Pareto e Gramsci: itinerários de uma ciência política italiana
Os esforços de Gaetano Mosca e Vilfredo Pareto no final do século XIX com vista
à constituição de um conhecimento sobre a política que se distinguisse da
atividade política culminaram na constituição da ciência política na Itália em
finais desse século. Frequentemente, a publicação por Mosca dos Elementi
diScienza Politica, em 1898, é apontada como o primeiro passo para a afirmação
dessa ciência (Bobbio, 2002, p. 285). Mas a datação não deixa de ser
arbitrária, até mesmo se for considerado o caráter pioneiro da obra de Mosca,
uma vez que SullaTeorica dei Governi e Sul Governo Parlamentareé anterior,
datando de 1884. Esse pensamento político italiano que tem em Mosca e Pareto os
seus expoentes, e que marca a transição para o século XX refere-se
principalmente à experiência concreta do Estado liberal e nacional, fruto do
processo de unificação italiana (Albertoni, 1985, p. 303).
Construir uma nova ciência da política significava, também, para esses autores,
encarar o desafio de pensar o seu tempo e, em simultâneo, a criação dos
instrumentos analíticos e conceptuais para tal. Com esse propósito, o acerto de
contas com as orientações do pensamento político italiano predominantes à época
era premente. Eram três as orientações intelectualmente dominantes e que
exigiam uma resposta à altura: o idealismo filosófico ' que se referia ao
pensamento de G.W. Hegel e que surgiu diversamente combinado no ambiente
cultural de Nápoles com a tradição filosófica inaugurada por Giambattista Vico
', a corrente positivista ' visão bastante influenciada por Auguste Comte e
Herbert Spencer, que em Itália gozavam de grande aceitação ' e a tradição
jurídica italiana (idem, pp. 303-305).
O idealismo filosófico influenciava de maneira especial as análises sociais que
se pautavam por um ideal de nacionalidade e enfatizavam as tradições próprias
da cultura nacional italiana como fundamentos de uma nova comunidade política.
O Estado, nessa perspetiva, era concebido como unidade ética que transcenderia
e tornaria possível a vida de indivíduos como partes contratantes na sociedade
civil. Para o napolitano Bertrando Spaventa, o Estado precisaria de se
concentrar nele próprio, na sua substância universal, os indivíduos dispersos e
diversos, unindo em um fim único e comum os espíritos e as vontades de todos
(Spaventa, 1904, p. 159). A reelaboração do pensamento hegeliano pelos irmãos
Bertrando e Silvio Spaventa, alimentou uma corrente que influenciou fortemente
o pensamento italiano da sua época.
Num outro polo, encontramos a corrente positivista. Esta partilhava com os
hegelianos o princípio de que a realidade possuiria uma racionalidade interna,
a qual serviria de base para o desenvolvimento da consciência civil, unificada
com a criação do Estado moderno italiano. Contudo, se a corrente idealista
investigava essa racionalidade por meio do autoconhecimento filosófico do
desenvolvimento de uma entidade metafísica, Geist ou Espírito, inerente ao
indivíduo e à sociedade, os positivistas investigavam os factos. Segundo
Roberto Ardigò, a ciência atem-se à busca dos factos por meio da observação e
experimentação: A fraqueza dos metafísicos está em acreditar que aquelas
noções universalíssimas, que chamam de ideias, precedem a experiência de
qualquer facto (Ardigò, 1882, p, 75). A ideia positivista de que o organismo
estatal melhoraria tendencialmente por um constante e vivíssimo trabalho
evolutivo no qual teria lugar a sua formação natural, o seu desenvolvimento e
o seu progresso (Ardigò, 1886, p. 246) permitiu a rápida absorção dessas
ideias nos círculos socialistas italianos (Albertoni, 1985, p. 305).
Por último, o ambiente intelectual e político da época era influenciado também
por uma fortíssima tradição jurídica. Na vida da Itália liberal, a ciência
jurídica conseguiu tornar-se hegemónica de modo notável e significativo. Neste
contexto, o direito e o Estado formavam um corpo uno ao ponto de parecer
inconcebível uma sociedade sem direito assim como uma sociedade sem Estado
(Albertoni, 1985, p. 305-306). A ciência do Estado, portanto, consistia
propriamente na ciência jurídica, isto é, no estudo da norma necessária para a
existência do ente estatal. Um ente que era já unitário e no qual o direito se
apresentava como o fundamento comum de uma convivência civil que procurava
deitar as suas raízes numa tradição política especificamente italiana
(Albertoni, 1985, p. 325).
As trajetórias de Mosca e Pareto ' fundamentadas no realismo metodológico de
Maquiavel ' não deixam de representar uma rutura com essas orientações. Ao
analisarem os eventos políticos na sua concretude histórica a despeito do
dever-ser refutaram tanto as análises normativas do direito, quanto a
metafísica idealista, inaugurando uma nova tradição de pensamento que permitiu
à ciência política autonomizar-se em relação à ciência jurídica e à filosofia.
Para Albertoni com Mosca e Pareto a clássica elaboração do assim dito
elitismo' configura-se, na passagem do século XIX ao século XX, como uma
tendencial doutrina de valor geral, que indica uma mudança radical de
interesses especulativos e práticos no pensamento político (Albertoni, 1985,
p. 324). Para este autor, Mosca e Pareto fundaram uma nova tradição de
pensamento profundamente imbricada com as questões da Itália e que
posteriormente se generalizou, de forma que a doutrina mosquiano-paretiana
alcançou notável difusão noutras culturas, rompendo, assim, o significado
estreitamente italiano que caracteriza a maior parte das elaborações
doutrinárias nacionalistas entre o século XIX e XX (Albertoni, 1985, p. 323).
O ponto de convergência entre Mosca e Pareto encontra-se justamente na teoria
das elites, que consiste na afirmação da presença de minorias ativas numa massa
passiva e desorganizada, isto é, na separação entre governantes e governados,
como um facto inevitável. O comum acordo acerca da teoria da minoria
dirigente e ao mesmo tempo um núcleo de derivação maquiaveliana está presente
na teoria de ambos (Medici, 1990, p. 11; Hughes, 1979, p. 253). Segundo
Burnham, a conceção da superioridade dos líderes sobre a massa, aquela imensa
necessidade que esta possui de ser guiada, é um tema que Maquiavel já havia
tratado (Burnham, 1943, pp. 59-61). O autor sustentou que estava presente na
obra maquiaveliana uma implícita, mas constante, distinção entre dois tipos de
pessoas: o tipo dirigente e o tipo dominado. O primeiro incluiria não
simplesmente aquelas que em algum momento ocupam posições de liderança na
sociedade, mas, sobretudo indivíduos que aspiram a tais posições e que poderiam
ocupá-las se houvesse oportunidade. O segundo tipo constitui a maioria e
abrange aquelas que não são líderes nem aspiram ao poder. A característica
notável da maioria, portanto, seria a passividade (Burnham, 1943, p. 58). Nesta
perspetiva, assim como os seus seguidores, Maquiavel sustenta que esta
distinção reflete um facto fundamental da vida política.
A herança de Maquiavel é um ponto fundamental para a análise da ciência
política em Itália. Nela insere-se mais tarde Antonio Gramsci. Segundo Medici,
a ideia de que existe uma relação privilegiada entre certos aspetos do
pensamento de Maquiavel e os principais expoentes da ciência política italiana
' Mosca, Pareto e Gramsci ' tem encontrado abrigo no pensamento da crítica mais
recente. Enrico De Mas, por exemplo, afirmou que a ciência política ' ciência
eminentemente italiana, que tem em Mosca o seu mais notável representante ' é a
ciência esquecida do génio de Nicolau Maquiavel e o realismo deste a própria
base do método com que ela enfrenta o problema político (apudMedici, 1990, p.
7).
Com Antonio Gramsci, à semelhança do que se observa em relação à difusão e
generalização do pensamento de Mosca e Pareto, a teoria política do socialismo
inseriu-se na problemática geral da ciência política, transcendendo a polémica
puramente prática. Neste sentido, o marxista sardo teria superado o estreito
âmbito das questões políticas do partido comunista e estabeleceria um contacto
crítico com a ciência política oficial, de Croce a Pareto, de Michels a Mosca
(Cerroni, 1976, p. 157). A reconstrução desse contacto crítico entre Gramsci
e os seus contemporâneos torna-se, dessa maneira, uma importante chave para a
compreensão do seu pensamento político. Neste artigo será destacado o seu
diálogo com Vilfredo Pareto a respeito de dois temas: a metodologia da ciência
política e a distinção entre governantes e governados.
CIÊNCIA DAS UNIFORMIDADES SOCIAIS E FILOSOFIA DA PRÁXIS
No último quarto do século XX tomou corpo em Itália um movimento intelectual de
orientação antipositivista. Filósofos como o marxista Antonio Labriola e os
neoidealistas Benedetto Croce e Giovanni Gentile ocuparam um lugar central
nesse movimento. Para Stuart Hughes, a reação contra o positivismo ' não apenas
às doutrinas de Auguste Comte e à filosofia de Herbert Spencer ' e a oposição
contra toda a tendência para discutir o comportamento humano em termos análogos
ao das ciências naturais foi uma marca dos maiores pensadores da década de
1890: eles acreditavam que se estavam a desfazer de um jugo espiritual que o
quarto de século precedente havia lançado sobre eles (Hughes, 1979, p. 37).
Richard Bellamy considerou que Mosca e Pareto faziam parte dessa tradição e
rejeitaram as implicações metafísicas do positivismo, apesar do estudo da
psicologia humana e da crença num empirismo cru que perduraram na base do seu
entendimento das instituições políticas (Bellamy, 1988, p. 10). Mas o alcance
da rebelião antipositivista do pensamento político italiano, ou pelo menos o
seu impacto sobre a ciência política, parece ter sido exagerado. Mosca, por
exemplo, jamais revogou a sua fé positivista e estava pouco interessado em
discutir os seus próprios pressupostos filosóficos. Pareto, por sua vez,
partilhou com o positivismo as ideias fundamentais de que o conhecimento
estaria fundado apenas na experiência e na perceção sensorial, de que o método
das ciências naturais seria aplicável à vida social e de que a ciência era
axiologicamente neutra (Femia, 2006, p. 16). A partir dessas ideias desenvolveu
um processo de aprofundamento metodológico que o conduziu no Trattatodi
Sociologia Generale a uma elaborada exposição dos problemas epistemológicos e a
uma rutura com os limites da interpretação de Auguste Comte, criando as
condições para a afirmação de um positivismo revisitado metodologicamente
(Medici, 1990, p. 11).1
Pareto era bastante cioso dos aspetos metodológicos da sua investigação e
costumava preceder as suas obras de uma exposição de princípios gerais ou
preliminares. Em Lessystémes socialistes, livro de 1902, insistiu num estatuto
epistemológico para as ciências sociais que fosse capaz de subtraí-las dos
sentimentos, das ideologias e do moralismo (Bonetti, 1994, p. 28). O seu livro
tratava exclusivamente da ciência, afirmava. E não se ocuparia senão de
constatar as relações das coisas, os fenómenos, e de descobrir as
uniformidades que essas relações representam. O estudo daquilo que se chama
causas, se com isso se entende os factos em certas relações com outros,
pertence à ciência e reentra na mencionada categoria de uniformidade (Pareto,
1974, p. 126). E no Manuel d'économie politique, publicado pelo mesmo autor
poucos anos depois, retomava a sua reflexão afirmando que o objetivo da
economia política e da sociologia era pesquisar as uniformidades que
apresentam os fenómenos, quer dizer, as suas leis [ ] sem visar nenhuma
utilidade prática direta, sem se preocupar de modo algum em dar receitas ou
preceitos, sem mesmo buscar a felicidade, a utilidade ou o bem-estar da
humanidade ou de uma de suas partes (Pareto, 1981, p. 3).
Apenas a existência dessas uniformidades permitiria aplicar um tratamento
científico a esses campos do conhecimento. O objetivo da ciência seria, pois, o
estudo das leis que regeriam os fenómenos sociais. O conceito de lei científica
utilizado por Pareto, entretanto, distinguia-se, claramente, da abordagem
comteana. Embora para o autor do Manuel d'économie politique, não pudessem
haver exceções para as leis económicas ou sociológicas, na medida em que uma
uniformidade não-uniforme não faria sentido, as leis científicas não têm uma
existência objetiva (Pareto, 1981, p. 7). A imperfeição do conhecimento
levaria o senso comum a falar de exceções. Mas tais exceções não seriam
senão lacunas do intelecto, ou seja, resultado do desconhecimento de outros
fenómenos sobrepostos àquele estudado. Pareto concluía afirmando a
impossibilidade de saber todos os aspetos de um fenómeno concreto e o
consequente caráter aproximativo das teorias com uma formulação que lembra os
tipos ideais weberianos: Já que não conhecemos inteiramente nenhum fenómeno
concreto, as nossas teorias sobre esses fenómenos são somente aproximativas.
Conhecemos apenas fenómenos ideais, que se aproximam mais ou menos dos
fenómenos concretos (Pareto, 1981, p. 11).
Já nas primeiras páginas do Trattatodi Sociologia Generale ' a sua última e
mais completa obra, cuja primeira edição data de 1916 ' o autor expôs à crítica
aquilo que julgava ser dogmático no positivismo de Comte. Postulou que o seu
método, diferente dos anteriores, se orientava não pela enunciação de
princípios aceites como verdades demonstradas, aos quais nada se podia opor,
mas pela formulação de hipóteses das quais era possível extrair consequências
lógicas. Se estas hipóteses estiverem de acordo com os factos concretos, serão
aceites, e refutadas se não estiverem de acordo com eles (T, v. 1, § 4, p. 2-
3).2 Nesse sentido, afirmava que a comprovação empírica, isto é, os resultados
' e não os princípios ' deveriam nortear as descobertas científicas, pois
todas as ciências progrediram quando os homens discutiram os resultados em vez
de debater os princípios (idem).
Dois conceitos eram fulcrais para o seu método: as ações lógicas e as ações não
lógicas. As ações lógicas eram classificadas como aquelas que possuíam
correspondência entre meios e fins concebidos e meios e fins tal como
ocorreriam objetivamente na realidade, isto é, ações que têm, subjetiva e
objetivamente, o sentido acima explicado [lógico] (T, v. 1, § 150, p. 65). As
demais eram classificadas como não-lógicas, o que não significava que elas
fossem ilógicas. Classificar uma ação como não-lógica significava reconhecer
uma discordância entre aquilo que se planeava atingir por meio de determinados
procedimentos e o resultado efetivo da empreitada.3 É necessário esclarecer
que, para o autor, todo o fenómeno social pode ser considerado sob dois
aspetos, isto é, como é na realidade e como se apresenta ao espírito de certos
homens. O primeiro aspeto será objetivo, e o segundo, subjetivo (T, v. 1, §
149, p. 64). Advertia ainda que, mesmo que as ações dos indivíduos não fossem
de todo lógicas, os homens têm tendência muito grande para dar um verniz
lógico às suas ações. Pareto, devido a isso, sublinhou que era imprescindível
levar em conta, na análise social, os sentimentos, assim como os costumes, que
consistem em interferências subjetivas nas ações (T, v. 1, § 157, p. 70). Por
esta razão, interessavam ao estudioso aquelas ações que não teriam
objetivamente um fim lógico, mas o teriam subjetivamente, na consciência do
agente. Neste sentido, Pareto propunha um estudo lógico das condutas não-
lógicas dos indivíduos.
A tarefa da ciência lógico-experimental seria definir o objetivo e o subjetivo
de toda a conceção ou teoria.4 Todos os conceitos deveriam ser definidos com
relação a realidades constatadas diretamente ou suscetíveis de serem criadas
pela experimentação, e todos os conceitos filosóficos ou essencialistas
deveriam ser excluídos rigorosamente. Com esse propósito, Pareto sistematizou
um conjunto de regras metodológicas pautadas pela observação empírica, que
deveriam guiar a investigação sociológica pela senda das ciências naturais.5 O
campo da vida, da experiência humana era concebido, portanto, como um conjunto
de factos passíveis de conhecimento em si mesmos, medidos como realidades ou
verdades objetivas, sem interferências subjetivas do observador. Pareto somente
concebia uma ciência do social balizada pela objetividade, caso contrário esse
conhecimento seria qualquer outra coisa, isto é, um dogma, uma crença ou uma
religião, mas não efetivamente uma ciência. Pela via indutiva, sem preconceitos
e sem nenhuma noção a priori o autor do Trattato propunha-se descrever os
factos, classificá-los, estudar a sua índole e descobrir as uniformidades
(leis) nas suas relações (T, v. 1, § 145, p. 63).
A crítica antimetafísica que se fez presente nos fundadores da nova ciência
política italiana era partilhada por Gramsci, o qual recusou nos seus
Quaderninão apenas a metafísica idealista, como também a metafísica da
matéria, indo além deles. Esta posição antimetafísica era complementada por
uma atitude franca e explicitamente antipositivista, construída a partir da
reelaboração da crítica que Benedetto Croce havia levado a cabo de modo
insistente na sua obra. Foi por alimentar essa atitude que Gramsci se colocou
num campo da interpretação social diferente daquele em que se posicionaram
Pareto e Mosca.
Para Gramsci, o conhecimento das realidades políticas somente seria possível
por meio da análise da totalidade e da complexidade das relações sociais no seu
movimento histórico. Sendo assim, tratar da ciência política seria estabelecer
a posição dialética da atividade política (e da ciência correspondente) (Q13,
§ 10, p. 1568).6 Coube a Maquiavel ser o fundador da questão da política como
ciência autónoma, o que teria permitido investigar o lugar da política numa
conceção sistemática (coerente e consequente) do mundo ' em uma filosofia da
práxis (idem). Gramsci chamou a atenção para a necessidade de compreensão da
génese dos fenómenos que aparecem na superfície do tecido social enquanto
factos sociais naturalizados (Sgambati, 1977, p. 609) e para a necessidade de
compreensão das implicações teórico-políticas de toda a ciência social que se
paute pela visão estática da realidade.
A filosofia da práxis era definida pelo marxista sardo como ciência da
dialética ou gnosiologia, na qual os conceitos gerais de história, de política,
de economia, se relacionam numa unidade orgânica (Q11, § 33, p. 1448). Nesta
definição está subjacente o pressuposto da totalidade como fundamento para a
apreensão da complexidade da realidade social no seu movimento histórico.
Refutava, portanto, a tentativa de isolar elementos da totalidade sem
consideração do conjunto de relações em que se inserem. Isto porque ' de acordo
com sua conceção dialética ' a apreensão da realidade ocorre no movimento
interno dos fenómenos e não na dissecação de suas partes isoladas.
Segundo Giuseppe Prestipino (2004, p. 55), é possível diferenciar na obra de
Gramsci dois usos da dialética: como método, ou técnica formal do pensar
filosófico, e como saber filosófico que alcança a compreensão do seu conteúdo
que é a história real. No primeiro sentido, utilizando-se da crítica ao Ensaio
Popularde Nikolai Bukharin, indicou aquilo que acreditava ser o equívoco das
ciências positivistas da análise social: a ação de separar, classificar e
generalizar os dados, tal qual se faz nas ciências naturais.7 Quando
transplantado de forma mecânica para o âmbito das ciências humanas, o método
científico das ciências da natureza amputava a relação dialética dos elementos
responsáveis pelo movimento do processo histórico. Essa forma de conceber os
factos não era capaz de captar a complexa dinâmica das forças históricas, o que
incluía as suas contradições, redundando numa conceção linear e evolucionista
da história.8 Neste sentido, o empirismo que supostamente deveria perceber os
fenómenos na sua realidade concreta, tornava-se uma metafísica na medida em que
recortava essa realidade. O fracionamento impedia-o de compreender o fenómeno
além da sua aparência exterior e superficial. Sob o olhar de Gramsci, o
positivismo assumia uma aparente proximidade com o idealismo.9
O método positivista ' segundo Gramsci ' concebia a ciência como uma pesquisa
de leis, de linhas constantes, regulares, uniformes, tal qual aparecia em
autores como Vilfredo Pareto e Gaetano Mosca, como uma maneira ingénua e
pueril de resolver o problema prático da previsibilidade histórica. Isto
assemelhava-se a uma estranha inversão de perspetivas, ou seja, parecia
estranho que a metodologia histórica necessitasse de adotar o paradigma das
ciências da natureza e a sua capacidade de previsão para se afirmar como
ciência. A deformação da perspetiva científica obrigava a ciência a prever o
futuro da sociedade, daí a sua necessidade de buscar a causa primeira ou a
causa das causas (Q11, § 15, pp. 1403-1404). Para Gramsci, entretanto, na
realidade é possível prever cientificamente' apenas a luta, mas não os seus
momentos concretos (idem). O autor procurou mostrar, assim, que o método
científico poderia prever o conflito na medida em que o antagonismo social
estaria presente no complexo de relações sociais, mas definitivamente não
poderia antever o seu resultado.
As forças antagónicas em contínuo movimento na história seriam sempre
irredutíveis a quantidades fixas, uma vez que no terreno da ação humana a
quantidade transformar-se-ia continuamente em qualidade (idem). Aqui residiria
a diferença fundamental entre os dados das ciências naturais (que são
quantificáveis e matematizáveis, isto é, podem ser apresentados sob a forma de
leis estatísticas) e os dados das ciências humanas, cujo caráter é contingente,
qualitativo, em suma, pertencem ao reino da liberdade humana. Neste sentido, a
única possibilidade de previsão histórica seria o próprio esforço voluntário
a partir do qual se contribui concretamente para criar o resultado previsto.
Noutras palavras, a previsão revela-se, portanto, não como ato científico de
conhecimento, mas como expressão abstrata do esforço que se faz, o modo prático
de criar a vontade coletiva (idem). Este era precisamente o segundo aspeto da
dialética de Gramsci, ou seja, a dialética real, como devir histórico da
unidade teoria e prática.
Para o autor, o grande equívoco do positivismo e, consequentemente, de
Bukharin, era não perceber que as ciências humanas e, particularmente a ciência
política, necessitavam de um método próprio de investigação. Tomar emprestado
o método de investigação das ciências naturais redundava em prejuízo para o
conhecimento das realidades sociais, pois o método e a ciência que produz
formam um todo único, inseparável (idem). Isto equivale a dizer que não existe
um tipo ideal de método.10 Uma ciência da política só poderia ser concebida a
partir da perceção de que toda a teoria social estaria inserida no campo das
relações de forças sociais (Q11, § 15, pp. 1405-1406). Esta relação de forças
sociais estaria implícita na dialética entre estrutura (condições necessárias e
suficientes/relações de produção) e superestrutura (ideologias/filosofias).11
Existe aqui uma relação de dupla implicação entre a estrutura e a
superestrutura. Isto é, na mesma medida em que determinada forma de vida
(estrutura) geraria um sistema filosófico (superestrutura) correspondente, esse
sistema atuaria sobre ela, renovando-a. Considerando que a política faz parte
das superestruturas, a sua ação, perante condições objetivas favoráveis, seria
potencialmente o motor das transformações históricas. Por outras palavras, as
condições objetivas para a superação de uma formação social não gerariam
automaticamente a transformação da antiga ordem numa nova civilização, mas isso
seria possível por meio da política. Sendo assim, a organização política dos
grupos subalternos seria um elemento necessário para que as condições materiais
favoráveis encontrassem ação suficiente para a deflagração do processo de
transformação social. Neste processo articulavam-se, num nexo orgânico, a
filosofia, a política e a história (Q10, § 2, p. 1241).
Os sistemas filosóficos estariam necessariamente ligados a um momento
histórico, pois são manifestações íntimas das contradições que dilaceram a
sociedade (Q11, § 62, p. 1487). Eles seriam concebidos na história e por meio
dela encontrariam elementos para vigorar ou ser superados. Noutros termos: não
existe conceção de mundo que seja extra-histórica. A filosofia, como conceção
de mundo, uma vez em movimento na história e em relação dialética com a
realidade material, reflete-se na ação dos homens, que é precisamente a sua
política. Isto é, toda a política, entendida como ação concreta na história,
orientar-se-ia pelos limites impostos pela estrutura e por conceções do mundo.
Contudo, a filosofia da práxis estaria mutilada se não chegasse à identidade
também entre história e política. Nesse sentido, dizia Gramsci: o político é
um historiador, o historiador é um político [ ] a história é sempre história
contemporânea, isto é, política. É preciso advertir, contudo, sobre o risco de
reduzir a teoria política de Gramsci à historiografia. Apesar da identificação
entre filosofia, política e história, não se deve reduzir os termos a nenhum
deles separadamente (Pizzorno, 1967, p. 114).
Segundo Pareto, não há uma solução científica para o problema da ação, da
conduta individual e da organização social (Aron, 2000, p. 379). Na sua
conceção, ciência e política pertencem a campos separados da vida humana. Assim
não compete à ciência responder a problemas políticos. Qualquer interferência
política sobre a ciência lhe furta a objetividade e distorce-a. Gramsci, por
outro lado, entende que há uma ligação orgânica entre filosofia, política e
história. É impossível separá-las, pois o campo das realidades sociais dá-se a
conhecer somente na sua totalidade e complexidade. Neste sentido, isolar
elementos da realidade e estudá-los tal qual o método das ciências naturais não
produziria mais do que uma ideologia liberal.12 Para ele não é possível cortar
a racionalidade com um cutelo, separando a norma positiva e concreta da
realidade de uma outra irracional e infundada porque ideal, isto é, ideológica
(Zarone, 1990, p. 268).
GOVERNANTES E GOVERNADOS
Em 1901, Vilfredo Pareto publicou Lessystémes socialistes, obra na qual
apresentou uma teoria científica das elites políticas. A sua pesquisa tomou
como ponto de partida certos princípios de fisiologia social, dentre os quais
a curva de distribuição de riqueza já apresentada no seu Coursd'économie
politique. Segundo afirmava, a forma dessa curva não era casual e relacionava-
se com a distribuição de características fisiológicas e psicológicas dos
homens, por um lado, e, por outro, com as escolhas feitas pelos homens com base
nessas características e com os obstáculos que encontrariam para a produção,
temas estudados pela economia política. Curvas similares representariam a
distribuição de outras características como a inteligência, o talento musical,
o caráter moral, etc., mas os mesmos indivíduos não ocupariam as mesmas
posições nas diferentes figuras. As posições ocupadas nas curvas de
distribuição de riqueza e de distribuição de poder político ou social seriam,
entretanto, as mesmas ou muito próximas: As classes ditas superioressão,
geralmente, também as mais ricas. Essas classes constituem uma elite,
umaaristocracia (Pareto, 1974, p. 131).
Como visto, a ciência social era possível para Pareto na medida em que os
factos sociais apresentavam uma uniformidade: A constatação da existência
dessas uniformidades constitui a doutrina do determinismo científico (Pareto,
1974, p. 184). Por este método, o sociólogo de Lausanne chegava à constatação
de um facto real e passível de comprovação histórica: as diferenças humanas
refletir-se-iam na divisão social, em todos os tempos, entre um estrato
superior onde estão comumente os governantes, e um estrato inferior onde se
encontram os governados (T, v. 3, § 2047, p. 260). A distinção entre aqueles
que estão num estrato superior, as elites, e aqueles que se encontram num nível
inferior era feita com base nas capacidades individuais, levando-se em conta a
valorização desta ou daquela capacidade pelo grupo social (Busino, 19--, p.
21).
Embora afirmasse no Trattato pretender dar uma definição teórica do fenómeno,
tão precisa quanto possível (T, v. 3, § 2028, p. 256), falta nesta obra, assim
como na precedente, justamente um conceito claro e preciso de elite. Chama a
atenção que o ponto de partida de Pareto seja uma suposição: Suponhamos,
então, que em todo ramo da atividade humana se atribua a cada indivíduo um
índice que indique a sua capacidade, mais ou menos como são dados os pontos nos
exames de várias matérias numa escola (T, v. 3, § 2027, p. 256). E, a seguir,
partindo de uma observação do senso comum de que indivíduos diferentes
receberiam notas diferentes para as suas habilidades, afirmava que aqueles
que obteriam os índices mais elevados nos ramos da sua atividade receberiam o
nome de classe eleita (elite) (T, v. 3, § 2031).
O objetivo de Pareto no Trattato não era uma análise de toda a elite. Embora em
seu argumento fizesse referências à élite dos poetas e xadrezistas, não foi à
análise destas que se dedicou de modo mais intenso. O tema central dessa obra é
o equilíbrio social. Desse modo, Pareto julgava necessário para seu estudo
subdividir a élite em duas partes, por um lado aqueles que, direta ou
indiretamente, têm parte notável no governo e constituem a classe eleita de
governo,o restante será a classe eleita de não-governo. (T, v. 3, § 2032, p.
257.) Foi sobre a classe eleita de governo que sua atenção recaiu e
particularmente sobre o fenómeno de circulação da classe eleita (circulationdes
élites), ou seja, sobre as alterações que ocorrem no grupo dos governantes.
O fenómeno da circulação das elites descrito por Pareto revela a sua conceção
ondulatória da história (cf. p. ex. Pareto, 1974, p. 149 e T, v. 3, §§ 2329- -
2341, pp. 467-475). O facto de que a distinção entre governantes e governados
fosse concebida como uma característica uniforme em todos os tempos não
implicava afirmar o caráter imutável ou a-histórico desses grupos sociais. As
aristocracias não duram, escreveu Pareto em Lessystémes socialistes e, também,
no Trattato (Pareto 1974, p. 131 e T, v. 3, § 2053, p. 262). A decadência
dessas aristocracias seria mais ou menos rápida, também ela seria um facto que
bastaria afirmar. Em Lessystémes socialistesa guerra era apontada como uma das
causas dessa decadência, mas também na paz ela teria lugar: Não se trata
apenas da extinção da aristocracia pelo excesso do número de mortes sobre os
nascimentos, mas também da degeneração dos elementos que a compõem, e as
aristocracias não podem então existir senão com a eliminação destes elementos e
a chegada de novos (Pareto, 1974, p. 132).
A teoria da circulação das elites fundamenta-se na capacidade do grupo
dirigente em renovar-se, isto é, na sua capacidade de incorporar uma
percentagem de novos elementos. A circulação entre o estrato inferior e o
superior ' a mobilidade ' terá de ser, sobretudo, vertical, ascendente e também
descendente (Busino, 19--, p. 21). A elevação de elementos dos estratos
inferiores ' da massa de governados ' segundo esta conceção, era um fator de
estabilidade e continuidade social, pois este seria o processo regular de
funcionamento do sistema. Um retardo na circulação das elites esvaziaria a
capacidade governativa do grupo que detém o poder devido ao aumento simultâneo
dos elementos degenerados no seu interior e dos elementos de qualidade
superior nas classes subordinadas (Pareto, 1974, p. 133. Cf. tb. T, v. 3, §
2055, p. 263).
Essa perda da capacidade governativa por parte das elites teria como resultado
uma sublevação violenta de grupos e indivíduos pertencentes a seus estratos
inferiores (cf. T, v. 3, §§ 2055-2059, p. 263; Aron, 2000, p. 418). A
decadência da classe eleita faria com que nela se acumulassem elementos que não
possuiriam a capacidade de inovação necessária para mantê-la no poder, ou que
refutariam o uso da força, enquanto nos estratos inferiores cresceriam os
elementos que possuiriam essa capacidade ou que estariam dispostos a operar
com a força (T, v. 3, § 2057, p. 263). Mas uma revolução não implica uma
superação das diferenças entre governantes e governados ou a extinção das
elites governantes. O conflito existente seria sempre um conflito entre
oligarquias e não entre oligarquia e povo (Bonetti, 1994, p. 30). Segundo o
autor do Trattato: geralmente nas revoluções os indivíduos dos estratos
inferiores são capitaneados pelos indivíduos dos estratos superiores, porque
nestes estão as qualidades intelectuais úteis para preparar a batalha (T, v.
3, § 2058, p. 263).
Era, portanto, uma teoria da conservação social aquela com a qual Gramsci
estabeleceu um frutífero debate. Ele conhecia a teoria das elites de Pareto,
bem como a teoria da classe política apresentada por Mosca nos seus
Elementidi Scienza Politica.13 Assim como muitos, o marxista sardo aproximou de
modo forçado as conceções de Mosca e Pareto, embora lhes reconhecesse certas
diferenças. O uso das expressões elite e classe política nos Quaderniocorre de
modo indistinto. Cabe, entretanto, verificar em que sentido utiliza esses
termos. A inserção explícita dessa temática no projeto gramsciano de pesquisa
sobre a história dos intelectuais é importante para compreender a forma de
apropriação gramsciana desses conceitos. Para o marxista sardo, a assim
chamada classe política' de Mosca não é senão a categoria intelectual do grupo
social dominante. O conceito de elitede Pareto, por sua vez, seria outra
tentativa [semelhante] de interpretar o fenómeno histórico dos intelectuais e
da função na vida estatal e social (Q8, § 24, p. 956).
Ao aproximar os conceitos de elite e de classe política do conceito de
intelectual, Gramsci promoveu uma importante torção nas formulações de Mosca e
Pareto. Ao primeiro repreendia por não abordar o complexo problema do partido
político, o que impediria o autor dos Elementi de definir de modo mais preciso
o conceito de classe política (Q8, § 52, p. 972). Mas a mesma crítica poderia
ser dirigida a Pareto, embora não fosse extensível a outro elitista, Robert
Michels, o qual fazia do conceito de elite a chave para o seu estudo sobre os
partidos políticos. A ausência de uma reflexão sobre os partidos políticos
faria Mosca oscilar entre um conceito que restringiria a classe política ao
pessoal político de um Estado, e outro no qual estariam incluídos aqueles que
operariam no sistema representativo. Pareto, por sua vez, embora estabelecesse
a distinção entre elitegovernante e elitenão governante e afirmasse em
Lessystémes socialistescolocar o seu foco nesta última, ficava em clara
contradição uma vez que essa distinção excluía do seu foco as elites políticas
que não se encontravam no governo, colocando-as novamente ao lado de poetas e
xadrezistas.
Era por meio do partido político que poderia ter lugar, para Gramsci, a criação
de uma nova classe política que expressasse uma nova forma de civilização.
Era o problema da formação das elites, dos intelectuais das classes
subalternas, que o marxista sardo tinha em mente. Esse não era um problema para
Pareto, que considerava as elites como portadoras de características
fisiológicas e psicológicas que permitiriam distingui-las do restante da
humanidade. Um argumento como este não poderia ser aceite por Gramsci, que
rejeitava de modo veemente tanto a ideia de natureza humana presente em
Maquiavel, como aquela divulgada pelas diversas versões do darwinismo social em
Itália, dentre elas a de Pareto. Caberia ao partido, ao moderno Príncipe, a
criação de um novo homem coletivo, isto é, a criação histórica de um novo
nível de civilização, educando uma classe política' que já em ideia encarne
esse nível (idem).
Era nessa aceção histórico-política que Gramsci se contrapunha à teoria
mosquiano-paretiana das elites, embora não discordasse que a divisão entre
governantes e governados fosse uma realidade política. Essa divisão era por ele
concebida, até mesmo, como o ponto a partir do qual se tornaria possível pensar
uma ciência da política. Sob o sugestivo título Machiavelli. Elementi di
politica escreveu Gramsci: O elemento fundamenal é que existem efetivamente
governados e governantes, dirigentes e dirigidos. Toda ciência e a arte
políticas se baseiam neste facto primordial, irredutível (em certas condições
gerais). A origem dessa distinção deveria ser estudada pela historiografia,
mas a questão fundamental seria outra: a da atenuação ou desaparecimento desse
facto.
Não havia em Pareto uma questão pedagógica propriamente dita, referente à
educação e à formação das elites. Mas a questão pedagógica retornava com força
em Gramsci. Formar novos e melhores dirigentes era um dos objetivos da ciência
e arte da política. Mas formar com que objetivo? Responder a essa pergunta era
uma premissa fundamental para Gramsci:
Na formação dos dirigentes, é fundamental a premissa: pretende-se que sempre
existam governados e governantes ou pretende-se criar as condições nas quais a
necessidade dessa divisão desapareça? Isto é, parte-se da premissa da divisão
perpétua do género humano ou crê-se que ela é apenas um facto histórico,
correspondente a certas condições? [Q15, § 4, p. 1752].
Tem-se aqui a chave para a radical divergência entre Gramsci e os elitistas.
Para o autor dos Quaderni, essa divisão não era uma realidade imutável, fruto
da natureza humana e sim produto de situações concretas, que se desenvolveram
na história no meio de relações de forças entre grupos antagónicos na
sociedade. Esta impostação histórica e política do problema conduziu Gramsci a
uma apreciação da questão da circulação das elites de modo também diverso. Como
visto acima, para Pareto este era um problema relacionado com aquele do
equilíbrio social. A circulação das elites, caracterizada por uma depuração de
elementos degenerados do grupo governante e uma absorção dos elementos ativos
dos grupos não governantes daria ao sistema uma estabilidade sempre renovada,
evitando revoluções e convulsões sociais. A leitura que o sociólogo de Lausanne
fazia desse fenómeno social era, portanto, francamente positiva e não deixava
de ser prescritiva. A circulação das elites não seria apenas um facto. Seria um
facto desejável.
Gramsci tratou desse fenómeno social na sua análise do transformismo. O
transformismo difundiu-se na cultura política italiana durante o governo da
sinistra storica de Agostino Depretis, e a incorporação à gestão estatal dos
elementos ativos e progressistas da sestra storicano ano de 1882, formando um
bloco moderadamente reformador que impediu a ação política dos grupos mais
radicais no Parlamento.14 A primeira vez que Gramsci utilizou as expressões
classe dirigente e elites nos seus Quaderni foi, justamente, para discutir
o fenómeno do transformismo do Partito d'Azione:
Os moderados continuaram a dirigir o Partito d'Azione mesmo depois de [18]70 e
o transformismo é a expressão política dessa ação de direção; toda a política
italiana de [18]70 até hoje é caracterizada pelo transformismo, isto é, pela
elaboração de uma classe dirigente nos quadros fixados pelos moderados depois
de 1848, com a absorção dos elementos ativos, tanto das classes aliadas como
das inimigas. A direção política torna-se um aspecto de domínio, enquanto a
absorção das elitesdas classes inimigas produz a decapitação destas e a própria
impotência. Pode-se e deve-se ser uma hegemonia política mesmo antes de ir ao
Governo e não se precisa de contar somente com o poder e a força material que
este poder dá para exercer a direção ou hegemonia política. Da política dos
moderados aparece clara esta verdade e é a solução desse problema que tornou
possível o Risorgimento na forma e nos limites nos quais ele ocorreu, de
revolução sem revolução [ou de revolução passiva segundo a expressão de v.
Cuoco] [Q1, § 44, p. 41. Itálicos nossos].
O transformismo, sem dúvida, deu estabilidade às elites governantes da
península. Mas essa foi, para Gramsci, uma estabilidade conservadora, na medida
em que consolidou os quadros políticos nos quais se processou a unificação
italiana, ou seja, na medida em que deixou irresolutas a questão agrária, a
questão meridional e a questão vaticana, três problemas profundamente
interligados. A forma que assumiu a hegemonia política dessas
elitesgovernantes, a revolução passiva, por outro lado, valorizou os meios de
dominação em detrimento daqueles de direção.15 A absorção de dirigentes das
classes subalternas ao grupo dominante, a paretiana circulação das elites, teve
como consequência o passivismo dessas classes subalternas.
Romper com o passivismo destas classes era um problema que o próprio partido
deveria resolver. Segundo Gramsci, uma vez que existem dirigentes e dirigidos,
governantes e governados, é verdade que os partidos são até ao momento o modo
mais adequado para elaborar os dirigentes e a capacidade de direção. (Q15, §
4, p. 1753). Mas no próprio partido esta distinção reproduzir-se-ia como um
facto técnico. Como, então, criar condições para o desaparecimento desta
situação? A questão não era apenas meramente técnica e dizia respeito aos fins
do partido e aos meios mobilizados para a realização dos objetivos últimos.
Para superar a distinção entre governantes e governados, dirigentes e dirigidos
não faria sentido reforçar essas mesmas distinções no interior do partido.
Criar as condições políticas para a superação destas significava, também,
recusar o princípio da obediência automática aos chefes.
Gramsci parece, neste ponto, avançar uma crítica ao estalinismo. A crença pelos
chefes de que as coisas deveriam ser feitas simplesmente porque eles as julgam
justas e racionais era denominada por Gramsci de cadornismo e este implicava
um hábito criminoso de negligenciar os meios de evitar os sacrifícios inúteis
(idem).16Tratava-se de um hábito criminoso porque produzira a maior parte dos
desastres coletivos do último século. Que expressão poderia sintetizar melhor o
advento do estalinismo do que a de desastre coletivo? Como era hábito,
Gramsci tratava o tema da União Soviética de modo cauteloso e metafórico. Mas
esse modo não abafava o eco daquela carta que escreveu ao Comité Central do
Partido Comunista da União Soviética, em 1926, na qual exigia que a sua maioria
não procurasse vencer a oposição de modo esmagador nem utilizasse medidas
excessivas (Gramsci, 1992, pp. 461-462).
CONCLUSÃO
A relação de Gramsci com as ideias de Pareto foi marcada por permanências e
ruturas no interior de uma tradição realista maquiaveliana. A herança comum
deste realismo foi responsável por algumas extraordinárias continuidades
temáticas e afinidades conceptuais.17Entretanto, a despeito destas, o realismo
maquiavelista abrigou profundas desigualdades. Pareto era um liberal
conservador, Gramsci um comunista revolucionário. Contudo, segundo Zarone, não
é necessário ser reacionário para ser realista em política, nem é necessário
ser conservador para admitir o problema histórico da ordem. A necessidade da
ordem representa sempre um limite às realizações políticas de liberdade,
igualdade e emancipação social (Zarone, 1990, p. 250). Por esta razão, este é o
campo de confronto em que as diversas e opostas teorias se encontram. Foi neste
sentido que se afirmou aqui que Gramsci e Pareto, igualmente apoiados no
realismo de Maquiavel, estavam empenhados na (re)formulação de uma ciência
política. A natureza das suas explicações para o problema histórico da ordem,
cerne da teoria das elites, era o que lhes emprestava o caráter polémico.
Embora ambos os autores enfatizassem a realidade da divisão entre governantes e
governados, as consequências teóricas e políticas dessa ênfase eram muito
diferentes e em alguns casos opostas. Como se apontou acima, Pareto pretendeu
produzir uma teoria científica da estabilidade e do equilíbrio social. Gramsci,
por outro lado, procurou desenvolver uma análise histórica das transformações
políticas. O confronto analítico entre essas duas vertentes expõe o conflito
entre as versões positivista e antipositivista do realismo maquiavelista, as
quais marcaram o pensamento político e social italiano no final do século XIX e
início do XX. Enquanto a primeira versão produziu um método lógico-experimental
com forte viés cientificista, a segunda revalorizou uma longa tradição
historicista italiana inaugurada pela cultura renascentista.
Por outro lado, o desacordo teórico-político entre Gramsci e Pareto torna-se
patente na esfera de análise das minorias governantes e da permanência destas
ao longo da história. A teoria das elites, deste modo, configurava-se como
campo de confronto e prova dos métodos de Gramsci e Pareto. Para o professor de
Lausanne, a realidade da divisão entre governantes e governados em toda a
história por si só constituiria prova cabal da sua hipótese da divisão do
género humano entre aqueles que possuem capacidades de governo e aqueles que
possuem a necessidade de serem governados. Enquanto para Gramsci, a existência
histórica das elites governantes era prova incontestável da existência do
conflito social e da efetividade da ação política dos homens na história.18
Para os estudiosos do pensamento político contemporâneo, acostumados a
identificar a ciência política com a forma que esta assumiu predominantemente
nos Estados Unidos, Pareto e Gramsci podem servir como contrapontos.
Paralelamente à institucionalização dessa ciência no continente americano,
desenvolvia-se, em Itália, uma tradição diversa. As origens dessa tradição são
as mais nobres possíveis: o realismo maquiavelista. Um pensamento político que
não recusava o conflito como seu objeto caracterizava essa tradição. Resgatá-lo
pode ajudar a superar os impasses da ciência política contemporânea.