Interação comercial e contextos organizacionais na restauração e lojas de
vestuário
INTRODUÇÃO
Os empregos interativos nos serviços reúnem particularidades decorrentes da
natureza da atividade de trabalho e dos perfis dos trabalhadores. O tipo de
interação protagonizada por quem trabalha constitui uma parte importante do
serviço que está a ser prestado e exige trabalho emocional (Hochschild, 2003
[1983]; Leidner, 1993; Bolton, 2006), traduzido na construção de expressões de
emotividade singulares com vista à produção de determinados estados em
terceiros, como clientes ou utilizadores. Para além deste trabalho emocional, é
fundamental ponderar também a existência de um trabalho estético (Warhurst e
Nickson, 2001, 2007; Pettinger, 2006) associado à imagem ou aparência dos
trabalhadores inseridos nestes contextos profissionais. Na pesquisa realizada
sobre a mão-de-obra nas lojas de restauração e vestuário localizadas em centros
comerciais1, discutiu-se precisamente que para a compreensão da atividade
laboral destas lojas é necessário considerar, em simultâneo, o trabalho
emocional e o trabalho estético que aí têm lugar, e ainda os desafios que estes
encerram para a população trabalhadora. Ambas as modalidades de trabalho se
inserem em práticas gestionárias que visam a concretização dos objetivos
comerciais e financeiros das lojas. Estas práticas pretendem a naturalização de
comportamentos, atitudes e saberes no espaço social de trabalho e a aquisição
do que é definido como atitude de profissionalismo (Fournier, 1999; Evetts,
2005, 2006).
A partir de informação recolhida em entrevistas semi-diretivas e em grupos
focalizados envolvendo trabalhadores que lidam diretamente com clientes no
espaço físico das lojas de restauração e vestuário em centros comerciais, este
artigo pretende refletir sobre a interação comercial nestes espaços
profissionais, tendo por base tipologias de lojas construídas mediante duas
grandes dimensões: o momento da aproximação do cliente e a organização do
trabalho. Trata-se fundamentalmente de captar as singularidades organizacionais
existentes nestas lojas e de analisar a natureza da interação comercial, as
características valorizadas nos trabalhadores e as perturbações que estes
manifestam no seu quotidiano laboral. A primeira parte do artigo fornece
indicações de caráter metodológico sobre a pesquisa realizada e localiza, em
termos globais, a realidade dos grupos profissionais em que se integram os
trabalhadores. Na segunda parte analisa-se a interação comercial nas lojas de
restauração e vestuário e reflete-se sobre os aspetos valorizados na mão-de-
obra, os objetivos e regras de funcionamento das lojas e as consequentes
perturbações que os trabalhadores declaram sentir no âmbito da sua atividade
laboral.
METODOLOGIA
A investigação que sustenta este artigo mobilizou uma estratégia metodológica
diversificada, articulando a consulta de fontes estatísticas com vista a
analisar a estrutura do emprego no comércio e na restauração e a realização de
entrevistas semi-diretivas, grupos focalizados, e observação direta para
examinar as características dos trabalhadores e do seu espaço social de
trabalho (Cruz, 2010). Atendendo à configuração da análise aqui apresentada, de
seguida esclarece-se em grandes linhas o contexto da aplicação das entrevistas
semi-diretivas e dos grupos focalizados.
A intenção de empreender uma análise intensiva sobre os perfis dos
trabalhadores e seus contextos de trabalho levou desde logo à opção pela
técnica da entrevista semi-diretiva. Simultaneamente, o interesse em captar o
universo das representações da população trabalhadora sobre a atividade laboral
nas lojas de centro comercial através da construção de um debate que a
envolvesse, e compreender em que medida o mesmo era revelador de entendimentos
convergentes e divergentes, implicou numa fase posterior a condução de grupos
focalizados.
O arranque do processo de realização das entrevistas beneficiou de contactos
privilegiados estabelecidos com estudantes universitários de sociologia que
trabalhavam em centros comerciais portuenses. Tais contactos foram
fundamentais, pois eles próprios se disponibilizaram para conceder
entrevistas, e, numa fase seguinte, contribuíram para a concretização de um
conjunto alargado de outras entrevistas através da mobilização das suas redes
de relacionamentos interpessoais. Porém, houve necessidade de diversificar o
perfil dos entrevistados, o que implicou acionar outra estratégia ao longo da
qual os trabalhadores foram abordados diretamente no seu local de trabalho
(tendo em linha de consideração a variável sexo, o tipo de lojas de vestuário e
restauração, a diversidade de marcas aí existentes, os diferentes centros
comerciais da Área Metropolitana do Porto), em diferentes momentos do dia e da
semana. Nessa interpelação aos trabalhadores indagou-se acerca da sua
disponibilidade para serem entrevistados em dia, hora e local a combinar, tendo
sido previamente identificados os objetivos formais da pesquisa e a sua
responsável. Desta forma, entrevistaram-se sessenta trabalhadores em oito
centros comerciais localizados na Área Metropolitana do Porto, um número de
entrevistas claramente devedor do designado princípio da saturação
(Burguess, 2001), ou seja, de uma estratégia que consiste na recolha de
informação até ao momento em que se torna redundante. Analisaram-se dois
universos, o da restauração e o do vestuário, por corresponderem às atividades
mais representadas no espaço do centro comercial.Do total de entrevistados,
cerca de 58,3% eram do sexo feminino e 41,7% do sexo masculino: 62,9% das
mulheres entrevistadas concentravam-se nas lojas de vestuário e 37,1% nas lojas
de restauração, enquanto 60% dos homens entrevistados laboravam no segundo tipo
de lojas e 40% no primeiro.
Relativamente à técnica dos grupos focalizados, inicialmente estipulou-se a
realização de quatro grupos focalizados, dois em lojas de restauração (de
diversas marcas), e dois no contexto das lojas de vestuário (de marcas
diferentes), com um número de seis a dez participantes de ambos os sexos e com
cargos diferentes na loja. Porém, tal não se pôde concretizar dada a extrema
dificuldade em reunir os vários trabalhadores. O confronto com este
constrangimento, desde logo revelador da forte rotatividade dos horários de
trabalho, implicou alterar o contexto inicial da aplicação desta técnica, e não
o seu abandono, pois ainda que não seguindo rigorosamente os protocolos da
investigação que lhe subjazem, poder-se-iam obter resultados importantes para a
pesquisa, tal como de facto sucedeu. Deste modo, realizaram-se dois grupos
focalizados, um na loja de restauração Hot Point2, e outro na loja de vestuário
Space. No primeiro grupo focalizado participaram nove trabalhadores, cinco
mulheres e quatro homens, enquanto o segundo integrou apenas três
trabalhadoras, das cinco que se haviam comprometido a colaborar. É de referir
que nem todos participantes dos grupos focalizados foram entrevistados
previamente a título individual, o que implicou, após cada sessão, a recolha de
elementos de caracterização sobre os seus respetivos perfis.
Para a análise dos dados provenientes das entrevistas recorreu-se ao software
NVivo7, que permitiu numa primeira fase a análise vertical das mesmas e a
captação das singularidades subjacentes a cada uma delas, e posteriormente a
sua análise horizontal com vista a discutir, para todas as entrevistas, as
dimensões analíticas contidas no guião de entrevista semi-diretiva.
Relativamente à informação oriunda dos grupos focalizados, conduziu-se uma
análise de conteúdo qualitativa para aprofundar aspetos que não haviam sido
explorados no contexto da técnica da entrevista. Durante esta fase analítica
ponderou-se que a comparabilidade de resultados provenientes destas duas
técnicas de investigação pudesse suscitar eventuais dissonâncias entre os dados
recolhidos (Morgan, 1996), contudo tal não se chegou a verificar.
GRUPOS PROFISSIONAIS NA RESTAURAÇÃO E NO COMÉRCIO
A distribuição da população empregada em Portugal por setor de atividade
económica revela-se bastante desigual. Os números demonstram que o setor
terciário atinge um peso percentual consideravelmente elevado, quando comparado
com os registados nos setores primário e secundário. Com efeito, no primeiro
trimestre de 2011 o setor terciário absorvia 62,5% da população empregada,
enquanto os restantes totalizavam, respetivamente, 27,5% e 10% (ine, 2011b).
A atividade laboral analisada no presente artigo insere-se neste universo do
setor terciário, o qual é atravessado por uma composição heterogénea sob o
prisma do emprego.3 Em termos concretos, esta atividade compreende o trabalho
realizado pelos empregados de restauração (mesa e balcão) e vendedores de loja.
De acordo com a Classificação Portuguesa das Profissões de 2010 (ine, 2011a),
estes trabalhadores integram, respetivamente, os subgrupos profissionais
empregados de mesa e bar e vendedores em lojas, que por sua vez se
localizam no grupo profissional dos trabalhadores dos serviços pessoais, de
proteção e segurança e vendedores. Os empregados de mesa e bar levam a cabo
as tarefas e funções do empregado de mesa e bar, com especial incidência no
serviço de refeições e bebidas, em restaurantes, estabelecimentos de bebidas,
cantinas e a bordo de navios e comboios (ine, 2011a, p. 269). Já os
vendedores em lojas realizam as tarefas e funções do comerciante,
encarregado e vendedor em loja, com especial incidência na venda de bens
diretamente ao público ou por conta de estabelecimentos de comércio a retalho
ou por grosso (ine, 2011a, p. 277).
No que respeita ao subgrupo profissional dos Vendedores em lojas, verificámos
nas últimas décadas o seu acréscimo visível e a sua feminização progressiva.
Trata-se de atividades preponderantemente femininas (Cruz, 2003, 2004), com
baixos recursos qualificacionais, fracas remunerações e com reduzidas
oportunidades de progressão profissional. No caso do subgrupo profissional
empregados de mesa e bar confirmam-se também as duas tendências apontadas
para o subgrupo profissional anterior, embora as clivagens entre os
contingentes feminino e masculino não se revelem tão expressivas. Tais dados
traduzem processos de reestruturação interna destes subgrupos profissionais,
dando corpo a um dos enredos de uma trama mais vasta como a dos dispositivos
institucionais de classificação profissional, que espelha apenas parcialmente
os cenários de mudança socioeconómica. Na verdade, ao percorrer-se a
classificação institucional das profissões no contexto específico do comércio e
da distribuição, nomeadamente a classificação proposta pelo Instituto para a
Inovação na Formação (inofor) sobre os perfis profissionais específicos do
setor do comércio e da distribuição (aavv, 2001), é possível perceber a difusão
de lógicas que refletem por certo mais a classificação formal das atividades e
perfis profissionais a elas associados do que a natureza concreta da atividade
de trabalho e os perfis dos trabalhadores (Freidson, 1994).
INTERAÇÃO COMERCIAL NAS LOJAS DE RESTAURAÇÃO E VESTUÁRIO
A análise da interação comercial nas lojas de restauração e vestuário merece
ser enquadrada nas tipologias de lojas construídas para estes dois universos.4
Entende-se aqui a interação comercial estabelecida entre trabalhadores e
clientes no momento do atendimento, como o conjunto das suas ações sociais
dotadas de sentido próprio e caracterizadas pela intenção e subjetividade.
Atentemos no quadro seguinte, que reúne informação sobre cinco dimensões que
permitem analisar a interação comercial no contexto destas lojas: o momento de
aproximação do cliente; o enquadramento temporal e espacial da interação; os
recursos mobilizáveis no decurso da interação pelo trabalhador, os suportes
informacionais ao atendimento; as competências mobilizadas pelo trabalhador.
Sublinhe-se que estas dimensões perspetivam-se tendo por base mais a figura do
trabalhador do que a do cliente.
O momento de aproximação do cliente na restauração fast-food é muito orientado
pelo trabalhador, o cliente frequentemente ainda se encontra em frente ao
balcão a ler o menu e o trabalhador já está a cumprimentá-lo e a perguntar se
necessita de ajuda. Para além de ser orientada pelo trabalhador, a clientela é
também orientada por um conjunto de prescrições que pressupõem a deslocação ou
transferência do trabalho anteriormente pago e realizado pelo trabalhador para
si própria. Parece que os modelos comercial e de produção destas marcas trazem
os clientes para o processo de trabalho, beneficiando de uma redução de custos,
pois a estes nada lhes é pago pelas tarefas realizadas (Ritzer, 1998). Tal não
sucede no tipo de restauração clássica, onde a clientela entra no espaço,
escolhe a mesa, sendo depois interpelada pelo trabalhador, ainda que por vezes
esta interpelação possa surgir mais cedo, logo à entrada. Na restauração mista,
a situação do balcão é idêntica à de fast-food, e a de mesa semelhante à da
restauração clássica.
Em termos temporais e espaciais, a interação na restauração fast-food dura
entre 5 a 8 minutos no espaço do balcão, aliás como as próprias marcas
prescrevem nos seus procedimentos, enquanto na restauração clássica se prolonga
entre 20 a 50 minutos, e ocorre na sala de refeições. O caso da restauração
mista agrega características dos dois tipos anteriores.
Relativamente aos recursos mobilizáveis pelo trabalhador no decurso da
interação, destaca-se a venda sugestiva na restauração fast-food. Tal ocorre
quando, por exemplo, face ao menu escolhido o cliente é informado que pode
levar uma bebida maior por mais 20 cêntimos. A venda sugestiva tende, também, a
emergir no contexto da restauração clássica, todavia aqui o trabalhador dispõe,
em princípio, de mais tempo que lhe permite apresentar de forma pormenorizada
os produtos. Na restauração mista conjugam-se ambas as situações.
Quadro 1
Interação comercial nas lojas de restauração
A dimensão respeitante aos suportes informacionais ao atendimento agrupa parte
dos procedimentos adotados pelas marcas. Na restauração fast-food existe um
painel bem sinalizado com as opções de menus e respetivos preços, enquanto na
restauração clássica é entregue nas mãos dos clientes o menu com a descrição
dos pratos disponíveis. Na restauração mista articulam-se ambas as modalidades.
Finalmente, as competências mobilizáveis pelo trabalhador remetem para um
conjunto de saberes fazer sociais (Veltz, 2000) constituídos por dimensões
técnicas (conhecimento do produto a vender), organizacionais (execução das
tarefas localiza-se numa estrutura organizacional) e relacionais (dimensão da
interação comercial). Estas últimas tendem a sobressair nos três contextos de
restauração, pois verifica-se todo um trabalho emocional relativo à construção
de estados de emotividade no seio da interação com os clientes e um trabalho
estético vinculado à preservação da boa imagem do trabalhador (Warhurst e
Nickson, 2007) traduzida, por exemplo, no uso da farda, como veremos mais
adiante. As duas primeiras dimensões (técnicas e organizacionais) também se
destacam, em particular nas lojas de restauração fast-food e mista, onde os
trabalhadores são chamados a ocupar rotativamente vários postos de trabalho
(balcão e cozinha no primeiro tipo de lojas e cozinha, balcão e sala de
refeições no segundo), que exigem conhecimentos técnicos sobre os produtos a
confecionar e as máquinas existentes nas lojas.
Relativamente às lojas de vestuário, o espaço físico é de importância decisiva,
pois em torno dele constrói-se um imaginário de consumo (Falk e Campbell,
1997) e o tipo desejável de relações entre trabalhadores e clientes. Estas
lojas transformam-se em lugares onde ocorrem diferentes interações comerciais
que não desembocam necessariamente na venda de um qualquer artigo, já que
dependem dos padrões de comportamentos que motivam a entrada do cliente. É
possível apontar três tipos de clientes, que aliás foram sendo sugeridos pelos
próprios trabalhadores no decurso das entrevistas realizadas. Os clientes
fiéis, que entram várias vezes na loja em virtude de contactos anteriores e
compram; os clientes de passagem, que visitam a loja e acabam por comprar algo,
e os clientes de passeio, que se deslocam à loja sem o intuito de comprar. O
cliente fiel é aquele que de modo repetido opta por uma determinada marca em
detrimento de outra. Porém, a fidelidade não significa necessariamente
exclusividade, pois os clientes podem ser fiéis a mais do que uma marca
(Barrey, 2004; Cochoy, 2002). A passagem pela loja, quando repetida, pode
significar um momento preparatório para uma futura compra ou apenas uma
estratégia para comparar preços de determinados produtos que interessam à
clientela. Os clientes de passeio tendem a deambular pela loja sem a pretensão
de comprar. Assim sendo, os trabalhadores sabem que os clientes se deslocam às
lojas orientados por diferentes motivações, e manifestam comportamentos mais
direcionados ou exploratórios facilmente captáveis desde o momento de entrada
na loja.
Observemos a informação reunida no quadro seguinte sobre a interação comercial
nas lojas de vestuário.
Quadro 2
Interação comercial nas lojas de vestuário
Na loja de self-service,o momento de aproximação do cliente não é orientado
pelo trabalhador, e a duração da interação é variável consoante o tipo de
clientela e as suas motivações. Esta tende a circular pelos diferentes espaços
da loja que lhe proporcionam o contacto com artigos variados. Quando ocorre a
interação entre cliente e trabalhador, este pode orientá-lo através da venda
sugestiva (Mills, 1986), suscitando-lhe o desejo de compra mediante a criação
de um universo comercial propenso à venda (Pettinger, 2006). Para suportar o
atendimento existem desde logo os espaços da loja, onde a localização dos
produtos e a sua disposição é pensada meticulosamente pelas marcas. Finalmente,
no decurso da interação comercial, o trabalhador aciona um conjunto de saberes
fazer sociais de natureza relacional que lhe permitem fazer parte integrante
desse momento interacional, mediante o exercício de trabalho emocional e
estético. Refira-se, adicionalmente, que a dimensão organizacional dos saberes
fazer sociais também se revela presente, pois os trabalhadores transportam para
o interior da interação comercial um conhecimento sobre a estrutura
organizacional das próprias lojas ao mostrarem, a pedido dos clientes, a
localização dos artigos nos espaços das mesmas.
No que concerne à loja de atendimento personalizado, o momento da aproximação
do cliente é muito orientado pelo trabalhador, sendo a duração da interação
variável. Esta é menos rígida do que no tipo de loja anterior, pois é possível
gerir a disponibilidade entre trabalhador e cliente com o intuito de estimular
neste a descoberta da oferta, sobretudo no contexto espacial do balcão, embora
seja necessário ajustar a interação comercial ao fluxo de clientes. Ocorre
também a venda sugestiva, e o trabalhador dispõe, em regra, de mais tempo para
uma apresentação detalhada dos artigos existentes na loja. Relativamente aos
suportes informacionais ao atendimento, é possível apontar os espaços da loja,
com a localização dos produtos e sua disposição, e os catálogos das coleções.
Pode salientar-se a importância das sugestões dos trabalhadores aos clientes
através da mobilização de saberes fazer sociais de natureza relacional
fortemente ancorados no trabalho emocional e estético, como salientado para o
tipo anterior de lojas. O recurso à natureza organizacional dos saberes fazer
sociais não é tão vincado nas lojas de atendimento personalizado, fazendo
sentir-se mais a sua natureza técnica pelo grau de conhecimento que os
trabalhadores demonstram sobre o artigo que apresentam ao cliente.
Trata-se, assim, de modalidades de interação comercial no contexto das lojas de
restauração e vestuário que evidenciam modalidades singulares de organizar o
trabalho no interior de contextos organizacionais associados à existência de
mercados fortemente competitivos.
INTERAÇÃO COMERCIAL, TRABALHO EMOCIONAL E ESTÉTICO
Para compreender a interação comercial importa ter presente algumas
características que são valorizadas nos trabalhadores. Destacam-se as baseadas
no ter e no saber-ser. As categorias que apontam para o ter correspondem
a: ter boa imagem física, ter capacidade de diálogo com cliente e ter boa
apresentação. Quanto ao saber-ser, são mais valorizadas as traduzidas pelas
expressões ser responsável, ser simpático e ser rápido. Estas
características, que se encontram em sintonia com o facto de não se exigir
formação escolar e profissional específica e se preferir recrutar mão-de-obra
estudante jovem pela sua flexibilidade (Bettis, 1996) e disponibilidade para
trabalhar, apontam para um modelo de gestão baseado nas qualidades pessoais em
detrimento das qualificações escolares e profissionais. A própria rede de
relacionamentos sociais que os jovens estudantes trabalhadores constroem no
centro comercial, ao traduzir-se numa bolsa de autorrecrutamento juvenil, é
ilustrativa a este respeito.Convém salientar que tais características
valorizadas na população entrevistada tendem a distanciar-se do conjunto formal
de saberes associados aos perfis profissionais propostos pelo Instituto para a
Inovação na Formação (aavv, 2001).
Um aspeto particularmente revelador assinalado pelos entrevistados é o da
necessidade de saber controlar emoções, saber sorrir, que remete para a
questão do trabalho emocional. Aponta-se a necessidade de ter um sorriso
perpétuo e sincero (Macdonald e Sirianni, 1996, p. 9) no decurso das
interações com os clientes.Importa sublinhar que nestes contextos de trabalho
não se pode operar uma distinção clara entre o produto que está a ser vendido,
o processo de trabalho, e o trabalhador propriamente dito (Gadrey, 2002). Os
empregadores acabam por reclamar autoridade sobre os mais variados aspetos
subjetivos dos trabalhadores, tentando regular a sua aparência física, o
trabalho estético (Warhurst e Nickson, 2007), e a forma de se comportarem, o
trabalho emocional (Wharton, 1993). O que está a ser vendido é, em última
análise, um conjunto de emoções também. O processo de trabalho é
estandardizado, tanto no que respeita à forma de fazer, como à de estar,
através, por exemplo, do recurso à farda que controla a aparência dos
trabalhadores, e à forma de comunicar, recorrendo-se a conjunto de prescrições
a cumprir na abordagem ao cliente (Leidner, 1993, 1996). Para esta
estandardização ou padronização contribui o tal conjunto de prescrições
elaborado pela loja, que os trabalhadores devem seguir no relacionamento com
os clientes, entre si e com as chefias, e, nalguns casos também em situações
envolvendo convívios fora do espaço de trabalho, e que moldam comportamentos e
atitudes. Veja-se, por exemplo, a prática de desporto semanal incentivada pela
loja de restauração Hot Point, que mobiliza semanalmente os trabalhadores para
jogos de futebol, ou a realização de uma gala anual promovida pela loja de
vestuário VipShop, que reúne todos os trabalhadores a laborarem na marca.
O referido esforço de padronização ou estandardização alarga-se aos próprios
clientes, com vista a organizar as suas experiências de consumidores.5 As
estratégias conducentes a organizá-las passam, por exemplo, pela configuração
física dos espaços (Simmel, 2001), e revelam-se particularmente evidentes em
lojas de vestuário self-service e de restauração fast-food. Se no caso da
restauração fast-food o cliente, por regra, não pergunta qual é o menu para
aquele dia, também na loja de vestuário self-service não questiona o tipo de
artigos expostos num determinado momento.
A procura da estandardização, em particular do trabalho emocional, tem sido
analisada em várias investigações e encarada no quadro de uma
instrumentalização empreendida pelas entidades empregadoras. Porém, carece de
uma abordagem que contemple igualmente o que os trabalhadores extraem dela no
espaço social de trabalho. Na linha de Leidner (1993) e de Bolton (2006), a
referida padronização pode ser útil para os trabalhadores, não os transformando
necessariamente em sujeitos alienados. É necessário indagar sobre os
significados que essa padronização despoleta, em particular sobre os proveitos
que se retiram da mesma. Efetivamente, as rotinas podem capacitá-los para um
controlo mais eficaz das interações e permitir que se protejam das faltas de
respeito de que se ressentem na relação com clientes e colegas. Se a gestão
disponibiliza estratégias padronizadas que os protegem na interação com o
cliente, ou possibilitam um acréscimo de poder, não há nada que leve os
trabalhadores a rejeitá-las. Bolton (2006) considera que as emoções6 ou as
expressões de emotividade podem ser opressivas para os trabalhadores, mas há
margens de manobra que lhes permitem ter algum controlo sobre as mesmas, ainda
que pontual, no espaço social de trabalho. Há sempre espaços não controlados
onde se exibem comportamentos espontâneos de descontração, por exemplo, quando
os jovens trabalhadores da loja de restauração KuantoBaste atiram pacotes de
açúcar uns aos outros no balcão em momentos de menor fluxo de clientela. Pode
pensar-se que a padronização não implica que a gestão da loja consiga impor
sempre, unilateralmente, as suas rotinas. No caso do trabalho realizado pelos
trabalhadores nas lojas de restauração e vestuário, a questão do controlo
emocional não se coloca em termos de antagonismo linear de interesses entre as
áreas de gestão e operação, pois há várias partes e interesses envolvidos.
INTERAÇÃO COMERCIAL E DISPOSITIVOS DE FUNCIONAMENTO DAS LOJAS
No âmbito da análise da interação comercial foi decisivo perceber o tipo de
objetivos e regras que os trabalhadores são chamados a cumprir no seu
quotidiano de trabalho. Em termos de objetivos, o peso das vendas é
significativo, pois reúne cerca de três quartos dos objetivos apontados pelos
entrevistados. A perspetiva da trabalhadora Cristina é reveladora a este
respeito:
Quanto a objetivos, no essencial é vender, vender, vender, valoriza-se os
números e a faturação da loja ao final do mês. [Cristina, encarregada na loja
de vestuário Space, centro comercial 8]
O objetivo de vender surge intimamente associado à necessidade de bater o
orçamento de loja, ou seja, faturar mais num determinado dia ou mês em
comparação com o mesmo período do ano anterior. Veja-se o discurso dos
seguintes entrevistados sobre os objetivos existentes nas lojas de restauração:
Temos objetivos diários a atingir. Temos afi temos ah afixado na na, no
quadro ah o dinheiro que eles que eles pensam poder, que poderemos fazer ah
nesse dia igual ao do mesmo dia do ano anterior, é bater o orçamento da loja, é
bom para nós. [Filipe, colaborador na loja de restauração KuanteBaste, centro
comercial 1]
Objetivos é assim, depende, todos os meses dão-nos um objetivo e todos os dias
temos um objetivo e cada turno tem um objetivo. Por exemplo, hoje o meu
objetivo foi muito baixo, 310 euros só, para a hora de almoço. Normalmente por
dia é 700 euros, 800 euros. Muitas vezes cumprimos e passamos, outras vezes,
nem metade fazemos. Tudo depende do shopping.
[Quando questionada sobre a facilidade ou dificuldade em atingir o objetivo, a
entrevistada responde]
Depende do mês. O mês passado foi um mês para esquecer, fevereiro foi um mês
para esquecer. Este mês já melhorou um bocadinho, mas mesmo assim não atingimos
o objetivo. O nosso objetivo era 15 000 euros, nós ficámos nos 13 000. Por
isso, já não há prémio. Mas depende mesmo. Há objetivos que também são muito
altos, que são muito difíceis. Este mês o objetivo foi baixo. Mas não deu,
mesmo assim não deu. [Madalena, gestora de turno na loja de restauração
Vitória, centro comercial 6]
Uma pessoa atingindo os objetivos a nível de orçamento de vendas, a nível de
desvio dos produtos, uma pessoa cumprindo esses objetivos uma pessoa recebe
prémio, é como se estivéssemos nós a gerir a loja. [Alberto, gerente de turno
na loja de restauração Bonanza, centro comercial 5]
Os objetivos das lojas correspondem a metas que os trabalhadores devem atingir
no seu quotidiano laboral. O discurso dos entrevistados relativamente às vendas
permite assinalar a existência de uma prática gestionária que procura articular
o benefício individual e os resultados financeiros da loja, e que pode gerar
impulsos contraditórios. Como referem Aubert e Gaulejac (1991), os indivíduos
debatem-se entre a tendência para trabalhar menos de modo a protegerem-se das
exigências da loja e a inclinação para laborarem mais, com vista a aumentar as
suas contrapartidas financeiras e melhorarem os resultados coletivos.
Há quem assinale não ter objetivos a cumprir. Parece tratar-se de casos em que,
por exemplo, os trabalhadores são solicitados a serem rápidos, muito rápidos
para conseguirem atender o maior número de clientes no menor tempo possível e
consequentemente faturarem mais, sem no entanto qualificarem essa situação como
objetivo formal a cumprir. Tal foi visível no caso da entrevistada Catarina, de
21 anos, trabalhadora-estudante do ensino secundário, a laborar na loja de
restauração Carpaccio.
[ ] Não, não acho que não há assim nada em concreto como objetivo. Acho que o
gerente, o gerente olha muito para para a vontade de querer trabalhar para a
velocidade, temos que ser rápidos e nunca está satisfeito com o ritmo de
trabalho que temos, ele agora está a avaliar isso, nem está a avaliar o físico
da pessoa nem nada, nem mesmo se tiver experiência fica e se for bom a
trabalhar fica, se não for vai embora. [Catarina, empregada de mesa na loja de
restauração Carpaccio, centro comercial 2]
Esta entrevistada trabalha numa loja de restauração clássica onde a presença do
gerente é muito forte e não existe uma hierarquia profissional diversificada
como nas lojas de restauração mista ou de fast-food. Os objetivos, ainda que
existentes, acabam por não ser transmitidos à trabalhadora e são centralizados
na figura do gerente. O único objetivo partilhado acaba por corresponder à
necessidade de incrementar ritmos de trabalho mais acelerados.
Sob o ponto de vista das regras a cumprir, a população entrevistada destaca a
questão do uso obrigatório de farda na restauração e no vestuário, embora em
menor peso neste último. São vários os acessórios que compõem as fardas. Nas
lojas de restauração os adereços revelam-se em maior número e consideravelmente
distantes da indumentária que os trabalhadores envergam no quotidiano. Aliás,
no grupo focalizado conduzido na loja de restauração, a troca de perspetivas
sobre a obrigatoriedade da utilização da farda, foi extremamente reveladora.
Atente-se no seguinte excerto:
Rodrigo ' Somos novos e ainda por cima com esta farda ridícula, ninguém nos dá
credibilidade. Raramente uma pessoa com 18 anos é vendedora de um stand da
Mercedes ou bmw Tem que ter 40 ao menos 37 anos ou 40 anos vá lá para a
Mercedes ou para a bmw vender.
Rute' Não vês ninguém num restaurante onde é só pessoas de 37 ou 40 anos a
atender, não vês ninguém chegar ao balcão e dizer: Então, não atendem aqui?
Está tudo a conversar. Ninguém fala assim [ ] Só a pala, trazer aquela pala [ ]
Para já, só o facto de os chefes terem a camisa azul e nós termos a camisa
verde diferenciam-nos logo. Pronto. Mas também a nossa farda não é uma farda
que transmita respeito, distinção Não sei É mesmo aquela coisa jovem de
trabalho rápido e O cliente não nos trata com todo o respeito. A assobiar e
Patrícia ' Às vezes os clientes começam a assobiar para chamar por nós.
Rute ' Ó Rute, chega-me isto. Ó Rute não tires a Cola com gelo. Eu não
conheço esta pessoa de lado nenhum. Eu estou a servi-lo. Tem que ser um
atendimento de respeito.
Gabriela' Foi o que eu disse há bocado. Cada vez mais somos desrespeitados por
sermos jovens, por estarmos num restaurante de fast-food. [Grupo focalizado,
loja de restauração Match Point, centro comercial 1]
A obrigatoriedade do uso de farda permite construir uma imagem corporativa da
marca, intimamente associada à existência de uma hierarquia profissional
(Warhurst, Nickson, 2007; Pettinger, 2006). Como refere a participante Rute, o
facto de os chefes terem uma camisa azul e de os outros trabalhadores usarem
uma camisa verde, constitui um sinal evidente de diferenciação.
Simultaneamente, segundo esta mesma trabalhadora, a farda não transmite
respeito nem distinção, pelo contrário, revela-se fortemente estigmatizante
e pouco digna. Simboliza aquela coisa jovem de trabalho rápido, ainda segundo
Rute, que faz com que os clientes não os tratem dignamente e acionem
estratégias de abordagem profundamente desrespeitosas, como seja a do
assobiar ou a do tratamento por tu. Segundo a participante Gabriela, são
desrespeitados por serem jovens e também por estarem num restaurante de
fast-food.
Estas formas de tratamento são reveladoras do exercício de poderes assimétricos
(Sennett, 2003; Wolf, 1990) no seio da interação comercial entre trabalhadores
e clientes. Esta coloca em jogo posições diferenciadas fundadas em capitais
económicos, culturais, sociais e simbólicos necessariamente desiguais. Tal
desigualdade sugere a questão da dimensão relacional da dignidade. Ter
dignidade e sentir a sua dignidade reconhecida implica ser tratado como uma
pessoa em si mesma, e não meramente como um meio para um fim de outra pessoa
(Sayer, 2007). Se o trabalhador se sente tratado de modo pouco digno, tende a
reagir de forma a evidenciar a sua indignação, de forma silenciosa ou audível,
como no caso do trabalhador Bruno, que logo a seguir ao cliente o ter tratado
por moço o questionou moço?. A dimensão da dignidade, ou melhor, da sua
ameaça ou perda associa-se à forma como muitos clientes encaram estes jovens
trabalhadores e à clara ausência de autonomia (Hodson, 2001) de que dispõem no
espaço social de trabalho.
Se é a própria marca que financia a farda, cabe no entanto à população
trabalhadora cuidar da boa aparência da mesma. No caso das lojas de vestuário,
os trabalhadores vestem peças da marca onde trabalham, que exibem um valor
simbólico distintivo face às peças de roupa da restauração. Para além da
manutenção da farda, devem seguir outro tipo de regras, em particular, ter
cuidado com cabelos e unhas, utilizar bijouterie e maquilhagem, estas duas
últimas aplicadas às lojas de vestuário e proibidas na restauração por questões
de higiene e segurança laboral. Estas regras reportam-se ao cuidado com a
aparência, cujo incumprimento acaba por merecer comentários. A este propósito,
uma entrevistada narrou um episódio decorrido na loja em que trabalhava, no
qual a diretora comercial em passagem pela mesma se dirigiu a uma trabalhadora
que tinha engordado, chamando-a à atenção para a necessidade de controlar o
aumento de peso.
A questão do uso de farda foi também objeto de discussão no grupo focalizado
conduzido na loja de vestuário. Para muitos, a farda é positiva e transmite uma
boa imagem da marca em causa. As seguintes opiniões expressas durante uma
reunião de um grupo focalizado são elucidativas:
Francisca: Para mim a farda é importante, transmite uma imagem da marca para
quem estamos a trabalhar. Vê-se alguma organização e cuidado com a imagem.
Conceição: Concordo, é uma imagem positiva para os clientes.
Ricardina: Também me parece, aliás, além da farda, acho que devíamos usar uma
placa de identificação com o nosso nome oh assim o cliente sabia qual o nosso
nome, mas a farda é muito importante dá um certo profissionalismo, nós só
usamos uma t-shirts e calças de ganga, mas ainda assim acho que é importante.
[Grupo focalizado, loja de vestuário Space, centro comercial 8]
É possível assinalar do conjunto dos discursos recolhidos, que os entendimentos
acerca do uso de farda assumem configurações diversas no contexto das lojas de
vestuário e restauração.
No âmbito da análise das regras propostas aos trabalhadores, cabe referir ainda
que mediante o exercício de observação direta registou-se o facto de estes
usarem uma placa de identificação com o seu nome, obrigatória na restauração e
nem sempre utilizada no vestuário, como aliás referiu uma das participantes no
grupo focalizado da loja de vestuário Space. Constatou-se, igualmente, a
obrigatoriedade de os trabalhadores responsáveis pela abertura de loja exibirem
um cartão de identificação junto do segurança à entrada do centro comercial,
sob pena de não poderem cumprir tal tarefa. Desse cartão constava a fotografia,
a identificação e a assinatura do trabalhador, a designação do centro
comercial, do seu proprietário e da loja, e a validade do mesmo.
Estes objetivos e regras de funcionamento das lojas de restauração e vestuário
associam-se à questão do ritmo laboral que se pretende que os trabalhadores
mantenham nestes contextos organizacionais. Importa referir que o ritmo de
trabalho é sempre acelerado e assegurado pela lógica do sempre mais, melhor e
mais rápido difundida no interior destes universos laborais. Esta lógica
remete para o sentimento de equipa fortemente ancorado na ideologia gestionária
do novo espírito capitalista (Boltanski e Chiapello, 1999). Trata-se de uma
ideologia que promove, entre outros aspetos, a ideia de que todos devem estar
sempre a dar o máximo, encontrando-se emocionalmente envolvidos na prossecução
dos mesmos objetivos. Há assim um trabalho emocional que sustenta este ritmo
acelerado. A presença diária das chefias no espaço da loja a laborar com os
restantes trabalhadores, realizando as mesmas tarefas de operação, como já se
assinalou, e o fluxo mais ou menos constante de clientes, mais acentuado
nalguns períodos, faz com que a mão-de-obra trabalhe a ritmo predominantemente
acelerado e muito acelerado. Adicionalmente, o próprio sistema de comissões
individuais de que os trabalhadores podem beneficiar condu-los a procurarem
estar sempre no auge do desempenho (Darmon, 1993), originando por vezes um
espírito de competição feroz responsável por disseminar um clima de tensão
diária no quotidiano laboral. O testemunho seguinte é ilustrativo a este
respeito.
Muito acelerado. Tem que ser. Em lojas que faturam muito tem que ser. Ou nós
fazemos o ritmo ou depois acabamos por sair [ ] Se não correspondermos ou a
própria pessoa sai da marca, ou a marca pronto convida a sair. Há certas
pessoas que não conseguem trabalhar na marca mesmo, não é para qualquer pessoa,
há um ritmo de competição muito forte, é muito exigente. [Leonor, responsável
da loja de vestuário Mon Ami, centro comercial 7]
O ritmo é acelerado, o sistema de vendas cruzadas é assim eu estou na caixa,
estou a registar a pessoa começa a olhar e atrás de mim tem bijouterie, tem
carteiras, tem óculos perguntam-me e eu vendo, claro começo a fazer as minha
vendas, faço propostas, sugestões e depois a cliente dá umas voltas na loja e a
minha colega pensa que a cliente é dela eu não preciso de andar ali a
stressar tem dias, o ambiente é altamente concorrencial às vezes chego e
consigo atingir o objetivo, as outras colegas ficam a dizer chegaste agora e
já estás em primeiro nas vendas!, eu acho que é o stress e de querer vender.
[Carolina, empregada de balcão na loja de vestuário Orange, centro comercial
4]
Há algumas pessoas que não se enquadram nestes ritmos acelerados, segundo a
entrevistada Leonor, e acabam por abandonar o trabalho na loja, sobretudo em
marcas de vestuário que atingem níveis de faturação diária muito elevados. O
ritmo acelerado associado ao excesso de trabalho faz com que alguns
trabalhadores não aguentem e sejam convidados a sair ou saiam. A pressão
psicológica diária é assim uma realidade incontornável para muitos
trabalhadores (Légeron, 2003).
Ainda a respeito do ritmo laboral, é importante salientar que períodos de menor
volume de trabalho podem ser tão cansativos e stressantes como os de sentido
contrário. O acréscimo de stress provocado pela constante vigilância das
chefias, a quem compete assegurar que todos estão sempre a fazer qualquer
coisa, constitui uma realidade captada no decurso da realização do trabalho
empírico da pesquisa que sustenta este artigo. Esta conclusão converge com a de
Ehrenreich (2001), quando refere, no âmbito da sua experiência como empregada
de mesa, que os gerentes podiam sentar-se se quisessem em horas de menor
movimento, no entanto, tinham de assegurar-se de que mais ninguém o fazia:
Começamos a fazer render a pequena tarefa, porque, se o gerente de serviço nos
surpreender num momento de ócio, dar-nos-á algo muito mais desagradável para
fazer. [ ] Quando, numa tarde especialmente morta, o gerente me encontra a dar
uma vista de olhos a um exemplar do jornal usa Today que um cliente deixou
ficar, manda-me aspirar o restaurante todo com um aspirador meio avariado, que
tem um tubo de somente meio metro, pelo que a única forma de desempenhar a
tarefa sem arranjar problemas ortopédicos é andar de joelhos de um sítio para o
outro (p. 31). Os trabalhadores têm, assim, de mostrar que estão
permanentemente ocupados.
Deste modo, há um conjunto de dispositivos de funcionamento das lojas que
condicionam a natureza da interação comercial e que impõem ritmos específicos
de trabalho, cuja realização pode ser afetada de sentido positivo pela
existência de prémios, recompensas, reconhecimento da capacidade de quem é
posto à prova tanto como trabalhador, como na qualidade de ser humano.
INTERAÇÃO COMERCIAL E PERTURBAÇÕES DO QUOTIDIANO LABORAL
O último aspeto analisado neste artigo prende-se com as perturbações do
quotidiano de trabalho da população entrevistada.Este tema tem merecido uma
atenção particular no âmbito das abordagens sobre o assédio moral no trabalho
(Einarsen etal., 2010), que equacionam os efeitos de tais perturbações não
apenas no espaço de trabalho, como nas restantes esferas da vida dos
trabalhadores.
Uma expressiva maioria da população trabalhadora nas lojas de restauração e
vestuário dos centros comerciais declara sentir perturbações de natureza física
e psicológica. A fatia mais elevada de perturbações físicas reporta-se ao
cansaço físico, em particular dores de pernas e costas, que decorrem das
posições de pé prolongadas em que se encontram a laborar no dia-a-dia de
trabalho. Atente-se no seguinte discurso da entrevistada:
Um das coisas piores deste trabalho é estarmos sempre de pé, dá um conjunto de
dores nas pernas e nas costas ao final do dia é que não nos podemos sentar,
aliás, a loja não tem nenhum sítio para nós nos sentarmos, só dá para
descansarmos as pernas na pausa, quando estamos a almoçar ou a jantar. A loja é
toda muito bonita, mas não pensam nunca em nós, nos trabalhadores. [Rosa,
caixeira-ajudante na loja de vestuário Safira, centro comercial 1]
A entrevistada Rosa salienta a inexistência de um local específico para se
sentar na loja, sendo possível fazê-lo apenas durante os momentos de pausa no
trabalho. Uma outra questão importante é a da configuração física das lojas não
levar em consideração a presença dos trabalhadores nesses mesmos espaços.
Prevalecem acima de tudo preocupações estéticas (Falk e Campbell, 1997; Vilar,
2006) e não se contemplam as necessidades humanas das pessoas que aí trabalham.
Estes problemas físicos podem não significar uma perturbação patológica
evidente (Nava, 2002), porém os seus efeitos atuam lentamente.
Segue-se o cansaço psicológico. Aqui destaca-se o facto de as chefias, por
exemplo, terem de estar sempre disponíveis, quer nos dias de trabalho fora do
seu horário, quer mesmo nos dias em que se encontram a gozar a sua folga. O ter
o telemóvel sempre ligado constitui uma realidade para muitas destas chefias. É
de registar precisamente que nos momentos anteriores à realização do grupo
focalizado com trabalhadoras de lojas de vestuário, a encarregada da loja
atendeu várias vezes o telemóvel para responder a questões colocadas por
trabalhadoras que se encontravam a laborar. A mão-de-obra, e particularmente a
que desempenha cargos de chefia, tem de manifestar uma disponibilidade
constante, o que perturba as suas vidas pessoal, familiar e social.
Importa destacar também os períodos de insónias, o mau humor, as enxaquecas e
o sentimento depressivo. As insónias relacionam-se com o tipo de horários a que
os trabalhadores estão submetidos, em particular a sua grande variabilidade,
que implica a obrigatoriedade de realizar turnos de manhã, à tarde e à noite,
que interferem com os ritmos circadianos (Young, 1988)7
O testemunho de António é revelador:
As minhas principais perturbações do trabalho são as insónias. Eu trabalho por
turnos, aliás, como a maioria dos meus colegas, por isso imagine pode calhar
numa semana fazer o horário da manhã e a outra o da noite, ou mesmo variar na
mesma semana por exemplo, acontece numa semana trabalhar até às 1h00, depois
na semana seguinte ter que ir trabalhar às 9h00, na noite anterior a esse dia
em que tenho de trabalhar de manhã, deito-me lá para as 23h00, mas não consigo
adormecer, porque na semana anterior a essa hora estava eu a trabalhar fico
acordado até de madrugada e apetece-me dormir justamente à hora que tenho de
acordar para ir trabalhar. Nos dias de folga, a situação também não é fácil,
pois como tenho os horários de sono desregulados, passo o dia todo a dormir, e
sinto-me um pouco para o inútil, pois acabei por não fazer nada, exceto dormir.
[António, gestor na loja de restauração Real, centro comercial 4]
As insónias parecem estar relacionadas, neste caso concreto, com a
variabilidade dos turnos de uma semana para a outra, ou numa mesma semana. Pode
considerar-se que este problema interfere negativamente na saúde dos
trabalhadores.
O mau humor decorre da interação comercial com a clientela, em particular do
ter de estar sempre a representar junto do cliente. As enxaquecas tendem a
ocorrer, segundo a população entrevistada, devido ao ritmo de trabalho
acelerado existente nas lojas de restauração e vestuário, embora mais sentido
nas primeiras pela natureza concreta da atividade de trabalho. A depressão foi
sentida pela trabalhadora Verónica, que desempenha o cargo de chefia na loja de
restauração Club.Essa situação foi justamente motivada, nas palavras da
entrevistada, por um ritmo de trabalho fora do normal, que a levou a
emagrecer muito e a sentir-se absolutamente exausta.
Finalmente, é de sublinhar que ao adicionar o cansaço psicológico a todas as
outras perturbações de natureza psicológica, o resultado é um conjunto
relativamente mais pronunciado de perturbações desta índole, em comparação com
as de natureza física. Como quer que seja, as perturbações físicas e
psicológicas acabam por atuar de forma interativa num movimento dinâmico que
pode ter combinações várias ao longo do tempo (Légeron, 2003). Elas traduzem a
ideia de usura que não se limita ao período de trabalho, mas estende-se a
outros momentos da vida dos trabalhadores.
Da análise global das argumentações expostas pela população entrevistada, fica
claro que as perturbações do quotidiano laboral remetem acima de tudo para as
condições de exercício do trabalho: níveis de pressão elevados suscitados por
períodos longos de interação com os clientes, que obrigam os trabalhadores a um
esforço permanente para manter o comportamento adequado. Também sobressai a
irregularidade dos horários de trabalho, que constitui uma das principais
fontes de insatisfação laboral. São atividades profissionais que certamente, à
semelhança de outras, mas aqui salvaguardando a especificidade de terem lugar
em contexto de centro comercial, desencadeiam um conjunto de problemas
decorrentes da sua própria natureza e das condições do seu exercício: problemas
físicos e psicológicos, que devem ser perspetivados de forma inter-articulada,
como sugerem precisamente os últimos relatórios dos inquéritos às condições de
trabalho na União Europeia (Eurofound, 2011).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O trabalho em lojas de restauração e vestuário nos centros comerciais permite
pensar a dimensão interativa dos empregos nos serviços. Analisar a atividade de
trabalho a partir dos contextos organizacionais é fundamental para perceber de
que forma estes a influenciam (Haveman e Khaire, 2006). Neste artigo procurou-
se refletir, precisamente, sobre a interação comercial entre trabalhadores e
clientes a partir dos tipos de lojas construídos. O momento de aproximação do
cliente, o enquadramento temporal e espacial da interação, os recursos
mobilizáveis no decurso da interação pelo trabalhador, os suportes
informacionais ao atendimento e as competências mobilizadas pelo trabalhador
constituíram os parâmetros de análise da interação comercial. A tipologia de
lojas de restauração (fast-food, clássicas e mistas) e de vestuário (self-
service e atendimento personalizado), sustentada nos parâmetros do momento de
aproximação do cliente e da organização do trabalho, forneceu a base para
pesquisar a diversidade de contextos organizacionais.
No caso da restauração fast-food, referiu-se que o momento de aproximação do
cliente é muito orientado pelo trabalhador e pelas prescrições da marca
sustentadas por um modelo de produção e comercial que implica a transferência
de trabalho para o cliente. Na restauração clássica, este entra e na maioria
dos casos apenas posteriormente é atendido pelo trabalhador. A restauração
mista compatibiliza as duas situações dos tipos anteriores. Relativamente à
duração da interação, na restauração fast-food regista-se a sua curta duração
comparativamente à restauração clássica, destacando-se na primeira o espaço do
balcão, e na segunda a sala de refeições, enquanto na restauração mista se
conjugam as realidades das duas anteriores. No respeitante aos recursos
mobilizáveis pelo trabalhador, identificou-se o fenómeno da venda sugestiva nas
lojas de restauração fast-food e clássicas, embora nestas últimas o trabalhador
disponha de mais tempo para realizar a referida venda. Na restauração mista
conjugam-se as situações anteriores. Os suportes informacionais do atendimento
na restauração fast-food correspondem ao painel informativo existente e na
restauração clássica ao menuentregue ao cliente. Por fim, referiu-se que o
trabalhador mobiliza nos três contextos de restauração um corpo de saberes
fazer sociais aproximados, embora na restauração fast-food e mista, para além
da componente relacional, se destaquem as componentes técnica e organizacional
em virtude da divisão do trabalho aí existente.
No âmbito das lojas de vestuário de self-service, o momento de aproximação do
cliente não é orientado pelo trabalhador, e a duração da interação é variável
em função do cliente, tendo lugar nos vários espaços da loja. Já na loja de
atendimento personalizado, é muito orientado pelo trabalhador, sendo variável
também a duração da interação, embora esta, ao contrário da primeira, se
concentre no espaço do balcão. Identificou-se para ambos os tipos de loja a
venda sugestiva, embora no segundo o trabalhador disponha de mais tempo para
dar a conhecer os artigos da loja. Em termos de suportes informacionais ao
atendimento, a loja e sua montra constituem desde logo elementos fundamentais.
O trabalhador utiliza um conjunto de saberes fazer sociais próximo em ambos os
tipos de loja, embora nas lojas de atendimento personalizado avulte a sua
natureza técnica, dada a especificidade da interação comercial que aí tem
lugar. Mediante esta análise sobressaíram lógicas diferenciadas de organização
e racionalização dos processos conducentes preferencialmente à venda comercial.
Para a compreensão da interação comercial foi decisivo apreender as
características exigidas à mão-de-obra que ocupa os postos de trabalho nas
lojas de restauração e vestuário, os dispositivos de funcionamento destas lojas
e as perturbações que os trabalhadores declaram sentir no seu quotidiano
laboral. Os empregadores acabam por reclamar autoridade sobre os mais variados
aspetos subjetivos dos trabalhadores, tentando regular a sua aparência física e
a forma de se comportarem. Deu-se conta da existência de trabalho emocional
(Hochschild, 2003 [1983]; Bolton, 2006) vinculado à construção de expressões de
emotividade e, simultaneamente, de trabalho estético (Warhurst e Nickson,
2007), consubstanciado na preservação de corpos jovens e bem cuidados. Ambos os
trabalhos apontam para práticas de gestão orientadas para o cumprimento de
metas comerciais e financeiras das lojas.
No seio da análise dos dispositivos de funcionamento das lojas sobressaiu a
importância vincada do objetivo das vendas, e o facto de os trabalhadores se
confrontarem por um lado com a tendência (Aubert e Gaulejac, 1991) para
laborarem menos com vista a protegerem-se das exigências da loja, e por outro
com a vontade de se empenharem mais nos resultados coletivos de modo a obterem
contrapartidas financeiras. Entre as regras de funcionamento das lojas,
argumentou-se que a utilização obrigatória da farda contribui para a construção
de uma imagem corporativa das marcas comerciais e para a consolidação da
hierarquia profissional traduzida, por exemplo, na existência de fardas
diferenciadas.
Ainda no contexto analítico da interação comercial, procurou-se examinar o tipo
de perturbações sentidas pela população entrevistada no seu quotidiano de
trabalho. Salientaram-se as de natureza física e psicológica, intimamente
associadas aos contextos de trabalhos vividos. Foram destacadas as dores de
pernas e de costas, as insónias, o mau humor, as enxaquecas e o sentimento
depressivo. Tais perturbações relacionam-se, de modo geral, com a variabilidade
dos horários de trabalho, com a configuração física das lojas que contempla
acima de tudo preocupações estéticas descurando as necessidades dos
trabalhadores, e com a nem sempre fácil interação com os clientes. Trata-se de
atividades laborais que suscitam um conjunto de problemas particularmente
gravosos para os trabalhadores, resultantes das suas características e
condições do seu exercício.
A reflexão sobre a interação comercial baseada na construção de uma tipologia
de lojas de restauração e vestuário permitiu sublinhar a importância analítica
de partir da diversidade dos contextos organizacionais para compreender a
atividade de trabalho. No seu conjunto fornece indicadores de relevo para
conhecer a natureza dos contextos sociais de trabalho analisados, e as lógicas
de procura e oferta de mão-de-obra nestes segmentos do mercado de trabalho.