Imagem e tecnologias visuais em pesquisa social: tendências e desafios
Introdução
A invenção da fotografia e mais tarde do cinema foram, como sabemos,
acontecimentos marcantes para a história cultural da humanidade, acarretando
profundas consequências na forma como concebemos e registamos visualmente
aquilo que nos cerca. Estes são apetrechos fundamentais para uma mediação
visual do mundo, assistindo propósitos ficcionais, narrativos e estéticos, mas,
igualmente, documentais e científicos. A faceta lúdica e artística da linguagem
fotográfica e cinematográfica é sobejamente conhecida, concorrendo para uma
cultura visual alicerçada, em grande medida, na autoridade da imagem veiculada
por extensos circuitos mediáticos. No entanto, o papel destas tecnologias na
ciência não pode ser ignorado, tal foi o impacto que obtiveram, e que ainda
conservam. Interessa-nos, neste artigo, detalhar a projecção que estas
ferramentas de registo e discursividade visual tiveram nas ciências sociais e,
em especial, nos processos de pesquisa envolvendo trabalho de terreno.
Atendendo à bibliografia especializada, diríamos que o seu impacto é diminuto,
para não dizer praticamente inexistente, tal é a escassez de referências às
metodologias visuais nos manuais de métodos e técnicas de investigação. No
entanto, a utilização dos engenhos visuais para a perscrutação do homem e do
ambiente fabricado tem mais de cem anos de história. Esta é uma omissão
facilmente justificável se tivermos em consideração a evolução das ciências
sociais, e a hegemonia de determinados paradigmas e correntes epistemológicas.
A relação entre as ciências sociais e a imagem nunca foi fácil, e continua
minada por uma série de dogmas e resistências. Porém, e curiosamente, nunca
como agora a imagem e as plataformas audiovisuais despertaram tanto interesse
em jovens estudantes e investigadores de ciências sociais. Este é um caso que
revela uma aparente dessincronização entre um aparato teórico-metodológico
sancionado pela academia e os modos mais periféricos e heterodoxos de fazer
ciência, propostos por uma nova geração de investigadores que sente a
necessidade de apelar às tecnologias (áudio)visuais no trabalho de campo. As
denominadas metodologias visuais, empregues em diferentes campos do saber, têm
vindo paulatinamente a afirmar-se como vias credíveis e legítimas de exploração
da realidade social e cultural. Estas tendem a não ser de uso exclusivo de
subdisciplinas especializadas, como a antropologia ou a sociologia visuais,
convertendo-se, cada vez mais, em preciosos auxiliares de investigação em
múltiplas áreas. Pela riqueza e extensão da informação prestada, e pela
relativa facilidade de aplicação, a fotografia e o vídeo adquirem uma utilidade
crescente, impulsionando a inovação dos procedimentos e exigindo um
reequacionamento das práticas científicas.1 Importa, pois, reavaliar o papel
destes utensílios bem como a sua capacidade de integração nos, e de renovação
dos, paradigmas metodológicos validados pela academia. Propomo-nos, neste
artigo, contribuir para este debate. Faremos, em primeiro lugar, uma breve
incursão pelas tendências mais marcantes no que respeita ao uso que tem sido
feito das metodologias visuais em antropologia e sociologia, com particular
enfoque em contextos de natureza etnográfica, para, em segundo lugar, repensar
o seu papel actual e os desafios que se colocam à sua aplicação nas ciências
sociais.
Imagem nas ciências sociais: entre o conflito e cooperação
A relação do homem com as suas imagens tem sido conturbada. Esta é uma história
atribulada, manchada por situações e períodos de profunda iconoclastia que
acompanham, precedem ou se sucedem a dinâmicas de apaziguamento e de profícua
criação pictórica. Esta é, ainda hoje, uma comunhão assinalada por flutuações,
alimentada por equívocos e temores diversos. No âmago deste diálogo difícil
parece estar inevitavelmente um sentimento comum: a imagem é uma entidade
extremamente poderosa. O dom de atormentar imaginações e desejos, de despoletar
humores e terrores, sugere cautelas, gera desconfianças e, ocasionalmente,
violentas reacções de contestação. A imagem foi, não raras vezes, banida da
nossa convivência e, ainda hoje, é alvo fácil de discursos que invocam o seu
poder perturbador. A imagem é, por isso, fonte constante de receios, e são
inúmeras as tentativas de domesticação que pretendem sinalizar balizas
socialmente admissíveis para a sua actuação. A imagem dócil sempre foi ambição
de regimes e de discursos hegemónicos.
Algo que é geralmente obliterado pelo pensamento científico, é a influência que
as imagens e a evolução dos sistemas ópticos e visuais assumiram na
consolidação do discurso científico e na edificação de determinadas
disciplinas. Esta é uma situação que se aplica às ciências sociais e, em
particular, a disciplinas como a antropologia.2 A ciência produz imagens, sob
diferentes formatos, que colaboram na tarefa de conhecer e reflectir o mundo. A
ciência fabrica uma forma de olhar para o mundo. Apesar da intermitência de uma
ligação nem sempre pacífica, a realidade social e cultural passível de ser
olhada foi sendo capturada por diversas lentes, contribuindo para a edificação
de um vasto legado imagético sobre a vida do homem em comunidade. E não foi
apenas a alteridade exótica que motivou o olhar surpreso dos etnógrafos em
terras longínquas, também o conflito, a exclusão étnica e social, ou a
marginalidade urbana do início do século passado foram alvo das lentes curiosas
de sociólogos.
A imagem e a visualidade constituem uma temática recorrente em variados
domínios das ciências sociais, pois a comunicação visual é uma das mais antigas
formas de comunhão colectiva, revelando-se, ainda hoje, fundamental na união
com os outros. O interesse que as ciências sociais têm devotado à imagem
procede da crença de que a cultura de uma comunidade ou grupo social se
expressa visualmente e, como tal, pode ser observada e captada. Falamos de uma
esfera do visível (Aumont, 2009) que se oferece à percepção humana e que foi,
ao longo do tempo, codificada e ordenada, adquirindo sentido cultural. Ou seja,
a cultura exibe-se através de um agregado de símbolos presente no quotidiano
das pessoas em comunidade (observável nos rituais quotidianos, nos gestos, nas
indumentárias, nos artefactos, no habitat construído, etc.). Poucos duvidarão
deste pressuposto. E aqui surge o problema. Como converter em dados
operacionais o semblante visível de um mundo que promete desvendar tanto sobre
a nossa vida em sociedade? A partir daqui ramificam-se as áreas de
investigação, as metodologias, e as preocupações teóricas de agentes e escolas
académicas que se debruçam sobre as manifestações visuais humanas.
Genericamente, a imagem tem sido acolhida pelas ciências sociais de duas formas
que nem sempre se intersectam, demarcando horizontes epistemológicos e
tecnológicos distintos (Banks, 1995 e 2000; Morphy e Banks, 1997). Em primeiro
lugar, a imagem tem sido apropriada como meio auxiliar de pesquisa, tendo por
tarefa aperfeiçoar ou complementar a observação científica, disponibilizando
dados analíticos. Este tem sido um terreno fértil para o diálogo com as
tecnologias visuais, nomeadamente a fotografia, o filme e o vídeo. Daí que
grande parte dos debates em torno da imagem tenham por objecto a
instrumentalização dos aparelhos visuais e o estatuto dos dados produzidos
através destes procedimentos. Em segundo lugar, a imagem tem sido tomada
enquanto objecto de estudo, remetendo-a para um vasto espectro conceptual e
empírico, que abarca múltiplos fenómenos da visualidade humana. Os processos de
comunicação não verbal, a produção e consumo de artefactos materiais, de bens
visuais e audiovisuais, são, entre outros, exemplos de tópicos amplamente
estudados (Rose, 2001; Prosser, 2000; Van Leeuwen e Jeuwitt, 2001). Neste
domínio, antropólogos e sociólogos adoptam uma perspectiva dual (Banks, 1995),
ora preocupados com o conteúdo e significado da imagem, ora buscando entender o
contexto social e cultural da sua produção. O que propomos neste artigo é uma
reflexão basicamente concentrada na imagem enquanto recurso de
pesquisaerepresentação, o que não invalida que seja invocada a segunda linha de
investigação descrita (imagem enquanto objecto de estudo), na medida em que
estas não são circunscrições completamente autónomas.
Recuemos às origens do debate. O processo que viria a ser conhecido como
fotografia foi iniciado na segunda década do século xix, por Nicephore Niépce,
sendo aperfeiçoado por Louis Daguerre, que inventa, em 1837, a máquina a que
deu o nome de daguerreótipo. Ao assentar num mecanismo óptico e não artístico,
a fotografia revela-se um precioso coadjuvante das ciências positivistas,
acrescentando maior rigor, veracidade e objectividade aos procedimentos de
análise, classificação e comparação dos objectos:
Antes da invenção da fotografia, o conceito de humanidade, flora, fauna, era
frequentemente fantástico. É por isso que a câmara, com a sua visão imparcial
tem sido, desde o início, esclarecedora e modificadora da compreensão ecológica
humana [Collier, 1973, p. 4].
Este procedimento mecânico vem, de alguma forma, dar resposta aos anseios de
uma comunidade científica que busca as fundações de um modelo de figuração da
realidade que corresponda àquilo que Daston e Galison (2007) definem como
objectividade mecânica. Os meios mecânicos de reprodução libertam as imagens
da interferência humana (Daston e Galison, 2007, p. 121), contornando o perigo
sempre latente da esquematização, estetização ou simplificação das
representações pictóricas. Assim se compreende por que razão a fotografia foi,
desde os primórdios, justificada como uma tecnologia ao serviço da ciência,
facto que é comprovado pela sua célere assimilação em áreas distintas do
conhecimento, particularmente nas que visavam a inventariação do mundo
longínquo. Sicard (2006) adianta que entre 1839 e 1880 foram realizadas
oficialmente cerca de 300 expedições fotográficas, protagonizadas por franceses
e ingleses. Todavia, à fotografia faltava um elemento essencial à figuração do
mundo: o movimento. Este converte-se no empreendimento seguinte dos pioneiros
das formas mecânicas de reprodução em imagem. Quatro décadas passadas sobre a
invenção da fotografia, Eadweard Muybridge consegue captar o movimento do
cavalo a galope, empregando várias câmaras estrategicamente posicionadas. O
cronofotógrafo (1887), criado por Étienne-Jules Marey, e o cinematógrafo dos
irmãos Lumiére3 (1895), sucedem à fotografia. Estes oferecem à ciência a imagem
em movimento, abrindo novos horizontes para o estudo e registo das culturas
humanas.4
O primeiro filme de natureza etnográfica data de 1895, e consiste na
apresentação de uma mulher Wolof fazendo potes na exposição etnográfica da
África Ocidental. A aplicação do filme no trabalho de terreno foi inaugurada
pela expedição britânica liderada por Alfred Haddon ao estreito de Torres
(1898). A expedição de Haddon obteve enorme impacto, nomeadamente pelos filmes
que retratavam a produção do fogo e as danças cerimoniais dos aborígenes. Este
projecto influenciou empreendimentos posteriores, como o de Baldwin Spencer e
Frank Gillen, que utilizaram métodos visuais inovadores junto dos aborígenes
australianos. No mesmo período, a câmara fotográfica serviu para a recolha de
dados no trabalho de campo de Franz Boas com os índios Kwakiutl. Malinowski
também empregou profusamente a fotografia no seu projecto etnográfico junto dos
nativos da Melanésia, facto que se encontra patente nas suas publicações
(Samain, 1995). A partir dos anos 20 do século xx, a fotografia é empregue em
parte dos trabalhos etnográficos realizados, usada mais como evidência,
servindo propósitos ilustrativos e assistindo a narrativa verbal (Ball e Smith,
1992). O exemplo mais notável da incorporação desta prática no ofício
etnográfico encontra-se no trabalho desenvolvido por Gregory Bateson e Margaret
Mead, que culminou na publicação do célebre BalineseCharacter: a Photographic
Analysis (1942). Este trabalho precursor demonstrou a importância que esta
técnica pode assumir numa pesquisa de terreno, gerando dados analíticos de
enorme relevância.
Apesar dos anos iniciais especialmente prometedores, a imagem, a partir da
segunda década do século xx é ameaçada por um gradual descrédito, que apenas se
começa a dissipar a partir da década de 705, na sequência de uma série de
mutações de natureza tecnológica e social, mas igualmente académica, que
obrigam a uma revisão dos pressupostos e procedimentos que se encontram na base
do acto etnográfico. Na verdade, durante a primeira metade do século o uso dos
dispositivos visuais, nomeadamente o filme, na pesquisa de terreno era
contrariado por problemas de índole prática e financeira. Empregar estes
apetrechos implicava investimentos em material e recursos humanos (Brigard,
1995). Até aos anos 60 do século xx filmar era excessivamente dispendioso, e
não existiam estruturas montadas que garantissem uma distribuição dos filmes. O
aparecimento das câmaras ligeiras, dos gravadores áudio autónomos, das câmaras
síncronas silenciosas e portáteis e, mais recentemente, do vídeo em diferentes
formatos e preços, contribuíram para uma maior divulgação e apropriação dos
meios audiovisuais.6
No contexto português, a relação entre imagem e etnografia é durante largo
tempo vincada por uma pulsão ilustrativa, que buscava registar em imagem as
características materiais e visíveis da cultura popular. No período de 1870 a
1970, de acordo com Leal (2008), é possível identificar diferentes fases e
aplicações da imagem na antropologia portuguesa. Na viragem do século, a imagem
surge como resultado de uma prática de terreno que favorecia a captação
fotográfica do quotidiano popular. Os dispositivos visuais não se resumiram à
fotografia, sendo que o desenho etnográfico e, décadas mais tarde, o filme
etnográfico conquistaram um lugar de destaque nas práticas científicas.
Curiosamente, o desenho etnográfico foi adquirindo um relevo crescente nas duas
primeiras décadas do século, mantendo-se como uma das vias mais importantes
para retratar visualmente as culturas populares até à década de 70. Apesar da
produção cinematográfica nacional das décadas de 40 a 50 ter algum significado,
com obras marcantes da nossa cinematografia, a partir dos anos 60 a
antropologia nacional torna-se imageticamente muda (Leal, 2008), em resultado
de novas temáticas e abordagens que se desviam de uma antropologia de urgência,
que visava o registo visual, sistemático, das culturas tradicionais,
entendidas, em grande medida, como em vias de extinção.
Uma breve passagem pela biografia das ciências sociais no século xx, deixa
claro que a imagem tem sido empregue com alguma relutância, apesar das décadas
iniciais que indiciavam uma relação frutuosa e duradoura. Não obstante, o facto
de os cientistas sociais crerem na fidelidade do seu poder de observação para,
visualmente, apreenderem o mundo, os modos através dos quais o mesmo é
dissecado e interpretado assentam, geralmente, na linguagem verbal. Teorizamos
o que vemos, nas palavras de Elizabeth Chaplin (1994, p. 2). Tendemos a
assumir a proeminência do verbal sobre o visual, sendo o último subsidiário do
primeiro (Ball e Smith, 1992; Chaplin, 1994). Daí que a contribuição da imagem
para as tarefas de exploração da realidade social e apresentação do
conhecimento científico tenha sido razoavelmente ignorada perante a autoridade
da palavra.
O diagnóstico, feito por muitos (Mead, 1995; Prosser, 2000; Banks, 2001; Pink,
2001), aponta diversas razões para os obstáculos colocados pela academia à
plena inclusão da imagem (e das tecnologias visuais) nas ciências sociais. O
emprego da imagem tem esbarrado perante recorrentes considerandos que,
invocando a carência de credibilidade teórica e metodológica dos processos,
parecem insinuar preconceitos e inércias típicas das instituições sociais
cristalizadas em torno de verdades e cânones sacralizados. Os mais cépticos
apontam problemas, aparentemente inultrapassáveis, de subjectividade e
imprecisão à pesquisa visual. O argumento da polissemia das imagens tem sido
sobejamente evocado para justificar esta recusa. A propósito desta questão,
Martine Joly refere que se a especificidade da imagem é ser polissémica, é
porque qualquer outra coisa que não a imagem não o é. Essa qualquer outra
coisa, subentendida nos primeiros tempos da reflexão sobre a imagem, é a
palavra. Implicitamente compara-se a imagem à linguagem verbal e mais
particularmente à palavra. Esta comparação que não podia ser sustentada
durante muito tempo, é contudo reveladora do lugar privilegiado que tem a
linguagem verbal no nosso sistema de valores, onde serve sempre de referência
ideal [Joly, 2005, p. 110].
Como a mesma autora refere, a palavra também é polissémica e, não raras vezes,
essa polissemia é propositadamente estimulada para gerar múltiplos ou dúbios
sentidos. Os enunciados verbais têm necessidade, tal como a imagem, de ser
contextualizados para serem correctamente interpretados (Joly, 2005, p. 111).
O grande pecado da imagem parece ter sido a sua índole subjectiva e
polissémica, características suficientes para ser renegada pelo aparelho
científico. Não deixa de ser curioso e paradoxal que a imagem, inicialmente
apropriada como entidade ao serviço dos rigores positivistas, tenha sofrido uma
paulatina corrosão de carácter. Esta viragem no perfil da imagem não será
alheia à gradual hegemonia da imagem ficcional e artística (no cinema e na
fotografia) que, lentamente, foi suplantando a imagem documental. Recordemos
que no início da sua utilização, as imagens fixas e animadas foram acolhidas
como instrumentos de inventariação e catalogação visual do mundo, possuindo uma
indubitável vocação científica (Sicard, 2006; Daston e Galison, 2007; Ribeiro,
2004 e 2005).
O conservadorismo da academia implica que a imagem enquanto veículo de produção
de conhecimento possua uma posição algo periférica, destinada a regimes mais
experimentais e ex-cêntricos de fazer ciência. As dificuldades deste
relacionamento devem-se, segundo Prosser (2000), às raízes epistemológicas das
ciências sociais, uma vez que os dois paradigmas clássicos são o quantitativo
(na senda de Auguste Compte e Émile Durkeim) e o qualitativo (a partir de Max
Weber), que fundam programas de pesquisa epistemologicamente coerentes, mas que
historicamente não encontram um lugar para a imagem enquanto código discursivo
ou dado analítico. O estatuto da imagem é, assim, sempre provisório e alvo de
acérrimas polémicas, que assentam não apenas na ontologia da imagem (um debate
transversal) mas, igualmente, no seu enquadramento numa duradoura e
estabilizada linhagem de procedimentos epistemológicos.
O papel residual da imagem nas ciências sociais resultou na constituição de
subdisciplinas como a antropologia visual e a sociologia visual. Estas foram
divisadas como anómalas variações de um ramo comum, com verdades longamente
celebradas. No seio destas derivações disciplinares fundou-se todo um
empreendimento técnico e intelectual visando a habilitação da imagem e, em
última análise, a busca de um domicílio estável para a mesma no panorama dos
paradigmas dominantes. A intimidade entre a antropologia e a imagem é grande.
Apesar das hesitações, a verdade é que o uso da imagem em antropologia sempre
representou uma via profícua, apesar de não consensual, de análise e de
produção de discursos sobre a realidade cultural (Simonis, 1992; MacDougall,
1997). A história da sociologia visual não é tão rica, com um legado científico
parco, facto que justifica a sua escassa relevância no debate sociológico
(Becker, 1974 e 1996; Chaplin, 1994; Harper, 2000). Todavia, as dificuldades
com que se debateu, e ainda debate, são relativamente similares aos problemas
de afirmação enfrentados pela antropologia visual. Em comum têm um nascimento
promissor, tendo a sociologia cedo sucumbido à lógica positivista reinante, que
gradualmente foi descredibilizando a imagem nas ciências sociais.7
Apesar das resistências identificadas, temos hoje fortes indícios de que a
situação tende a alterar-se. Não é só no campo da antropologia e da sociologia
que as questões da imagem e do visual têm sido discutidas e integradas à luz de
novos paradigmas, propostas metodológicas e agendas científicas. Diferentes
roteiros metodológicos foram sendo aperfeiçoados durante as últimas décadas,
enriquecendo o estudo das produções visuais, com enorme utilidade não apenas
para a sociologia e antropologia, mas igualmente para a psicologia, estudos
culturais, ciências da comunicação, etc. (Rose, 2001; Ball e Smith, 1992;
Prosser, 2000; Van Leeuwen e Jeuwitt, 2001). O universo da imagem tem
representado, principalmente a partir dos anos 90, uma via extremamente rica e
inovadora para as ciências sociais e humanas, envolvendo programas
disciplinarmente transversais e métodos diversificados que ultrapassam, em
larga medida, as questões meramente operacionais (a imagem enquanto ferramenta
de trabalho em ciência).
Diversas razões, de ordem social e tecnológica, mas igualmente epistemológica,
podem contribuir para justificar a ascendente projecção da imagem. Debrucemo-
nos, em primeiro lugar, sobre as alterações sociais e culturais que se foram
verificando ao longo do último século e que determinam uma progressiva atenção
dedicada às tecnologias e idiomas visuais. Estamos de algum modo familiarizados
com termos como civilização da imagem ou cultura visual, que expõem o poder
que a imagem e os media audiovisuais detêm nos modos como nos relacionamos e
construímos significado. Alguns não hesitam em qualificar a nossa sociedade
como ocularcêntrica (Jay, 1994; Jenks, 1995), testemunhando o auge de um
movimento histórico em que a visão e os seus auxiliares tecnológicos
conquistaram uma gradual supremacia, subalternizando os outros canais
sensoriais. A visão seria, de acordo com autores como Classen (1997) ou Synnot
(1992), o canal privilegiado para a percepção do mundo, para a comunhão de
informação e construção de significado cultural. São vários os sintomas que
parecem confirmar este estado. A começar pelo fabuloso desenvolvimento das
maquinarias ópticas e visuais, que se traduziu na multiplicação das linguagens
pictóricas e audiovisuais e dos circuitos de disseminação de significado ao
nível global.
Desta condição resultam duas consequências para as ciências sociais. Em
primeiro lugar, seria difícil ignorar a centralidade da imagem e dos engenhos
visuais (e audiovisuais) na modelação de determinadas dinâmicas sociais e
culturais. Estas são dimensões que atravessam o quotidiano, inaugurando
práticas e transformando hábitos longamente enraizados. Em diversas áreas de
investigação cruzamo-nos, frequentemente, com a influência modeladora de
diferentes media, entrevemos o papel crucial das práticas e dos conteúdos que
são suportados pelas plataformas audiovisuais. Em segundo lugar, este poder
contagiante da imagem estende-se ao meio científico, que não está imune a esta
tendência que se foi acentuando ao longo do último século. Neste cenário, as
ciências sociais, tidas como firmemente logocêntricas, parecem sentir os abalos
provocados pela vulgarização dos meios digitais e das gramáticas audiovisuais,
não podendo continuar indiferentes às suas capacidades documentais ou
habilidades retóricas. As ciências sociais tendem a acompanhar esta propensão
para a visualização da existência (Mirzoeff, 1999), que recorre a um vasto
aparato tecnológico para indagar, monitorizar e dissecar a realidade.
Os contextos de produção científica e os cânones epistemológicos pelos quais se
rege a academia também têm sofrido transformações significativas, o que nos
conduz a um segundo conjunto de motivos que nos ajudam a compreender a maior
aceitação da imagem. Desde logo um enfraquecimento do paradigma positivista,
que passa a ser gradualmente contestado pela academia. Em causa estão os
princípios primordiais da objectividade e neutralidade do acto, que tendem a
omitir, por um lado, a natureza construída e contingente de qualquer interacção
que se estabelece entre indivíduos e, por outro, a arbitrariedade dos processos
semânticos e retóricos que presidem à fabricação dos enunciados científicos.
Esta condição é particularmente evidente no caso da etnografia (Marcus e
Fischer, 1986; Hammersley e Atkinson, 1983; Atkinson, 1992). Actualmente, a
etnografia e as representações etnográficas podem ser caracterizadas por uma
grande variedade de posturas e propostas que acolhem, igualmente, tendências
subversivas e transgressoras (Hammersley e Atkinson, 1983; Coffey, Holbrook e
Atkinson, 1996), reflectindo um território habitado por perspectivas
divergentes de aproximação da realidade social. Como contraposição a um modelo
de inspiração positivista, uma maior reflexividade científica e os projectos de
pendor colaborativo são por muitos entendidos como novos cenários para a
etnografia contemporânea (Ruby, 2000; Pink, 2001 e 2006; MacDougall, 1997;
Marcus, 1998; Banks, 2001).
Por outro lado, torna-se por demais evidente que existe um movimento de índole
geracional nesta mudança de atitude perante a imagem. As posições mais
ortodoxas que enjeitavam a imagem baseavam-se em axiomas fundados numa cultura
académica essencialmente verbalista e livresca, associada a uma geração com
dificuldades em lidar com a cultura visual e a inconstância tecnológica. Como
afiançava Margaret Mead (1995), há pouco mais de três décadas, a imperícia
tecnológica sentida por muitos investigadores era um dos grandes entraves à
assimilação da imagem.8 Todavia, se isto acontecia há algumas décadas,
actualmente, dada a pluralidade dos equipamentos audiovisuais de fácil
manuseamento e a ampla literacia visual e informática, esta questão torna-se,
cada vez mais, irrelevante. As insuficiências tecnológicas e a iliteracia
visual de uma geração comprometida com a linguagem e formas de representação
verbais, são paulatinamente ultrapassadas por uma nova vaga de investigadores
com ampla capacidade de diálogo com as tecnologias, designadamente as digitais,
e com um elevado domínio dos códigos de comunicação visuais e audiovisuais. Com
algum sentido crítico, Augé e Colleyn (2005, p. 64) declaram a propósito da
nova geração estudantil:hoje em dia, graças sem dúvida aos progressos técnicos,
quase todos os estudantes de antropologia que se preparam para efectuar a sua
primeira investigação no terreno pretendem filmar, ainda que nem sempre
formulem um projecto preciso.
Esta parece ser uma pulsão habitual nos tempos que correm. Os preconceitos
relativos à imagem e à máquina vão-se atenuando pelo convívio próximo com os
idiomas e aparelhos audiovisuais, que se naturalizam e tornam parte do dia-a-
dia. Aliás, actualmente exige-se aos investigadores um domínio das tecnologias
e da sua linguagem que há duas ou três décadas atrás era impensável.
Não podemos deixar de invocar, igualmente, uma agenda científica crescentemente
atenta às questões da visualidade e visibilidade, as quais perpassam distintos
terrenos teóricos e áreas temáticas de saber. Aquilo que nas ciências sociais e
humanas se tem vindo a denominar como viragem cultural (Hall, 1997), descreve
a relevância que a esfera da produção e representação de significado adquire
hoje para o entendimento das dinâmicas sociais. Numa sociedade globalizada e
fortemente dependente da máquina, em que os conteúdos e comunicações mediados
por instâncias poderosas assumem uma magnitude inquestionável no nosso
quotidiano, torna-se difícil não estar atento aos sistemas através dos quais as
imagens são geradas e consumidas. Nestes circuitos reside grande parte daquilo
que é a arquitectura simbólica a partir da qual trocamos significado e
compreendemos o que nos circunda. A relevância da estetização (Featherstone,
1991; Maffesoli, 1996) e estilização (Ewen, 1988) do quotidiano patenteia,
ainda, a proeminência da visibilidade e a importância dos exercícios de
escritura e decifração de símbolos que ocorrem na superfície da matéria. Não é
de estranhar, portanto, que ao longo da última metade do século xx se assista à
multiplicação de objectos de estudo que remetem, de forma mais ou menos
directa, para o reino da visualidade. O cinema, a televisão, o vídeo, as artes
plásticas, a banda desenhada, a publicidade, o corpo, a moda e, em tempos mais
recentes, a internet, as comunidades virtuais, ou os mundos virtuais,
constituem, entre muitos outros exemplos, focos de curiosidade por parte das
ciências sociais.
Estão, de alguma forma, criadas as condições para que as metodologias mais
periféricas e as gramáticas audiovisuais conquistem um papel mais saliente ao
nível do trabalho de campo e da divulgação científica. A duradoura contenda
mantida entre a palavra e imagem deixa de fazer sentido num mundo social e
académico dominado pelos computadores, pela comunicação instantânea e pelos
suportes hiper/multimediáticos (Campos, 2007a e 2007b; Ribeiro, 2005). As
disciplinas logocêntricas tornam-se permeáveis a novos formatos de fazer e
comunicar ciência.
Esta breve deambulação serviu-nos para identificar sucintamente os rumos que o
relacionamento entre as ciências sociais e a imagem foram tomando. Vimos que
esta tem sido uma união atribulada, marcada por momentos de maior proximidade
ou afastamento, mas que, no essencial, patenteia uma persistente menorização do
papel desempenhado pelo visual. As últimas décadas parecem anunciar tempos de
reconciliação. Perante este cenário, importa, pois, reequacionar o papel das
metodologias visuais, bem como a forma como estas se podem integrar nos
aparatos metodológicos mais convencionais.
Que verdade diante das câmaras?
Subjacente a qualquer investigação de terreno que envolva o domínio da
visualidade e os engenhos visuais está uma particular concepção da natureza
última da imagem e do papel do observador. E, quanto a isto, o consenso está
longe de ser total. Observador e observado constituem-se enquanto pólos de um
processo que é mediado por um dispositivo tecnológico que, de alguma forma,
ambiciona retratar visualmente uma situação social. A observação é sempre
negociada a partir de um olho mecânico(e digital), que foca, perspectiva e
regista fragmentos seleccionados no tempo e no espaço.
É, pois, crucial examinarmos as doutrinas epistemológicas que sancionam o
emprego dos métodos visuais, pois estas ordenam os moldes em que a imagem é
acolhida. Perfilam-se, basicamente, duas tendências (Pink, 2001; Ruby, 1996;
Banks, 1995 e 2001; MacDougall, 1997). Uma de tradição positivista, e outra
representada pelas perspectivas reflexivas e colaborativas. As ciências sociais
nasceram e amadureceram numa arena definida pelas coordenadas cartesianas, que
preceituam um olhar distanciado e superior sobre o mundo, factor de
objectividade fundamental ao verdadeiro conhecimento. Os meios visuais e a
imagem têm de sido geridos nesta conjuntura. A abordagem científico-realista
ou, se quisermos, naturalista (de tradição positivista), tem sido a dominante
no campo da sociologia e antropologia visuais. Este facto está relacionado, por
um lado, com o contexto histórico em que surgem e se desenvolvem estas duas
subdisciplinas e, por outro, com a relação que estabelecem com o paradigma
dominante nas respectivas áreas de saber académico (Pink, 2001 e 2006; Banks,
2001; Ruby, 1996). Há quem conteste esta perspectiva. Apesar da linhagem
científico-realista ser ainda dominante, com a gradual erosão dos princípios
herdados do positivismo, diversas vozes (Chaplin, 1994; MacDougall, 1997;
Banks, 2001; Ruby, 2000; Pink, 2001 e 2006) têm privilegiado uma concepção
renovada acerca da imagem. Argumenta-se que a câmara está culturalmente
condicionada, e que a etnografia é, inevitavelmente, fruto de
intersubjectividade e, consequentemente, que os pressupostos naturalistas são
anacrónicos e desadequados. Esta tese serve de fundamentação a uma abordagem
crítica, reflexiva e colaborativa, em consonância com a multivocalidade,
subjectividade e fragmentação do real etnográfico.
A corrente dominante tem tratado a tecnologia visual como um utensílio de
produção de dados objectivos que visam retratar sem distorção o real, na medida
em que as imagens são comummente concebidas como produtos que aspiram à
similitude irrepreensível. Como assevera Joly (2003, p. 121), a expectativa de
verdade é uma das expectativas mais repetidas da imagem. Esta crença baseia-se
numa ideia de imagem enquanto colheitaou amostra da realidade (Joly, 2003), no
fundo um vestígio do real. As propriedades que lhe são atribuídas procedem de
uma espécie de contrato colectivo, de um horizonte de expectativas, que define
aquilo que devemos aguardar das imagens.
A tradição naturalista tende a apresentar-nos o mundo como transparente,
ignorando o facto de existir um mediador que filtra a informação de acordo com
factores arbitrários que apenas ele domina. Fiel aos princípios da veracidade e
objectividade, a câmara funcionaria enquanto testemunha ocular, exigindo ao
espectador confiança na imagem captada. A subjectividade do observador no
terreno é, aparentemente, corrigida pela imparcialidade de aparelhos ópticos
domesticados, destinados à captação rigorosa e verídica do real. As imagens não
mentem, poder-se-á afirmar. Os esforços de legitimação da imagem têm passado,
em grande medida, pelas tentativas de validação das suas propriedades de
objectividade, representatividade e sistematicidade (Pink, 2001).
Todavia, o estatuto ontológico da imagem depende de uma situação contextual
mais do que de uma natureza definida a priori. Se durante décadas, apesar das
polémicas, persistiu a convicção da neutralidade, transparência e objectividade
dos aparatos ópticos e audiovisuais, a câmara, gradualmente abalada pelo
pensamento pós-positivista e pós-moderno é, actualmente, percepcionada como
estando inscrita num determinado cenário sociocultural:
Num mundo pós-positivista e pós-moderno, a câmara é condicionada pela cultura
da pessoa por trás do aparato; isto é, filmes e fotografias estão sempre
relacionados com duas situações: a cultura dos que são filmados e a cultura dos
que filmam [Ruby, 1996, p. 1345].
Ou seja, as fotografias e os filmes expressam aqueles que estão diante da
câmara, tal como os que estão por detrás da mesma. Deste modo, os registos
visuais também são vislumbrados como parciais, incompletos ou, se quisermos,
ficcionais. Esta é uma concepção que encontra correspondência nos olhares que
são actualmente dirigidos à ciência. Hoje, é corrente a ideia de que o
conhecimento científico é uma construção social, tal como qualquer outro tipo
de enunciado sobre o mundo. É um saber coligido num quadro normativo, balizado
por convenções e métodos socialmente sancionados de actuação. É, ainda, o
desfecho da acção de sujeitos historicamente situados, imbuídos de orientações
singulares, que expressam a forma como, num certo quadro doutrinário,
experienciam e resolvem os enigmas do mundo. Esta tomada de consciência, que
rompe com uma tradição positivista baseada na soberania da racionalidade
objectiva e neutra do cientista, coloca novas questões relativamente ao sujeito
e objecto de estudo, bem como aos procedimentos de colheita e transmissão de
informação (Hammersley e Atkinson, 1983; Atkinson, 1992).
Nesta conjuntura, diversos autores preconizam uma ruptura com a tradição, em
prol de projectos de índole reflexiva ou colaborativa, que potenciem as
propriedades esquecidas da imagem (MacDougall, 1997; Pink, 2001; Ruby, 1980 e
1996). Esta viragem abre caminho a uma discussão sobre o potencial retórico das
imagens, sobre o capital estético que estas detêm, e que as converte em códigos
de comunicação inteiramente dissemelhantes da palavra. Assumir que a imagem não
é uma mera mimetização da realidade, mas algo que incorpora a subjectividade
daquele que manipula a máquina, pressupõe contemplar as subtis habilidades
retóricas que podem ser devidamente tidas em conta por quem a produz. O
sociólogo Howard Becker, um acérrimo defensor da aproximação entre a fotografia
e as ciências sociais (Becker, 1974, 1996 e 2000), acolhe a dimensão estética
da imagem como uma vertente através da qual se podem desvelar formas distintas,
e significativas, de pensar e descobrir a sociedade, afirmando mesmo que os
cientistas sociais que fazem fotografia não precisam ser descuidados com seu
sentido artístico como foram Margaret Mead e Gregory Bateson (Becker, 1996, p.
96). Neste cenário, o cruzamento disciplinar torna-se, para além de possível,
uma via cada vez mais profícua para ensaiar procedimentos e linguagens. A
antropologia e a sociologia visuais são, aliás, exemplos extremamente
interessantes de transdisciplinaridade pois têm acolhido no seu seio cientistas
sociais, artistas visuais, fotógrafos e cineastas, contribuindo para o
desenvolvimento de programas de pesquisa e de formatos de comunicação
inteiramente novos. O carácter experimental e pioneiro de muitos dos conteúdos
gerados nestas subdisciplinas em muito se deve a esta convivência entre quadros
plurais de interpelação e representação do mundo.
A câmara invisível, descendente do paradigma das ciências naturais é, assim,
contestada pela câmara subjectiva. Isto não sugere que o investigador abdique
dos preceitos que visam documentar com precisão uma certa realidade. A condição
fabricada de qualquer representação (visual, verbal ou mista), não decreta o
abandono dos princípios de veracidade e rigor na descrição de uma situação que
se pretende retratar. Como alegam Ball e Smith (1992, p. 16) a propósito da
fotografia, esta possui uma credibilidade que falta às representações
artísticas, decorrente das bases mecânicas e químicas do processo fotográfico;
a câmara como um espelho com memória. A fotografia e o vídeo continuam a
desempenhar um papel importante enquanto mecanismos de colheita de dados,
proporcionando elementos de análise rigorosos e detalhados sobre a cultura
visual de uma comunidade. Não podemos, todavia, cair na tentação ingénua de
conceber o olho mecânico como um dispositivo de representação cristalina que,
por via de uma operação mimética, engendra uma realidade-segunda à imagem e
semelhança da primeira.
Modos de representação: dissolução de velhas fronteiras
Assumir a participação das imagens nos procedimentos científicos e na
construção de representações, implica reconhecer a sua especificidade enquanto
código comunicativo e campo semiótico. Subentende, portanto, uma ponderação das
suas potencialidades e insuficiências, sempre contingentes, pois derivam dos
modos como e onde são aplicadas e com que propósitos. As qualidades de uma
imagem, tal como as de uma letra ou palavra, não possuem um valor inato,
incontestável e permanente. Uma imagem faz sentido num determinado contexto,
sendo que, noutras circunstâncias, se transfigura em função dos olhares que lhe
são dirigidos. O mesmo princípio se aplica à palavra.
Chegados a este ponto, convém, então, repensar as correspondências entre a
imagem e a palavra, no contexto dos modos de representação etnográfica. Para
alguns, esta é uma relação que deve obedecer a um princípio de hierarquização,
quando, para outros, há que assumir a especificidade e potencialidade de cada
um destes sistemas de significado, evitando qualquer tipo de subordinação.
Hastrup (1992), não contestando a relevância da imagem, argumenta que esta,
tomada no seu estado puro e em completa autonomia, encerra um valor limitado na
construção de conhecimento, na medida em que não permite dar conta da
profundidade da experiência etnográfica e da conexão entre elementos. Não serve
como meio difusor de ideias, mas antes como fragmento do visível. Como tal, a
imagem deve localizar-se numa posição de dependência lógica da palavra, de
forma a angariar a densidade de que carece isoladamente.
Todavia, outros alegam que uma excessiva obediência da imagem à palavra e a
convenções logocêntricas pode, eventualmente, refrear o seu largo espectro
comunicativo, desapossando-a do seu elevado capital semântico (Pink, 2001 e
2006; Chaplin, 1994). As imagens são mais eloquentes favorecem, mais do que o
texto, a introspecção, a memória, a identificação, uma mistura de pensamento e
emoção, assevera Caiuby Novaes (2008, p. 465). Se a ambiguidade, a espessura
estética e emocional que a imagem carrega não for cerceada, a relação com o
espectador pode enriquecer-se, na opinião de académicos como Becker (1996),
Chaplin (1994), Edwards (1997) ou Pink (2001 e 2006). Edwards (1997) sugere,
por isso, a possibilidade de coexistência de distintos roteiros de leitura da
imagem (fotográfica), que podem ser empregues em complementaridade nos
discursos etnográficos, convidando o leitor a aplicar modelos singulares de
descodificação. A fotografia pode ser entendida enquanto expressão de índole
criativa(expressiva), podendo ser comparada a modos de comunicação mais
literários, ficcionais ou biográficos ou, em alternativa, enquanto discurso
realista, mais próximo da escrita de natureza documental. A questão essencial
permanece, todavia, por solucionar. Que mais-valia a estética, a imagética,
pode aportar para a reflexão intelectual? Que relevância pode esta adquirir
integrada na moldura epistemológica prevalecente? Como veremos, a resposta
parece encontrar-se na exploração de novos itinerários epistemológicos e,
principalmente, no alargamento das gramáticas de representação, que compreendam
também uma nova concepção do saber e do público da ciência.
Não são apenas as arcaicas fronteiras perpetuadas entre a imagem e a palavra
que ameaçam ruptura. As distinções entre ciência, retórica ou arte tendem a
diluir-se, abrindo caminho a novas arquitecturas do texto etnográfico,
facilitando a inclusão da imagem e a produção de formatos mais inovadores de
divulgação científica (Marcus, 1994). Perante uma reavaliação de paradigmas dá-
se uma lenta redescoberta da arte e da literatura enquanto dispositivos de
comunicação, longamente rejeitados pelo positivismo e empirismo, em virtude da
sua disposição subjectiva (Hammersley e Atkinson, 1983; Atkinson, 1992). De
certa forma, a imagem tecnologicamente engendrada, fotográfica ou
cinematográfica, padeceu, durante um extenso período de tempo, de uma
catalogação que a confinava ao domínio estrito da estética, consagrada à arte
ou ao entretenimento, entendida como incapaz de aportar mais-valias ao debate
intelectual. A função estética não é, porém, inconciliável com a função
epistémica9, sendo que a introdução da imagem e dos formatos audiovisuais pode
contribuir decisivamente para esta aproximação. A intimidade com as gramáticas
cinematográficas e fotográficas permitiu à antropologia visual, desde cedo, uma
reavaliação dos dispositivos epistemológicos convencionais a partir do
confronto com outras modalidades de estudo e representação da realidade. Alguns
dos nomes incontornáveis da antropologia visual correspondem a pessoas
provenientes de outras áreas, por vezes autodidactas, e nunca plenamente
aceites enquanto académicos, como sejam Robert Flaherty, Jean Rouch, Robert
Gardner ou John Marshall. Esta posição liminar, que gerou desconfianças por
parte de grande parte da academia, trouxe benefícios ao nível da reinvenção de
práticas e olhares, do profundo questionamento da normatividade inerente ao
procedimento científico. Daí que a antropologia visual tenha antecipado algumas
das interrogações e reorientações epistemológicas, reformulações teóricas e
reposicionamentos éticos, que marcaram relevantes viragens na antropologia que
se fez a partir da década de 80 do século xx.
As inovações tecnológicas que ocorrem a um ritmo sem precedentes, com a
diversificação dos instrumentos digitais, têm forte impacto nas formas
contemporâneas de fazer ciência. As tarefas de investigação em ciências
sociais, das mais triviais às mais complexas, socorrem-se frequentemente das
câmaras fotográficas e de vídeo, dos gravadores de áudio ou dos computadores,
partilhando uma mesma gramática digital. Imagens, sons e palavras, são
convertidos para formato digital em operações que acontecem em segundos,
abrindo uma série de novas possibilidades ao seu manuseio, catalogação,
manipulação e transporte. Neste ecossistema audiovisual despontam novas
plataformas de comunicação entre pares, bem como suportes renovados para a
divulgação de conteúdos. Os websites, weblogs ou photologs, convertem-se em
recursos imprescindíveis para a difusão de conhecimento.10 Neste panorama,
impõe-se uma referência ao hipermédia. Este é um objecto de progressivo
interesse pelas oportunidades que oferece enquanto assistente de pesquisa e
veículo de comunicação científica (Ribeiro, 2005 e 2008; Campos, 2007a e 2007b;
Pink, 2001 e 2004).
O hipertexto e o hipermedia sugerem alterações importantes ao nível das
práticas e representações etnográficas, dissolvendo antigas fronteiras e
contribuindo para o desenlace de velhos problemas. Em primeiro lugar, parecem
abalar o antagonismo entre a palavra e a imagem ou, se quisermos, entre as
correntes dominantes fundadas sobre a hegemonia da palavra e as subdisciplinas
visuais, apologistas do valor intrínseco da imagem. Com o hipermedia, os
problemas apontados à imagem, particularmente evidentes no caso da fotografia,
podem ser facilmente contornados pela utilização da escrita. Este permite, em
princípio, suprir as carências de cada uma das linguagens tomadas isoladamente,
complementando-as com as características particulares das outras formas de
comunicação, num diálogo entre dados de descoincidente condição. Uma segunda
grande transformação que o hipermedia proporciona, diz respeito à natureza da
relação autor/audiência (Seaman e Williams, 1992). O idioma do hipermedia
diferencia-se do modo sequencial linear do texto escrito (ou do filme),
proporcionando e incentivando perspectivas não-lineares de leitura (Pink,
2001), outorgando ao leitor/utilizador maior liberdade de navegação dentro do
texto, permitindo estabelecer ligações e associações com maior autonomia. Em
terceiro lugar, o hipermedia tem implicações ao nível da própria prática
etnográfica. Ir para o terreno recorrendo a toda uma parafernália de
ferramentas digitais, implica ter consciência do carácter multifacetado dos
processos e dados recolhidos em contextos plurais (imagens, sons, textos), bem
como dos modos como estes podem ser trabalhados de forma integrada e coerente.
Parece-nos, pois, que as plataformas digitais e os formatos hipermedia serão,
de futuro, protagonistas importantes das novas formas de veicular conhecimento
e de comunicar com diferentes públicos.11Contudo, não cremos que estes venham a
destronar os antigos formatos visuais e audiovisuais. A fotografia e o cinema
continuam a desempenhar um papel relevante. Porém, a crescente comunhão de uma
mesma linguagem digital amplia as capacidades de manipulação e cruzamento de
conteúdos, incentivando a criação de léxicos mais complexos e de produtos
polimórficos.
Conclusão
Ao longo deste texto procurámos examinar a forma como as ciências sociais têm
lidado com a imagem e os engenhos visuais, tentando detectar as linhas de
orientação mais recentes que anunciam novas rotas e desafios à prática
científica. Esta é uma temática ampla, que dificilmente pode ser dissecada por
completo neste artigo. Não foi esse o nosso intento. Centrámo-nos,
propositadamente, na imagem integrada em projectos de investigação que envolvem
uma participação no terreno e que, de alguma forma, estão enquadrados em
metodologias de inspiração etnográfica. Duas razões justificaram esta opção. Em
primeiro lugar, seria impraticável e intelectualmente improfícuo, pretender
incluir na discussão os múltiplos exercícios em torno da imagem que abrangem
redutos disciplinares tão diferentes como a sociologia, a antropologia, os
estudos culturais, a semiologia, a psicologia social ou a história, e que ao
longo dos tempos edificaram modos singulares de tratar as suas imagens. O
estatuto epistemológico conferido às imagens é, portanto, divergente,
envolvendo considerações de ordem teórico-metodológica diferenciadas. Por outro
lado, no contexto de uma expansão sem precedentes dos aparelhos audiovisuais e
media digitais, revela-se mais útil uma análise das novas oportunidades e
desafios que se colocam a um trabalho de pesquisa no terreno, que compreende
observação e recolha de dados. Além do mais, é vasta a história da participação
das tecnologias visuais enquanto colaboradores eficazes na perscrutação das
particularidades visíveis da cultura. Exige-se, neste momento, uma reavaliação
de práticas e um reequacionamento da condição das imagens científicas num mundo
em intensa mudança.
A relação das ciências sociais com as imagens, apesar de ser antiga, não é
pacífica. As imagens foram e são utilizadas basicamente enquanto signos
analógicos que nos transmitem informações sobre uma realidade observável. É
esta qualidade mimética que converte a fotografia e, mais tarde, o filme em
poderosas ferramentas para a captação isenta, mensurável e fidedigna de pedaços
do real. No entanto, o logocentrismo da academia tornou difícil a admissão da
imagem enquanto dado científico, fomentando uma disjunção forçada entre o reino
da imagética e da palavra. Neste cenário, as subdisciplinas visuais erigiram
uma trajectória peculiar que muito se deve à posição periférica das suas
propostas e protagonistas. A imagem ocupa, ainda hoje, um lugar marginal,
estando confinada ao reduto de especialistas, sendo divisada como recôndito
exclusivo das subdisciplinas visuais.
Esta é uma situação que, nas últimas décadas, se tem invertido com o crescente
interesse votado por parte de académicos e estudantes aos dispositivos visuais
e audiovisuais, facto que estará certamente associado ao papel que estes
assumem no quotidiano das gerações mais novas. Neste momento, a utilização dos
sistemas visuais e da imagem, quer para o aperfeiçoamento da pesquisa, quer
para a constituição de conteúdos e textos científicos, parece ter um futuro
auspicioso. A facilidade de manuseio e a economia de meios e esforços que as
máquinas permitem são, claramente, factores que fomentam o uso de diversos
tipos de equipamento nos afazeres científicos. Daí que, actualmente, o
aproveitamento da tecnologia áudio, visual ou mista, ameace o monopólio detido
pelos especialistas. As suas vantagens operacionais são admitidas por
diferentes áreas disciplinares, que as convertem em utensílios para o
desenvolvimento de práticas metodológicas variadas.
A imagem e os meios visuais não podem ser entendidos como substitutos da
palavra, das suas tecnologias e convenções. O seu papel deve ser negociado em
função de uma economia de meios e de uma filosofia de pesquisa que defina
claramente os objectivos da sua integração. Estes devem ser sempre empregues
numa óptica de complementaridade e enriquecimento de procedimentos, estimulando
a exploração de novos caminhos para as ciências sociais. De outro modo,
corremos o risco de aceitar como legítimas as versões ingénuas de uma pesquisa
subjugada à pulsão visual e ao deslumbramento tecnológico, que agitam muitos
daqueles que, hoje em dia, ambicionam trabalhar com as imagens. O principal
desafio reside, precisamente, em descobrir formas equilibradas e convincentes
de reunir linguagens e métodos de trabalho tradicionalmente desencontrados,
marcados por longas disputas intelectuais. Tirar partido destes discrepantes
legados, sendo apesar de tudo fiel aos pressupostos mais consensuais da
academia, não é uma tarefa fácil. No entanto, é algo que tem vindo a ser feito
por muitos investigadores em anos recentes, ensaiando novos caminhos ou
buscando maior credibilidade para outros não tão novos.
Devem rarear os etnógrafos que nunca registaram, através da fotografia,
episódios ou artefactos relativos ao seu trabalho de campo. Que falta então
fazer? Existe um amplo fosso entre a captação espontânea e intuitiva de imagens
e a sua utilização programática, epistemologicamente orientada. Esta enorme
distância apenas nos indica que, se a vontade e os aparatos tecnológicos
existem, escasseiam, ainda, fundamentos epistemológicos que tornem esta prática
para além de apetecível, viável e, acima de tudo, ajuizável pelos pares. Este é
um passo fulcral para uma credibilização da imagem enquanto recurso heurístico.
Porém, nunca é demais afirmá-lo, o poder e a magia da imagem aconselham
cautelas, de modo a não sermos colhidos na voragem de uma pulsão escópica, em
múltiplos sentidos voyeurista, que o consumo e produção de imagens suscitam. As
desmesuradas precauções académicas parecem lentamente estar a dar lugar a uma,
nada saudável, paixão pela imagem, pouco controlada epistemologicamente (na
medida em que a epistemologia da imagem está, em grande medida, ainda por
fazer). Urge, por isso, longe de atitudes dogmáticas e de proposições
arrebatadas de iconofobia ou de iconolatria, reequacionar o papel e o lugar das
máquinas e das gramáticas visuais para a examinação e descrição do mundo. É
isso que se exige a uma comunidade científica com capacidade reflexiva,
perspicaz a monitorizar e reavaliar as suas práticas e doutrinas,
suficientemente flexível para se saber adaptar a novos ambientes socioculturais
e tecnológicos.