O Padre António Vieira e as Mulheres - O Mito Barroco do Universo Feminino
José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas,O Padre António Vieira e as
Mulheres O Mito Barroco do Universo Feminino, Porto, Campo das Letras, 2008,
233 páginas.
Susana Mourato Alves
CLEPUL Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Durante 2008 comemorou-se o iv centenário do nascimento do padre António
Vieira. Muitos foram os trabalhos que surgiram no âmbito da celebração da
efeméride, ou de projectos de pesquisa e análise crítica, como nos diz
Pinharanda Gomes a propósito do livro que hoje aqui apresentamos. Não por
desprimor para com os primeiros, mas pelo peso dos segundos, vale a pena
revisitar um dos títulos sonantes publicados no ano vieirino: O Padre António
Vieira e as Mulheres O Mito Barroco do Universo Feminino.
De facto, uma das provas de que este não foi tão-só para assinalar a data
prende-se com a atribuição do Prémio Monografia, da Sociedade Histórica da
Independência de Portugal, aos seus autores, José Eduardo Franco e Maria Isabel
Morán Cabanas. Tal distinção é concedida anualmente a textos de conteúdo
específico e em 2008, por ocasião de Vieira, pretendia galardoar um trabalho
que se inscrevesse no mote Padre António Vieira a dimensão cultural da sua
mensagem. Para além do reconhecimento da SHIP, o trabalho meritório dos dois
autores, com vasta e consistente bibliografia publicada na área dos estudos
vieirinos, revela-nos que estamos perante investigação séria, prolongada e de
fundações enraizadas no conhecimento sólido da obra de um dos maiores vultos da
língua portuguesa.
O Padre António Vieira e as Mulheres, de título aparentemente desconcertante,
quase a roçar o desaforo, é o catálogo fundamentado das figuras femininas,
fictícias ou reais, inscritas no sermonário vieirino e organizadas em
perspectiva contrastante, à luz de duas entidades bíblicas fundamentais da
estética barroca: Eva, mulher-tentação, e Maria, mulher-redenção. Não é, pois,
nem um indiscreto estudo sobre Vieira, nem um simples levantamento sistemático
dos passos em que o padre jesuíta se reporta a figuras femininas. Antes é um
documento fundamentado que os seus autores inseriram desde logo, em palavras
introdutórias, na necessidade do estudo dos sermonários com o intento da
obtenção de um maior conhecimento das mentalidades, atitudes, doutrinas e
comportamentos que dominam a sociedade de uma época determinada (p. 15).
Do pecado para a salvação, da demonização do elemento feminino para a
manifestação da sua virtude, José Eduardo Franco e Maria Isabel Morán Cabanas
revelam essa faceta bipolar da mulher no pensamento barroco da época de Vieira:
a mulher, um ser inconstante por natureza.
A astúcia, o egoísmo, a hipocrisia, a lascívia, faltas terríveis do género
feminino, foram as que, materializadas em Eva, a primeira das mulheres, a
primeira e fatal pecadora, impeliram o homem para a queda adâmica. Nesta
perspectiva, a chamada à parenética vieirense de referências a comportamentos e
figuras femininas apela, segundo os autores, à função moralizante de tais
exemplos. A mulher, em oposição ao homem, pertence ao interior, à casa, ao
convento; o homem ao exterior, à mobilidade, à liderança. Daí que a mulher seja
considerada uma edificação de Deus, ao contrário do homem, que foi uma
criação. Deste modo, por ter sido edificada, e não criada, é um bem imóvel,
a que se deverá restringir a acção. Esta perspectiva misógina, que procura
limitar a movimentação feminina, prende-se com a necessidade de evitar a
proliferação do pecado, estendido da mulher, maculada desde a sua origem, ao
homem. Neste sentido, deve ficar em casa, por um lado, para preservar a sua
honra, por outro, para garantir a harmonia social. Mas, por sinal, tem
continuamente apetite em sair e, por este motivo, deseja assemelhar-se ao
homem, mais uma vez demonstrando a sua apetência para a transgressão. E mesmo
no interior do lar, ou no interior do convento, Vieira aponta para o perigo da
vaidade, por meio da presença de espelhos nos quartos das senhoras. É que,
segundo a percepção da época, o espelho era um dos meios que o demónio escolhia
para manipular o mundo feminino, pelo que havia a necessidade de evitar o culto
das aparências e o excesso de luxo, tão característicos da época barroca e a
que as senhoras estavam bem mais sujeitas, por trazerem sempre consigo a raiz
primordial de todos os males.
Todavia, à luxúria, à devassidão, à falta de humildade vivemos como se
fôramos imortais e não houvesse eternidade (p. 110) opõe-se um caminho de
virtude que pode ser trilhado. Através da negação do excesso e do cultivo da
modéstia e do recato, a mulher poderá sempre fazer um percurso do mal para o
bem, tal como o fizera outrora a mais pecadora das mulheres bíblicas Maria
Madalena. A figura arrependida de Madalena, a confissão, a humildade, a oração,
a devoção ao rosário mariano, levam a mulher leviana ao encontro do exemplo da
Virgem Mãe, redentora de todos os vícios.
E, se estes são os meios pelos quais o género feminino se pode redimir da sua
condição primordial, mulheres houve que através destes merecem o devido
destaque no sermonário de Vieira, entre elas mártires, santas e até rainhas,
ainda que esta coragem feminina de escolher o caminho da virtude seja muitas
vezes vista como atitude varonil
Porém, Vieira aborda também no seu sermonário uma propriedade natural da mulher
que a destaca na virtude do seu ser à partida maculado: o dom da maternidade.
De facto, é através desta capacidade exclusivamente feminina que as
descendentes de Eva, em certa medida, surgem como entidade superior ao homem,
segundo os autores da monografia recenseada. O homem foi feito para se tornar
pó, a mulher para dar lugar a outro ser. Nesta perspectiva, por meio do acto
de parir experimenta-se a passagem do não ser ao ser, encontrando-se aí o
verdadeiro resumo de toda a Criação, pois por meio da maternidade atinge-se a
imortalidade, já que a sucessão significa uma segunda vida ou uma antecipada
ressurreição (p. 149).
Nestes termos, em nossa opinião, Franco e Cabanas, ao passarem da análise da
mulher-pecado para a análise da mulher-redenção ao longo do seu livro, deixam
transparecer que Vieira não pretende ser apenas avesso à natureza da mulher,
mas denota igualmente que de grandes faculdades está o género feminino dotado:
O estudo comparativo serviu-nos quer para confirmar, quer para relativizar
estereótipos tocantes à concepção do universo feminino (p. 203). Se é certo
que a visão androcêntrica domina a oratória sagrada de Setecentos (p. 193),
repetem os autores várias vezes ao longo deste estudo, e se é certo que Vieira
plasmou nos seus escritos essa percepção misógina e paradoxal que se vivia em
plena época barroca (e desde há muitos séculos), é também de notar que o
jesuíta era um homem do seu tempo e que, mesmo assim, deixou na sua obra uma
aversão às mulheres menos acérrima do que muitos.
Este completo catálogo vieirino, valorizado também com incursões a textos de
autores que articularam este mesmo assunto explorado por Vieira e a referências
plásticas da mulher nas artes, é um livro a ter em conta pela sua tese no
âmbito dos estudos vieirinos e pela cadência notável do seu raciocínio.
Depois da sua edição pela Editora Campo das Letras (Porto) e pela Arké (São
Paulo) em 2008, encontra-se agora no prelo, para sair ainda em 2010, a tradução
italiana pela Aracne Editrice (Lanuvio), confirmando assim que esta é uma
publicação a que vale a pena voltar dois anos após o seu lançamento.