Sobre a noção de mundo nos discursos culturais contemporâneos: relações entre
universal e diversidade
O mundo pode ser apreendido no seu registo mais imediato, como um astro
descrito por instrumentos astrofísicos (científicos, religiosos ou mitológicos,
que diversas épocas ou culturas, de alguma maneira, mobilizaram), cuja relação
se estabelece com outros astros, em geral condicionados aos interesses de
explicação deste mundo. Nesse sentido, o mundo apresenta-se como uma
particularidade no meio de um universo, uma parte de um todo, ainda que as
outras partes possam muitas vezes ser vistas como satélites, em referência a
esta particularidade.
Contudo, a física não detém o monopólio deste vocábulo. Ele é apreendido nos
mais diversos registos, assumindo outras significações. O mundo já foi pensado
em relações temporais, sendo dividido, por exemplo, em mundo antigo e moderno
(para pensarmos na Querelle); também em relações espaciais, quando o mundo pôde
ser dividido em novo e velho (vocábulos temporais usados na época das grandes
navegações para definir espacialmente o globo); por aspectos culturais e
religiosos, quando o mundo pôde ser cristão ou islâmico, etc. Estas visões não
são novas, nem, ironicamente, mundiais. Estão aí há séculos, e em geral
definem-se a partir de uma visão eurocêntrica. Desta maneira, o mundo novo é
criado para ser dominado pelo antigo (em termos espaciais); o antigo (em
termos temporais) para legitimar o moderno, em especial quanto à sua produção
artística; e o mundo islâmico para ser contraposta ao mundo cristão.
O que trazem de peculiar estes exemplos é a proposta de universalidade dos
discursos. Por mais que haja uma aceitação do diverso (expressa nas oposições),
tal ocorre de maneira negativa, ou seja, como algo a ser evitado ou mesmo
excluído. Um dos conceitos de mundo, em vista das suas oposições, deve
prevalecer e ser então a explicação necessária para o mundo-como-um-todo.
Este é um fenómeno que atinge o seu apogeu no século xix (Ortiz, 2007, p. 7),
quando categorias explicativas são mobilizadas para organizar as
particularidades, a ponto de negá-las em benefício de uma explicação universal.
O mais importante deste período, e o que lhe permite legitimar tais categorias,
é a vinculação científica das proposições que, pretensamente, se baseiam em
provas irrefutáveis e, portanto, elas próprias universais: válidas sempre e
para todos.
A ideia de progresso, por exemplo, que se torna entre 1750 e 1900 uma ideia
dominante na mente ocidental (Nisbet, 1980, p. 171), é pressupostamente
científica. São longas as descrições de um Condorcet, ou mesmo de um Comte e de
um Turgot, para comprovarem que o mundo evolui em passos contínuos e dirigidos.
É por essa suposta unidade que se pode, enfim, conciliar uma visão
universalista do homem, ou melhor, de humanidade, que nessa época se forma como
episteme nas sociedades ocidentais (Foucault, 1994), com a visão de povos
indígenas, como exemplo mais óbvio, mas também de camponeses europeus
valorizados pelos românticos de vidas tão diferentes daquelas da moderna
Europa. Basta, para tanto, como se fez, afirmar que estes estão em estágios
diferentes de evolução, mas que o fim da seta da história é comum, sendo esta,
portanto, uma seta que se insere numa história universal. E mais: que a
perseguição dessa seta deve ser administrada (à força, evidentemente) por
aqueles que já chegaram a seu fim: os europeus da modernidade. Também é nessa
época que surge a ideia de história da arte (e mesmo a ideia moderna do artista
[Guignon, 2004, pp. 70-71]), que permite coordenar a arte do presente até ao
passado, reunindo a diversidade temporal num conjunto único, homogéneo e
evolutivo, que a história pode contar a partir do mundo da arte. Como escreveu
Hans Belting, a arte foi sabidamente uma ideia da época do iluminismo, que
nela reconhecia uma validade atemporal e universal, para além de todas as
diferenças entre os produtos artísticos individuais: atemporal e universal como
os direitos humanos mesmos, deviam ser válidos para todos os homens
individualmente tão diferentes (Belting, 2006, p. 144). Também as teorias
racistas, como as de Gobineau e Buckhardt, se basearam na ciência para suporem
uma história universal e homogénea da humanidade, resolvendo a questão racial.
Um exemplo disso está na negação desses teóricos da validade das incorporações
judias na cultura clássica exacerbando o papel do arianismo , sendo essa
válida para se explicar o mundo moderno (Goody, 2006, p. 31). Nesse sentido,
arrancou-se da história aquilo que não lhe cabia, mantendo-a universal.
Se essas categorias explicativas foram fundamentais para se firmar uma visão
universal do mundo e, assim, tratá-lo como algo uno e homogéneo, a formação dos
estados-nação é parte da sua expressão material. Foram estes que permitiram a
realização de um ideal de universalidade, aniquilando para tanto as
particularidades das culturas regionais, incluindo aí rituais, línguas,
manifestações artísticas, costumes, etc. Contudo, se no seu movimento interno
as formações nacionais são processos universais, em relação umas com as outras
são formações de particularidades, no sentido de que cada nação é uma nação
singular. A solução para esse impasse realiza-se pela valorização da
universalidade do processo. Por um lado, o peso do discurso é colocado no
processo interno da formação nacional, na valorização da criação de uma cultura
nacional, válida para todos aqueles participantes daquela entidade, como
defendiam os pré-românticos como Herder, e algo possível de ser pensado num
período pré-globalização, no qual os Estados funcionavam como entidades
interrelacionadas, mas ainda assim autónomas. Por outro lado, mais radical, a
positividade da universalidade dá-se pela ideia de que a nação era a
materialidade necessária para que se formasse no futuro uma única nação, que
reunisse todas as outras e se realizasse no mundo em si, algo próximo do que
pensava Kant (Nisbet, 1980, p. 223).
Se podemos dizer que o universal é uma ideia marcante de uma época e de um
local, bem caracterizada pelo século xix europeu, precisamos de ponderar esse
registro. Em primeiro lugar, o universal não surge nesse século. O que ocorre é
que nele se encontram categorias explicativas e formações materiais que lhes
dão campo para sua prevalência. Em segundo lugar, que isto não se dá sem
conflitos. Há movimentos contrários, como aqueles empreendidos pelos românticos
e folcloristas. De qualquer maneira, o que marca essa época é que mesmo os
discursos que buscam valorizar as particularidades se baseiam em valores que se
supõem universais, em narrativas que valem para todos, e para qualquer tempo.
Assim, tornar-se nação é algo que vale para todos os povos, e todos os povos
incapazes deveriam ser anexados aos mais aptos. Ser uma nação é uma demanda
universalista, demanda esta que tem como receita a valorização das culturas
tradicionais, dos folclores de cada lugar, o que deve ser feito
independentemente das particularidades, pois o processo devia ser coincidente.
Com isso, o que argumentamos é que o mundo, ainda que ciente das suas
particularidades, poderia ser explicado e discursado a partir de uma
perspectiva universal.
A pergunta que se faz é se isso se aplica às sociedades contemporâneas. Vários
autores apontam uma resposta negativa. Nisbet, por exemplo, um incondicional
estudioso da ideia universalista do progresso, que chega a dizer com muito
esforço, é verdade que tal ideia prevalece no mundo há vinte cinco séculos
(Nisbet, 1980, p. ix), concede que essa não tenha a mesma força na
contemporaneidade. Diz ele, um tanto resignado: eu estou bem ciente de que há
agora e houve na maior parte do século [xx] desafios à crença no progresso
(Nisbet, 1980, p. 297). Outro exemplo da derrocada da força discursiva do
universal encontra-se em Lyotard, quando diz que o recurso dos grandes relatos
está excluído (Lyotard, 1986, p. 111) e que o princípio de uma metalinguagem
universal é substituído pelo da pluralidade de sistemas formais e axiomáticos
capazes de argumentar enunciados denotativos, sendo estes sistemas descritos
numa metalíngua universal mas não consistente (Lyotard, 1986, p. 79). No campo
que nos vai interessar mais neste artigo, o da arte e da cultura, o diagnóstico
é o mesmo, quando se toma os escritos de autores como Hans Belting e Arthur C.
Danto, que argumentam que a história da arte acabou.
Sendo a nossa proposta, aqui, discutir como o mundo é percebido na esfera
cultural, e já que argumentámos que anteriormente isso se dava pela ideia do
universal, devemos perguntar-nos então qual o discurso que toma a sua posição.
Ortiz dá-nos uma boa pista ao tratar da língua. Retomando o mito de Babel, ele
diz que a variedade linguística foi uma maldição de Deus aos homens, como
descrita na Bíblia, sendo que hoje a mesma variedade é vista como a maior das
bençãos (Ortiz, 2008), devendo mesmo ser protegida e incentivada por medidas de
política internacional; as acções contemporâneas da Unesco são bons exemplos
disso. A partir destas ideias, Ortiz é capaz de afirmar que hoje há uma
inversão das expectativas. O diverso é sinónimo de riqueza, património
intocável. Cada idioma, na sua modalidade, é um universo irredutível aos
outros, sua morte seria uma perda para o conjunto das visões de mundo dos
diferentes povos (Ortiz, 2008, p. 12). Assim, é a diversidade que passa a
assumir o sinal de positivo, que antes o universal detinha, restando para esse
a negatividade. Isso vê-se em vários textos, tanto os que criticam quanto os
que celebram a diversidade. Damos apenas alguns exemplos, algo aleatórios.
Primeiro dos críticos desta ideia: em poucos anos, diversidade se tornou a
ideia cultural mais visível da América (Wood, 2003, badana do livro);
realmente, diversidade se tornou virtualmente um conceito sagrado na vida
americana hoje (Michaels, 2006, p. 12). Depois os celebrativos: o advento da
tecnologia digital é uma boa notícia para aqueles que gostam da diversidade, e
nós acreditamos que no fim das contas todos gostam (Kusek, 2005, p. 163);
estando ciente que a diversidade cultural cria um mundo rico e variado, que
aumenta a abrangência das escolhas e nutre os valores e capacidades do homem,
e, assim, é a fonte principal para o desenvolvimento sustentável de
comunidades, povos e nações (Unesco, 2005).
Note-se que nos nossos exemplos não há descrição de diagnósticos, mas a
afirmação de uma situação contemporânea que se pressupõe inegável. A
diversidade torna-se uma realidade, o nosso Zeitgeist. Convém, agora,
dedicarmo-nos a reflectir sobre isso, entendendo a questão da diversidade na
sua articulação para a percepção que temos do mundo hoje. Para tanto, vamos
dedicar-nos aos aspectos culturais, pensando, então, como nesses aspectos o
mundo é apreendido.
Comecemos, por razões metodológicas, por afirmar a validade do discurso da
diversidade na contemporaneidade. Pensemos nas artes plásticas e, em especial,
na questão dos movimentos artísticos, tão frequentes até a primeira guerra
mundial (com os seus ismos), e que, especialmente a partir dos anos 60,
desaparecem do horizonte. Parece-nos que o comentário de Hans Belting sobre o
Primeiro Manifesto, de 1918, do movimento holandês De Stijl, caracteriza bem o
que seria um movimento artístico de então:
O predomínio do individual tinha de ser interrompido, aniquilado mesmo,
para que o universal pudesse vencer mas isso era bem menos claro de definir:
tratava-se da fórmula de uma clareza geral e abstrata em que todas as coisas,
assim como todos os sentimentos, se dissolviam em formas puras. [...]. A
história, não importa a que preço, devia ser iniciada novamente e colaborar
para a vitória do estilo universal, em que o homem não desempenhava mais
papel algum [Belting, 2006, p. 47].
Nesse sentido, o universal é contraposto ao indivíduo algo, aliás, que Simmel
(2006) tratou muito bem e na mesma época do movimento holandês , sendo que o
segundo devia ser negado em benefício da realização do primeiro. O que
interessa, contudo, é perceber que esses movimentos buscavam afirmar uma
verdade válida para todos os homens e, mais especificamente, para todos os
artistas. Os manifestos não se davam simplesmente para marcar uma posição em
relação a outras tantas, mas para marcar a verdade da arte, verdade esta que
fora descoberta e que deveria ser seguida por todos.
Interessante para nós é contrapor esse tipo de visão sobre a arte com aquela
que Andy Warhol manifestou numa entrevista em 1963:
Como você pode dizer que estilo é melhor que outro? Você deve ser capaz de ser
um Expressionista Abstrato na próxima semana, ou um artista Pop, ou um
Realista, sem o sentimento de que você está desistindo de algo [in Danto,
2005b, p. 182].
Nestes 45 anos que separam uma declaração da outra, é óbvia a mudança de humor
nas artes. Se em 1918 averdade era procurada e um movimento artístico era capaz
de manifestá-la em negação a tudo mais, em 1963 esta verdade é opressora. O que
o artista agora quer é livrar-se daquilo que é universal e criar os seus
discursos individuais, independente do movimento em que recair. Afinal, poder
ser um Expressionista Abstracto um dia, ou um artista Pop no outro, significa
poder ser qualquer coisa, conforme as suas vontades e impulsos, sendo que a
descrição de um artista não mais deve partir de uma categoria universal (o
estilo, a época, ou o movimento), mas sim da expressão individual do artista,
do seu estilo particular. É isso que Belting parece afirmar ao dizer que: se
hoje a arte refere-se em geral à história, é cada vez menos à assim chamada
história da arte e cada vez mais à história de um grupo ou de uma convicção que
mais uma vez procura o espelho da arte (Belting, 2006, p. 84). Seria, então, a
história universal quebrada em pequenas histórias, sendo que as teorias dos
artistas ocuparam o lugar da antiga teoria da arte. Onde falta uma teoria geral
da arte, ali os artistas reservam-se o direito a uma teoria pessoal que
expressam em sua obra (Belting, 2006, p. 30).
Isso bem se parece com a visão pós-moderna de Lyotard, que se define pelo fim
dos metarrelatos, ou, como ele mesmo afirma, pela incredulidade em relação aos
metarrelatos, o que dá lugar ao surgimento dos pequenos relatos, como os dos
artistas individuais.
Pois é justamente essa base teórica pós-moderna que nega o universal e aponta
a diversidade como o espírito do tempo contemporâneo , que permite aos
críticos de arte aqui trabalhados afirmarem o fim da história da arte ou, ao
menos, o fim da até então existente história da arte (é assim que Belting trata
do tema). Contudo, ao colocarmos uma questão simples, vemos que o assunto é bem
mais complexo. A pergunta que fazemos é a seguinte: se a história da arte
acabou, é de se supor que a história da crítica de arte claramente subalterna
da primeira também acabou. Então, o que legitima estes críticos a proferirem
tais discursos como críticos de arte, e terem as suas teorias lidas, ouvidas e
repetidas como advindas de reais conhecedores do assunto? Raymonde Moulin
parece mostrar que a nossa pergunta faz algum sentido. Diz ele que os museus
de arte contemporânea são, pela aura do lugar e pela erudição do conservador, a
instância maior de validação da arte (Moulin, 2007, p. 30). No mundo da arte,
a erudição do conservador, que valida a maior instância de validação da arte, é
medida justamente pelos seus conhecimentos da arte e da história da arte.
Portanto, o que argumentamos é que dizer que a história da arte acabou não
resolve o problema. A pergunta mais correcta seria: se a história da arte já
não serve para a análise artística, qual a função que assume no mundo
contemporâneo? Mas essa resposta não vamos dar, pois foge da nossa alçada. O
que nos interessa é pontuar, analogamente, a discussão num registo não da
oposição entre universal e particular (ou diversidade1), mas sim das suas
relações. Queremos propor que o universal e a diversidade se operam na
contemporaneidade, mas de modo singular, que precisa ser estudado. É a partir
desta percepção que podemos compreender como o mundo é hoje discursado e
percebido.
Os universais da diversidade
O universal e a diversidade são discursos que, contudo, possuem bases
materiais, ou seja, que se realizam, que se tornam práticas sociais,
instituições, obras artísticas. A relação entre tais discursos e as bases
materiais é que interessa para a discussão, pois se essa se ativesse apenas aos
primeiros trataria de coisas de menor relevância, pois sem impactos sociais,
enquanto que, pelo contrário, as bases materiais estudadas isoladamente perdem
muito da explicação das suas formações e, especialmente, das suas reproduções.
Ao tratarmos assim do tema, podemos então perceber que o discurso que anuncia o
fim do universal não encontra a base material necessária para a sua sustentação
e, portanto, é no mínimo incompleto. Como desejamos mostrar aqui, a análise da
relação entre bases materiais da sociedade e os discursos (dentro do foco
cultural a que nos propusemos) aponta para uma relação de conflito, no qual se
estende o universal e a diversidade, e no qual o mundo passa a ser percebido.
Vemos a complexidade dessas relações quando notamos que o discurso que apregoa
o fim do universal não pode, ele mesmo, inserir-se na proposta da diversidade.
Isso porque, quando se toma o discurso em si, nota-se que ele busca uma
realização do ideal universal, ou seja, pretende impor-se como uma verdade que
nega as outras contestantes. Quando, por exemplo, se afirma que os metarrelatos
acabaram, e o que prepondera são os pequenos relatos, ou o mesmo quanto ao fim
da história da arte, usa-se um discurso que pretende afirmar-se como a verdade
da situação contemporânea. O universal que é negado é-o por uma proposta
universal. É neste sentido que Bourdieu nos parece seminal ao afirmar que:
Se existe uma verdade, é que a verdade é uma aposta de lutas; e, se bem que as
classificações ou os julgamentos divergentes ou antagonistas dos agentes
comprometidos no campo artístico sejam indiscutivelmente determinados ou
orientados pelas disposições e os interesses específicos associados a posições
no campo, a pontos de vista, o fato é que são formulados em nome de uma
pretensão à universalidade, ao julgamento absoluto, que é a própria negação da
relatividade dos pontos de vista. O pensamento essencial está em ação em
todos os universos sociais e muito especialmente nos campos de produção
cultural, campo religioso, campo científico, campo literário, campo artístico,
campo jurídico etc., onde se jogam jogos que têm por aposta o universal
[Bourdieu, 1996, p. 332].
A relação entre materialidade e discurso que estamos a analisar aqui parece-nos
mais clara quando tomamos hoje como sinónimos dois termos obviamente
antagónicos: diversidade e identidade. Walter Benn Michaels ao tratar do tema
da diversidade deu ao seu livro o seguinte título: The Trouble with Diversity:
How we Learned to Love Identity and Ignore Inequality [O Problema da
Diversidade: Como Nós Aprendemos a Amar a Identidade e Ignorar a Desigualdade].
Nota-se, pela leitura, que diversidade e identidade, na verdade, são tratadas
na mesma esfera. É o mesmo que se sucede quando os povos buscam, pelo discurso
da diversidade, afirmar as suas identidades. Contudo, a identidade é justamente
uma realização do universal, já que procura a criação de um conjunto simbólico
que se aplica a todos e sempre, desde que sejam parte deste conjunto. A
identidade, por outras palavras, não aceita a particularidade do indivíduo que
deve ser subsumida ao grupo, seja lá de que abrangência for. O que explica,
então, esta coordenação de termos? Propomos que isso se verifique porquanto a
diversidade só pode aplicar-se plenamente como discurso se se realizar a partir
de um ideal universalizante, já que se insere em relações sociais nas quais
códigos comuns um mínimo de universalidade são necessários.
Negamos assim, na essência, a oposição entre universal e diversidade. Desse
modo sentimo-nos mais livres para podermos compreender de que forma se
expressam as suas relações. Comecemos no debate da história da arte
contemporânea, contrapondo duas visões.
A primeira visão é aquela que descreve a arte contemporânea pela perspectiva da
particularidade, quer quanto à ideia da individualização do gosto (primeira
citação), quer no que toca à individualização do estilo (segunda citação):
Quando eu discuti o trabalho de Jeff Koon com ele em seu estúdio há não muito
tempo, eu perguntei que resposta ele espera que seu trabalho venha a ter. Sua
esperança, ele me disse, é que os espectadores se tornem confiantes de seus
julgamentos e de seus gostos. [Segundo o próprio Koon:] Não se divorcie de seu
ser verdadeiro, o abrace. [...]. Imperativo é: seja você e não finja ser
alguém diferente que você pensa ser superior a você. Seus gostos estão certos
do modo como estão [Danto, 2005b, p. 291].
Há um longo tempo, desde que o progresso não representa mais a produção
artística e desprendeu-se do frívolo e letárgico remake, todos os estilos são
admitidos, um ao lado do outro, e é deixado à escolha de cada artista o tipo de
arte que ele quer fazer [Belting, 2006, p. 21].
De outro lado, vemos os mesmo autores pensando na arte como algo que se repete,
que se apresenta igualmente em vários artistas, independente das suas
particularidades (identitárias ou mesmo individuais):
Não há, de modo contrário, muito a se distinguir hoje entre a arte feita pelos
americanos e a arte feita por qualquer um em qualquer outro lugar. O mundo da
arte foi globalizado como o resto da vida, e os tipos de coisas que alguém vê
em exposições internacionais raramente dividem-se por linhas nacionais [Danto,
2005a, p. 265].
A arte universal emerge finalmente como a quimera de uma cultura global pela
qual a história da arte é desafiada como um produto da cultura européia
[Belting, 2006, p. 11].
A pergunta que fica é a seguinte: se os estilos e os julgamentos de gosto se
individualizaram respectivamente nos artistas e nos espectadores, como é
possível dizer-se que a arte é parecida em todo mundo e, mais, que haja uma
arte universal? Dentro da perspectiva do nosso texto, como pode haver o
universal num mundo tão particularizado?
A resposta a esta questão parece passar pelo processo de globalização. Contudo,
antes de trabalharmos nesta perspectiva, que nos parece acertada, é preciso
desfazer uma confusão bem comum. Globalização não é universalização, como já
bem salientou Renato Ortiz, (2008, p. 152). Isso porque a globalização não
apenas universaliza ou particulariza os fenómenos sociais. Ela actua na
transversal destes fenómenos, relacionando o universal com o particular, sendo
que ao mesmo tempo em que universaliza o particular no momento em que o
desterritorializa particulariza o universal no momento em que o
reterritorializa. É por isso que podemos encontrar hoje discursos como os que
vimos acima, e concordar com ambos os pontos de vista, pois eles possuem bases
materiais. Buscando exemplos numa outra área cultural, é comum acedermos a um
site de música e vermos videoclipes de artistas das mais diversas culturas que,
contudo, parecem tão similares: racionalização dos instrumentos, colocação
vocal, tempo de duração da música, valorização da expressão corporal, tudo
parece seguir uma regra muito parecida. Isso porque, se a globalização não
impõe o universal, ela hierarquiza o particular.
O mercado cultural tem grande relevância nesta hierarquização. Foquemo-nos por
mais um momento no mercado de artes plásticas. Raymonde Moulin aponta que:
A especificidade das três últimas décadas reside no fato de que o mercado da
arte, no que diz respeito às obras mais caras, de um lado, e às obras
contemporâneas, de outro, não funciona mais como uma justaposição de mercados
nacionais que se comunicam mais ou menos bem entre si, mas como um mercado
mundial. Cada espaço artístico nacional está inserido em um sistema global de
trocas culturais e econômicas. A circulação dos homens, das obras e da
informação favorece a interconexão dos mercados. A informação sobre a cotação
das obras em venda pública é instantânea e planetária. O mesmo vale para os
conjuntos de índices através dos quais é avaliada a reputação dos artistas
[Moulin, 2007, p. 51].
As regras da arte mundializam-se e os mercados nacionais devem condicionar-se a
elas. Contudo, esta mundialização não se dá sem uma relação de poderes. Ao
contrário, são alguns (poucos) mercados que possuem o poderio económico, mas
também ideológico (no sentido de que a legitimação da arte é dada por uma
história contada a partir de uma perspectiva ocidental), capaz de hierarquizar
os outros mercados. Isso nota-se pelo facto de que o o mercado [norte-
] americano [de arte] representa sozinho quase a metade do mercado mundial e do
Reino Unido, um quarto. Os locais mundiais dominantes são, pela ordem, Nova
Iorque, Londres e Paris (Moulin, 2007, p. 52).
Estes mercados, além de representarem quase a totalidade do público consumidor
de arte, também têm nos seus contornos as instituições responsáveis por este
comércio. Essas são apenas duas, concentrando quase todo o mercado mundial de
arte: Sotheby's (que em 2002 vendeu um total de 1,77 biliões de dólares) e
Christie's (que no mesmo ano vendeu 1,9 biliões de dólares). É interessante
notar que, embora estas empresas estejam, cada uma, em mais de quarenta países,
as suas vendas são predominantemente para os mercados norte-americano e
europeu. A Sotheby's vendeu para os dois mercados em 2002 1,68 biliões de
dólares (ou seja, 95% de suas vendas totais), enquanto para os mesmos mercados
a Christie's vendeu 1,695 biliões (ou seja, 89% do total de vendas) [Moulin,
2007, pp. 54-55].2
Este predomínio económico reflecte-se em termos de consagração artística, a
qual, ademais, se soma à história contada a partir justamente da perspectiva
destes mercados. Não é difícil concordar que os museus, as galerias, e as
outras casas de arte mais valorizados do mundo se encontram nos Estados Unidos
e na Europa.
Com isso é possível entendermos como o universal e a diversidade se relacionam
neste mundo da cultura. Num mercado que se globaliza, actores de várias
culturas são chamados a participarem nele, sendo tal condição mobilizada pela
ideia da diversidade. Contudo, tal acção dá-se numa estrutura gerenciada, de
valores que se pretendem universais, aos quais a diversidade deve adaptar-se. É
preciso analisar isso um pouco melhor, e gostaríamos de fazê-lo segundo duas
perspectivas: a primeira quanto à relação entre duas culturas diferentes; a
segunda quanto à divisão do trabalho artístico na globalização.
A interacção entre pessoas de distintas culturas, embora sempre possível,
necessita da capacidade de tal pessoa em adquirir os instrumentos da outra
cultura e da sua inserção nos seus padrões, ou seja, na sua tradição. Como
argumenta Ruth Benedict, pensando na música, a mais rica sensibilidade musical
apenas pode operar com o equipamento e padrões de sua tradição. Isso [a
interação] acrescentará, de modo mais importante, àquela tradição, mas tal
sucesso permanece em proporção aos instrumentos e teoria musical que a cultura
forneceu (Benedict, 2005, p. 252). No mesmo sentido aponta Christian Kaden ao
dizer que: já há anos Gerhard Kubik mostrou que a música africana necessita
uma compreensão diferente correspondente e que a ela se poderá ser apenas
parcialmente justo, se se utilizar do paradigma da cultura tonal européia (in
Bartmann, 2001, p. 13). O mesmo que foi descrito para a música vale para as
outras artes, e assim se, como mostramos, o mercado internacional da cultura
é dominado por poucos países inseridos nas suas culturas particulares é de se
esperar que as outras culturas acertem os seus ponteiros a este mercado.
É por isso que, conforme nos mostra Timothy Taylor, nas paradas de World Music
(justamente aquela música definida como originária fora do eixo anglo-
americano [Shuker, 2005, p. 279]) da revista de referência Billboard são os
músicos ocidentais que dominam. E ainda causa menos surpresa (e mais arrepio,
talvez), que entre 1991 e 1995 o Grammy, na categoria World Music, mais uma
vez, tenha premiado sempre composições de artistas em que pelo menos um dos
membros era europeu ou norte-americano, com a excepção do prémio concedido ao
brasileiro Sergio Mendes, a bem dizer, radicado desde 1967 nos Estados Unidos
(Taylor, 2005, pp. 7, 11). Isto faz sobressair dois aspectos. O primeiro diz
respeito à condição de consagração. Músicos como Stewart Copland (ex-The
Police), e Paul Simon, legitimam esta música não-ocidental, algo que os
artistas da música em referência não seriam capazes sozinhos. O segundo, é que
estes artistas ocidentais interferem na música, e garantem-lhe algo que podemos
chamar mínimo necessário de reconhecimento perante o público consumidor,
predominantemente europeu e norte-americano. É neste mesmo sentido que, de novo
em relação às artes plásticas, Belting se refere a Nam June Paik, pai da
videoarte: o ex-principal protagonista do grupo Fluxus, que esconde com prazer
seu silêncio sob o ruído de uma miscelânea de imagens, sempre se distinguiu,
por outro lado, com ideias de origem não-ocidental, mas que pareciam aceitáveis
devido às suas boas formas ocidentais de expressão [Belting, 2006, p. 103].
Nesta condicionante que a diversidade sofre perante o universal no processo de
globalização, o artista que procura inserir-se no mercado mundial deve
encontrar o seu espaço, que muitas vezes será limitado. Diz-se que hoje todos
podem fazer arte, já que o estilo se individualizou e o mundo presta mais
atenção às diversas culturas, sendo a entrada para o mundo da arte uma porta
aberta. Contudo, se para alguns tal entrada pode dar-se por várias portas,
sendo que, ainda, esses podem entrar várias vezes por portas diferentes, a
outros a entrada é única, e por apenas uma porta. A valorização étnica
mobilizada em contraposição tanto a algumas culturas nacionais, em especial as
dos países ocidentais, quanto à cultura internacional-popular passa a ser a
tal porta de entrada para os artistas alheios ao centro do mercado mundial da
cultura. Como escreveu Belting, no caso dos aborígenes, não apenas a suposta
analogia mas também o contraste real atraíam o visitante para uma armadilha;
agora eles produzem para um mercado de arte ocidental, que sabem que aprecia a
arte de aborígenes' porque já estão saturados de seus próprios produtos
(Belting, 2006, p. 102). No fundo trata-se de uma colonização com outros meios
e ela oferece no cenário artístico apenas a seguinte escolha: take it or leave
it. Aí também são permitidas especificamente propostas étnicas' nas mídias
imagéticas, pois proporcionam para o Ocidente antes de tudo um álibi desejado.
(Belting, 2006, p. 99). O álibi desejado é o que permite falar-se hoje em
diversidade, uma diversidade condicionada, no entanto, às regras que se propõem
universais.3 Com isso, os artistas que precisam das suas identidades
valorizadas na globalização a elas se prendem, e apenas sobre elas podem
produzir criativamente. E, deste modo, quando se fala em arte hoje, e quando se
valoriza nela a diversidade cultural, na verdade o que se indica é justamente
uma divisão do trabalho na qual alguns actores são destinados a produzirem a
variação gerenciada de um produto inserido num mercado global, e que, desta
maneira, se valoriza e se legitima para aqueles outros actores que se mobilizam
em torno das identidades que eles próprios escolhem.
Assim, nota-se que a diversidade, tão temida por uns, e tão celebrada por
outros, não circula livre e solta pelo mundo. O universal, ao contrário, é o
seu par constante, o seu guia e condutor. É só por isso que a Unesco, quando
escreve a sua Convenção para Protecção e Promoção da Diversidade das Expressões
Culturais, pode dizer que Diversidade cultural pode ser protegida e promovida
apenas se os direitos humanos e as liberdades fundamentais [...] são
garantidas (art.º 2, item 1), e assim condicionar a diversidade a um valor dos
mais universais em operação no mundo hoje: as provisões da Declaração Universal
dos Direitos Humanos da ONU4.
Neste cenário, no qual o universal e a diversidade se articulam e não se opõem,
podemos dedicar um resto de páginas para discutirmos, dentro da perspectiva
cultural, de que forma o mundo é percebido hoje.
A percepção do mundo na globalização
Enquanto vemos o mundo como estamos habituados a vê-lo, não o vemos como um
modo de ver: simplesmente vemos o mundo. Nossa consciência do mundo não faz
parte das coisas de que estamos conscientes [Danto, 2005a, p. 240].
A proposta de Danto é bem pertinente. Lembra aquela feita por Bahktin, pela
qual um homem que pudesse ver a uma distância infinita e estivesse no topo de
uma montanha, tudo veria menos a si próprio (Bahktin, 1997). O mundo, como um
todo, precisa da sua oposição para que os homens sejam conscientes dele, possam
apreendê-lo e discursá-lo. Dentro das visões universalistas, esta oposição
ocorria em escala. A Cidade dos Homens e a Cidade de Deus, serviram a este
propósito na era cristã; o discurso sobre os povos primitivos serviu para que
os europeus apreendessem o mundo, no século xix, a partir da sua perspectiva.
Qual é então, a oposição que anima a nossa percepção do mundo na cultura
contemporânea?
Podíamos começar a tatear a discussão a partir da geografia (quanto à oposição
de espaços), e dizer que hoje esta se define por marcos aleatórios. Um exemplo
disso: já dissemos que a World Music (trabalhamos com este termo exactamente
por ter o mundo como sua definição) foi criada para indicar a música alheia ao
eixo anglo-saxónico, sendo que desde 1987, ano de sua definição por gravadoras
europeias e norte-americanas (não por aquelas dos países aos quais o termo
passou a referir-se), esta categoria musical passou a rotular a música não-
ocidental (em termos regionais e de estilo). Contudo, proliferam momentos em
que vemos a categoria ser aplicada ao próprio território norte-americano, ou à
música de países que estão longe de serem não-ocidentais, como é o caso da
música dinamarquesa, categorizada desta maneira.5 Nesta perspectiva, seria
possível argumentar que a geografia da Dinamarca, por exemplo foi
redefenida, colocando áreas suas, por via cultural, muito mais próximas de
Harare do que de Copenhaga. Desta maneira, a percepção do mundo, hoje,
permitiria uma reaproximação da geografia a partir dos discursos inerentes ao
mercado cultural.
Este argumento é válido e não vamos abandoná-lo. Contudo, merece uma ponderação
para podermos seguir: a geografia nunca teve o monopólio na definição espacial.
Como salienta Jack Goody, pensando numa perspectiva pretérita,a religião
mapeia o mundo para nós parcialmente de maneiras arbitrárias, mas este
mapeamento adquire significados poderosos relacionando à identidade neste
processo. A motivação religiosa inicial pode desaparecer, mas a geografia
interna que este gera permanece, é naturalizado e pode ser imposto nos outros
como sendo de alguma maneira parte da ordem material das coisas [Goody, 2006,
p. 20].
E não é apenas a religião que possui a capacidade de definir o mundo
espacialmente. Foi o avanço industrial da Inglaterra e aí já dentro da
modernidade , com a sua subsequente necessidade de desenvolver o tempo
mecânico do relógio e, assim, controlar o tempo dos trabalhadores na fábrica,
que deu ao Reino Unido a prerrogativa de definir o meridiano longitudinal que
passou a aplicar-se ao mundo inteiro, coordenando o tempo e o espaço globais.
Mas há uma diferença: as percepções espaciais do mundo tinham uma perspectiva
do universal, enquanto hoje mais valem as particularidades valorizadas, e o
mundo passa a ser visto, na cultura, como uma colcha de retalhos, discursado a
partir de diversos pares de oposição. Quando se pensa em arte universal, por
exemplo, já não se pensa na arte comum ao mundo todo como antes mas na soma
das artes específicas de vários grupos ou regiões. O mesmo se passa com a
música, que ao ter a World Music como uma das suas categorias adoptadas, tentou
pontuar o diferente, aquilo que não é ocidental. Noutras palavras, o universal
não se dá mais pelo universal, mas sim pela soma das diferenças, articuladas
pela positividade da diversidade, e as diferenças é que desenham os pares de
oposição pelos quais o mundo é percebido.
Seria simples, e de certo modo reconfortante, acreditar que então as forças que
interferem nas percepções que as pessoas têm do mundo ao produzir as suas artes
se dão de forma igualmente distribuída. Contudo, por aquilo que esperamos ter
visto neste artigo, esta não é a nossa realidade. Pelo contrário. Ao
dissolver-se o mundo em diversas culturas, forças bem gerenciadas recolhem as
partes e reorganizam-nas numa visão universal que se impõe a todos. O mundo da
colcha de retalhos da cultura, na verdade, é um mundo costurado com linhas que
poucos detêm. Não é, afinal, pela diversidade em si que se percebe o mundo, mas
pela diversidade condicionada a processos globais.
Nesta perspectiva, as culturas e as suas respectivas visões de mundo são
hierarquizadas, e a partir destas hierarquizações são elas mesmas
ressignificadas. É o preço que se paga para participar do mercado global da
cultura. Já trabalhámos acima com as artes plásticas, campo em que nos parece
ter esta ideia ficado empiricamente mostrada. Mas é talvez na música que isso
se mostra mais claramente.
Lembramos, inicialmente, a concentração deste mercado. Em 2007, 83% das vendas
fonográficas no mundo concentravam-se em quatro empresas principais: a Warner
(norte-americana); a Universal (franco-norte-americana); a EMI (inglesa) e a
SonyBMG (nipo-germânica). Em termos de territórios de venda, cinco países
(Estados Unidos, Japão, Reino Unido, Alemanha e França) concentravam, em 2005,
75% (ABPD, 2005, p. 6) das vendas mundiais. Mais drástico, ainda, se pensarmos
nas vendas pela internet, quando em 2005 três países (Estados Unidos, Japão e
Reino Unido), dominavam 86% das vendas totais (ABPD, 2005, p. 7). Mas deixemos
isto em suspenso, por ora.
Sabemos que desde os românticos, a questão da autenticidade é a busca pelo
puro, por aquilo que é da natureza, sendo esta relacionada em geral com as
mulheres e as crianças. O homem adulto, ser da indústria e do comércio da
modernidade, enfim não teria a mesma condição de expressar a autenticidade
desejada. Essa é, pois, uma visão ocidental do que é autêntico. Contudo, é
interessante notar, como faz Timothy Taylor, que o padrão de World Music
produzido no mundo, em especial aquele que acaba por ser usado em propagandas
veiculadas em canais de televisão ocidentais, tem como base vocal a voz
feminina6. Como refere este autor em frase que relembra justamente o
romantismo a mulher está para o homem assim como natureza está para a
cultura (Taylor, 2007, p. 185), devendo-se notar, aqui, que a cultura é
tratada como artificialidade. Noutro momento, narramos a aventura de um
produtor fonográfico irlandês, radicado no Brasil, que no Acre conheceu um
índio a quem disse querer reconhecer a sua cultura autêntica. Para tanto,
enviou duas mulheres à floresta para que recolhessem junto aos seus anciãos os
cantos ritualísticos (Nicolau Netto, 2009). Interessa notar o facto de serem
mulheres e, algo que não contámos naquela oportunidade, que tais cantos se
transformaram em discos, cujos encartes vinham em três línguas ocidentais,
available for sale
Ora, quando se pensa no predomínio do mercado musical de poucos países e
empresas e na necessidade que os outros actores culturais têm de inserirem a
sua produção neste mercado, é possível concluir que tal inserção precisa de
passar por uma adopção da visão de mundo dos mais fortes. A cultura daqueles
locais que a globalização valoriza com a ideia da diversidade deve adaptar-se a
uma indústria carregada de percepções do mundo dos locais onde os seus mercados
consumidores são mais significativos. Como afirma Taylor, mais uma vez falando
sobre a World Music, um dos alcances desta indústria [da música] com respeito
a músicas foi a redução da vasta disponibilidade de músicas para um estilo'
reconhecível com apenas algumas características audíveis que podem ser
facilmente gerenciadas. Essa maneira de reducionismo torna mais fácil para as
grandes empresas gerenciarem uma potencialmente desgovernada categoria como
world music para o propósito de cálculo de venda, marketing, e varejo (Taylor,
2007, p. 142).
Com esta ideia poderíamos finalizar este artigo, mas antes gostaríamos de
juntar as pontas que ficaram desgarradas. Se, como propusemos, a percepção do
mundo da era cristã/medieval europeia passava pela oposição face ao
transcendente, no iluminismo, com o interesse pelo outro, a oposição é
predominantemente imanente. Na contemporaneidade da modernidade-mundo tempo
de continuidades e rupturas com a modernidade iluminista a percepção do mundo
mantém-se como imanente, mas agora não adopta simplesmente a visão universal,
mas coordena-a com a positividade da diversidade. A peculiaridade que a nossa
época traz neste sentido é uma valorização cultural do diferente, sendo que,
como procuramos mostrar, essa ocorre coordenadamente com aquilo que se propõe
(ou, melhor seria, se impõe) como universal.
Se já antes a geografia era criada para marcar divisões espaciais e, assim,
definir as visões de mundo, agora parece ter havido uma radicalização deste
processo, e a geografia passa a ser percebida, na esfera física, em coordenação
com o que se quer valorizar na esfera cultural. Pode-se dizer que houve uma
autonomização do espaço em relação à geografia a que faz referência. Esta é
deslocada (desterritorializada, para ficarmos numa categoria da globalização)
em função do primeiro, sendo esse articulado a partir de interesses de actores
(em escalas diferentes de possibilidades) em mobilizar as suas culturas de
acordo com as referências que deseja fazer. Se antes a geografia era definida
por motivos aleatórios, mas assim que definida se mantinha fixa, agora ela pode
mover-se. A positividade actual da ideia da diversidade é que permite que o
oriente, por exemplo, se desloque para a Dinamarca ou para os Estados Unidos,
e lá produza sentido. Contudo, tal deslocamento não é aleatório em termos
culturais ou sociológicos. Na verdade, dá-se conforme regras controladas em
estruturas rígidas de poder (como as das indústrias culturais); em função de
culturas particulares que se valorizaram historicamente e que hoje por suas
condições económicas, mas também políticas e simbólicas são capazes de ditar
tais regras que impõem ideais universais para coordenar um mundo diverso. Os
movimentos culturais, então, não são livres como bem sabem, noutros
movimentos, os milhões de imigrantes em países ricos assim como a visão que
temos do mundo pela óptica da diversidade é condicionada. Daí que o mundo que
percebemos como diverso, na verdade, esteja tão repleto de universais.