Unfolding Lives: Youth, Gender and Change
Rachel Thomson, Unfolding Lives: Youth, Gender and Change, Bristol, Policy
Press, 2009, 202 páginas.
Magda Nico
CIES, ISCTE-IUL
Este livro constitui um importante contributo para o biographical turn nas
ciências sociais, caracterizado pela afirmação das teorias contemporâneas da
individualização e pela valorização teórica e metodológica das biografias e da
reflexividade, identificada, por exemplo, em The Turn to Biographical Methods
in Social Science: Comparative Issues and Examples, editado por P.
Chamberlayne, J. Bornat e T. Wengraf (Londres, Routledge, 2000).
Mais do que isso, esta obra constitui uma tese em defesa da importância da
temporalidade no desenho da pesquisa, advogando a favor das pesquisas
longitudinais (e qualitativas) no estudo das mudanças sociais. A autora
pretende, aliás, que esta obra seja uma demonstration of an innovative method-
in-practice (p. 10). Mas a afirmação epistemológica desta obra não fica por
aqui. A narrativa interpretativa das histórias de vida é envolvida num
testemunho pessoalizado da autora, caracterizado por transparência e por uma
constante reflexividade relativamente às opções de recolha, interpretação,
apresentação e actualização dos dados. A linguagem densa, do ponto de vista
conceptual e teórico, mas simultaneamente fluida, combinada com os testemunhos
dos jovens, dá corpo a esta análise da destradicionalização do género dos
cursos de vida contemporâneos e faz deste livro não uma analysis of
narratives, mas uma narrative analysis (p. 26).
Entre os livros já publicados no âmbito do projecto Inventing Adulthoods, com
destaque para Inventing Adulthoods: A Biographical Approach to Youth
Transitions, da autoria de S. Henderson, J. Holland, S. McGrellis, S. Sharpe e
R. Thomson (Londres, Sage, 2007), Unfolding Livesé o que mais aproveita o
potencial do desenho longitudinal da pesquisa e, assim sendo, é o que mais se
aproxima da agenda científica a que o projecto global se propõe. A escala ainda
mais microssociológica a que presidiu a selecção de quatro, entre os cerca de
cem casos do projecto global, a apresentação sincrónica e diacrónica dos mesmos
e a abordagem de um tema concreto, o da destradicionalização do género,
contribuíram certamente para tal. Nesta obra é analisada a construção da
identidade de género na modernidade tardia, tendo em conta tanto os
constrangimentos e possibilidades que a enquadram como as consequências das
opções tomadas, as estratégias seguidas e os compromissos assumidos (p. 2).
Unfolding Lives está organizado em dez capítulos, arrumados implicitamente em
três partes, cada uma delas constituída por diferentes equilíbrios internos
entre as componentes teórica, empírica e metodológica. Os primeiros três
capítulos cumprem essencialmente uma função introdutória, de apresentação do
quadro teórico e do desenho da pesquisa, dando o devido destaque ao género e à
sua presumível destradicionalização (no capítulo 3), e cada um dos quatro
capítulos seguintes apresenta uma história de vida, concentrando a informação
da escala mais microssociológica. Os quatro últimos capítulos arrematam o
argumento do livro, combinando contribuições de diferentes escalas de análise e
tradições sociológicas numa inovadora arrumação das biografias apresentadas.
No capítulo 1 a autora apresenta brevemente o projecto que, em conjunto,
desenhou e levou a cabo. Trata-se de um projecto qualitativo e longitudinal que
acompanhou uma geração de jovens (entre os 11 e os 16 anos) em transição para a
adultez, desenvolvido em 5 áreas do Reino Unido caracterizadas por economias,
tradições e dinâmicas sociais muito diferenciadas. Estes jovens são encarados
como pertencendo à mesma unidade geracional (K. Mannheim), tendo partilhado
experiências históricas como o desenvolvimento de novas tecnologias da
comunicação, a expansão do ensino superior e o prolongamento do período da
transição para a vida adulta. São ainda apresentados os principais resultados
publicados em Inventing Adulthoods, no que se refere às principais áreas de
interesse das políticas sociais (educação, trabalho e bem-estar) e aos temas
biográficos mais salientes (pertença e mobilidade, casa e intimidade).
É no capítulo 2 que a autora apresenta de forma mais sistemática o seu
argumento epistemológico, começando por abordar a revitalização dos estudos
biográficos e por situar os estudos longitudinais neste campo. Os estudos
longitudinais qualitativos, face aos de recolha retrospectiva, estão em
evidente sub-representação e a sua emergência é recente, pretendendo preencher
vazios analíticos provocados pelas metodologias mais estáticas, que não dão
conta do que, por exemplo, Julie McLeod denominou formation of habitus over
time (p. 15). Para esta discussão a autora invoca e coloca em diálogo vários
autores, como P. Bourdieu, M. Archer, A. Giddens e D. Bertaux. De um ponto de
vista teórico, Rachel Thomson combina contributos de M. Foucault e de P.
Bourdieu para compor o conceito de fields of existence, que estruturará,
aliás, toda a análise e a apresentação dos casos.
O capítulo 3 aborda directamente a questão do género. Os conceitos apresentados
neste capítulo em torno da destradicionalização do género e dos contributos das
teorias da modernidade tardia e das perspectivas feministas são,
paradoxalmente, aqueles a que a autora talvez menos directamente recorre no
decorrer da sua interpretação dos casos, com a excepção da distinção entre
identidade de género e subjectividade de género, de H. Bejrrum Nielsen e M.
Rudberg (p. 34), que é operacionalizada recorrentemente ao longo das histórias
de vida.
Os quatro capítulos seguintes apresentam as histórias de vida, consideradas não
representativas, mas emblemáticas de novas formas biográficas (p. 154).
Aspectos conceptuais e linguísticos tornam as vidas de Sherleen, Stan, Devon e
Karin únicas e, simultaneamente, comparáveis. Cada um dos capítulos segue uma
estrutura idêntica, contando a história temporalmente organizada, mas
compactada por campos de existência, esses sim variáveis entre os quatro casos.
Por outro lado, o resultado do constante intercâmbio entre a interpretação da
autora e as histórias contadas pelos jovens permite ao leitor uma rápida e
panorâmica familiaridade com o estilo biográfico de cada um deles.
O primeiro caso é o de Sherleen (capítulo 4), que é filha única de uma família
monoparental (materna), negra e descendente do Caribe e que vive em ambiente
urbano. Sobre ela a autora conta uma história de mobilidade social ascendente,
marcada pelo investimento, por parte de toda a família (muito matriarcal), nos
valores da meritocracia e disciplina, nos planos a longo prazo e num projecto
de vida baseado numa prioridade emocional e temporal colocada nas conquistas
educacionais e em objectivos de independência económica (especificamente
feminina). Acerca de Stan (capítulo 5), um rapaz oriundo de uma família da
classe média, conta-se a história de experimentação de estilos de masculinidade
baseados em campos de existência dificilmente conciliáveis (pubs, igreja,
férias prolongadas), cuja acumulação evidencia a dificuldade de Stan em
atribuir sentido à sua trajectória. Neste caso, torna-se evidente a relação
forte e complexa entre masculinidade e classe social. De um contexto familiar
difícil e experiências de bullying homofóbico, a autora conta-nos as várias
tentativas-erro de Devon (capítulo 6) em construir uma identidade de homem
homossexual confiante e competente, às custas de um projecto educacional
inacabado e de uma completa desidentificação com a figura paterna. A gestão que
faz da sua homossexualidade é fortemente condicionada pelos movimentos entre as
esferas privada e pública. Karin (capítulo 7), da Irlanda do Norte e
protestante, rebela-se contra a sua comunidade fechada e conservadora,
construindo o seu projecto identitário com base em culturas juvenis, como as
práticas de skateou de graffiti, e contrariando assim as expectativas do que R.
Connell denomina emphasized femininity.
O capítulo 8 enfatiza a importância da temporalidade na análise dos processos
de transição para a vida adulta. A autora optou por incluir as novas
informações sobre os rumos das vidas destes jovens, fruto das últimas
entrevistas com estes, num capítulo diferente, apresentando uma interpretação
relativamente autónoma não apenas para respeitar a temporalidade do próprio
processo de escrita, mas principalmente para demonstrar como até uma análise
longitudinal com vários momentos de recolha e actualização de informação deverá
ficar sempre em aberto. Os quatro casos entram em diálogo no capítulo 9,
através das duas principais linhas de análise: a temporalidade e a
espacialidade. Na primeira linha de análise, são propostos instrumentos
conceptuais para a análise do projecto reflexivo do self como o biographical
method, biographical motifs e biographical impasse, usados para uma
caracterização comparativa dos casos. Na segunda linha, são apontados os meios
através dos quais, nos casos em apreço, a ordem de género se constrói: campos
de existência, tecnologias do self, investimentos, identificações, horizontes
sociais e espaciais. É, portanto, neste capítulo que a promessa metodológica
feita ao longo do livro é concretizada teoricamente, com instrumentos
conceptuais dinâmicos que dão resposta a uma análise diacrónica dos cursos das
vidas. O livro termina com o capítulo 10, onde a autora combina as suas opções
teóricas, convicções metodológicas e conclusões substantivas, reflectindo sobre
o poder transformador da reflexividade individual nas vidas dos quatro jovens.
Será surpreendente se este livro não passar gradualmente a ser uma referência
consensualmente recomendada para o estudo das transições para a vida adulta e,
principalmente, para a recolha e análise interpretativa de histórias de vida.
Não o será, porém, se não o for para o estudo do género, na medida em que,
neste livro, este parece constituir-se mais como um pretexto de análise dos
cursos das vidas do que como uma questão de partida. À excepção deste aspecto,
é difícil criticar esta obra, a não ser manifestando alguma estranheza pela
ausência dos contributos de B. Lahire (em especial os de Retratos Sociológicos:
Disposições e Variações Individuais, Porto Alegre, Artmed, de 2004 [2002]) e de
uma referência explícita à perspectiva do curso de vida. É um livro excelente,
inovador, argumentativo e convincente. Um compromisso admirável entre teoria,
vida real e metodologia que se combinam numa apaixonadaafirmaçãoepistemológica.