência da imprensa na vida social e nos centros de
poder político. Alguns números podem ser referidos para contextualização. Em
1880, calcula-se que existissem em todo o país uns 200 jornais (Tengarrinha,
1989, p. 231 e Ramos, 2001, p. 52); nos meados da década de 1890 seriam já
quase 400 e no início do século XX 592, de acordo com uma apurada estatística
da autoria de Brito Aranha (Aranha, 1900, pp. 45-47). Isto significaria, por
volta de 1900, um surpreendente ratio de 1 jornal por cada 9160 habitantes3,
bem superior à Inglaterra ou à França, onde a relação seria de 1/23000 (Aranha,
1900, pp. 47-48). Lisboa e Porto assumiam, face ao país, uma distinta
macrocefalia comunicacional: as duas cidades, com um pouco mais 500 mil
habitantes somados em 1900, detinham cerca de 42% de toda a imprensa nacional e
a esmagadora maioria dos jornais diários fazedores de opinião (Ramos, 2001, p.
53).4 No caso particular de Lisboa, a venda de jornais diários subira de uns 50
mil exemplares/dia no final da década de 1860 (Tengarrinha, 1989, p. 227) para
uns 300 mil/dia nos últimos anos da monarquia (Vieira, 1999, p. 184 e Ramos,
2001, p. 55). Como recordaria, já no século XX, um dos jovens jornalistas do
tempo de D. Luís e de D. Carlos ao referir-se à sua juventude, a imprensa
barata foi acolhida com entusiasmo; o público habituou-se na leitura do que se
passava na sua terra e no estrangeiro [ ] Em Lisboa, onde até ali apenas se
publicavam cinco ou seis folhas diárias, passou a haver vinte ou trinta em
todos os formatos e com grandes ou pequenas tiragens (Bastos, 1947, pp. 73-
74).
Era tudo isto que alimentava uma valorização otimista dos jornalistas como
intérpretes e porta-vozes privilegiados da agenda sociopolítica (Sardica, 2009,
pp. 20-24). Quase todos os que escreviam nos jornais ou refletiam sobre o
alcance dessa escrita compunham um discurso que retratava o jornalismo como um
poderoso factor de civismo e de educação nacional, na defesa e apostolado das
ideias mais justas (Cayolla, 1929, pp. 158-159). Por isso, a imprensa era a
força mais potente e dominadora das sociedades modernas (Cayolla, 1929, p.
165), a palavra organizada em instituição e tornada eco da multidão anónima
(Bessa, 1904, p. 29), e o jornalista, individualmente considerado, um
fabricante da opinião pública (Bramão, 1936, p. 44), uma sentinela
vigilante, tão indispensável à vida individual de cada um como o seu médico ou
o seu advogado (Bessa, 1904, pp. 28 e 35). Ambos, imprensa e jornalistas,
tinham uma altíssima missão social e histórica na marcha ascensional e
progressiva da civilização, desempenhando assim um verdadeiro sacerdócio,
um verdadeiro apostolado, uma suprema magistratura, porque só eles
alcançavam a multidão anónima e faziam dela um público (Armelim, 1909, pp.
3-4 e 8, Soares, 1883, p. 18 e Bessa, 1904, pp. 31-32).
A nova imprensa e os novos jornalistas constituíam assim uma intelligentsia com
identidade própria e militância ativa, o equivalente laico do missionário de
outrora na busca da construção da esfera pública como espaço de debate e de
aculturação (Ramos, 2004, pp. 108, 113-114).5 E é por isso que a própria
consciência profissional da classe jornalística ganhou considerável reforço em
Portugal nos finais de Oitocentos, quando o amadorismo organizativo foi
substituído pelas primeiras formas de associativismo profissional, permitindo
desta forma, ao mesmo tempo que se complexificavam as redações dos periódicos,
potenciar a cotação da carreira jornalística e enraizar as primeiras
preocupações quanto à formação e qualidade da classe. Este aspeto é crucial
para compreender a progressiva autonomização e redefinição por que passou o
jornalismo nestes anos. Da multiplicidade de académicos, literatos e políticos
que escreviam para os jornais ' os modernos publicistas, como lhes chamava
Sampaio Bruno ' começou a emergir uma classe específica, de profissionais da
imprensa a tempo inteiro, cuja identidade organizativa foi reforçada
exatamente nos finais do século XIX. A organização profissional dos jornalistas
portugueses começou em 1880, quando se criou a primeira Associação de
Jornalistas e Escritores Portugueses, no âmbito das comemorações camonianas
(Vargues, 2003, p. 169). Fracionada por conflitos internos, ela não sobreviveu
para lá de 1892 ' dando azo a que ainda em 1894 Alberto de Oliveira lamentasse
serem os jornalistas portugueses pouco mais do que simples amanuenses de
jornais (França, 1997, p. 228). Talvez para contrariar este aspeto e reforçar
a profissão, fundou-se em Lisboa, em 1896, uma Associação dos Jornalistas
(repare-se que já sem a menção aos escritores), que reunia diretores e
editores de jornais. No Porto, em 1897, surgiu uma Associação de Imprensa que
juntava repórteres, noticiaristas e alguns tipógrafos, antes de estes últimos
se terem, por sua vez, autonomizado, em 1904, na Associação de Classe dos
Trabalhadores da Imprensa (v. Vargues, 2003, Santos, 2005 e, de forma mais
extensa, Valente, 1998).6
O resultado destes passos é que o jornalista, como categoria social particular,
começou então a distinguir-se das esferas, mais largas e difusas, da literatura
e da política (embora os campos tenham sempre revelado porosidade de
fronteiras), levando a que a oferta jornalística consolidasse a sua
setorialização. Assim, os grandes periódicos, sobretudo os diários lisboetas,
podiam ser classificados em dois tipos: jornais ideológicos e panfletários, que
serviam de megafone a projetos políticos de maior ou menor transformação
social, defendidos por partidos ou fações, e jornais noticiosos, de grande
informação dita útil e suprapartidária, por norma ligados a lobbies comerciais
ou industriais. No primeiro caso estavam as folhas dos grandes articulistas,
cujo talento prendia leitores e garantia vendas e influência: O Século, de
Magalhães Lima e Silva Graça, o Novidades, de Emídio Navarro, o Diário Popular,
de Mariano de Carvalho, o Tempo, de José Dias Ferreira, O Mundo, de França
Borges, ou A Lucta, de Brito Camacho, entre outros. No segundo caso estavam as
grandes empresas jornalísticas, como o Diário de Notícias, o Jornal de
Notícias, o Primeiro de Janeiro ou o Jornal do Comércio, entre outros, bem como
o florescente nicho de mercado constituído pelas revistas ilustradas, entre as
quais avultavam o Occidente e a Ilustração Portuguesa.
O conceito moderno, militante, agitador e pedagógico da imprensa como agenda-
setter de todo o debate político-social e cultural que urgia fazer supunha um
jornalismo de estilo e visual gráfico renovados. Foi nas últimas décadas do
século XIX e nos primeiros anos do século XX que a velha escrita jornalística
que vinha da geração de Garrett ou de Herculano deu lugar a uma escrita mais
concisa e informativa ' feita de afirmativas cortantes, nítidas, categóricas,
impositivas(Bruno, 1906, p. 392). Várias transformações tecnológicas e um
incremento do jornalismo internacional de agência permitiram aos jornais terem
mais páginas, diferentes secções e uma apresentação renovada: títulos,
subtítulos, leads, ilustrações e já, também, fotojornalismo, tudo isto servindo
editoriais políticos, crónicas parlamentares, relatos estrangeiros, reportagens
de quotidiano, entrevistas com figuras de atualidade, apontamentos de cultura e
high-life e exploração de casos e escândalos (Vargues, 2003, p. 159 e Santos,
2005, p. 83). O mundo do jornalismo nos finais do século XIX e inícios do
século XX ' tempo do reinado de D. Carlos ' tornou-se assim quase uma indústria
informativa e cultural, um verdadeiro quinto poder (como um dia definiu José
Dias Ferreira), mais vasto e influente do que os outros: além dos jornalistas
profissionais, eram-no também, por escreverem nos jornais, os intelectuais
aclamados como grandes escritores; vinham dos jornais, ou neles se distinguiam,
praticamente todos os nomes da vida política7, sobretudo os da vida nova, que
militavam na esquerda monárquica ou que engrossavam as fileiras republicanas; e
era a grande imprensa de massas, e já não os títulos literários, que fabricava
e conduzia a opinião pública urbana.8
Todas estas transformações acompanhavam, ainda que em escala menor, o que eram
as tendências das grandes democracias ocidentais do tempo, europeias e norte-
americana. No panorama internacional, as décadas finais do século XIX e os
princípios do século XX (até à I Guerra Mundial) são por norma referidas como a
Idade de Ouro da imprensa escrita. Recebendo novos investimentos e dirigindo-
se a novos públicos, forjados pela urbanização, pela terciarização e pela
massificação próprias da segunda revolução industrial, o jornalismo
profissionalizou-se, lá fora, ao mesmo tempo que se mercantilizava, produzindo
periódicos multitemáticos, de grande informação, linguagem apelativa e
abordagem sensacionalista (Chapman, 2005, pp. 71-75 e Sassoon, 2006, pp. 713-
717). A yellowpress norte-americana, de Joseph Pulitzer e William Randolph
Hearst, ou o newjournalism britânico de Alfred Harmsworth, foram os melhores
exemplos da industrialização informativa e da dramatização noticiosa em
estratégia alargada de captação de públicos (o catch-allpaper), que
cristalizaram o conteúdo e a forma típicas dos jornais fim de século como
synthesis of advertising, culture, information, politics and manipulation
(Chapman, 2005, p. 72).9
Também no Portugal monárquico de D. Carlos, a fase industrial da imprensa, ou a
idade de ouro do jornalismo escrito, fez desse único massmedia então existente
um poderoso meio de lobbying e de agitação política, que acelerava o debate de
ideias e a movimentação social num país atravessado por tensões, problemas e
desafios novos. Desde a Geração de 70 até à República que a condução do Estado
e da nação se tornou cada vez mais difícil e incerta. A rotina e os mecanismos
sobre os quais repousava o constitucionalismo da Carta começaram a revelar-se
desajustados para responder às reivindicações de democratização e massificação
da política propostas por vários quadrantes. Governar deixou de poder ser
administrar apenas a velha alternância rotativa e passou a ser ter de enfrentar
contestação aberta, ruído nas ruas e militância nos jornais, oposição dentro do
sistema e cada vez mais fora dele. Sobretudo na imprensa mais vincadamente
político-partidária (da esquerda monárquica e cada vez mais no campo
republicano), predominava a escrita inflamada e tribunícia, o estilo
revolucionário e justicialista, o tom insultuoso e sensacionalista, que
aproximavam o jornalismo português do populismo e da retórica de contrapoder
dos grandes diários nova-iorquinos, londrinos ou parisienses.10 Em várias
redações, a política eram escândalos; as relações internacionais, guerras e
ameaças; a vida nacional, desastres e crimes sangrentos; a economia, desfalques
e fraudes; a vida social, casamentos e batizados (Ramos, 2001, p. 54). Com
esta predisposição e conteúdos, servidos por novas linguagens e grafismos, num
quadro organizativo mais profissional e industrializado, produzia-se um
jornalismo porventura intelectualmente menos elaborado mas socialmente mais
abrangente, a um tempo panfletário e noticioso, mas sempre mobilizador, que se
tornou a mais eficaz arma contra as convenções e rotinas vigentes.
Numa tal conjuntura, e ainda para mais quando, pela letra da Carta
Constitucional, o monarca era o árbitro cimeiro e indispensável de todo o
aparelho político-partidário, D. Carlos (como depois o filho, D. Manuel II,
entre 1908 e 1910), foi uma das figuras mais expostas, mais escrutinadas e mais
atacadas do seu tempo.11 Não é, aliás, possível compreender o seu reinado, a
sua linha de ação política e o seu desfecho (o regicídio), sem ter presente
que, no estado de opinião pública então vigente em Portugal, D. Carlos nunca
pôde limitar-se à conduta seguida pelo pai, D. Luís, na primeira metade da
década de 1860 e ao longo da década de 1870: reinar, mas não governar (como
prescrevia a teoria constitucional cartista), ou seja, não se envolver e pairar
resguardado sobre instituições, pessoas e problemas, como um distante mestre-
de-cerimónias do regime.12 E é isto que permite situar e compreender muito do
que a imprensa disse sobre o rei e a própria natureza da relação que o monarca
manteve com ela, e com o espaço público, desde os tempos da educação como
príncipe real até à aposta final em João Franco. Entre muitos outros fatores, a
história da queda da monarquia também resultou das dificuldades que o Paço e os
políticos do sistema tiveram em conviverem com as exigências jornalísticas
próprias da era da democracia e das massas.
A INICIAÇÃO: O PRÍNCIPE D. CARLOS NO ESPAÇO PÚBLICO PORTUGUÊS
Entre as décadas de 1860 e de 1880, quando o renascimento do radicalismo
político, a renovação cultural da intelligentsia e a redobrada influência dos
jornais começaram a obrigar o poder a mediatizar-se perante a opinião pública,
o ambiente em que nasceu e cresceu D. Carlos era ainda relativamente discreto.
A Casa Real portuguesa tinha por tradição educar os seus príncipes no recato de
palácios e precetores privados, longe do ensino público a que outras dinastias
europeias já recorriam (Ramos, 2006, p. 19).13 Para mais, em Portugal, a Corte
não era, nem nunca fora, faustosa e rica, não dispunha de um alargado círculo
de amigos aristocráticos (como a rainha Vitória, em Inglaterra), e não tinha a
panache militarista do Kaiser germânico, estando desprovida de meios
financeiros ou simbólicos que a impusessem à atenção e a predispusessem à
simpatia do público (Ramos, 2006, pp. 111-120). Desde os anos 70, e
particularmente nos últimos tempos do reinado de D. Luís, a discrição da
família real era causa, e também consequência, do seu mau relacionamento com a
nova imprensa. Apesar de monárquico, o testemunho de Rocha Martins não deixa de
ser verdadeiro: havia, na generalidade dos jornais, um propósito firme de
ataque ao Paço, uma arremetida geral de baixa prosa, da esquerda à direita,
dos extremos radicais aos extremos miguelistas (Martins, 1926, pp. 47-48). O
príncipe D. Carlos e o irmão, D. Afonso, eram as louras crianças (Cayolla,
1929, p. 9) de uma Corte que não gozava de especial reverência na opinião
pública. É verdade que D. Luís tentou várias vezes inverter ou moderar este
sentimento, fugindo à clausura do palácio de Queluz e procurando ser popular,
mostrando-se em visitas a instituições ou passeando na capital com a rainha e
os filhos (Ramalho, 2001, p. 16, e Silveira e Fernandes, 2006, pp. 66-67). Mas
os resultados eram limitados.
Foi nestes anos e neste meio que D. Carlos formou a sua personalidade, de cujos
traços fundamentais já era possível encontrar indícios antes de chegar ao
trono. Nos termos de Fialho de Almeida, a cordialidade risonhamente fidalga no
trato íntimo contrastava com o aspecto bisonho, aborrecido e duro por ele
assumido em público (Almeida, 1924, p. 91). Apesar de se esforçar por
aparecer, D. Carlos nunca esteve à vontade entre grandes multidões. João
Franco, que o conheceu bem, elaborou-lhe um expressivo retrato: aos primeiros
contactos com estranhos, e até em actos oficiais, D. Carlos deixava por vezes
uma impressão de fria reserva [ ] em que uns julgavam ver secura ou soberba,
indo os que lhe eram hostis até o malsinar de falto de comunicabilidade
intelectual e de capacidade afectiva. Por isso, ficou sempre, na sua
estrutura íntima, um desconhecido para o seu país (Franco, 2006 [1924], pp.
49-50), contrastando com a simpatia, a irreverência ou o à-vontade que eram
características de Eduardo VII de Inglaterra ou de Afonso XIII de Espanha
(Ramos, 2006, p. 167).
Isto não significa, de modo algum, que fosse um eremita, incapaz de manter
qualquer vida social. A relativa distância a que mantinha os políticos sobre
quem mandava e a nação que tinha de governar não o impediram de, desde a sua
juventude, ler os debates da imprensa, formar juízos e opiniões, intervir,
mostrar-se atento e interessado, cultivando até seletas amizades no mundo da
intelectualidade e do jornalismo (Ramos, 2006, pp. 44-46). Na década de 1880 já
adquirira estatuto público (Ramos, 2006, p. 46): escrevia a Oliveira
Martins, era conhecido de Ramalho Ortigão (que depois o consideraria sempre
um confrade suplente dos vencidos da vida [Ortigão, 1908]) e
caricaturizado por Rafael Bordalo Pinheiro. São, aliás, deste último as
primeiras representações visuais do futuro rei na imprensa humorística, com a
qual D. Carlos alimentaria sempre uma dupla relação de consideração artística e
de reserva política. Na pena de Bordalo, no António Maria, no Álbum das Glórias
ou no Pontos nos ii, D. Carlos aparecia imberbe, como o Príncipe José Simão,
em 1879, burguês janota e dandy, em 1882, ou romanticamente apaixonado, em
busca de uma noiva, em 1886 (Martins, 1926, pp. 78-79, 108 e 116). Pelo meio,
aos 20 anos, em 1883, a imprensa escrita também começou a falar dele por causa
de um suposto envolvimento com a filha de um jardineiro do Paço (Martins, 1926,
pp. 98-99), um pequeno escândalo amoroso que alimentou os sussurros dos mais
moralistas e que prenunciou a série de histórias de amantes e adultérios em que
andaria permanentemente envolvido como rei.
No outono de 1887, já casado com D. Amélia, e meses depois de ter sido pai do
príncipe D. Luís Filipe, D. Carlos realizou uma digressão ao Porto e ao Norte,
na companhia da rainha, para julgar de perto o que os povos pensavam
(Martins, 1926, p. 143). De futuro, todas as viagens em Portugal teriam sempre
este objetivo mais ou menos explícito ' o de tomar o pulso à opinião pública,
uma entidade abstrata que um dos conselheiros do pai, Nogueira Soares, já
definira como nada menos do que a omnipotente rainha do mundo (Soares, 1883,
p. 218), e que o próprio D. Luís, apesar da avançada idade e deterioração
física, reconhecia já como elemento central da governação.14 Quando ascendeu ao
trono, com 26 anos, D. Carlos podia não ser popular, mas era já bem conhecido
do público e, mais importante, alvo preferencial das mais díspares especulações
intelectuais e jornalísticas sobre que estilo e que monarquia seriam os dele.
A MATURIDADE: D. CARLOS E A OPINIÃO PÚBLICA PORTUGUESA
Oliveira Martins era o que mais se distinguia na expressão pública das muitas
expectativas que se depositavam no novo monarca, logo a partir de outubro de
1889, no momento em que morreu D. Luís. Era preciso, dizia, que o jovem
Bragança coroado não fosse um rei manequim, mas que se adequasse às
necessidades dos nossos dias, o que significava obedecer às manifestações da
opinião, ou de uma certa opinião, pelo menos (a dos teóricos da vida nova)
(Martins, 1957 [1889], p. 219). Os tempos eram outros no que dizia respeito à
relação entre o chefe supremo e a nação: no amor do povo, explicava Oliveira
Martins, é que se enraíza o poder dos príncipes e na consciência geral dos
seus benefícios está a melhor base da duração das monarquias (Martins, 1957
[1889], p. 217). Era preciso, em suma, dar visibilidade ao poder, e que D.
Carlos governasse, e não apenas reinasse, não para violentar a opinião mas
para moralizar essa força (Martins, 1957 [1892], p. 295).
Sucede que a sorte ou a força das circunstâncias não seriam especialmente
benignas para o jovem rei. Em janeiro de 1890, o escândalo político do
ultimato manchou o prestígio da monarquia e afetou irreversivelmente o curso
do reinado ' ao mesmo tempo que constituiu um momento-chave no reforço do
jornalismo mais desbragado dirigido contra o rei e os seus ministros. Na
imprensa, nos comícios, nos banquetes, nas conferências, nos abaixo-assinados,
nas arruadas de estudantes e muito povo que se seguiram à capitulação
diplomática perante a Inglaterra, o nome e a figura de D. Carlos eram o alvo
preferencial de toda a histeria patriótica (Martins, 1926, p. 192).15 Guerra
Junqueiro e António José de Almeida tornaram-se instantâneos opinionmakers,
glosados nos jornais e citados em voz alta, o primeiro pelo célebre poema (que
Bordalo Pinheiro logo ilustrou), O caçador Simão, o segundo pelo violento
artigo antimonárquico Bragança, o último (tema que Bordalo já glosara),
publicado n'O Ultimatum, um pequeno jornal estudantil de Coimbra (Martins,
1926, pp. 204-205).
A gestão da opinião pública e das suas inclinações entrou assim na agenda do
rei bem cedo e como um problema central da governação. Enquanto nas ruas, em
1890-1891, os portugueses insultavam a velha aliada e o monarca lacaio que
diante dela se ajoelhara, D. Carlos e o príncipe de Gales (o futuro Eduardo
VII) debatiam esse mesmo problema. O herdeiro do trono britânico pedia a D.
Carlos que entendesse que nós também temos de lidar com uma opinião pública
que, apesar de melhor instruída, é igualmente exigente. Em resposta, o
monarca português confidenciava que o que o preocupava mais não era tanto a
opinião pública das ruas, mas a da gente de ordem, da gente séria (Ramos,
2006, pp. 60 e 64-65) que, nos jornais, capitaneava a voxpopuli.
Quando o escândalo do ultimato finalmente abrandou, depois da assinatura do
Tratado de 1891, o governo decidiu fazer a família real peregrinar pela Beira e
pelo Norte, a propósito da inauguração de alguns melhoramentos ferroviários.
Era um teste à popularidade do maltratado rei, e não correu mal. Na Lisboa mais
politizada podiam não gostar dele, mas na província o prestígio das majestades
ainda era sólido. Milhares aclamaram o rei e D. Amélia. N'O Século, Feio
Terenas reconheceu que pela primeira vez no reinado D. Carlos presenciara
manifestações despidas de cortesias oficiais, pois essas que teve foram
verdadeiras manifestações populares. Fialho de Almeida, ao tempo um
iconoclasta de esquerda, optou por maltratá-lo, dizendo que El-Rei se
mostrara sempre, no contacto com o povo, oprimido por uma necessidade urinária
inconfessável, carrancudo e alheio (sic) (Martins, 1926, p. 258).
É muito possível que D. Carlos não estivesse propriamente folgazão e de bem com
o público. O país estava agitado e perigoso e o seu capital de experiência no
trono era ainda escasso para se mover à vontade entre as muitas vozes da
política e da opinião. No primeiro biénio de reinado, entre o ultimato, as
crises de governo, a revolta do 31 de janeiro (1891) no Porto e a bancarrota
financeira, o rei não fez discursos nem deu entrevistas (Ramos, 1996, p. 115).
A sua educação recomendava-lhe obediência à tradição constitucional de um rei
moderado e moderador, árbitro à distância e último garante do equilíbrio das
instituições; entendia em suma que o seu principal dever era substituir
governos, não o de substituir-se-lhes (Ramos, 1996, p. 125). O problema é que
era para isso que os múltiplos desafios do Portugal de fim-de-século o
empurravam, havendo, assim, muita gente a pedir-lhe que fosse cesarista e
interventivo. O dilema envenenou todo o seu reinado: como resume Rui Ramos, num
ambiente de crescente agitação, D. Carlos viveu sempre entalado entre a
acusação de passividade e a calúnia do despotismo (Ramos, 1996, p. 133).
Instruído pelo embate do ultimato, o rei gastou os anos seguintes a ensaiar
caminhos e a desenvolver expedientes que lhe permitissem sintonizar a monarquia
com a opinião. Começou a passear muito em Lisboa, desprevenido e sem escolta
(hábito que manteria até ao dia 1 de fevereiro de 190816), para se misturar com
a multidão, para fazer passar a ideia de que era, como o povo, um cidadão
liberal colocado primusinter pares. Quem não apreciava a estratégia de
mediatização denegria-a, dizendo que tudo não passava da vaidade de fazer-se
ao aplauso (Ramos, 2006, pp. 90-91). Paralelamente, e no recato do gabinete,
ia conversando com a intelligentsia, procurando cooptá-la para a reforma ou
revolução a partir de cima com que nunca desistiu de mudar o país, as
instituições e os hábitos. É neste âmbito que se insere a famosa conferência
que manteve com Augusto Fuschini, numa tarde de novembro de 1892. Conversaram
muito e concordaram que era preciso fazer muito: mas, no fim, D. Carlos acabou
por arrefecer o ânimo do seu interlocutor, fazendo-lhe notar que faltavam os
homens para essa grande obra de motivar e mobilizar o povo para a regeneração
nacional (Martins, 1926, pp. 274-276).
Passado o biénio de 1890-1892, os homens a quem D. Carlos teve de recorrer para
governar foram um misto de continuidade e de renovação. Em fevereiro de 1893,
assinalando o regresso à mecânica rotativa que se manteria até 1906, a
Presidência do Conselho foi entregue a Hintze Ribeiro, cujo número dois era o
irrequieto e truculento João Franco, uma das caras da vida nova. A solução
reconferiu estabilidade à monarquia, mas acirrou os ânimos da esquerda
progressista e republicana (por vezes juntas e indistintas). O longo consulado
da dupla Hintze-Franco (1893-1897) irritou o suficiente para que a imprensa
oposicionista visasse diretamente o rei, por detrás dos seus áulicos. Nos
jornais de esquerda, onde se distinguiam nomes do calibre de Emídio Navarro (no
Novidades), Mariano de Carvalho (no Diário Popular), António Enes (no Dia), ou
João Lacerda (no Correio da Noite), ressuscitou-se o velho aviso de cariz
radical, que tanto molestara o Duque de Loulé nos seus tempos: volte a coroa
para junto do povo liberal, que continuará a ter em nós os estrénuos, leais e
dedicados defensores que sempre fomos. Senão não.17
Às caricaturas de Rafael Bordalo Pinheiro somaram-se, a partir da segunda
metade da década de 1890, outros artistas tão ou mais mordazes em relação à
realeza. O primeiro foi Celso Hermínio. O seu jornal O Micróbio, além de
vergastar a ambição de João Franco e a ingenuidade de Hintze Ribeiro, desenhava
o rei em permanentes apuros políticos. D. Carlos admirava-lhe o talento
artístico, chegando a comentar algumas das caricaturas com Ramalho Ortigão
(Costa, 1943, p. 54), e Hermínio retribuía-lhe a consideração enviando para o
Paço alguns dos seus jornais. Um dia, em 1895, quando Franco quis querelar O
Micróbio e levar o seu autor para o Limoeiro, o rei retorquiu-lhe: Deixa-
o fazer os bonecos! O rapaz vive disso! (Costa, 1943, pp. 234-235). O
segundo, Tomás Leal da Câmara, era menos um rapaz e já mais um agitador
assumido. Colaborador de Celso Hermínio (n'O Berro), Leal da Câmara começou por
publicar A Marselheza, em finais de 1897 (o jornal de maior circulação em todo
o Governo-Civil, como se autointitulava), e prosseguiu depois, em 1898, com o
mais famoso A Corja (França, 1997, pp. 222-225). Retratando invariavelmente D.
Carlos de barriga proeminente, jaqueta, cinta, charuto e chapéu desabado, à
toureiro ou caçador marialva, Leal da Câmara criou uma régia expressão
inexacta, mas que ficava nos olhos da populaça. Era um demolidor da realeza e
de cada vez que a polícia o punia por suas audácias, achava sempre maneira de
as repetir, sofismando-as (Martins, 1926, p. 365). Depois de ter zurzido
durante meses o rei, partiu perseguido para Madrid e fixou-se de seguida em
Paris. Nos primeiros anos do século XX, enquanto em Portugal Bordalo Pinheiro
se consagrava definitivamente com o seu último jornal, A Paródia, Leal da
Câmara, em Paris, conseguia renome à custa do Assietteau Beurre, em cujos
desenhos arredondava ainda mais o contorno físico de D. Carlos, culminando na
célebre estampa, cuja legenda ecoava Guerra Junqueiro, em que declarava o
monarca à point pour l'abbatoir (pronto para o matadouro).
À medida que o último rotativismo, de Hintze-José Luciano, ia falindo, a figura
de D. Carlos ia sendo cada vez mais exposta à consideração e à usura públicas.
Falando em 1903, Raul Brandão exprimia o ar do tempo: Alto ou baixo, ao ouvido
ou em plena rua, só se fala no rei (Ramos, 2006, p. 239).18 Ao cabo de quase
década e meia de reinado, o tom com que a imprensa se referia a D. Carlos ia
enegrecendo ' até no sentido de tornar bem possível a profecia desenhada por
Leal da Câmara. Nesse mesmo ano de 1903, quando Alexandre da Sérvia foi
assassinado, o Novidades, de Emídio Navarro, estendeu-se em comparações entre a
política dos dois países, dando azo a que às esquinas de Lisboa os mais
exaltados se perguntassem quando se iria fazer cá o mesmo. Navarro não ia tão
longe, mas constatava que Alexandre da Sérvia morrera depois de um resultado
eleitoral que aparentemente o tranquilizara. A conclusão a tirar seguia-se:
chegara o tempo em que os monarcas deveriam estar mais atentos à lição dos
chapéus na cabeça do que ao resultado das eleições ' porque uma cabeça que não
se descobria à passagem de el-rei era mais reveladora do sentimento público do
que um voto depositado numa urna (Martins, 1926, p. 443).
Como grande opinionmaker da imprensa, Navarro sabia do que falava. As críticas,
apesar de tudo políticas (porque o Novidades era um periódico monárquico e não
republicano), que dirigia a D. Carlos eram apenas a ponta do icebergue. Fora
dos limites do sistema monárquico, vociferava a violenta imprensa republicana,
liderada pel'O Mundo, de França Borges, a que se juntaria A Lucta, de Brito
Camacho, em 1906. De um modo geral, o jornalismo e memorialismo republicanos
viam no rei, alternada ou cumulativamente, um inútil, supérfluo, parasita,
corrupto, obeso, mulherengo, devasso e adúltero, um tirano, metediço,
irresponsável, provocador, vendido à Inglaterra e só valentão em casa, e
conluiado sempre com a camarilha política que roubava impunemente o povo; se
isto não chegasse ' e sempre que isto não chegava ' era ainda retratado como
caçador ausente, mau pintor, oceanógrafo diletante e turista gastador que, sob
a falsa capa de grande diplomata, se passeava à custa do erário público.
Inventavam-se-lhe todos os defeitos e transformavam-se os méritos em vícios.
Como Rocha Martins sintetizaria, com algum fundo de verdade, a imprensa era um
mar de acerbismo crítico, terrível para um povo que não sabia ler nem
discernir, diariamente cheia de ironias, girândolas furibundas, satiricismos,
sarcasmos e charges sangrentas (Martins, 1926, prefácio).
APRECIAÇÕES E ROTINAS RÉGIAS: D. CARLOS E OS JORNAIS
D. Carlos, o visado deste metódico characterassassination, não comentou muitas
vezes a questão da imprensa, do seu tom e dos seus excessos. Mas é realista
imaginar que era sensível ao que se escrevia e dizia sobre ele: preocupava-se
com o impacto da sua imagem na opinião pública e muitas vezes contra-atacava,
para publicitar adequadamente tudo o que o pudesse (e ao regime) favorecer aos
olhos dos portugueses mais atentos, ou para lamentar a linguagem dos nossos
jornais, sobretudo em assuntos de política externa que envolvessem a Grã-
Bretanha (Ramos, 2006, pp. 185-186 e 202). Perante a imprensa especificamente
republicana, tinha sentimentos díspares: por vezes irritava-se, e propunha até
apreensões, como em 1899, quando os jornais se encheram de manchetes alarmistas
sobre o surto de peste no Porto; outras vezes passava por cima do insulto
pessoal que lhe era dirigido, mas recomendava aos governos providências legais
para coartar tão claras manifestações de indisciplina social. Em geral
declarava ' como um dia fez ao seu secretário, o Conde de Arnoso ' que vozes
de burro não chegam ao céu. Sem que a minha modéstia me coloque no céu, põe-me
pelo menos os furos suficientes acima desses pandilhas para me não molestar com
o que eles dizem; mas também sabia avisar: se eles começarem a contender
muito comigo, talvez lhes doa (Ramos, 2006, p. 192). A verdade é que nunca
lhes doeu muito. Se é um facto que os últimos vinte anos da monarquia
assistiram a algum recrudescimento de legislação restritiva da liberdade de
imprensa ' com a Lei Lopo Vaz, de março de 1890, a lei dos anarquistas, de
Hintze e Franco, de fevereiro de 1896, e as leis franquistas, de abril e junho
de 1907 ' e a uma maior repressão dos jornalistas por parte do aparelho
judicial, também é um facto que a imprensa nunca teve de enfrentar uma censura
séria e contínua. A maioria dos jornais jamais deixou de revelar uma
frontalidade combativa e uma ousadia retórica que foram sempre marcas
distintivas na história do jornalismo português de grande parte do século XIX e
do primeiro quartel do século XX (Sardica, 2000, pp. 35-37).
O que é claro, e comprovado por muitos testemunhos, é que a leitura da imprensa
ocupava regularmente os hábitos quotidianos do rei ' uma prática herdada do
pai, D. Luís. Lia O Mundo e não fazia segredo disso (Costa, 1943, p. 22); e,
apesar do muito que os separava, mantinha relações com diversos diretores de
jornais oposicionistas ' como Emídio Navarro, de quem publicamente lamentou a
morte, em agosto de 1905 (Dias, 1914, p. 135).19 Isso aproximava-o da opinião,
permitia-lhe escutá-la quase em discurso direto, familiarizava-o com os temas
que ocupavam o centro da agenda política e social, entre a intelligentsia e as
ruas. Por regra, os seus serões privados dividiam-se em dois momentos:
começava, primeiro, por ler os jornais todos, previamente recolhidos e
colocados nos seus aposentos, até mesmo os científicos e literários, e não lhe
escapava nem uma local insignificante; depois, consagrava-se à
correspondência pessoal, na qual muitas vezes referia passagens jornalísticas
(Leitão, 1908, p. 77). Mesmo no despacho oficial com o governo, acontecia-lhe
de amiúde ser ele a chamar a atenção para determinadas notícias. Em algumas
ocasiões de redação de leis, ditou ele mesmo os termos, por se achar
especialmente habilitado a conceber o tom e o modo como o poder deveria falar
ao povo (Ramos, 2006, pp. 188-189).
O ÚLTIMO FÔLEGO: D. CARLOS E O FRANQUISMO
O franquismo (1906-1908) condensou, em menos de dois anos, muitos dos problemas
político-sociais que tinham atravessado o reinado de D. Carlos e dos aspetos
que mais marcaram a relação do monarca com a imprensa e a opinião pública. A
aposta em João Franco foi a tentativa malograda da revolução feita de cima
por que há anos a vida nova clamava, um último esforço e fôlego da monarquia
para romper com os velhos vícios do rotativismo sem ter de desaparecer de cena,
engolida pelo inimigo republicano. João Franco era o homem ideal para liderar
tal processo: dentro da monarquia, mas fora dos quadros tradicionais do
rotativismo, era porventura o único político sintonizado com a necessidade de
investir no espaço público, na masspolitik e no grande jornalismo de massas.
Desde que formara o seu partido Regenerador-Liberal, fazia comícios, dava
entrevistas, andava a caçar no terreno dos republicanos (e dos rotativos, que
viram nele o primeiro dos revolucionários, antes de o condenarem como o último
dos miguelistas). Por isso D. Carlos apostou nele, e apostou até ao fim em
defendê-lo perante a fronda de opiniões críticas que o franquismo suscitou.
Foram quase dois anos de redobrada exposição do Paço, do monarca e do seu
valido nas páginas dos jornais e na oratória dos comícios. Como D. Carlos
confidenciou em carta a Alberto do Mónaco em fevereiro de 1907, a governação,
por detrás de Franco, obrigava-o a estar permanentemente na passerelle, não
abandonando nunca o comando por um minuto que seja (Ramalho, 2001, p. 173).
Visível como porventura nunca até ali, o poder régio alcançou então um
equilíbrio arriscado: era preciso governar e, portanto, impor; mas era também
necessário ouvir a opinião para corrigir a rota quando a ondulação política
fosse demasiada. Sirvam de exemplo para estes dois caminhos dois episódios da
governação franquista com íntima ligação ao pulsar da opinião pública. Em junho
de 1907, o rei tentou moderar a impetuosidade de Franco, expressando-lhe as
maiores reservas sobre a resolução, por decreto ditatorial, do escândalo dos
adiantamentos à Casa Real. Na interpretação do monarca, os ânimos estavam
demasiado exaltados para lançarmos neste momento a questão, porque, com as
facilidades de desvairamento da nossa opinião pública, seria este um campo bem
fácil de explorar contra o governo (Franco, 2006 [1924], p. 135). Em novembro
desse ano, contudo, quando o espírito público atingiu o paroxismo
antifranquista, foi D. Carlos que não hesitou em dar uma entrevista ao
jornalista francês Joseph Galtier, do Temps, durante a qual elogiou o
carácter de Franco e lhe reiterou publicamente apoio e solidariedade.
Antecipando a chuva de críticas que aí vinha, gabou-se mesmo ao seu
interlocutor: Conheço o meu país; conheço o meu tabuleiro eleitoral [ ]
compreendo, porque vou a toda a parte, que o meu povo está comigo (Martins,
1926, pp. 559-560). Foi a entrevista Galtier uma temeridade arriscada e
desnecessária? Politicamente, talvez. Mas, do ponto de vista mediático, era um
risco e uma manobra calculados: era preciso fazer passar a mensagem de que
Franco não estava a prazo, não só para investidor estrangeiro ler, mas, mais
importante, para que se soubesse que havia quem mandava, naquela conjuntura
difícil. No primeiro caso, portanto, era possível e prudente pactuar com o
espírito público; no segundo, era urgente e necessário mostrar pulso forte.
Nos finais de 1907, D. Carlos redobrou a sua atenção na leitura dos jornais. Ao
conde de Arnoso ia fazendo as suas próprias recensões: uns eram mansos,
outros estavam à capa, a ver em que isto pára, outros ainda eram
destemperados, os republicanos era natural saltarem de todo (Ramos, 2006,
p. 284). A 1 de fevereiro de 1908, o espírito público mais radical armou-se
para o regicídio e executou o rei e o príncipe real D. Luís Filipe. Porque foi
liberal até ao fim, portanto visível e acessível aos seus súbditos, que ele
olhava como cidadãos, D. Carlos nunca imaginou que precisasse de uma escolta
armada para o defender daquela opinião que ele se gabara de conhecer e de
conseguir moderar e orientar. Nos dias que se seguiram, o que era afinal o
divórcio entre o espírito público mais radical e os poderes monárquicos ficou
eloquentemente expresso na generalidade da imprensa portuguesa: poucos jornais
tarjaram de negro e lamentaram o crime, preferindo, por convicção ou medo,
glorificar ou amnistiar a memória dos regicidas. O facto causou mais estranheza
no estrangeiro ' onde D. Carlos sempre fora aplaudido e positivamente
publicitado nos jornais ' do que em Portugal. Entre os seus, a mediatização do
poder acabara abatida a tiro.
CONCLUSÃO: O PODER E O POVO NO TEMPO DE D. CARLOS
Alguns meses após a morte de D. Carlos, Fialho de Almeida redigiu um texto no
qual, arrependido da sua passada militância radical ou rendido ao valor da
personalidade do malogrado monarca, deixou para a posteridade uma extensa
análise do que fora a razão do insucesso do seu reinado. O texto constitui um
bom diagnóstico da relação, ora difícil, ora impossível, que o rei mantivera
com a opinião pública portuguesa. Fialho começava por declarar que consultara
200 ou 300 pessoas desinteressadas e serenas para formar o seu juízo sobre D.
Carlos (Almeida, 1924, p. 89). O rei falhara? Sim, mas talvez não por sua
culpa. Um Vítor Emanuel ou um Kaiser Guilherme (reis populares e fortes) só
eram possíveis em países com uma consciência cívica perfeita e uma opinião
pública robustecida (Almeida, 1924, p. 92). Em Portugal isso nunca existira e
não se vislumbrava como poderia vir a existir. O povo português nem de perto
era uma multidão intelectualmente disciplinada e consciente. Ligeiramente
acima dele, também não se via verdadeira classe média, que não passava de um
aglutinado social com escassas luzes de civismo (Almeida, 1924, pp. 93-95).20
Finalmente, faltara a D. Carlos o que Fialho designava por conselheiros e
sugestores habilidosos21, capazes de apreenderem corretamente as mutações que
estavam a acontecer no universo do jornalismo e de popularizarem a conduta
régia no espaço público do tempo.
O resultado final de todas estas carências interligadas é que o Bragança fica
[ra] só, num isolamento moral que lhe liquidou o prestígio na opinião
pública (Almeida, 1924, pp. 96-97). Sem meios, e sem amigos, políticos e povo
para o secundarem e escutarem, D. Carlos desistira civicamente de aparecer e
tentar: daí o tédio, que Fialho de Almeida detetara nele, e que era no fundo
a confissão de um desalento, vista a impotência de uma vontade só poder
galvanizar a parezia (sic) de seis milhões de inconsciências (Almeida, 1924,
pp. 99-100). Para Fialho, a conhecida frase do rei de que Portugal era uma
monarquia sem monárquicos era então uma formulação, clamada num colapso de
angústia, para exprimir esse divórcio que sempre subsistira entre o poder, só,
e o povo, ao longe. Quanto à experiência franquista, ela significara, ainda e
sempre, o desejo de fazer vida nova com a opinião, embora visando o
impossível, a saber, transformar no lapso breve de um ministério a alquimia
moral de um povo inteiro (Almeida, 1924, pp.103-104). Nem um governo de vigor
como o de João Franco, nem o reinado inteiro de D. Carlos (mais de dezoito
anos) chegaram para transformar, cívica e culturalmente, a alquimia moral da
nação portuguesa.
A chave para o sucesso ou para o fracasso desta obra estava tanto nos meios do
poder como na recetividade e na capacidade de o público o escutar e agir em
conformidade. Talvez o problema de D. Carlos tenha sido o facto de, para má
sorte da monarquia, o jornalismo mais influente (porque mais audível no espaço
público), ter estado nas mãos de republicanos ou, pelo menos, de dissidentes do
consenso monárquico, cuja agenda se orientava para o ataque ao Paço. É difícil
compreender a transição de século em Portugal, a erosão da credibilidade
monárquica na opinião pública e a forma como as promessas oposicionistas,
sobretudo republicanas, ganharam adeptos nessa mesma opinião pública, se não se
perceber o mundo dos jornais e a maneira como a monarquia, incapaz de se
reformar e de reformar o país, perdeu a corrida pela manutenção de uma sintonia
com o discurso padrão por eles veiculado.
Não havia, na época de D. Carlos, quem não reconhecesse à opinião pública uma
importância crucial como instância de mediação dos anseios nacionais, de
fabricação de uma cidadania adaptada aos novos desafios e, por isso, de diálogo
mais intenso entre as elites da governação e o povo anónimo, cada vez mais
chamado à intervenção cívica. No centro e na vanguarda da opinião e do espaço
público estava a figura do jornalista, para alguns mestre de primeiras
letras, para outros catedrático de democracia em acção, advogado e censor,
familiar e magistrado (Bessa, 1904, p. 36). Mas mesmo que D. Carlos tivesse
conseguido chamar para o serviço à monarquia todos os muitos mestres
catedráticos que a imprensa do seu reinado foi produzindo, restava e restou,
incorrigível, a anomia cívica da nação mais profunda. Foi isso mesmo que D.
Amélia fez notar, um dia, em março de 1906, quando, perante a constituição do
último ministério de Hintze Ribeiro, confidenciou ao demitido José Luciano de
Castro: Ora, José Luciano Quem são os nossos amigos? Quem são os
sustentáculos da Monarquia? Você e o Hintze! (Martins, 1926, p. 480). Assim
personalizado no rei e nos áulicos que o rodeavam, era inevitável que o regime
monárquico se visse envolto em crescentes dificuldades, e cada vez mais
isolado, no espaço público massificado e truculento que caracterizou a
transição do século XIX para o século XX em Portugal.