Dinâmicas do associativismo na economia informal: os transportes de passageiros
em Angola
INTRODUÇÃO
Durante as últimas três décadas os táxis minibus (candongueiros
1
) desempenharam um papel estrutural no transporte de passageiros na capital
angolana. Adaptáveis e flexíveis, tornaram-se a mais eficiente alternativa de
transporte urbano. Na cidade do Huambo, o sistema rodoviário de transportes de
passageiros também sofreu transformações substanciais. Após um extenso
envolvimento do Estado, enquanto provedor e regulador dos transportes públicos,
os efeitos do conflito armado, da crise económica e da ineficiência do modelo
centralizado de gestão conduziram ao seu colapso e ao aparecimento, fora do
controlo das autoridades, de um elevado número de operadores de mototáxis, os
kupapatas
2. Recentemente, começou a tomar forma, ainda que com características
diferenciadas, um processo de organização e de representação dos actores
envolvidos nas referidas actividades.
O objectivo deste artigo é suscitar alguma reflexão sobre as dinâmicas
associativas nos segmentos semioficiais e informais dos transportes urbanos de
passageiros em Luanda e no Huambo. A análise baseia-se na identificação e
caracterização dos processos de organização e representação dos operadores
envolvidos no transporte de passageiros em Luanda e no Huambo, no contexto mais
geral da evolução que os segmentos de transportes de passageiros semioficiais e
informais têm vindo a conhecer em Angola, sob o impacto quer das acções de
intervenção reguladora recentemente accionadas pelo Ministério dos Transportes,
quer dos efeitos gerados pela actual crise económica e financeira.
A informação apresentada resulta da pesquisa realizada no terreno entre
Setembro de 2003 e Agosto de 2008, no decurso da qual foram entrevistados os
actores directamente envolvidos na actividade: o responsável da Associação de
Motoqueiros de Angola (AMOTRANG), operadores dos mototáxis na cidade do Huambo,
o responsável da Associação de Taxistas de Luanda, proprietários, motoristas,
cobradores e angariadores correlacionados com a actividade dos candongueiros em
Luanda. Foram ainda entrevistados os representantes das instituições de
regulação e representação do sector dos transportes urbanos e representantes
das empresas de transportes colectivos formais. A análise recorre igualmente à
recolha de informação recenseada nos principais órgãos da imprensa angolana,
nomeadamente do Jornal de Angola.
O artigo estrutura-se da seguinte forma: na introdução procede-se a uma revisão
da literatura sobre os transportes de passageiros na África subsariana (ASS) e
sobre os processos de organização e representação na economia informal.
Delimita-se a amostra e identificam-se os processos metodológicos accionados.
Na secção seguinte procede-se à contextualização, na qual se caracterizam as
cidades seleccionadas, a evolução histórica dos respectivos sistemas de
transporte de passageiros. Num terceiro momento, com base nos elementos
recolhidos na observação directa, na imprensa e nas entrevistas efectuadas,
faz-se uma caracterização da actividade dos mototáxis na cidade do Huambo e
apresenta-se a Associação de Motoqueiros Transportadores de Angola; na secção
seguinte recorre-se ao mesmo tipo de fontes para caracterizar a actividade dos
candongueiros na capital angolana, com revelo particular para as staffs
3
, as associações informais em que os referidos actores se têm vindo a
organizar. Na conclusão sublinham-se as características distintas dos processos
de organização em curso no segmento dos transportes de passageiros semi-oficias
nas duas cidades e sugerem-se algumas pistas para reflexão.
REVISÃO DA LITERATURA
A pesquisa sobre os sistemas de transportes urbanos de passageiros na África
subsariana é relativamente recente, datando da década de 80 do século xx, e tem
sido essencialmente promovida sob o patrocínio de três instituições:(i) o Banco
Mundial, com um papel fundamental no quadro do Programa de Políticas de
Transporte na África subsariana (SSATP), através do qual se tem desenvolvido a
pesquisa, a cooperação técnica e a criação e implementação de programas e
projectos em curso em várias capitais africanas. O SSATP é uma parceria
internacional que envolve governos, comunidades regionais, doadores e várias
instituições públicas e privadas, com o objectivo de fortalecer políticas e
capacidades no sector de transportes da África subsariana; (ii) a Solidariedade
Internacional para os Transportes Públicos na África subsariana (SITRASS), uma
rede de investigadores, especialistas e profissionais de transportes, cujo
objectivo é facilitar a constituição e qualificação de equipas africanas de
investigadores e especialistas em economia de transportes e segurança
rodoviária; (iii) a Cooperação para o Desenvolvimento e Aperfeiçoamento dos
Transportes Urbanos e Periurbanos (CODATU).
Existe igualmente alguma pesquisa desenvolvida por investigadores cuja reflexão
se orienta para a temática dos transportes urbanos nos países em
desenvolvimento (Godard, 1994; Grieco, Apt e Tuner, 1996), os quais abordam o
assunto no contexto de trabalhos sobre as cidades africanas (Jalloh, 1999) ou
relacionando-o com temas específicos ligados aos transportes (sistemas de
distribuição nas cidades africanas; organização e representação na economia
informal), como é o caso de Wilhelm (1997) e de Barrett (2003).
O foco da investigação tem-se dirigido essencialmente para os países da África
francófona e da África anglófona. Desse conjunto de trabalhos resultaram
algumas conclusões relativamente consensuais sobre os meios de transporte
motorizados a que a população urbana recorre (SITRASS, 2004a e 2004b; World
Bank, 2001, 2002, 2005a e 2005b). As pesquisas realizadas (Godard, 2002;
Wilhelm, 1997; SITRASS, 2004a e 2004b; World Bank, 2001, 2002, 2005a e 2005b)
permitem afirmar que os sistemas de transporte urbano de passageiros na ASS são
diversificados e complexos, combinando formas de transporte individuais e
colectivas. Para as distâncias médias e longas regista-se o predomínio dos
meios de transporte motorizado, enquanto para as deslocações de proximidade se
privilegiam os meios de transporte individuais.
A literatura disponível sobre o tema (Godard, 2002; SITRASS, 2004a e 2004b;
World Bank, 2001, 2002, 2005a e 2005b; Kumar e Barrett, 2008) põe em evidência
a correlação entre a urbanização acelerada e as principais tendências
constatadas nos últimos vinte e cinco anos nos sistemas de transportes de
passageiros na África subsariana: declínio das empresas de transporte público
tradicionais; crescimento do sector artesanal (formal/informal/ilegal);
atomização acentuada da oferta; envelhecimento do parque automóvel.
Uma caracterização sintética dos sistemas de transportes urbanos de passageiros
na ASS é fornecida pelos seguintes indicadores (World Bank 2005a e 2005b;
SITRASS, 2004a e 2004b; Godard, 2002):
a) Em 2000, na grande maioria das cidades da África subsariana, os operadores
do transporte não oficial asseguravam mais de 90% das necessidades de
transporte;
b) Os táxis minibuseram o meio de transporte colectivo dominante. Em alguns
casos nem sequer existiam empresas de autocarros (Yaondé, Lomé, Coutonu,
Bamako), que, na maior parte dos casos, constituem o meio de mobilidade urbana
motorizada menos importante, quer em número de passageiros, quer em número de
viaturas;
c) Registam-se tendências diversificadas: em cidades como Conacri tem-se
assistido, nos últimos anos, ao acréscimo do peso relativo dos táxis colectivos
em desfavor dos táxis minibus; em Douala, o retrocesso dos táxis tem sido
acompanhado por um crescimento significativo dos mototáxis; Abidjan, Luanda,
Maputo e Nairobi são alguns exemplos da coexistência de empresas formais de
transporte com a presença de operadores artesanais;
d) Verificam-se também algumas situações em que os veículos motorizados de duas
rodas (mototáxis) constituem o principal meio de mobilidade urbana motorizada,
como em Uagadugu, e o principal meio de transporte para as deslocações intra-
urbanas, como sucede no Huambo, Coutonu, Lomé, Douala e Benguela (Lopes, 2008c
e 2009; Bamas, 2002; Gebzo, 1999; Godard, 2002;Ogalama etal., 2000).
A atenção, o conhecimento e a pesquisa sobre os processos de organização e
representação dos actores envolvidos na economia informal tem vindo a aumentar
nos últimos anos. O crescimento do informal tem decorrido em paralelo com
iniciativas várias para a sua organização ou formalização (OIT, 2007), processo
este que encerra múltiplas contradições, nomeadamente a que opõe os interesses
das empresas privadas em mão-de-obra barata e em trabalho precário, mais fácil
de obter num quadro de desregulação das actividades informais, e os governos,
que pretendem controlar o informal por causa da fuga aos impostos, ou os
agentes do informal, que querem organizar-se para maior protecção e segurança,
ou ainda as estratégias das organizações de desenvolvimento envolvidas na
defesa dos direitos humanos. Novas formas de pensar o fenómeno informal
(Maldonado, 1995; OIT, 2002) convivem com múltiplas iniciativas e movimentos no
sentido da organização dos operadores deste tipo de economia. Este processo tem
tido um carácter plural, incorporando acções associadas ao movimento sindical,
ao movimento associativo e cooperativo, às iniciativas das ONG, dos movimentos
cívicos e de outras organizações da sociedade civil (Horn, 2005; Lindell,
2006).
Recentemente começaram a consolidar-se igualmente processos de cooperação e de
constituição de parcerias e de redes entre diferentes tipos de organizações de
carácter local, regional e internacional. A SEWA
4
, organização criada na Índia em 1972, que funciona simultaneamente como um
sindicato, um movimento cooperativo e uma associação feminina com o objectivo
de apoiar as mulheres da economia informal e de lhes fornecer diversos tipos de
serviços, e a StreetNet Internacional5, uma rede internacional de trabalhadores
de rua criada em Durban em 2002, cujos membros são cooperativas, sindicatos ou
associações que representam trabalhadores de rua, dos mercados ou vendedores
ambulantes com o objectivo de promover estratégias relativas à sua organização
e à defesa dos seus interesses, constituem dois exemplos paradigmáticos deste
tipo de cooperação.
Este processo de organização dos operadores informais tem ocorrido em
diferentes regiões do planeta (OIT, 1999), nomeadamente em África (África do
Sul, Gana, Zâmbia, entre outros), na América Latina (Argentina, Brasil,
Colômbia, por exemplo) e na Ásia (onde a Índia constitui o exemplo mais
emblemático). A partir das experiências africanas, Lindell (2008) analisa a
globalização da informalidade e os novos desafios que se colocam aos modelos de
organização e representação tradicionais, nomeadamente a emergência de alianças
entre trabalhadores formais e informais. Ainda que com um carácter embrionário,
a emergência de organizações de representação dos actores da economia informal
começa a ganhar alguma expressão nos PALOP (Feliciano, Lopes e Rodrigues, 2008;
Lopes, 2008a). Trata-se de um processo recente, se comparado com outras regiões
da África ao sul do Sara, no qual é possível identificar três eixos distintos:
o mais pujante, associado à extensão e ao alargamento das preocupações das
estruturas sindicais formais face a realidades estruturantes do mercado de
trabalho e das condições laborais de exercício de actividade e fortemente
influenciado pela estratégia da Organização Internacional do Trabalho,
constitui o foco da análise efectuada por Lopes (2007) a partir de um estudo de
caso sobre o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio Informal em Angola; um
segundo eixo, constituído pelas organizações de proprietários, que têm
conseguido adquirir alguma expressão no quadro de segmentos de actividade
específicos, como é, por exemplo, o caso do transporte de passageiros ou de
mercadorias; finalmente, um terceiro eixo, o mais incipiente, estruturado em
torno de processos espontâneos e pontuais de auto-organização de trabalhadores
independentes e/ou de assalariados informais, com uma matriz essencialmente de
tipo associativista ou cooperativo (Feliciano, Lopes e Rodrigues, 2008; Lopes,
2008a).
METODOLOGIA E AMOSTRAGEM
A abordagem metodológica baseou-se nos métodos qualitativos, tendo contemplado
uma revisão da literatura sobre os transportes de passageiros na África
subsariana e sobre os processos de organização e representação na economia
informal, a análise documental e da imprensa sobre a actividade dos mototáxis,
dos candongueiros, e sobre as organizações de representação operativas no
contexto angolano. Realizaram-se entrevistas livres com informantes
privilegiados, enquanto as entrevistas semiestruturadas privilegiaram os
motoristas das mototáxis, e os motoristas, cobradores, angariadores e lavadores
de viaturas, no caso dos candongueiros. A observação directa sistemática
desempenhou um papel crucial na aquisição da informação: 12 viagens em mototáxi
e mais de 40 viagens em candongueiros contribuíram decisivamente para uma
melhor compreensão das características e especificidades de cada um dos
processos de transporte. A informação apresentada foi recolhida ao longo de
vários momentos de pesquisa realizada no terreno entre Setembro de 2003 e
Agosto de 2008. No caso dos mototaxistas, o essencial da informação foi obtido
entre 2006 e 2008, enquanto, no caso dos candongueiros, a informação foi obtida
em três momentos distintos (2003-2004, 2006 e 2008).
A escolha das cidades de Luanda e do Huambo como focos da amostra resultou, por
um lado, da importância dos mototáxis e dos candongueiros nos respectivos
sistemas de transporte de passageiros, bem como da existência de organizações,
formais ou informais, de representação dos actores. A selecção dos actores
obedeceu aos propósitos da pesquisa. Assim, a amostra inclui actores
directamente envolvidos na actividade (o responsável da AMOTRANG e operadores
dos mototáxis na cidade do Huambo e diversos agentes relacionados com a
actividade dos candongueiros em Luanda). Os representantes das instituições de
regulação (directores provinciais de transportes) do sector dos transportes
urbanos e os representantes das empresas de transportes colectivos formais
foram também ouvidos no âmbito deste estudo.
CONTEXTO
Em Angola, o processo de construção de organizações representativas dos actores
que desenvolvem actividade económica na esfera informal é muito recente e tem-
se estruturado, essencialmente, em torno dos dois primeiros eixos: sob a
protecção da União Nacional de Trabalhadores Angolanos (UNTA) tem-se assistido
ao aparecimento de estruturas sindicais específicas focadas em segmentos
particulares da actividade informal, nomeadamente no segmento do comércio
informal (Sindicato dos Trabalhadores dos Mercados, Feiras e Informal);
anteriormente surgiu uma associação de proprietários na área do transporte
colectivo de passageiros, a Associação de Taxistas de Luanda, que conseguiu
adquirir alguma representatividade. Existe ainda notícia da criação de outras
associações de representação, algumas com carácter formal e outras não: a
Associação de Vendedores Ambulantes de Luanda (AVA), a AMOTRANG, a associação
que representa os interesses dos mototaxistas, criada em 2005, uma “cooperativa
informal” de roboteiros, zungueiros, lavadores de automóveis, engraxadores e
cobradores de candongueiros que funciona no Bairro Comandante Valódia, em
Luanda, onde quotidianamente se vão construindo elos de solidariedade funcional
entre membros de algumas das categorias mais desfavorecidas e mais
desprotegidas de operadores informais; uma cooperativa de roboteiros sediada no
mercado do Kikolo.
Na cidade do Huambo e nos respectivos bairros periurbanos, o essencial do
transporte de passageiros é assegurado por mototáxis, enquanto na cidade de
Luanda tal função é fundamentalmente realizada pelos minibus ou hiasses
6
, como popularmente são identificados na gíria luandense. O aparecimento dos
mototáxis conta, no máximo, uma dezena de anos, enquanto a génese dos
candongueiros é mais longínqua, remontando aos finais da década de 70 do século
xx. A diferença de dimensão entre as duas cidades é significativa: apesar de
não existirem estatísticas fiáveis, os dados e projecções mais recentes
referem-se a mais de 4 milhões de habitantes na capital angolana contra pouco
mais de 1 milhão de habitantes na capital da província do Huambo. Outro traço
distintivo entre as duas cidades remete para o carácter e intensidade do
impacto que o conflito militar teve sobre os respectivos sistemas de transporte
urbano: o conflito militar repercutiu-se de forma directa e com níveis extensos
de destruição na cidade do Huambo — particularmente na sequência da guerra dos
55 dias em 1993
7
—, enquanto Luanda foi essencialmente alvo de um impacto indirecto,
consequência de deslocações compulsivas quase contínuas por parte de
contingentes significativos da população, apenas se tendo verificado alguma
agitação militar, com duração e efeitos destrutivos limitados, na sequência da
não aceitação dos resultados das eleições de 1992 pela Unita.
A evolução do sistema de transportes nas duas cidades apresenta também alguns
traços comuns, consequência natural da evolução do processo de regulação
política e económica em Angola. As mudanças registadas foram geradas pelo
efeito combinado de diversas circunstâncias: (i) uma atribulada transição para
a independência que provocou o abandono massivo do país pelos colonos e
desencadeou a entropia dos sistemas produtivo, de transportes e distribuição;
(ii) o encadeamento, no ciclo pós-independência, de transições múltiplas inter-
relacionadas, a saber, do regime de partido único para o multi-partidarismo, da
economia centralizada para a economia de mercado, da guerra para a paz; (iii)
os efeitos directos e indirectos do conflito militar sobre o sistema de
transportes, nomeadamente as limitações à liberdade de circulação, destruição
de infra-estruturas, degradação das vias de comunicação, destruição e
envelhecimento do parque motorizado; (iv) o impacto de uma concentração urbana
acelerada, parcialmente compulsiva e não planificada; (v) finalmente, as
alterações na dimensão e nas características da procura urbana de transporte.
Numa primeira fase, a repercussão desses efeitos confluentes no subsistema de
transportes implicou a transformação das empresas de transporte rodoviário
urbano que na época colonial haviam sido exploradas pelo Estado com carácter de
exclusividade em empresas monopolistas estatais, responsáveis pelo transporte
urbano de passageiros no quadro do modelo centralizado e de regulação
administrativa da economia (1975-1987). Nesta fase adoptaram-se também modelos
de gestão centralizados, geradores de insuficiências diversas ao nível técnico,
financeiro e da exploração, a que se acrescentou a inadequação às novas
características da procura de transporte urbano, que ditou o declínio das
empresas públicas de transporte e conduziu ao crescimento acelerado dos
operadores não oficiais.
Numa segunda fase processou-se o desmantelamento do monopólio estatal no sector
dos transportes (a partir de 1987), destacando-se duas tendências principais: o
aparecimento, a partir de 1991, de empresas privadas de transporte rodoviário
tradicional (autocarros) e a consolidação, expansão e reconfiguração do
segmento não oficial de transporte urbano de passageiros (1992-2008).
No caso de Luanda, os momentos mais significativos deste tão complexo processo
podem ser fixados de forma sintética. Até ao final da década de 70, a empresa
pública de transportes urbanos de Luanda (TCUL — Transportes Colectivos Urbanos
de Luanda) assegurou, em regime de monopólio, a satisfação das necessidades de
transporte da população da capital angolana. Os maximbombos (autocarros)
circulavam por percursos predefinidos, orientados para a satisfação das
necessidades de deslocação que resultavam da realidade populacional e
socioeconómica dos anos terminais do período colonial. Insuficiências
financeiras, técnicas e de gestão na TCUL, associadas à transformação das
necessidades de deslocação da população, acabariam por conduzir ao declínio do
transporte de passageiros tradicional.
Após este declínio surgiram, no início da década de 80, as viaturas ligeiras
particulares e, posteriormente, as carrinhas de caixa aberta e os veículos
ligeiros de transporte de passageiros (monovolumes). A actividade dos
candongueiros, que ofereciam serviços de transporte mais adequados às
necessidades da população, generalizou-se rapidamente. No final dessa década,
os hiasses tornaram-se um elemento omnipresente na paisagem automóvel luandense
e em 1990 surgiu a Associação de Taxistas de Luanda, instituição que representa
os interesses dos proprietários dos transportes semioficiais, assistindo-se ao
aparecimento de empresas privadas de autocarros.
Na cidade do Huambo, tal processo assumiu contornos específicos. Entre 1975 e
1980, a capacidade da ETP (Empresa de Transportes Públicos) em assegurar as
necessidades de deslocação da população reduziu-se drasticamente em
consequência da guerra, das insuficiências nos diferentes domínios da gestão,
dos efeitos perversos da regulação centralizada e administrativa. Entre 1987 e
1992, a extinção do monopólio público permitiu a semilegalização e o
crescimento dos operadores artesanais de minibus, os candongueiros. No entanto,
esta fase foi travada pelo recrudescimento da guerra civil entre 1993 e 1999,
que destruiu a totalidade do parque automóvel da cidade, e só a partir de 1998
é que o essencial da mobilidade urbana passou a ser assegurado por mototáxis,
tendo-se registado desde então um crescimento contínuo do número de operadores
envolvidos nesta actividade.
Em 2002, uma empresa privada, o Movimento Nacional Rodoviário (MNR), passou a
explorar a frota de autocarros adquirida pela Direcção Provincial de
Transportes e Comunicações (DPTC) e em Outubro de 2007 foi inaugurada a
delegação provincial da AMOTRANG (Associação dos Motoqueiros Transportadores de
Angola).
Que semelhanças e diferenças é possível identificar entre as cidades do Huambo
e de Luanda e outros centros urbanos da África subsariana?
O projecto AICD (Africa Infrastructure Country Diagnostic), implementado pelo
Banco Mundial com o objectivo de aumentar o conhecimento sobre as infra-
estruturas físicas em África, analisou num relatório recente (Kumar e Barrett,
2008) os sistemas de transportes em 14 cidades africanas, destacando as
seguintes características comuns: declínio da oferta e da qualidade do
transporte público; crescente importância do transporte privado (minibus e
motorizadas); infra-estruturas de transporte insuficientes, desactualizadas e
degradadas; escassez e insuficiência regulamentares no transporte por minibus e
motorizadas, cuja provisão é efectuada com um carácter maioritariamente
informal; conflitos e descoordenação entre as instituições responsáveis pela
planificação e implementação de soluções de transporte urbano, apesar de na
maioria dos países existirem várias instituições que actuam em diferentes
níveis da regulação, licenciamento e monitorização do transporte urbano.
Mas a diversidade dos sistemas de transporte urbano de passageiros na África
subsariana é tão vasta que a elaboração de um quadro geral que os contemple é
tarefa complexa. Assim, optou-se por ilustrar duas situações concretas,
relativas às cidades de Douala, nos Camarões, e de Conacri, na Guiné-Conacri,
que o relatório acima referido estudou e onde, em 2003, a rede SITRASS (2004a e
2004b) realizou uma pesquisa que envolveu um extenso trabalho de terreno.
Em Conacri, a oferta de transporte colectivo terrestre é constituída,
sobretudo, por táxis de contador, segmento que tem vindo a crescer nos últimos
anos, e pelos minibus (magbanas), os quais têm vindo a perder importância
relativa. Os autocarros, propriedade da empresa privada Futur Transports, são
escassos e asseguram um número limitado de percursos urbanos. Regista-se também
a presença de operadores clandestinos, nomeadamente às horas de maior tráfego.
O enquadramento institucional da actividade é responsabilidade da Direcção
Nacional de Transportes Terrestres, que concede o licenciamento anual para o
exercício da actividade, competindo à polícia a emissão de um número de
viatura. O sindicato dos motoristas de táxi, filiado na Federação dos
Transportes e Mecânica Geral e organizado por comunas, é um actor importante,
tendo como filiados motoristas e motoristas-proprietários (SITRASS, 2004a).
Em Douala, a mobilidade motorizada da população é assegurada por uma oferta que
inclui táxis, minibus, autocarros, motorizadas e operadores clandestinos. Os
táxis constituem o principal modo de transporte motorizado urbano, sendo a
actividade regulada por diversos requisitos formais, personalizados e
obrigatórios. Os mototáxis (bendkins) têm vindo a crescer em número e em
importância. Dos segmentos de transporte motorizado é o que mais ocupação
directa gerava em 2003 (30 000 contra 12 000 empregos directos criados pelo
segmento dos táxis), empregando jovens sem ou com reduzida escolarização,
antigos motoristas e taxistas, e implicando o pagamento de um imposto
municipal, uma vinheta e seguro de circulação. Uma concessionária privada, a
SOCATUR, detém a exploração dos autocarros por um período de cinco anos.
Existem ainda os minibus e um reduzido número de operadores clandestinos. Os
municípios urbanos, o Ministério da Cidade, o Ministério das Obras Públicas e o
Ministério dos Transportes configuram uma rede institucional que detém
responsabilidades especializadas relativas à gestão da circulação e dos
transportes, ao estado das vias, à sinalização e estacionamento e ao
licenciamento e autorizações de exercício da actividade (SITRASS, 2004b).
O denominador comum é uma oferta de transporte colectivo diversificada, sem
qualquer integração modal e provedora de um importante número de ocupações
pouco qualificadas, mas geradoras de rendimentos. Uma rede viária degradada,
fortemente congestionada e bastante limitada nas áreas mais periféricas e um
enquadramento institucional caracterizado pela quase ausência de concertação e
por intervenções múltiplas e sobrepostas são também características
partilhadas.
No domínio dos traços distintivos sobressaem as diferenças ilustradas no quadro
n.º1. Em Luanda e no Huambo, em comparação com Conacri e Douala, os táxis de
contador têm uma expressão praticamente insignificante; em Luanda, os minibus
são o principal transporte motorizado, enquanto no Huambo esse papel é assumido
pelos mototáxis; o recurso ao minibus tem vindo a crescer em Luanda, ao
contrário de Conacri, onde o seu peso relativo nos últimos anos é decrescente;
verifica-se, em qualquer dos casos, a ausência de organizações de representação
dos operadores de minibus, ainda que em Luanda se constate a existência de uma
associação de propietários (ATL). Quanto aos mototáxis, sublinhe-se o carácter
localizado da actividade em Luanda e o contraste que se regista relativamente
às características dos mototaxistas entre o Huambo e Douala (no primeiro caso
maioritariamente ex-militares das forças armadas governamentais e da Unita,
enquanto no segundo são jovens sem escolarização e antigos taxistas e
motoristas). No Huambo, a AMOTRANG assegura a representação e a defesa dos
direitos dos mototaxistas, enquanto em Douala não existe nenhuma organização
que os represente; a importância das empresas de autocarros é residual,
sobressaindo o caso de Luanda, onde a par de uma empresa pública, estão no
mercado quatro operadores privados.
Diversidade dos sistemas de transporte urbano de passageiros na África
subsariana
[QUADRO_N.º1]
A AMOTRANG E OS MOTOTÁXIS NA CIDADE DO HUAMBO
No Huambo a actividade dos mototáxis começou durante a guerra e aumentou muito
desde o início da paz. O período de conflito entre a guerra dos 55 dias e 1999,
que provocou sucessivas e quase totais destruições do parque automóvel da
cidade, e a desmobilização em massa de militares após 2002 são frequentemente
referidos como momentos de intensificação do crescimento do número de
operadores envolvidos na actividade (Lopes, 2008b).
Não existe um registo sistematizado sobre o número e as características dos
mototaxistas que operam na cidade do Huambo. Em Agosto de 2008, a circulação de
autocarros era praticamente inexistente, pelo que o transporte de passageiros
era essencialmente assegurado pelos mototaxistas e pelos candongueiros.
Entretanto, os dados mais recentes
8
revelam que começaram a circular 12 autocarros geridos pela empresa Bacatral,
uma sociedade privada de transportes, no quadro da primeira fase do programa
que a Comissão Provincial de Ordenamento do Trânsito tem em curso, no sentido
de estabelecer rotas urbanas para a circulação de uma frota de 130 autocarros
(40 autocarros vão circular no perímetro urbano, 45 nas zonas suburbanas e 45
nas rotas intermunicipais). Não obstante, a actividade dos mototaxistas
continua a ser dominante no contexto das diferentes formas de transporte
colectivo na cidade. Para além dos operadores directamente envolvidos na
actividade dos mototaxistas (motoristas e proprietários), a sua importância
económica relaciona-se directamente com a existência na cidade de uma fábrica
de montagem de motorizadas e bicicletas, a Ulisses, e com os circuitos de
comercialização estabelecidos com a China e com a Índia, via Luanda ou Namíbia,
os quais abastecem estabelecimentos formais e os mercados informais, como é o
caso do mercado da Alemanha, onde é possível adquirir várias marcas e modelos
de motorizadas. A comercialização de peças, de combustíveis e lubrificantes, as
oficinas de mecânica e as escolas de condução são outras actividades que, na
cidade do Huambo, são parcialmente alimentadas pela actividade dos
mototaxistas. Algumas dezenas de milhares de actores asseguram, total ou
parcialmente, a sua sobrevivência e dos seus agregados familiares em função da
actividade dos mototáxis, o que confere ao sector uma importância social
significativa, reforçada pelo papel fundamental que este modo de transporte
assume para a mobilidade urbana dos cidadãos e das mercadorias. O papel social
da actividade é ainda reforçado pelo facto de ser nesta actividade que um
número elevado de desmobilizados de guerra, quer do MPLA, quer da UNITA,
encontrou uma oportunidade de reinserção profissional e ocupacional.
A comunicação social tem constatado e referido a presença dos mototaxistas na
província e na cidade do Huambo. No Jornal de Angola de 13-1-2008 foi publicado
o artigo “Crónica de uma cidade que renasce dos escombros de um passado
sombrio”, em que se relata que o serviço de táxi feito por motorizadas é dos
meios de transporte mais usados no Huambo. A corrida custa, em regra, 100
kwanzas9 (1 euro) e termina à porta do cliente […] A designação kupapata termo
em umbundu, cujo correspondente em português é apalpar, foi atribuída aos
prestadores de serviço de táxi em motorizadas na província de Benguela e
apropriada pela comunicação social. Porém, os mototaxistas refutam o nome.
Segundo eles, kupapata são os clientes, já que são estes que têm de apalpar os
bolsos à procura de dinheiro para pagar a corrida.
O Jornal de Angola de 3-10-2007 dá conta da abertura da delegação da AMOTRANG
num artigo intitulado “Huambo abre delegação da Associação de Motoqueiros”,
sublinhando que a Associação de Motoqueiros Transportadores de Angola
tencionava apostar na formação académica e profissional dos seus associados,
viabilizar a aquisição da carta de condução para permitir o livre exercício da
actividade na região e criar condições que tornassem o exercício da actividade
mais seguro. De acordo com o responsável provincial da AMOTRANG, a inscrição
nesta associação pressupõe concordar com os estatutos e pagar a inscrição de
2000 kwanzas (20 euros) e quotas mensais no valor de 500 kwanzas (5 euros). Os
benefícios dos associados prendem-se com a defesa dos seus interesses e
direitos perante as autoridades, os proprietários e os utentes, com o
licenciamento para o exercício da actividade (obtenção de cartas de condução),
com a criação de condições de maior segurança (uso obrigatório do capacete),
com a protecção face aos riscos (apoio aos associados com as quotas em dia em
caso de acidentes ou doença), com o apoio no acesso aos veículos motorizados
para os mototaxistas que queiram trabalhar por conta própria e na formação
profissional orientada para o futuro (cobradores, mecânicos, pedreiros,
carpinteiros). Segundo o responsável provincial da AMOTRANG, a associação
intervém na mediação de conflitos entre patrões e motoristas, colabora com o
Ministério dos Transportes no sentido de uniformizar as tarifas relativas aos
trajectos e de regular o transporte de mercadorias (que passava a poder ser
feito apenas nos veículos de três rodas) e com o governo provincial e com o
comando da polícia nos domínios da segurança rodoviária e do combate às
práticas de extorsão (gasosa)
10
por parte dos agentes da brigada de trânsito.
J. D. A é o responsável pela administração da delegação da AMOTRANG no
município do Huambo. A associação foi criada em 21 de Julho de 2005, “com a
finalidade de organizar, disciplinar e ajudar a resolver os problemas sociais
dos mototaxistas”, e tem sede em Luanda. Existem delegações nas províncias do
Huambo (no município sede, mas também nos da Caala, Bailundo e Ecunha),
Benguela, Huíla, Namibe, cuando e Cubango. A delegação do Huambo foi criada em
Outubro de 2007 e dispõe de sede própria na cidade alta, onde trabalham 10
colaboradores assalariados. De acordo com J. D. A., na delegação da AMOTRANG no
Huambo estar-se-ia, em Agosto de 2008, “a caminho dos 2000 associados
registados, num total de cerca de 10 000 mototaxistas operativos no município
do Huambo”, número que, segundo o mesmo informante, constituía apenas uma
pequena parte do total de mototaxistas da província.
Mototáxisna cidade do Huambo
[FIGURA N.º 1]
Dados mais recentes
11
apontam para a existência de 19 927 associados na província do Huambo, num
total de 101 006 membros da associação à escala nacional. Seguem-se as
províncias de Benguela com 18 326 elementos, de Luanda, com 17 720 associados.
As províncias do Bié (7142), Huíla (6183), Cuanza Sul (6113), Lundas Sul e
Norte (4736), Malanje (4627), Bengo (4024), Uíge (4003), Namibe (4003), Cuando-
Cubango (2629), Moxico (1928) e Cabinda (136) revelam uma presença crescente da
AMOTRANG na regulação do serviço de mototáxi, apesar da existência de um
elevado número de agentes que operam à margem do controlo da associação e que
desconhecem a sua existência e o trabalho que presta.
A. A. nasceu no município do Londuimbali, tem 35 anos, frequentou a 8.ª classe,
veio para a cidade em 1992, é casado, tem cinco filhos e a mulher vende roupa
na secção de fardo do mercado da Alemanha. Era militar e foi desmobilizado em
1991. Quando foi desmobilizado fazia negócios, era viajante, ia buscar produtos
a Benguela e vendia no Huambo, ia de candongueiro, mas sofreu prejuízos com a
guerra. Comprou uma motorizada Yamaha por 2300 dólares e é mototaxista.
Identificou-se como associado da AMOTRANG, acrescentando que desde que a
associação apareceu há menos acidentes porque há mototaxistas a ir à escola de
condução e a polícia passou a incomodar menos. A. A. revelou que os
mototaxistas se concentram em pontos de paragem exclusivos, onde se
estabeleceram por laços de afinidade familiar ou de vizinhança e onde não podem
permanecer mototaxistas de outros pontos de paragem. Atribuiu a vantagem
competitiva dos mototáxis à sua flexibilidade, “mesmo com chuva a pessoa
prefere a mota ao hiasse, leva directamente à porta e é mais rápido que o
hiasse”, e caracterizou o modusoperandi dos mototaxistas que desenvolvem
trabalho assalariado e a concentração de propriedade no segmento de actividade
nos seguintes termos: “a maioria dos taxistas anda a trabalhar para patrões,
pagam 4000 kwanzas (40 euros) por semana ao dono da mota e o que sobra é para
eles, há pessoas que têm várias motas a trabalhar na praça e ganham muito
dinheiro”.
F. K., 32 anos, quatro filhos, nasceu na comuna da Calima, era porteiro numa
empresa e, como a vida não melhorava, fez uns negócios e conseguiu arranjar
algum dinheiro para comprar uma mota de fabrico chinês por 1850 dólares.
Partilha a opinião de que a associação tem contribuído para os mototaxistas
obterem carta de condução, destacando a sua importância na melhoria das
condições de trabalho, nomeadamente no domínio da segurança rodoviária. Quanto
à rentabilidade da actividade, sublinhou: “estou há dois anos neste trabalho, é
um trabalho de remediar [...] num dia bom posso fechar com 2000 ou 2200 kwanzas
(20 a 22 euros)”.
T. J. nasceu no Bailundo e vive na cidade desde 1983, no bairro de São Pedro.
Tem 36 anos, seis filhos, e é casado. Vendia produtos (cigarros, entre outros)
no mercado do bairro, os quais comprava em Benguela e no Lubango. Há cinco anos
que é mototaxista e também é associado da AMOTRANG. Quanto às vantagens
financeiras desta actividade, considerou que “o trabalho como mototaxista dá
para a família sobreviver”, podendo ganhar por dia 1000-1500 kwanzas (10-15
euros), do qual gasta 200 a 300 kwanzas (2-3 euros).
AS STAFFSDOS CANDONGUEIROS NA CIDADE DE LUANDA
Em Luanda, o segmento de mercado dos transportes públicos de passageiros
apresenta um carácter plural, nele operando diferentes agentes institucionais:
(i) uma empresa pública (TCUL); (ii) quatro empresas privadas (Macon, Tura,
Austral e SGO); (iii) uma empresa de táxis com contador (Macon); (iv) um
elevado número de operadores artesanais em minibus, popularmente designados por
candongueiros;(v) e ainda um emergente segmento de mototaxistas, localizado
sobretudo nos municípios do Cacuaco, Viana e Kilamba Kiaxi.
O enquadramento institucional é constituído pelo Ministério dos Transportes e
Obras Públicas, pelo Departamento Provincial de Transportes e Comunicações do
governo provincial de Luanda (DTPC), pela Direcção-Geral de Viação, pelo
Sindicato dos Transportes e pela Associação de Taxistas de Luanda (ATL).
A importância social e económica da actividade dos candongueiros pode ser
aferida com base em diversos indicadores. Em 2001, os candongueiros satisfaziam
uma procura calculada em 480 000 utentes por dia, perfazendo 45% da procura
diária de transporte. Em contrapartida, a frota de viaturas ao serviço das
quatro empresas de transportes colectivos era, em 2002, não muito superior a
700 unidades, número manifestamente insuficiente para responder a uma procura
estimada de transporte de 2 310 000 utentes por dia em 2001 (Lopes, 2006).
Os últimos números avançados pela comunicação social referem a existência de
mais de 30 000 viaturas a operar no transporte de passageiros em minibus em
Luanda, das quais apenas 4000 estariam licenciadas
12
. Numa base mínima, cada viatura opera com um motorista e com um cobrador, ou
seja, estimam-se em 60 000 os operadores directamente envolvidos na actividade.
Em algumas situações, embora de forma não muito frequente, há viaturas que são
utilizadas por dois motoristas em sistema de turnos. Por outro lado, a grande
maioria das viaturas que operam na cidade de Luanda não é propriedade dos
motoristas. Existem situações em que o motorista é simultaneamente proprietário
da viatura, mas não constituem a norma. Estimando um rácio de três viaturas por
proprietário (dado o reduzido padrão de concentração da propriedade e a elevada
atomização constatada na actividade), teremos ainda, com envolvimento directo
na actividade, mais 10 000 agentes económicos, a que se poderão ainda
acrescentar os angariadores e os jovens que sobrevivem exclusivamente da
lavagem diária das viaturas.
A actividade dos candongueiros desenvolve-se em ligação com um vasto leque de
actividades com ela correlacionadas: (i) actividades formais (importação de
viaturas, comércio de peças e sobresselentes, revenda de combustíveis e
lubrificantes, mecânica, parqueamento e lavagem de viaturas); (ii) actividades
informais (transformação de carroçarias, comércio de peças, mecânica,
recauchutagem de pneus, reparação de baterias, parqueamento e lavagem de
viaturas); (iii) actividades ilegais (furto e contrabando de viaturas, emissão
e comercialização de documentação falsificada, práticas de extorsão por parte
dos agentes policiais).
Os actores envolvidos no segmento dos transportes colectivos não oficiais em
Luanda confrontam-se com uma grande diversidade de riscos quotidianos, em
relação aos quais estão generalizadamente desprotegidos: acidentes, poluição
(ar/som), insuficiência dos rendimentos diários, comportamentos arbitrários da
polícia de trânsito (extorsão/gasosa), stress/tensão, conflitos com
passageiros, despedimento arbitrário pelo proprietário, encurtamento das rotas,
aumento arbitrário das tarifas, cobrança excessiva no transporte de
mercadorias, comportamentos agressivos dos cobradores, incomodidade e conflitos
com outros passageiros (sobrelotação), entre outros. Por outro lado, os actores
sociais directamente envolvidos na actividade actuam no quadro de estratégias
específicas de gestão do risco percebido, enquadradas elas próprias em
estratégias mais vastas de actuação, com finalidades de sobrevivência ou de
acumulação de recursos. Estas estratégias repercutem-se nas práticas e nos
comportamentos dos actores sociais, influenciando decisivamente os factores
geradores de riscos, contribuindo para a sua multiplicação e intensificação. A
tentativa de obtenção da máxima receita possível determina frequentes
comportamentos de risco por parte destes agentes, que vão desde a sobrelotação
ao não cumprimento dos procedimentos mínimos de manutenção das viaturas,
passando pelo incumprimento quase generalizado das regras de trânsito. Os
aumentos indiscriminados de tarifas e o encurtamento das rotas, à revelia da
ATL e das autoridades provinciais, são estratégias a que, em determinadas
ocasiões, os actores recorrem, como sucedeu, por exemplo, em Janeiro e
Fevereiro de 2004
13
. Resultam daí algumas externalidades negativas, nomeadamente as elevadas taxas
de sinistralidade, a proliferação de focos de congestionamento de tráfego, o
aumento dos níveis de poluição ambiental e sonora, a degradação mais acelerada
das viaturas, entre outras (Lopes, 2004).
Destes agentes económicos, apenas os proprietários se encontram formalmente
organizados através da Associação de Taxistas de Luanda(ATL), cuja
representatividade não ultrapassa 10% a 15 % dos proprietários de viaturas em
circulação na capital angolana. A ATL foi constituída com a finalidade de
representar os interesses dos proprietários dos veículos legalizados ou
semilegalizados. É a única organização de representação de profissionais do
segmento de actividade que tem alguma “voz”, uma vez que, como já foi referido,
é consultada no processo oficial de ajustamento dos preços das tarifas. Da
entrevista realizada com M. F., o presidente em exercício em Julho de 2004,
destacam-se as seguintes informações: a ATL foi criada em 1990; com a criação
assistiu-se a um fluxo intenso de legalização; em 1991, cerca de 45% dos táxis
estavam já legalizados; em Julho de 2004, o número de filiados era de 570,
encontrando-se 702 proprietários em processo de legalização; 1272 táxis
legalizados ou em processo de legalização correspondiam a, aproximadamente, 20%
dos táxis que se estimava estarem a operar em Luanda. O presidente da ATL
previa que em 2004, por força das medidas da DPTC, iria, haver um impulso
importante na legalização (previsão que não se confirmou); de acordo com o
informante, a ATL assegurava apenas protecção jurídica e tratava dos processos
de legalização, não tendo qualquer protocolo com instituições bancárias para
concessão de crédito, e não estava envolvida na promoção de acções de formação
profissional destinadas aos seus associados.
O défice de representação é mais significativo no que respeita aos motoristas e
cobradores. No entanto, nos últimos seis anos começou a gerar-se alguma
dinâmica, quer através de movimentos sociais de protesto e reivindicação
(paralisações de trabalho e manifestações), quer no plano do associativismo
informal, com o aparecimento de uma cooperativa informal operativa no Bairro
Comandante Valódia, que integra alguns cobradores de candongueiros e outros
agentes económicos informais (roboteiros — carregadores de mercadorias em
carrinhos de mão —, zungueiros — vendedores ambulantes —, lavadores de
automóveis e engraxadores), mas principalmente com o recente aparecimento e
rápido crescimento das staffs.
A título ilustrativo, referimos algumas das acções de protesto mais recentes:
em Setembro de 2007 registou-se uma paralisação com efeitos no congestionamento
de tráfego numa das zonas mais congestionadas da cidade (mercado dos
Congolenses-Jumbo) para reclamar melhores condições de circulação, assim como
espaço organizado para o término das viaturas que prestam serviços de táxi
14
; a recente entrada em vigor do Código da Estrada (1-4-2009), impondo regras
mais rígidas (obrigatoriedade de uso de cinto de segurança), e a operação
policial que a envolveu justificaram a reacção dos candongueiros, que
paralisaram como forma de protesto. As staffs são organizações informais de
motoristas, cobradores e angariadores. As suas finalidades são o apoio mútuo
relativamente a determinadas circunstâncias de risco (avarias das viaturas,
conflitos de trânsito, acidentes, perda de ocupação, doença ou óbitos/
falecimentos de familiares) e a convivência entre os seus membros. As staffs
identificam-se pela inscrição no vidro traseiro da viatura do seu nome e do
número da viatura. As designações das staffs, que começaram a surgir há cerca
de três anos, são diversificadas e, em alguns casos, sugerem as motivações da
filiação: Fortaleza, Storm, Povo do Gueto, União Forever, Huíla, Negro que
Brilha, staff Casa Blanca, Racing, Recreativo do Libolo, Super Ferrari, Real
Sport,Baianos, staff das Tribos, Estado-Maior, staff da Boca, entre outras. Há
staffs que integram mais de quatro dezenas de viaturas (Super Ferrari),
enquanto outras incluem apenas três ou quatro. Algumas das staffs constituíram-
se, para além da afinidade profissional, numa base territorial, uma vez que os
seus membros moram no mesmo bairro, na mesma comuna, no mesmo município
(Fortaleza, Baianos). Noutros casos, a solidariedade funcional (União Forever),
a filiação clubista (Recreativo do Libolo), a província de origem (Huíla),
interesses e gostos comuns (Super Ferrari, Racing) ou a partilha de modelos de
vida, de modos de afirmação e de aspirações ajudam a explicar a sua
constituição (Negro que Brilha, Povo do Gueto, staff das Tribos). A “moda” das
staffs estendeu-se também aos transportes de mercadorias (staffdos Troncos) e
aos camiões-cisterna (a staff Storm também inclui algumas destas viaturas).
Regra geral, apresentam um modelo organizativo constituído por um presidente,
um vice-presidente e um tesoureiro e financiam as suas acções através de
quotizações mensais fixas dos seus membros. É frequente a organização de
eventos, nomeadamente festas e competições desportivas (torneios de futebol),
entre os membros das staffs ou com os membros de outras associações congéneres.
A staff Baianos tem pouco mais de um ano de existência e foi constituída por
operadores que moram na zona de Benfica e que se conheceram no decurso da
actividade. Integra motoristas-proprietários, motoristas com viatura atribuída,
motoristas sem viatura atribuída (para além da receita acordada, têm de
entregar a viatura ao proprietário no final do dia), cobradores e angariadores,
num total de 10 viaturas e de 23 membros. Cada membro contribui com 500 kwanzas
(5 euros) mensais para um fundo comum, que pode ser usado por iniciativa do
presidente ou em caso de resposta positiva a uma solicitação individual por
parte de qualquer membro.
E. J. S. tem 24 anos, nasceu em Luanda, completou o curso médio de topografia,
é solteiro, vive com a mãe, uma tia e três irmãos no Morro Bento. É motorista
sem viatura atribuída e vice-presidente da staffBaianos, descrevendo assim a
sua actividade:
Por dia tenho que entregar 10 000 kwanzas (100 euros) ao boss, o que sobra
reparto com o cobrador [...] não temos rota fixa, andamos por aí onde há mais
clientes […] a gasolina, a manutenção e o almoço, meu e do meu cobras, é
descontado na receita que fazemos no dia […] às vezes na semana só conseguimos
fazer 30 000 kwanzas [300 euros] ou 40 000 kwanzas [400 euros] […] os sábados o
dia é por nossa conta, o que ganhamos é mesmo só para nós.
E. S. J. assume que não tem carta de condução, mas que gostava de a obter, pois
seria menos uma preocupação com a polícia ou em caso de acidente ou avaria.
Pertencer à staff Baianos é uma segurança e também um factor de filiação.
As Staffs na cidade de Luanda
J. G., 22 anos, nasceu no Sumbe, na província do Cuanza Sul e vive há dez anos
em Luanda. Frequentou a escola até à 8.ª classe, é solteiro e vive com o irmão
em Benfica. Foi cobrador durante dois anos, juntou dinheiro, fez exame para
obter carta de condução e agora é motorista. Faz parte da staffStorm, que
começou em 2005 e integra 20 viaturas, sendo a maior da zona de Benfica. Ainda
assim, longe da Racing, a maior staff de Luanda, com mais de 40 viaturas em
circulação. J. G. explicou que uma staff é uma associação de pessoas que
trabalham nos táxis, amigos ou conhecidos da actividade, que se apoiam
mutuamente. Referiu ainda que a Storm organiza e participa em actividades
recreativas (festas) e desportivas (futebol de praia).
G. B. T. é cobrador de táxi, é natural de Luanda, tem 27 anos, deixou de
estudar na 8.ª classe, reside no Cazenga, vivendo maritalmente com a esposa
(que vende sabonetes, cremes, perfumes, entre outros produtos, na praça da BCA)
e com dois filhos. Antes de ser cobrador estava numa oficina de mecânica, era
aprendiz e é cobrador há cerca de seis anos. Já mudou de motorista cinco vezes,
está a trabalhar neste hiasse há três anos e pertence à staff Casa Branca. A
viatura é do patrão e têm de entregar diariamente 10 000 kwanzas (100 euros),
adiantando que num dia bom realizam uma receita na ordem dos 15 000 a 20 000
kwanzas (150-200 euros). Acrescentou que enfrentam diariamente diversos
problemas, dos quais destacou a complicação com os passageiros, às vezes com a
polícia, o problema do trânsito e os engarrafamentos. Questionado sobre o que
queria dizer a inscrição staff no vidro traseiro da viatura, G. B. T. explicou:
Staff é a nossa frota, tem oito carros […] staff Casa Blanca é o nosso grupo,
os membros do grupo são amigos, ajudam-se quando há problemas difíceis […] que
problemas? quando há doença, quando prendem o carro, quando alguém precisa de
dinheiro.
CONCLUSÃO
As dinâmicas associativas identificadas em contexto angolano nos transportes de
passageiros em Luanda e no Huambo reflectem processos de diferente natureza.
Enquanto no Huambo estamos em presença de uma estratégia de controlo e
regulação da actividade sustentada na criação de uma organização formal com
apoio do governo angolano, as dinâmicas associativas em que se envolvem os
operadores do segmento semioficial de transportes de passageiros em Luanda
configuram processos organizativos de natureza informal resultantes da
iniciativa dos operadores.
No caso da AMOTRANG, a sua actividade tem sido orientada para a filiação dos
operadores de mototáxi, enquanto as staffs se têm constituído como estruturas
de protecção social informal, ainda que com um alcance limitado. O contexto
actual da realidade angolana sugere condicionantes e pressões crescentes para o
movimento associativo no segmento dos transportes públicos não oficiais. Desde
logo, porque está em curso um programa de reestruturação do sector dos
transportes sob a égide do Ministério dos Transportes, com o objectivo de
relançar o transporte formal (autocarros e táxis de contador) e de conter o
alastramento dos candongueiros e kupapatas. O Ministério dos Transportes tem em
curso um plano de distribuição de 4000 autocarros para a rede do país, para
serem distribuídos pelas províncias em número ainda não especificado e
entregues aos operadores já existentes com a finalidade de aumentarem as suas
frotas e prestarem um melhor serviço à população. A promoção da expansão dos
transportes colectivos públicos nos centros urbanos e dos transportes
intermunicipais de passageiros e a promoção e desenvolvimento do transporte de
táxi personalizado serão acompanhados de acções complementares, nomeadamente
uma rigorosa fiscalização periódica aos operadores dos transportes públicos
colectivos, táxis, oficinas de automóveis, agentes de navegação marítima,
representantes de marcas de viaturas e escolas de condução. Numa leitura
imediata, o projecto de regulação governamental dos segmentos não oficiais de
transporte urbano de passageiros poderá ser mais exequível no Huambo, em função
da menor dimensão da cidade e da sua população, do menor número de operadores
envolvidos e dos níveis mais reduzidos de congestionamento de tráfego. No caso
de Luanda, onde a intenção aponta para a fixação da área de actuação dos
minibus ao espaço periurbano (o centro da cidade ficará coberto pelo transporte
formal) e às deslocações intermunicipais, o êxito de tal pretensão poderá ser
comprometido pela dificuldade de garantir a eficácia dos transportes formais
(táxis e autocarros), em termos de capacidade de resposta às necessidades de
mobilidade da população num contexto de quase permanente congestionamento dos
fluxos de tráfego rodoviário.
Acresce que o impacto da actual crise financeira e económica global se tem
naturalmente repercutido nos diversos sectores da economia angolana e,
nomeadamente, no segmento dos transportes de passageiros, bem como ao nível dos
recursos orçamentais disponíveis para afectar às políticas económicas e
sociais. Ao reduzir o ritmo e a sustentabilidade de criação de emprego formal,
os efeitos da crise colocam aos decisores um problema de complexa resolução: o
que fazer aos milhares de operadores informais (e respectivos agregados
familiares) que serão afectados pelo processo de regulação em curso e para quem
a economia formal não se constitui como alternativa em termos de ocupação e de
geração de rendimentos? E com que custos sociais? Finalmente, importa ainda não
perder de vista que os efeitos da crise se reflectem indirectamente nas
dinâmicas próprias da economia informal em Angola, reforçando o seu potencial
de atracção para uma população jovem, pouco escolarizada e com reduzida
qualificação profissional. Cenário em que é de admitir a possibilidade de
expansão e diversificação dos processos de organização e representação dos
actores da economia informal, em particular dos que resultam da sua própria
iniciativa e que assumem a criação de mecanismos de protecção social como uma
das suas finalidades primordiais.