Fabbriche Galleggianti: Solitudine e Sfruttamento dei Nuovi Marinai
Devi Sacchetto, Fabbriche Galleggianti: Solitudine e Sfruttamento dei Nuovi
Marinai, Milão, Jaca Book, 2009, 292 páginas.
João Freire
CIES, ISCTE-IUL
Toda a gente sabe que gigantescos navios transportam hoje, constantemente,
cargas e mercadorias entre o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul, e é
plausível suspeitar-se que, nos últimos vinte anos, o comércio marítimo mundial
se tenha intensificado. Porém, mesmo assim, logo a abrir este livro (e em
alguns dos quadros anexos que o encerram), surgem cifras que impressionam: o
número de contentores movimentados multiplicou-se por três nessas duas décadas,
superando os 417 milhões; o comércio marítimo corresponderá actualmente a cerca
de 380 biliões de dólares/ano, qualquer coisa como 15% do valor de todas as
trocas mundiais; haverá nos mares e portos de todo o mundo mais de 90 mil
navios mercantes (de mais de 100 toneladas de arqueação) com uma mão-de-obra
que quase atinge um milhão e duzentas mil pessoas; porém, o mega-porta-
contentores Emma Maersk, o maior do mundo, navega com uma tripulação de apenas
13 homens.
Eis um livro de sociologia que nos fala de uma actividade que, no fundo, é
pouco conhecida e se mantém geralmente fora da actualidade e das controvérsias
sociais, salvo quando ocorre um desastre marítimo de grandes proporções
(sobretudo no caso de haver fortes impactos ambientais) ou agora, embora ainda
só fugidiamente, com o recrudescimento da pirataria em certas zonas do globo.
O italiano seu autor investigou este tema desde o ano 2000 através de uma
sucessão de projectos realizados principalmente a partir de Veneza, onde
coligiu registos relativos aos navios e tripulações que frequentavam aquele
porto, administrou questionários a mais de meio milhar de marítimos e
entrevistou 68 profissionais ligados ao mar, incluindo 15 capitães, 12 oficiais
náuticos e 14 outros tripulantes, também alguns estivadores e operadores
portuários, fiscais e inspectores, trabalhadores sociais e sindicalistas,
agentes marítimos, armadores, etc., de diversas nacionalidades mas com
predomínio de italianos, turcos e ainda cidadãos de outros países da Europa do
Leste, do Próximo e Médio-Oriente. A base teórica (neo-marxista) em que se
apoia revela-se por algumas expressões e conceitos utilizados (a exploração
capitalista do trabalho, a submissão à mercadoria, etc.), e pelas
referências discretas a autores de ideologia bem marcada (Sergio Bologna,
Moulier-Boutang, Ferrucio Gambino).
Um dos temas fortes analisados, sobretudo a partir de técnicas qualitativas de
investigação, é, por um lado, o do isolamento da profissão marítima (isolamento
da terra e da sociedade múltipla, mas também, nas circunstâncias actuais,
isolamento do marinheiro, do oficial ou do técnico face à própria tripulação,
outrora uma comunidade de regras bem estruturadas), e, por outro lado, o da
masculinidade que todavia parece persistir neste meio semi-desenraizado, onde
as mulheres têm dificuldade em vingar. As duas características são comuns a
todos os que andam no mar por necessidade, incluindo operadores de plataformas
petrolíferas, pescadores e militares (como nós próprios tivemos já oportunidade
de aprofundar em Homens em Fundo Azul Marinho, 2003). Mas os respectivos
microssistemas sociais variam consideravelmente entre estas diferentes
situações. E é decerto nos navios de carga e de pesca que a pressão da
concorrência económica e do lucro dos investidores mais tem incidido para
compactar os volumes de mão-de-obra, especializar operações e procedimentos
técnicos, reduzir os tempos de paragem. E como as velocidades das embarcações
estão estabilizadas, por razões técnicas insuperáveis, tem sido a sua escala
que tem sempre crescido, apesar dos riscos.
Contudo, o isolamento marítimo é hoje contraditado e parcialmente compensado
pela facilidade de comunicação por meios electrónicos ao dispor dos indivíduos
(internet, etc.), que neste caso tendem a reforçar a individualização e a
obstaculizar o desenvolvimento de relações directas entre os tripulantes. O
isolamento, sobretudo em culturas masculinizadas, arrasta também, por vezes,
comportamentos nefastos para a saúde e para o equilíbrio psíquico, como a
tendência para o abuso do álcool (e certamente das drogas), pouco detectáveis
fora das condições de observação directa (que o autor lamenta serem quase
impossíveis, na prática), do exame clínico ou da percepção captada, de longe em
longe, por íntimos ou familiares desses embarcadiços.
Juntamente com a redução das tripulações, a heterogeneidade do seu recrutamento
e a diversidade das suas línguas e culturas de origem reforça a dureza das
condições de trabalho a bordo, a que acresce a agressividade do meio natural
envolvente: a instabilidade da plataforma; os riscos de queda ou desprendimento
de objectos; a perigosidade de certos gestos técnicos; o stress da ansiedade em
tantos momentos do desempenho profissional; a fadiga industrial das rotinas
e nem se pensa no naufrágio ou no afogamento A tese de F. A. Cavaco (Human
Relation on Board Merchant Ships, Liverpool, 1992) analisa bem estes mecanismos
e processos.
Tais condições permitem que os grupos profissionais mais bem colocados na
hierarquia da organização náutica e no mercado laboral consigam negociar
vantajosamente as suas remunerações e restantes cláusulas contratuais. Mas,
para os menos ou pouco qualificados, uma cédula de inscrição marítima não é
hoje, necessariamente, um passaporte de embarque e uma garantia de remuneração
compensatória, sobretudo com a erosão verificada nas convenções colectivas de
trabalho negociadas pelos sindicatos.
Neste livro, o autor coloca justamente alguma ênfase nas condições actuais da
regulamentação marítima e da sua fiscalização, através das respectivas
autoridades nacionais. E é sublinhada a forma como se vão cavando condições
standard e condições sub-standard, entre ramos específicos desta actividade
económica, tipos de navios, portos de armamento ou de escala, carreiras, etc.
Neste aspecto, a principal limitação metodológica deste estudo algum
confinamento ao tráfego mercantil do Mediterrâneo Oriental e do Mar Negro
pode constituir-se num bom estudo de caso particular, o dos marinheiros sub-
standard que navegam entre o Adriático e o mar fechado de além-Dardanelos (nas
palavras do próprio autor), como exemplo de uma dessas várias segmentações
desqualificantes do trabalho humano que proliferam pelos sete mares do mundo
moderno.
É, em resumo, um bom esforço de pesquisa que nos revela um pouco da esfera
social dos homens do mar, e que merecia ser seguido por projectos e programas
de pesquisa talvez mais amplos e certamente mais apoiados.