Entrevista a Jaime Reis: por José Luís Cardoso
Entrevista a Jaime Reis
por José Luís Cardoso
José Luís Cardoso é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais
da Universidade de Lisboa. É autor de diversos livros e artigos sobre história
do pensamento económico e financeiro, com especial destaque para temas e
autores portugueses analisados em perspectiva comparada.
Jaime Reis é investigador coordenador do Instituto de Ciências Sociais da
Universidade de Lisboa. Leccionou no Instituto Universitário Europeu, na
Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa e nas universidades de
Glasgow, Leicester e Vanderbilt (EUA). Foi presidente da European Historical
Economics Society e é actualmente co-director da European Economic History
Review. As suas obras mais recentes são The Portuguese judicial system in the
nineteenth century: rules, risks and judges in Debin Ma and Jan Luiten van
Zanden (eds.), Law and Long-Term Economic Change: A Eurasian Perspective
(Stanford University Press, 2011) e Uma Elite Financeira.Os Corpos Sociais do
Banco de Portugal 1846-1914 (Banco de Portugal, 2011).
José Luís Cardoso (JLC) Para a preparação desta entrevista folheei os
primeiros números daAnálise Social. Parece-me interessante notar que logo no
2.º número (n.º 2, vol. I, de 1963) foi publicado um texto de François Perroux,
traduzido por Adérito Sedas Nunes, intitulado A ideia do progresso perante a
ciência económica do nosso tempo. Para além de considerações várias sobre as
noções de crescimento e desenvolvimento económico e sobre a ideia de progresso
como propagação de inovação ou novidades, Perroux reclama expressamente a
relevância da história económica e do estudo de séries estatísticas longas para
se compreender este tema do progresso. Como avalia a atenção inicial prestada
pelaAnálise Sociala estas matérias?
Jaime Reis (JR) A história económica esteve presente na Análise Social desde
a primeira hora. Essa presença tomou duas formas. Uma é o caso de artigos
especificamente de história económica, mas que não abundaram nos primeiros
anos, provavelmente por haver então poucos autores orientados para esta área de
trabalho e inclinados a publicar na Análise Social. De uma forma mais saliente,
devem ser assinaladas as intervenções que focavam uma variedade de aspectos da
sociedade portuguesa e em que havia uma componente histórica significativa. Ou
seja, nesta altura da vida, tanto da Análise Social, como do Gabinete de
Investigações Sociais, os cientistas sociais portugueses mostraram ter sentido,
de uma forma bastante clara, a importância da perspectiva de longo prazo, de um
recuo histórico para compreender os problemas contemporâneos sobre os quais se
debruçavam. Portanto, a história económica portuguesa aparece em trabalhos de
muitos autores da Análise Social, sobre economia, sociologia, ou demografia,
mas não com a autonomia para esta disciplina que mais tarde se viria a tornar
norma.
JLC Esta preocupação com temas de economia e sociologia do desenvolvimento
está bem patente nos primeiros artigos de Alfredo de Sousa, Mário Murteira e
Sedas Nunes (entre outros). Portanto, se interpreto bem as suas palavras, a
história económica estava latente mas não constituía um campo disciplinar
específico. Está de acordo?
JR Creio que se pode dizer isso. Uma estatística pode ajudar a enquadrar esta
ideia. Nos primeiros 20 anos de existência da Análise Social publicaram-se
apenas 30 artigos que se poderiam dizer propriamente de história económica, e
isto numa acepção bastante lata do termo. Não sei qual é o número total de
artigos que foram publicados pela revista durante esse período, mas é evidente
que a história económica não seria uma das principais áreas de interesse. Não
direi que esta preocupação estivesse arredada da mente do seu director, o
Professor Adérito Sedas Nunes. Antes, penso que era mais um problema de
debilidade da oferta por parte da classe dos historiadores económicos
portugueses, do que uma falta de interesse por parte da revista em albergar
esse tipo de produção.
JLC Essa preocupação com os temas do desenvolvimento é bem documentada pela
publicação naAnálise Socialde artigos de economistas da CEPAL1(Raul Prebisch e
Celso Furtado, entre outros), graças ao esforço directo de Sedas Nunes. No
fundo, a história económica é uma espécie de instrumento ao serviço das teorias
e do desenvolvimento económico presente nessa geração de autores. Tendo em
atenção estas circunstâncias, qual é efectivamente o estatuto disciplinar da
história económica em Portugal na primeira metade da década de 60? Tomando de
empréstimo uma expressão sua: estaria Portugal em atraso, quando comparado
com os principais centros internacionais de produção académica neste domínio?
JR Não só na primeira metade da década de 60, mas também durante a década de
70, pode-se dizer que a história económica portuguesa esteve em permanente
atraso em relação aos principais centros internacionais de investigação neste
domínio.
Algumas circunstâncias explicativas de carácter institucional são conhecidas.
Havia limitações que impediam a entrada em certos domínios que eram de grande
interesse para quem pensava nestas coisas, mas que não estavam acessíveis, ou
então só de uma maneira muito restrita. Estou a pensar em investigadores que
estavam fora do quadro das universidades, e portanto produziam cientificamente
com enormes dificuldades. Mas, e não só por essa razão, eram pouquíssimos os
investigadores no domínio da história económica. É interessante notar que
durante este tempo os autores que aparecem na Análise Social, no campo da
história económica e social, são quase todos investigadores jovens. Eram
pessoas como a Miriam Halpern Pereira, que estava no início da sua carreira de
investigação, e que produziu uma obra importante de todos conhecida. Eram
pessoas como o Vasco Pulido Valente, a Maria Filomena Mónica, e o Eduardo
Freitas, todos tambem a começar as suas carreiras de investigação, da qual
alguns mais tarde se afastariam, enquanto outros, felizmente, prosseguiriam.
Fora da Análise Social, a renovação historiográfica estava a cargo também de
historiadores notáveis de gerações anteriores, como Magalhães Godinho, Borges
de Macedo e Joel Serrão. O que se tem de sublinhar, porém, é que na Análise
Social este trabalho era principalmente de jovens. Era por isso o prelúdio do
que iria acontecer mais tarde, e o começo de uma numerosa invasão deste campo
por ideias, preocupações e objectivos novos.
JLC Essa invasão de campo por jovens investigadores, nalguns casos representa
também uma evolução ou uma mudança na forma de entender a história económica e
na forma de exercitar esta disciplina. Sem pretender um balanço historiográfico
muito minucioso, não resisto a pedir-lhe que indique quais são as principais
inovações trazidas pelaNew Economic History quando comparada, por exemplo, com
o legado da escola francesa dosAnnales.
JR Essa é uma questão assaz complicada, havendo aqui várias influências
importantes a considerar. Quando olho, por exemplo, para a lista de publicações
que apareceram na Análise Social e depois se vieram a transformar, alguns, em
livros de larga difusão, ainda hoje citados como clássicos, vejo o debate em
torno da historiografia marxista como uma das influências mais fortes e uma
novidade importante em Portugal, vistas as dificuldades até então em
desenvolver ou publicar esse tipo de pensamento entre nós. A questão, em
particular, da implantação do capitalismo em Portugal, em que participaram
Manuel Villaverde Cabral e muitos outros, é um exemplo flagrante de uma origem
intelectual que não podia vir do mundo anglo-saxónico, mas só de França. Esta
foi a grande fonte de inspiração porque a maior parte dos participantes neste
debate tinha estudado, investigado, e obtido graus avançados em universidades
francesas. A influência da escola dos Annales vinha, no entanto, de muito mais
longe, e esteve ligada à passagem do Professor Magalhães Godinho pela França,
onde permaneceu durante alguns anos, e ao seu regresso depois, com o intuito de
dinamizar a investigação histórico-económica portuguesa e motivar um grupo de
investigadores jovens e renovadores à sua volta.
A orientação para a nova história económica anglo-saxónica, dita cliométrica,
de raiz quantitativista e ligada à economia neoclássica, veio muito mais tarde
e teve maior dificuldade em se implantar. Nisto, Portugal distinguiu-se,
sobretudo porque depois de se terem dissipado as dúvidas iniciais suscitadas
por esta corrente intelectual, isto não parece ter convencido os historiadores
nacionais. Por detrás desta resistência estiveram dois factos. Um era que a
maioria dos jovens investigadores portugueses, que são geralmente quem absorve
as inovações, tinha passado pela França durante a sua época formativa, e não
pelos países onde a cliometria se desenvolveu e se afirmou. Outro factor terá
sido a menor presença, em Portugal, de historiadores económicos de formação em
economia e que teriam portanto um menor custo para aceder a este paradigma.
Para os oriundos das faculdades de letras e dos cursos de história este custo
era maior e logo potencialmente dissuasor.
JLC Pensando nesses desenvolvimentos cliométricos, será lícito dizer que a
história económica passou a desempenhar um estatuto meramente auxiliar, de
exemplificação de exercícios econométricos, um campo auxiliar da teoria
económica e da econometria? Quais lhe parece serem os méritos e as limitações
da cliometria e desta nova história económica que por vezes torna difícil a
captação e a percepção da história?
JR Estou consciente dos méritos e dos deméritos desta nova história económica,
assim como dos das outras escolas historiográficas .
No caso de Portugal, diria que a cliometria não se tem manifestado com as
formas extremas que por vezes assumiu noutros países onde se desenvolveu mais
intensamente. Aqui, em contrapartida, e infelizmente, no meu entender, os
economistas pouco se têm preocupado com a história económica, ao contrário dos
que nos idos da década de 60 tanto sentiram a necessidade de recuar para melhor
compreenderem a actualidade. Os economistas portugueses não estão completamente
arredados da vertente histórica desta disciplina, mas também não têm sentido
uma grande atracção por ela. Não obstante, é de realçar alguma colaboração
entre estes dois grupos e os resultados positivos que daí provieram.
Para mim, a cliometria oferece duas vantagens importantes, que seria bom que a
historiografia económica portuguesa absorvesse melhor. Por um lado, é uma
actividade que para ser conduzida correctamente exige enormes quantidades de
informação quantitativa. Por conseguinte, a cliometria torna-se um estímulo
permanente à recolha de dados com a mais alta qualidade possível. Por isso,
quando se observa o que fazem os cliometras, uma grande parte do seu tempo é
dedicada a fazer o mesmo que fazem os historiadores tradicionais, ou seja
recolher dados em arquivos. A principal diferença entre uns e outros é que os
primeiros se orientam para estas tarefas auxiliares de uma forma mais
direccionada do que os segundos. A razão é que na cliometria começa-se por
especificar rigorosamente qual a questão que se vai estudar e só depois se
recolhe a evidência de acordo com estes requisitos. Na abordagem tradicional
recolhem-se muitos dados, nem sempre com um objectivo claro, ou então com o
objectivo de esta recolha vir a sugerir as pistas que se há-de seguir só
depois, na fase analítica do exercício.
A segunda grande vantagem da cliometria é haver nela sempre esta enorme
preocupação em especificar com clareza o problema de que se está a tratar. Isto
obriga a uma disciplina mental importante, e será a razão pela qual o esforço
de angariação de dados é tão focado. Na minha perspectiva, esta característica
está menos presente numa história económica mais tradicional, mais narrativa,
talvez atravessada por outras influências das ciências sociais que não a
economia, uma história que engloba aspectos institucionais, políticos, sociais,
culturais, nem sempre fáceis de serem conjugados. Evidentemente, quanto mais
complexa é a abordagem histórica, mais interessante se torna essa abordagem,
mas também mais se dispersa o esforço de análise e menos claro poderá ser o
resultado. Há portanto vantagens e inconvenientes de pertencer a qualquer
destes dois campos.
As limitações são todas aquelas que sugeri há pouco quando se cometem
excessos. Se o único objectivo é obter dados e construir séries temporais de
longo prazo para depois estimar funções ou modelos de qualquer espécie, haverá
aí forçosamente uma simplificação da realidade económica muito grande, que
poderá desapontar e poderão restar-nos apenas conclusões de escasso interesse e
profundidade, pelo menos numa perspectiva histórica.
JLC Fiquei à vontade para lhe fazer a pergunta nestes termos por uma simples
razão: para quem lê os seus artigos, o conjunto da sua obra, é evidente uma
preocupação de abordagem quantitativa que não prescinde da utilização de
categorias analíticas da ciência económica, mas também é evidente que não cede
à tentação de se limitar à elaboração de modelos económicos, mais ou menos
sofisticados, e de lidar apenas com factos estilizados. No fundo, a minha
apreciação é de que ao ler os seus artigos aprende-se mais do que ao ler
artigos que não resistem ao teste empírico dos factos históricos, nem sempre
bem tratados nos modelos. Concorda com esta apreciação?
JR Uma coisa positiva nos estudos de veia cliométrica é que apresentam sob
uma forma geralmente mais rigorosa, porque quantitativa, aquilo que todos os
historiadores económicos fazem, mas nem sempre se apercebem de que o estão a
fazer. As ideias, porém, muitas vezes são as mesmas. Com efeito, a grande
maioria dos trabalhos de história económica, seja qual for a sua índole, tem
subjacente hipóteses acerca da situação que analisam, seja ela o comportamento
dos agentes económicos, as consequências das políticas económicas em aplicação,
um choque demográfico, ou o impacto de uma mudança institucional. Acresce que
muitos dos juízos que os historiadores tradicionais propõem são na realidade
implicitamente quantitativos implicam um mais do que ou um menos do que.
Falta-lhes apenas fazer as contas. Não é aqui, diria, que está a divergência
entre a velha e a nova história económica.
A principal diferença é que em cliometria tudo isto é tornado explícito e todas
estas relações são formalizadas com rigor e de acordo com as regras do
raciocínio económico, o que torna a compreensão dos fenómenos mais fácil. A
verificação empírica das hipóteses utilizando métodos estatísticos apropriados
é o passo seguinte e outro dos pilares desta abordagem. Sem essa validação,
nenhuma pesquisa será reconhecida pela comunidade cliométrica, com toda a
razão, aliás. Na abordagem tradicional não é tipicamente assim. As conclusões
não são sempre submetidas a critérios científicos (neste sentido) de avaliação,
que, em lugar disso, é frequentemente feita numa base impressionista. Sucede
que depois os cliometras rejeitam essas conclusões e gera-se então por vezes
algum mal entendido entre as partes, que de facto estão muito mais próximas do
que julgam.
A cliometria não pretende que tudo seja quantificável. Muitos aspectos
relevantes da realidade económica não são mensuráveis, como por exemplo os que
dizem respeito aos condicionantes culturais ou políticos dos comportamentos
económicos. A solução, nestes casos, é circunscrever o que se pode medir, e
analisar essa parte de acordo com a metodologia correcta para o efeito. O resto
do problema deverá ser tratado, evidentemente, com processos não-cliométricos.
Alternativamente, poder-se-á procurar variáveis mais ou menos plausíveis de
aproximação (proxies) e convencer o leitor interessado de que essa solução é
de facto consistente e convincente. O essencial em tudo isto é compreender que,
apesar das aparências, há neste campo, muito menos dogmatismo do que se julga e
nada se faz ou se sustenta sem uma explicação minuciosa acerca dos métodos que
se empregaram para chegar às conclusões.
JLC Nesta sua última resposta acabou por se referir a temas que têm
constituído a sua agenda nos últimos anos. Quando olhamos, por exemplo, para os
artigos que publicou naAnálise Socialno início da década de 1980, e que mais
tarde reuniu no seu livro sobreO Atraso Económico Português, 1850-1930, revela-
se um propósito de investigação sobre os problemas do crescimento da economia
portuguesa na segunda metade do século xix, nas primeiras décadas do século xx.
Em retrospectiva, olhando para esses textos dos anos 80, como é que avalia
globalmente os resultados desse empreendimento ou dessa agenda de investigação?
JR A minha impressão é que de facto segui uma agenda, mas de contornos
bastante vagos e de propósitos às vezes obscuros. Os estudos que fui realizando
sucederam-se em boa medida porque cada um suscitava questões que fazia sentido
procurar deslindar, ou lacunas que urgia preencher. Presente sempre esteve a
minha preocupação com os processos económicos no longo prazo e dentro disto o
desejo de perceber por que motivo Portugal se desenvolveu tão lentamente ao
longo dos séculos. Primeiro que tudo, porém, está o início e esse situou-se no
Brasil, e não em Portugal. Em 1968 comecei a preparar a minha tese de
doutoramento, que versava um capítulo da história económica daquele país, em
particular as questões ligadas ao século xix, à escravatura, ao trabalho
escravo e às estruturas agrárias que lhes estavam associadas.
Quando cheguei a Portugal e comecei a interessar-me pela história económica
portuguesa, olhei naturalmente para o período que parecia ter sido menos
estudado, e que era o mesmo que me tinha atraído no Brasil. É uma reacção
normal num investigador, a de procurar encontrar novos campos para desbravar, e
felizmente no nosso país estes não escasseavam. Naquela época, das décadas de
70 e 80, o século xix parecia o mais apetecível, era onde estava a haver mais
investigação e onde as fontes pareciam razoavelmente acessíveis. Naqueles anos
havia dois grandes temas. O primeiro era o atraso económico de Portugal, que
remontaria talvez aos primórdios do liberalismo, mas não era claro quais eram
as suas origens. Este pareceu-me interessante porque, além do mais, seria
susceptível de um tratamento analítico rigoroso e quantificável. O segundo
tinha a ver com a história social do país e a sua imbricação no passado
político e económico. Era uma história económica muito menos quantitativa e
rigorosa, no sentido numérico, que assentava no estudo das classes sociais e do
seu papel nas grandes transformações da sociedade portuguesa. Naquela época, a
seguir ao 25 de Abril [de 1974], era o que mais interesse despertava.
Curiosamente, discutia-se então muito a classe operária, mas investigava-se
pouco o sector industrial da economia e a história empresarial, que só vieram
mais tarde. Isto sempre me pareceu algo bizarro.
A questão do desenvolvimento de Portugal, ou do seu não desenvolvimento, vinha
muito de trás, tinha uma linhagem intelectual antiga e magnífica, e o atractivo
adicional de nenhum grande autor jamais ter convencido os outros de que tinha a
chave do problema. A nova geração sentia-se atraída fortemente pelo tema, e é
interessante notar que o primeiro artigo de história económica propriamente
dita que aparece na Análise Social, em 1969, assinado por Miriam Halpern
Pereira, estava relacionado com ele. Havia portanto muitas pessoas envolvidas e
eu não fiz mais do que me inserir num campo activo e que já existia havia
muito. Comecei pelo mais óbvio, ou seja, a agricultura, que era o sector
principal da economia portuguesa durante o século xix e uma questão à época com
larguíssimas implicações políticas. Outros davam importância, nessa altura, ao
alegado fracasso da industrialização, e isso compreende-se também porque, tendo
sido um dos tabus da época anterior, provocava um certo apetite intelectual. Ao
estudar a agricultura não pude evitar a análise de alguns conceitos que andavam
muito em voga naquela altura relativamente a classes sociais, e em particular
àquelas que podiam ter influenciado políticas económicas e decisões
empresariais de algum impacto na vida da colectividade. Por isso, os meus
primeiros trabalhos sobre a agricultura portuguesa no século xix foram, em
parte, sobre como é que se formavam certas políticas económicas e como é que a
inovação era encarada pelos agentes económicos no seio deste sector.
A partir daí entrei numa senda de problemática reactiva, sendo o meu caminho
determinado sucessivamente pelo aparecimento de novas questões inter-ligadas.
Percebi, por exemplo, que a formação do capital humano devia ser importante
para explicar o atraso económico português, porque o resto não parecia levar
suficientemente longe. Aqui estava uma outra questão com importantes
implicações políticas, porque havia um debate sobre se o Estado Novo tinha
imposto à massa da população um programa educativo para travar o seu
desenvolvimento intelectual e cultural. Achei que se isso era verdade, não o
seria talvez menos relativamente a outras épocas, valendo portanto a pena
aprofundar o assunto. Em consequência, encontro-me ainda hoje a estudar o
problema da história do capital humano cada vez com maior relevância para a
vida nacional. Em breve, publicarei um estudo intitulado A Tale of Two Regimes,
em que analiso, comparativamente, o progresso educativo durante a República e o
Estado Novo.
Uma interrogação que não podia deixar de se colocar era em que consistia esse
atraso, como é que se podia medi-lo e em relação a quê? Não podíamos continuar
a falar no atraso económico português sem quantificá-lo e alguns dos meus
trabalhos, por conseguinte, levaram-me a tentar estimar o produto industrial
português no século xix e, mais tarde, o produto nacional bruto durante o
período 1910-1958. Para muitos, isto era impossível de fazer, vindo depois a
verificar-se que não era tão difícil como isso tudo. Não foi possível escapar
aos erros, mas deu-se um passo em frente e outros, muito bem-vindos, ficam
agora com a tarefa de rever estes resultados e mostrar novos caminhos.
Depois disso fui enveredando por outros campos, como por exemplo, o da formação
de capital, que é muito importante no desenvolvimento de uma economia menos
desenvolvida. Este pensamento despertou o meu interesse pela economia
financeira e monetária e a isso dediquei alguns trabalhos. Curiosamente,
Portugal é um país onde os historiadores económicos pouco se têm debruçado
sobre estes dois temas, o que é completamente diferente em Espanha, onde esse
campo é extramente pujante e envolve muitos investigadores. Ainda não encontrei
uma explicação para este contraste.
Outra questão de que se falava há muito tempo era a da importância das
instituições para o crescimento económico no longo prazo. O grande
impulsionador do institucionalismo económico tem sido já há décadas Douglas
North, que foi prémio Nobel da economia há uns anos. Entre nós havia uma vaga
noção de que as nossas instituições eram menos favoráveis a uma economia de
mercado do que as vigentes em países mais avançados, mas nada disto era
formulado com precisão analítica, e muito menos com sustentação empírica. Nos
anos 70 discutia-se muito a importância das instituições para o desenvolvimento
económico português, a par do papel das atitudes, das mentalidades, da cultura.
O problema estava em fazer isto numa óptica de cliometria, talvez uma das
coisas mais difíceis de conseguir. Dediquei algum tempo a isto, designadamente
tentando modelar uma maneira de avaliar o grau de ineficiência das instituições
estatais portuguesas oitocentistas. Hoje em dia, pensamos que as nossas
instituições não são excelentes, mas não temos nenhuma ideia de como é que isso
terá sido há cem ou há cento e cinquenta anos em termos comparativos. Penso
que, sem ser fácil, algo se pode fazer e tenho em vias de publicação dois
artigos em que proponho uma solução para o caso do sistema judicial.
Gostava de dizer, por fim, que agora que chego à parte final da minha carreira,
encontro-me a regressar ao princípio dos anos 80, e volto a interessar-me pela
história económica de Portugal, mas agora no muito longo prazo. Procuro
compreender, primeiro, qual foi em diferentes momentos, o grau do nosso atraso
e depois o que não funcionou ao longo dos séculos aqui, mas foi eficaz noutros
países. O meu projecto actual de pesquisa, em colaboração com vários distintos
investigadores, tenta analisar o curso da economia portuguesa entre 1500 e
1900, procurando situar e explicar quando começou o nosso declínio económico.
JLC Na sua resposta, que ajuda a fazer um balanço do seu trabalho neste
domínio, referiu que houve uma inserção no campo de investigação da história
económica, mas é indiscutível que houve também um esforço de mudança desse
campo de investigação. Sente-se recompensado por esse esforço? Fazendo a
pergunta de outro modo: existe hoje em Portugal uma nova história económica
devidamente consolidada?
JR Em história económica, como em tudo o mais em Portugal, ocorreram mudanças
extraordinárias desde o 25 de Abril. Basta pensar que o terreno potencial para
a investigação se escancarou. Passámos a poder estudar os séculos xix e xx. Os
tabus, como eu referi há pouco, sobre o que se podia e não se podia fazer, pelo
menos num quadro institucional normal, desapareceram e pode-se investigar tudo
o que se quiser. Em resultado disto tudo, houve uma explosão no volume e na
qualidade da investigação. Nos anos 60 haveria talvez uma dúzia de pessoas a
investigar história económica. Hoje, podemos multiplicar esse número por 10 ou
20 e isso é extremamente importante e gratificante porque permite conhecer e
estudar muito mais, assim como inter-agir com uma variedade de investigadores,
o que é sempre uma fonte de aprendizagem. Entretanto, aumentou exponencialmente
a informação quantificável disponível, que os nossos antepassados na história
económica nunca tiveram, nem sonhavam um dia poder vir a ter, dada a enorme
escassez de recursos com que lutavam. Naqueles tempos não havia Fundação para a
Ciência e a Tecnologia (FCT), não havia projectos financiados, ou havia-os, mas
escassissimamente financiados. Hoje em dia é relativamente fácil montar um
projecto, organizar investigadores, organizar bolseiros de investigação e
movimentar massas enormes de dados de todos os tipos. Isto é indispensável para
que a história económica portuguesa progrida. Mesmo a que não é cliométrica
precisa destes dados. Toda esta mudança é extremamente positiva e estou
satisfeito por ter assistido, e também participado, modestamente, neste
processo.
Resta, no entanto, muito para fazer. O nosso atraso não é só económico, mas
também histórico-económico. Alguns factos podem ajudar a consolidar esta ideia.
Para quem acha, como eu, que a cliometria é uma parte central do método desta
disciplina é preciso recordar que ela só apareceu em Portugal na década de 80,
enquanto nos Estados Unidos surgiu por volta de 1960. Temos portanto um quarto
de século de atraso sob este ponto de vista. Em Inglaterra, um dos grandes
centros mundiais da história económica, a Cambridge University Press publicou,
em 1981, uma grande história económica da Grã-Bretanha, onde o estado da arte
desta história económica foi recolhida pelos melhores e maiores especialistas.
Desde então já saíram mais duas edições desta história, em 1994 e em 2003. Da
1.ª para a 3.ª edição houve uma transformação gigantesca no conteúdo da obra.
Os autores são agora quase todos diferentes, os coordenadores da obra já não
são os mesmos, só a editora é que é a mesma. Isto é o espelho de um domínio em
franca e rápida transformação. Em Portugal um livro semelhante é a História
Económica de Portugal, organizado por Álvaro Ferreira da Silva e Pedro Lains. É
um marco importantíssimo na história económica portuguesa, mas só saiu em 2005,
mais uma vez com um quarto de século de decalagem, e não sei quando será a
segunda edição e, muito menos ainda, a terceira. Faltam-me dados concretos
sobre isto, mas penso que os historiadores económicos portugueses também
publicam muito pouco em revistas internacionais de referência e estão ausentes,
portanto, do palco principal onde deviam estar em interacção com a história
económica mundial e com os historiadores económicos de outros países. Isto é um
problema porque influencia a qualidade do trabalho que se faz em Portugal, e é
algo que não deveria acontecer. Perante isto não posso deixar de pensar como
será a história económica portuguesa daqui a 30 anos.
JLC Deu o exemplo de Inglaterra mas poder-se-ia também dar o exemplo da
Espanha, cuja vitalidade neste domínio é bem conhecida e bem demonstrada em
muitos dos aspectos que referiu, ao qual eu acrescentaria um outro que é a
existência em Espanha, por contraste com aquilo que não existe em Portugal, de
programas de mestrado e de doutoramento, programas de formação avançada em
história económica que sabemos que existem tanto em Madrid como em Barcelona,
com imenso sucesso e com a atracção de um público interessado nestes temas, não
apenas recrutado em Espanha, mas noutros países europeus e da América Latina.
Preocupa-o o facto de não ter havido, até agora, condições para a criação de um
programa genuíno de pós-graduação, quer ao nível de mestrado quer ao nível de
doutoramento, em história económica em Portugal?
JR Preocupa-me sobretudo a possibilidade de não haver procura para um
programa de qualidade de pós-graduação em história económica. Se houvesse,
poderíamos, teoricamente pelo menos, ir a Barcelona e Madrid buscar todas essas
estrelas e os seus programas e módulos e trazê-los para cá. Temo, porém, que o
cerne da questão não esteja do lado da oferta. Não há dúvida de que a Espanha
está muito à nossa frente, ainda que a cliometria não seja dominante na
história económica espanhola. Há um grande número de historiadores económicos
espanhóis que fazem um óptimo trabalho, embora numa óptica tradicional, e isso
vê-se até pelas revistas de história económica, algumas das quais são mais
cliométricas, enquanto outras não. Mais significativo é o facto de haver em
Espanha 4 ou 5 boas revistas de história económica e de em Portugal não termos
de momento uma única revista especializada em história económica. Os
historiadores económicos publicam em revistas generalistas ou então tentam,
provavelmente, publicar em Espanha, ou noutros países, e isto é
desincentivador. Em Espanha, um cliometra encontra lugar numa revista mais
virada para a cliometria, mas se não for essa a sua inclinação, pode encontrar
uma revista boa, que esteja interessada em trabalhos não cliométricos.
Portanto, há muitas e diversificadas saídas e isso constitui um estímulo que
falta aos historiadores económicos portugueses.
Aí podemos perguntar por que é que a Espanha exibe essa vantagem. Em parte é
simplesmente uma decorrência de muitas outras vantagens que a Espanha tem sobre
nós. O seu meio universitário está mais desenvolvido, há mais estudantes e
investigadores, há toda uma série de aspectos positivos ligados à maior escala.
Mas há também algumas particularidades às quais devemos prestar atenção. Uma
delas é que em Espanha uma proporção maior dos historiadores económicos provem,
pela sua formação, do campo da economia, de onde depois derivaram para a
história económica. No caso de Portugal, os historiadores económicos,
maioritariamente, talvez esmagadoramente, vêm das faculdades de letras. Isto
não é nada de insólito, nem reprovável evidentemente, em termos europeus,
porque acontece em muitos outros países, designadamente na Alemanha e na
França. É simplesmente uma constatação que é preciso fazer para se
compreenderem as diferenças. Temos também relativamente poucos doutoramentos em
história económica, quando comparados com a Espanha. Naturalmente isto tem um
impacto significativo sobre o resto.
JLC A propósito dessa circulação ou presença dos historiadores económicos nas
faculdades e departamentos de economia gostaria de lhe pedir que nos falasse um
pouco da sua experiência de circulação entre o GIS/ICS e a Faculdade de
Economia da Nova, onde creio que reencontrou Alfredo de Sousa, que esteve na
origem daAnálise Sociale na origem da consolidação dos GIS. E gostaria de
perguntar em que medida é que essa circulação, e essa passagem entre o GIS e a
Faculdade de Economia da Nova foram importantes na sua carreira e na própria
definição do objecto e do seu trabalho no domínio da história económica.
JR Sou fortemente partidário da circulação académica, e toda a minha vida
circulei institucional e geograficamente. Nunca senti que me tivesse feito mal,
antes pelo contrário. Ganhei imenso com a pertença a este eixo entre o GIS/ICS
e a Faculdade de Economia da Nova. Foi bom ter feito parte de uma faculdade de
economia onde se acalentava a história económica, onde os historiadores
económicos eram bem-vindos e os economistas estavam interessados no seu
trabalho. Por outro lado, um ambiente multidisciplinar como o do ICS, onde se
pode falar de história económica com pessoas que nada têm a ver com economia,
mas muito a ver com outras investigações, só pode também ser um estímulo
precioso.
A Faculdade de Economia, quando começou a funcionar em 1978 e até que a deixei
em 1993, era populada quase inteiramente por jovens doutorados no estrangeiro.
O Professor Alfredo de Sousa não era um jovem em anos, mas era um jovem em
espírito e era doutorado também no estrangeiro. Isto gerou um ambiente invulgar
para o Portugal da época, tanto para a investigação como para o ensino, como
ainda para a organização de uma instituição universitária que viria a tornar-se
numa das principais do mundo universitário português dos dias de hoje. Foi, e
continua a ser, um caso exemplar para o nosso país. Não posso esquecer que
quando a Faculdade de Economia criou o primeiro mestrado em economia em
Portugal, à volta de 1980, foi decidido pelos professores que o organizaram que
a cadeira de história económica fosse obrigatória para todos. Assim, por lá
passaram muitos economistas que hoje em dia ocupam lugares de destaque no
quadro nacional e que se viram obrigados a adquirir uma perspectiva de longo
prazo sobre o campo em que hoje actuam.
JLC Ainda neste domínio da sua experiência académica, creio que terá tido um
papel importante a sua passagem pelo Instituto Universitário Europeu de
Florença. Qual foi o impacto ou a relevância dessa experiência no seu percurso
intelectual?
JR Estar no Instituto Universitário Europeu de Florença foi uma experiência
excepcional. A minha inserção fez-se no departamento de história (e
civilização) e não no departamento de economia, o que significou que a maioria
dos professores e dos alunos, estes todos de doutoramento, não tivesse sido
composta por historiadores económicos. Isto obrigou-me a orientar teses de
doutoramento em campos que estavam afastados da história económica, mas teve
compensações. Entre outras vantagens, ensinou-me bastante sobre outros domínios
da história, designadamente o cultural e o social, que eram vertentes fortes do
departamento. Muito me teria passado ao lado se não tivesse sido esta
experiência.
Um outro aspecto apreciável foi a elevada qualidade de estudantes que encontrei
em Florença. A sua entrada para o Instituto era altamente selectiva, o que
fazia com que quase todos fossem de elevado calibre. Dois dos meus antigos
alunos de lá, hoje em dia têm carreiras distintas nos países onde se fixaram,
um em Inglaterra e outro em Espanha, e são colegas que prezo e admiro. Se não
tivesse estado em Florença, nunca teria tido a possibilidade de privar tão de
perto e de receber o estímulo de jovens investigadores desta categoria. Uma
terceira benesse que recebi em Florença foi a possibilidade de viver durante
vários anos num meio extremamente multicultural, onde se falavam todas as
línguas da Europa. Em qualquer dia da semana, acontecia-me de manhã ter uma
sessão tutorial com um estudante em francês, de tarde em inglês e ao fim da
tarde em italiano. Além do interesse que isto representa do ponto de vista
pessoal, serviu-me para aprender que a ciência tem pátrias, embora também seja
universal. Um grego faz história de uma maneira diferente de um holandês ou de
um finlandês e disso eu nunca me teria apercebido sem frequentar o IUE.
JLC O pretexto directo desta nossa conversa é a publicação do número 200
daAnálise Social. Quase a terminar a entrevista, a questão que gostaria de lhe
colocar é a de saber se, em sua opinão, vale a pena assinalar esta efeméride.
Por outras palavras: qual é que é o balanço que faz da história daAnálise
Social?
JR É muito difícil fazer o balanço da Análise Social e dos seus 200 números.
Creio que esta maneira de assinalar o n.º 200 daAnálise Social é uma forma
inteligente, que será certamente apreciada porque é uma modo de se ter uma
ideia do que foi esta revista sem ter de se ler os 199 números que já saíram, o
que é obviamente impossível para a maior parte das pessoas. Mas é também uma
possibilidade de se ganhar consciência do que foi a longa caminhada das
ciências sociais portuguesas ao longo de quase meio século. A Análise Social é
um observatório incomparável para este exercício, de onde se pode enxergar não
só o painel impressionante de personalidades de destaque que a ela estiveram
ligadas em todos os sub-domínios das nossas ciências sociais, como também
muitas das obras mais importantes e influentes para a compreensão de Portugal
que nela se publicaram durante estes 48 anos. Não sou muito amigo da palavra
comemorar, porque traz para mim implícita a noção de que estamos bastante
satisfeitos com o que fizemos. Estar satisfeito é, na minha óptica, sempre um
perigo para o futuro, mas no caso presente, o objecto da nossa comemoração é de
tal grandeza, que me vejo na disposição de transigir e é assim que participo,
gostosamente, neste bicentésimo número.
JLC Não há dúvida que desde o primeiro número de 1963 até ao presente houve
muitas mudanças que ocorreram no mundo editorial em geral, e no mundo das
publicações académicas em ciências sociais e humanidades. Todavia, aAnálise
Socialcontinua a ser uma revista generalista de história e ciências sociais
publicada quase exclusivamente, ou maioritariamente, em português. E a última
questão que gostaria de lhe colocar é a de saber qual lhe parece ser o futuro
ou o destino, de uma revista como aAnálise Social. Ou, se quiser, que
recomendações gostaria de deixar ao seu director e demais responsáveis
editoriais para que se possa falar daAnálise Socialdaqui a mais 200 números?
JR Começo por afirmar que esta pergunta é impossível de responder e é
provavelmente uma ousadia tentar fazê-lo. Permito-me, não obstante, algumas
reflexões.
Uma revista existe para satisfazer um público, cujos interesses também acaba
por moldar. Tem de haver liderança por parte da revista, mas essa liderança não
pode esquecer o facto de que o público está a mudar de muitas maneiras e de um
modo autónomo em relação a ela. Essa evolução tem de ser uma das principais
preocupações de quem dirige a Análise Social. Em segundo lugar, o mundo é duro
para as revistas multidisciplinares. Uma razão é que hoje em dia é tal a
explosão no número de revistas na nossa especialidade que somos obrigados a
ler, que um académico do tipo gentleman, que tenha tempo para ler em outras
disciplinas, é uma figura cada vez mais rara. Logo, a procura aperta-se.
Não podemos esquecer que a Análise Social foi criada num tempo em que o mundo
universitário português era muito pequeno e ao mesmo tempo havia muitas pessoas
fora dele com interesses intelectuais que, embora externas à academia,
assinavam a Análise Socialimpulsionadas por uma curiosidade de cunho
fundamentalmente generalista. Por todo o país, a Análise Social satisfazia este
público de pessoas inteligentes e cultas que queriam saber tudo o que havia
para saber sobre a sociedade portuguesa nos seus mais variados aspectos. Não
tenho a certeza de que Portugal ainda se encontre nesta situação.
Para finalizar gostaria de referir algo que já apontei a propósito da falta de
revistas especializadas em história económica. Em geral, Portugal tem poucas
revistas científicas no campo das ciências sociais e portanto tem poucas
revistas especializadas. Para a Análise Social, isto é o reverso da medalha do
que é ser uma revista multidisciplinar. É possível sustentar a sobrevivência da
Análise Social tal como a conhecemos porque em Portugal a escala diminuta do
campo das revistas das ciências sociais deixa espaço para esta
multidisciplinaridade. No dia em que esta situação se alterar e aparecerem
várias revistas fortes e altamente especializadas em domínios como a
sociologia, a geografia, a antropologia e outros, que comecem a captar mais e
mais nos seus respectivos campos, pode ser que a multidisciplinaridade se torne
uma impossibilidade. Seria uma pena, não só pelo afecto de muitos anos que
sinto em relação à Análise Social, mas também porque considero a ideia da
multidisciplinaridade extremamente atraente. Para bem dos académicos, gentlemen
ou não, mas também de uma sociedade que se espera sempre mais culta e mais
científica, espero que continue a haver lugar para uma Análise Social.