O Partido Nacional Renovador: a nova extrema-direita na democracia portuguesa
Introdução1
No final da Segunda Guerra Mundial, a exposição das atrocidades cometidas
durante o conflito, bem como a confiança nas instituições políticas e o ciclo
de crescimento económico que se lhe seguiu, deslegitimaram os herdeiros do
fascismo e do nacional-socialismo na Europa Ocidental. No entanto, desde o
final dos anos 70, e sobretudo a partir da década 80, assistiu-se ao
ressurgimento da direita radical no mapa político europeu, bem como à sua
penetração nos sistemas parlamentares em diversos países do velho continente.
Advogando um nacionalismo de recorte etnocêntrico e exibindo uma retórica anti-
sistema, esta nova família política procurou responder às transformações
induzidas pela globalização e atrair os grupos mais ameaçados pelos fenómenos
do desemprego e da insegurança. Em Portugal, o espaço da direita radical na
arena democrática foi fortemente condicionado pelas características do anterior
regime, pela própria natureza da transição e pelo clima político ulterior à
Revolução dos Cravos. Superando um ambiente institucional pouco propício à
emergência de forças nacionalistas, a implantação do Partido Nacional Renovador
(PNR) no sistema partidário, ocorrida no raiar do séculoxxi, veio relançar o
debate sobre o espaço da extrema-direita em Portugal. O presente artigo
pretende assim constituir um contributo para a compreensão do fenómeno do
nacional-populismo na Europa, através de um olhar sobre a nova extrema-direita
lusitana e a sua mais recente expressão no tecido partidário. Partindo de uma
leitura sobre dinâmicas sociais e políticas que abriram caminho aos partidos
exclusivistas no teatro europeu, procura-se reconstituir o essencial do
trajecto do PNR. Ao mesmo tempo, serão analisadas as convulsões internas e os
comportamentos políticos que aproximaram o partido dos principais intérpretes
da extrema-direita pós-industrial, assim como os preceitos ideológicos que
permitem enquadrar o seu aparecimento no contexto de uma nova linhagem
europeia. Por fim, a partir do desempenho do PNR na frente eleitoral, este
artigo debruça-se sobre as actuais possibilidades de afirmação de um partido
nacionalista na democracia portuguesa.
Mudança de valores
De acordo com a teoria sobre valores materialistas e pós-materialistas
enunciada por Inglehart (1971) no inícios dos anos 70 o desenvolvimento pós-
industrial das sociedades ocidentais a partir de meados dos anos 60 desencadeou
uma mudança profunda nas prioridades valorativas dos cidadãos. As gerações do
pós-guerra, conhecendo ambientes de paz, abundância de bens materiais e
sistemas de protecção social alargados, assumem como prioridades valorativas
questões como a qualidade de vida, a protecção do ambiente ou a participação
política. Ao mesmo tempo, o declínio das relações laborais enquanto motor dos
conflitos sociais, a par dos fenómenos de secularização e atomização, esbateram
os vínculos tradicionais e o sentido de pertença (Eatwell, 2003; Ignazi, 2003).
Na esfera política, este processo irá traduzir-se na reestruturação dos eixos
de conflito ideológico, através da introdução de novos ingredientes na
tradicional clivagem entre esquerda e direita. As antigas fracturas de natureza
económica, centradas no papel do Estado na distribuição de riqueza ou na
propriedade dos meios de produção, não mais definem em exclusivo o eixo de
conflito nas sociedades pós-industriais, que passa a acomodar novas clivagens
de natureza não material (Eatwell, 2003; Freire, 2003a; Ignazi, 2003).
As primeiras manifestações políticas da cultura pós-moderna surgem com a
revolução jovem e os movimentos sociais dos anos 60. Esta geração foi movida
pela crítica aos princípios fundamentais das sociedades modernas centralismo
político, industrialização e burocratização reclamando ao mesmo tempo uma
maior participação democrática e afirmação individual. As suas reivindicações
adquirem fisionomia política no final da década de 70, com a emergência dos
partidos da esquerda libertária (Kitschelt, 1997) ou partidos Verdes (Ignazi,
1996). Adoptando formas de militância menos rígidas e descentralizadas (Cole,
2005), os partidos Verdes apresentaram um amplo conjunto de reivindicações sob
a tónica do pacifismo, igualdade, direitos das minorias, liberdade sexual,
entre outras questões (Ignazi, 2003; Kitschelt, 1997).
As transformações sociais e os novos eixos de conflito incorporados pelos
partidos Verdes ou da esquerda libertária despertaram também novas formas de
reacção de natureza não material. O ponto de transição surge nos princípios da
década de 80, com os ecos da viragem conservadora nos países anglo-saxónicos e
a infiltração das teses da nouvelle droitena cultura política da direita. Estas
duas correntes iriam desencadear uma contra-revolução silenciosa (Ignazi,
1992), que abriu caminho a uma nova vaga de extrema-direita, quer através do
nascimento de novos partidos, quer através da reconversão de partidos
revivalistas do fascismo (Ignazi, 2003).
A transmissão destas duas correntes para a direita europeia foi inicialmente
absorvida pelos partidos conservadores e desencadeou dois movimentos opostos:
uma primeira dinâmica centrífuga, que antecede a abordagem destas forças ao
poder, sendo caracterizada pela radicalização do discurso político e a
politização de temas como a imigração ou a segurança. Um segundo movimento
centrípeto é accionado quando estes partidos assumem responsabilidades de
governo, sendo caracterizado pela moderação do discurso e a incapacidade de
responder a preocupações por eles introduzidas. Esta polarização é geralmente
acompanhada por uma acentuada crise do sistema de representação, abalado pela
desacreditação das instituições e das elites, consideradas distantes dos seus
representados e recorrentemente conotadas com práticas clientelares e formas de
corrupção diversas. Tais atitudes produziram um contexto extremamente favorável
ao aumento da volatilidade eleitoral e constituíram um fortíssimo elemento
mobilizador da nova direita radical europeia, proporcionando-lhe um nicho
eleitoral que viabilizou a sua penetração nas esferas de representação política
(Ignazi, 2003; Kitschelt, 1997; Minkenberg, 2000).
O desenvolvimento pós-industrial das sociedades ocidentais produziu assim dois
fenómenos opostos: a afirmação individual e o reforço dos mecanismos de
participação democrática, pela mão de movimentos sociais progressistas e dos
partidos Verdes; o primado da segurança sobre a liberdade, pilar da revolução
conservadora no universo anglo-saxónico, inicialmente absorvido pelo centro-
direita na Europa Ocidental. Beneficiando da dinâmica gerada pelos fenómenos de
radicalização e polarização na sua abordagem ao poder, a partir do final da
década de 70 uma nova linhagem de extrema-direita começou a incorporar as
reivindicações introduzidas pelos partidos conservadores (Ignazi, 2003; Mudde,
2000).
Uma nova família de extrema-direita
Desde a Segunda Guerra Mundial existiram fundamentalmente três vagas de
partidos de extrema-direita na Europa Ocidental. Uma primeira vaga corresponde
aos partidos revivalistas do pós-guerra e foi corporizada, em larga medida,
pelo Movimento Sociale Italiano, criado em Dezembro de 1946, e o Sozialistische
Reichspartei na Alemanha, fundando no mesmo ano e interditado em 1949.2 Estes
partidos foram essencialmente caracterizados por uma continuidade em relação ao
fascismo e ao nacional-socialismo, embora sem a organização miliciana e o
fulgor ideológico dos seus modelos históricos.
Com a segunda vaga de partidos, nas décadas de 50 e 60, a extrema-direita
apresenta um padrão menos estruturado e coerente. Neste período, os mais
relevantes actores políticos no quadro europeu foram, entre outros, o movimento
francês Union de Défense des Commerçants et Artisants, criado em 1953, o
holandês Boerenpartij, fundado em 1958, e o Nationaldemokratische Partei
Deutschlands que, em 1964, representa a uma primeira tentativa de reabilitação
do nacionalismo alemão. Não obstante o passado político dos seus quadros ter
transportado alguns vestígios da matriz fascista, esta geração encarnou as
primeiras reacções aos ciclos de crescimento económico acelerado que marcaram a
Europa Ocidental do pós-guerra.
Em paralelo com o declínio dos partidos ligados à velha matriz fascista, a
terceira vaga de extrema-direita no velho continente irrompe no final dos anos
70 e sobretudo com a chegada da década de 80. Entre manifestações nacionalistas
e regionalistas, este fenómeno adquiriu rapidamente expressão continental, com
a emergência de novos partidos em países como a Alemanha (Deutsche Volksunione
Republikaner), a Bélgica (Vlaams Belang), a Dinamarca (Fremskridtspartiete
Dansk Folkeparti), a França (Front National), a Itália (Lega Nord), a Noruega
(Fremskritspartiet), a Suécia (National Demokraterna) e a Suíça (Schweizerische
Volkspartei-Union).
A rápida proliferação de partidos de extrema-direita beneficiou de mecanismos
de natureza relacional, como o contacto institucional entre lideranças ou o
contacto informal entre redes de militantes, e também de mecanismos de natureza
não-relacional, como a disseminação de literatura estrangeira ou a divulgação
no espaço mediático dos casos de maior sucesso (Rydgren, 2005). Os partidos
escandinavos, em particular a Dinamarca e a Noruega, foram os primeiros a
conhecer fenómenos de crescimento assinaláveis.3 Nas décadas seguintes, a
penetração de partidos nacionalistas nos sistemas parlamentares e a sua
consequente institucionalização estendeu-se a outras democracias ocidentais. Em
países como a Itália, a Áustria ou a Holanda, o sucesso de forças de extrema-
direita permitiu mesmo a sua participação em coligações governamentais. No caso
austríaco, a passagem do Freiheitliche Partei Österreichs pelo poder foi
conseguida após um resultado próximo dos 26% nas eleições parlamentares de
1999, um desempenho sem paralelo na história da direita nacionalista europeia.
No entanto, apesar do protagonismo alcançado nestes países, foi sobretudo a
projecção política e a expressão eleitoral da Front Nationalem França que
forneceu um efeito de demonstração e verdadeiramente despertou uma nova família
política de extrema-direita na Europa Ocidental (Betz, 1994; Kitschelt, 1997;
Ignazi, 2003; Carter, 2005). Criada em 1972, a Front National consegue um
primeiro desempenho atípico nas eleições europeias de 1984, onde conquista
11,2% dos votos. Já em 1986, beneficiando do excepcional recurso ao sistema de
representação proporcional em eleições legislativas, obtém um número
considerável de mandatos no Parlamento francês. Sustentado por uma oposição
ruidosa ao fenómeno da imigração, e sobretudo pelo carisma do seu líder
histórico, Jean-Marie Le Pen, este partido foi rapidamente projectado para a
arena mediática, constituindo-se desde então como referência ideológica e
modelo organizativo para um conjunto de novos partidos no espaço europeu
(Eatwell, 2002; Mudde, 2005; Norris, 2005). Em Portugal, a influência dos
nacionalistas franceses seria igualmente determinante para a implantação e
afirmação da nova direita radical no tecido partidário.
O caso português
Nas últimas décadas do século xx, os fenómenos sociais e económicos que
caracterizaram os desenvolvimentos pós-industriais das sociedades ocidentais,
assim como os comportamentos políticos que lhes surgiram associados
deslocamento dos eixos de conflito e aumento da volatilidade eleitoral foram
menos acentuados no caso português. Ao contrário de Espanha, onde a influência
de valores pós-materialistas nas atitudes políticas se aproxima dos países mais
desenvolvidos, Portugal apresentou indícios de um processo de mudança de
valores tardio (Freire, 2003a; Jalali, 2007). Igualmente em sentido oposto a
outros países da Europa Ocidental, o novo eixo de polarização em Portugal
aparenta ser perfeitamente perpendicular à tradicional clivagem entre esquerda
e direita (Freire, 2003a). Deste modo, os temas mais conotados com as novas
manifestações no quadro da esquerda, assim como a sua reacção conservadora,
parecem, no caso português, ter sido de alguma maneira absorvidos (em termos
ideológicos) pelos partidos tradicionais (Freire, 2003a, p. 350).
Por outro lado, as vicissitudes políticas que marcaram o período da transição,
momento crucial da mobilização política em Portugal (Jalali, 2007),
determinaram que o apoio partidário se tenha estruturado em torno do conflito
pela escolha do regime, em detrimento de clivagens sociais e religiosas. A
adesão à União Europeia e o fluxo abundante de fundos comunitários acabariam
nos anos seguintes por reforçar a posição eleitoral dos dois partidos
centristas e consolidar o próprio sistema partidário (Freire, 2003a). Estes
factores contribuíram em larga medida para explicar a ausência das
manifestações políticas associadas aos desenvolvimentos pós-industriais.
Contudo, fruto do crescimento económico, da mudança geracional e da
consolidação de fenómenos sociais que enfraqueceram os vínculos e lealdades
partidárias, o final dos anos 90 e o início do séculoxxi trouxeram consigo uma
maior penetração de valores pós-materialistas, indiciando uma inversão na
tendência até então registada. De igual modo, algumas das transformações
políticas que caracterizaram a Europa Ocidental nas décadas de 70 e 80, têm
vindo nos últimos anos a sofrer as primeiras réplicas em Portugal (Jalali,
2007; Zúquete, 2007).
À esquerda, as causas e reivindicações que marcaram a emergência dos partidos
Verdes na Europa Ocidental não despertaram nenhum intérprete político até final
dos anos 90. Mais recentemente, a representação deste fenómeno tem vindo, ainda
que de forma cautelosa, a ser atribuída ao Bloco de Esquerda (Jalali, 2007;
Zúquete, 2007). Esta hesitação prende-se fundamentalmente com a singularidade
do partido no contexto da emergência dos chamados partidos Verdes na Europa.
Enquanto produto de uma aliança relativamente heterogénea de forças de
extrema-esquerda (Jalali, 2007, p. 98) em 1999, o Bloco não nasceu de uma raiz
libertária. Por outro lado, o seu percurso nos primeiros anos mostrou que,
quer ao nível dos quadros políticos, quer em termos programáticos, o partido
não se afastou substancialmente do legado das forças políticas que estiveram na
sua origem. No entanto, apesar desta singularidade, a apropriação dos temas que
definem a agenda pós-industrial por parte do Bloco de Esquerda permitiu-lhe
alargar de forma significativa a base de apoio dos partidos que estiveram na
sua génese. Ao mesmo tempo, a forte adesão que recolheu junto do eleitorado
jovem sobretudo entre os jovens mais secularizados, com maiores níveis de
instrução e residentes nos grandes centros urbanos permitiu-lhe aceder às
esferas de representação e assim consolidar-se no sistema partidário português
(Freire, 2003a).
À direita, o peso da memória colectiva e as cicatrizes do período
revolucionário continuam a exercer um constrangimento fortíssimo ao
aparecimento de novas forças políticas à direita do Centro Democrático Social
(CDS). Porém, as convulsões políticas decorrentes da mudança de valores não
foram em Portugal um exclusivo da esquerda. No início da década de 90, em
reacção ao esvaziamento político imposto pelos executivos de Cavaco Silva à
direita, o CDS, renomeado Partido Popular em 1993, introduziu na agenda
política alguns dos temas que caracterizaram a viragem conservadora na década
de 80 (Pinto, 1996). Com recurso a um estilo populista (Jalali, 2007), a
liderança de Manuel Monteiro levou ao debate público questões como a segurança,
o reforço da protecção social para cidadãos nacionais, ou a primazia da
independência nacional face aos projectos supranacionais. A politização destes
temas associou também o nome do partido à defesa de leis de imigração mais
restritivas, políticas de segurança mais severas, e ainda à adopção de uma
postura eurocéptica, que levou mesmo à sua expulsão do Partido Popular Europeu,
em 1993.
Por outro lado, embora já no início dos anos 80, sob a direcção de Lucas Pires,
o CDS tenha experimentado uma efémera deriva liberal (Robinson, 1996), o
reforço da iniciativa privada e a redução do peso do Estado na economia
regressaram igualmente ao discurso do partido no consulado de Manuel Monteiro.
Estas posições e a consequente radicalização do debate político contribuíram
para o auspicioso desempenho eleitoral do CDS-PP em 1995, quando o partido se
posicionou como terceira força nacional (Pinto, 1996). Mais tarde, já sob a
liderança de Paulo Portas, a integração do CDS-PP na coligação governamental
saída das eleições legislativas de 2002 levaria o partido a moderar o seu
discurso nacionalista e securitário, bem como a realinhar o seu posicionamento
europeísta. Esta trajectória centrípeta acabou por não ser acompanhada pela
emergência de uma força política com expressão eleitoral à direita do CDS-PP.
No entanto, a reacção autoritária à mudança de valores na Europa Ocidental não
deixou de ter os seus intérpretes em Portugal.
O Partido Nacional Renovador
Com a transição desencadeada pela Revolução do 25 de Abril de 1974, a extrema-
direita em Portugal enfrentou um contexto extraordinariamente adverso, que a
remeteu para uma posição marginal na cena política portuguesa (Gallagher, 1992;
Pinto, 1995; Davis, 1998; Zúquete, 2007). Despida de um projecto político após
o fracasso histórico da proposta integracionista e de uma nação euro-africana
(Pinto, 1996, p. 246), os herdeiros da mitologia fascista acomodaram-se ao novo
elenco partidário ou afastaram-se em definitivo da arena política. A partir da
década de 80, com a elite intelectual da extrema-direita distante do universo
associativo remanescente, surgiram no país as primeiras manifestações de um
novo paradigma nacionalista, associadas a um conjunto de pequenas organizações
juvenis. Carentes de referências ideológicas no tecido nacional, as novas
gerações de activistas começam neste período a absorver influências e a
assimilar o discurso de organizações estrangeiras.
A ruptura doutrinária em relação ao nacionalismo universalista e à sua tradição
multirracial seria assinalada pelo Movimento de Acção Nacional, fundado em 1985
por um grupo de jovens oriundos da cintura suburbana de Lisboa. Apesar de uma
instável base militante e da sua efémera existência, esta organização foi
percursora em Portugal do discurso exclusivista que incubou a terceira vaga de
partidos nacionalistas na Europa Ocidental. Inicialmente disfarçado por uma
roupagem skinhead e um tom racialista, este discurso introduziu em Portugal os
primeiros indícios de um nacionalismo de recorte etnocêntrico. Das fileiras do
Movimento de Acção Nacional saíram também alguns dos principais rostos da nova
extrema-direita portuguesa, que a partir de meados da década seguinte iriam ter
um papel determinante na edificação do Partido Nacional Renovador, na definição
da sua identidade política, e na gradual aproximação do partido aos seus
principais congéneres europeus.
Salazaristas vs. Europeístas
Em meados dos anos 90, já portadora de um discurso exclusivista mais refinado,
a geração saída do Movimento de Acção Nacional e de outras estruturas
organizativas do mesmo período4, procurou capitalizar a mobilização juvenil da
década anterior ao serviço de uma estrutura política mais robusta. Neste grupo
reúnem-se nomes como Bruno Oliveira Santos, José Luís Paulo Henriques, José
Pinto-Coelho e Paulo Rodrigues, partilhando não apenas uma trajectória
associativa, como também uma consciência europeísta, moldada pelas crescentes
ligações a movimentos de extrema-direita no velho continente. Os esforços para
contrariar a aridez organizativa da direita radical e para a recolocar no
espectro partidário são nesta fase partilhados com outras sensibilidades da
área nacionalista.
A principal corrente é formada por figuras afectas ao anterior regime e é
liderada por António Cruz Rodrigues, histórico salazarista e figura
incontornável das hostes nacionalistas em Portugal. Ligado ao Centro de Estudos
Sociais Vector no princípio da década de 70, Cruz Rodrigues associa-se às
primeiras manifestações partidárias da direita radical nos anos da transição,
integrando o Movimento Popular Português, em 1974, e participando já em 1976 na
refundação do Partido da Democracia Cristã. No início dos anos 90, surge à
frente do Núcleo de Estudos Oliveira Salazar e em 1995 parte da sua iniciativa
a criação da Aliança Nacional, organização sedeada nas instalações da editora
Nova Arrancada. Através desta plataforma, Cruz Rodrigues propôs-se reanimar
alguns dos antigos projectos partidários na área católica-tradicionalista do
pós-25 de Abril. A convergência de interesses com a linha saudosista levará os
principais nomes da geração pós-industrial a aderir à Aliança Nacional.
A tentativa de criar um partido político a partir da Aliança Nacional conhece
dois capítulos distintos. Numa primeira fase, entre 1997 e 1998, os seus
dirigentes procuram reunir o limite de assinaturas legalmente imposto para a
constituição de uma força política de raiz. O fracasso das primeiras
iniciativas levou os responsáveis da Aliança Nacional a estabelecerem contactos
e a procurarem unir esforços com grupos nacionalistas radicados no Norte do
país. As diligências movidas revelaram-se novamente infrutíferas e, face à
manifesta incapacidade de erguer um novo partido pela via institucional, os
responsáveis da Aliança Nacional traçaram em 1999 uma estratégia alternativa.
Contornando as exigências legais à constituição de partidos, esta estratégia
consistiu na tomada de uma força política existente o Partido Renovador
Democrático através da inserção de quadros da Aliança Nacional nos seus
órgãos directivos e de uma ulterior conversão estatutária.
Criado em 1985 sob o patrocínio do presidente da República Ramalho Eanes, o PRD
colheu algum sucesso na sua fase inicial e desempenhou mesmo um papel
determinante na obtenção da primeira maioria absoluta do PSD, nas eleições
legislativas de 1987. Com a década de 90 chegaria um período de declínio
continuado, que conduziu o partido a um estado vegetativo aquando das primeiras
abordagens da Aliança Nacional. Nesta fase, a liderança do PRD estava nas mãos
de Manuel Vargas Loureiro, cujo isolamento espelhava o próprio estado de
decomposição em que o partido se encontrava. As conversações com Vargas
Loureiro tiveram lugar na sede da Nova Arrancada e a condução do processo
pertenceu desde início a José Luís Paulo Henriques, director executivo da
editora e antigo rosto máximo do Movimento de Acção Nacional. Defensor de uma
aproximação ao Partido da Democracia Cristã, Cruz Rodrigues permaneceu à margem
dos contactos preliminares.
Não deixando de suscitar pontuais resistências entre militantes do PRD, o
processo seria concretizado na Convenção Nacional do partido, a 13 de Novembro
de 1999. Em função do papel da Aliança Nacional enquanto base logística das
negociações e sobretudo devido ao seu estatuto político, a liderança foi
entregue a Cruz Rodrigues. A composição da nova estrutura correspondeu, de
resto, a uma quase transposição dos órgãos directivos da Aliança Nacional e
nela seria já visível a presença dominante da facção soberanista e europeísta.
A nova face do partido seria formalizada a 12 de Abril de 2000, com a aprovação
do requerimento interposto ao Tribunal Constitucional para alteração dos
estatutos, nome e símbolo. Concluído o processo, foi igualmente anunciado pela
nova direcção o objectivo de colocar o agora Partido Nacional Renovador nos
boletins de voto, concretizando assim as aspirações da direita nacionalista
portuguesa e preenchendo um espaço órfão de representação partidária em
Portugal.
Na sua primeira contenda eleitoral as eleições autárquicas de 2001 o PNR
apresentou-se apenas nos concelhos de Lisboa e Mafra, onde obteve um total de
877 votos. A este resultado não foram alheios factores como a pesada herança
financeira herdada do PRD e sobretudo o quadro de relativo anonimato em que o
partido concorreu a este acto eleitoral. Não obstante ter despertado algumas
reacções negativas em forças políticas de esquerda, o PNR foi nos primeiros
anos uma formação manifestamente desconhecida para uma larga maioria da
sociedade portuguesa. Por outro lado, uma vez alcançado o objectivo que unira
os vários sectores da direita radical na segunda metade da década de 90, a
convivência entre as correntes fundadoras do partido entrou inevitavelmente
numa nova etapa, de cuja definição dependiam as ambições e o próprio
posicionamento do PNR na democracia portuguesa.
A clivagem geracional e as divergências de ordem estratégica entre estas duas
linhas adquiriram novos contornos na 1.ª Convenção Nacional do PNR, em Janeiro
de 2002, ano em que a sede do partido deixou simbolicamente as instalações da
Nova Arrancada e se transferiu para a Rua da Prata, no coração da cidade de
Lisboa. Em vésperas da primeira participação do PNR em eleições legislativas,
em que o partido recolheu 4712 votos5, a Convenção de 2002 trouxe para a
presidência da Comissão Directiva Paulo Rodrigues. A presença na sua direcção
de militantes próximos de Cruz Rodrigues prometia suavizar as diferenças entre
as duas sensibilidades dominantes. Contudo, o encontro acabaria por ser
controverso e a constituição de uma lista de última hora encabeçada por Cruz
Rodrigues acabou por ditar o seu afastamento dos órgãos do PNR. Nos anos
posteriores, as relações entre o antigo rosto máximo da Aliança Nacional e o
partido deterioraram-se de forma irreversível, com consequências,
inclusivamente, ao nível judicial.
O afastamento definitivo da ala salazarista e o apagamento dos últimos
vestígios do paradigma nacionalista tradicional seriam consumados em 2005, na
sequência da 2.ª Convenção Nacional do PNR e da eleição de José Pinto-Coelho
para a liderança do partido. Com um percurso intermitente, Pinto-Coelho iniciou
a sua actividade política nas fileiras do Movimento Nacionalista, em 1980,
colaborando em diferentes manifestações da direita radical portuguesa nesse
período, entre elas o Movimento Independente para a Reconstrução Nacional e a
Ordem Nova. Em 1997, adere à Aliança Nacional para três anos mais tarde
participar na fundação do PNR. A sua chegada à liderança do partido, em 2005,
irá marcar uma ruptura no estilo de liderança e nas opções estratégicas das
anteriores direcções, em linha com as transformações operadas nas últimas
décadas pelos seus principais congéneres europeus. Estas mudanças tiveram
repercussões a nível interno, particularmente através de uma reestruturação
profunda dos quadros directivos do PNR, mas foi sobretudo para o exterior que
as novas orientações se direccionaram.
Da rua da Prata ao Marquês de Pombal
Muito embora as ligações com movimentos europeus sejam anteriores ao nascimento
do partido, com a entrada do PNR no mapa político os seus dirigentes esboçaram
também os primeiros contactos institucionais além-fronteiras. Procurando obter
desde cedo o reconhecimento de outros partidos de extrema-direita e a cobertura
de organizações transnacionais, o partido alinhou em plataformas
interpartidárias, entre as quais a Frente Nacional Europeia. No entanto, foi
sobretudo no plano bilateral, ou através de redes informais de militantes, que
os primeiros contactos foram encetados.
Entre as ligações estabelecidas pelo PNR, a Front Nationalfrancesa constituiu
desde cedo um parceiro privilegiado. Da formação de Jean-Marie Le Pen, os novos
rostos da extrema-direita em Portugal receberam a inspiração para a sua
insígnia, bem como um conjunto de rituais ensaiados ao longo de duas décadas de
acção política. Foi também com base no exemplo da direita radical francesa que
a partir de 2005 o PNR redefiniu a sua orientação estratégica. Estimulada pelo
resultado das eleições legislativas desse ano, em que o partido registou um
acréscimo substancial face ao resultado de 2002, obtendo 9374 votos6, a nova
Comissão Directiva inaugurou uma campanha pública destinada a colocar o PNR na
agenda mediática. Caracterizada por um hiperactivismo comunicacional (Zúquete,
2007), uma forte dinâmica organizativa e um tom deliberadamente provocatório,
esta campanha proporcionou à direita radical portuguesa um período de
excepcional projecção entre 2005 e 2007.
Do Atlântico aos Urais
Embora em sintonia estratégica com o partido, as primeiras iniciativas com
relevo nos órgãos de comunicação partiram de movimentos políticos de extrema-
direita, em particular a Frente Nacional, organização criada em 2005.
Reproduzindo uma iniciativa semelhante da Frente Nacional Europeia, a direita
radical portuguesa saiu pela primeira vez às ruas de Lisboa em Fevereiro de
2005, num desfile contra uma eventual adesão da Turquia à União Europeia. Esta
posição, aparentemente contraditória com a hostilidade demonstrada pelos
nacionalistas portugueses em relação à proposta de integração representada pela
União Europeia e o seu alegado pendor federalista, reflectiu não apenas a
crescente ligação ao tecido associativo europeu, mas sobretudo uma concepção
pan-europeísta, profundamente enraizada na cultura política da extrema-direita
pós-industrial.
Em contraste com os anos da Guerra Fria, em que a sombra do comunismo levou a
um alinhamento pró-americano por parte das direitas radicais europeias, o
nacionalismo contemporâneo recuperou o mito de uma Europa do Atlântico aos
Urais. Esta Europa, entendida como uma aliança de nações integralmente
soberanas, assenta fundamentalmente no reconhecimento de uma herança
civilizacional comum e numa matriz de valores ocidental. Assim, embora
rejeitando a integração política do país em estruturas supranacionais ou
quaisquer formas de governação que colidam com o primado da inviolabilidade da
soberania (Partido Nacional Renovador, 2005), a nova extrema-direita no velho
continente, incluindo os seus interlocutores em Portugal, não deixou de se
posicionar no debate sobre as fronteiras da Europa, reclamando a existência de
um espaço identitário de natureza etnocultural.
A distinção entre uma Europa cultural e uma Europa institucional é igualmente
visível na doutrina económica do partido. Apesar de as questões relacionadas
com o funcionamento do mercado e com o papel do Estado na economia ocuparem uma
posição relativamente secundária no seu programa, o PNR apresenta uma visão
soberanista sobre a integração económica no espaço europeu. De acordo com esta
linha, o partido opõem-se à adopção da moeda única e a formas de integração
tendentes à unificação de mercados, contrastando assim com os princípios
inscritos no Tratado de Maastricht. Ao invés, o PNR defende a necessidade de
intensificar as relações comerciais com os povos europeus, através de
prerrogativas como a abolição de barreiras alfandegárias, sem colidir com o
princípio da soberania das nações.
Nas fronteiras do sistema
A manifestação contra a adesão da Turquia ao bloco europeu, sem particular
relevo no plano doméstico, visou fundamentalmente enviar um sinal de vitalidade
aos seus parceiros europeus. Desde então, as forças vivas da direita radical
portuguesa apontaram baterias à agenda política nacional. Coincidindo com um
protesto convocado por forças policiais em Junho de 2005, a extrema-direita
irrompeu novamente nos palcos mediáticos através de uma manifestação contra a
criminalidade. A necessidade de reforço dos meios de repressão e a dignificação
da classe profissional dos polícias fizeram os títulos na imprensa, mas o
discurso securitário e autoritarista expôs um outro elemento transversal da
nova linhagem europeia de extrema-direita. Inicialmente no discurso dos seus
dirigentes e, mais tarde, no próprio programa oficial do PNR, o partido
procurou afirmar o primado da segurança sobre a liberdade, através de uma
retórica populista contra o sistema político e contra os próprios fundamentos
da democracia participativa.
O conceito de partido anti-sistema descreve as forças políticas que não
partilham os valores fundamentais da ordem política na qual se inserem regime
democrático posicionando-se nas suas fronteiras e procurando minar a sua
legitimidade (Sartori, 1976). A rejeição dos valores, procedimentos e
instituições fundamentais da democracia constitucional, frequentemente
acompanhada por uma narrativa de cariz populista, tem sido apontada como um
pilar estruturante da matriz doutrinária das principais manifestações da
extrema-direita pós-industrial (Betz, 1994; Ignazi, 2003; Carter, 2005;
Ivarsflaten, 2005).
Embora as contingências do xadrez democrático e o risco de estigmatização levem
frequentemente o PNR a camuflar uma cultura política anti-liberal, o partido
concebe o sistema como uma entidade omnipresente na vida política (Zúquete,
2007). Uma entidade composta por uma suposta elite cultural de esquerda, pela
comunicação social e sobretudo pelos partidos da esfera parlamentar (Marchi,
2010). Através de uma retórica populista e maniqueísta, estas forças são
descritas como o produto de uma dinâmica gerada pela globalização, que promove
o multiculturalismo e o capitalismo, eliminando a especificidade das nações
soberanas. Ao atingir as raízes do sistema partidário e do próprio regime
democrático, o discurso do PNR procura assim explorar a insatisfação crescente
do eleitorado português face à qualidade da democracia, potenciando, em
particular, uma imagem muito negativa deste sobre a classe política (Freire,
2003b; Magalhães, 2005).
Esta relação sinuosa com o regime democrático é igualmente visível no seu
discurso anti-abrilista. Nos textos emanados do partido, o diagnóstico negativo
da situação do país é atribuído a três décadas de corrupção praticada por uma
classe política inepta e irresponsável (Partido Nacional Renovador, 2008). Por
outro lado, embora os documentos oficiais não contenham interpretações
nostálgicas ou saudosistas do Estado Novo, os depoimentos públicos dos seus
dirigentes contrariam muitas vezes a posição oficial, assumindo um tom
revanchista e enaltecendo os méritos do regime salazarista (Marchi, 2010).
Um novo paradigma nacionalista
O PNR associou-se às primeiras demonstrações públicas organizadas pela Frente
Nacional em 2005, mas só a partir de Setembro desse ano viria a assumir o papel
de agente polarizador do activismo de extrema-direita em Portugal. A sua
primeira iniciativa pública passou pela convocação de uma manifestação contra a
adopção de crianças por casais homossexuais, a pedofilia e aquilo que designou
por lobby gay. Com este evento, o partido procurou de forma explícita
difundir uma marca tradicionalista, exaltando a importância da família nuclear
enquanto célula básica da comunidade, na formação de uma sucessão de gerações
ligadas hereditariamente (Partido Nacional Renovador, 2008) e no equilíbrio
demográfico da nação.
A sucessão de eventos públicos com a chancela do PNR estendeu-se até Maio de
2006, data de uma acção de protesto em Vila de Rei contra um projecto
autárquico destinado à fixação de imigrantes. Em Janeiro do mesmo ano, uma
outra concentração havia evocado a memória de emigrantes portugueses
assassinados na África do Sul, com recurso à colocação de mais de três centenas
de cruzes na Alameda Afonso Henriques, em Lisboa. Esta acção procurou recriar o
efeito estético das demonstrações convocadas pela extrema-direita alemã para
assinalar o bombardeamento da cidade de Dresden durante a Segunda Guerra
Mundial. Já em Abril de 2007, a campanha do PNR conheceu o seu ponto alto com a
colocação de um cartaz contra a imigração na Praça do Marquês de Pombal que,
inspirado por um polémico cartaz do Schweizerische Volkspartei-Union na Suíça,
arremessou definitivamente o partido para os holofotes mediáticos.
Os modelos utilizados, incluindo o protagonismo atribuído a José Pinto-Coelho
enquanto rosto máximo do partido (Zúquete, 2007; Marchi, 2010), expuseram uma
vez mais a ligação entre os nacionalistas portugueses e as principais forças de
extrema-direita no velho continente. A mensagem empunhou o grande estandarte
político do PNR e dos movimentos políticos na sua órbita. A par de uma vocação
pan-europeísta e de uma postura anti-sistema, a exaltação de uma comunidade
nacional étnica e culturalmente homogénea, assim como a orientação exclusivista
que lhe está implícita, constituem o elemento nuclear da matriz ideológica do
partido e da nova direita radical portuguesa.
Na Europa Ocidental, as concepções exclusivistas têm sofrido mutações ao longo
da história, sendo possível distinguir três paradigmas de referência. Uma
primeira concepção menos restritiva deriva do jacobinismo francês, ao
estabelecer como critério de pertença a assimilação cultural do elemento
exterior à comunidade. O modelo jacobino está hoje profundamente enraizado no
discurso da Front National, que imputa aos imigrantes, sobretudo os de origem
árabe, uma incapacidade ou recusa em assimilarem os elementos distintivos da
matriz cultural francesa. Um segundo modelo emerge da tradição política alemã,
em que a cidadania emana fundamentalmente da descendência e do vínculo
sanguíneo. Este modelo é passível de sustentar uma retórica anti-imigração com
base em critérios xenófobos e racistas, muito embora o legado do nazismo
constitua no presente um estigma fortíssimo à legitimação de políticas
exclusivistas. Uma terceira concepção exclusivista é inspirada no modelo
britânico, em que o mosaico nacional do seu império colonial deslegitimou
historicamente a construção de um discurso exclusivista e favoreceu a
consolidação de uma sociedade multinacional e multicultural (Eatwell, 2003).
À semelhança do paradigma britânico, também o nacionalismo português
tradicional foi fundado em concepções multirraciais, intimamente associadas à
defesa do espaço imperial e das possessões coloniais africanas (Pinto, 1994).
Porém, com a descolonização e a derrocada dos alicerces doutrinários do
nacionalismo universalista, os novos actores da direita radical portuguesa
foram progressivamente abraçando as correntes exclusivistas que sopravam da
Europa e amadurecendo um nacionalismo de base etnocêntrica. Assim, embora a sua
linguagem resvale muitas vezes para um registo xenófobo e mesmo racialista, os
fundamentos do novo paradigma nacionalista são sobretudo de natureza étnica. A
nação é concebida não apenas como uma entidade cívica e territorial, cujos
membros estão sujeitos a um mesmo conjunto de leis e instituições, mas
sobretudo enquanto comunidade herdeira de um legado cultural formado no
decorrer da história, que prevalece sobre o indivíduo e lhe é transmitido por
via da descendência. O partido aspira assim à sobreposição entre etnia,
enquanto unidade cultural, e Estado, enquanto unidade política, através de
políticas activas de homogeneização étnica, nomeadamente a repatriação de
imigrantes, a restrição do direito de asilo ou a supressão do reagrupamento
familiar.
Com base nestes pressupostos, o PNR opõem-se igualmente à Lei da Nacionalidade
em vigor desde 2006, que reforçou a aquisição da nacionalidade portuguesa por
via do direito de terra jus soli em paralelo com o direito de sangue jus
sanguinis. Ao mesmo tempo, o partido procura legitimar a ideia de uma
competição injusta entre os membros da comunidade e as minorias étnicas no
acesso ao mercado de trabalho, conotando as últimas com fenómenos como a
delinquência ou a criminalidade. Neste particular, as comunidades provenientes
de países africanos de expressão portuguesa, maioritariamente fixadas na área
metropolitana de Lisboa, têm sido o alvo preferencial de ataque no discurso
anti-imigração do PNR.
Radicalização e desmobilização
Além de uma crescente afinidade com os seus congéneres europeus, a campanha
mediática do PNR deixou também a descoberto uma ligação estreita com o universo
associativo da extrema-direita, assim como uma forte cumplicidade com o
movimento skinheadem Portugal. O activismo skinheadem Portugal tem raízes na
segunda metade dos anos 80 e, como ilustrado no passado pelo Movimento de Acção
Nacional, evidenciou sempre algum antagonismo em relação a estruturas políticas
organizadas e uma maior propensão para organizações secretas de base
supranacional. Em 1995, à medida que as ligações entre claques de futebol e
grupos neonazis se estreitavam, um episódio de violência largamente documentado
nos órgãos de comunicação levaria à morte de Alcino Monteiro, cidadão português
de origem cabo-verdiana. Do mesmo episódio, resultaria ainda a condenação de um
grupo de skinheads, entre os quais se contava Mário Machado, o mais influente
activista de extrema-direita em Portugal. Nesse período, foram também
intensificados os contactos além-fronteiras, que levariam à criação da célula
portuguesa da Irmandade Ariana, em meados da década de 90, e culminariam anos
mais tarde com o nascimento da secção portuguesa da Hammerskin Nation uma das
mais representativas congregações internacionais e da Frente Nacional (Salas,
2007).
Este processo, decisivo para a mobilização da extrema-direita portuguesa entre
2005 e 2007, contou ainda com apoio de novos métodos de comunicação e difusão.
A internet revestiu-se de uma importância capital, ao permitir a importação de
estratégias utilizadas noutros países e o contacto entre bolsas de militantes
territorialmente dispersas. O sítio de divulgação Fórum Nacional, lançado em
Abril de 2004, tornou-se neste período o mais importante veículo de comunicação
para a direita radical portuguesa. Em paralelo com a Frente Nacional, este
espaço constituiu uma autêntica agência de mobilização para acções de campanha
incluindo as iniciativas do próprio PNR eventos culturais e encontros com a
presença de figuras de referência no panorama internacional. Contudo, ao
contrário de Espanha, onde a actividade dos grupos mais radicais se tem vindo a
subordinar às orientações dos partidos de extrema-direita, o caso português
denotou uma aparente ausência de controlo da estrutura partidária sobre os
núcleos skinhead(Salas, 2007). Esta situação foi ilustrada de forma
particularmente simbólica pelas dificuldades de implantação da Juventude
Nacionalista, secção juvenil do PNR.
A Juventude Nacionalista nasceu de um compromisso de José Pinto-Coelho aquando
da sua eleição para a liderança do partido em 2005, com o objectivo de
enquadrar a militância juvenil numa estrutura tutelada pela Comissão Directiva.
À semelhança de outras juventudes partidárias em Portugal, a criação do sector
juvenil do PNR visou sobretudo cumprir um papel de mobilização e reproduzir a
mensagem do partido para as camadas mais jovens da sociedade. Actuando enquanto
plataforma de recrutamento e propaganda, o seu dispositivo foi sobretudo
vocacionado para escolas secundárias e universidades. No entanto, a função
aglutinadora que a Juventude Nacionalista procurou desempenhar foi desde cedo
eclipsada pela hegemonia que a Frente Nacional já detinha sobre os fenómenos de
militância juvenil. Ao mesmo tempo, consciente de que só a capacidade
mobilizadora dos grupos skinheadpoderia emprestar aos desfiles do partido uma
dimensão capaz de atrair as atenções da imprensa, o PNR delegou de uma forma
tácita o papel de agente dinamizador na Frente Nacional e acomodou-se ao
estatuto de braço político da mesma. Cultivando esta relação de
complementaridade, o partido contribuiu assim para a afirmação da Frente
Nacional e o esvaziamento funcional da sua própria organização de juventude.
Por outro lado, ao acolher nas suas fileiras e lançar nos seus cortejos os
grupos mais radicais, o PNR procurou manifestamente explorar o apetite da
comunicação social pelos comportamentos dos seus jovens activistas, portadores
de uma coreografia inspirada nas ideologias fascista e nacional-socialista.
Estes comportamentos, além de afastarem sectores nacionalistas mais moderados,
acabariam por ser imputados ao próprio partido e torná-lo objecto de uma
cobertura hostil e alarmista por parte da comunicação social, que secundarizou
a sua mensagem política e corroeu as suas credenciais democráticas.
Considerada pelas autoridades judiciais como uma ameaça à segurança interna, a
actividade dos grupos mais radicais tornou-se objecto de investigações a partir
de 2004. Desde essa data, o processo adquiriu uma grande magnitude e mobilizou
diferentes órgãos de polícia criminal. Na sua fase final, em Abril de 2007, as
diligências movidas pelas autoridades incluíram rusgas domiciliárias e buscas à
própria sede do partido, produzindo um significativo número de acusações e
detenções. Em paralelo com o efeito de deslegitimação gerado por uma cobertura
mediática adversa, estas diligências deixaram sequelas profundas para o PNR.
Por um lado, as baixas provocadas nas fileiras do movimento Skinheadpela
detenção de influentes activistas reduziram substancialmente a sua capacidade
de mobilização, atestando uma vez mais a importância da Frente Nacional na
escalada mediática do partido. Por outro, as acções levadas a cabo pela Polícia
Judiciária contribuíram fortemente para a inibição de importantes quadros da
sua já escassa base militante, comprometendo de modo irreversível a dinâmica
organizativa do PNR.
O PNR na democracia portuguesa
Apresentado na Convenção Nacional de 2005 e inscrito na Moção de Estratégica da
Comissão Política Nacional Continuar para Servir Portugal o Objectivo
2009 foi o desígnio estratégico que orientou toda a acção política do PNR,
apostado em conquistar representação parlamentar num horizonte temporal
equivalente ao período de uma legislatura. Com esta estratégia, a direcção do
partido pretendeu seguir uma vez mais o exemplo de outros partidos
nacionalistas na Europa Ocidental, cujo exercício da representação política
abriu caminho à legitimação, institucionalização e consolidação nos sistemas
partidários.
Desde a conversão estatutária do PRD, que permitiu à direita nacionalista
portuguesa recolocar-se no espectro partidário, o seu comportamento eleitoral
foi testado em eleições autárquicas, legislativas e em eleições europeias. Não
obstante uma ligeira tendência de crescimento, quer em termos do número de
votos, quer ao nível da sua implantação territorial, o PNR permaneceu confinado
a um nicho eleitoral restrito e as suas votações foram residuais. Neste
aspecto, o desempenho do partido ficou assim aquém da dinâmica conseguida por
outras forças de extrema-direita e longe do protagonismo conseguido pelos seus
congéneres em países como França, Itália, Bélgica, Holanda ou Áustria.
A exposição mediática e as investigações judiciais movidas à actividade da
extrema-direita portuguesa tiveram um impacto inegável na desmobilização do
partido. Porém, se a redefinição estratégica do PNR a partir de 2007 se deveu
sobretudo a factores de ordem conjuntural, a sua afirmação no plano eleitoral e
mesmo a sua penetração no sistema parlamentar estiveram desde sempre
condicionadas por um conjunto de obstáculos de natureza estrutural. A
segregação política da direita radical portuguesa, em geral, e o insucesso
eleitoral do PNR, em particular, são hoje ditados essencialmente por factores
de ordem institucional, cultural e histórica. Estes factores diferenciam o caso
português de outras democracias europeias e tornam improvável a erupção de uma
força nacional-populista à direita do arco parlamentar.
Desempenho eleitoral do PNR entre 2000 e 2009
A natureza dos sistemas eleitorais tem sido apontada na literatura científica
como uma condicionante institucional ao crescimento e consolidação da nova
linhagem europeia de extrema-direita (Kitschelt, 1997; Eatwell, 2003; Ignazi,
2003). Os sistemas proporcionais com limiares de representação baixos tendem a
favorecer os partidos com menor expressão eleitoral e, nesse sentido, oferecem
aos partidos da direita radical maiores possibilidades de incursão nos sistemas
parlamentares. Este factor foi determinante para a afirmação da direita radical
em alguns países do velho continente, em particular no caso francês. Para a
Front National, o exercício da representação política foi em larga medida
possibilitado pelo recurso a limiares de representação parlamentar
excepcionalmente baixos. Em Portugal, apesar da vigência do sistema de
representação proporcional, o método de conversão de votos em mandatos o
método d'Hondt é, entre aqueles utilizados nas democracias ocidentais, um dos
menos permissivos à infiltração de pequenos partidos. Nesse sentido, apenas uma
escalada eleitoral sem paralelo no repertório da extrema-direita poderia levar
o PNR ao Parlamento português (Zúquete, 2007).
No que respeita a factores de génese cultural, os níveis de satisfação dos
eleitores face à qualidade das democracias têm estado intimamente relacionados
com a pujança das forças anti-sistema na Europa Ocidental (Knigge, 1998;
Eatwell, 2003; Ignazi, 2003). No caso português, os estudos conduzidos nos
últimos anos indicam que os níveis de satisfação face ao desempenho da
democracia e das suas instituições mais emblemáticas apresentam uma tendência
decrescente. Entre os países da União Europeia, Portugal experimentou mesmo o
mais pronunciado declínio desde a década de 80. Estes valores denunciam uma
atitude de alienação dos eleitores e também um elevado distanciamento entre os
cidadãos e o poder político (Freire, 2003b; Magalhães 2005), que poderia ser
favorável ao crescimento de um partido de extrema-direita. Porém, não obstante
os sinais de descontentamento em relação à qualidade da democracia, a adesão
dos eleitores aos seus princípios básicos e ao exercício do voto, enquanto
instrumento de legitimação do regime, registam níveis invariavelmente elevados
em Portugal. Simultaneamente, a oposição ao sistema democrático apresenta uma
expressão residual no caso português, tendo sobretudo por base a defesa de
mecanismos de participação menos elitistas, em detrimento de formas de
governação autoritária (Freire, 2003b; Magalhães, 2005).
Sinal idêntico é oferecido pela tendência da abstenção nas últimas décadas. Ao
contrário dos anos da transição, marcados por uma fortíssima mobilização
cívica, os baixos níveis de participação verificados na actualidade sugerem que
as atitudes de protesto tendem, na democracia portuguesa, a ser canalizadas
para mecanismos de participação política extra-eleitoral, menos
institucionalizados e mediados pelos partidos (Freire, 2003b). Quando
convertidas no voto, estas atitudes incidem preferencialmente sobre eleições de
segunda ordem, cujo desfecho tem um impacto menor no funcionamento dos sistemas
políticos, o que tende a resfriar o voto útil e a favorecer o desempenho dos
pequenos partidos. Na Europa Ocidental, a descolagem da extrema-direita a
partir do final da década de 70 aconteceu sobretudo em eleições de segunda
ordem, designadamente eleições locais e eleições para o Parlamento europeu. Nas
últimas legislaturas, um número crescente de forças nacionalistas animou os
trabalhos deste órgão, que ofereceu um palco privilegiado para a sua afirmação
política e também um laboratório para as suas experiências de agregação.
No caso da direita radical portuguesa, a dinâmica do PNR em eleições de segunda
ordem não tem sofrido oscilações significativas. Dado o reduzido número de
concelhos em que o partido figurou nos boletins de voto em eleições
autárquicas, esta conclusão emerge fundamentalmente do seu resultado nas
eleições europeias de 2004 e sobretudo de 2009, ano em que as europeias
precederam as eleições para a Assembleia da República. Contrariando as elevadas
expectativas depositadas pelos seus dirigentes neste acto eleitoral (Marchi,
2010), a prestação europeia do PNR em 2009 não se diferenciou substancialmente
do registo obtido nas eleições legislativas do mesmo ano. Além disso, a sua
votação nas europeias beneficiou ainda do sistema do círculo nacional único,
enquanto em termos nacionais o PNR não apresentou listas em todos os círculos.
Nesse sentido, e à semelhança de outros partidos com menor expressão, o PNR
parece assim não ter captado o voto de protesto do eleitorado português.
Por fim, além dos obstáculos de natureza institucional e cultural, a
marginalização do PNR é também determinada por inibidores históricos.
Convertido em norma constitucional desde 1976 e concretizado dois anos mais
tarde na lei relativa a organizações fascistas, o repúdio social pelo
nacionalismo de extrema-direita incorporou desde cedo os fundamentos do actual
regime, conferindo-lhe uma natureza defensiva. Esta estigmatização embargou
qualquer movimento saudosista do anterior regime e deixou as diferentes
manifestações da direita radical portuguesa a operar num quadro legal
extremamente adverso. Mais de três décadas volvidas sobre a queda do Estado
Novo, o peso do passado salazarista na memória colectiva continua assim a
sujeitar o PNR a um escrutínio permanente sobre as suas credenciais
democráticas. Ao contrário de outros partidos exclusivistas na Europa, que
beneficiam de contextos menos restritivos, o partido é recorrentemente
confrontado com o espectro da ilegalidade, que oferece múltiplas condicionantes
à sua intervenção política. No caso português, este enquadramento continua a
sobrepor-se à influência que factores como o aumento da imigração ou o cenário
de crise económica poderiam exercer na emergência de um partido nacional-
populista (Jalali, 2007; Zúquete, 2007) e é susceptível de perpetuar a
marginalização da extrema-direita.
Conclusão
A infiltração em Portugal das correntes doutrinárias que na década de 80
estremeceram os alicerces das direitas europeias, implicou mudanças profundas
para a extrema-direita portuguesa. Partindo de um discurso racialista e de
estruturas associativas incipientes, os seus novos intérpretes foram
consolidando uma identidade soberanista e uma consciência europeísta. Com a
viragem do século, a geração pós-industrial uniu esforços com outras
sensibilidades para recolocar a direita radical no espectro partidário através
do Partido Nacional Renovador. Fruto de uma débil situação financeira, e
sobretudo de recalcadas divisões entre as duas correntes dominantes, os
primeiros anos revelaram uma dinâmica organizativa escassa. Com o gradual
afastamento da ala salazarista e a intensificação dos contactos com as
principais manifestações da nova família de extrema-direita no velho
continente, o partido consolidou as feições etnocêntricas e aguçou uma retórica
populista. Ao mesmo tempo, inspirada pela Front Nationalde Jean-Marie Le Pen, a
direcção de José Pinto-Coelho adoptou uma estratégia de comunicação que visou a
inserção do PNR nos palcos mediáticos, como plataforma para a sua afirmação na
frente eleitoral. Porém, se a exposição pública permitiu ao partido sair do
anonimato e adquirir uma visibilidade nunca antes conseguida por uma força
nacionalista, a proximidade aos grupos mais radicais acabou por produzir um
efeito de deslegitimação e determinar a estagnação da sua actividade política.
Por outro lado, a projecção alcançada pela direita radical entre 2005 e 2007
acabou por não alterar a dinâmica eleitoral do PNR e a sua própria dimensão
enquanto partido. À semelhança das primeiras forças nacionalistas nos anos da
transição, o PNR permaneceu assim confinado a uma posição marginal na
democracia portuguesa.