Fugas, quilombos e fujões nas Américas (séculos XVI-XIX)
FUGAS
Nas Américas, como na África pré-colonial, a reprodução do escravismo esteve
estruturalmente ligada à contínua reiteração do poder. Não poderia ser de outro
modo, pois não sendo autorregulável, a produção escravista pressupunha a
constituição de relações pretéritas e desiguais de poder ' antes de ser
propriedade o escravo era um cativo de outro homem. Senhores e escravos estavam
unidos, antes de uma relação de produção, por uma relação de poder fundada numa
ordem privada e culturalmente legitimada. Por isso, e não apenas por
representarem um ataque frontal ao direito de propriedade, é que as fugas e os
quilombos encarnavam a típica atitude de resistência à escravidão, um ato
extremo no campo da política, cuja simples possibilidade apontava para os
limites do domínio privado do senhor e garantia ao escravo algum espaço para a
negociação de demandas. Mas não se deve esquecer que a escravidão vicejou nas
Américas durante quase quatrocentos anos ' quatro vezes mais do que a
experiência do trabalho livre, portanto. Logo, por variadas formas, o passado
escravista ainda é maior do que o presente livre. Eis a razão pela qual embora
as fugas e as comunidades de escravos fugidos constituíssem formas clássicas de
resistência à escravidão, de algum modo o seu estudo pode igualmente ensinar
algo acerca de tamanha estabilidade.
Pode-se começar pela capitania do Rio de Janeiro (Brasil), uma região altamente
integrada no mercado internacional de produtos tropicais. Se em 1789 o total de
escravos chegava a 65 mil habitantes ' 15 mil na cidade do Rio de Janeiro ',
trinta anos depois rondava os 150 mil, dos quais 40 mil na urbe. O tráfico de
africanos explica tamanho incremento, com médias anuais de 9 000 desembarcados
na última década do século XVIII, e de 23 mil entre 1808 e 1830, a maior parte
prontamente redistribuída pelo sul-sudeste brasileiro (Florentino, 2010, p. 37
e segs.). As listas de cativos constantes de inventários post-mortem indicam
que com tal incremento exacerbou-se a taxa de masculinidade e diminuiu a de
dependência. Movimento semelhante ocorreu na região de Taubaté, capitania de
São Paulo, uma área rural voltada para o mercado interno colonial, cuja ligação
ao tráfico de africanos cresceu igualmente depois de 1808 (cf. a tabela 1)
Tabela_1 - Perfis demográficos dos escravos de Taubaté (1730-1830) e do Rio de
Janeiro (1789-1835)
Menos de 3,0% dos mais de 1 200 inventários post-mortem da capitania do Rio de
Janeiro e de Taubaté registavam nomes de escravos fugidos, num total inferior a
1,0% dos quase 14 mil escravos arrolados pela fonte. Ao derivarem de escravos
que senhores à beira da morte, ou os seus herdeiros, davam por inapelavelmente
perdidos, anotados ademais no intuito de dirimir dúvidas acerca dos valores a
serem partilhados, estes índices parecem bastante fiáveis. Eles sugerem terem
sido menos frequentes do que se costuma supor as evasões que permitiam aos
cativos organizarem-se mais ou menos rapidamente em bandos, sob a chefia de um
deles, ou reunirem-se a quilombos pré-existentes. Poucas e, além disso,
circunscritas a poucos grupos, a estas fugas definitivas, muitas vezes
designadas grandmarronages, chamaremos de agora em diante fugas-rompimento.
Fontes qualitativamente distintas dos inventários post-mortem, os avisos de
fugas de escravos publicados em jornais coevos, desvelam outros aspetos desse
tipo de resistência ao cativeiro. Em primeiro lugar porque, ao assumirem que o
fugitivo podia ser recuperado, os seus responsáveis obrigavam-se a detalhar as
circunstâncias das escapadas, as origens e os traços físicos dos fugitivos,
além das expectativas de captura, aspetos que permitem ao historiador montar
perfis sociodemográficos e abordar as perceções dos atores envolvidos nas
evasões. Em segundo lugar, embora abarquem também as fugas-rompimento, os
avisos permitem conhecer melhor as ausências temporárias, muito mais
frequentes, resultantes do impacto do desembarque do africano nas Américas, do
humor do cativo, ou da natureza do trabalho que lhe era exigido, quando não da
vontade explícita de mudar de senhor.
Também chamadas petitmarronages, ausências deste tipo eram efetuadas mais
individualmente do que por reduzidos grupos de escravos, que se escondiam nos
arredores dos locais de trabalho, nas casas de parentes ou nas senzalas
vizinhas. Com alguma prudência podem ser chamadas fugas-reivindicativas ou
escapadelas, pois muitas vezes o seu objetivo final era tão-somente obter
pequenas conquistas tendentes a alargar a autonomia do escravo na escravidão.
Sem nenhuma garantia de êxito, fugia-se para obter dos senhores melhores
condições de vida, o que inseria este tipo de evasão num conjunto de atitudes
de resistência quotidiana cuja sistematicidade podia reordenar alguns cânones
da escravidão.
Documentos oficiais e eclesiásticos confirmam, desde o século XVI, na América
espanhola e no Brasil, a existência de uma espécie de população flutuante entre
os escravos, indivíduos que escapavam das plantations e das minas para se
unirem aos cimarrones das montanhas próximas, mas que logo regressavam, seja
para visitarem parentes ou simplesmente para pressionarem os seus senhores a
autorizá-los a, por exemplo, casarem com escravas de outros proprietários.
Delicados são os procedimentos que permitem avaliar o quão generalizáveis podem
ser os números encontrados para a América portuguesa. Isto porque, fascinados
pelas grandes revoltas de escravos e pelas bem estruturadas comunidades de
fugitivos, os investigadores geralmente relegam para um plano secundário a
análise da resistência quotidiana e não necessariamente tendente à superação da
escravidão, como foi o caso da maioria das fugas. Além disso, muitos aceitam
sem prudência algumas estimativas produzidas por senhores e autoridades
coloniais, cujo afã de controlar a escravaria às vezes as levava a sobrestimar
a envergadura das fugas e dos quilombos. Não poderia ser de outro modo, aliás,
pois as evasões frequentemente expunham os limites do poder senhorial. Eis a
origem de uma espécie de paranoia senhorial, sempre pronta a exagerar a escala
real das fugas, revoltas e quilombos nas Américas. Um dos primeiros a trilhar
semelhante caminho talvez tenha sido o castelhano que em meados do século XVI
calculou em 7 000 o número de cimarrones africanos a habitarem assentamentos
dispersos pela ilha de La Española, número dificilmente aceitável por
estudiosos do tráfico atlântico de escravos (Landers, 2001, p. 145).
Acompanhou-o a Coroa portuguesa ao determinar que, no Brasil de meados do
século XVIII, por quilombo devesse ser entendido todo o agrupamento superior a
cinco fugitivos que habitasse uma zona despovoada, mesmo sem nenhuma evidência
de que podiam sustentar-se por si próprios (Amantino, 1998, p. 109). Por essas
e por outras razões, não surpreende que de 70 insurreições de escravos tidas
como ocorridas no Caribe britânico entre 1649 e 1833 ' incluindo aí as de larga
escala e a violência de pequeno escopo ', 32 tenham resultado da paranoia
senhorial ou simplesmente não se materializaram (Beckles, 1991, p. 364).
Grandes estâncias jesuíticas do vice-reino do Rio de la Plata apresentavam
baixos índices de fugas ' em 1768, logo após a expulsão dos religiosos, não se
registavam evasões entre os escravos que viviam nas estâncias de San Miguel de
Tucumán e de Santiago del Estero; na de La Rioja, apenas 1,1% dos 273 cativos
estavam ausentes (Andrés-Gallego, 1996 e ainda Assunção, 2002). A
institucionalização da cultura da manumissão, mais comum em regiões de
colonização ibérica e católica, por certo contribuía para frequências assim
baixas. Maiores, mas nem por isso extravagantes, eram os índices observados em
colónias protestantes como as ilhas dinamarquesas de St. Croix, St. Thomas e
St. Jan. Em 1789, o pedagogo Hans West reportou 1340 fugitivos contumazes ou
definitivamente evadidos em St. Croix, i.e., 6,0% de um total de 22 448
escravos. Estimativa mais precisa foi feita em 1792 por P.L. Oxholm, engenheiro
militar, que depois se tornou governador geral ' 96 escravos para sempre
evadidos, ou apenas 0,5% dos 18 121 escravos de St. Croix. O seu relatório
revelava ainda um total de 2082 fugas reivindicativas nesse ano (11,5% da
população escrava), o que torna a quantidade de fugas definitivas vinte vezes
menor do que a dos fujões que regressavam a seus senhores ou eram capturados.
Em 1802, os 86 cativos definitivamente fugidos representavam menos de 3,0% dos
3 150 escravos de St. Thomas (Hall, 1991, p.389).
Em contextos localizados, os índices de fugas podiam ser bem maiores do que o
expresso por estes poucos casos. Tratava-se de evasões maciças, ocorridas tanto
em fases de depressão quanto de expansão económica, não raro em situações de
pré ou de pós-revolta de escravos, ou ainda no bojo de conflitos entre as
diferentes metrópoles coloniais. Por exemplo, quando os piratas holandeses
saquearam partes de La Española, em 1626, muitos escravos aproveitaram para
escapar para as montanhas e outros até acompanharam os flibusteiros (Thornton,
1992, p. 278). Em 1687 Diego de Quiroga, governador da Flórida, informou Madrid
que 11 escravos haviam chegado da Carolina numa canoa roubada, e logo
requereram o seu batismo na verdadeira fé católica. As fugas incrementaram-se
quando o número de negros superou o de brancos na Carolina, e especialmente
depois de 1741, quando a coroa espanhola reafirmou a liberdade de todos
aqueles [escravos] que no futuro fugirem das colónias inglesas (Landers, 1999,
pp. 24-33). Em 1690, na paróquia de Clarendon, cerca de 400 escravos atearam
fogo à plantation de Sutton e logo fugiram para os bosques do centro-sul da
Jamaica, onde por algum tempo passaram a viver de roubos às propriedades
vizinhas (Schuler, 1991, p.376).
Casos como estes desvelam o quão complexos podiam ser os processos sociais de
fuga. Eles ensejam prudência na generalização das frequências detetadas para o
sudeste brasileiro e ilhas do Caribe dinamarquês, as quais, para serem
analiticamente úteis, devem ser tomadas sobretudo como ordens de grandeza das
evasões. Nesse sentido, não é de todo implausível que, em condições normais, no
máximo 10 entre cada 100 escravos se vissem envolvidos em fugas nas Américas, e
que menos de um deles lograsse abandonar definitivamente o cativeiro. A baixa
frequência das fugas era uma das mais contundentes expressões da multissecular
estabilidade do escravismo americano, resultante tanto da força dos mecanismos
de controlo social quanto, em especial, dos processos que aceleravam a
aculturação e mitigavam parte da opressão. No limite, era efeito da progressiva
afirmação de uma cultura escrava de feição camponesa ou proto-camponesa,
expressa na busca de conquistas como o trabalho por tarefas e a obtenção de
tempo livre para se dedicarem às suas próprias atividades. Tratava-se de um
traço cultural presente tanto no Brasil quanto no Caribe e no sul dos Estados
Unidos, cuja visibilidade se tornava maior em conjunturas de menor integração
no tráfico atlântico. Dito de outro modo, as atitudes de protesto escravo
tendiam a situar-se muito menos no campo político formal do que no plano de
reivindicações tendentes à obtenção de uma relativa autonomia económica e
social na escravidão. Aspirava-se a ser livre, por certo, mas o conteúdo dessa
liberdade remetia para o ideal de reprodução de um campesinato mais ou menos
independente, ou de trabalhadores que pudessem controlar parcialmente o seu
tempo e as suas atividades (Beckles, 1991, p. 372). Semelhante elaboração
exigia tempo, sobretudo o tempo de se aculturarem, de vivenciarem na carne e na
alma a pedagogia que aos poucos transformava o cativo ' i.e., o prisioneiro '
em escravo.
PADRÕES
A Tabela_1 reafirma também uma antiga sugestão de clássicos da historiografia,
segundo a qual haveria uma correlação positiva entre as frequências de fugas e
as flutuações dos desembarques de escravos nas Américas.1 É portanto plausível
que, ao concentrar 2/3 de todas as viagens negreiras, o século XVIII tenha
representado a época áurea das fugas de escravos no continente. O mesmo
raciocínio sugere que embora se registem fugas em todas as Américas, as evasões
podem ter sido mais frequentes no Brasil e no Caribe do que na América
espanhola continental e, sobretudo, do que no sul dos Estados Unidos, onde
mesmo os quilombos congregavam menores contingentes e obtinham menores êxitos
do que naquelas regiões ' cf. tabela 2.
Tabela_2 - Exportações e importações de escravos africanos para as Américas,
ilhas do Atlântico e Europa, de acordo com as áreas de receção dos cativos,
1501-1866
Já se escreveu que todo o recém-chegado da África é, de facto ou
potencialmente, um cimarrón (Casimir, 1977, p. 401). Afora o romantismo que
cerca asserções desse tipo, remontam aos primórdios da colonização registos de
fugas de boçais ou bozales. Na Guatemala de 1640, por exemplo, entre o porto de
desembarque e o interior evadiram-se 17 dos 98 escravos que vieram de Angola no
NuestraSeñora de los Remedios y San Lorenzo (5 morreram). Os jornais caribenhos
não raro alertavam para a presença de boçais nos arredores dos portos de
desembarque tentando voltar para a África (Mullin, 1994, p. 14 e Cáceres, 2001,
pp. 92-93). O desfecho podia ser trágico: em 1801, na Jamaica, quatro fantes
convenceram outros africanos a acompanhá-los na fuga da plantation para a qual
haviam sido vendidos; dirigiram-se ao litoral e apossaram-se da primeira canoa
que encontraram para nela rumarem para a terra natal, sem a menor noção da
distância que os separava da África. A forte presença de boçais entre os
fugitivos anotados nos inventários post-mortem, e sobretudo nos avisos dos
jornais, sugere terem sido eles os principais vetores da relação de causalidade
entre as frequências de fugas e as flutuações do tráfico atlântico de escravos.
A dinâmica das alforrias também reforçava a correlação positiva entre as fugas
e o grau de integração no tráfico, havendo fortes indícios de que a frequência
de evasões era tanto maior quanto menor fosse a incidência de alforrias
(Merrick e Graham, 1981, pp. 76 e segs.). Do ponto de vista senhorial, as
épocas de expansão económica implicavam não apenas incorporar mais mão-de-obra,
mas também limitar a sua perda mediante poucas libertações. Do mesmo modo, a
maior frequência de manumissões nas fases de recessão justificar-se-ia pela
tentativa de evitar custos de manutenção e/ou de reaver parte do preço pago por
cativos que não eram tão necessários nesse momento. Na primeira conjuntura, de
elevado preço dos escravos, tendiam a predominar as alforrias gratuitas, e o
número de forros não era tão expressivo quanto na segunda, de predomínio da
liberdade comprada. Sem que ainda se possa estabelecer a justa dimensão de cada
uma dessas etapas, é provável que as sucessivas conjunturas de alta dos preços
dos cativos tenham restringido as suas possibilidades de constituírem o pecúlio
adequado à auto-aquisição, redefinindo parte das expectativas, opções e
atitudes dos escravos face à liberdade. Nesses momentos fugia-se mais do que
quando os seus preços eram menores e a compra da liberdade mais exequível.
Como é óbvio, semelhante modelo aplica-se basicamente a regiões onde as
libertações eram elementos culturalmente incorporados nas relações entre
senhores e escravos, o que, por exemplo, exclui a Virgínia de fins do século
XVII. Ali, em 1691 chegou a proibir-se toda a manumissão privada, a menos que o
senhor deportasse o forro para fora da colónia; mulher branca que parisse filho
mulato era pesadamente multada, ou tornava-se serva por cinco anos e os seus
filhos por 30 (Davis, 1997, pp. 21-22). Nas colónias católicas ibéricas, ao
contrário, as épocas de pouca integração no tráfico atlântico resultavam em
preços relativamente baixos das alforrias, e os escravos obtinham-nas
maioritariamente mediante compras. Na Guatemala do século XVIII, por exemplo,
70% dos escravos manumissos ' quase sempre mulheres ' haviam comprado a sua
liberdade, gerando uma expressiva população livre de cor. Poucos fugiam, não
raro para se organizarem em palenques como os existentes nas imediações da
montanha do Mico, de onde se dedicavam a pilhagens de caravanas, além de
arregimentarem novas fugas nas plantations vizinhas (Palomo-Lewin, 2001, p.
203). Do mesmo modo, a península de Yucatán (Nueva España) apresentou parca
integração no tráfico, pois o grosso da sua procura de mão-de-obra era
plenamente atendida pelos indígenas. Os poucos escravos ali existentes ou eram
gratuitamente alforriados ou, caso mais comum, compravam a sua liberdade com o
apoio de algum parente ou através de fundos comunitários de liberdade
reconhecidos pela legislação castelhana. Os escassos casos de fuga ocorriam
tanto dentro quanto para Yucatán, e a maioria dos escravos era devolvida a seus
donos em duas ou oito semanas. Não há evidências fiáveis de que em Yucatán
houvesse palenques, embora seja possível que San Fernando de los Negros, em
Ake, tenha servido de refúgio aos fugitivos (Restall, 2001, p. 298).
Para além do perfil sexual e etário demograficamente desequilibrado da
população escrava, outros fatores deviam colaborar para o predomínio de adultos
masculinos entre os que fugiam. Sintomaticamente, entre os fugitivos da
Carolina que fundaram o santuário de Gracia Real de Santa Teresa de Mose, em
1738, são pouquíssimas as mulheres registadas. Isto devia-se, em grande medida,
ao facto de que os filhos dificultavam a participação das mães nas perigosas
jornadas através dos pântanos da Flórida, onde somente os mais fortes e velozes
escapavam aos caçadores de escravos e aos predadores naturais (Landers, 1999,
p. 31). Do mesmo modo, os inventários post-mortem de senhores da América
portuguesa mostram que no fim do século XVIII poucos escravos aparentados
deixavam o cativeiro definitivamente para trás. Mesmo os jornais poucas vezes
anunciavam fugas conjuntas de parentes. Tudo isso sugere que, até certo ponto,
a família escrava operava como um forte mecanismo de estabilização social,
criando vínculos de adesão dos seus principais componentes ' mães e filhos ' ao
statusquo escravista.
A HORDA2QUILOMBOLA
Embora alguns fugitivos lograssem reinventar-se forros, mudando de nome e
passando a viver de ganhos eventuais no campo e nas cidades, e outros, raros,
embarcassem em navios mercantes e regressassem a África, a maior parte dos que
jamais foram recapturados encontrava alternativa distinta. Do Rio de la Plata
ao sul dos Estados Unidos, os palenques, quilombos, cumbes, marrons e mainels
constituíam-se e reconstituíam-se nas franjas das plantations, minas e cidades.
Só na Nueva Granada, entre os rios Cauca e Magdalena e ao redor de Cartagena,
foi identificada mais de meia centena de palenques entre os séculos XVI e
XVIII, dos quais os de San Basílio, La Ramada, Santa Cruz de Mazinga, Betancur,
Uré, Matuderé e San Jacinto são os mais famosos (Friedemann, 1998, pp. 87-89).
Em Minas Gerais (Brasil) havia pelo menos 166 quilombos entre 1711 e 1795
(Amantino, 2008, p. 122). Ainda hoje há descendentes de cimarrones que vivem em
enclaves no Caribe, América Central e América do Sul.
Costumavam refugiar-se em bosques e regiões pantanosas, então abundantes nas
Américas. E faziam-no não apenas em busca da necessária proteção contra os
caçadores de escravos e milícias coloniais, mas também por causa da infinidade
de recursos que semelhantes meios ofereciam, representados pela possibilidade
de caçar e pescar e de obter lenha e cipós, por exemplo ' assim atuando alguns
poucos fugitivos até conseguiam prescindir por anos a fio de todo e qualquer
contacto social (Barnet, 1986, pp. 43-53). De facto, segurança e abastecimento
eram requisitos iniciais imprescindíveis para a sobrevivência de pequenos
assentamentos que com alguma sorte podiam transformar-se em núcleos estáveis de
camponeses autónomos. Devido à remoção pelas plantations açucareiras das
florestas e pântanos que até à primeira metade do século XVIII lhes garantiam
proteção e alimentos, muitos fugitivos das ilhas de St. Croix, St. Thomas e St.
Jan navegaram para Porto Rico ou misturaram-se com as populações negras das
cidades das ilhas dinamarquesas (Hall, 1991, p. 389). Movimentos semelhantes
ocorreram nos Barbados e em Antigua (Thornton, 1992, p. 285).
Tão frequentes quanto os palenques era a repressão que sobre eles se abatia,
com os recapturados punidos com centenas de chicotadas, postos a ferros e mesmo
mutilados. O Código Negro de Santo Domingo (1768) previa que os ausentes até
quatro dias deveriam ser punidos com 50 chibatadas e atados ao tronco até ao
pôr do sol. O número de chibatadas subiria para 100 se a fuga se estendesse por
mais de oito dias, caso em que ao pé do escravo seria preso um ferro de 12
libras por dois meses. Evasões por intervalos maiores, porém inferiores a
quatro meses, e sem contacto entre o fugitivo e os quilombolas, eram castigadas
com 200 chicotadas, acrescentando-se outras 200 suplementares no caso de
associação com cimarrones. O desterro para a ilha de Santo Domingo era o
destino em caso de reincidência. O CodeNoir para a Louisiana (1724) era de
certo modo mais sintético e brutal: ausências de mais de um mês implicariam o
corte das orelhas do fugitivo, que além disso ficaria com as costas marcadas
com uma fleur-de-lys, o símbolo da realeza francesa. Se reincidisse, ser-lhe-ia
amputado um braço e no corpo ficaria com mais uma fleur-de-lys. A terceira fuga
redundaria em execução (Salamoral, 1996, pp. 172-193).
Circunstâncias houve em que violência e persuasão se alternaram, sobretudo ao
longo dos dois primeiros séculos da colonização. Em La Española de meados do
século XVI, por exemplo, em resposta aos ataques de cimarrones contra os
mineradores e haciendas do vale central de La Veja, as autoridades locais
mesclaram intentos de pacificação, mediante o envio de religiosos aos
palenques, com a mais pura repressão militar (Landers, 2001, pp. 145-150). Em
1577, no que hoje é o Equador, os sacerdotes estiveram igualmente incumbidos de
contactos com os fugitivos que há duas gerações haviam fundado o palenque de
Esmeraldas. Os líderes cimarrones aceitaram os primeiros contactos,
participaram de ofícios sagrados, fingiram aceitar a fé católica e logo
escaparam dos religiosos. Do mesmo modo, em meados do século XVII o arcebispo
de La Española, Francisco de la Cueva Maldonado, tentou por meios pacíficos
atrair os cimarrones reunidos em quatro palenques nas fraldas das montanhas da
costa meridional da ilha. Conhecidos como Bahoruco, eles já haviam rejeitado
outras ofertas de paz e rechaçaram mais essa, argumentando não acreditarem na
palavra de branco. Pouco tempo depois os espanhóis lançaram uma série de
ataques quase fatais contra eles, mas as comunidades de cimarrones Bahoruco
persistiram até bem adiantado o século XVIII (Landers, 2001, pp. 145-150).
Por resultarem basicamente da ação de forças repressivas, as fontes para a
reconstituição da história dos palenques são em geral fragmentárias e repletas
de etnocentrismo, sobretudo quando descrevem a dinâmica interna dos
assentamentos. Em pouquíssimos casos ' particularmente no Suriname e na
Jamaica, onde os quilombolas conseguiram estabelecer tratados com as
autoridades coloniais, ganharam grande autonomia política e os seus
descendentes sobrevivem até aos dias de hoje ' dispõe-se de fontes tão ricas
como a tradição oral. Ainda assim, os interrogatórios de quilombolas da Baixa
Louisiana oferecem um vivo panorama das situações experimentadas pelos recém-
fugidos e pelos assentamentos recém formados. Na década de 1760, após se
evadirem por causa de castigos injustificados e de alimentação inadequada, os
escravos vagueavam desarmados pelos pântanos, alimentando-se do milho e das
batatas que conseguiam levar das plantations e daquilo que coletavam e caçavam.
Amiúde regressavam em menos de um mês. Os que não voltavam construíam cabanas
ou, mais frequentemente, buscavam integrar-se nos frágeis assentamentos
existentes em zonas de ciprestes não muito longe das plantations, ao longo dos
rios e das baías pantanosas, de onde continuavam a roubar sobretudo alimentos
das propriedades escravistas. Outros abraçavam atividades alternativas com que
proviam a subsistência, cultivando ralos campos de milho e de arroz, a maior
parte vivendo da caça a jacarés e a pequenos animais, pescando e coletando
palmito. Uns poucos produziam excedentes suficientes e vendiam-nos nos mercados
de New Orleans. As listas de recapturados revelam um perfil demográfico
extremamente desequilibrado, com mais de três homens para cada mulher. Devido à
fraca inserção dos Estados Unidos no tráfico atlântico, os fugitivos da Baixa
Louisiana eram quase todos crioulos, cujos renitentes contactos com os escravos
das plantations contribuíam para que o espírito de insubordinação não se
extinguisse na região. Na época da Revolução Americana surgiu entre os maroons
da região entre a boca do rio Mississipi e New Orleans (Bas du Fleuve) a
carismática liderança de St. Maló, fundador de assentamentos como Ville
Gaillarde e Chef Menteur. Os interrogatórios revelam que a esses locais
continuavam a chegar novos evadidos, não raro trazendo consigo barris de arroz,
varas de pescar, mosquetes e pólvora, além de facas para a caça, o que fazia
com que a comunicação entre os quilombolas e os escravos das plantations
assumisse feições de suporte para o abastecimento e de mútua inteligência.
Havia inclusive quilombolas associados aos donos de serrarias, para quem
cortavam pinheiros e vendiam os toros (Hall, 1992, pp. 201-236).
As normalmente baixas frequências de evasões definitivas e os fortes
desequilíbrios sexuais e etários tendiam a reduzir os quilombolas, como os do
Bas du Fleuve, à condição de meras hordas ' i.e., ajuntamentos fundados mais no
princípio da adesão do que em saldos entre natalidade e mortalidade, mais na
coleta, caça e roubos do que na agricultura como estratégia de reprodução
económica, ausentes de um poder civil ou militar estável e claramente
legitimado. Dos roubos e do mero aproveitamento dos recursos naturais pré-
existentes derivava o seu nomadismo; da adesão como estratégia de reprodução
demográfica resultava a exiguidade dos grupos ' geralmente inferiores a dez
pessoas ' e a falta de coesão adequada, posto que a união tendia a exercer-se
tão somente em torno de objetivos imediatos como a procura de alimentos e a
proteção. Tal era a configuração da infinita maioria dos palenques, cumbes,
quilombos, marrons e mainels americanos, o que em determinados aspetos podia
favorece-los. Afinal, reduzidos e socialmente porosos, dispersavam-se
facilmente quando atacados e tinham grande facilidade de se abrigarem em locais
de difícil acesso ' quilombolas havia a viverem em lapas e cavernas. Mas o
risco de desaparição era igualmente constante, e depois de algum tempo as
dificuldades tornavam-nos presas de recaptura, não sem antes ceifarem boa parte
dos quilombolas devido à inanição, sarampo, malária, disenteria e sobretudo
varíola. Eis a razão pela qual as hordas de fugitivos se encontravam numa
posição em princípio defensiva, incessantemente buscando refúgio em zonas cuja
geografia dificultasse a sua localização e destruição. Eis também o motivo pelo
qual, ao invés de fundarem os seus próprios agrupamentos, boa parte dos recém
evadidos optava por integrar-se em assentamentos pré-existentes (Thornton,
1992, p. 282).
O esconderijo em matas e pântanos podia garantir, por algum tempo, a
sobrevivência das hordas, mas não afiançava a sua reprodução demográfica
simples (1 por 1), e menos ainda o seu crescimento. No caso dos fugitivos da
Baixa Louisiana, por exemplo, St. Maló acabou traído e morto. Sintomaticamente,
a decadência dos assentamentos do Bas du Fleuve parece ter-se acentuado quando,
sob ataque das forças espanholas, auxiliadas por milícias de homens livres de
cor e por alguns escravos, as comunicações com as plantations foram cortadas, e
com elas o acesso a fontes vitais de informação e suprimentos. A lista dos
escravos recapturados mostra que eles pertenciam a senhores facilmente
identificáveis, em clara alusão a um alto grau de fluidez social. Os
quilombolas estavam longe de fincarem raízes através de crescimento endógeno
positivo, não obstante a agregação de algumas famílias escravas formadas ainda
no cativeiro. Em meados de 1784 contavam-se 103 capturados, mas talvez houvesse
mais. No total, os quilombolas equivaliam a uma parcela pouco expressiva da
população escrava da Baixa Louisiana (Hall, 1992, pp. 201-236). Tão-pouco
lograram ultrapassar a condição de horda quilombola os 50 ou mais escravos do
engenho Santana (Bahia) que, em 1789, liderados por um crioulo de nome Gregório
Luiz, assassinaram o feitor e fugiram para as matas próximas. Durante dois anos
infernizaram a vida do seu senhor, Manuel da Silva Ferreira. Acossados por
expedições militares, acabaram por lhe enviar, por escrito, uma notável
proposta de paz por eles elaborada, na qual estabeleciam os termos pelos quais
retornariam voluntariamente ao cativeiro. Pediam melhores condições de
trabalho, a oportunidade de cultivar géneros alimentícios e de comercializá-
los, mais conforto material e o direito de brincar, folgar e cantar quando
lhes conviesse (Reis e Silva, 1989, pp. 123-124). Ferreira fingiu aceitar os
termos da proposta, viu-os retornar ao Santana, vendeu os líderes da revolta
para o Maranhão, mandou prender Gregório e a vida retornou ao normal no
engenho.
Portadoras de menor complexidade demográfica e social e, por isso mesmo,
capazes de se disseminar pelas Américas, as hordas quilombolas encarnavam o
principal vetor de intranquilidade da população livre, especialmente quando se
associavam a grupos socialmente desviantes, como os garimpeiros clandestinos e
os bandidos que povoavam as estradas. Amiúde [torna-se] difícil distinguir os
homens livres pobres dos escravos e dos quilombolas, sobretudo se os primeiros
são forros (Souza, 1999, p. 23), apontava uma devassa eclesiástica realizada
na América portuguesa no século XVIII, em explícita referência à fluidez dos
limites entre as camadas sociais mais pobres e os grupos de fugitivos. De
facto, muitas vezes os próprios documentos não deixam claro se se trata de
quilombolas ou de homens livres pobres que viviam à margem da sociedade formal,
já que, ao abraçarem formas alternativas de vida e ao não se submeterem
facilmente ao controlo das autoridades, ambos eram tomados como agentes sociais
perniciosos (Amantino, 2008, p. 143). Resultava que quase todo escravo
capturado era imediatamente classificado como quilombola, o que naturalmente
ajudava a sobrestimar a quantidade de cimarrones.
COMUNIDADE QUILOMBOLA E REDES DE SOCIABILIDADE
Alguns raros palenques, de cuja existência apenas hoje podem ser encontrados
indícios, conseguiram permanecer radicalmente isolados, sobretudo no interior
da América do Sul. Não gratuitamente, porém, o Código Negro de Santo Domingo
prescrevia a forca para o fugitivo que, ausente por um período superior a seis
meses, houvesse mantido contacto com quilombolas.Outros códigos espanhóis, e o
CodeNoir, proibiam que se desse emprego a fugitivos, impediam os escravos de
comercializar qualquer bem sem comprovada autorização senhorial, e que se
auxiliassem os quilombolas (Salamoral, 1996, pp. 168-194). O motivo era
simples: os palenques mantinham graus razoáveis de interação com escravos,
indígenas, forros e homens livres que viviam no seu entorno, e os senhores e as
autoridades coloniais sabiam que as redes que os uniam eram fundamentais para a
reprodução e crescimento dos grupos de fugitivos. Por isso é que, em 1795, uma
carta ao governador denunciava que os escravos das fazendas de Minas Gerais se
aliavam com os do mato [e com eles] repartem os mantimentos dos paióis de seus
senhores (Amantino, 2008, p. 149). Outro documento reiterava que os pequenos
armazéns eram estratégicos para a reprodução dos quilombos, sobretudo porque
neles se comercializava o resultado dos assaltos e o excedente agrícola e
pecuário. As lojas de secos e molhados tornaram-se tão importantes para a
reprodução quilombola que, em 1754, a Câmara da cidade de Vila Rica denunciou
que cada venda é um quilombo (Amantino, 2008, p. 147).
De facto, redes estáveis de sociabilidade e auxílio permitiam a obtenção de
alimentos, armas, munições, dinheiro e informações que garantiam a
sobrevivência presente e futura. Através delas os cativos eram conduzidos aos
quilombos, parentes fugidos e escravizados encontravam-se, e alguns quilombolas
vendiam autonomamente a sua força de trabalho para as plantations. Por
ensejarem o escoamento de parte do que se coletava e produzia, tais redes
modulavam a inserção quilombola no mercado. Em suma, aliadas à proteção
representada pelos locais de difícil acesso, as informações e os bens obtidos
por meio da interação com o meio envolvente funcionavam como uma espécie de
acumulação primitiva que sedimentava a eventual transição da horda instável
e constantemente à beira da extinção, para a comunidade rural quilombola plena
de sentido histórico ' i.e., para o estágio de grupo funcionalmente agregado,
que ocupava um determinado espaço e época, portador de estrutura social e
política razoavelmente complexa, cujos membros eram conscientes da sua
singularidade e identidade. Efetuada a transição, a combinação entre essas
redes, a segurança derivada de refúgios estrategicamente localizados, e a maior
capacidade de reprodução económica e demográfica podiam transformar algumas
comunidades numa espécie de extensão da escravaria submetida ao cativeiro e
vice-versa, permitindo-lhes desfrutar de razoável controlo sobre as suas vidas,
os seus bens e o seu território (Hall, 1992, pp. 201-236). Dialeticamente, isso
aumentava as hipóteses de agregar novos fugitivos, processo cuja continuidade
reiterava o crescimento económico e demográfico autossustentável.
É possível que em transição para o estágio de comunidade camponesa estável
estivessem os palenques do Valle de Carabayllo, no Peru, no século XVIII. Eram
assentamentos não fortificados, cuja defesa parece ter-se apoiado sobretudo na
sua capacidade de proliferar de modo disperso em refúgios naturais. A
existência de inúmeras fontes de água potável favorecia a sua disseminação,
havendo indícios de que cada assentamento controlava um determinado território
ao redor de um manancial. Contribuía para a sedimentação o facto de a relativa
escassez de mão-de-obra para o corte de madeira levar a que muitos fugitivos de
Carabayllo fossem contratados pelos administradores das propriedades vizinhas.
Em troca, eles eram autorizados a vender parte da lenha para seu próprio
benefício, o que por certo ajudava a incrementar as redes de sociabilidade com
estratos da sociedade colonial peruana. De qualquer modo, em todas as Américas
a transição para a comunidade nutria-se especialmente das dificuldades de
sobrevivência dos recém-fugidos, que por isso geralmente procuravam integrar-se
em comunidades quilombolas pré-existentes. Sabe-se que na Jamaica, onde os
indígenas desapareceram como comunidade distinta logo após a conquista
espanhola, tanto por ocasião da invasão inglesa de 1655 quanto das violentas
revoltas escravas do final do século, muitos cativos aproveitaram para fundar
novos palenques, enquanto outros, muito mais numerosos, simplesmente se
agregaram aos assentamentos de marrons das montanhas (Thornton, 1992, pp. 282-
285).
Nas regiões de fronteira aberta era frequente a criação de redes de interação
com as comunidades indígenas, com as quais os fugitivos se mesclavam e até se
diluíam, seja porque o poder militar dos nativos inibia as forças coloniais,
seja pelo facto de a sua existência minorar as dificuldades dos recém-
escapados. Trata-se de um movimento tão antigo na história colonial que já em
1503 Nicolás de Ovando, governador de La Española, denunciava que os africanos
encontravam refúgio entre os índios taínos das montanhas da ilha ' os
cimarrones africanos auxiliariam o taíno Enrique na sua derrotada sublevação
contra os espanhóis em 1519-1532 (Landers, 2001, p. 145 e Thornton, 1992, p.
285). Em Porto Rico, aborígenes e negros conviviam nas matas, de onde levavam
tanto pânico aos colonos espanhóis que, em 1526, Francisco de Ortega denunciava
estar a ilha a despovoar-se de metropolitanos (em dezembro de 1550 o governador
enviava uma carta ao rei afirmando que a situação ainda não se resolvera)
(Moscoso, 1995). Durante o século XVI, a cooperação entre fugitivos e
aborígenes foi igualmente detectada na região Zapoteca da Nueva España (1523),
em Cuba (1529), na Nicarágua (1540), na zona venezuelana de Santa Marta (1550)
e no Panamá (1546-1550) (Thornton, 1992, p. 286).
Mais no Brasil do que em qualquer outra parte, em muitas ocasiões os indígenas
serviam às autoridades como forças repressoras de quilombolas, como no caso dos
Tapuias que ajudaram os portugueses a destruir o quilombo de Palmares em fins
do século XVII. Por sua vez, uma carta de Sancho de Alquiza ao rei, de
fevereiro de 1612, afirmava que os Caribs possuíam 2000 escravos africanos nas
ilhas que habitavam nas Antilhas (Thornton, 1992, p. 290). Há evidências de que
também no sul dos Estados Unidos os aborígenes mantinham negros fugidos como
escravos, ou com eles estabeleciam uma espécie de arranjo feudal no qual os
negros residiam nos seus próprios assentamentos (as aldeias negras de que
falam as fontes inglesas) e davam aos seus senhores nativos tributos anuais e
serviços (Landers, 1999, p. 68). Em contrapartida, há inúmeros episódios de
negros escravizados e livres que contribuíam para sufocar indígenas
inassimiláveis, para não falar nos casos em que autoridades metropolitanas
utilizavam abertamente os quilombos para os seus próprios objetivos, como no
Panamá de 1570, onde os ingleses conseguiram a aliança dos cimarrones contra os
espanhóis. Como padrão geral, quando os indígenas eram finalmente conquistados
ou mantinham alianças estáveis com as autoridades coloniais, tendiam a rejeitar
os contactos com os quilombolas, chegando mesmo a devolver muitos deles aos
europeus, como fizeram os Carib na Martinica e em San Vicente após 1660-1680
(Thornton, 1992, pp. 286-288). Mas mesmo no sul dos Estados Unidos, alguns
fugitivos que alcançavam a Flórida durante o século XVIII haviam antes lutado
ao lado dos índios Yamasee contra os ingleses (Landers, 1999, pp. 26-27). Na
mesma época, detetou-se na Louisiana francesa a existência de assentamento de
africanos e aborígenes que, juntos, se dedicavam a roubar suprimentos, armas e
munições dos seus senhores. Em interrogatório a que foi submetido em 1727, um
escravo indígena recapturado revelou a existência do assentamento de
Natanapallé, habitado por 15 outros fugitivos indígenas e africanos fortemente
armados. Ainda na Louisiana, em 1748, os Choctaw ocidentais que haviam atacado
colonos alemães da Côte d'Allemagne, igualmente derrotaram uma guarnição
militar mandada para capturá-los, para o que contaram com o auxílio de
fugitivos negros e de escravos indígenas que antes haviam acolhido (Hall, 1992,
pp. 40 e segs.).
Interação ainda mais forte é sugerida pela análise da cerâmica encontrada em
sítios arqueológicos dos arredores da cidade de Santo Domingo. Embora produzida
por cimarrones africanos, ela incorpora elementos de tradição indígena, numa
configuração que denota intensas trocas culturais entre ambos, o que inclusive
tem levado à reavaliação de estilos antes tidos como exclusivamente aborígenes
(Landers, 2001, pp. 150-151). Cerâmica indígena tem sido encontrada também no
coração de Palmares, a Serra da Barriga, sugerindo que ali a mescla cultural
devia ser igualmente intensa ' a partir do perfil dos prisioneiros capturados
pelos holandeses afirma-se ser de 20% a população ameríndia no assentamento
central do quilombo em 1644 (Funari, 1996, pp. 31-46). Tais exemplos apontam
para a possibilidade de que os cimarrones e os indígenas pudessem unir-se a
ponto de criarem comunidades mestiças, perfil efetivamente detetado noutras
regiões antilhanas, na Amazónia, na Bahia, no Equador e em algumas áreas da
Flórida colonial (Gomes, 2002, p. 43). Quilombos mestiços uniam indígenas e
cimarrones africanos nas montanhas ao redor das minas de cobre da região de
Buria, Venezuela, em 1552. Comunidades mestiças caribenhas parecem ter tido
origem em naufrágios de naus com escravos, como os Zambos Mosquitos da
Nicarágua (1641) e os Black Caribs de San Vicente (1675) (Thornton, 1992, pp.
284-286).
A mestiçagem era igualmente comum na capitania do Mato Grosso (Brasil), onde
em 1770 o quilombo do Piolho fora destruído pela primeira vez. Embora nessa
ocasião tenham sido capturados 79 negros e 30 aborígines, os negros que
escaparam logo voltaram ao assentamento original e constituíram famílias com
mulheres indígenas. Vinte e cinco anos depois, durante uma nova batida das
autoridades foram capturados seis negros idosos, os patriarcas da comunidade,
oito índios, 19 índias e 21 caburés (filhos de índios com negros) com idades de
dois a 16 anos (Volpato, 1993, p. 188). O elevado número de mulheres, quando
comparado aos oito índios, sugere a preferência pela permanência de mulheres
indígenas no quilombo, prática que remetia para um crónico défice de mulheres
negras e para a incorporação das índias como recurso demográfico para a
constituição de famílias. A este respeito, quando Diego de Frías ocupou o
assentamento de Rio Piñas (Panamá) em 1580, observou que a comunidade possuía
algumas mulheres indígenas, capturadas em guerras contra nativos das
proximidades (Thornton, 1992, p. 297). Podiam ter de suprir um défice
semelhante ao detetado para o Mato Grosso. Em outros casos, a natureza
camponesa das comunidades mestiças adquiria tons ainda mais destacados, como no
caso do palenque de Esmeraldas, cujas origens remontam ao encalhe na costa do
Equador, em 1533, de uma embarcação proveniente do Panamá com escravos
originários da Guiné. O negro Antón liderou a fuga de 16 homens e seis mulheres
em direção à mata densa, onde se uniram aos índios Pidi. De acordo com o relato
do sacerdote Miguel de Cabello Balboa, embora inicialmente os africanos tenham
servido aos Pidi como guerreiros, logo as suas reivindicações de recursos e
mulheres provocaram conflitos, resultando em enfrentamentos. Os africanos
remanescentes mesclaram-se aos nativos da costa, formando o primeiro
assentamento camponês mestiço de Esmeraldas (Landers, 2001, pp. 146-147).
Dentre os quilombos que certamente atingiram o estágio de comunidades
camponesas estiveram aqueles poucos que conseguiram estabelecer tratados
formais de paz com as autoridades de algumas colónias americanas. Na sua forma
típica ' conforme se registou na Colômbia, México, Brasil, Cuba, Equador,
Jamaica, La Española e Suriname ', os tratados de paz incluíam a aceitação da
liberdade dos cimarrones, o reconhecimento da integridade territorial do grupo,
e até mesmo o envio de provisões para atender às suas necessidades imediatas.
Em troca, os cimarrones deveriam pôr fim a toda hostilidade contra o poder
colonial e as plantations, devolver os escravos que dali por diante procurassem
refúgio entre eles, além de ajudar a capturar novos fugitivos. Não há certeza
absoluta de que os tratados tenham sido integralmente cumpridos. Os Saramakas
do Suriname, por exemplo, embora se tivessem comprometido a devolver aos
senhores todos os companheiros que não fossem membros das suas comunidades
antes do tratado, escondiam dos brancos parcelas da sua população, tida desde
então como ilegal (Price, 1996, p. 55).
Um dos primeiros a assinar o tratado de paz com o poder colonial foi Yanga (ou
Ñanga), um africano possivelmente de linhagem real em África que, em 1570, se
fixou com outros fugitivos na Serra de Zongolica, região açucareira de Orizaba
(Nueva España). Em 1609 o palenque sofreu um forte ataque por parte das forças
coloniais, e Yanga liderou a retirada para a segurança de outro forte próximo e
logo estabeleceu um tratado com as autoridades mediante o qual obteve liberdade
para todos os que com ele viviam antes de 1608, assim como a incorporação de um
povoado (San Lorenzo de los Negros) e de uma igreja consagrada ' um forte
indício de aculturação. Ele e os seus herdeiros governariam o lugar, do qual
estariam excluídos os espanhóis, exceto em dias de mercado. Em troca, os
cimarrones juraram viver pacificamente, devolver a seus donos os fugitivos que
no futuro ali buscassem abrigo, e servir o rei com armas quando fossem
requisitados (Landers, 2001, pp. 147-149).
Após viverem algum tempo de roubos, as centenas de fugitivos da plantation de
Sutton, na Jamaica, responderam à repressão colonial unindo-se sob o comando de
um Akan de nome Kwadwo. Durante anos a fio, os seus ataques dificultaram o
estabelecimento de novos assentamentos ingleses. Impossibilitados de derrotar
os maroons no campo militar, após inúmeros enfrentamentos as autoridades
inglesas decidiram que a paz deveria ser alcançada. Para tanto firmaram em 1739
um tratado com Kwadwo, que garantia 1 500 acres de terra aos quilombolas.
Tratado similar foi assinado no ano seguinte com os maroons da paróquia de St.
George. Reconhecia-se assim a liberdade dos cimarrones, os quais, entretanto,
não poderiam admitir novos fugitivos nas suas comunidades. Comprometiam-se,
ademais, a take, kill, supress or destroy qualquer rebelião escrava na ilha,
por sua iniciativa ou sob o comando do governador da Jamaica. A linhagem dos
chefes quilombolas foi igualmente reconhecida, e dois europeus escolhidos pelo
governador deveriam residir nas suas comunidades, servindo de intermediários
entre estes e os colonos ingleses (Shuler, 1991, p. 376).
Há exemplos de tratados que na verdade faziam parte de uma estratégia de
extermínio dos cimarrones, como no caso do mais famoso palenque da Nueva
Granada, San Basílio. Localizado próximo da região de Cartagena, San Basílio
foi organizado no início do século XVII por Domingo Bioho, de alegada origem
governante na África, que ali recriou uma dinastia com o nome de rei Benkos.
Depois de haver chegado a um acordo com Benkos, o governador de Cartagena
traiu-o, enforcando-o em 1619. Não obstante a perda do seu líder, o
assentamento de San Basílio não foi destruído senão em 1686, depois de
sobreviver por mais de 60 anos, período em que chegou a contar com 3 000
habitantes, dos quais 600 guerreiros (Landers, 2001, pp. 150-151).
Por vezes as relações das comunidades com o entorno prescindiam por completo de
tratados formais para se assemelharem a tratos relativamente harmoniosos entre
camponeses. A este respeito, de modo bastante sugestivo, uma carta de janeiro
de 1770 relatava às autoridades judiciárias da América portuguesa a prisão de
alguns negros que viviam num quilombo: a informação que passo dos negros
apreendidos no quilombo é a que me dão alguns moradores da Estrada, que me
dizem que não consta que estes negros tenham feito mortes, nem roubo, porque
meteram-se para aquelas gerais, aonde plantavam para comer e algodão para se
vestir, o que eles assim mesmo indiciavam porque não tinham armas e menos
vestuário, que só constava de couros e algodão, e por armas flechas (Amantino,
2003, p. 237). Embora não se possa saber a exata localização do quilombo nem o
seu nome, apenas que se localizava em Minas Gerais, observe-se que o documento
sugere um cenário de plácida convivência, sedimentada certamente por décadas de
interação entre camponeses livres e camponeses quilombolas.
O quilombo de Bacaxá, na capitania do Rio de Janeiro, também exemplifica uma
interação razoavelmente pacífica (Amantino, 2003, p. 238). Surgido talvez no
século XVII, foi localizado pelas autoridades em agosto de 1730 numa região
pouco povoada, embora possuidora de alguns engenhos de cana-de-açúcar.
Habitavam-no mais de 60 pessoas, entre homens, mulheres e crianças, número que,
embora restrito, sugere grande estabilidade temporal, já que todos haviam
nascido no quilombo. Sustentavam-se em parte de suas roças e, em parte, de
furtos nas fazendas vizinhas, e ainda assim viviam em relativa harmonia com a
população local (Souza, 1961, p. 5). Incomodavam principalmente as autoridades
que, reconhecendo-se impotentes para o destruir, acabaram por aceitá-lo de
facto. A situação mudou quando dois homens livres foram barbaramente
assassinados por um grupo de indivíduos: os negros são muitos e estão situados
com casas e roças há muitos anos, o que naturalmente pode ser enquanto não
faziam insultos, mas, depois destes, é impraticável dissimular semelhantes
atrevimentos; à vista do que é necessário não só extinguir o dito quilombo, mas
prender todos os negros e negras e filhos que tiverem no mato, afirmava logo
depois uma carta enviada ao governador do Rio de Janeiro. Vinte e três
quilombolas foram presos, mas o restante conseguiu fugir para o mato e para
povoados vizinhos, misturando-se com a população local (Amantino, 2003, p.
239).
Em conclusão, embora os quilombos em princípio representassem uma ameaça real
ou potencial à segurança e à propriedade de muitos, as comunidades locais de
livres relacionavam-se com eles de modo desigual, em claro questionamento da
ideia de que todo o quilombo necessariamente constituía uma espécie de contra-
sociedade ou foco de inassimilável resistência ao sistema escravista. Do ponto
de vista dos responsáveis pela manutenção do statusquo, ao apontarem para
alternativas de vida possíveis, os quilombos eventualmente expunham as
fragilidades da própria sociedade colonial. Eis porque embora a maioria dos
quilombos americanos fosse formada tão-somente por negros, em geral com
predomínio dos nascidos em África até que o tráfico atlântico fosse abolido,
existiam algumas comunidades plenamente constituídas que acolhiam índios
brancos e ainda mulatos livres pobres. Para não falar nos casos em que os
colonos e as autoridades metropolitanas utilizavam abertamente os quilombos em
função dos seus próprios objetivos. Assim, se no Panamá de 1570 os ingleses
conseguiram a aliança com os cimarrones contra os espanhóis, em Saint Domingue
e nas regiões de Chesapeak Bay e da Carolina Lowcountry a fuga associada de
escravos negros e servos brancos ingleses e irlandeses era tão antiga quanto a
escravidão (Landers, 1999, p. 33). No Brasil de 1769, uma expedição de combate
a um quilombo redundou na prisão de 80 pessoas de procedências diversas,
algumas das quais, mesmo sem serem quilombolas, haviam-se estabelecido em
terras do mesmo quilombo com famílias, roças, crianças e mulheres, informa uma
fonte. Em Minas Gerais, 16 anos depois, detetou-se a existência de mais um
grande quilombo muito antigo, [formado] não só de negros e mulatos fugidos,
mas também de alguns brancos, descreve outra fonte (Amantino, 2008, p. 130).
COMUNIDADE, POPULAÇÃO, PARENTESCO E AGRICULTURA
Além dos variados tipos de relações com o meio envolvente, a reiteração
temporal das grandes comunidades palenqueras repousava na possibilidade de
combinar eficientemente uma população em crescimento, mantida por sistemas
agrários razoavelmente produtivos, um panorama de significativo incremento de
relações de parentesco a unir os seus membros, além de hierarquias internas bem
estruturadas.
É possível tomar o número de casas, jiraus e ranchos dos assentamentos como um
importante elemento de aproximação às populações de grandes quilombos. Em 1645,
o diário do capitão Johann Blaer, comandante de uma expedição holandesa,
descrevia o assentamento de Velho Palmares como sendo uma aldeia abandonada de
meia milha, com uma rua principal de 2,2 metros de largura, duas cisternas ao
centro e um pátio onde o rei tinha a sua casa e se exercitava militarmente com
os seus seguidores. Três dias depois Blaer encontrou o assentamento de Novo
Palmares, onde contou 220 casas (Diário da viagem, 1988, p. 22). Assumindo
que cada casa acolhesse cinco pessoas, a sua população alcançaria 1100
quilombolas, o que, considerando os dez grandes assentamentos de Palmares,
sugere um mínimo 11 mil habitantes para a federação quilombola. Aplicado a
Minas Gerais, semelhante procedimento indica uma média de 600 habitantes por
grande quilombo da segunda metade do século XVIII (cf. tabela 3). Eram
assentamentos cujas origens remontavam ao início do século XVIII, aquando das
intensas importações de africanos para a exploração dos veios auríferos. Desde
então, vinham crescendo por meio da agregação de novos fugitivos e da
reprodução natural, e da expressiva variação dos seus contingentes ' dos 350
habitantes do Pernaíba, aos 1100 do Indaiá ' infere-se que as populações dos
grandes palenques apresentavam enorme amplitude, inclusive numa única região. O
caso mineiro sugere também terem sido poucas as comunidades que congregavam
milhares de quilombolas, embora algumas pudessem alcançar o milhar.
Tabela 3 - Estimativas populacionais de alguns quilombos de Minas Gerais (1766-
1770)
Os sistemas agrários dessas grandes comunidades talvez encontrassem nas
famílias nucleares o eixo da repartição dos campos de cultivo, embora não se
descarte a existência de parcelas cultivadas por toda a comunidade. De acordo
com o censo populacional do santuário de Gracia Real de Santa Teresa de Mose de
1759, 20 anos depois da sua fundação persistia o desequilíbrio sexual entre os
adultos (havia duas vezes mais homens do que mulheres), em parte devido à
atração que continuava a exercer sobre os fugitivos provenientes da Carolina.
Entretanto, pouco mais de uma geração bastara para que se ultrapassasse o
panorama de desenraizamento familiar de 1738, mediante a afirmação de sólidas
redes parentais e de um expressivo crescimento populacional endógeno. Agora,
quase ¼ da população tinha menos de 15 anos de idade, todos nascidos no
santuário. Treze das suas vinte e duas casas eram habitadas por famílias
nucleares, e três em cada quatro moradores viviam com parentes imediatos em
arranjos estabelecidos basicamente no próprio Mose. Registos eclesiásticos
revelam que os escravos fundadores teceram intrincadas redes entre si,
afiançadas sobretudo por relações de compadrio, com forte sugestão de
prevalência da anterioridade como princípio organizativo fundamental da
comunidade (Landers, 1999, p. 49 e pp. 261-263). Eis indicações de que em
determinadas condições os palenques rapidamente alcançavam expressivos índices
de reprodução por meio de famílias nucleares, e que essas se hierarquizavam,
com as mais antigas assumindo papel de destaque nas comunidades, administrando
o mercado matrimonial e promovendo a distribuição das parcelas a serem
cultivadas.
Dados relativos ao Caribe são ainda mais esclarecedores, mostrando inclusive
que por vezes, paradoxalmente, a contínua agregação de novos membros causava
transtornos para os que os acolhiam. Fontes de fins do século XVIII indicam que
o maniel de Neyba, na parte espanhola de La Española, era habitado por 133
pessoas, distribuídas em 57 casas. A reduzida proporção de habitantes por casa
(menos de três) era explicada pelos próprios cimarrones como resultante de
recentes epidemias de sarampo e de disenteria, signos da presença de razoável
número de boçais no grupo. O peso social dos mais velhos indica uma comunidade
camponesa fortemente organizada em torno do princípio da anterioridade, em
moldes vigentes tanto em África quanto entre as sociedades ameríndias, onde os
anciãos eram depositários da memória coletiva e dos conhecimentos relativos à
agricultura, arquitetura, feitiçaria, guerra e da própria linguagem. Havia 80
adultos ' 43 homens e 37 mulheres, das quais 20 haviam nascido no próprio
maniel ' e todos os outros eram crianças, em clara indicação de que a população
vinha aumentando, apesar das epidemias. A idade de mulheres idosas como
Catalina e Maria (60 anos), naturais de Neyba, sugere que o maniel pode ter
sido fundado no início do século XVIII. O incremento do tráfico em Saint
Domingue contribuía para o crescimento de Neyba, e 11 mulheres e 31 homens
haviam sido escravos de plantações francesas. Sem fortificações e edifícios
públicos, em relativo isolamento, os cimarrones viviam em condições semelhantes
às dos pobres camponeses de origem espanhola da ilha, em parcelas individuais
de 1000 varas em média, cultivando arroz, milho, banana, cana-de-açúcar e
outros alimentos, organizados em famílias nucleares com muitos filhos,
trabalhando em geral em duas parcelas. Ao que parece, quando não havia filhos,
trabalhava-se apenas numa parcela. É possível que o tempo e a idade garantissem
parcelas adicionais a alguns, com casais de 60 anos trabalhando em duas delas
(Landers, 2001, pp. 153-155).
A demografia e a agricultura razoavelmente pujantes e as trocas com o entorno
estiveram na raiz do fortalecimento do palenque de Yanga, no México, ajudando-
o a extrair do poder colonial um tratado de paz no início do século XVII. No
terreno inicialmente abandonado pelos seus seguidores, encontraram-se
plantações de produtos da milenar dieta indígena tais como pimenta, batata-
doce, tabaco, zapallos, feijão e milho, sem contar com a cana-de-açúcar e o
algodão, além de criações de galinhas, cavalos e gado. Em 60 casas, que talvez
abrigassem 300 pessoas, foram encontradas espadas, arcabuzes e dinheiro,
obtidos a partir de trocas com comunidades próximas. Tratava-se de uma
estrutura com forte tendência para a estabilização enquanto economia camponesa,
que longe de ser autárquica combinava estratégias diversas de sobrevivência,
comerciais inclusive. Plenamente estabelecidas e em crescimento parecem ter
estado as comunidades Bahoruco de La Española, bem conhecidas por meio da
descrições dos eclesiásticos. As 600 famílias ali assentadas talvez somassem
3000 quilombolas em meados do século XVII, o que, dada a baixa frequência de
fugas definitivas, indica um longo processo de sedimentação demográfica,
remetendo provavelmente para o século anterior. Por volta de 1660 elas já não
se reproduziam por meio de roubos, mas sim através da combinação entre
agricultura, pecuária e caça. Os homens eram bons arqueiros e ferreiros e as
mulheres também se dedicavam à mineração de aluvião, cujo produto lhes permitia
comprar roupas, bebidas, ferro e demais géneros na capital de Santo Domingo
(Landers, 2001, pp. 149-150).
Também para a Nueva Granada há evidências de que da tríade representada por
relações parentais, população e interação com o exterior derivava o essencial
da capacidade de reiteração de alguns grandes palenques. Antes de ser destruído
por forças espanholas, em fins do século XVII, o palenque de Matuderé
congregava cerca de 250 pessoas que, interrogadas, revelaram traços da sua
organização. Aparentemente, sofisticadas instituições políticas e militares
desenvolveram-se ao longo de muitas décadas de existência. Cada família semeava
os seus próprios campos com milho, arroz, feijões negros, bananas e batata, num
perfil que sugere relações muito estreitas e antigas entre os homens e a terra.
Mantinham contactos com os Arará de Cartagena, através dos quais adquiriam
armas e pólvora. Não é difícil que panorama semelhante predominasse no conjunto
de assentamentos das montanhas de Santa Maria, que em 1683 foram atacados por
forças coloniais. Ali encontrou-se uma aldeia fortificada, armamento espanhol
que os cimarrones haviam adquirido em enfrentamentos anteriores, assim como
lanças, arcos e flechas. Antes de escapar, os fugitivos queimaram as suas
edificações e destruíram plantações de milho e cassava, num clássico exemplo de
tática militar quilombola. O panorama vigente no palenque mestiço de Esmeraldas
durante o último quarto do século XVI descortina um êxito igualmente baseado na
população, na família e no comércio. Os seus membros possuíam mais de 100
canoas para a exploração dos recursos fluviais, o que pode indicar a presença
de pelo menos 200 adultos na população do palenque. Dedicavam-se também à
coleta e à caça, cultivavam milho, cassava e cacau, além de tabaco, banana,
arroz, algodão e cana-de-açúcar. Praticavam a metalurgia e criavam porcos e
galinhas, não apenas para o consumo interno como também para a venda às
populações vizinhas (Landers, 2001, pp. 146-153).
Outras comunidades quilombolas do sudeste brasileiro combinavam largos campos
de cultivo e horticultura, capacidade de armazenamento e até produção de
cultivos de exportação. Em 1770, nas imediações da Serra Negra, aprisionou-se
um negro que dizia ter fugido de um quilombo e que contou que ele e mais quatro
parceiros haviam sido levados a uma grande povoação dos mesmos pretos [onde]
há grandes roças e canaviais, bananas, laranjeiras e descaroçadores e muito
algodão, que sendo como ele diz é cousa grande (Amantino, 2008, p. 128).
Vastas plantações foram igualmente detetadas num quilombo em Mariana, em 1733
(Amantino, 2008, p. 128). O quilombo de Pitangui (1767) plantava em abundância
milho, feijão, algodão, melancia e outras frutas, assim como os de Catiguá
(1769) e Santos Fortes (1769) (Amantino, 2008, p. 128). Mandiocais cobriam os
campos de cultivos do quilombo de Samambaia (1769) e do Rio da Perdição (1769),
onde inclusive se plantava algodão. A horticultura era uma dos aspetos mais
destacados do quilombo de São Gonçalo (1769), e os do Campo Grande (1746) e
Paracatu (1766) possuíam, além de vastos campos de cultivo, armazéns e paióis
onde guardavam os seus excedentes. O quilombo do Moquim, no Rio de Janeiro,
dava-se ao luxo de não apenas possuir plantações mas igualmente de produzir
cana-de-açúcar e cachaça, dado que remete para a necessária existência de uma
engenhoca no seu interior (Amantino, 1996, p. 194). Casos como esses pressupõem
altos graus de divisão social do trabalho, técnicas agrícolas sofisticadas e
contingentes populacionais não apenas expressivos mas também há muito
estabelecidos.
A presença de plantações de algodão sugere a confeção de tecidos e a existência
de grupos especializados na realização de algumas atividades. Nos mapas dos
quilombos de Minas Gerais pode-se perceber que também as construções
expressavam especialização. Alguns mencionam a presença de casas e forjas de
ferreiro, aspeto reiterado por achados arqueológicos posteriores (figuras 1 e
2). No quilombo da Cabaça foram encontradas dezenas de fragmentos de ferro
fundido, chapas de metal e tiras de estanho, além de panelas, caldeirões,
chaleiras, colheres e demais. Alguns desses objetos apresentavam reparos feitos
com rebite, o que demonstra um certo grau de conhecimento desta técnica pelos
quilombolas (Guimarães e Lanna, 1980, p. 150). O diário de Johann Blaer afirma
que num dos assentamentos de Palmares se erguia uma igreja e quatro forjas,
havendo entre os habitantes toda sorte de artífices (Diário da viagem,
1988, p. 22).
Figura 1 - Quilombo do Rio da Perdição (Anais da Biblioteca Nacional. Rio de
Janeiro, Biblioteca Nacional, vol. 108, 1988, p. 110).
Figura 2 - Quilombo de um dos Braços da Perdição (Anais da Biblioteca Nacional.
Rio de Janeiro, Biblioteca Nacional, vol. 108, 1988, p. 108).
Fontes relativas a áreas escravistas mais urbanizadas da América portuguesa são
pródigas em enumerar pequenos estabelecimentos comerciais que serviam de palco
de encontros entre mocambeiros e escravos. Em 1769, em Minas Gerais, o Conde de
Valadares havia ordenado ao capitão-mor Manuel Rodrigues da Costa que entrasse
na Fazenda Azevedos e localizasse os quilombolas que lá costumavam estabelecer
contactos com os escravos. Ordenava ainda que fossem utilizados todos os meios
possíveis para fazer com que os escravos denunciassem os quilombolas, devendo-
se fazer o mesmo com os cativos de outras fazendas das imediações e com os
roceiros livres do caminho (Amantino, 2008, p. 148). Em carta de 1795, enviada
ao governador da capitania, o lavrador Marcelino da Costa Gonçalves afirmava
que os escravos das fazendas mineiras mantinham aliança com os do mato [ ] [e]
[ ] repartem os mantimentos dos paióis de seus senhores [ ] [com os
quilombolas] (Amantino, 2008, p. 149). Outro documento reiterava que os
pequenos armazéns eram estratégicos para a reprodução dos quilombos, sobretudo
porque ali se comercializava o resultado de razias e assaltos, ou mesmo o
excedente agrícola ou pecuário. As vendas tornaram-se tão importantes para a
reprodução dos quilombos que, em 1754, a Câmara da cidade de Vila Rica chegou a
denunciar que cada venda é um quilombo, não havendo distinção entre as vendas
controladas por brancos ou por negros, quase todos acusados de recetação dos
furtos dos escravos, fugidos ou não (Amantino, 2008, p. 147).
CONCLUSÕES
Há muito que as histórias de escravos fugidos e quilombos nas Américas se
afastam do esquema bipolar que opõe escravidão e liberdade. Para não falar
daqueles que com igual simplicidade contrapõem europeus, indígenas e
africanos, ou ainda ' mais recentemente ' negros a brancos. Contas feitas, a
época áurea dos grandes quilombos, palenques e cumbes ocorreu antes da chamada
Era das Revoluções no mundo atlântico, o que significa simplesmente que não
se pode entender os quilombolas americanos como suportes anacrónicos nem do
abolicionismo nem da democracia, tal como elas vieram a vicejar depois.
O que decorre de tudo o que expusemos é que os fugitivos escravizados eram
parte da realidade quotidiana dos sistemas escravistas americanos; mas,
igualmente, que as fugas permanentes ' grandmarronage ' não enlaçaram a maioria
dos cativos que se evadiam. As comunidades de fugitivos certamente nutriam a
esperança de se constituírem em alternativas à dura existência nas plantations,
mas grupos assim não foram nem numerosos nem extensos. E mais: jamais lograram
ameaçar os sistemas escravistas como um todo. Os quilombos não foram
responsáveis pela Revolução Haitiana que acabou por destruir a mais rica
colónia americana do século XVIII. O continente americano jamais sentiu o
impacto de algo como a ação dos escravos rebeldes sobre o sistema de
plantations escravistas da ilha de São Tomé, no Golfo da Guiné, onde
comunidades de fugitivos e evasões levaram à superação da economia de
exportação por dois séculos ou mais.3