Os Milhões da Pobreza: Por que motivo os países mais carenciados do mundo estão
a ficar cada vez mais pobres?
Paul Collier, Os Milhões da Pobreza: Por que motivo os países mais carenciados
do mundo estão a ficar cada vez mais pobres?, Alfragide, Casa das Letras, 2010,
261 páginas.
Leonardo Dutra
Universidade de Évora
Enquanto o crescimento económico tem reduzido a pobreza no mundo nas últimas
três décadas, como foram os casos da China, do Brasil e do México, grande parte
do continente africano continua a viver à margem deste desenvolvimento
socioeconómico. Hoje, no mundo, aproximadamente, mil milhões de pessoas
constituem os países desenvolvidos, 4 mil milhões estão nos países em
desenvolvimento e mil milhões de homens e mulheres vivem no chamado bottom
billion,o grupo de países como o Haiti, o Laos ou o Afeganistão, que parecem
ter sido esquecidos pelo desenvolvimento.
Publicada originalmente em língua inglesa no ano de 2007 sob o título The
Bottom Billion, esta tradução de Paulo Tiago Bento para a obra do professor
Paul Collier propõe uma arrojada teoria sobre as causas para a pobreza no
mundo. Segundo Collier, ao passo que nas nações em desenvolvimento as taxas de
crescimento foram positivas, em média, desde os anos 70, o continente africano
pode ter ficado economicamente estagnado no tempo. Estima-se que as diferenças
de crescimento entre os últimos mil milhões (bottom billion) e os países em
desenvolvimento possam ter sido de cerca de 2% nos anos 70, de 4% nos anos 80 e
de cerca de 5% nos anos 90 do século xx (p. 27).
A teoria sobre os fatores que fazem com que parte da população do planeta
esteja aquém do desenvolvimento global baseia-se na hipótese de que algumas
armadilhas prendem estes países à pobreza e impedem o seu desenvolvimento. A
obra descreve quatro principais armadilhas como causas da estagnação económica,
nomeadamente os conflitos, os recursos naturais, a interioridade no continente
aliada aos maus vizinhos e ainda a má governação em pequenos países.
Hoje 73% da população do continente africano está envolvida em algum tipo de
conflito armado ou esteve recentemente em guerra civil (p. 105). Esta primeira
armadilha é a derradeira para o status de pobreza que estas populações
enfrentam, uma vez que a propensão para a guerra civil está directamente ligada
às taxas mínimas de crescimento e aos baixos níveis iniciais de rendimento
destas populações. Ou seja, tanto a guerra torna mais pobres os países dos
últimos mil milhões como a pobreza que eles enfrentam causa a guerra (pp. 37-
38).
Outra parcela da população africana está presa numa armadilha diferente: 29%
das pessoas residem em países onde a política é directamente influenciada por
altas receitas provenientes de recursos naturais, como petróleo e diamantes (p.
105). Entre os argumentos que explicam a abundância de recursos naturais como
um problema para o crescimento está o que pode ser chamado doença holandesa.
O termo foi criado para explicar o efeito que o gás natural do mar do Norte
causava na economia holandesa de há trinta anos, que, tal como sucede hoje nos
países dos últimos mil milhões, aponta para a hipótese de a exportação de
recursos naturais aumentar o valor relativo da moeda do país dificultando a
exportação de outros produtos e, por vezes, devastando sectores como alguns
serviços e a agricultura. Da mesma forma, 30% dos africanos que vivem em
condições de interioridade continental e escassez de recursos naturais fazem
vizinhança com países que dificultam o seu crescimento como nações e 76% das
pessoas deste continente padecem da má governação e de péssimas políticas
públicas (p. 105).
Embora a boa governação e as políticas económicas eficazes contribuam
directamente para o crescimento económico, alguns países africanos dependem
directamente da gestão de expedientes, como a aplicação de rendimentos
provenientes de recursos naturais ou da ajuda externa para sobreviver.
Especificamente, nestes casos uma má governação acaba com a maioria das chances
de crescimento destes países. Exemplos como a corrupção, sucessivos golpes de
Estado ou mesmo a impreparação técnica de alguns governos contribuem
significativamente para manter cerca de mil milhões de pessoas à margem do
crescimento socioeconómico.
Os Milhões da Pobreza está dividido em cinco partes principais e apresenta um
estilo confortável de leitura acessível a qualquer público. Esta desvinculação
do habitual aparato académico proposta por Collier possui uma conexão com um
dos aspectos que podem ajudar a melhorar a condição de vida destas pessoas: a
opinião pública. Tornar este problema largamente conhecido e indicar caminhos
que ajudem à sua resolução é um dos principais objectivos do autor, que desta
forma acredita que as pessoas poderão exercer pressão para que ONGs, agências
reguladoras e outras instituições operem de alguma forma para reverter esta
situação.
O livro aponta ainda caminhos para a atracção de capitais externos e mecanismos
que contenham a fuga de capitais do continente africano, como forma de elevar
as condições produtivas destes países. No entanto, qualquer mudança na situação
de pobreza e estagnação que estas nações enfrentam necessita de modificações
internas nas respectivas sociedades, da mesma forma que variados instrumentos
de intervenção também serão de grande relevância para encorajar estes países a
rumar em direção ao desenvolvimento (p. 30).
Melhorar os parques produtivos, viabilizar corredores logísticos e desenvolver
políticas eficazes de exportação, da mesma forma que melhorar a governação e
propiciar estabilidade para investimentos internos e externos nestas regiões,
pode, entre outros factores, contribuir para a resolução deste problema que
atormenta de forma devastadora os países do bottom billion,e que, em última
análise, possui impacto em todo resto do planeta.