Movimento Sociale Italiano, Alleanza Nazionale, Popolo delle Libertà: do
neofascismo ao pós-fascismo em Itália
Introdução
O politólogo Piero Ignazi (2009), pioneiro nos estudos científicos sobre a
extrema-direita italiana, periodizou os mais de sessenta anos de presença dos
neofascistas na política italiana através de três macro-períodos: um primeiro
protagonizado pelo Movimento Sociale Italiano (MSI), desde 1946 até 1995; um
segundo inaugurado pela transformação do MSI na Alleanza Nazionale (AN), entre
1995 e 2008; um terceiro, iniciado pela fusão entre a AN e o partido de
Berlusconi, Forza Italia (FI), que originou, em Março de 2009, o Popolo delle
Libertà (PdL).
O ciclo com maior longevidade é o do MSI, com uma presença ininterrupta no
Parlamento durante quase meio século como quarta ou quinta força política, e
com uma capacidade eleitoral média de 5% (v. quadro). Durante este arco
temporal, o MSI foi também uma referência incontornável para muitas formações
políticas de extrema-direita na Europa ocidental (Ignazi, 1992, p. 9). Esta
característica como mais antigo desafio a uma democracia madura (Ferraresi,
1995, p. 195) e de representante-mor da velha extrema-direita (Ignazi, 2003)
valeu-lhe a atenção dos cientistas políticos (Tarchi, 2003, p. 3) quando, no
final dos anos 80, surgiu aquela que Von Beyme (1988) chamou a terceira vaga de
extrema-direita, para a diferenciar da neofascista do imediato pós-guerra, e da
populista/poujadista dos anos 60/70.
Quadro - Resultados Eleitorais do MSI e da AN (%)
Paradoxalmente, o aumento de atenção em relação ao MSI correspondeu ao começo
do seu processo de mudança em termos da estrutura do partido e da cultura
política. As últimas duas décadas do século xx representaram, para os
neofascistas italianos, o fim da conventio ad excludendum na cena política
italiana e a abertura da estrutura de oportunidades, com a passagem daprimeira
àsegunda república. O preço a pagar foi a redefinição da identidade ideológica
do partido, com o abandono do neofascismo e a adopção de um perfil de direita
moderada e democrática. A reconstrução desta trajectória do status de pária a
sujeito central da democracia italiana permite revelar a importância do acesso
ao poder como factor de degradação rápida de uma identidade radical,
considerada inabalável e sustentada pela exclusão e marginalização.
Movimento Sociale Italiano: um passado que não passa
No dia 26 de Dezembro de 1946, um punhado de veteranos do último fascismo da
Repubblica Sociale Italiana(RSI), fundaram, em Roma, o Movimento Sociale
Italiano(MSI), a mais bem sucedida de entre várias e malogradas tentativas de
reorganizar os fascistas em democracia (Carioti, 2008). Ultrapassadas às
primeiras investidas repressivas por parte das novas instituições democráticas,
o MSI gozou de um breve período (década de 50) de abertura por parte da
Democrazia Cristiana (DC), seguido por um longo período de isolamento,
consequência tanto dos governos de centro-esquerda (DC e Partito Socialista
Italiano PSI), como da consolidação da teoria do arco constitucional, assente
na marginalização institucional do partido adverso aos valores da Constituição
antifascista (Tarchi, 1997, p. 27; Ignazi, 2004, p. 147). Partido pária, o MSI
oscilou ao longo de toda a sua história, entre as tentativas de inserção no
sistema político, à sombra da DC, e uma orgulhosa posição anti-sistema
(Bertolino e Chiapponi, 1999, p. 212).
A marginalidade institucional não impediu o MSI de combinar a identidade
fascista inabalável com uma dialéctica vivaz no que diz respeito às duas
variáveis da ligação com o fascismo e da relação com o regime democrático.
Neste sentido, no MSI sempre prevaleceram duas tendências diferentes: uma
liderada por Giorgio Almirante, conservadora, filo-atlântica, ligada
historicamente ao fascismo regime e propensa à aceitação do novo sistema
democrático; outra liderada por Pino Rauti, nacional-revolucionária,
antiamericana, ligada ao fascismo movimento e caracterizada por uma recusa do
sistema demoliberal. Apesar de o partido ter sempre privilegiado a via
institucional face à clandestina, segundo o princípio de não renegar e não
restaurar [o fascismo] (Baldoni, 2009, p. 29), estas duas tendências
conviveram ao longo dos diferentes períodos nos quais é possível caracterizar a
evolução da cultura política do MSI (Ignazi, 1989, pp. 439-444).
No primeiro período, entre 1946 e 1950, a atitude prevalente foi a de esquerda
social, fortemente anti-burguesa, anti-capitalista, apegada ao cariz
revolucionário do último fascismo da Repubblica Sociale Italiana (RSI). Esta
corrente representada por dirigentes como Ernesto Massi, Stanis Ruinas, Giorgio
Pini, Concetto Pettinato, Bruno Spampanato, recebeu amiúde o apoio de Giorgio
Almirante no começo da sua liderança (Baldoni, 2009, p. 33). Ao seu lado
conviveu a corrente de direita moderada e institucional (Arturo Michelini,
Augusto de Marsanich, Ezio Maria Gray, Pino Romualdi), interessada em tornar o
MSI no referente do eleitorado conservador, católico e anticomunista. Menos
forte, mas com uma influência determinante na cultura política das futuras
gerações neofascistas, foi, desde o princípio, a corrente espiritualista e
tradicionalista, ligada ao filósofo Julius Evola e liderada por Enzo Erra e
Pino Rauti.
A dialéctica áspera entre as diferentes correntes não impediu que o partido se
colocasse progressivamente na direita do espectro político, devido também aos
equilíbrios da Guerra Fria consolidados ao nível internacional e nacional.
Neste sentido, já os resultados das primeiras eleições legislativas a que o MSI
concorreu em 1948 impuseram uma viragem à direita, em detrimento das veleidades
da esquerda nacional. Das urnas tinha emergido um eleitorado neofascista
maioritariamente (69,6%) enraizado na Itália do Sul, culturalmente ligado ao
fascismo regime, mais do que ao último fascismo revolucionário da RSI do
Norte e, portanto, interessado num partido de ordem, anticomunista e de
direita. O conservadorismo do eleitorado será, ao longo de toda a história do
MSI, o factor determinante na orientação da sua liderança, com as secretarias
de Augusto de Marsanich (1950-1956), de Arturo Michelini (1956-1969), mas
também de Giorgio Almirante (1969-1987) e do seu delfim Gianfranco Fini (1987-
1995), exceptuando-se neste panorama o breve e malogrado parêntese de Pino
Rauti (1990-1991).
As duas décadas de secretaria de Marsanich/Michelini caracterizaram-se, assim,
pela moderação dos tons anti-sistema, com o intuito de aproximar o MSI à DC em
apoio aos governos centristas, e de tornar o partido num referente nacional
para os anticomunistas. Esta fase teve um certo êxito> principalmente durante
o governo Pella (1953-1954), graças à questão da italianidade de Trieste,
cobiçada pela Jugoslávia de Tito, mas terminou rapidamente quando a hipótese da
participação oficial do MSI no Governo Tambroni de 1960 provocou graves motins
de rua liderados pelo Partito Comunista Italiano (PCI).
A estratégia de moderação institucional do partido, todavia, nunca se traduziu
numa ruptura em termos de cultura política. A liderança do MSI considerou
sempre as consequências da ruptura demasiado perigosas devido à
indisponibilidade dos quadros intermédios e da militância de base em pôr em
discussão a identidade fascista. Exemplo disso foi a cisão da corrente
intransigente, revolucionária, de inspiração evoliana, que, em 1956, fundará o
grupo extraparlamentar Ordine Nuovo (ON), dirigido por Pino Rauti (Ferraresi,
1995, pp. 52-63).
Esta identidade do partido, ao mesmo tempo moderado, de ordem e radical anti-
sistema acentuou-se ainda mais entre 1969 e 1976 com o regresso à secretaria de
Giorgio Almirante.1 Ele tinha passado da esquerda à direita do partido após o
Congresso de Viareggio de 1954, apoiando os secretários De Marsanich e
Michelini. Ao assumir a liderança, Almirante continuou na estratégia de
entrismo conservador, idealizando o ambicioso projecto da Destra Nazionale,
ao encontro das características do eleitorado neofascista e dos espaços de
manobra no sistema de partidos italiano. Tal projecto almejava à constituição
de um grande partido que reunisse todas as direitas italianas, e não apenas as
fascistas (Dezé, 2009, p. 23). Esta abertura foi oficializada com a escolha,
como intelectual oficial do partido, de Armando Plebe, filósofo trânsfuga do
PCI, e que tentará refundar as bases ideológicas do MSI numa perspectiva de
direita conservadora e moderada. A operação Destra Nazionale registou um claro
êxito eleitoral nas legislativas de 1972 (v._quadro). Em termos de cultura
política, pelo contrário, o resultado foi a acentuação das divergências entre
as duas almas internas ao MSI: uma favorável à operaçãoplebe, e claramente
empenhada em abandonar as tentações anti-sistema, outra ainda fortemente anti-
sistémica, reunida à volta de Pino Rauti.
Contudo, se o eleitorado do partido nunca se mostrou disponível para veleidades
revolucionárias, também a base militante não aderiu em pleno às tentativas de
abrir o partido a outras tendências de direita alternativas à neofascista. O
fracasso da grande direita com base no MSI inaugurou assim uma nova fase de
marginalização do partido, entre 1977 e 1983. Símbolo deste falhanço foi a
cisão, em 1976, da Democrazia Nazionale(DN), encetada por vários quadros pró-
sistema (Ernesto De Marzio, Raffale Delfino, Piero Cerullo), que não
conseguiram, contudo, o apoio da base militante, sempre receosa de mudanças
demasiado arrojadas. A cisão da DN destaca-se não apenas por ter sido a mais
consistente cisão alguma vez sofrida por um partido italiano com representação
parlamentar (Tarchi, 1997, p. 400), mas principalmente por ter sido considerada
uma antecipação da futura evolução do MSI para a AN, devido à recusa dos
radicalismos, à colocação do fascismo no mero patamar histórico (sem que isso
significasse, no entanto, a sua condenação) e à vontade de aproximação à DC na
área do governo (Giuli, 2007, p. 20).
Apesar da permanência no gueto da política italiana, a década de 70 não
representou apenas a estagnação de um partido dividido entre saudosismo e
vontades renovadoras. Nos anos em que as hostes marxistas viveram o fervilhar
intelectual com o emergir da nova esquerda, também na subcultura neofascista se
produziram sinais interessantes de renovação cultural, vindos dos jovens do MSI
ligados à corrente de Pino Rauti. Estes, nos sombrios anos de chumbo,
encetaram um percurso de abandono das posições saudosistas e promoveram uma
abertura às mudanças socioculturais próprias do pós-materialismo, com uma
atenção inovadora aos temas dos direitos civis, da ecologia, da massificação e
alienação causadas pelo consumismo liberal-capitalista. Contudo, nunca
conseguiram tornar estas análises a linha política oficial do partido: o MSI
demonstrou-se sempre refractário às experimentações meta-políticas e fechado na
ortodoxia almirantiana, cujo controlo monocrático do partido obrigou os jovens
renovadores a procurar fora das estruturas do MSI caminhos de novas sínteses
com a experiência da Nuova Destra.2
A permanência nos pântanos do neofascismo deveu-se, em larga medida, à
indisponibilidade da liderança do MSI experimentar mudanças radicais de cultura
política, sem com isso renegar as próprias raízes. Serão, assim, as aberturas
vindas do sistema, ou seja exógenas ao MSI, a despoletar os primeiros passos da
saída do gueto dos neofascistas, entre 1983 e 1987. O marco histórico foi a
atitude face aos neofascistas do novo secretário do PSI, Bettino Craxi, que, em
1983, consultou oficialmente também o MSI para a formação do seu primeiro
governo. Esta legitimação política fez emergir, no seio do partido, uma nova
ala modernizadora, que ganhou progressivamente mais espaço entre as duas
tradicionais posições almirantiana e rautiana. Os modernizadores puxaram
decididamente o MSI para o sistema através do reconhecimento da legitimidade da
República, filha da resistência antifascista. Esta tendência caracterizou-se
por uma cultura política em formação, que tendeu a relegar o fascismo para um
patamar historiográfico e a procurar uma maior sintonia com a realidade
política externa, para a qual a identidade neofascista já não representava
nenhuma mais-valia para a direita (Ignazi, 1989, p. 444).
Neste aspecto, um inquérito realizado em 1987 no XV Congresso do MSI, conseguiu
registar estas mudanças, evidenciadas por um aumento da percentagem de
delegados que se auto-posicionavam na esquerda do partido (7,9%) face à
percentagem (0,5%) registada em 1979 (Ignazi, 1989, p. 459). Apesar de manter
ainda uma forte conotação anti-sistema, os delegados do MSI demonstraram uma
aproximação face aos restantes partidos do sistema (PSI craxiano, radicais e
ecologistas mais do que à DC) bastante superior àquela registada em 1979
(Ignazi, 1989, p.448). O incremento da moderação evidenciou-se também na
aceitação dos chamados valores democráticos: apenas uma percentagem pequena
de delegados considerava ainda a violência como um dos métodos de luta
política; a maioria recusava as atitudes machistas e afastava-se do
conservadorismo duro nos campos da família, da economia nacional face aos
capitais privados, do nacionalismo chauvinista. Permanecia, todavia, elevada a
oposição à imigração incontrolada, com uma xenofobia latente face aos
africanos.
Com efeito, no final dos anos 80, os quadros do MSI encontravam-se numa fase de
redefinição bastante profunda dos valores que os tinham acompanhado ao longo
dos 40 anos do segundo pós-guerra, sem contudo se terem empenhado num processo
orgânico de refundação cultural.
AlleanzaNazionale: à procura de uma nova identidade política
Esta mudança acelerou-se rapidamente no princípio dos anos 90, quando o colapso
daprimeira república, devido à acção da magistratura, ofereceu ao MSI uma
oportunidade única para emergir como actor político central, graças ao seu não
envolvimento na rede de corrupção. Assim, o MSI acentuou, por um lado, a sua
postura anti-sistema, parcialmente moderada nos anos 80 pelas aberturas
socialistas, mas por outro lado começou a questionar a sua identidade, face à
crescente atenção de largas faixas de eleitorado, alheio à subcultura
neofascista, mas à procura de novos referentes políticos. Neste sentido, o
jovem Gianfranco Fini, sucessor de Almirante desde 1987, soube aproveitar a
oportunidade. Após uma malograda estratégia inspirada na Front National
francesa (na altura o partido da extrema-direita com mais êxito na Europa
ocidental), e vista a receptividade do eleitorado moderado em crise, Fini optou
por abandonar o discurso típico da extrema-direita e por promover a mais
proveitosa imagem de partido reformador do sistema. O processo gradual culminou
no congresso de Fiuggi (26-29 de Janeiro de 1995), que consagrou a
transformação do MSI na nova formação política Alleanza Nazionale (AN). Apesar
das intenções de representar a casa comum das direitas italianas, a operação
foi, na verdade, de pura cosmética política, sendo a estrutura, a liderança e a
militância da AN as mesmas do MSI (Ignazi e Bardi, 2006, p. 35), inclusive nas
suas referências ideológicas.
Do ponto de vista organizacional, a passagem do MSI a AN representou um impacto
notável na estrutura do partido. Este passou dos 142 344 inscritos (1990) aos
324 344 (1994), alcançando os 593 951 inscritos (2004) no final da primeira
década de existência da AN. Da mesma forma, as unidades de base do partido
passaram das 2500 (1990) às 9000 (1994), e por fim às 12 812 (2004) (Morini,
2007, pp. 153 e 156). Este incremento promoveu uma renovação da membership, com
uma diminuição da percentagem de militantes oriundos do MSI, que, na sua quase
totalidade, aderiram à AN. A esmagadora maioria dos novos inscritos na AN não
vinham de anteriores experiências políticas, mas aderiram por acreditar no
projecto renovador do partido. A militância clássica, contudo, continuou
animada pelos veteranos do MSI, que demonstraram também uma maior insatisfação
pela passagem do MSI de partido de massas a cartel party com a AN (Ignazi e
Bardi, 2006, pp. 38-39, 53).
O congresso de fundação da AN representou, assim, o ponto de partida de um
percurso de progressivo afastamento em relação à identidade fascista. Os
primeiros passos foram bastante tímidos: a única concessão, na altura, foi o
reconhecimento do antifascismo como factor histórico necessário à reconquista
das liberdades negadas pelo fascismo. Apesar disso, em 1995, ainda 62% dos
quadros da AN consideravam o fascismo um regime substancialmente positivo e 7%
consideravam-no até o melhor regime que alguma vez tinha existido em Itália. As
mudanças relativamente aos temas sociais (toxicodependência, homossexualidade,
poderes da polícia, pena de morte, relações de género) foram mais fáceis: os
quadros da AN de 1995 demonstravam uma certa abertura de cariz liberal,
confirmando assim as tendências registadas nos inquéritos ao MSI de 1987
(Ignazi, 2004, pp. 148-149) e de 1990, quando o líder Fini ainda definia os
militantes do partido como fascistas, herdeiros do fascismo, pós-fascistas ou
fascistas do século xxi (Tarchi, 2003, p. 9).
As acelerações e resistências derivaram também da vontade da liderança da AN de
reformular a cultura política do partido, sem rupturas abruptas, abandonando
progressivamente, mas decididamente, os arraiais do neofascismo e afastando-se
das tentações de representar, em Itália, aquela nova extrema-direita com um
certo sucesso no estrangeiro (Jean-Marie Le Pen, Jörg Haider, Pim Fortuyn). A
Alleanza Nazionale preferiu uma aproximação ao conservadorismo moderado, de
cariz gaullista, numa estratégia que Ignazi definiu de pós-fascista ou
proto-conservadora (Ignazi, 2004, p. 152). Neste sentido, os dirigentes da
AN, demonstraram sempre um reformismo muito mais acelerado, em comparação com
os quadros intermédios e com os militantes de base. Estes últimos, todavia,
permaneceram fiéis à linha traçada pelo líder Fini, apesar de a contestarem em
variadas ocasiões, principalmente nos assuntos directamente relacionados com o
fascismo. Neste aspecto, a Alleanza Nazionale continuou a tradição do MSI de
partido governado pelo princípio do centralismo plebiscitário, no qual os
quadros e os militantes seguem fielmente as escolhas ideológicas do líder,
apesar de não as aprovarem totalmente, ou de apenas aderirem posteriormente a
essas escolhas (Tarchi, 2003, p. 6).
De facto, as três cisões mais importantes que se produziram no interior da
Alleanza Nazionalepor causa da identidade do partido falharam redondamente do
ponto de vista eleitoral, demonstrando que as bases> já não estavam dispostas
a arriscar o regresso ao gueto do neofascismo. A primeira cisão, liderada por
Pino Rauti, produziu-se logo no congresso de fundação da AN, com a formação do
Movimento Sociale Fiamma Tricolore (MS-FT), que naufragou na irrelevância dos
resultados eleitorais (0,5% a 1% nas legislativas entre 1996 e 2006). A segunda
cisão, liderada por Alessandra Mussolini, realizou-se em Novembro de 2003, no
seguimento da condenação do fascismo proferida por Fini na sua primeira viagem
a Israel. A reacção revanchista de Mussolini, com a coligação eleitoral
Alternativa Sociale (AS), fracassou entre o 1,2% das europeias de 2004 e o 0,6%
das legislativas de 2006. Finalmente, uma terceira cisão, em Novembro de 2007,
liderada pelo dirigente nacional Francesco Storace, em contraposição ao
projecto de fusão entre a AN e o partido de Berlusconi, também faliu: o novo
partido La Destra alcançou uns escassos 2% dos votos, em coligação com o MS-FT,
nas legislativas de 2008.
Se já no final dos anos 80, a base do MSI se encontrava em movimento do ponto
de vista da cultura política, as contingências históricas dos anos 90
permitiram um ulterior ajustamento desta evolução, com uma definitiva
estabilização na área da direita moderada. Um inquérito realizado em 1998, por
ocasião do congresso nacional de Verona da Alleanza Nazionale, revelou que
quase 80% dos delegados se colocavam nas posições de 7 a 9 da escala esquerda-
direita, com uma forte concentração na direita face aos inquéritos
precedentes, e com um esvaziamento tanto da extrema-direita como da
esquerda. Ou seja, após o malogrado parêntese da secretaria Rauti, os quadros
do partido posicionaram-se, entre 1990 e 1995, maciçamente à direita,
reforçando esta dinâmica centrípeta nos três anos seguintes ao congresso de
fundação da AN, entre 1995 e 1998. A percentagem de delegados que em 1998
colocava o partido mais ao centro face ao próprio posicionamento pessoal
duplicou, ao passo que apenas 1/5 dos que se consideravam de extrema-direita
colocaram aí também o partido. Ou seja, os quadros percepcionavam o partido
como tendo um posicionamento mais ao centro do que o seu: se 77,4% colocavam o
partido na direita, mais de 20% não o colocavam nem na direita nem na extrema-
direita, o que representa bem a percepção do caminho de moderação encetado pela
liderança da AN (Bertolino e Chiapponi, 1999, pp. 218-222).
Se no interior do partido prevalecia a lógica da moderação, em relação aos
outros actores políticos permanecia ainda uma desconfiança bastante forte,
sobretudo em relação aos adversários de esquerda. Pelo contrário, em relação
aos aliados do centro-direita, os quadros da AN demonstraram uma diminuição de
incompatibilidade face à Lega Nord (apenas 15,4% recusavam qualquer relação com
o partido separatista) e uma ampla simpatia para Forza Italia, tanto que os
10,1% preconizavam, já em 1998, uma fusão com o partido de Berlusconi
(Bertolino e Chiapponi, 1999, p. 225). Permanecia, contudo, uma certa
desconfiança em relação às aproximações excessivas aos adversários políticos,
julgadas perigosas para a identidade do partido. Esta atitude reflecte, nos
quadros vindos do neofascismo, a cultura do gueto baseada na relação amigo/
inimigo (Bertolino e Chiapponi, 1999, pp. 234 e 240). Em relação aos partidos
estrangeiros de direita, os quadros da AN, inquiridos em 1998, declararam-se
próximos tanto de partidos da direita moderada (os conservadores britânicos),
como de formações extremistas (FN francês e o FPÖ austríaco), denotando como o
processo de moderação estava ainda em fase de transição (Bertolino e Chiapponi,
1999, p. 228).
A razão desta mudança reside na socialização de muitos dos quadros do MSI que
passaram pelas instituições representativas regidas pelas regras do compromisso
democrático. Estamos a falar de várias dezenas de quadros políticos desde a
década de 60 até 1995: entre 18 e 50 eleitos nos parlamentos regionais, entre
632 e 2005 eleitos nos parlamentos provinciais e comunais. Números que disparam
a partir de 1995, com 254 presidentes de câmaras municipais, 554 vereadores nos
governos municipais, 29 nos provinciais e 22 nos regionais (Tarchi, 1997, p. 47
e 315). Mais relevante foi a participação nos governos Berlusconi: 5 ministros
e 12 sub-secretários de Estado na xii legislatura (de 15-4-1994 a 16-2-1996); 7
ministros, 3 vice-ministros e 13 sub-secretários de Estado na xiv legislatura
(de 30-5-2001 a 27-4-2006) (Morini, 2007, p. 171). Estes quadros tornaram-se
parte do sistema, apesar de pertencerem a um partido anti-sistema, e
privilegiaram estratégias pragmático-eleitorais face às de tipo ideológico
(Bertolino e Chiapponi, 2009, p. 242).
Esta tendência centrípeta convive com vestígios da antiga cultura política do
MSI (Dézé, 2009, p. 25), como demonstram as entrevistas realizadas em 2006 a
militantes e quadros intermédios de extrema-direita (dos quais ½ a ¾
pertencentes à AN). Os resultados revelavam ainda um certo apego ao rótulo de
fascista, hoje menos estigmatizante graças à legitimação do partido; uma
atitude anti-sistema e revolucionária como metáfora sinónimo de mudança radical
de dentro, e não contra as instituições; um nacionalismo com tons
etnocêntricos, principalmente face ao islão; valores pós-materialistas em
matéria de ecologia, mas também valores típicos da direita, como a segurança
nacional e a soberania nacional com políticas de potência (Klandermans e Mayer,
2006, pp. 82-83; 87-90; 259-262).
A nova identidade codificada nos programas
Ponto central na dinâmica centrípeta da extrema-direita italiana foi a
estratégia de Gianfranco Fini de historicizar o fascismo, expulsando-o do
debate político como identidade prejudicial para a direita do séculoxxi face às
oportunidades oferecidas. Nesse sentido, os documentos programáticos da AN
repetiram constantemente a vontade de o partido se assumir como representante
da direita democrática (e não enquanto filha do fascismo), cujos valores de
referência existiam antes do fascismo, atravessaram o fascismo e lhe
sobreviveram. Apesar disso, no congresso fundacional de 1995, a AN ainda não
reconhecia o antifascismo como um valor em si, mas apenas como o momento
histórico necessário para a recuperação daquelas liberdades que o fascismo
tinha negado (Tarchi, 2003, p. 10). Em termos de cultura política, a AN
reivindicou entre os seus pais espirituais, tantos os autores clássicos,
ligados directa ou indirectamente ao fascismo (Pareto, Michels, Mosca,
Marinetti, Prezzolini, Spirito, Gentile, Evola), quanto os pais da cultura
nacional italiana (Dante, Machiavelli, Croce), e até o democristão Don Sturzo e
o comunista Gramsci (Tarchi, 2003, p. 11). Tratou-se de uma vontade claramente
instrumental de se integrar na vida político-cultural italiana, cujo ponto de
chegada foi o reconhecimento da boa prova de si dada pelo regime democrático
nos cinquenta anos do pós-guerra: um corte radical com a antiga índole anti-
sistema do MSI.
Para evidenciar a sua matriz conservadora, moderada e pós-fascista, a AN
centrou a sua identidade no binómio liberdade/autoridade: uma liberdade como
valor irrenunciável, que não é arbítrio, dentro de um Estado com autoridade,
mas não autoritário. Neste sentido, a dignidade da pessoa era reconhecida
dentro do âmbito comunitário (família, nação, Estado), rejeitando o
individualismo iluminista (Tarchi, 2003, p. 13). A AN manteve a recusa da
concepção contratualista da sociedade e continuou a entender a nação como
organismo vivo, dotado de um passado, de uma tradição, de uma identidade e,
portanto, de um destino comum. O partido propunha, assim, o comunitarismo como
característica central de uma direita que se opõe ao universalismo
homogeneizador da esquerda. Contudo, no seu percurso de afastamento do
fascismo, a AN redimensionou o papel do Estado na sociedade, diminuiu a ênfase
no conceito de povo, e abandonou um certo populismo plebiscitário. Pelo
contrário, recuperou do neofascismo do MSI a devoção à nação, para aproveitar,
nos anos 90, o renascido patriotismo, após a queda do comunismo, e para
contrastar com as derivas secessionistas da Lega Nord. Tratou-se de um
patriotismo com moderadas conotações etno-culturais, respeitador das
identidades regionais e das energias locais expressas pela sociedade civil
(voluntariado e associativismo), contra um excessivo centralismo estatal.
Tratou-se aqui de uma ruptura com o antigo MSI, que permitiu uma viragem
liberal na organização da sociedade, no aspecto quer político-institucional,
quer económico. Esta aproximação da AN ao liberalismo económico resolveu-se num
breve e malogrado período de tempo, entre 1999-2000, rapidamente absorvida
porque não apreciada pela base militante, que demonstrou, neste caso, não
querer confundir-se com a identidade ultraliberal da Forza Italia e da Lega
Nord. A Alleanza Nazionale regressou, assim, à fórmula da economia social de
mercado, sem contudo abraçar as antigas tendências corporativas do MSI no que
diz respeito à participação dos trabalhadores na gestão e nos lucros das
empresas. Mais uma vez, ganhou a mediação e a moderação entre as correntes
internas de direita e de esquerda. Da derrapagem liberal permaneceu, na AN, uma
forte desconfiança em relação ao ecologismo. O partido promoveu um
ambientalismo antropocêntrico, que fosse não um entrave mas um impulso ao
desenvolvimento do país. De facto, as críticas de antigo sabor neofascista aos
modelos produtivos e económicos do liberal-capitalismo não se traduziram, com a
AN, em propostas de alternativa radical (Tarchi, 2003, pp. 24 e 29).
O partido permaneceu, pelo contrário, ligado à tradição neofascista num certo
conservadorismo dos valores sociais, fruto de uma concepção espiritual da vida
de cariz católico, oposta ao materialismo marxista. Esta postura reflectiu-se
nas posições da AN face aos temas da bioética, do aborto, da liberalização das
drogas, da eutanásia, das uniões de facto. O mesmo poderá ser dito em relação a
questões como o trabalho e a economia, em que as aberturas às ideias liberais
foram temperadas por uma forte crítica à exploração neo-liberal.
Um capítulo importante do afastamento da extrema-direita é o tema do racismo.
Em todos os documentos elaborados desde 1995, a AN repudiou qualquer forma de
xenofobia e ódio racial. Para frisar ainda mais o conceito, o documento de
fundação de 1995 condenou abertamente todas as formas de anti-semitismo,
inclusive as camufladas de anti-sionismo.3 O partido considerou a imigração
como um dado inelutável, que podia representar até um recurso para a nação, se
gerido com políticas adequadas de assimilação. Neste sentido, a AN reconheceu a
necessidade de salvaguardar todas as identidades, mas sempre encarou com
preocupação os perigos desagregadores do multiculturalismo. Estas posições de
equilíbrio entre integração, assimilação e multiculturalismo nunca reflectiram
perfeitamente os sentimentos da base do partido que, pelo contrário, se
envolveu amiúde em protestos locais de sabor xenófobo. A AN soube resistir às
tentações de representar a direita lei e ordem. Apesar de se manter firme no
combate à criminalidade (expulsão dos imigrantes ilegais, permanência da prisão
perpétua e do regime prisional especial para os mafiosos), abandonou as
propostas mais duras do MSI (pena de morte, intervenção excepcional das Forças
Armadas).
No campo das reformas institucionais, a primeira preocupação da Alleanza
Nazionale foi libertar-se da imagem autoritária do MSI, desde sempre apoiante
de um Estado presidencial de cariz cesarista ou plebiscitário. Para isso, a AN
apostou num reformismo que aumentasse e não diminuísse a democracia, através da
participação directa dos cidadãos: eleição directa do presidente da República
ou do chefe de governo; instituição do referendo de iniciativa popular;
diminuição do poder do parlamento em favor de uma maior representatividade
orgânica de famílias e categorias socioprofissionais. Em contrapartida ao
reforço dos vértices do Estado, a AN aderiu à reforma federalista, abandonando
a concepção centralista do MSI, em prol de formas mais modernas e flexíveis de
descentralização dos poderes.
Na política internacional, a Alleanza Nazionale não precisou de realizar
rupturas abruptas face ao MSI. Apesar de certas tendências antiamericanas e de
europeísmo terceiro-forcista, o MSI sempre foi um partido pró-ocidental. A AN
manteve e acentuou esta posição: Europa das pátrias, confederada, com um papel
reforçado na NATO, fidelidade à aliança ocidental, reconhecimento dos EUA como
libertadores, apoio incondicional a Israel, vigilância contra o integralismo
islâmico. Estas últimas duas posições, claras na fundação do partido,
atenuaram-se nos anos seguintes, em prol de uma visão mais diplomática do
diálogo entre o mundo ocidental e o mundo árabe. Do antigo nacionalismo do MSI
permaneceu na AN a reivindicação dos direitos dos refugiados das terras
italianas da ex-Jugoslávia (Istria e Dalmácia), já não numa perspectiva de
reintegração na soberania italiana, mas de reconhecimento do estatuto especial
e do direito à indemnização dos espoliados. Apesar das críticas à nova ordem
mundial, de facto o partido nunca contestou o poderio unipolar norte-
americano, e aliás apoiou todas as operações de polícia internacional lideradas
pelos EUA na viragem do milénio.
Em conclusão, a Alleanza Nazionale distanciou-se da cultura política do MSI em
relação quer ao fascismo, quer ao sistema democrático. Com base nos indicadores
propostos por Cas Mudde para definir a ideologia de extrema-direita (Mudde,
2000, p. 170), o politólogo Marco Tarchi sublinha que desde 1995 a evolução da
AN afastou o partido da família política radical. Desapareceram os vestígios de
ultra-nacionalismo palingenésico, que Roger Griffin (1991) considera
fundamental para o neofascismo e tornaram-se cada vez menos relevantes os
indicadores constitutivos do vocabulário da extrema-direita: nacionalismo,
tendência para o exclusivismo, xenofobia, culto do Estado forte, chauvinismo do
welfare, ética tradicional, revisionismo histórico. O acentuar-se da
aproximação à direita moderada e ao conservadorismo exclui a AN também da área
dos partidos populistas, caracterizados por uma mensagem de protesto radical
contra as elites nacionais, os abusos do sistema de partidos e a sufocante
fiscalidade do Estado (Tarchi, 2003, pp. 49-51). Embora posicionada cada vez
mais ao centro, a Alleanza Nazionale não se tornou num novo partido liberal. O
seu reconhecimento da pessoa como parte orgânica de um todo comunitário, a sua
ideia de que a liberdade tem sentido só em diálogo com a autoridade, a
supremacia da política sobre a economia, aproxima-a mais de um partido
conservador, pólo de atracção, em Itália, do antigo eleitorado democrata-
cristão. Tarchi indica três fases desta evolução (Tarchi, 2003, pp. 55-56):
entre 1995 e 1997, a Alleanza Nazionale engendrou uma mensagem populista de
renovação radical da estrutura política da Itália, abalada pela operação mãos
limpas. Entre 1998 e 2000, assumiu uma identidade liberal, como partido
modernizador e defensor da unidade nacional, na ilusão de poder competir na
mesma área eleitoral da Forza Italia e da Lega Nord. Desde 2000, recuperou
algumas antigas linhas identitárias do MSI, para se apresentar como partido de
ordem, comunitarista, social: uma direita moderada e conservadora.
Nos últimos anos, os trabalhos de investigação sobre a Alleanza Nazionale
tornaram-se mais escassos e a ciência política deixou o campo às análises
produzidas por comentadores vindos do jornalismo político. A falta de dados
quantitativos e de inquéritos aos militantes e eleitores do partido não
permitem, assim, uma avaliação científica das mudanças em curso na antiga
direita radical italiana nos últimos cinco anos.4 Todavia, a escassa
bibliografia disponível sobre este último período, mais sólida do que os
simples artigos de opinião, permite esboçar algumas linhas da evolução da
cultura política da Alleanza Nazionale no futuro próximo. A opinião corrente
dos comentadores aponta para um partido caracterizado cada vez mais por um rumo
incerto, sem um projecto definido, sem um objectivo claro que não seja apenas a
legitima aspiração à conquista do poder e à sua gestão diária (Giuli, 2007, p.
4).
Se, em finais da década de 90, os estudos falavam de um partido em transição,
no qual a cultura política fortemente identitária do MSI esmorecia
inexoravelmente em prol de algo ainda não claramente definível, quase dez anos
depois esta transição, já em fase avançada, é rotulada como do quase nada ao
nada (Giuli, 2007, p. 7). Na opinião do autor, isto deveu-se não apenas ao
mero carreirismo da elite da AN, mas às limitações ínsitas na cultura política
do MSI que, ao longo dos seus 48 anos de vida, produziu apenas a prosaica
cultura neofascista, ou seja uma quase paródia do fascismo histórico. Foi
portanto inevitável que o pós-fascismo resultasse num mero abandono de uma
tradição já há longo tempo degradada pelo neofascismo. Neste sentido, não foi
apenas o carácter com frequência parodista do neofascismo que esfarelou
rapidamente esta cultura política aquando do acesso dos antigos radicais ao
poder, mas também o processo de socialização que os quadros do MSI viveram ao
longo das quase cinco décadas da sua existência. Apesar de marginalizados, eles
permaneceram sempre dentro das instituições democráticas, tanto no parlamento
como nas administrações locais. O secretário do partido, Gianfranco Fini, é o
protótipo desta socialização dos quadros neofascistas nas instituições: desde a
sua liderança do movimento juvenil do MSI nos anos 70, que Fini sempre conviveu
com as práticas e as lógicas das instituições democráticas. Experiência
reforçada nos anos da secretaria do partido, entre 1987 e 1994, na qual
protelou o rol clássico do neofascismo apenas pelas contingências históricas
que, apesar das aberturas socialistas, ainda mantinham o MSI na margem do
sistema. Quando o poder ficou ao alcance do partido, Fini e toda a sua classe
dirigente não tiveram dificuldades em renunciar a uma identidade já supérflua.
O caminho do pós-fascismo foi assim não uma revisão crítica, madura e
consciente de um património histórico ideal, mas uma liquidação instrumental
rumo a uma identidade antifascista familiarizada ao longo da experiência demo-
parlamentar. O único paradoxo foi o de que a classe dirigente finiana,
liquidatária do neofascismo, foi a mesma que, desde os anos 70, à volta de
Giorgio Almirante, teimou em manter viva a identidade fascista do partido, em
contraposição à corrente não-fascista da Democrazia Nazionale e à pós-fascista
da Nuova Destra (Giuli, 2007, p. 21). Por estas razões, o congresso fundacional
da Alleanza Nazionale foi vivido por muitos dirigentes como uma definitiva
libertação do passado fascista do MSI, sentido já há algum tempo como um lastro
para o pleno desenvolvimento do potencial institucional da direita italiana. No
fundo, o nascimento da AN foi a celebração em forma mais vincada do projecto de
Giorgio Almirante da direita nacional, ou melhor, da cultura política que
vigorou no MSI pelo menos nos últimos 25 anos (Giaccio, 2011, p. 73). Uma
cultura mais almirantiana do que fascista, ou seja, uma gestão de vértice do
partido, uma prática política carismático-plebiscitária, um estilo nacional-
conservador que proporcionava já todos os instrumentos para desmantelar
facilmente, em 1995, uma cultura política com uma tradição de meio século
(Giuli, 2007, p. 27). A operação foi bastante fácil já que no MSI a base
militante se caracterizava por uma confiança cega nas palavras e nas decisões
do líder, que graças ao paternalismo nas relações com as diferentes correntes
internas, conseguia manter o partido numa posição de subserviência, de facto,
em relação às decisões do vértice. O exemplo mais evidente desta liberdade do
líder de impor a identidade do partido foi, no caso da Alleanza Nazionale, a
declaração proferida por Gianfranco Fini na sua visita de Novembro de 2003 a
Israel. No memorial de Yad Vashem, Fini definiu as leis raciais fascistas de
1938 como o mal absoluto. As agências noticiosas difundiram logo esta
declaração como referida ao fascismo no seu conjunto, sem que o líder da AN se
preocupasse em rectificar a interpretação dos media, numa atitude evidentemente
instrumental de sondar a reacção dos quadros e da base do partido. Averiguada a
exiguidade das críticas e a aceitação da maioria do partido, Fini confirmou com
o seu silêncio este ulterior afastamento em relação ao fascismo (Baldoni, 2009,
p. 317).
Apesar da liderança carismática e da atenuação da identidade ideológica, na
Alleanza Nazionale continuaram a permanecer, na alvorada do séculoxxi,
diferentes correntes enraizadas nas divisões do MSI e lideradas pelos chamados
coronéis. A esquerda do partido foi representada pela corrente Destra
Sociale. Dirigida pelo chefe da juventude missina dos anos 80, Gianni Alemanno,
a Destra Sociale pretendeu representar na AN a componente radical, laica e
social, herdeira do nacionalismo revolucionário dos anos 70/80, balizada nos
princípios de participação, comunitarismo, e na economia social de mercado.
A Destra Protagonista, liderada pelos antigos braços-direitos de Fini (e de
Almirante) no MSI (Maurizio Gasparri e Ignazio La Russa), representou na AN a
cultura política nacional-conservadora, mas foi também a mais permeável à
influência do berlusconismo (Baldoni, 2009, p. 306).
Finalmente, a Nuova Alleanza reuniu, à volta dos dirigentes Altero Matteoli e
Adolfo Urso, as sensibilidades mais liberais do partido pós-fascista.
Apesar das diferenças, todas as três componentes social, nacional-
conservadora e liberal reproduziram o baixo nível de laicismo da direita
italiana que já tinha caracterizado o MSI. O antigo partido neofascista, de
facto, tinha sempre apoiado as posições do Vaticano em matéria de valores e
costumes (referendos dos anos 70 em matéria de divórcio e aborto), tinha
reivindicado as raízes judaico-cristãs da Itália e da Europa (com excepção da
componente, minoritária, pagã e evoliana do partido) e celebrado a Itália da
concordata Estado-Igreja. A Alleanza Nazionale, com efeito, nunca se afastou
destas linhas de cultura política, e até a sua ala mais radical, a Destra
Sociale, evoluiu cada vez mais na direcção das posições da Conferência
Episcopal italiana, tornando-se um referente na AN do eleitorado católico em
temas relacionados com a bioética e os valores. Esta evolução da Destra Sociale
foi sintomática do deslizamento na direita da cultura política da Alleanza
Nazionale (Giuli, 2007, p. 101).
De facto, nos últimos anos, a Alleanza Nazionale aproximou-se do
conservadorismo católico, tornando-se, assim, um partido de direita apreciável
por um eleitorado moderado, assustado com o separatismo radical da Lega Nord e
incomodado com o tele-populismo de Berlusconi (Tarchi, 2010b, p. 9). Com esta
nova imagem, depurada de qualquer saudosismo fascista, a AN encetou um caminho,
ao longo da primeira década do séculoxxi, de progressiva identificação com o
pólo de centro-direita, tornando a sua identidade não alternativa, mas
complementar à do partido de Berlusconi. Isso permitiu uma fusão com o partido
Forza Italia, operação terminada em Março de 2009, com o congresso constituinte
do Popolo delle Libertà(PdL). A partir daí, abriu-se um novo capítulo na
história dos antigos neofascistas, já não ligado tanto à identidade desta
comunidade de exilados na pátria (Tarchi, 1995), quanto ao percurso pessoal
do seu líder Gianfranco Fini, cada vez mais próximo de se tornar novo líder de
um centro laico, moderado, modernizador, e cada vez menos afim à tradição da
direita nacional.
O novo rumo do antigo líder: Fini e a Direita Nova do séculoxxi
Paralelamente à evolução moderado-conservadora da Alleanza Nazionale,
desenvolveu-se um percurso inteiramente pessoal do seu líder Gianfranco Fini. A
sua trajectória político-cultural é provavelmente o evento mais curioso que a
direita italiana testemunhou nestes últimos anos. O jornalista político
Salvatore Merlo apelidou esta trajectória de direita afrancesada (Merlo,
2010, p. 24) para sublinhar a tentativa de Fini de criar uma alternativa a
Berlusconi e introduzir em Itália os modelos oriundos do conservadorismo
europeu: Nicolas Sarkozy, David Cameron, Angela Merkel, José Maria Aznar, o
sueco Fredrik Reinfeldt, o austríaco Guido Westerwelle. A ideia de fundo é não
renegar a moral católica, mas também reivindicar a laicidade e a distinção
entre moral privada e pública (Merlo, 2010, pp. 100-101),5 com o intuito de
moldar uma nova direita europeia, desideologizada, pós-berlusconiana, que saiba
encontrar consensos também no eleitorado de esquerda não através do maximalismo
socializante (típico da esquerda ex-MSI), mas através da laicidade das posições
em temas sensíveis para a direita. Esta derradeira tentativa de modernização da
direita teve uma aceleração por parte de Fini aquando da sua nomeação, em 2008,
à presidência da Câmara dos Deputados do Parlamento Italiano: uma posição de
alto valor institucional que lhe permitiu uma ampla margem de manobra. O
caminho de Fini teve, contudo, uma origem mais remota: começou em 1999 com a
malograda coligação eleitoral de cariz republicano à norte-americana, com o
centrista Mario Segni; acelerou com a participação de Fini na constituinte
europeia em 2002-2003, em representação de Itália; e culminou com a viagem em
Israel de 2003. Estas experiências políticas, juntamente com os anos de governo
entre 2001 e 2006, introduziram Fini nas oligarquias europeias, tanto políticas
como económico-financeiras, e despertaram nele tendências hiper-laicistas,
consideradas, por alguns, preexistentes ao seu antigo neofascismo de fachada
(Merlo, 2010, p. 176) e, por outros, simples frutos de oportunismo político
(Tarchi, 2010b, p. 10).
Em termos práticos, esta conversão traduziu-se numa ruptura ideológica face às
raízes, quer do MSI, quer da AN, em matérias de laicidade do Estado e direitos
civis das minorias (Merlo, 2010, p. 26). Contudo, Fini manteve um profundo
ocidentalismo que, apesar de recusar o paradigma do choque de civilizações, vê
no eixo atlântico o posicionamento natural (cultural e geoestratégico) de
Itália e de Europa (Giuli, 2007, p. 67).
As directrizes da nova cultura política finiana foram traçadas paradoxalmente
por alguns dos intelectuais (antigos adversários de Fini no MSI) da Nuova
Destra (ND), reunidos agora na Fundação Farefuturo (Umberto Croppi, Peppe
Nanni, Monica Centanni, Fabio Granata, Luciano Lanna), juntamente com a geração
mais nova de intelectuais oriundos, alguns deles, da Destra Sociale (Angelo
Mellone). Os analistas políticos debruçaram-se ultimamente sobre a natureza
deste percurso e desta aliança cultural entre antigos rivais. Se alguns (Merlo,
2010, p. 90) consideram o novo percurso finiano uma reprodução das tentativas
pós-fascistas da Nuova Destra, outros (Tarchi in primis) negam que se trate de
uma conversão de Fini às ideias da ND, mas de uma traição das ideias
originárias desta corrente de pensamento perpetrada pelos actuais conselheiros
de Fini (Tarchi, 2010a, p. 469). A ND, pois, sempre foi adversária dos EUA
(cultural e politicamente), do neo-capitalismo, dos nacionalismos chauvinistas
(aos quais preferia a identidade europeia), do conceito de Ocidente: posições
que dificilmente se encontram na conversão de Fini (Giuli, 2007, p. 89).
Em qualquer dos casos, tornou-se perfeitamente funcional a esta nova identidade
política a fusão de 28 de Março de 2009 entre a Alleanza Nazionale e a Forza
Italia, no novo sujeito político Popolo delle Libertà (PdL), já estabelecida
pelos dois respectivos líderes em 27 de Fevereiro de 2007. Para a Alleanza
Nazionale tratou-se quase de uma escolha forçada, visto que o partido já tinha
alcançado o seu máximo de capacidade eleitoral (v._quadro) e, nas palavras do
seu dirigente Fabio Granata, já estava totalmente berlusconizado (Giaccio,
2011, p. 79). O seu objectivo inicial de se tornar o partido hegemónico da
direita italiana tinha de uma certa forma fracassado: o abandono da identidade
do MSI não foi compensado por uma aquisição substancial de outras tradições das
direitas italianas. Para além disso, a conquista de votos vindos do eleitorado
não neofascista não correspondeu a uma renovação da classe dirigente: tanto no
centro como na periferia, os quadros permaneceram os do MSI. Estes factores
viriam a tornar-se, com o tempo, um entrave à carreira política pessoal de
Gianfranco Fini, cuja vontade de concorrer com Berlusconi à liderança de todas
as direitas italianas não estava em nada facilitada por um partido cuja
estrutura e cultura política demonstraram ser sempre escleróticas e difíceis de
reformar.6 A fusão permitiu assim ao líder da AN libertar-se das limitações
estruturais do partido e acelerar o caminho reformista em direcção a uma
cultura laica, multiétnica e dos direitos civis, imbuída daquele universalismo
à francesa que permitira a Fini tanto incursões na área do centro-esquerda
italiano em crise de identidade, quanto uma vincada demarcação de Berlusconi no
centro-direita. Já no congresso de fundação do PdL, Fini tomou uma posição de
alternativa interna. Várias são as áreas de intervenção em que a facção de
Gianfranco Fini marcou posições de inovação cultural face, tanto às outras
componentes vindas da Alleanza Nazionale, como à base de Silvio Berlusconi. No
tema da imigração, Fini declarou-se contrário à criminalização da imigração
clandestina, favorável ao voto administrativo dos imigrantes e à concessão da
cidadania após cinco anos de permanência em Itália. No campo da bioética, Fini
demonstrou-se favorável à procriação medicamente assistida, contrariando as
posições oficiais da AN e dos seus militantes. Em 2009 criticou a proposta de
Lei do PdL em matéria de testamento biológico, rotulando-a como típica de um
estado ético. Na área da justiça, Fini abandonou os tons justicialistas do
MSI/AN dos primeiros anos 90 e desmarcou-se dos ataques de Silvio Berlusconi à
magistratura italiana. No campo dos direitos dos homossexuais, Fini mostrou-se
favorável não apenas à legalização das uniões de facto, mas também ao
agravamento das penas para os crimes homofóbicos. Todavia ainda não chegou a
concordar com o alargamento da instituição do casamento aos casais
homossexuais, pois advoga ainda a ideia da família heterossexual e monogâmica,
como célula base da sociedade (Merlo, 2010, pp. 156-157).7
Em relação ao estilo de Berlusconi de gestão do poder, Gianfranco Fini vinha já
há alguns anos a construir uma alternativa, graças à posição institucional
privilegiada de presidente da Câmara dos Deputados. As frentes mais quentes
foram a crítica ao chefe do governo pelo abuso dos decretos de emergência (que
evita o processo legislativo regular), do voto de confiança solicitado ao
parlamento, e pelo desrespeito de Berlusconi pelo Parlamento. Nestas críticas,
Fini encontrou um aliado no presidente da República, o ex-comunista Giorgio
Napolitano: os dois convergiram na defesa dos valores da constituição e
tornaram o antigo líder da direita radical neofascista no defensor das
instituições democráticas e dos seus princípios.
Todas estas premissas levaram à deterioração das relações entre Berlusconi e
Fini no PdL, à saída deste último com os seus fiéis em Julho de 2010 e à
oficialização, em Fevereiro de 2011, do novo sujeito político Futuro e Libertà
per l'Italia (FLI). A operação foi lida pelos analistas como a estratégia de
Fini de reconquistar credibilidade na perspectiva do pós-berlusconismo. Para
alguns, este protagonismo institucional não assenta em nenhum projecto original
em termos de cultura política coerente e de nova identidade (Tarchi, 2010b, p.
10). Para outros, nem sequer tem grandes possibilidades de vingar do ponto de
vista eleitoral, sendo que a identidade laica e liberal de FLI não é
particularmente atractiva para o eleitorado de esquerda, já apetrechado com
alternativas do género, nem para o de centro, já munido de uma liderança
consolidada, nem para o de direita, já socializado na cultura e praxis política
do berlusconismo (Giaccio, 2011, pp. 85-87). Assim, a avaliação da capacidade
eleitoral do FLI, entre 5% e 8%, arrisca-se até a ser optimista à luz dos
resultados das eleições administrativas de 2011, em que o partido não
ultrapassou 4% dos votos.
Conclusões
No ano da fundação oficial da Alleanza Nazionale, o sociólogo italiano Franco
Ferraresi (1995) publicava o livro cuja tese de fundo inseria o MSI numa
galáxia de forças que representaram, dentro e fora das instituições, a pior
ameaça à democracia italiana no segundo pós-guerra. Sem nos querermos envolver
na crítica, assaz complexa, a esta tese, não deixa de ser curioso como um
partido considerado pelos seus adversários como o maior perigo às instituições
democráticas e, por muitos dos seus militantes, como uma força revolucionária e
anti-sistema, tenha representado diligentemente, durante 48 anos, nas mais
altas instituições da democracia italiana, cerca de dois milhões de eleitores,
alcançando até lugares de governo, e tenha entretanto conhecido uma ruptura no
seu sistema de oportunidades, abandonando num curto espaço de tempo uma
duradoura identidade radical.
A razão desta aparente contradição reside, como já sublinhado por alguns
analistas (Bertolino e Chiapponi, 1999, p. 212), na necessidade de o MSI
enfrentar a marginalização institucional, constituindo, à volta da identidade
fascista, uma verdadeira subcultura fechada ao exterior e com uma alta
temperatura ideológica no interior, para socializar e cimentar os seus
militantes. Isso tornou o MSI num partido imóvel, ao longo de meio século, numa
estratégia defensiva tanto em relação aos potenciais concorrentes externos,
quanto às possíveis rupturas internas (Tarchi, 1997, p. 401).
A relativa impermeabilidade face à realidade externa, todavia, não impediu o
MSI de percorrer ao longo do mesmo período um caminho de socialização na
democracia, pelo menos ao nível da classe dirigente. Foi este caminho que
permitiu ao partido aproveitar a oportunidade oferecida pela passagem da
primeira à segunda república, tornando-se um dos actores centrais da vida
política italiana, graças ao rápido despojamento de uma identidade radical já
não funcional à nova realidade política. A transformação do MSI em AN,
portanto, foi uma operação meramente instrumental. Não houve uma revisão
profunda das suas posições ideológicas, mas apenas um aproveitamento em tempo
certo da estrutura das oportunidades aberta pela crise política italiana. Não
foi nem o congresso fundacional de 1995, nem a chegada de personalidades vindas
de outras culturas políticas que modificaram a identidade do MSI. Pelo
contrário, atrás da fachada anti-sistema, já existia uma substância de
progressiva integração nas instituições, o que levou a considerar a Alleanza
Nazionaleum partido a caminho de se posicionar na área pró-sistema, com uma
dinâmica centrípeta de plena aceitação dos processos e valores democráticos
(Bertolino e Chiapponi, 1999, pp. 220 e 245).
A participação nos governos Berlusconi, e a fusão da AN com a Forza Itália não
fizeram mais do que reforçar esta constatação, tanto mais que a derradeira
estratégia de Gianfranco Fini para representar uma alternativa viável de
direita nova para o pós-Berlusconi está a aproximar os pós-fascistas das
direitas europeias, totalmente alheias aos autoritarismos do século xx e a
qualquer forma de radicalismo. Neste sentido, na alvorada do novo milénio, a
subcultura política ligada à experiência fascista e que cumpriu um papel
relevante na última metade do séculoxx italiano, reduziu-se definitivamente a
património de uma galáxia de siglas radicais assaz insignificantes na vida
político-institucional do país.