Plural de Cidade: novos léxicos urbanos
Carlos Fortuna, Rogério Proença Leite (orgs.), Plural de Cidade: novos léxicos
urbanos, Coimbra, Ed. Almedina, 2009, 344 páginas.
Roselane Gomes Bezerra
CES, Universidade de Coimbra
O que diferencia a cidade desejada da imaginada e da vivida? Este é o desafio
sociológico que permeia o livro Plural de Cidade: Novos Léxicos Urbanos,
organizado pelos professores Carlos Fortuna, do Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra, e Rogério Proença Leite, da Universidade Federal de
Sergipe. No conjunto dos seus diversos artigos, esta obra apresenta uma coesão
lógica a partir das reflexões e inspirações de autores brasileiros e
portugueses integrantes da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos. Este grupo
de pesquisa, com uma ampla experiência na temática da cidade e especialista no
estudo comparativo entre cidades brasileiras e portuguesas, foi capaz de
apresentar uma actualização dos estudos da urbe por meio da reflexão crítica
dos novos léxicos que fazem as cidades.
Partindo da afirmação de que existem cidades dentro da cidade, o Plural de
Cidade não é somente uma junção de diferentes cidades, mas também uma obra que
reflecte sobre as acções políticas, de direitos e de práticas sociais desiguais
no meio urbano. O diferencial deste livro incide na qualidade crítica dos
autores, atentos à construção de abordagens culturais originais e de novos
léxicos que dêem conta das interfaces que as diferentes práticas culturais
apresentam hoje. Percorrendo um fio condutor comum, que incorre na confirmação
da premissa simmeliana da predominância de um ethosmetropolitano na vida
humana, o livro é composto por três secções, nas quais se analisam,
respectivamente, as artes de fazer, de usar e de consumir a cida de.
Na primeira parte, António Arantes, Silvana Rubino, Paulo Peixoto, Heitor
Frúgoli Jr., Sérgio Braga e Carlos Fortuna animam uma discussão a respeito das
artes de fazer a cidade. Com base em estudos empíricos e amplas reflexões
teóricas, eles desenvolvem críticas a respeito da utilização de léxicos
adoptados nos debates sobre a cidade sem um adequado debate conceptual. Essa
questão é abordada pelo primeiro autor (A. Arantes) ao discorrer acerca da
expressão património cultural, enfatizando que ela designa representações
que, elas próprias, requerem explicações. Seguidamente, S. Rubino faz uma
exegese do termo gentrification, explicando a sua opção em denominar essa
prática no Brasil como enobrecimento urbano, e demonstra como essa palavra
deixou de ter um significado descritivo para se tornar uma categoria analítica.
P. Peixoto, por sua vez, analisa os vocábulos requalificação e reabilitação
urbanas. Apoiando-se numa abordagem sociológica, este autor enfatiza a
idealização de práticas sociais nos espaços requalificados e do hiato entre a
cidade projectada e a cidade vivida. Já H. Frúgoli faz uma análise das
interpretações multidisciplinares das cidades, especialmente no campo das
ciências sociais, e apresenta os principais temas, objectos e métodos que vêm
sendo utilizados nos estudos da urbe.
Ainda no que diz respeito à apreciação dos léxicos que envolvem as formas de
fazer a cidade, S. Braga parte da ideia de fronteiras nacionais e segmentos
sociais para falar de culturas populares na cidade. O autor destaca a
importância da descrição etnográfica e discorre sobre os desafios urbanos
presentes nas análises desse fenómeno, que vem sendo estudado no Brasil na
perspectiva de um tempo, lugar e restituição das ausências dos segmentos
populares. No último capítulo desta secção, C. Fortuna indaga-se sobre o
paradoxo entre a predominância do urbano no mundo actual e o fim anunciado da
cidade. Essa ambivalência no modo de pensar a cidade decorre das transformações
nas formas urbanas e também das expressões culturais que a cidade comporta
actualmente sem explicações nos quadros teórico-analíticos. Partindo dessa
constatação, o autor afirma que uma tal dicotomia dificulta as reflexões da
urbe na sua globalidade e apresenta alguns instrumentos analíticos e
conceptuais que estão a contribuir para novas construções teóricas da cidade.
Na segunda parte, Artes de usar a cidade, os autores (José Magnani, Lúcia
Bógus, Cristina Meneguello, Luciana Mendonça, Fraya Frehse, João Teixeira Lopes
e Rogério Proença Leite) abordam a questão dos diferentes usos do espaço
urbano. Nesta secção, o leitor encontra uma cuidadosa reflexão a respeito da
utilização do método etnográfico desenvolvida por J. Magnani, especialmente
quanto à questão da etnografia no contexto urbano. L. Bógus centraliza a sua
intervenção no tema da segregação sócio-espacial e apresenta os diferentes
pressupostos teóricos das reflexões acerca deste tema nos últimos cem anos. A
autora fala também das investigações recentes que analisam a segregação
residencial à luz dos impactos da globalização sobre as cidades. C. Meneguello
aborda a relação entre espaços e vazios urbanos; enuncia alguns exemplos e o
léxico que define esse fenómeno em diferentes países; e apoia-se na relação
memória-esquecimento para questionar os sentidos desses espaços nas cidades.
Partindo do desafio de relacionar sonoridades e cidade como forma de
entendimento das dinâmicas urbanas, L. Mendonça reflecte sobre o lugar da
escuta no estudo das cidades; tece considerações sobre a noção de paisagem
sonora; e discute a condição do pesquisador-ouvinte no contexto urbano actual.
A referida autora fundamenta essas reflexões a partir de um levantamento
teórico e da observação de cidades que são exemplares para exploração das
sonoridades e da audição. F. Frehse centra-se nos significados de usos da rua
nos estudos urbanos, questionando o sentido da referência a usos de entre as
várias relações possíveis dos indivíduos com o lugar público. Nas suas
palavras, o uso de usos' não é gratuito e essa expressão aparece nas
investigações, ora com um sentido descritivo, ora interpretativo. Teixeira
Lopes discute a questão das políticas culturais urbanas e das classificações
dos espaços públicos. Por meio de um levantamento teórico, o autor apresenta
alguns princípios norteadores de uma política cultural pública, em
contraposição às políticas carismáticas e às de simples democratização
cultural. Para finalizar esta secção, Proença Leite discorre sobre o tema dos
espaços públicos na pós-modernidade, chamando a atenção para o carácter
restritivo das classificações em torno da categoria espaço público. Discute
também a ideia da suposta morte desse espaço e sugere a adjectivação
intersticial para pensar a noção de espaço público em relação à construção
social do espaço e à espacialização das acções sociais.
Na terceira parte, I. Barreira, E. Vicente, C. Gagliardi, M. E. Rodrigues, U.
Rafael, A. R. Montecón e C. Ferreira discutem as Artes de consumir a cidade.
Conforme o título sugere apresentam-se nesta parte ensaios que reflectem sobre
diferentes formas de apropriação da urbe. Como é uma constante na obra, ao
longo desta secção o leitor também é levado a reflectir sobre os novos léxicos
para os estudos urbanos, seja por meio da análise de guias turísticos, seja
pelo estudo de políticas patrimoniais ou ainda de investigações na área do
turismo, migrações ou meio ambiente.
Assim, Irlys Barreira apresenta roteiros turísticos como narrativas que revelam
modos de afirmação da imagem de uma cidade. A partir do exame de alguns guias
da cidade de Lisboa escritos em diferentes momentos históricos, a autora
discute temas como cultura, representação e conflito simbólico. Eva Vicente
fala da evolução do conceito e do sector do património. Para ela, a
relevância social e económica das políticas patrimoniais tornou-se um
instrumento de grande utilidade nos planos dos governos. Clarissa Gagliardi
centra a sua intervenção na questão das práticas históricas do turismo para
reflectir sobre turismo, cidade e património cultural. Maria Eugenia Rodrigues
aborda o tema do ambiente, sustentabilidade e cidade, defendendo que as cidades
não só estão na natureza, como também influenciam determinantemente o ambiente.
O objectivo deste ensaio foi mapear algumas dimensões da construção do que se
tem vindo a designar por sustentabilidade urbana. Baseando-se na leitura de
autores que têm vindo a contribuir para a temática da sociologia das cidades,
Ulisses Rafael desenvolve um levantamento sociológico do processo de
urbanização, enfatizando os factores de atracção das cidades, especialmente
para as populações migrantes.
Os dois últimos capítulos são dedicados à temática dos consumos culturais. Para
Ana Rosa Mantecón, a questão do encontro entre os públicos e os bens culturais
apresenta-se às ciências sociais como um desafio teórico e metodológico. A
autora desenvolve uma reflexão acerca das noções de consumo, campo, bens e
serviços culturais e da categoria de público. Já Claudino Ferreira discorre
acerca da crescente importância da cultura para as políticas urbanas e do facto
de se estar a dar uma maior atenção ao papel dos intermediários culturais.
Discute as noções de intermediação e de intermediário cultural, de forma a
classificar a ambiguidade conceptual e analítica com que essas categorias têm
sido utilizadas no debate sociológico. E desenvolve uma análise crítica de
algumas dimensões centrais do papel cultural, político e social dos
intermediários culturais.
Para finalizar, enfatizo que a multiplicidade de temas abordados no Plural de
Cidade faz desta publicação uma obra elucidativa para o entendimento do estudo
dos novos léxicos urbanos. A experiência e internacionalização dos autores
contribuíram para essa percepção das cidades que existem dentro da cidade e
para tornar o livro actual no panorama dos estudos da sociologia urbana. Por
meio de diversos caminhos teóricos e metodológicos, estes estudiosos foram
capazes de sintetizar a complexidade da problemática das práticas urbanas
contemporâneas nas suas dimensões culturais, políticas, económicas e sociais.